Produção e Controle de Drogas Vegetais
Produção e Controle de Drogas Vegetais
Unidade II
5 PRODUÇÃO E CONTROLE DE QUALIDADE DE DROGAS VEGETAIS
Quando pensamos em fitoterápicos, devemos lembrar que todos os aspectos, desde a produção da
planta medicinal até o controle de qualidade do medicamento, são de extrema importância, pois
as plantas produzem misturas complexas de compostos ativos, um auxiliando a função do outro.
As plantas medicinais produzem esses metabólitos para sua defesa ou adaptação ao meio ambiente,
mas nós, seres humanos, utilizamos essas substâncias em nosso benefício, seja na área medicinal, seja
na área nutricional (SIMÕES et al., 2004).
Para que as plantas consigam sobreviver, elas precisam se adaptar às condições ambientais do modo
mais favorável possível – por exemplo, produzindo compostos que servem para a sua defesa. É o caso da
planta Leonurus sibiricus L., que tem o nome popular de rubim. Segundo a literatura, essa planta possui
muitos alcaloides, um grupo de compostos ativos vegetais que contêm em sua estrutura nitrogênio (N).
Esses compostos são utilizados pela planta como proteção, pois apresentam sabor amargo para o animal
que dela se alimenta. Em alguns casos, a dose tóxica desses alcaloides é próxima à dose terapêutica
eficaz. Os alcaloides podem ser produzidos pela planta como forma de armazenar N (WADT, 2000).
Caso uma substância que a planta eventualmente tenha produzido não apresente a função de ajudar
na sua proteção ou reprodução, a planta pode deixar de produzir essa substância.
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FARMACOGNOSIA
Wadt (2000), ao estudar essa planta, que cresce facilmente no Brasil apesar de ser asiática, constatou
que não apresentava alcaloides em nenhuma fase de crescimento nem em diferentes épocas do ano.
No entanto, se consta em literatura científica, como explicar que a planta não apresenta tal composto?
O que foi constatado pelo autor é que as plantas estudadas que continham alcaloides eram oriundas de
países com inverno rigoroso, isto é, com neve e muito frio. Isso explicava por que as plantas coletadas
no Brasil não apresentavam esse composto.
O fato de não termos inverno rigoroso, termos facilidade de obter N do solo, após o N ser fixado por
microrganismos nitrificantes que estão no solo em simbiose com as plantas, durante todo o ano, torna
o composto nitrogenado (alcaloide) um reservatório de N desnecessário. Então, a planta deixa de gastar
energia para produzir esse composto. É dessa forma que as plantas fazem sua adaptação ao ambiente,
tendo melhor eficiência e menor gasto de energia.
A produção de drogas vegetais envolve, além do farmacêutico, o agrônomo, o biólogo, entre outros
profissionais, para que se possa ter drogas vegetais com alta qualidade (MATOS, 1998).
A primeira etapa na produção de plantas medicinais é a seleção dos melhores espécimes (indivíduos)
de uma espécie de planta medicinal que tenha sido identificada botanicamente, pois pode haver
diferenças entre os espécimes (TEIXEIRA, 2009; SIMÕES et al., 2004).
Uma espécie pode apresentar indivíduos morfologicamente parecidos, mas que possuem diferenças
na composição química, seja de caráter qualitativo, seja quantitativo. Devido às variações genéticas
entre os indivíduos, é preciso realizar avaliações periódicas da cultura dessa espécie (da qualidade dos
espécimes) para identificar possíveis variações na produção dos compostos presentes (OLIVEIRA; AKISUE;
AKISUE, 1991).
Por exemplo, se os compostos ativos estiverem nas folhas, não basta apenas ter maior quantidade de
folhas, e sim verificar a quantidade de ativos presentes nas folhas, como ocorre no caso da erva-cidreira
brasileira, Lippia alba (Mill) N.E. Brown. Há variedades com óleos essenciais diferentes que podem ser
mais efetivas em determinada atividade farmacológica, como estudou Teixeira (2009). Nesse estudo,
foram analisadas três amostras de Lippia alba (Mill) N.E. Brown (I, II, III) colhidas no Horto de Plantas
Medicinais Francisco José de Abreu Matos, da Universidade Federal do Ceará, e o rendimento de óleos
voláteis foi de 0,08%, 0,40% e 0,25% para os quimiotipos I, II e III, respectivamente (figura adiante).
Se tivéssemos que escolher entre as três amostras, a amostra II seria a que teria maior quantidade
de ativos, e nesse caso também foi a amostra que apresentou melhor atividade antimicrobiana contra
bactérias Gram-positivas, Gram-negativas e leveduras, pois as outras amostras apresentaram inibição
somente para bactérias Gram positivas e leveduras. A composição de óleos voláteis era diferente para
as três amostras, apesar do aspecto morfológico macroscópico ser muito semelhante, sendo que a amostra I
continha principalmente geranial, neral e mirceno; a II, geranial e neral; e a III, carvona e limoneno.
Como podemos observar pelos resultados encontrados, plantas da mesma espécie com mesmo aspecto
podem apresentar variações de compostos químicos e atividades farmacológicas.
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Unidade II
A)
B)
C)
Figura 134 – Lippia alba (Mill) N.E. Brown: A) quimiotipo I; B) quimiotipo II; C) quimiotipo III
Após a seleção dos melhores espécimes, há o plantio, ou cultivo, dessas plantas. Nessa fase, existem
os fatores intrínsecos, que são as condições que “a planta gosta”, e os fatores extrínsecos, aqueles
que o meio ambiente oferece, como iluminação, oxigenação, temperatura, tipo de solo, entre outros
(OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Se uma planta não for nativa (por exemplo, uma planta europeia que seja trazida ao Brasil), ela deve
ter uma adaptação, muitas vezes em laboratório, para que possa formar espécimes viáveis no local.
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FARMACOGNOSIA
Num cultivo em grande escala, é necessário que se combine os fatores intrínsecos com os extrínsecos
de tal forma que se ofereça à planta os elementos que ela necessita, adaptando-a às condições climáticas
do local. Por exemplo, se pensarmos em um coqueiro, iremos colocá-lo em um ambiente à beira mar,
isto é, solo arenoso, clima quente, alta umidade, solo pobre em nutrientes, vento em abundância e dias
ensolarados (BERNARDO; SATO; ZONETTI, 2020).
Se tivermos que plantar um coqueiro em outro local que não à beira mar, teremos que adequar o solo,
tornando-o mais arenoso. Se for uma terra vermelha, por exemplo, escolheremos um local com grande
incidência de luz solar e irrigação para manter a umidade alta. Dessa forma, estaremos adequando os
fatores intrínsecos (da planta) aos extrínsecos (do local).
