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Cultura Indígena Brasileira: História e Luta

O documento aborda a história e a cultura dos povos indígenas no Brasil, destacando sua resistência e luta por direitos ao longo dos séculos. Ele enfatiza a importância da autoidentificação e autoestima dos indígenas, bem como os avanços conquistados na Constituição de 1988, que os reconheceu como sujeitos de direitos. Além disso, discute os desafios atuais enfrentados pelos povos indígenas, incluindo questões de terra e a necessidade de políticas públicas adequadas.

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Cultura Indígena Brasileira: História e Luta

O documento aborda a história e a cultura dos povos indígenas no Brasil, destacando sua resistência e luta por direitos ao longo dos séculos. Ele enfatiza a importância da autoidentificação e autoestima dos indígenas, bem como os avanços conquistados na Constituição de 1988, que os reconheceu como sujeitos de direitos. Além disso, discute os desafios atuais enfrentados pelos povos indígenas, incluindo questões de terra e a necessidade de políticas públicas adequadas.

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CULTURA INDÍGENA BRASILEIRA

1
NOSSA HISTÓRIA

A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de um grupo


de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de Graduação
e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz de oferecer
serviços educacionais em nível superior.

O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de conhecimento,
aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a participação no
desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua formação
continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos, técnicos e
culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e propagando os
saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras normas de
comunicação.

Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de forma


confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base
profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no
atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma
das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade.

2
Sumário
.................................................................................................................................... 1

NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................... 2

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 4

QUEM SÃO E QUANTOS SÃO OS ÍNDIOS NO BRASIL ........................................ 11

POR QUE ÍNDIOS OU INDÍGENAS ......................................................................... 13

O QUE PENSAM OS BRASILEIROS SOBRE OS ÍNDIOS BRASILEIROS ............ 18

O DIREITO À DIFERENÇA....................................................................................... 21

ORGANIZAÇÃO SOCIAL INDÍGENA ...................................................................... 26

DIVERSIDADE CULTURAL INDÍGENA ................................................................... 29

PROCESSO HISTÓRICO DE CONSTRUÇÃO DO MOVIMENTO INDÍGENA ......... 33

MOVIMENTO INDÍGENA CONTEMPORÂNEO ....................................................... 38

SITUAÇÃO POLÍTICA DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL ............................ 39

TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL .......................................................................... 40

REFERENCIAS......................................................................................................... 50

3
INTRODUÇÃO

Há uma grande diferença entre os milhões de povos nativos que habitavam as


terras que hoje chamamos de Brasil desde milhares de anos antes da chegada dos
portugueses e as poucas centenas de povos denominados indígenas que atualmente
compõem os 0,4% da população brasileira, segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE, 2001).

A diferença não é só de tempo nem de população, mas principalmente de


cultura, de espírito e de visão do mundo sobre o passado, o presente e o futuro.
Estimativas apontam que no atual território brasileiro habitavam pelo menos 5 milhões
de pessoas, por ocasião da chegada de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500. Se
hoje esse contingente populacional está reduzido a pouco mais de 700.000 pessoas,
muitas coisas ruins as atingiram. De fato, a história é testemunha de que várias

4
tragédias ocasionadas pelos colonizadores aconteceram na vida dos povos originários
dessas terras: escravidão, guerras, doenças, massacres, genocídios, etnocídios e
outros males que por pouco não eliminaram por completo os seus habitantes. Não
que esses povos não conhecessem guerra, doença e outros males. A diferença é que
nos anos da colonização portuguesa eles faziam parte de um projeto ambicioso de
dominação cultural, econômica, política e militar do mundo, ou seja, um projeto político
dos europeus, que os povos indígenas não conheciam e não podiam adivinhar qual
fosse. Eles não eram capazes de entender a lógica das disputas territoriais como parte
de um projeto político civilizatório, de caráter mundial e centralizador, uma vez que só
conheciam as experiências dos conflitos territoriais intertribais e interlocais. A partir do
contato, as culturas dos povos indígenas sofreram profundas modificações, uma vez
que dentro das etnias se operaram importantes processos de mudança sociocultural,
enfraquecendo sobremaneira as matrizes cosmológicas e míticas em torno das quais
girava toda a dinâmica da vida tradicional. No início do contato, apesar de serem uma
maioria local adaptada culturalmente ao meio em que habitavam, não contavam com
uma experiência prévia de intensas relações interétnicas e com os impactos
provocados pela violência dos agentes de colonização, que foram por demais severos.
Foram 506 anos de dominação e, em que pesem as profecias de extinção definitiva
dos povos indígenas no território brasileiro, previstas ainda no milênio passado, os
índios estão mais do que nunca vivos: para lembrar e viver a memória histórica e, mais
do que isso, para resgatar e dar continuidade aos seus projetos coletivos de vida,
orientados pelos conhecimentos e pelos valores herdados dos seus ancestrais,
expressos e vividos por meio de rituais e crenças.

