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Ideologia de Karl Marx: Análise e Funções

O documento analisa a complexidade do conceito de ideologia, que pode ser visto tanto como um conjunto de ideias que orientam ações e visões de mundo, quanto como uma distorção da realidade utilizada para dominação social. Através de uma perspectiva crítica, aborda a influência das ideologias na organização social e política, destacando seu papel na formação de valores e comportamentos, além de sua relação com as classes sociais e a luta de classes. O texto também menciona a contribuição de pensadores como Marx e Engels para a compreensão da ideologia como um fenômeno que reflete e perpetua as relações de poder na sociedade.

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Ideologia de Karl Marx: Análise e Funções

O documento analisa a complexidade do conceito de ideologia, que pode ser visto tanto como um conjunto de ideias que orientam ações e visões de mundo, quanto como uma distorção da realidade utilizada para dominação social. Através de uma perspectiva crítica, aborda a influência das ideologias na organização social e política, destacando seu papel na formação de valores e comportamentos, além de sua relação com as classes sociais e a luta de classes. O texto também menciona a contribuição de pensadores como Marx e Engels para a compreensão da ideologia como um fenômeno que reflete e perpetua as relações de poder na sociedade.

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Introdução

Quando se fala em ideologia, a primeira coisa a ser feita é esclarecer o significado que se quer
lançar sobre esse termo, pois, geralmente, se atribui a ele duas concepções contrárias, sendo
uma considerada positiva e outra crítica ou negativa. O que se considera como significado
positivo de ideologia, predominante no senso comum, é a tomada do termo como sinônimo de
ideário, ou conjunto de ideias que formam a visão de mundo de um grupo ou indivíduo e que
o orienta para suas ações. A perspectiva crítica ou negativa, por sua vez, aponta para a
distorção da realidade, como instrumento de dominação, sendo invariavelmente associada ao
pensamento de base marxista. Embora se use também a adjetivação ‘neutra’ para expressar a
concepção positiva de ideologia, optei por não fazer uso dessa classificação, pois não existe
acesso ao mundo exterior que não seja por meio de pré-compreensões, o que retira qualquer
possibilidade de neutralidade na formação da consciência.

As ideologias desempenham um papel fundamental na organização e interpretação do mundo


social. Presentes em praticamente todas as esferas da vida humana — da política à economia,
da cultura à religião —, elas constituem sistemas de idéias que orientam comportamentos,
justificam ações e moldam visões de mundo. Compreender a natureza das ideologias implica
reconhecer sua origem histórica, seus fundamentos filosóficos e sua função na construção das
relações de poder.

Além disso, analisar suas funções é essencial para perceber como influenciam decisões
coletivas, sustentam regimes políticos e mobilizam sociedades em torno de certos valores e
projetos

Objetivo Geral

Analisar a natureza e as principais funções das ideologias no contexto social, ciências


políticas e cultural, compreendendo seu papel na formação de valores, comportamentos e
estruturas de poder.

Objetivos Específicos

 Identificar o conceito de ideologia e suas principais características.


 Investigar a sua natureza e função.
 Examinar como as ideologias influenciam a organização social e política.
 Refletir sobre os impactos positivos e negativos das ideologias nas sociedades
contemporâneas.
IDEOLOGIA

NATUREZA DA IDEOLOGIA

É difícil encontrar na Ciência social um conceito tão complexo, tão cheio de significado
quanto o conceito de ideologia. Nele se dá uma acumulação fantástica de contradições, de
paradoxos, de arbitrariedades, de ambiguidades, de equívocos e de mal-entendidos, o que
torna exatamente difícil encontrar seu caminho nesse labirinto. O termo ideologia foi utilizado
inicialmente pelo pensador francês Desturt de Tracy (1754 1836), segundo o qual ideologia é
o estudo científico das ideias e, as ideias são resultado da interação entre o organismo vivo e a
natureza, o meio ambiente.

