Deconvolução de Euler em Estruturas 3D
Deconvolução de Euler em Estruturas 3D
ESTRUTURAS GEOLÓGICAS
Luciano Costa Gonçalves, Roberto Alexandre Vitória de Moraes, Elton Luiz Dantas, Augusto César Bittencourt Pires –
Universidade de Brasília e Adalene Moreira Silva – Universidade Estadual de Campinas
A equação de Euler é descrita como nominal de 135 m e orientados na direção E-W, com
espaçamento de 1 km ([Link]).
(x − x0 ) ∂T + ( y − y0 ) ∂T + (z − z 0 ) ∂T = N (B − T ) (1)
PROCESSAMENTO DOS DADOS
∂x ∂y ∂z
Foram realizadas quatro etapas de processamento. Na
onde ( x0 , y0 , z0 ) representa a posição da fonte magnética primeira etapa, os dados foram avaliados quanto à
cujo campo total T foi detectado em ( x, y, z ) sobre um presença de inconsistências (“spikes”) e à distribuição
campo regional B , com N interpretado como o índice de espacial das linhas de vôo. A segunda etapa consistiu na
homogeneidade da equação ou o índice estrutural (Reid definição do algoritmo (Mínima Curvatura) e do tamanho
et al. 1990, GEOSOFT 2000). da célula (250 m) de interpolação. Na terceira etapa
foram corrigidos os desnivelamentos presentes nos
A tabela 1 correlaciona os índices estruturais de dados, visando minimizar estas imperfeições e,
homogeneização da equação de Euler com os principais conseqüentemente, homogeneizar a distribuição espacial
modelos físicos e estruturas geológicas associadas. dos dados. Para tanto, foi utilizada a rotina de
micronivelamento desenvolvida por Blum (1999) com
Tabela 1 – Índices estruturais usados na deconvolução
base no método proposto por Minty (1991). Na quarta
de Euler (Reid et al. 1990).
etapa, foi gerado o campo magnético anômalo usado nas
deconvoluções de Euler (GEOSOFT 2000, Figura 3).
Modelo Físico Estrutura Geológica Índice Estrutural (N) As deconvoluções de Euler foram calculadas para o
Linha de pólos Contatos, falhas e foliações 0 (<0,5)
modelo físico de linha de pólos, com os conjuntos de
parâmetros variando o índice estrutural (N) de 0 e 0,5, o
Linha de pólos Diques e soleiras 1 tamanho da janela de 6 a 15 células e a tolerância de
Ponto polar Corpos 2D e pipes verticais 2 erro 3 a 10%. Os melhores resultados para o
agrupamento das soluções Euler sobre o Lineamento
Ponto dipolar Corpos 3D e intrusões 3
Patos e a Zona de Cisalhamento João Câmara-Picuí
foram N=0, 10 células e 7% de erro (Figura 4).
4°S
Brasil Y
# Parelhas
15°S
25 0 25 km
30°S Área II
7°00'S
5°S CE
Y
# Patos
Área em
Estudo
RN
Figura 3 – Imagem do campo magnético anômalo.
# Natal
6°S Área I INTERPRETAÇÃO
Projeto As soluções calculadas na deconvolução de Euler
Seridó
apresentaram bons agrupamentos espaciais com as
7°S
estruturas geológicas da área (CPRM 2001),
João #
Pessoa principalmente com os sistemas de cisalhamentos
Área II
regionais, indicando o mapeamento de fontes magnéticas
PB
infracrustais com profundidades variando da superfície
8°S
até 5 km.
Recife#
PE 50 0 50 km As feições mais expressivas correspondem à zona de
cisalhamento com direção E-W associada ao Lineamento
Patos, marcada pelo agrupamento das soluções Euler,
Figura 2 – Localização das áreas de estudo I e II que indicaram profundidades máximas para as fontes
inseridas no Projeto Seridó. magnéticas entre 2 e 3 km (LP, Figura 4). A Zona de
Cisalhamento João Câmara-Picuí apresentou fontes
O Projeto Esperança recobriu 25.000 km2 de área em magnéticas com profundidades máximas de 2,0 km
28.000 km de perfis de produção, adquiridos à altura (ZCJP, Figura 4).
Alinhamentos secundários de menor expressão foram A interpretação, em escala regional, mostrou que a
determinados pelas anomalias realçadas nos produtos deconvolução de Euler forneceu bons agrupamentos de
aerogeofísicos. Um forte alinhamento trend NE-SW, soluções correlacionadas aos trends geológicos
localizado na região do Seridó, apresentou profundidades conhecidos na região.
variando de 0 a 5 km. As anomalias que evidenciam as
maiores profundidades foram observadas a SW de
Currais Novos, onde fontes magnéticas com 5 km de
profundidades foram encontradas sob as rochas
metassedimentares da Faixa Seridó (A, Figura 4).