São projetos de vida de 222 povos que resistiram a toda essa história de
opressão e repressão. Viver a memória dos ancestrais significa projetar o futuro a
partir das riquezas, dos valores, dos conhecimentos e das experiências do passado e
do presente, para garantir uma vida melhor e mais abundante para todos os povos.
Mas essa abundância de vida, buscada por todos os povos do mundo, para os povos
indígenas passa necessariamente pela manutenção dos seus modos próprios de
viver, o que significa formas de organizar trabalhos, de dividir bens, de educar filhos,
de contar histórias de vida, de praticar rituais e de tomar decisões sobre a vida
coletiva. Dessa maneira, os povos indígenas não são seres ou sociedades do
passado. São povos de hoje, que representam uma parcela significativa da população

5
brasileira e que por sua diversidade cultural, territórios, conhecimentos e valores
ajudaram a construir o Brasil.

É certo que no Brasil de hoje ainda muitos brasileiros nos veem como índios
preguiçosos, improdutivos, empecilhos para o desenvolvimento. Outros nos veem
como valiosos protetores das florestas, dos rios, e possíveis salvadores do planeta
doente em função da ambição de alguns homens brancos que estão devastando tudo
o que encontram pela frente. E nós índios, o que pensamos de nós mesmos? Ou
melhor, como nos identificamos ou nos posicionamos diante de nós mesmos e diante
da sociedade brasileira e da humanidade? Este livro é uma tentativa de abordar
questões que envolvem autoidentificação, auto-estima, auto-representação e
autoprojeção dos índios diante de si mesmos e da sociedade de uma maneira geral.

As ideias estão baseadas na experiência de vida e de trabalho junto a centenas


de lideranças, comunidades e povos indígenas com os quais tive a oportunidade e o
privilégio de partilhar desafios e conquistas, tristezas e alegrias, derrotas e vitórias,
como foram as importantes conquistas relativas aos direitos indígenas na Constituição
Brasileira em vigor. Desde 1986, ano importante para o início da mobilização indígena
no processo de discussões na Constituinte que visava à garantia dos direitos
indígenas, tenho dedicado minha vida à luta indígena, acompanhando e participando
de todo o processo de mudança do Brasil e dos povos indígenas. Pude vivenciar o
último período de repressão militar contra os nossos povos, principalmente contra
aqueles habitantes das faixas de fronteiras, como o que aconteceu na minha região,
no rio Içana, no começo da década de 1980. Mas também acompanhei e participei de
importantes avanços no tocante aos direitos dos povos indígenas, como os
conquistados na Constituição de 1988, após longo processo de luta, mobilização e
pressão dos índios e de seus aliados.

A conquista histórica dos direitos na Constituição promulgada em 1988 mudou


substancialmente o destino dos povos indígenas do Brasil. De transitórios e incapazes
passaram a protagonistas, sujeitos coletivos e sujeitos de direitos e de cidadania
brasileira e planetária. Acompanhei e participei de todo o processo de surgimento e
de consolidação do chamado movimento indígena organizado, nas décadas de 1970
e 1980. Foi um período histórico da luta de resistência indígena no Brasil, por um lado,
caracterizado pelo surgimento e pela atuação de lideranças indígenas carismáticas
que, com coragem e determinação, enfrentaram as forças colonialistas e

6
integracionistas (Estado e Igreja) que subjugavam os povos indígenas; por outro lado,
os povos indígenas, apoiados por alguns importantes aliados (missionários,
indigenistas e 20 intelectuais), iniciavam uma longa e bonita caminhada de
reorganização, mobilização e articulação política pan-indígena de resistência e de
defesa de seus direitos e interesses coletivos – época heroica que marcou a principal
mudança no curso da história brasileira.

Até então, acreditava-se que a existência dos povos indígenas era uma questão
de tempo; eram tidos como um contingente social transitório. Por isso mesmo, nos
fins da década de 1970, o próprio Estado tentou consumar esse ideal político com um
projeto de emancipação dos índios: por meio de uma lei que deveria transformar os
índios sobreviventes em cidadãos comuns. Assim estaria decretada a extinção final
dos povos indígenas do Brasil.