Como a planta cresce próximo ao litoral, para a produção do AcheflanR, seria necessário que se
fizesse uma adaptação de local para o plantio da erva-baleeira em grande escala. Afinal, o medicamento
fitoterápico teria que suprir o mercado nacional e depois mundial. Para isso, fizeram todos os estudos,
sob a supervisão do agrônomo Pedro Mellilo de Magalhães, do Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas
e Agronômicas (CPQBA) da Unicamp, de qual o tipo de solo, clima, insolação e também quando colher
as folhas e realizar o processamento delas, para que o insumo tivesse uma padronização adequada e
pudesse ser utilizado na fabricação do medicamento fitoterápico. Estudos mais recentes mostram que
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Unidade II
pode haver o plantio não só por sementes, como feito no CPQBA, mas também por estacas, garantindo
assim a qualidade dos ativos (BERNARDO; SATO; ZONETTI, 2020; HARTWIG; RODRIGUES; OLIVEIRA JR.,
2020; ERENO, 2005).
Observação
No plantio, fatores como pH do solo podem ser importantes quando se quer, por exemplo, produzir
alcaloides, ativos nitrogenados com características básicas. Nesse caso, o pH do solo deve ser ácido,
fazendo com que a planta produza mais alcaloides (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
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FARMACOGNOSIA
A) B)
Além do plantio correto para garantir a quantidade e qualidade dos ativos, a coleta do órgão vegetal
é de suma importância, pois podemos coletar o órgão errado, que não possui os ativos, ou num período
em que estes não estão presentes (COSTA, 1994). Um exemplo é o maracujá. É usual a população dizer
que tomar suco de maracujá acalma, porém os ativos com atividade calmante não estão nos frutos, e
sim nas folhas, tanto no maracujá doce (Passiflora alata) como no maracujá azedo (Passiflora edulis).
A) B)
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Unidade II
Cada parte da planta a ser utilizada tem a melhor época de colheita (SIMÕES et al., 2004). Há um
ditado popular rural que diz: “mandioca deve ser colhida em meses que não têm erre (R)”. Esse ditado é
justificado quando se avalia que os meses sem a letra R são os meses de inverno (maio, junho, julho
e agosto), e, em se tratando de mandioca, que é uma raiz tuberosa, ela irá armazenar amido nos meses
de dormência (baixa atividade metabólica). Já quando se inicia a primavera, ocorre o brotamento de
folhas e o aparecimento de flores, o que irá demandar maior metabolismo e maior quantidade de água,
que ficará, em parte, nas raízes, deixando-as com menor teor de amido e, consequentemente, mais
aguadas, fazendo com que a mandioca fique mais consistente.
As flores e os frutos devem ser colhidos após seu total amadurecimento, isto é, com flores abertas
e frutos maduros, porém sem a deiscência dos frutos. As cascas devem ser colhidas no período de
maior metabolismo (primavera e outono), e as folhas também, quando estiverem em plena fotossíntese.
Entretanto, deve-se levar em consideração quais são os metabólitos (ativos) que se quer obter; por
exemplo, caso sejam os óleos voláteis, devemos considerar que irão se degradar caso as folhas estejam
em plena fotossíntese, durante o período de maior insolação, próximo ao meio-dia, uma vez que a
temperatura estará muito elevada (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991). Quanto às folhas de maracujá,
como os ativos calmantes são os flavonoides, elas podem ser colhidas ao meio-dia, no período de maior
fotossíntese, garantindo maior quantidade de flavonoides (COSTA, 2002).
Na colheita da planta medicinal, vários fatores devem ser avaliados: além do órgão, a idade da
planta, a época do ano, a fase de crescimento e a hora do dia. Outro cuidado que se deve ter ao coletar
as plantas medicinais é não amassá-las ou lesioná-las, pois isso poderá favorecer o crescimento de
microrganismos (SIMÕES et al., 2004).
Em relação à idade da planta, o pau-rosa (Aniba rosaeodora Ducke, sinonímia de Aniba duckei
Kostermans) é uma árvore da região amazônica da qual se extrai o óleo volátil, rico em linalol, composto
muito utilizado em perfumaria (MAGALHÃES, ALENCAR, 1979). Essa árvore, infelizmente, está na lista
de espécies em risco de extinção, pois a coleta da planta inteira para a extração do óleo volátil colocou a
espécie em perigo. Isso ocorreu porque os óleos essenciais têm a composição adequada para a indústria
de perfumaria somente quando a planta tem cerca de 10 anos. Sampaio et al. (2005) fizeram podas
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FARMACOGNOSIA
nas copas das árvores com 22 anos de crescimento e verificaram que, quando podadas dessa forma, há
grande rebrota da árvore, preservando assim a espécie, sendo uma boa forma de manejo (LEITE; QUISEN;
SAMPAIO, 2001).
Wadt (2000) realizou o plantio de Leonurus sibiricus L. em local padronizado e fez coletas em
diferentes épocas do ano e fases de crescimento, tendo detectado que os flavonoides estavam em maior
concentração nas folhas antes da floração. Porém, não houve diferença de concentração de metabólitos
nas diferentes épocas do ano.
Há plantas cuja variação de metabólitos no decorrer do ano é muito grande, como a Digitalis
purpurea L., que possui ciclo de crescimento bianual. Isso significa que ela produz os metabólitos
(glicosídeos cardioativos) por um período de dois anos, mas a concentração deles varia durante esse
período, sendo a maior concentração de ativos no primeiro ano, entre julho e outubro. Já no segundo
ano, a concentração de ativos é menor, e os meses de maior concentração de glicosídeos cardioativos
são junho e julho (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
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Unidade II
bro
bro
bro
ro
o
o
Março
Junho
Julho
Julho
Maio
Abril
Agost
Agost
Outub
Novem
Setem
Setem
140 140
120 120
100 100
80 80
60 60
Schubert et al. (2006) realizaram uma pesquisa na qual colheram mensalmente folhas de Ilex
paraguariensis A. St.-Hill, erva-mate, pelo período de um ano, em duas localidades diferentes (Ijuí e
Santa Maria), e fizeram a avaliação do teor de metilxantinas no decorrer desse período. Os autores
encontraram diferenças nas concentrações de metilxantina, visto que as condições físicas (solo,
temperatura, iluminação etc.) eram diferentes, influenciando o crescimento. No entanto, a diferença de
concentração de metilxantinas entre espécies de locais diferentes não foi tão grande quanto o momento
que se avaliou a concentração nos meses do ano. As amostras de Ijuí mostraram maior concentração
nos meses de abril (1) e janeiro (2), e as de Santa Maria nos meses de fevereiro (1) e março (2). Ambas
apresentaram a menor concentração de metilxantinas no mês de julho, com as concentrações maiores
variando entre 7 e 8,5 mg/g. Já no período de menor concentração de metilxantinas, observou-se
concentração de cerca de 2,5 mg/g. Esses dados indicam uma relação com o período de chuva, uma vez
que, no inverno, temos menor índice pluviométrico e, no estudo, menor concentração de metilxantinas.
