O mito do "eu sei"
As coisas, as pessoas, a tv, a internet, a vida, o mundo, e muitas outras coisas
mais, a cada maldito segundo de nossa vidinha fren�tica modernosa, nos vomita
conceitos, id�ias, pensamentos, informa��o. Junto a este fluxo inesgot�vel,
encontra-se o sujeito, o indiv�duo, eu, voc�, num pedestal tal no qual nos
deleitamos com a ilus�o de tudo poder, de tudo fazer, de tudo saber. O Satanismo
tamb�m por sua vez � muito perigoso com rela��o a isto. Inputando ao indiv�duo um
poder de escolha, uma no��o de responsabilidade e, em termos de forma, valorizando-
o acima de qualquer coisa, acabamos sempre na velha hist�ria da auto-ilus�o. E
pior que voc� se auto-iludir com rela��o a X ou Y, � voc� se auto-iludir achando
que n�o est� se auto-iludindo! Este � o maior dos perigos...
� extramamente dif�cil para qualquer pessoa deixar de lado suas seguran�as, suas
certezas, suas convic��es. E, ao contr�rio do que voc�, malvadista, ateu ou
bitolado deseja pensar, a ilus�o das pr�prias verdades n�o � algo de crist�o,
evang�lico ou te�sta. Pelo contr�rio, isto diz respeito a todos n�s. Todos temos
mentalmente um conjunto de valores, de verdades, de proposi��es m�ximas, de formas
de conduta, de m�todos de interpreta��o da realidade. O problema n�o est� em
ignor�-los, uma vez que isto � imposs�vel, mas sim ter a capacidade, habilidade, ou
at� mesmo humildade (eu diria auto-reconhecimento), de transform�-los, desenvolv�-
los, aprimor�-los.
Naturalmente, para tal, � preciso que nos valemos de uma palavrinha: trabalho. Quem
� dos ramo dos c�lculos e n�meros sabe que o trabalho � o produto da for�a vezes o
deslocamento. Ou seja, trazendo para termos menos matem�ticos, este resultado
aumenta na medida em que saiamos do lugar, isto �, deixamos de estar aqui para
estar l�, deixamos de ser o que somos, para nos tornarmos algo de diferente; e, na
medida em que torna-se mais intenso nosso esfor�o. Ou seja, precisamos nos mecher,
e quanto mais longe � nosso destino, maiores s�o os passos e mais for�a e mais
tempo s�o gastos. E para que estou dizendo tudo isto?
Reparem que estou utilizando dois conceitos b�sicos: tempo e trabalho. Viver � ser
na dimens�o do tempo-espa�o, e quanto mais trabalho h� para ser feito, mais for�a
se faz necess�ria, mais tempo � preciso. Isto parece l�gico, n�o? Pois �, o �bvio �
justamente o mais dif�cil de ser compreendido.
Pergunto a voc�s, se um bom desenvolvimento pressup�e tempo e esfor�o, como podemos
hoje crer que podemos alcan�ar o mundo com nossas m�os, assim, de uma hora para
outra. Como posso eu acreditar que domino algum tipo de pensamento, sistema de
id�ias, ou o que quer que seja, se n�o desprendi tempo o suficiente para conhecer
cada uma de suas peculiaridades, e, mais do que isto, efetuar analogias, rela��es e
confrontos com outros sistemas e pensamentos? Como posso eu me julgar apto a falar,
descrever, explicar ou defender uma determinado argumento, postura, ou tese,
enquanto que houveram homens, por exemplo, que passaram a vida inteira dedicando-se
a refut�-la? Como poderei eu manter-me seguro em minha posi��o sem conhecer, por
minha vez, o trabalho destes homens? Como posso eu limitar a infinitude das
palavras, do pensamento, dos conceitos, limitando estes, a meu-bel prazer, numa
ilus�o de ser capaz de esgot�-los?
Pois �, meus caros, � justamente o adotar da postura de superficialidade, do
limitado, do med�ocre, do autom�tico, do resumido, o ato mais comum em tempos
modernosos. O aumento exacerbado da velocidade da difus�o informacional, bem como
um respectivo aumento de quantidade destas informa��es, nos faz querer mais, por
cada vez menos. O que importa hoje em dia � acumular o m�ximo de dados mastigados,
fechados em si pr�prios e sem qualquer profundidade. � exatamente esta a postura na
vast�ssima maioria dos meios de quem supostamente pensa, l� ou estuda.
O problema d�-se da seguinte forma: a valoriza��o do sujeito moderno faz com quem o
indiv�duo se sinta apto e capaz para dizer "eu sei", e a difus�o informacional
massiva (eu n�o quis dizer "para as massas"), por sua vez, lhe fornece meios de
comunica��o suficientes para que possa ele ter acesso a uma grande quantidade de
id�ias, valores e pensamentos que, por n�o sa�rem dos n�veis da superficialidade,
podem ser facilmente alocados em seu "conjunto de saberes".
E quem n�o tenta se afastar desta tend�ncia n�o faz id�ia de como isto � t�o comum.