Em grande medida, a emergência do movimento indígena na luta articulada


pelos seus direitos e interesses foi uma reação e uma resposta aos propósitos do
Estado de emancipação dos índios. Desde então, iniciou-se um longo processo de
superação do fantasma do desaparecimento dos povos indígenas, de reafirmação das
identidades étnicas e da reconstrução dos projetos socioculturais dos povos
sobreviventes. Este processo está em curso com horizontes ainda incertos, mas bem
mais esperançosos por causa do protagonismo cada vez mais forte dos povos
indígenas.

Os resultados dessa mudança de perspectiva histórica na luta de resistência


indígena são expressos por alguns dados, como o crescimento demográfico que está
em torno de 4% ao ano contra 1,6% da população brasileira, o que possibilitou um
aumento de 250.000 índios no início da década de 1970 para 700.000 em 2001. Por
ter acompanhado e participado ativamente de todo esse processo, não tenho dúvidas
sobre os avanços conquistados, além dos novos e dos velhos desafios que os povos
indígenas do Brasil enfrentam na atualidade. Um destes é como pensar políticas para
os índios urbanos, cuja demanda está em franco crescimento. Outro deles é a questão
da terra, que cada dia mais está ficando insuficiente para assegurar sobrevivência
adequada e digna principalmente aos povos indígenas das regiões Sul, Nordeste e
Centro-Oeste, sem levar em consideração as mais de 600 terras que ainda precisam
ser garantidas e regularizadas pelo Estado brasileiro. De todo modo, as perspectivas

7
indígenas de agora são outras em relação às de vinte anos atrás, quando iniciei a luta
junto ao meu povo.

Hoje, os índios conseguiram recuperar algo que naquela época se imaginava


impossível ou indesejável: a autoestima. Junto com a autoestima foi sendo recobrada
a identidade étnica, como uma realização individual e coletiva, mas também como
cidadania reconhecida pela sociedade e pelo Estado. Hoje, quando vejo os povos
indígenas cada vez mais presentes em todos os aspectos da vida nacional – cultura,
agenda de governo, mídia nos seus diversos segmentos, pesquisa, vida universitária,
esportes, política parlamentar e partidária – começo a acreditar que a questão
indígena pode ter não somente maior visibilidade e relevância na vida nacional, mas,
sobretudo, um espaço próprio de autonomia e de liberdade para que se decida como
viver nesse mundo atual com todas as suas vantagens e desvantagens.

Durante dez anos, de 1987 a 1997, fui dirigente da minha comunidade baniwa
de Cararapoço, no rio Içana, período em que também fui dirigente da primeira
organização indígena baniwa, denominada Associação das Comunidades Indígenas
do Rio Içana – ACIRI, e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro –
FOIRN. Ambas foram criadas em 1987 e eu, como um dos fundadores, fui também
um dos quatro diretores eleitos para as primeiras diretorias das duas organizações.

A FOIRN, nesses 18 anos de luta, consolidou-se e hoje é uma das principais e das
maiores organizações indígenas do Brasil. No Rio Içana – rio dos Baniwas – existem
atualmente 10 organizações indígenas, e a ACIRI tornou-se a Organização das
Comunidades Indígenas do Distrito de Assunção do Içana, tendo como sede a mesma
comunidade de Cararapoço.

Em 1989 foi fundada a Comissão de Articulação dos Povos e Organizações


Indígenas do Brasil – CAPOIB, com sede em Brasília, e desde então passei a compor
a Comissão de Coordenação que era formada por 15 lideranças indígenas do Brasil.
Seu objetivo é elaborar e acompanhar o planejamento de atividades da Organização,
implementado por uma coordenação executiva. Esta inserção no movimento indígena
nacional me permitiu conhecer um pouco mais a diversidade de realidades indígenas
do país e as diferentes estratégias adotadas pelos distintos povos e pelas
organizações indígenas. Pude acompanhar, por exemplo, o processo de organização
dos povos indígenas do Nordeste, de Minas Gerais e do Espírito Santo através de

8
uma organização hoje conhecida como APOINME (Articulação dos Povos Indígenas
do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), o que contribuiu decisivamente para o
processo de reafirmação étnica e para a retomada da luta pela terra, denominada de
etnogênese, em franco processo de expansão e de consolidação política nas referidas
regiões.