9
6
mg/g
3
Santa Maria
2 Ijuí
0
/01
01
/01
01
1
/01
01
/01
/01
/01
02
02
jul/0
abr/
jun/
set/
jan/
fev/
mar
mai
ago
out
nov
dez
Figura 141 – Teores médios de metilxantinas totais, expressos em mg/g, nas populações de Ijuí e Santa Maria
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FARMACOGNOSIA
O período do dia também tem sua influência, por exemplo, sobre plantas com óleos voláteis
e alcaloides, que devem ser colhidas no período da manhã, em que as plantas produzem os óleos
voláteis; ao passo que à noite os compostos voláteis ficam armazenados nas glândulas ou nos tricomas
glandulares – por isso encontram-se em maior concentração no período da manhã.
Quanto aos glicosídeos (aqueles que possuem açúcares em sua estrutura), devem ser colhidos no
período da tarde e em dias secos, já que os açúcares sofrem influência da umidade, diminuindo a
concentração (SIMÕES et al., 2004; CARNEIRO et al., 2010). Porém, essas não são regras fixas, pois há
uma dependência da planta em questão, como demonstraram Oliveira et al. (2012) quando estudaram
Mentha x piperita var. citrata e verificaram que o melhor horário para realizar a coleta é em torno
das 13 horas.
Há um processo de degradação enzimática que ocorre em algumas plantas após a coleta, sendo
necessário um tratamento especial para a interrupção ou inativação enzimática, chamado de
estabilização, que é a parada da atividade da enzima, podendo ser realizada por aquecimento, que é
o mais comum, a cerca de 80 ºC por 15-30 minutos. Outra forma seria através de solventes, como o
etanol, porém este pode solubilizar vários metabólitos que sejam polares. Há a possibilidade de utilizar
irradiação, mas esse método é mais caro e pode não ser muito efetivo devido à baixa penetração da
radiação ultravioleta (UV) (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Um exemplo de estabilização é o caso dos glicosídeos cardioativos da Digitalis sp. Esses compostos
possuem em sua estrutura três moléculas de açúcar que são importantes para a eficácia farmacológica,
e isso significa que a atividade farmacológica dos glicosídeos cardioativos, que é aumentar a força
de contração cardíaca, será melhor se houver pelo menos uma molécula de açúcar. Então, torna-se
necessário interromper a ação da enzima que quebra as ligações glicosídicas (SIMÕES et al., 2004;
OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Contudo, nem sempre é necessária a inativação enzimática. Corrêa, Santos e Finzer (2019)
verificaram que um cultivo de carqueja cujas amostras não tinham sofrido inativação enzimática
possuíam maior concentração de ativos, e Mendes (2004), em sua pesquisa com extratos de capim-limão
– Cymbopogon citratus (DC) Stapf –, verificou que os extratos originários de plantas sem inativação tiveram
maior rendimento.
A mondagem é a retirada do excesso de sujidades a seco; por exemplo, numa raiz, retira-se o excesso
de terra ou mesmo a camada externa, deixando-a o mais limpa possível. Prefere-se a mondagem à
lavagem, pois quando se lava, aumenta-se a umidade, o que facilita o crescimento de agentes deletérios
como bactérias, fungos e enzimas. No caso da utilização de lavagem, é preciso ter cuidado, pois esta
deve ser rápida e com água clorada ou ozonizada. Ainda assim, a secagem deve ser muito bem feita para
evitar posteriores contaminações (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
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Unidade II
Nas tabelas a seguir, é possível observar a porcentagem de água existente na planta e nos órgãos
frescos e após a secagem, bem como a quantidade de água exigida para que os agentes deletérios
(microrganismos e enzimas) atuem. Perceba que, se aumentarmos muito a umidade, o processo de
secagem, para alcançar uma porcentagem segura de água e não ter os agentes deletérios, deverá ser
muito mais rigoroso.
Agentes % de umidade
Bactérias 40-45%
Enzimas 20-25%
Fungos 15-20%
Os processos de secagem podem ser naturais ou artificiais e devem ser realizados de acordo com
o órgão e o metabólito que se quer preservar, facilitando a conservação. Como vimos nas tabelas
anteriores, é necessário atingir, pela secagem, uma umidade inferior a 15%, pois os fungos são os
agentes deletérios que necessitam de menor quantidade de água para sobreviver, que seria no mínimo
15% de umidade. Por isso, o ideal é atingir uma secagem com umidade menor que essa porcentagem
(SIMÕES et al., 2017; OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
A secagem pode ser realizada diretamente ao sol, porém a incidência direta dos raios solares pode fazer
com que haja uma secagem muito rápida, mantendo uma crosta que preserva a água internamente. Isso
faz com que a umidade se mantenha elevada, apesar da aparência externa seca (SIMÕES et al., 2004).
Os metabólitos termolábeis (que se degradam com o calor) podem ser secos à sombra, ao abrigo do
sol, mas essa é uma secagem mais lenta, mantendo por mais tempo a umidade da planta, o que pode
levar a uma contaminação ainda durante o processo de secagem (CORRÊA JR.; SCHEFFER, 2013).
118
FARMACOGNOSIA
Tanto na secagem ao sol como à sombra, é necessário que se mantenha a higiene do local, com
proteção para que o material a ser seco não sofra contaminações (CORRÊA JR.; SCHEFFER, 2013).
A utilização de estufas com circulação de ar aquecido seria uma técnica aconselhável, pois o ar
aquecido em temperaturas controladas – por exemplo, 38 ºC para folhas e flores e 60 ºC para cascas
e raízes – manteria os metabólitos ativos, sem degradações. Temperaturas maiores que essas podem
secar a planta e alterar os metabólitos, até mesmo eliminá-los (CORRÊA JR.; SCHEFFER, 2014; SIMÕES
et al., 2004).