[Link] de Tracy, pensador francês que criou o conceito de [Link]: Ideologia: o


que é, tipos, autores, função - Mundo Educação

Tracy procurou elaborar uma explicação para os fenômenos sensíveis que interferem na
formação das ideias, ou seja, a vontade, a razão, a percepção e a memória. Alguns anos mais
tarde, em 1812, Napoleão Bonaparte, utiliza o termo ideologia como o de “ideia falsa” ou
“ilusão”, num discurso perante o Conselho de Estado, ao afirmar que seus adversários eram
apenas metafísicos, pois o que pensavam não tinha conexão com que estava acontecendo na
realidade, na história.

Karl Marx retomou esse conceito, conservando esse significado napoleônico do termo, isto, o
ideólogo é o sujeito que inverte as relações entre as ideias e o real. Em A Ideologia Alemã
(1846), o conceito de ideologia parece como equivalente a ilusão, falsa consciência,
concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida
real. Trata-se de um sistema elaborada de representações e de ideias que correspondem a
formas de consciência que os homens têm em determinada época. Para Marx, claramente, as
ideias das classes dominantes são as ideologias dominantes na sociedade. Com base nos
pressupostos teóricos do materialismo histórico, o pensador alemão demonstra que a ideologia
não surge do nada.

Fig.2. Karl Marx, autor de “A ideologia alemã”.


Ideologia: o que é, tipos, autores, função - Mundo Educação

Ou seja, é produzida a partir das relações socioeconômicas, da luta de classes, das


contradições que existem na sociedade em que vivemos, com o objetivo de tentar justificar,
amenizar ou ocultar seus conflitos, tornando-os aceitáveis e naturais. A existência da
propriedade privada e as diferenças entre proprietários e não proprietários aparecem, por
exemplo, nas apresentações sociais dos indivíduos como algo que sempre existiu e que faz
parte da “ordem natural” das coisas. Essas representações sociais, porém servem aos
interesses da burguesia, classe social que controla os meios de produção numa sociedade
capitalista. Por meio da ideologia a classe dominante busca fazer com que seus interesses e
ideias transformem-se nos de todos, dificultando o surgimento de outros contrários aos seus.
Desse modo, a elite tende a orientar, de acordo com seus objetivos, a conduta da sociedade e
os valores dos indivíduos. É comum a tentativa dessa universalização das ideias da classe
dominante através da mídia. Os meios de comunicação como o rádio, a TV, o cinema, o
teatro, a imprensa, as instituições como o estado a igreja e a escola atingem um grande
número de pessoa e por isso são usados como meios para a transmissão de ideologias. Para
tanto, utilizam a linguagem simples e apelativa que atraia atenção de todos e seja facilmente
compreendida e inculcada. No entanto, as ideologias, para serem eficazes, devem dar algum
sentido por menor que seja às experiências das pessoas. As ideologias dominantes podem
moldar as necessidades e os desejos daqueles a quem elas submetem, mas também, devem
comprometer-se com as necessidades que as pessoas já têm, captar as esperanças e carências,
revesti-las em sua própria linguagem e retorná-las aos sujeitos de modo a converterem-se em
ideologias plausíveis e atraentes.

Não queremos afirmar que as pessoas não refletem sobre o que ocorre no seu cotidiano e no
meio social em que vivem. Na verdade, a maior parte das pessoas tem um olhar atento quando
se trata de seus interesses e direitos, como também a maioria delas sente-se desconfortável
com a ideia de fazer parte de uma forma de vida injusta. De modo que são contrabalançadas
por benefícios maiores, ou que são inevitáveis. Faz parte da função de uma ideologia
dominante inculcar tais crenças. E pode fazer isso seja através da falsificação da realidade
social, seja sugerindo que esses aspectos não podem ser evitados. Por exemplo, pode
apresentar uma determinada área de trabalho em que sobram vagas de emprego por falta de
profissionais qualificados, mas ocultar certos aspectos indesejáveis como a má distribuição de
verbas públicas para a educação. Com isso, as pessoas acabam absorvendo a ideologia
dominante sem perceber. Muitos desempregados tendem a se sentir fracassados por não terem
um currículo bom. Para o mercado.

Mas como levar em conta o culto ao sucesso pessoal e a necessidade de ter uma excelente
formação em um país como o nosso, com tantas desigualdades sociais e com poucas
possibilidades de a maioria da população chegar a um curso universitário? Como se vê, a
propaganda ideológica aliena os indivíduos que passam a compreender o real através da
ideologia dominante, vendo-a como uma verdade, sem perceber que ela oculta os conflitos
sociais, a exploração, as injustiças.