Em 1996 fui eleito coordenador geral da COIAB para um período de dois anos,
mas em 1997, interessado em estender a minha experiência para o campo de políticas
públicas, aceitei o convite para dirigir a Secretaria Municipal de Educação do meu
município, São Gabriel da Cachoeira/AM, feito pelo então primeiro prefeito petista
eleito no estado do Amazonas, o que foi possível graças a uma ampla aliança com as
principais lideranças indígenas da região. As experiências adquiridas na coordenação
da COIAB e na CAPOIB possibilitaram-me uma visão mais ampla das realidades e
das problemáticas vividas pelos povos indígenas da Amazônia e do Brasil. Essas
vivências, somadas à experiência local, foram decisivas para o profundo e
incondicional compromisso com a luta indígena no Brasil e no mundo.

O PDPI é um dos subprojetos do Programa de Proteção das Florestas Tropicais


do Brasil – PPG7, criado em 1992 durante a realização da grande conferência mundial
sobre meio ambiente, no Rio de Janeiro – mais conhecida por RIO 92 ou ECO 92 –
como resultado de muita pressão e da articulação da sociedade civil brasileira
organizada, inclusive do movimento indígena. O PDPI conta com recursos financeiros
e técnicos do governo alemão e do governo britânico para apoiar iniciativas dos povos
indígenas da Amazônia que visam proteger as terras indígenas, a valorização das
culturas tradicionais, o fortalecimento das organizações indígenas e as atividades
econômicas sustentáveis. A fase preparatória do projeto, que consistiu em amplas
consultas aos povos indígenas sobre a concepção, o perfil, as áreas temáticas, os
formulários para apresentação dos projetos e o nível de participação indígena,
recebeu apoio financeiro do governo japonês. Esse período corresponde aos anos de
1999 a 2001. Entendo que o maior domínio e a apropriação adequada desses
poderosos instrumentos de trabalho e luta do mundo de hoje não me tornaram menos
índio, ao contrário, proporcionaram-me maior capacidade de intervenção e
contribuição para o fortalecimento da luta histórica do meu povo Baniwa e dos povos
indígenas do Brasil. Não se trata, portanto, de verdades absolutas ou argumentos
certos, mas de um ponto de vista sobre a vida e sobre o mundo, a partir das múltiplas

9
experiências de pessoas que participaram e participam de uma realidade concreta e
o fizeram em determinado período da longa história da humanidade e do mundo.

O compromisso do diálogo travado aqui é com os índios reais, aqueles que


vivem no mundo de hoje, em um esforço de mostrar de forma mais ampla a situação
nacional e os desafios que aguardam a geração de graduados indígenas, além das
expectativas do movimento, das organizações e das comunidades indígenas em
relação a esses novos 24 atores, potenciais lideranças de suas respectivas
comunidades e povos. Esperamos que os diversos temas abordados sirvam para
compor novos programas de trabalho, de estudos e de pesquisas que levem em
consideração as demandas, as necessidades e os desejos concretos e legítimos dos
povos indígenas do Brasil.

Por fim, devo chamar a atenção para um desafiante tema – os índios urbanos
– um caminho novo e longo que precisa ser aprofundado e valorizado em todos os
campos de ação do movimento indígena e indigenista. De início, as perspectivas dos
índios urbanos não são e não podem ser as mesmas dos índios aldeados. O simples
fato de os índios urbanizados viverem em condições que não dependem de território
para sobreviverem já é suficiente para se ter certeza de que não podem ser tratados
de forma homogênea, o que não significa exclusão. Os índios aldeados vivem dos
recursos oferecidos pela natureza, enquanto os índios que moram em centros urbanos
vivem geralmente de prestações de serviços e como mão-de-obra do mercado de
trabalho. Disso resulta que a perspectiva dos índios aldeados estará mais focada para
a valorização dos seus conhecimentos tradicionais de produção, consumo e
distribuição de bens, enquanto os índios de centros urbanos estarão propensos a
apostar na qualificação profissional e na capacidade de inserção no mercado local e
global. O fato demonstra, por exemplo, a necessidade de se pensarem projetos de
escolas e de formação diferenciada para as duas realidades indígenas distintas. Tal
diferença de perspectivas de vida, no entanto, não pode justificar o estabelecimento
de fronteiras rígidas entre as duas realidades, o que seria uma outra forma de
exclusão e de discriminação, porque ambas as perspectivas são, na verdade, parte
de uma mesma referência sociocultural e não existe nada que impossibilite que os
diferentes horizontes de vida se reencontrem em algum momento da história.
Queremos com isso destacar que os jovens indígenas que, por alguma razão
histórica, se distanciaram aparentemente de suas comunidades e culturas tradicionais

10
podem restabelecer com elas – e isto é sempre possível e desejável – seus vínculos
afetivos, culturais e políticos, ainda que à distância. Existem inúmeros casos em que
jovens indígenas que saíram há muito tempo de suas aldeias para estudar fora, ou
mesmo para se aventurar mundo afora, voltaram e se tornaram lideranças de muito
prestígio nas suas comunidades, colocando a serviço do seu povo toda a experiência
acumulada e as lições aprendidas no mundo exterior.