A secagem mista pode ser uma opção para a agricultura familiar, pois há a secagem ao sol quando
as temperaturas e a incidência solar são menores. À medida que a temperatura e as radiações solares
vão ficando mais intensas, as plantas são colocadas em lugar protegido do sol, por exemplo, um galpão,
até que se diminua o calor e a insolação, voltando a planta ao sol. Normalmente, essa manobra de
sol-sombra-sol acelera o processo de secagem, sem a degradação de ativos, sendo uma boa opção, pois
os custos são mais baixos que a implantação de estufas de secagem (CORRÊA JR.; SCHEFFER, 2013;
OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
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Unidade II
Outra alternativa de secagem é a liofilização. Porém, essa é uma técnica muito cara, mais utilizada
para secagem de extratos vegetais ou alimentos. A técnica consiste no congelamento da amostra e
posterior vácuo, fazendo com que a água congelada (estado sólido) se sublime, mantendo a integridade
da amostra, mas sem a água (WADT, 2000).
Na 5ª edição da Farmacopeia Brasileira, os teores aceitos de umidade de drogas vegetais variam nas
monografias entre 6% e 15%, dependendo da droga (SIMÕES et al., 2017; BRASIL, 2010a).
Após a secagem, a droga vegetal (planta ou órgão da planta) precisa ser conservada para que
não ocorram perdas qualitativas e quantitativas das substâncias ativas, lembrando que o tempo de
armazenamento deve ser o menor possível para evitar posteriores degradações. Em algumas Farmacopeias,
cita-se um ano de armazenamento (BRASIL, 2010a; SIMÕES et al., 2004).
Preferencialmente, o local de armazenamento deve ser de alvenaria (tijolos), com portas e janelas
protegidas com telas, para evitar a entrada de insetos e animais que possam trazer contaminações à
droga vegetal. As drogas devem ficar acondicionadas em embalagens que permitam as trocas gasosas,
pois há uma umidade residual na droga vegetal que pode evaporar, e, se a embalagem não permitir as
trocas gasosas, poderá aumentar a umidade dentro da embalagem, facilitando o ataque de agentes
deletérios (CORRÊA JR.; SCHEFFER, 2013).
Todas as drogas vegetais armazenadas devem ser muito bem identificadas para que não ocorra
a mistura de embalagens, que devem ficar em local preferencialmente escuro (ou iluminação pouco
intensa), com umidade baixa (inferior a 15%), temperatura ideal entre 5 ºC e 15 ºC, e não devem ficar
em contato com o solo. Aconselha-se colocar armários abertos ou ventilados (OLIVEIRA; AKISUE;
AKISUE, 1991).
Lembrete
Na farmácia, o termo “qualidade” não é usado à toa. Toda matéria-prima, como produto acabado,
necessita estar dentro dos padrões de qualidade. Num conceito mais amplo, qualidade seria a adequação
do produto a uma finalidade estabelecida, sob o ponto de vista do consumidor, devendo estar disponível
e a preço adequado (desejável) (SIMÕES et al., 2017; PINTO; KANEKO; OHARA, 2000).
120
FARMACOGNOSIA
No caso de Ifav, o controle de qualidade é um pouco mais complexo que os ativos alopáticos, pois
os Ifav possuem, como vimos, mais de um princípio ativo, sendo muitas vezes difícil garantir a eficácia
farmacológica somente pelo controle de qualidade, demandando ensaios pré-clínicos e clínicos (BRASIL,
2014c; SIMÕES et al., 2004).
Fitoterápico
Medicamento fitoterápico ou
produto tradicional fitoterápico
(2)
(3)
(1)
(6)
(4) (5)
Neste livro-texto, vamos abordar principalmente o controle das drogas vegetais e do derivado vegetal.
A droga vegetal, mesmo tendo origem conhecida, deve ser analisada com todos os parâmetros
de qualidade estabelecidos por Farmacopeias ou Compêndios oficiais nacionais ou internacionais,
pois algumas plantas não são encontradas na Farmacopeia Brasileira, mas podem ser encontradas nas
Farmacopeias e nos Compêndios de outros países. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
autoriza a utilização das Farmacopeias alemã, norte-americana, japonesa, britânica, europeia, francesa,
portuguesa, argentina, mexicana e a internacional, que é elaborada pela Organização Mundial de
Saúde (OMS) (SIMÕES et al., 2017).
121
Unidade II
Saiba mais
Quando não há monografias, por exemplo, de plantas novas, a empresa deve estabelecer parâmetros
de qualidade e elaborar uma monografia, submetendo-a aos órgãos de fiscalização (CARVALHO
et al., 2010).
O início de todo o controle é a amostragem ou tomada de ensaio, que deve representar o todo,
isto é, deve ser representativa de todo o lote. Para isso, uma amostragem precisa ser randomizada
(aleatória), pois, se houver falsificações ou adulterações, é mais comum ocorrerem nas embalagens
iniciais e nos finais (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
O número de embalagens é outro fator a obedecer, pois há critérios que devem ser seguidos para que
se obtenha, estatisticamente, uma amostra confiável, que seja representativa do lote inteiro. Lembre-se
de que todas as embalagens devem ser vistoriadas antes da amostragem – não devem conter aberturas,
lesões ou qualquer dano que possa comprometer a qualidade da droga vegetal (SIMÕES et al., 2017).
A tabela a seguir mostra esquemas de amostragens pelo número de embalagens (N). Se tivermos,
por exemplo, 16 embalagens com droga vegetal, será necessário que se amostre pelo menos cinco
embalagens não seguidas.
122
FARMACOGNOSIA
Outros fatores que devem ser observados na amostragem são: o órgão vegetal, o tamanho das
rasuras, se em pó ou em pedaços grandes, a profundidade (altura) da embalagem etc. Muitas vezes,
durante o transporte, os materiais mais pesados (pedras, areia, galhos) ficam na parte inferior da
embalagem, e os mais leves (menos densos) ficam na parte superior. Para obter uma amostra desde o
fundo (parte inferior) até a parte superior da embalagem, são necessários aparelhos coletores, como
hastes tubulares com abertura na extremidade, que é fechada após a amostragem. É aconselhável que
se coletem amostras na horizontal e na vertical, no mínimo três por embalagem (OLIVEIRA; AKISUE;
AKISUE, 1991).
A tomada de ensaio está relacionada com a massa total do lote. Se tivermos um lote de 100 kg,
a quantidade a ser amostrada será de 250 g da amostra; já em lotes com quantidades de 10 kg ou
menores, a quantidade mínima da tomada de ensaio será de 125 g (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Após a amostragem, é necessária a sua homogeneização, além da redução de tamanho da amostra a ser
analisada. Essa redução é feita por um esquema que se denomina quarteamento, que é dividir a tomada
de ensaio em quatro partes iguais e selecionar duas partes nas diagonais. Depois, junta-se essas duas
porções e divide-se em quatro novamente, e assim sucessivamente, até que se tenha uma quantidade para
realizar a análise (BRASIL, 2019a).