Considerando a ideologia como um conjunto de ideias e representações que contribuem para a


reprodução e manutenção da sociedade, sabemos que existem outros tipos de ideologia que
não estão, necessariamente, vinculadas ao mercado ou ao grupo dominante. Na sociedade,
existem diversas representações e normas que “ensinam a conhecer” motivações para a ação
efetiva. Se, e por um lado, temos ideologias favoráveis àqueles que dominam a sociedade,
temos também, crenças que reúnem e inspiram um grupo específico a perseguir interesses
políticos considerados desejáveis.

Esses interesses se expressam das mais variadas formas, seja através da formação de
sindicatos, de partidos políticos ligados a lutas democráticas e aos trabalhadores, seja por
meio de vários movimentos sociais – feministas, negros, étnicos, estudantis, do campo e da
cidade, pelo direito á terra, por moradia, dentre outros. Tais grupos se contrapõem às
ideologias dominantes e possibilitam que outras formas de pensar e de agir se desenvolvam,
permitindo, sobretudo, um questionamento sobre organizamos a nossa sociedade.

O termo ideologia voltou a ser empregado em um sentido próximo ao do original por Augusto
Comte em seu Cours de Philosophie Positive. O termo, agora, possui dois significados por um
lado, a ideologia continua sendo aquela atividade filosófico-científica que estuda a formação
das idéias a partir da observação das relações entre o corpo humano e o meio ambiente,
tomando como ponto de partida as sensações; por outro lado, ideologia passa a significar
também o conjunto de idéias de uma época, tanto como “opinião geral” quanto no sentido de
elaboração teórica dos pensadores dessa época. Como se sabe, o positivismo de Augusto
Comte elabora uma explicação da transformação do espírito humano, considerando essa
transformação um progresso ou uma evolução na qual o espírito passa por três fases
sucessivas: a fase fetichista ou teológica, na qual os homens explicam a realidade através de
ações divinas; a fase metafísica, na qual os homens explicam a realidade por meio de
princípios gerais e abstratos; e a fase positiva ou científica, na qual os homens observam
efetivamente a realidade, analisam os fatos, encontram as leis gerais e necessárias dos
fenômenos naturais e humanos e elaboram uma ciência da sociedade, a física social ou
sociologia, que serve de fundamento positivo ou científico para a ação individual (moral) e
para a ação coletiva (política). E a etapa final do progresso humano.

A IDEOLOGIA EM MARX, ENGELS E GRAMSCI

Para Guido Liguori (2007, p. 80) existem em Marx duas concepções de ideologia, uma
entendida como ‘falsa ideologia e/ou falsa consciência’ por meio do livro A ideologia alemã
(1845-46), e outra, encontrada no Prefácio à Crítica da Economia Política de 1859, renovada
por Engels. Ou seja, no Prefácio de 1859, autor ampliará o conceito, analisando a ideologia no
campo da superestrutura necessária a consciência da vida social e real dos sujeitos em
sociedade, para Marx:
na produção social da sua existência, os homens estabelecem relações determinadas,
necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção, que correspondem a
um determinado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O
conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a
base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual
correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da
vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em
geral (MARX, ENGELS, 1977, p.301).

Fig.3. Ideologia pode ser entendida como um conjunto de idéias, conceitos e visões de mundo
de um indivíduo ou grupo, que encobre as contradições existentes na sociedade. (Fonte:
[Link]/old/imagebank/thumb255_dvi866018hccv.jpg)