Sabemos que hoje existem muitos jovens indígenas que estão saindo de suas
comunidades e aldeias para estudar, principalmente no âmbito da formação
universitária, o que é muito salutar para seus locais de origem.

É importante que se tenha noção de que qualquer saída desse gênero fragiliza,
de início, o vínculo identitário com a sua comunidade, mas é absolutamente possível
administrar tal distanciamento e converter a inquietude quanto a isso, colocando a
serviço de seu povo tudo o que aprendeu, assim se sentindo realizado e feliz,
individual e coletivamente. A rigor, é isso que as comunidades, os povos e as
organizações indígenas esperam dos jovens quando partem para estudar.

No entanto, ficam muitas vezes decepcionados quando eles, ao concluírem


seus estudos, trocam sua gente e seu espaço de origem por salários de empresas ou
de órgãos públicos e se esquecem de retribuir a confiança que neles foi depositada.

QUEM SÃO E QUANTOS SÃO OS ÍNDIOS NO BRASIL

Falar hoje de índios no Brasil significa falar de uma diversidade de povos,


habitantes originários das terras conhecidas na atualidade como continente
americano. São povos que já habitavam há milhares de anos essas terras, muito antes
da invasão europeia.

Segundo uma definição técnica das Nações Unidas, de 1986, as comunidades,


os povos e as nações indígenas são aqueles que, contando com uma continuidade
histórica das sociedades anteriores à invasão e à colonização que foi desenvolvida
em seus territórios, consideram a si mesmos distintos de outros setores da sociedade,
e estão decididos a conservar, a desenvolver e a transmitir às gerações futuras seus

11
territórios ancestrais e sua identidade étnica, como base de sua existência continuada
como povos, em conformidade com seus próprios padrões culturais, as instituições
sociais e os sistemas jurídicos.

Entre os povos indígenas existem alguns critérios de auto definição mais


aceitos, embora não sejam únicos e nem excludentes: Continuidade histórica com
sociedades pré-coloniais. Estreita vinculação com o território. Sistemas sociais,
econômicos e políticos bem definidos. Língua, cultura e crenças definidas. Identificar-
se como diferente da sociedade nacional. Vinculação ou articulação com a rede global
dos povos indígenas.

Estimativas demográficas apontam que por volta de 1500, quando da chegada


de Pedro Álvares Cabral à terra hoje conhecida como Brasil, essa região era habitada
pelo menos por 5 milhões de índios.

Hoje, essa população está reduzida a pouco mais de 700.000 índios em todo
Brasil, segundo dados de 2001 do IBGE.

A Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a Fundação Nacional de Saúde


(FUNASA) trabalham com dados ainda muito inferiores: pouco mais de 300.000
índios. Essa diferença ocorre em função de diferentes métodos utilizados para a
obtenção de dados. A FUNAI e a FUNASA, por exemplo, trabalham apenas com as
populações indígenas reconhecidas e registradas por elas, geralmente as populações
habitantes de aldeias localizadas em terras indígenas reconhecidas oficialmente.

Nos dados da FUNAI e da FUNASA, portanto, não está contabilizado o grande


número de indígenas que atualmente reside nas cidades ou em terras indígenas ainda
não demarcadas ou reconhecidas, mas que nem por isso deixam de ser índios.

O IBGE utilizou o método de auto identificação para chegar aos seus números,
o que parece ser mais confiável e realista. Além disso, ainda existem povos indígenas
brasileiros que estão fora desses dados, inclusive os do IBGE, e que são denominados
“índios isolados”, ou índios ainda em vias de reafirmação étnica após anos de
dominação e repressão cultural. Os dados da FUNASA são importantes no que se
refere às informações sobre as populações indígenas que vivem nas terras indígenas.
Segundo dados do Sistema de Informação de Atenção à Saúde Indígena/
SIASI/FUNASA, o contingente populacional habitante das terras indígenas

12
reconhecidas pelo governo brasileiro e cadastrado pelo Sistema é de 374.123 índios,
distribuídos em 3.225 aldeias, pertencentes a 291 etnias e falantes de 180 línguas
divididas por 35 grupos linguísticos (FUNASA, Relatório DESAI, 2002:3).