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Unidade II
Amostra
A identificação da amostra é o passo seguinte na análise de drogas vegetais. É uma etapa muito
importante, pois grande parte das amostras vegetais é obtida por extrativismo e comercializada por
pessoas leigas. Mesmo sendo a legislação atual mais rigorosa, diversas falsificações e adulterações ocorrem,
muitas vezes por outros órgãos que não o que seria responsável pela atividade farmacológica, como a
camomila, cujo órgão de interesse é a flor. Porém, grande parte das amostras encontradas apresenta
contaminação por outros órgãos, como caules e folhas. Outras plantas podem ser acrescentadas ao
lote, ou mesmo pode acontecer de plantas erradas serem comercializadas (SOUZA-MOREIRA; SALGADO;
PIETRO, 2010).
A identificação inicia-se pelos aspectos macroscópicos da droga vegetal. Para isso, é necessário que
se compare com a monografia da planta em compêndios oficiais ou científicos. Isso é mais difícil de
ser realizado quando a droga já vem pulverizada; então, faz-se somente a identificação microscópica,
observando estruturas como estômatos, tipos de célula da epiderme, tricomas glandulares e tectores,
inclusões, entre outras (CARDOSO, 2009).
• Nas cascas: verificar o tamanho, a forma, se na superfície externa há presença de líquens, fungos;
na superfície interna, observar a cor, as estrias, o tipo de fratura, entre outras características.
• Nas folhas: verificar se são simples ou compostas, pecioladas ou sésseis, o tipo de nervação, a
base, o ápice, o contorno, a textura, a cor.
124
FARMACOGNOSIA
• Nos frutos: observar, além do tamanho, o tipo de fruto (seco, carnoso, simples), a cor, a forma, a
presença de sementes, a superfície.
• Nos órgãos subterrâneos: verificar se são raízes ou rizomas, a forma, a cor, o tamanho, as
características externas (cicatrizes, fibras, gemas).
O odor das amostras também é importante, pois através dele podemos já ter uma ideia se é
determinada droga vegetal, por exemplo, boldo, erva-doce, erva-cidreira, entre outras, que possuem
odor bem característico, além do sabor. Observe que, para a avaliação dessa característica, devemos
ter cuidado, pois pode haver falsificações ou contaminações com drogas vegetais mais tóxicas, além
de contaminações microbianas ou por metais pesados. Por isso, não se recomenda realizar esse tipo de
teste, a menos que seja solicitado na monografia, principalmente quando as outras características não estão
bem definidas. Se tivermos, por exemplo, boldo-do-chile, este deverá ser amargo, mas antes deveremos
verificar a forma da folha e, se estiver em pó, a cor e o odor (BRASIL, 2019a).
Ao se analisar a droga vegetal erva-cidreira (Melissa officinalis L.), é muito comum encontrá-la
falsificada com a erva-cidreira brasileira – Lippia alba (Mill.) N. E. Br. ex. Britton & P. Wilson –, e, muitas
vezes, só há a Lippia alba. Essa planta cresce com facilidade no território nacional e tem um rendimento
maior, porque é comum acrescentarem os caules e não somente as folhas. Veja que, nesse caso, teremos
uma dupla falsificação, pois não será a droga verdadeira Melissa officinalis e ainda estará adulterada
com caules, sendo que o órgão que possui atividade farmacológica são as folhas.
Observação
Ainda para realizar a identificação, é necessário que se faça a análise microscópica, que é
realizada através de método indireto, pois há necessidade de utilização de um equipamento, no caso,
o microscópio, e também corantes. Para realizar essa identificação, é preciso verificar as características
anatômicas e comparar com monografias, que podem ser encontradas nas farmacopeias ou em literaturas
especializadas. As drogas em pó são mais difíceis de se identificar, como já dito, pela necessidade de utilizar
elementos de identificação isolados (pelos, estômatos, inclusões) e não um tecido, como no caso de
drogas íntegras (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
125
Unidade II
Lembrete
Mas o que são consideradas matérias estranhas? Podem ser outros órgãos da droga que não o descrito
na Farmacopeia, como o Ifav, acima do limite de tolerância especificado na monografia, impurezas de
natureza mineral (areia, pedra) ou outras sujidades como insetos ou parte destes, quaisquer organismos
(fungos) ou produtos de organismos (fezes, pelos) não especificados na monografia. É importante
ressaltar que os produtos (Ifav) devem ser mantidos em locais de armazenamento limpos, seja no
produtor, seja no consumidor, evitando assim contaminações, principalmente a proliferação de fungos,
que podem produzir toxinas (BRASIL, 2019a).
Para realizar a análise de matéria estranha, é necessário pesar a amostra, espalhar em papel branco
e a olho nu, inicialmente, e depois com auxílio de lupa, retirar as sujidades, pesar as sujidades e calcular
a porcentagem de matéria estranha (BRASIL, 2019a).
126
FARMACOGNOSIA
A identificação deve ser feita também por métodos indiretos, através de ensaios físicos (microscopia,
luz UV), químicos (histoquímicos e microquímicos) e físico-químicos (cromatografia) (OLIVEIRA; AKISUE;
AKISUE, 1991).
A microscopia é um método físico, pois há um jogo de lentes que possibilitam a entrada de luz no
equipamento e a visualização do material com o aumento escolhido. Outros métodos físicos utilizados
são o da fluorescência dos flavonoides em luz UV ou mesmo o amido sob luz polarizada, que apresenta
a cruz de Malta (OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Figura 149 – Fluorescência de flavonoides em luz UV (fluorescência mais intensa com AlCl3)
127
Unidade II
As identificações através de processos químicos podem ser histoquímicas. Quando se cora o tecido
vegetal, por exemplo, em uma pequena porção do pó da droga vegetal, adiciona-se gotas de lugol; se
tiver amido, a amostra se tornará azul. Já as reações microquímicas são realizadas para identificar os
metabólitos das drogas, como flavonoides, taninos, alcaloides, antraquinonas, entre outros. As reações
são chamadas de microquímicas porque se utilizam de pequenas quantidades de amostra (0,5 g a 1 g)
colocadas no solvente de extração para retirada dos ativos. Depois, na solução que contém os ativos, são
adicionados reagentes químicos, como acetato de chumbo, cloreto férrico, lugol, proteínas, alcaloides,
entre outros, que irão reagir com o metabólito presente. Essas reações podem ser colorimétricas,
de precipitação, de complexação, e devem ser realizadas, mesmo que a identificação macroscópica
e microscópica tenha sido adequada. Existem situações nas quais essa informação é importante,
pois já foram encontradas drogas vegetais que correspondiam à monografia nos aspectos macro e
microscópico, porém não continham os grupos de metabólitos que deveriam estar presentes (CARDOSO,
2009; OLIVEIRA; AKISUE; AKISUE, 1991).
