A sabedoria no mundo antigo
SABEDORIA FAMILIAR E DE CLÃ ESCRIBAS E SÁBIOS
Enquanto se formavam nos tempos antigos e lutavam Por volta do final do quarto milênio e do começo do
para sobreviver, as comunidades colhiam os frutos da terceiro, desenvolvera- se o sistema de organização social
reflexão acerca de sua própria experiência. Os
das cidades-Estado nos grandes vales dos rios do sul da
resultados dessa reflexão acabaram por assumir uma
de duas formas. Mesopotâmia (a Suméria antiga) e do Egito.
Esse sistema foi imitado e se disseminou, tendo
Em primeiro lugar, no que diz respeito à vida e à boa eventualmente dominado a vida no mundo antigo. Uma
ordem da comunidade mais ampla, os frutos dessa elite dirigente minoritária (1 a 5 por cento da população)
reflexão desembocaram na elaboração de códigos que vivia nos centros urbanos mais amplos cercados por
legais e na fixação de costumes a fim de regular e muralhas controlava a população e a economia das áreas
orientar a vida da sociedade e do povo como um todo.
rurais circundantes.
A escola dos escribas se desenvolveu conforme as
Em segundo lugar, no tocante aos indivíduos e à vida
cotidiana no lar e na família, a reflexão sobre a necessidades dessa estrutura de poder centralizada e
experiência redundou no que consideramos um tipo burocrática.
de “sabedoria”.
Além da escrita, a escola inculcava os elementos
A formalização dessa sabedoria num conjunto fundamentais da admi¬nistração, bem como uma espécie
coerente de pressupostos e conclusões sobre a vida e de “ética da sobrevivência” para fins de segu¬rança e
o mundo veio a surgir espontaneamente a partir das para a realização bem-sucedida de manobras no âmbito
necessidades de criação e educação da nova geração. da instituição real.
A Instrução do Vizir Ptá Hotep, que data da metade do
terceiro milênio (c. 2450 a.C.): As escolas de escribas imbuíam os alunos dos valores
práticos e éticos necessários à realização, bem-sucedida
Se és um dos que tomam assento à mesa de alguém mais grandioso e eficiente, de suas funções profissionais oficiais.
do que tu, toma o que ele te der quando for posto diante de teu Também tinham por alvo ajudar os alunos a alcançar o
bem-estar e a satisfação em sua existência diária. Mas
nariz. Não deverás olhar aquilo que se acha diante de ti. Não
esses escribas também tinham consciência da natureza
cumules aquele a cuja mesa te assentas de muitos olhares... Que o ambígua, ambivalente, da condição humana.
teu rosto se mantenha baixo até que ele se dirija a ti, e deves falar
(apenas) quando ele a ti se dirigir. Ri se ele rir, e serás muito Havia aspectos da vida e interrogações aos quais o
agradável para o seu coração e aquilo que puderes fazer será conhecimento e as habilidades que estavam aprendendo
agradável ao coração. (ANET, p. 412) não podiam responder.
Para preparar os alunos para lidar com a possível
desilusão e frustração, a instrução abordava igualmente
Se és um daqueles a quem se encaminham pedidos, mostra-te calmo
o caráter paradoxal da natureza humana, assim como as
enquanto escutas o que diz o autor do pedido. Não o dispenses antes ambiguidades da existência do homem.
de ele se ter desfeito em explicações ou antes de dizer a que veio.
Um peticionário gosta mais de atenção às suas palavras do que da Em consequência, encontramos entre suas obras
realização do fim para o qual veio... Não é (necessário) que tudo literárias provérbios, histórias e reflexões que abordam
aquilo que constitui objeto de seu pedido deva vir a acontecer, (mas) alguns dos problemas humanos perenes como o
sofrimento dos inocentes, o sentido da vida e a
a boa escuta é um bálsamo para o coração. (ANET, p. 413)
mortalidade humana.
OS CONTEXTOS DA SABEDORIA EM ISRAEL
Israel surge em cena quase dois mil anos depois do que O conselho da cidade ou os anciãos dos lugarejos
é tradicionalmente considerado “a alvorada da história” (c. constituíam outro contexto. Dt 25,7-8
3000 a.C.). Os dois milênios da história que precederam
Também parece que alguns indivíduos adquiriam a
Israel viram a família/clã como um “lugar” para a
reputação de sábios e eram procurados para dar seu
sabedoria. parecer e seu conselho.
Também em Israel, a família/clã serviu de contexto ao 2 Samuel 20 conta a história de uma mulher sábia,
desenvolvimento e transmissão de uma sabedoria Abel-Bet-Maaca,
“popular”. e 2 Samuel 14 conta que uma “mulher esperta” de
O livro dos Provérbios contém muitos ecos desse Téqua assistiu Joab, o comandante do exército de
processo primário e de socialização da nova geração no Davi.
qual tanto a mãe como o pai estavam envolvidos: Pr 4,1-5
Mas é possível que o contexto mais importante para o
Filhos, obedeçam à disciplina paterna, desenvolvimento da sabedoria e da “tradição” sapiencial
E fiquem atentos para adquirir a inteligência. em Israel tenha sido a “escola de escribas”, parte vital de
toda a corte real nos tempos antigos.