Dos 374.123 indígenas atendidos pela FUNASA, 192.773 são homens e


181.350 são mulheres. Ainda segundo os dados da FUNASA, a população indígena
está dispersa por todo o território brasileiro, sendo que na região Norte concentra-se
o maior contingente populacional indígena, com 49%, e na região Sudeste está o
menor contingente populacional indígena do país, com apenas 2%.

Desde a última década do século passado vem ocorrendo no Brasil um


fenômeno conhecido como “etnogênese” ou “reetinização”. Nele, povos indígenas
que, por pressões políticas, econômicas e religiosas ou por terem sido despojados de
suas terras e estigmatizados em função dos seus costumes tradicionais, foram
forçados a esconder e a negar suas identidades tribais como estratégia de
sobrevivência – assim amenizando as agruras do preconceito e da discriminação –
estão reassumindo e recriando as suas tradições indígenas. Esse fenômeno está
ocorrendo principalmente na região Nordeste e no sul da região Norte, precisamente
no estado do Pará.

A criação de organizações indígenas formais que representem os seus


interesses perante a sociedade nacional e global e por meio das quais possam ser
construídas alianças para resolverem suas demandas constitui um passo importante
na redefinição do lugar dos povos indígenas no Brasil.

A consolidação do movimento indígena, a oferta de políticas públicas


específicas e a recente e crescente revalorização das culturas indígenas estão
possibilitando a recuperação do orgulho étnico e a reafirmação da identidade
indígena. Neste sentido, os povos indígenas brasileiros de hoje são sobreviventes e
resistentes da história de colonização europeia, estão em franca recuperação do
orgulho e da autoestima identitária e, como desafio, buscam consolidar um espaço
digno na história e na vida multicultural do país.

POR QUE ÍNDIOS OU INDÍGENAS

13
Este capítulo abordará a utilização das categorias índio e parente nas relações
intra e interétnicas – vistas como fundamentais para que se entendam as novas
formas de relações sociais, políticas e econômicas dos povos indígenas do Brasil –
além de outros termos e conceitos próprios do universo indígena e indigenista, no
esforço de contribuir para a superação das confusões mais gerais que surgem por
causa da falta de esclarecimento a respeito das denominações e dos conceitos
tomados muitas vezes como absolutos. O que se pretende é valorizar, relativizando
as denominações e os conceitos, toda a riqueza histórica e cultural dos povos
indígenas do Brasil.

A denominação índio ou indígena, segundo os dicionários da língua


portuguesa, significa nativo, natural de um lugar. É também o nome dado aos
primeiros habitantes (habitantes nativos) do continente americano, os chamados
povos indígenas. Mas esta denominação é o resultado de um mero erro náutico. O
navegador italiano Cristóvão Colombo, em nome da Coroa Espanhola, empreendeu
uma viagem em 1492 partindo da Espanha rumo às Índias, na época uma região 30
da Ásia. Castigada por fortes tempestades, a frota ficou à deriva por muitos dias até
alcançar uma região continental que Colombo imaginou que fossem as Índias, mas
que na verdade era o atual continente americano. Foi assim que os habitantes
encontrados nesse novo continente receberam o apelido genérico de “índios” ou
“indígenas” que até hoje conservam. Deste modo, não existe nenhum povo, tribo ou
clã com a denominação de índio. Na verdade, cada “índio” pertence a um povo, a uma
etnia identificada por uma denominação própria, ou seja, a autodenominação, como o
Guarani, o Yanomami etc. Mas também muitos povos recebem nomes vindos de
outros povos, como se fosse um apelido, geralmente expressando a característica
principal daquele povo do ponto de vista do outro. Ex.: Kulina ou Madjá. Os Kanamari
se autodenominam Madjá, mas os outros povos da região do Alto Juruá os chamam
de Kanamari.