Um forte alinhamento das soluções Euler com direção
N65°E, é visível desde a região de Caicó, passando por
Currais Novos e seguindo em direção a borda do núcleo
arqueano em Bom Jesus (B, Figura 4).
Na região a Oeste de Lajes foi observado um
alinhamento NE-SW de soluções com profundidades
máximas da ordem de 2 km (C, Figura 4). Na região N-
NW de Currais Novos foram observadas alinhamentos
concêntricos de soluções Euler com profundidades
máximas entre 0 e 2 km (D, Figura 4). As estruturas com
direção NW-SE foram marcadas por alinhamentos de
soluções Euler na região das cidades de Currais Novos e
Lajes (E, Figura 4).
Os resultados da deconvolução de Euler para o Projeto
Seridó e, mais especificamente, para a Zona de
Cisalhamento João Câmara-Picuí (Área I) e o
Lineamento Patos (Área II) são observados em detalhe,
com figuras tridimensionais que auxiliam a visualização
das estruturas em profundidade (Figura 5, 6).
As visualizações tridimensionais mostram a geometria
das estruturas em profundidade e ajudam a entender
como o material magnético se distribuiu ao longo das
zonas de cisalhamento. Pode-se observar que a fonte
magnética é representada por minerais magnéticos
cristalizados nos planos da foliação cisalhante
verticalizada, por veios com minerais magnéticos
discordantes aos planos da foliação e estruturas
sigmoidais desenvolvidas nos planos da foliação vertical
(Figura 5, 6). São notáveis o mergulho verticalizado da
Zona de Cisalhamento João Câmara e os mergulhos
para N e S divergentes na Zona de Cisalhamento de
Patos.
CONCLUSÕES
A definição dos parâmetros utilizados na deconvolução
de Euler é o grande problema desta técnica. Os diversos
conjuntos de parâmetros podem fornecer diferentes
grupos de soluções, com diferentes profundidades. Para
uma definição apropriada dos parâmetros utilizados
deve-se gerar um modelo sintético que simule os alvos a
serem investigados ou o arcabouço estrutural da área de
estudo, em seguida, aplicar a deconvolução de Euler e
analisar qual o melhor resultado. Entretanto, em áreas
extremamente complexas do ponto de vista geológico e
estrutural, a definição de um modelo sintético que se
ajuste à geologia é um trabalho extremamente complexo.
Testes empíricos com diferentes combinações de
parâmetros podem ser realizados e, conseqüentemente,
analisados para determinar os melhores agrupamentos
de soluções. Neste trabalho, a definição dos parâmetros Figura 5 – Visualizações 3D da deconvolução de Euler
da deconvolução de Euler foi estritamente empírica. (N=0, 10 células e tolerância 7%) para a Área I. A – Visa
em planta. B e C – Visada inclinada da superfície.
O Lineamento Patos e a Zona de Cisalhamento João Evolution of South American, Rio de Janeiro, pp.:
Câmara-Picuí foram caracterizadas por fontes 151-182.
magnéticas com profundidades máximas de 3 km e 2 km,
respectivamente. A Sudoeste de Currais Novos, CPRM-Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais
alinhamentos de soluções Euler com direção NE-SW e 2001. Mapa Geológico do Brasil. Rio de Janeiro.
profundidades de 5 km sugerem que estas fontes (Escala 1:2.500.000). CD-ROM.
magnéticas possam representar o embasamento da CPRM-Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais,
Faixa Seridó nesta região. Na região Oeste de Lajes, o acessada em 20/03/2004 no endereço eletrônico
trend NE-SW com profundidades aproximadas de 2 km [Link].
caracterizou o contato tectônico entre as unidades
neoproterozóicas da Faixa Seridó e as rochas gnáissicas Dantas E. L. 1997. Geocronologia U-Pb e Sm-Nd de
migmatíticas do embasamento paleoproterozóico. terrenos arqueanos e paleoproterozóicos do
Agrupamentos concêntricos de soluções Euler na região Maciço Caldas Brandão, NE do Brasil. Instituto de
a N-NW de Currais Novos indicaram profundidades Geociências e Ciências Exatas, UNESP, Tese de
variando entre 0 e 2 km para os granitóides brasilianos e Doutoramento, 208 p.
sugerem a presença em profundidade de intrusões nos Dantas E. L., Van Schmus W. R., Hackspacher P. C.,
gnaisses migmatíticos paleoproterozóicos. Alinhamentos Fetter A. H., Brito Neves B. B., Cordani U., Nutman
de soluções com direção NW-SE indicam a reativação A. P., Williams I. S. 2003. The 3.4-3.5 Ga São José
pós-brasiliana de estruturas antigas. do Campestre Massif, NE Brazil: remnants of the
As visualizações 3D nas Áreas I e II mostraram a oldest crust in South America. Precambiran
geometria em profundidade dos sistemas transcorrentes Research, 2439: 1-25.
do Lineamento Patos e da Zona de Cisalhamento João TM
GEOSOFT 2000. OASIS Montaj , v. 5.1.7. GEOSOFT,
Câmara-Picuí, com os mergulhos divergentes, planos Inc., Toronto.
verticalizados bem evidentes e interação de feições
secundárias, como veios discordantes com a foliação Jardim de Sá E. F. 1994. A Faixa Seridó (Província
principal da zona de cisalhamento. Borborema, NE do Brasil) e o seu significado
geodinâmico na cadeia Brasiliana/Pan-Africana.