O termo ideologia é comumente utilizado com o sentido de conjunto de ideias sobre


sociedade e sobre política. Para Karl Marx, a ideologia é o que aliena o homem, o que faz
com que ele não compreenda sua própria realidade. A ideologia está a serviço da dominação,
nas relaçoes entre classes sociais, por imposição (MARX, & ENGELS, 1846/2002). É, no
entanto, a partir de Althusser que a noção de ideologia é tratada de modo sistemático como
resultante das práticas das instituições sociais. No seu livro Aparelhos Ideológicos de Estado
(1985), Althusser propõe que estude mos a ideologia. Esses “aparelhos” podem ser a escola, a
religião, a família, o sistema jurídico, o sistema político, a cultura, a informação etc. São
meios para reprodução das relações de produção/exploração capitalista.
Para os estudiosos do discurso, sobretudo, a análise do discurso fran cesa (doravante AD) dos
anos 60 e 70, a ideologia, ou “o funcionamento da instância ideológica” consiste naquilo que
se convencionou chamar interpelação. Isto é, sob a “evidência” do que realmente somos há
um pro cesso de assujeitamento do sujeito. Assim, cada um é conduzido, sem per ceber, mas
tem “a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocu par o seu lugar em uma ou outra
das duas classes antagonistas do modo de produção.” (PÊCHEUX & FUCHS, 1975, p. 165-
166)

Um exemplo:

Sem que pensemos a respeito, fora da nossa consciência, a escola nos ensina a
respeitar hierarquias: a foto do presidente na sala do diretor, o diretor, o coordenador,
o professor e o aluno. A escola nos ensina a res peitar o tempo: através da sirene temos
os horários da aula, do recreio etc. A escola nos ensina que temos um espaço: na sala
de aula temos cadeira, temos nome e número no diário de classe.

A escola nos ensina a termos conosco a inseparável mochila contendo instrumentos de traba
lho: cadernos, livros, lápis etc. E, claro, nenhuma criança vai perguntar o porquê de tudo isso
no sentido mais forte: o social, o histórico etc. Esses ensinamentos da escola são fundamentais
no processo de inserção do indivíduo (ser de carne e osso) nas relações de produção
capitalistas. Ou seja, deixamos de ser muitos indivíduos para sermos um sujeito na sociedade.

Da mesma forma, Marx critica a religião ao argumentar que ela expressa as contradições do
mundo real, vale dizer, a religião é também um real invertido que inverte a consciência. Tal
proposição de Marx parte do princípio básico de Feuerbach de que o homem fez a religião e
esta inverteu tudo ao afirmar que Deus fez o homem. A pergunta é: qual seria o propósito da
inversão promovida pela religião?

De acordo com o pensamento marxista, seria uma compensação, no espírito, da realidade


cheia de contradições. Foi apenas na segunda fase da reflexão sobre ideologia, no pensamento
marxista, que esse termo apareceu pela primeira vez nos escritos de Marx. O sentido de
ideologia aparecia como uma ampliação do termo inversão para, além de abranger a crítica à
religião e à filosofia de Hegel, contemplar a crítica ao que os jovens hegelianos vinham
desenvolvendo, a noção de que era necessário libertar o homem das ideias errôneas. Em ‘A
ideologia Alemã’, em que Marx elabora sua crítica à filosofia alemã, os verdadeiros
problemas da humanidade são atribuídos às contradições sociais reais, e não às ideias
errôneas. Para Marx (2006, p. 43), ao lutarem contra as ilusões da consciência (ideias
errôneas), substituindo-as por outras ideias, os neo-hegelianos estavam apenas interpretando
de modo diferente o que existe, sem combaterem o mundo real existente. A isso, Marx chama
de ‘fraseologias’, vale dizer, fraseologias novas substituindo velhas fraseologias. O contexto
teórico da crítica construída por Marx à filosofia alemã é o da construção, juntamente com
Engels, do “Materialismo Histórico, em que as premissas gerais de sua abordagem da
sociedade e da história são desenvolvidas e a tendência feuerbachiana da primeira fase é
definitivamente abandonada” (LARRAIN, 2001, p. 184).

Ao afirmar que não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a
consciência, Marx considera que o idealismo dos 7 neohegelianos é um desserviço à
sociedade alemã e chega a chamá-los de “carneiros que se julgam lobos” (Marx, 2006, p. 35),
pois a filosofia que produzem não é mais do que a tradução filosófica das representações da
burguesia alemã1. Nas palavras de Jorge Larrain (2001, p. 184), ao considerar que as ‘ideias
errôneas’ é que são consequências das contradições sociais, e não o contrário, o pensamento
marxista era de que, enquanto os homens, por força do seu limitado modo material de
atividade, são incapazes de resolver essas contradições na prática, tendem a projeta las nas
formas ideológicas de consciência, isto é, em soluções puramente espirituais ou discursivas
que ocultam efetivamente, ou disfarçam, a existência e o caráter dessas contradições.