Eu lhes dou um exemplo... Imaginem qualquer discuss�o de buteco, f�rum, orkut,
enfim... Num tema X, eis que algu�m toma a palavra e diz (ou posta):
"Eu acho que as manifesta��es art�sticas s�o um reflexo dos valores morais da
cultura de nossa sociedade. "
Eu, como bom preconceituoso e metido a besta que sou, j� pararia de ler no "eu
acho". De "euachos" j� vi as coisas mais imbecis. E com certeza n�o seria diferente
agora... Mas vamos l�... Voltemos � frase. Repare que nesta simples seten�a, uma
frase pequena e aparentemente cheia de certeza, estamos a lidar com conceitos e
id�ias absurdamente vastos e complexos: arte, valor, moral, cultura e sociedade. O
que � arte? O que � valor? O que � moral? O que � cultura? O que � sociedade? H�
centenas de livros escritos tratando das mais diversas quest�es, caracter�sticas,
pontos principais, etc. destes onceitos e id�ias. N�o somente tratando disto, como
a pr�pria defini��o destes! Se algu�m quiser falar sobre X � preciso definir o que
� X. E ora, se nem mesmo os grandes autores de sociologia chegam a uma defini��o
�ltima de cultura, por exemplo, como posso eu, que n�o sou um destes, que n�o tive
a carga de leituras e estudo deste, posso me julgar capaz de chegar at� ela?
Reparemos que o processo que deve ser feito n�o � o de partir de nossas id�ias e
mont�-las a partir de conceitos e pontos que achamos que dominamos para satisfazer
a l�gica interna de nosso argumento e a ele dar algum tipo de respaldo. �
justamente o contr�rio. � preciso esmiu�ar, antes de tudo, qualquer conceito mais
amplo que iremos utilizar, e tentar definir exatamente nosso campo de id�ias.
Mas ora, perguntam-me ent�o, se eu fosse fazer o exerc�cio do "mas o que � X" para
cada elemento de uma id�ia minha, eu nunca conseguiria chegar a lugar nenhum. E a�,
entra aquela nossa velha frase, que at� j� cheguei a citar aqui uma vez: tudo que
sei � que nada sei. S�crates, at� onde se sabe, autor da m�xima, faz com que
tenhamos a origem desta a muito tempo atr�s, antes mesmo de Cristo... Se naquela
�poca pode ele pensar isto, tomemos ent�o o mundo em frenesi informacional que
temos hoje! S� faz mais sentido.
Para "chegarmos a algum lugar" � preciso muito. Mas muito mesmo. E mais do que
isto, � preciso muita for�a, para muito pouco se deslocar. N�o precisa ir muito
longe. A despeito dos cr�ticos de plant�o do apelo � autoridade, que s� o fazem
para tentarem se igualar, sem qualquer esfor�o, a quem se encontra acima deles,
basta pensarmos em termos de ensino institucionalizado. Desconsiderando todo e
qualquer fator individual mais espec�fico, eu, por exemplo, que fa�o uma gradua��o
em F�sica, n�o tenho os mesmos conhecimentos de quem faz Antropologia. � �bvio que
isto n�o impede de algu�m que faz f�sica conhecer algo de antropologia, ou o
contr�rio. � �bvio. Mas isto n�o anula que um possui a priori uma carga de aulas,
leituras, reflex�es e debates dentro de um determinado campo do conhecimento que o
outro n�o tem! Isto � t�o simples quanto dizer que, se eu leio um livro e voc� n�o,
eu sei mais sobre ele do que voc�!
� tudo uma quest�o do tempo desprendido em fun��o de algo. Se eu tenho 20 anos de
estudo e opto por dividi-lo em 10 anos para biologia e os outros 10 para
psicologia, eu n�o vou "saber mais" sobre antropologia do que quem dedicou a ela os
mesmos 20 anos! � tamb�m �BVIO que n�o se trata de medir quem sabe mais ou menos,
n�o se trata de testes de QI ou aplicar provas nas pessoas sobre determinados
assuntos, a quest�o N�O � essa. Conhecimento n�o se mede, n�o se quantifica.
O grande ponto reside numa simples quest�o. Pergunte-se a si mesmo: quem sou eu
para falar isto ou sobre isto.
N�o adianta, ainda no mesmo exemplo, n�o d� pra conversar sobre um livro com uma
pessoa que n�o leu o livro...! N�o d�! E ora, se voc� disser "voc� n�o leu o livro,
se eu falar sobre ele, voc� n�o vai entender" n�o se trata de arrog�ncia! E quem o
pensa sob o argumento de "oh, voc� est� se colocando acima de mim" est� errado! �
justamente ele que est� "abaixo" por n�o compartilhar a mesma carga de saber, o
mesmo livro!
Parece algo simples, mas estamos diante da mais comum forma de pensar. E �
justamente neste mito do "eu sei" que n�o deve o Satanista crer. Mais do que
colocar-se como centro do mundo e de sua pr�pria vida, � preciso reconhecer a nossa
pequenez diante destes, e que, o pesamento, o conhecimento e as reflex�es que se
fazem acerca de nossa exist�ncia, s�o dotadas de uma complexidade e vastid�o
infinitas, que n�o podem ser reduzidas por apenas um cer�bro e apenas uma vida.
Crer que pode faz�-lo � incorrer em pecado de auto-ilus�o.
N�o se trata de querer eu com estas palavras justificar uma arrog�ncia intelectual
baseada em t�tulos, diplomas ou coisas do tipo. N�o � isto. Trata-se apenas de
tentar freiar uma tend�ncia natural que o mundo nos for�a a ter: a tend�ncia �
mediocridade, � superficialidade, ao r�pido, ao resumido, ao digerido. Deixe de
lado a pregui�a de ler por horas, de refletir sobre o lido, de reler, de ouvir
outros pontos de vista. Canse-se, aproveite seu tempo. Seja mais. Queira mais.
In�rcia e mediocridade n�o s�o Satanismo.