Desde a primeira invasão de Cristóvão Colombo ao continente americano, há


mais de 508 anos, a denominação de índios dada aos habitantes nativos dessas terras
continua até os dias de hoje. Para muitos brasileiros brancos, a denominação tem um
sentido pejorativo, resultado de todo o processo histórico de discriminação e
preconceito contra os povos nativos da região. Para eles, o índio representa um ser
sem civilização, sem cultura, incapaz, selvagem, preguiçoso, traiçoeiro etc. Para

14
outros ainda, o índio é um ser romântico, protetor das florestas, símbolo da pureza,
quase um ser como o das lendas e dos romances. Com o surgimento do movimento
indígena organizado a partir da década de 1970, os povos indígenas do Brasil
chegaram à conclusão de que era importante manter, aceitar e promover a
denominação genérica de índio ou indígena, como uma identidade que une, articula,
visibiliza e fortalece todos os povos originários do atual território brasileiro e,
principalmente, para demarcar a fronteira étnica e identitária entre eles, enquanto
habitantes nativos e originários dessas terras, e aqueles com procedência de outros
continentes, como os europeus, os africanos e os asiáticos.

A partir disso, o sentido pejorativo de índio foi sendo mudado para outro positivo
de identidade multiétnica de todos os povos nativos do continente. De pejorativo
passou a uma marca identitária capaz de unir povos historicamente distintos e rivais
na luta por direitos e interesses comuns. É neste sentido que hoje todos os índios se
tratam como parentes.

O termo parente não significa que todos os índios sejam iguais e nem
semelhantes. Significa apenas que compartilham de alguns interesses comuns, como
os direitos coletivos, a história de colonização e a luta pela autonomia sociocultural de
seus povos diante da sociedade global.

Cada povo indígena constitui-se como uma sociedade única, na medida em


que se organiza a partir de uma cosmologia particular própria que baseia e
fundamenta toda a vida social, cultural, econômica e religiosa do grupo. Deste modo,
a principal marca do mundo indígena é a diversidade de povos, culturas, civilizações,
religiões, economias, enfim, uma multiplicidade de formas de vida coletiva e individual.
A decisão qualificada tomada pelos povos indígenas do Brasil quanto à valorização
positiva da denominação genérica de índio ou indígena, expressa por meio do termo
parente, simboliza a superação do sentimento de inferioridade imposto a eles pelos
colonizadores durante todo o processo de colonização. É notório que a qualificação
estratégica dada à categoria social e política destes termos tenha impulsionado a
emergência das reafirmações de identidades étnicas particulares de cada povo com
força e clareza nunca antes vistas, ou seja, enquanto a denominação índio ou indígena
era negada pelos povos indígenas por ser pejorativa e desqualificadora, as
identidades étnicas particulares também eram negadas ou reprimidas.

15
Antes da década de 1970, chamar alguém de índio, fosse ele nativo ou não,
era uma ofensa. E como a denominação estava associada aos povos nativos,
consequentemente as denominações e as autodenominações étnicas eram
igualmente indesejáveis. Por isso, muitos índios negavam suas identidades e suas
origens, ou melhor, tentavam negar suas origens étnicas, pois na maioria dos casos
a negação era uma verdadeira ilusão, uma vez que ninguém consegue esconder
aparência física, usos, costumes e modos de vida e de pensamento. A denominação
original de caboclo na Amazônia, por exemplo, está fortemente relacionada a essa
negação das identidades étnicas dos índios. Foi uma invenção daqueles que não
queriam se identificar como índios, mas também não podiam se reconhecer como
brancos ou negros (pois não pareciam), como se fosse uma identidade de transição
de índio (ser inferior ou cultura inferior) para branco (ser civilizado e superior). Neste
sentido, o caboclo seria aquele que nega sua origem nativa, mas que por não poder
ainda se reconhecer como branco se identificava com o mais próximo possível do
branco.

É importante destacar que essa mudança de superação da autonegação


identitária imposta trouxe outros constrangimentos para os povos indígenas, ainda
hoje presentes no dia-a-dia de muitos índios. Como exemplo, podemos citar o caso
de uma parcela da população Baniwa habitante do baixo rio Içana, no alto rio Negro,
que desde a década de 1950 foi substituindo a língua baniwa pela língua nheengatu
ou língua geral. À época essa substituição era sinônimo de grande conquista de valor
social, na medida em que significava se afastar da identidade baniwa para incorporar
a identidade cabocla, portanto, mais próxima da identidade branca como etapa
superior da civilização humana. Naquela época, os falantes de nheegatu na região do
alto rio Negro eram considerados caboclos, portanto, civilizados. O nheegatu ou língua
geral é uma variação da língua tupi-guarani falada por diversos povos indígenas do
litoral brasileiro, que foi sistematizada por missionários e levada a outros povos
indígenas do Brasil como uma língua de comunicação pan-indígena. Com a
emergência do movimento indígena no início da década de 1980, essa realidade
sociocultural mudou completamente.