É nesse sentido que a palavra ideologia surge como um conceito negativo, como uma
distorção, vale dizer, uma representação errônea das contradições. Sendo assim, as críticas
filosóficas não são suficientes para superar as distorções ideológicas, que só desaparecerão
quando as contradições que lhes deram origem forem resolvidas na prática. A segunda fase é,
portanto, marcada pela utilização do termo ideologia no lugar de inversão como uma forma de
abranger a crítica tanto aos velhos como aos jovens hegelianos que partem da consciência, e
não da realidade material, como defendia Marx. Na terceira e última fase, Jorge Larrain
(2001, p. 184-185) afirma que Marx avançou na análise específica das relações sociais
capitalistas, o que o levou a concluir que a própria realidade se encontrava invertida e que a
conexão entre ‘consciência invertida’ e ‘realidade invertida’ é mediada por uma espécie de
aparência que é constitutiva da própria realidade.

Pode-se ilustrar tal ideia com a seguinte hipótese:

Imagine que uma jovem de boas condições financeiras, tendo sido educada em uma
escola católica e sendo frequentadora de uma universidade privada, entrasse na loja de
um Shopping Center para comprar um par de sapatos. Ao entrar no estabelecimento, é
atendida por outra jovem, de condições financeiras ruins, que vive em um bairro
afastado do centro urbano e que não cursou nem tem a expectativa de cursar uma
universidade, pois sua formação escolar não lhe permite acesso à universidade pública
e suas condições financeiras não lhe permitem acesso ao ensino privado. Para trabalhar
na referida loja essa jovem precisa se vestir adequadamente, ou seja, de forma
diferente dos padrões de sua própria condição material. Por essa razão, a loja lhe
oferece um uniforme e todos os acessórios indispensáveis para que mantenha uma boa
aparência.

Na hipótese suscitada, antes de atender à compradora, a jovem empregada havia sido


advertida por sua patroa porque, a despeito de todo aparato oferecido, a moça havia chegado à
loja com uma aparência péssima. O que sua patroa não sabe é que a jovem empregada, para
complementar a renda insuficiente advinda do trabalho na loja, mantém outro emprego em um
restaurante que funciona até às 2h da madrugada. Depois de advertida sobre sua aparência, a
jovem empregada pede emprestada a maquiagem de outra vendedora e prepara-se para o
batente. Com a chegada da jovem abastada, a vendedora, preocupada em manter seu emprego,
recebe a cliente de maneira sorridente e simpática, apresentando os produtos da loja e
explicando todas as vantagens de adquiri-los. A jovem compradora possivelmente se sentirá
identificada com a bela e produzida vendedora, que conhece todos os benefícios de cada
produto oferecido. Todas as indicações de combinações, tendências da moda e prazeres
produzidos pelo consumo daqueles produtos servirão para que a jovem compradora forme
uma consciência sobre o que está adquirindo. O que ela não sabe é que a realidade a que teve
acesso está inteiramente invertida. Ao contrário do que parece, a vendedora não possui
nenhum daqueles produtos, que estão muito acima da sua condição econômica, não se veste
daquela forma e não acompanha as tendências da moda que conhece com tanta propriedade. O
sorriso estampado em seu rosto também esconde seu verdadeiro estado físico e de espírito,
ambos consumidos pelo excesso de trabalho e pelas preocupações de toda ordem, dada sua
condição econômica.

O que se pode extrair do episódio narrado é que a jovem compradora construirá uma ideia
invertida do real, tendo em vista que o real que se lhe apresenta está também invertido. A
jovem vendedora não se veste tão bem quanto aparenta, seu jeito sorridente e simpático
esconde a realidade em que se encontra e os produtos que demonstra conhecer bem nunca
foram usados por ela. As aparências 9 que ocultam a realidade constituem essa mesma
realidade, não permitindo que a jovem compradora perceba que a realidade à qual tem acesso
está invertida. O leitor poderia contradizer a hipótese narrada argumentando que nenhuma
jovem compradora, com os atributos apresentados seria ingênua a ponto de achar que a jovem
vendedora é como ela, o que tornaria inválido o argumento da realidade e da consciência
invertidas.