Um exemplo dessa ocorrência é no caso das quinas (Cinchona spp.). Quando se realizam os testes de
identificação macro e microscópica com as cascas de algumas espécies de quina, estes correspondem à
droga vegetal, porém, ao se realizar o teste para detectar a presença de alcaloides, que são o grupo de
metabólitos com atividade farmacológica, eles não são detectados. Provavelmente, o metabólito que
é utilizado como medicamento e em alimentos (água tônica) é extraído, e, depois, é enviada apenas a
casca sem os alcaloides para comercialização.
Os métodos físico-químicos mais utilizados são os de cromatografia, seja ela em papel, coluna,
camada delgada, gás ou líquida. A cromatografia será melhor explicada mais adiante.
128
FARMACOGNOSIA
O controle de qualidade de drogas vegetais e seus derivados é importante para garantir os parâmetros
que comprovem que determinada droga vegetal terá os componentes que assegurem sua eficácia e
segurança farmacológica.
Exemplo de aplicação
Observação
5.2.1 Cromatografia
As técnicas que envolvem análises cromatográficas são as técnicas de escolha pelos compêndios
oficiais, abrangendo análises de plantas medicinais e seus derivados (SIMÕES et al., 2017).
A palavra “cromatografia” tem origem grega chroma (cor) e graphein (escrever), e foi dado esse
nome pelo botânico russo Mikhael S. Tswett, em 1906, quando descreveu dois trabalhos de separação
de componentes de extrato de folhas (COLLINS; BRAGA; BONATO, 2006). No início, a cromatografia
foi utilizada como método apenas de separação, porém, atualmente, é utilizada como método de
separação, identificação e quantificação, sendo um dos mais usados em análises farmacognósticas
(SIMÕES et al., 2017).
As cromatografias podem ser por princípio de partição (líquido-líquido) ou por adsorção (sólido-líquido).
Um exemplo de cromatografia de partição é a cromatografia em papel, que tem como fase estacionária
o papel (PINTO; KANEKO; OHARA, 2000). Mas como o papel é fase estacionária líquida? A celulose que
compõe o papel é formada por moléculas de glicose, um açúcar que possui várias hidroxilas que formam
ligações de hidrogênio com a água presente na fase móvel, deixando as moléculas da água retidas nessa
celulose e formando uma camada de água interligada com a celulose. Então, os líquidos que não são
129
Unidade II
tão polares como a água serão repelidos por ela, funcionando como uma fase móvel, carregando os
componentes de uma mistura com características mais apolares que a água.
Os óleos voláteis ou etéreos são compostos por vários componentes de polaridades diferentes, porém
com características mais apolares. São solúveis em solventes orgânicos e pouco solúveis em água. Na CCD
que utiliza fase estacionária à base de sílica gel, a qual possui características mais polares, ao tentarmos
separar os componentes do óleo volátil, os que tiverem maior afinidade com a fase estacionária ficarão
retidos nela. No exemplo da figura anterior, como a fase móvel é composta predominantemente por
solvente apolar, o tolueno, os componentes do óleo com características mais apolares terão afinidade
pela fase móvel e a seguirão na evolução (corrida) da cromatografia. Então, é possível constatar que os
compostos mais apolares estão mais próximos da linha final da placa de sílica gel, e os componentes
menos apolares estão mais próximos da linha de partida.
130
FARMACOGNOSIA
1 2 3 4 1 2 3 4
A) B)
Figura 151 – Cromatografia de tinturas e extratos: A) Jacaranda decurrens (fase móvel; clorofórmio/metanol, 7/3; marcador: cafeína e
revelador luz UV, 365 nm); B) Bauhinia forficata (fase móvel: BAW, rutina e revelador Np/Peg). 1 = Tintura estação chuvosa;
2 = extrato estação chuvosa; 3 = tintura estação seca; 4 = extrato estação seca
A CCD é uma ótima técnica para o controle de qualidade em farmácias de manipulação, pois não
exige equipamentos tão caros e sofisticados e permite separação e identificação de substâncias (ALVES
et al., 2011; CARDOSO, 2009). Nas cromatografias da figura anterior, foi possível realizar a identificação,
pois havia padrões que foram utilizados. Note que a substância em que aparece uma única mancha
é o padrão (marcador) cafeína, e através da cor e altura da mancha é possível identificar se a cafeína
está presente nos extratos e tinturas avaliados. Nesse caso, é uma CCD qualitativa, que serve para detectar a
presença da substância. Observe que, com fases móveis diferentes, as substâncias têm comportamentos
diferentes, e suas manchas ficam retiradas em alturas diversas. Também, se os reveladores forem diferentes,
a cor de detecção é diferente.
Na CCD, quando não se tem o padrão para realizar a comparação e identificação de uma substância,
é possível fazer a identificação utilizando o fator de retenção Rf (ou retardamento), comparando-o com
os dados em literatura especializada. “O Rf é o quociente entre as distâncias percorridas simultaneamente
desde o ponto de partida até o centro de maior concentração da mancha do soluto, e até a frente da
fase móvel” (COLLINS; BRAGA; BONATO, 2006). De forma simplificada:
131
Unidade II
Na cromatografia em coluna, a fase estacionária fica compactada dentro de uma coluna vertical com
o material adsorvente, sendo que na parte superior há o local para colocar a amostra que vai eluindo,
descendo com o solvente (fase móvel), por gravidade, fazendo assim a separação dos compostos que
são recolhidos na parte inferior por meio de uma torneira (COLLINS; BRAGA; BONATO, 2006). Uma
dificuldade dessa cromatografia é detectar a separação das substâncias que forem transparentes, da cor
do solvente.
Solvente
Hexano
Éter de petróleo
Cicloexano
Tolueno
Diclorometano
Clorofórmio
Éter etílico
Acetato de etila
Piridina
Acetona
Etanol
Metanol
Ácido acético
Água
Observação
132
FARMACOGNOSIA
133
Unidade II
A CLAE, ou high performance liquid chromatography (HPLC), é uma técnica que permite separar
misturas com grande número de compostos; é mais rápida que a CCD e que a cromatografia em coluna,
pois a fase móvel é pressurizada; também tem alta resolução e eficiência na realização de análises
quantitativas (MRADU et al., 2012; RITTO; OLIVEIRA; AKISUE, 2019). A fase estacionária pode ser normal
(polar) ou reversa (apolar), e a fase móvel pode ser constituída por solventes polares (água, metanol,
acetonitrila, tampões) ou menos polares (hexano, diclorometano) (RITTO; OLIVEIRA; AKISUE, 2019).