A deconvolução de Euler por ser um método quantitativo Instituto de Geociências, Universidade de Brasília,
de localização horizontal e profundidade das fontes Tese de Doutoramento, 804 p.
magnéticas ou gravimétricas pode trazer importantes
contribuições a respeito da geometria de corpos em Minty B. R. S. 1991. Simple micro-levelling for
profundidade ou do arcabouço tectônico regional. aeromagnetic data. Exploration Geophysics, 22:
591-592.
A aplicação da deconvolução de Euler em dados
aeromagnéticos e gravimétricos, que recobrem a porção Reid A. B., Allsop J. M., Granser H., Millet A. J.,
Nordeste da Província Borborema, fornecerá novos Somerton I. W. 1990. Magnetic interpretation in
argumentos para futuras interpretações e discussões three dimensions using Euler deconvolution.
sobre o arcabouço tectônico e sua evolução geodinâmica Geophysics, 55 (1): 80-91.
nesta região.
Thompson D. T. 1982. EULDPH – A new technique for
AGRADECIMENTOS making computer-assisted depth estimates form
magnetic data. Geophysics, 47: 31-37.
À Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais (CPRM)
pela cessão e permissão do uso dos bancos de dados Van Schmus W. R., Brito Neves B. B., Hackspacher P.C.,
aerogeofísicos. Ao Laboratório de Geofísica Aplicada Babinski M. 1995. U/Pb and Sm/Nd geocronological
(LGA) do Instituto de Geociências (IG) da Universidade studies of the eastern Borborema Province,
de Brasília (UnB) pela utilização da infra-estrutural. A northeastern Brazil: initial conclusions. Journal of
CAPES pela bolsa de mestrado do primeiro autor. Ao South America Earth Sciences, 8 (3/4): 267-288.
CNPq pelo apoio financeiro projeto 475717-01-5 e
Van Schmus W. R., Brito Neves B. B., Williams I. S.,
471144/2003-7.
Hackspacher P. C., Fetter A. H., Dantas E. L.,
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Babinski M. 2003. The Seridó Group of NE Brazil, a
late Neoproterozoic pre-to syn-collisional basin in
Almeida F. F. M., Hasui Y., Brito Neves B. B., Fuck H. A. West Gondwana: insights form SHRIMP U-Pb
1981. Brazilian structural provinces: an introduction. detrital zircon ages and Sm-Nd crustal residence
Earth Sciences Reviews, 17: 291-317. (TDM) ages. Precambrian Research, 127: 287-327.
Blum M. L. B. 1999. Processamento e interpretação de Vauches A., Neves S., Caby R., Corsini M., Egydio-Silva
dados de geofísica aérea no Brasil Central e sua M., Arthaud M. Amaro V. 1995. The Borborema
aplicação à geologia regional e à prospecção shear zone system, NE Brazil. Journal of South
mineral. Instituto de Geociências, Universidade de America Earth Sciences, 8 (3/4): 247-266.
Brasília, Tese de Doutoramento, 229 p.
Brito Neves B. B. 2000. Tectonic history of the Borborema
Province, NW Brazil. In: Cordani U. G., Milani E. J.,
Thomaz Filho A., Campos D. A. (eds) Tectonic
Figura 1 – Mapa geológico da área em estudo localizada na porção Nordeste da Província Borborema, que mostra os
principais blocos crustais e as principais zonas de cisalhamento da região (Lineamento Patos, ZCJCP – Zona de
Cisalhamento João Câmara-Picuí, CPRM 2001).
P
Lajes
JC
Y
#
ZC
m C
E
P
D
JC
D
ZC
B
E Y
#
Currais São José
Novos do Campestre
Y
#
B
E
Caicó
Y
# N
6°30'S
B
A
B Y Parelhas
#
P
25 0 25 km
JC
ZC
Área II
7°00'S
LP YPatos
#
LP LP
Figura 4 – Tema da deconvolução de Euler, para o índice estrutural N=0, janela de 10 células e tolerância 7%.
Figura 6 – Visualizações 3D da deconvolução de Euler (N=0, 10 células e tolerância 7%) para a Área II. A – Vista em planta.
B, C e D – Visada inclinada da superfície, detalhe em C da estrutura sigmoidal presente no plano verticalizado da foliação
principal. E – Visada inclinada em profundidade.