Contudo, o que está em questão não é se a jovem compradora acredita naquelas aparências,
mas a certeza de que ela não compraria em uma loja onde elas não estivessem presentes. O
problema maior do mundo das aparências constituído pela economia capitalista é que ele só é
capaz de reproduzir aparências, de modo que toda realidade construída a partir dele só pode
estar invertida.

Na política e no Direito esse mundo de aparências serve como base, por exemplo, para a
defesa dos ideais ‘universais’ da liberdade e da igualdade, que escondem o fato de que a
jovem vendedora não é livre como a jovem compradora, tampouco se iguala a ela. Observa-se
que, nas três fases apontadas por Larrain (2001), a ideia da dupla inversão, da consciência e
da realidade está presente, ainda que, na terceira fase, apareça de forma mais complexa em
razão do duplo aspecto da realidade no modo de produção capitalista, a realidade oculta e a
realidade invertida. De qualquer forma, o termo ideologia mantém, ao longo da obra de Marx,
a conotação crítica e negativa.

Numa perspectiva teórica, a ideologia, tem uma função organizativa na vida social e cotidiana
das diversas frações de classes na sociedade

Em Gramsci o conceito ganha materialidade quando alcança a consciência ativa das classes
populares.

Gramsci em seus Cadernos descreve que “o mais eficiente propagandista literário da ideologia
foi Destrutt de Tracy (1754-1836), graças á facilidade e à popularidade da sua exposição” no
período (GRAMSCI, 2011, p. 207).

A sua principal obra sobre o tema foi os “Eléments d’Idíologie4 (Paris, 1817-18)”, lida e
analisada como a mais completa obra sobre o assunto (GRAMSCI, 2011, p. 208). Contudo,
Gramsci descreve no Caderno 11 que:

o próprio significado que o termo “ideologia” assumiu na filosofia da práxis contém


implicitamente um juízo de desvalor, o que exclui que para os seus fundadores a
origem das ideias devesse ser buscada nas sensações e portanto, em última análise, na
fisiologia: esta mesma “ideologia” deve ser analisada historicamente, segundo a
filosofia da práxis, como uma superestrutura (GRAMSCI, 2001, p. 208).

Assim, está subentendido nos Cadernos que para Gramsci, as diversas ideologias presentes na
sociedade estão alocadas em uma superestrutura entendidas como o “reflexo do conjunto das
relações sociais de produção” presentes em um determinado período histórico (GRAMSCI,
2011, p. 250). Deste modo, “a partir dessa afirmação é possível compreender a superestrutura
como uma realidade objetiva e operante que mantém um nexo indissolúvel com a estrutura”
societária (BIANCHI, 2008, p. 135).

Fig.4. Antônio Grasmsci. Fonte: Contribuições


de Gramsci para uma teoria materialista do direito | LavraPalavra

O significado da ideologia nos Cadernos, não é algo exterior ao homem, pois faz parte da
realidade concreta dos grupos sociais, sendo algumas ideologias mais críticas e outras mais
conservadoras. Assim em Gramsci, compreendemos que os diversos grupos sociais presentes
na sociedade, são sujeitos políticos pensantes que compactuam com projetos de vida e de
sociedade. Ou seja, as suas ‘visões de mundo’ também são escolhas políticas destes sujeitos
em sociedade, e no ‘mundo real’ dos homens, essas ideologias se materializam diariamente
nas ideais, crenças, visões de mundo e projetos de sociedade.

Na perspectiva marxista a neutralidade é considerada anti-histórica e/ou apolítica, sabendo-se,


que o mundo real é movido por contradições e por interesses antagônicos de classes, assim,
mantendo-se e (re)criando novas e diferentes concepções de mundo, pautados em diferentes e
divergentes projetos de sociedade. Assim, Antonio Gramsci nos apresenta que a ideologia é
algo que “deve ser analisada historicamente, segundo a filosofia da práxis, como uma
superestrutura” estando concretamente em nossa sociedade (GRAMSCI, 2011, p. 208).