Eu lhes dou uma boa doutrina;
Não abandonem a minha instrução.
Eu também fui filho do meu pai,
E amado ternamente por minha mãe....
Coleção de coleções Variedade de formas em Provérbios
Em Provérbios prevalece o mašal com toda sua variedade:
1,1 Provérbios de Salomão
10,1 Provérbios de Salomão dos mais simples,
22,17 Sentenças dos sábios sentença — verbo no indicativo —
24,23 Seguem as sentenças do sábios conselhos / instrução — verbo no imperativo —,
25,1 Outros provérbios de Salomão recolhidos pelos
escribas de Ezequias, rei de Judá. até os mais complicados: pequenos tratados, os provérbios
30,1 Palavras de Agur, filho de Jaces, o massaíta. numéricos e os poemas alfabéticos.
31,1 Palavras de Lamuel, rei de Massa, a ele ensinadas por
sua mãe. Paralelismo
Tanto as sentenças como os conselhos são “bimembrados”,
Como pano de fundo de cada uma dessas coleções,
isto é, constam de duas linhas ou versos paralelos.
pode-se supor uma longa e fatigante história de
criadores de provérbios, de transmissores e de
compiladores dos já criados: a atividade de muitos
sábios anônimos, de discípulos e de mestres.
Provavelmente as coleções foram se formando
pouco a pouco e independentemente, até que o
criador do livro, como tal, as recolheu em um
volume.
Formas valorativas Comparações
A comparação ê uma proposição em que se confrontam dois ou
Provérbios que expressam estima ou repulsa por uma mais termos por meio da partícula como. O repertório das
conduta, uma coisa. Por meio deles descobre-se a escala de comparações em Provérbios é abundante:
valores vigente em determinado ambiente, o sentimento 10,26; 19,12; 26,1.2; 27,8; 28,1; 31,14
mais comum entre as pessoas que se consideram normais e
prudentes.
Metáfora
A metáfora distingue-se da comparação por ter a partícula como
Apoiados em um fundamento estritamente religioso:
suprimida; o predicado é atribuído diretamente ao sujeito em
11,1; 15,8.9; 17,15 sentido figurado:
6,23; 11,22; 18,4; 20,2; 25,18; 28,15
Com a fórmula “mais vale...” se indicam qualidades
determinadas e se realizam juízos morais sobre certas Perguntas retóricas
atitudes humanas: Aquelas das quais já se sabe, antecipadamente, a resposta. São
8,19; 16,8; 19,22 apropriadas para expressar uma convicção generalizada:
6,27-28; 20,9; 24,12; 27,4; 30,4
15,17; 21,9 (pitorescos)
24,5; 27,10 (definitivos )
Cenas breves
Provérbios que apresentam atitudes — geralmente dignas de
Com a típica fórmula do macarismo: “Feliz aquele que...”: repreensão — de personagens típicos na sociedade. O tom é de
14,21; 16,20 fina ironia:
20,14; 26,13; 30,20
6,6-11; 23,29-35 (descrições tipológicas)
Provérbios numéricos
com o número dois: 30,7.15a
com o número três mais um: 30,15b-16.18-19.21-23.29-31
com o número quatro: 30,24-28
com o número seis mais um: 6,16-19.
Poema alfabético ou acróstico
Provérbios termina com um poema de 22 versos, cada um
começando com uma letra do alfabeto hebraico e por ordem
de Alef a Tau (31,10-31).
Discursos
da sabedoria: 1,20-33; 8,1-36; 9,4-12
do mestre: 2,1-22; 3,1-35
de um pai: 4,1-27
da necedade: 9,16-17.
Temáticas
Amor à sabedoria Portanto, filhos, escutai-me:
felizes os que seguem meus caminhos.
O Senhor me criou como o primeiro de seus trabalhos, Escutai minha correção e sereis sensatos;
no começo de suas obras mais antigas. feliz o homem que me escuta,
Desde sempre fui consagrada, desde as origens, velando em minha porta cada dia,
desde os primórdios da terra. Antes que [...] (8,22-31) guardando as ombreiras de minha porta.
Pois quem me alcança, alcança a vida
e goza do favor do Senhor.