Na CLAE, a fase móvel é pressurizada por uma bomba através da coluna e leva as substâncias com
maior afinidade (fase móvel). Essas substâncias são detectadas à medida que passam pelo detector, o
qual envia um sinal para registrar o tempo que a substância demorou para fazer o caminho entre a
coluna e o detector (RITTO; OLIVEIRA; AKISUE, 2019).
0,70
Gallic acid - 3.911
0,60
050
Ascorbic acid - 2.614
Resorcinol - 7.451
0,20
0,10
0,00
0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00 16,00 18,00 20,00 22,00
Minutos
Figura 154 – Cromatograma de uma análise por CLAE de padrões de compostos químicos fenólicos
As substâncias volatilizáveis podem ser separadas por CG, ou gas chromatography (GC). Nessa
cromatografia, a separação é baseada na diferença de distribuição dos componentes da amostra entre
uma fase estacionária (sólida ou líquida) e uma fase móvel, que nesse caso é gasosa. As substâncias a
serem analisadas em CG devem ser passíveis de se volatilizarem, pois a fase móvel é um gás. A volatilização é
realizada por vaporização assim que a amostra é injetada (COLLINS; BRAGA; BONATO, 2006). Essa técnica
é muito utilizada, principalmente na indústria de perfumaria.
134
FARMACOGNOSIA
Eugenol 87,38%
mV
60
40
Timol 6,27%
20
0 20 40 60 80 min
A)
mV
60
Eugenol 71,12%
40
Timol 13,28%
20
0
B)
0 20 40 60 min
Figura 155 – Cromatogramas de CG: cromatogramas do óleo essencial
de alfavaca (Ocimum gratissimum L.), planta fresca (A) e planta seca comercial (B)
Desde os primórdios da civilização, o homem precisou se adaptar ao ambiente para poder comer e
se curar e utilizou a observação dos animais para aprender a selecionar espécies de plantas que fossem
comestíveis e evitar as tóxicas (ALONSO, 2008).
Vejamos um exemplo: se mastigarmos uma folha de hortelã, no início o sabor será agradável, pois
estaremos sentindo os óleos voláteis da hortelã, que tem um sabor refrescante; mas depois o sabor se
tornará mais amargo, porque outras substâncias, que não os óleos voláteis, serão extraídas.
As infusões, decocções, entre outras, são soluções extrativas, pois resultam da dissolução parcial da
droga vegetal de composição heterogênea num determinado solvente. Este dissolve alguns compostos
presentes na droga vegetal (somente os que forem solúveis no solvente), ficando parte dos compostos a
dissolver. O resíduo da droga também é conhecido por marco (PRISTA; ALVES; MORGADO, 1990; ANSEL;
POPOVICH; ALLEN, 2011).
Vamos relacionar o tema ao nosso cotidiano. O café que tomamos é uma solução extrativa, pois,
durante o processo de se fazer o café, a água quente que foi adicionada ao seu pó dissolveu as substâncias
solúveis. Não somente o ativo cafeína foi dissolvido; se assim o fosse, o café seria transparente. No
entanto, o café tem uma coloração marrom, tem o odor característico e o sabor amargo, que estão
presentes porque outras substâncias além da cafeína foram dissolvidas na água quente. Mas a borra de
café, que é o resíduo, resultado da passagem da água sobre o pó de café, também chamada de droga
vegetal, ainda possui substâncias. Portanto, podemos dizer que ela não foi esgotada, ou seja, ainda
existem substâncias que não foram extraídas na água quente. Em uma solução extrativa, como no caso
do café, não se tem uma concentração definida, pois podemos ter soluções mais ou menos concentradas.
Para realizar uma extração adequada, alguns fatores devem ser avaliados, como:
• Estado de divisão da droga vegetal: quanto menor o tamanho da droga, maior a superfície de
contato e melhor a extração, pois o solvente consegue penetrar com maior facilidade e realizar a
dissolução dos componentes.
Observação
136
FARMACOGNOSIA
• Ações adicionais exercidas pelos componentes de uma mesma planta: o caso da saponina é
um exemplo de outro componente que facilita a extração dos compostos, pois as saponinas, sendo
semelhantes a sabões, irão complexar com os lipídeos da membrana, aumentando a porosidade e
entrada do solvente.
• Tempo de extração: normalmente, quanto maior o tempo, melhor a extração, ou até que se
atinja a saturação do solvente (COSTA, 2002; PRISTA; ALVES; MORGADO, 1990).
Devemos lembrar que as soluções extrativas devem ser seletivas (conter a substância de interesse),
econômicas e conservantes (devem manter as características das substâncias, evitando inclusive
contaminação microbiana) (PRISTA; ALVES; MORGADO, 1990).
As plantas medicinais e as drogas vegetais podem ser utilizadas em preparações de uso oral (interno)
ou externo (pele, mucosas) e são chamadas de formas farmacêuticas. A preparação delas requer normas
adequadas para cada caso, e a limpeza deve ser prioridade, seja da planta, seja da droga vegetal
(MATOS, 2007).
Procuraremos utilizar neste livro-texto as mesmas definições utilizadas pelos compêndios oficiais,
com as devidas explicações.
Esse é um dos métodos mais utilizados pela população para a preparação de chás, como constataram
Griz et al. (2017) em uma pesquisa realizada em Recife. Na pesquisa, 55,5% da população utilizavam
o método de infusão para preparar os chás de boldo (Peumus boldus Molina), erva-cidreira (Melissa
officinalis L.) e hortelã pimenta (Mentha x piperita L.), o que revelou ser a técnica correta, visto que as
três plantas têm a folha como órgão que contém os óleos voláteis. As folhas são estruturas mais frágeis
e podem ser preparadas por infusão, mesmo a de boldo. Sendo coriácea, poderia ser feito o chá por
decocção, porém os pesquisados utilizavam as folhas mais rasuradas.
Os infusos devem ser utilizados no mesmo dia em recipientes bem fechados e guardados –
preferencialmente, em geladeira.
137
Unidade II
A) B)
A) B)
Após o cozimento, deve-se deixar em repouso de 10-15 minutos e coar em seguida. Drogas
aromáticas, mesmo de consistência rígida, não devem ser fervidas por longo tempo (MATOS, 2007), e de
preferência deve-se tampar.
Para todas as preparações aquosas, por qualquer método, recomenda-se preparar nova quantidade
de chá no dia seguinte (MATOS, 2007), evitando contaminações microbianas.