Função da ideologia

Resumidamente de acordo com Marx, as ideologias surgem por meio de relações sociais,
econômicas e políticas, em contextos de ideias conflitantes, de contradições e contrastes
sociais manifestos em desigualdade de recursos, de direitos, de acesso a bens e serviços.
Portanto, as ideologias podem ter por finalidade naturalizar conflitos para que eles sejam
considerados aceitáveis, na tentativa de normalizar, justificar, amenizar e mesmo ocultar as
tensões sociais.

Assim elas contribuem para a manutenção e reprodução de determinado arranjo social,


possibilitando que aqueles que, de alguma forma, são prejudicados e poderiam insurgir-se
contra ele enxerguem-no como bom ou como impossível de ser modificado.
Conclusão

Tendo em vista, que a ideologia representa uma forma ‘cristalizada’ de visão de mundo dos
grupos sociais em suas relações sociais, políticas, econômicas e culturais cotidianas. Porém,
esta forma de ver e de interpretar o mundo, não é algo homogêneo e uniforme em todas as
camadas de classes sociais, mas sim, é uma expressão sociocultural extremamente
heterogênea e multiforme, mas que se concretiza nas próprias ações dos sujeitos políticos. A
ideologia é algo possível de ser transformada, recriada, ou até mesmo, de ser reproduzida e
disseminada ao longo dos contextos históricos. Consideramos que o caminho que percorre o
termo é este: “começa com um sentido atribuído por Destutt, que depois é modificado por
Napoleão e, em seguida, é retomado por Marx que, por sua vez, lhe dá um outro sentido”
(LÖWY, 2006, p.11). Assim, o termo ficará conhecido na metade do século XIX, por este
viés ‘metafísico-vulgar’ e especulativo de Bonaparte, onde Marx, por volta de 1846, conceitua
em A ideologia alemã como “falsa consciência”, e novamente, será modificada no Prefácio de
1859 “como necessária”, e assim por diante, o conceito se espalha ao longo dos séculos XIX e
XX de formas diferenciadas no âmbito da tradição marxista.

Assim, a ideologia na perspectiva gramscina é algo inerente ao ser social, ao ser pensante, ao
ser racional e se apresenta no âmbito da superestrutura. Ela se manifesta na arte, na cultura, na
política, na religião, influenciando diretamente as visões de mundo, os valores e os princípios
dos sujeitos sociais. Onde cada sujeito carrega uma forma de ver e de interpretar o mundo. E
essa forma de conceber o mundo dependerá de uma formação político-social crítico capaz de
modificar a sociedade que hoje vivemos, marcada pelo capitalismo selvagem e pelo ideário
neoliberal.

As ideologias, enquanto sistemas de pensamento estruturados, exercem uma influência


profunda sobre a maneira como os indivíduos e as sociedades percebem o mundo e agem
dentro dele. Ao longo deste trabalho, ficou evidente que elas não apenas expressam idéias e
valores, mas também cumprem funções essenciais como a legitimação do poder, a
mobilização social e a construção de identidades coletivas. A sua natureza dinâmica e
multifacetada permite que sejam apropriadas por diferentes grupos com fins distintos,
podendo tanto promover mudanças sociais quanto justificar desigualdades. Compreender as
ideologias é, portanto, fundamental para desenvolver uma consciência crítica diante das
estruturas sociais e políticas que nos rodeiam, favorecendo a construção de sociedades mais
justas, democráticas e inclusivas.

Referências Bibliográficas

MARX e ENGELS. A ideologia Alemã. São Paulo: Martin Claret, 2006.

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. 9. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1985..

EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 1997.

MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. Constitucionalismo e ideologia (uma discussão


cinematográfica). In: TROGO, Sebastião (Org.); COELHO, Nuno M. M. S. (Org.). Direito,
filosofia e arte: ensaios de fenomenologia do conflito. São Paulo: Rideel, 2012.

ARTIGOS PDF

Prefácio à contribuição à crítica da economia política. In: Karl Marx e Friedrich Engels
[1859]. São Paulo: Edições Sociais, 1977. P. 300-303. Disponível em: Acesso em 20/04/2025.

INTERPRETAÇÃO E IDEOLOGIAS PAU [Link]

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