Amo os que me amam, Quem me perde arruína-se a si mesmo;
os que me procuram desde o amanhecer me encontram. os que me odeiam amam a morte. (8,32-36)
Trago riqueza e glória,
fortuna sólida e justiça; Então compreenderás a justiça e o direito,
meu fruto é melhor que o ouro puro, a retidão e toda boa conduta,
minha renda vale mais que a prata. porque entrará em tua mente a sabedoria
Caminho pela via da justiça e sentirás gosto no saber,
e sigo as sendas do direito, a sagacidade te guardará,
para deixar riquezas a meus amigos a prudência te protegerá
e cumular seus tesouros (8,17-21). para livrar-te do mau caminho,
do homem que fala perversamente,
dos que abandonam a senda reta
Feliz quem alcança a sabedoria
para seguir caminhos tenebrosos" (2,9-13).
e o homem que adquire a inteligência:
é uma mercadoria melhor que a prata,
produz mais lucro que o ouro, Adquire a sabedoria, adquire a inteligência,
é mais valiosa que as pérolas, não a esqueças, não te afastes de meus conselhos,
joia alguma a ela se compara. não a abandones, e ela te guardará;
Em sua direita, traz longos anos; ama-a, e ela te protegerá.
em sua esquerda, honra e riqueza; Este é o princípio da sabedoria: 'Adquire a sabedoria',
seus caminhos são repletos de delícias, com todos os teus haveres adquire a prudência;
e tranquilas são suas sendas. estima-a, e ela te fará nobre;
Para os que a acolhem é a árvore da vida, abraça-a, e ela te fará rico;
ditosos são os que a retêm (3,13-18). porá em tua cabeça um diadema formoso,
te cingirá com uma coroa esplendorosa (4,5-9).
A vida pessoal Prudência no falar
O indivíduo, o primeiro discípulo — O reto uso da palavra:
Que alegria saber responder,
Filho meu, atende a minhas palavras, que boa coisa é a palavra oportuna (15,23).
presta atenção a meus conselhos:
que eles não se apartem de teus olhos, — Recomendações para guardar segredos ou manter-se em silêncio:
guarda-os dentro do coração; “Quem morde os lábios é discreto” (10,19b).
pois são vida para quem os consegue, “Quem guarda a boca e a língua
são saúde para sua carne. guarda-se dos perigos” (21,23).
Acima de tudo guarda teu coração,
porque dele brota a vida [...] — Crítica ao falar demasiado pelas más consequências:
aplaina os caminhos de teus pés,
No muito falar não faltará pecado (10,19a);
que todos os teus caminhos sejam seguros,
não te desvies à direita nem à esquerda, Quem fala demais acaba revelando segredos (11,13a).
afasta teus passos do mal (4,20-27)
A justiça antes de tudo
— Como testemunho da própria existência:
Filho meu, não os percas de vista, Quem respira a verdade fala com justiça,
conserva o tino e a reflexão: a falsa testemunha, com mentiras (12,17)
serão vida para tua alma
e adorno para teu pescoço; — Por seu valor intrínseco e em comparação com as riquezas:
assim seguirás tranquilo teu caminho Mais vale o pouco com justiça que o muito com ganância injusta (16,8)
sem que tropecem teus pés;
descansarás sem apreensão; — Pelos frutos e pela recompensa garantida:
deitarás, e tranquilo será seu sono (3,21-24) Quem semeia justiça tem garantida a recompensa (11,18a)
Quem mede o que é justo viverá (11,19a)
Quem busca a justiça e a misericórdia alcançará a vida e a glória (21,21 ).
A vida em família Abundantes são também os provérbios que contêm
correções expressas dos pais (e mestres):
Meu filho, escuta os avisos de teu pai,
Pr 3-4 contêm ensinamentos paternos de toda ordem: não desprezes as instruções de tua mãe (1,8).
Meu filho, não esqueças minha instrução, Escutai, filhos, a correção paterna;
conserve em tua memória os meus preceitos (3,1). prestai atenção para aprender a prudência (4,1).
A bondade e a lealdade não te abandonem (3,3). O filho sensato aceita a correção paterna,
o insolente tampa os ouvidos à repreensão (13,1)
Confia no Senhor de todo o coração
Nesse contexto, em que se ressalta frequentemente a
e não te fies em tua própria inteligência;
tenha-o presente em todos os teus caminhos
autoridade paterna, compreende-se que sejam muito rígidas
e ele aplainará tuas sendas. as normas para a educação dos filhos:
Não te julgues sábio,
respeita o Senhor e evita o mal (3,5-7). A vara e as repreensões devolvem a razão,
a criança mimada envergonha sua mãe (29,15).
Não te recuses a fazer o bem a quem de direito, Não poupes castigo à criança:
se realizá-lo está a teu alcance. ela não vai morrer pelo fato de a corrigires com a vara;
Se tens, não digas ao próximo: ao corrigi-la com a vara, livras a vida dela do Abismo (23,13s).
'vai-te embora, passa depois, amanhã eu te darei'.
Não trames danos contra teu próximo [...] Quem poupa a vara odeia seu filho,
Não entres em demandas contra ninguém sem motivo [...] quem o ama corrige-o desde cedo (13,24)
Não tenhas inveja do violento,
jamais escolhas nenhum de seus caminhos (3,27-31)
Contra o adultério e a sedução da prostituta, ver Pr 6,24-29 e 7,1ss.
A vida na sociedade
o âmbito religioso