138
FARMACOGNOSIA
Os exemplos de maceração utilizada pela população são vários, como as garrafadas, os “álcoois
curtidos da vovó”, as “pingas curtidas”, entre outros. No trabalho realizado por Roque, Rocha e Loiola
(2010), as macerações foram técnicas narradas pela população, principalmente em preparações para
uso dermatológico.
As macerações são realizadas à temperatura ambiente e podem ser simples (uma única porção de
solvente) ou fracionadas, com a adição de várias porções de solvente. É uma técnica considerada estática,
embora em alguns casos possa se usar agitação para fazer a maceração dinâmica ou fazer uma nova
maceração com a mesma droga vegetal, e aí é chamada de remaceração. Os solventes das macerações
podem ser álcoois e derivados, óleos fixos ou água (COSTA, 2002; PRISTA; ALVES; MORGADO, 1990).
A digestão é um processo semelhante à maceração, mas com aquecimento. É um método que lembra
a nossa (humana) digestão. Colocamos a droga ou planta em contato com o solvente por um tempo à
temperatura de cerca de 40 ºC. A vantagem da digestão é que, por ter uma temperatura mais elevada
que a maceração, há maior energia de ativação e contato entre as moléculas, além de menor viscosidade,
o que permite melhor penetração do solvente e maior extração. O inconveniente desse método é que
necessita de equipamentos especiais (aquecimento) e, consequentemente, maior custo (COSTA, 2002).
139
Unidade II
Observação
Os extratos podem ser moles, com consistência xaroposa, e secos, quando se encontram na forma
de pó (BRASIL, 2019a).
Saiba mais
141
Unidade II
A tintura na proporção 1:5 é utilizada para drogas que não são tóxicas; já a tintura 1:10 são para
drogas potencialmente tóxicas.
Tinturas são formas farmacêuticas muito utilizadas desde a Antiguidade (COSTA, 2002).
142
FARMACOGNOSIA
Quando se pensa em extratos ou tinturas que serão utilizadas via oral, normalmente o solvente é
etanólico, pois pode-se diluir a concentração deste ou até adicioná-lo a um sólido e depois evaporá-lo, como
no caso de comprimidos. Pode-se pulverizar o extrato fluido ou a tintura no granulado, e, quando este
secar, o etanol terá evaporado, ficando só as substâncias desejadas. Já quando for para uso externo,
para incorporação em creme ou xampu, é necessário que o solvente seja umectante, isto é, mantenha a
umidade da pele ou não resseque o cabelo. Os solventes umectantes mais utilizados são o propilenoglicol,
a glicerina e o sorbitol (ANSEL; POPOVICH; ALLEN, 2011).
Quando queremos extrair somente os óleos voláteis, essa extração pode ser realizada pelo método
de Clevenger, também chamado de hidrodestilação. A partir desse método, é possível realizar tanto a
extração do óleo como o cálculo de rendimento. Pode ser realizada também por arraste de vapor (BRASIL,
2019a). O método de Clevenger necessita de um equipamento especial, como ilustra a figura a seguir.
Aparelho de Clevenger
Adaptador
Béquer para colera
do óleo essencial
Balão de fundo
redondo
Manta aquecedora
143
Unidade II
A extração e determinação de óleos fixos baseiam-se na sua extração por solvente, pelo equipamento
de Soxhlet. Após o processo de evaporação do solvente, o resíduo obtido, que é determinado por
pesagem, representa a quantidade de óleos fixos presentes na amostra (BRASIL, 2019a).
Condensador
Conector apropriado
Extrator de Soxhlet
Cartucho contendo
a droga vegetal
Tubo-sifão
Tubo de vapor
Conector apropriado
Solvente
Os métodos de extração são importantes, uma vez que esses derivados vegetais podem ser utilizados na
fabricação de medicamentos fitoterápicos ou fitocosméticos, ou podem ser eles mesmos utilizados como
medicamentos oficinais (BRASIL, 1959, 2018).
Resumo
144
FARMACOGNOSIA
145
Unidade II
Exercícios
Questão 1. Leia a transcrição parcial da monografia sobre a arnica e analise a figura a seguir.
Arnica, flor
Arnicae flos
Identificação
Fase móvel: acetato de etila, metil-etil-cetona, ácido fórmico anidro e água (50:30:10:10).
Doseamento
Utilizar cromatógrafo provido de detector ultravioleta a 225 nm; coluna de 0,12 m de comprimento
e 4 mm de diâmetro interno, empacotada com sílica octadecilsilanizada (4 μm); fluxo da fase móvel de
1,2 mL/minuto. Eluente (A): água. Eluente (B): álcool metílico.
Farm. Bras. 6. ed. Plantas medicinais. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 19 dez. 2020.
146
FARMACOGNOSIA
Figura 164
II – A identificação da arnica nos permite quantificar os seus princípios ativos por meio da
espectrofotometria no ultravioleta, a 365 nm, de acordo com a sua monografia.
III – Pela análise da monografia, os sesquiterpenos lactônicos totais, extraídos da casca da arnica,
são quantificados com ajuda do equipamento mostrado na figura, segundo esquema em que a fase
estacionária se encontra dentro da coluna (d).
A) I.
B) II.
C) III.
D) I e II.
E) II e III.
147
Unidade II
I – Afirmativa correta.
Justificativa: para o doseamento dos sesquiterpenos lactônicos totais da flor da arnica, a Farmacopeia
Brasileira recomenda a cromatografia a líquido de alta eficiência em fase reversa (RP), já que a fase
estacionária é uma coluna C18 (octadecilsilano ou RP18), de baixa polaridade, e as fases móveis são
polares (água e metanol).
II – Afirmativa incorreta.
148
FARMACOGNOSIA
Questão 2. Considerando os métodos de extração de óleos fixos e voláteis, observe a figura a seguir.
Água
sai
Água
entra
Com base no exposto e nos seus conhecimentos, analise as afirmativas e a relação proposta entre elas.
Porque
II – As essências são óleos fixos encontrados em plantas aromáticas; trata-se de princípios ativos de
grande interesse comercial.
Análise da questão
A primeira afirmativa é falsa, pois, embora utilize amostras sólidas, o aparelho de Soxhlet não se
destina à extração a frio (a presença do condensador no esquema da figura é indicativa da necessidade
de aquecimento durante o processo) nem à extração de óleos voláteis (essências).
A segunda afirmativa é falsa, pois, embora o aparelho de Soxhlet se destine à extração de óleos
fixos, as essências são de fato encontradas em plantas aromáticas, mas são óleos voláteis (não fixos),
princípios ativos de grande interesse comercial.
150