O valor sociocultural passou a ter outra referência. Começaram a ser


valorizados os povos que falavam suas línguas originárias e praticavam suas
tradições. Ser um Baniwa falante da língua e praticante das tradições baniwa tornou-

16
se um valor máximo, ao passo que ser caboclo transformou-se em um contravalor,
isto é, na ausência ou na negação de identidade, ou ainda, como se diz na região, um
“zé-ninguém”, um “warixí” (significa párvulo em nheegatu)). Por conta disso, os
Baniwa que só falavam o nheegatu passaram a ser menosprezados e discriminados
e entraram 33 numa relativa crise de identidade individual e coletiva transitória que os
forçou a lutar por resgate e recuperação de suas origens e tradições, o que não é fácil
e, muitas vezes, nem desejável.

O processo de reafirmação das identidades étnicas, articulado no plano


estratégico pan-indígena por meio da aceitação da denominação genérica de índios
ou indígenas, resultou na recuperação da autoestima dos povos indígenas perdida ao
longo dos séculos de dominação e escravidão colonial.

O índio de hoje é um índio que se orgulha de ser nativo, de ser originário, de


ser portador de civilização própria e de pertencer a uma ancestralidade particular. Este
sentimento e esta atitude positiva estão provocando o chamado fenômeno da
etnogênese, principalmente no Nordeste.

Os povos indígenas, que por força de séculos de repressão colonial escondiam


e negavam suas identidades étnicas, agora reivindicam o reconhecimento de suas
etnicidades e de suas territorialidades nos marcos do Estado brasileiro. Para estes
povos, denominados também de “ressurgidos” ou “resistentes”, não fazer parte do
arco de aliança política e identitária de parentes indígenas pode ser atualmente o pior
castigo. Neste sentido, eles representam hoje o segmento indígena mais ativo e mais
combativo na busca por reconhecimento e visibilidade política, buscando marcar
posição e fronteira étnica que lhes garantam um espaço sociocultural e político num
mundo que ilusoriamente se pretende cada vez mais monocultural e global. Deste
modo, foi sendo possível construir uma nova conformação política pan-indígena em
torno de direitos e interesses comuns, superando a maior inimiga interna dos povos
indígenas durante os séculos de colonização e tão bem aproveitada pelos
colonizadores europeus: as guerras intertribais. De inimigos tornaram-se parentes,
companheiros, irmãos de história na luta por direitos e interesses comuns contra um
inimigo comum, aquele que os quer indistintos, portanto, extintos, enquanto povos
etnicamente diferenciados.

17
A nova estratégia de aliança política pan-indígena é a responsável pelas mais
importantes conquistas dos povos indígenas do Brasil: a superação do trágico projeto
de extinção dos índios e a arrojada promessa de construção de uma unidade política
dos povos indígenas que não signifique igualdade ou homogeneidade sociocultural e
política, mas sim uma unidade articulada de povos culturalmente distintos, na defesa
de seus direitos e interesses comuns. Dentre esses direitos e interesses encontra-se
a própria continuidade das diferenças de projetos societários, de garantia das
territorialidades e da conquista de cidadania global diferenciada.

O QUE PENSAM OS BRASILEIROS SOBRE OS ÍNDIOS


BRASILEIROS

Historicamente os índios têm sido objeto de múltiplas imagens e conceituações


por parte dos não-índios e, em consequência, dos próprios índios, marcadas
profundamente por preconceitos e ignorância. Desde a chegada dos portugueses e
outros europeus que por aqui se instalaram, os habitantes nativos foram alvo de
diferentes percepções e julgamentos quanto às características, aos comportamentos,
às capacidades e à natureza biológica e espiritual que lhes são próprias. Alguns
religiosos europeus, por exemplo, duvidavam que os índios tivessem alma. Outros
não acreditavam que os nativos pertencessem à natureza humana pois, segundo eles,
os indígenas mais pareciam animais selvagens. Estas são algumas maneiras
diferentes de como “os brancos” concebem a totalidade dos povos indígenas a partir
da visão etnocêntrica predominante no mundo ocidental europeu. Dessa visão
limitada e discriminatória, que pautou a relação entre índios e brancos no Brasil desde
1500, resultou uma série de ambiguidades e contradições ainda hoje presentes no
imaginário da sociedade brasileira e dos próprios povos indígenas. A sociedade
brasileira majoritária, permeada pela visão evolucionista da história e das culturas,
continua considerando os povos indígenas como culturas em estágios inferiores, cuja
única perspectiva é a integração e a assimilação à cultura global. Os povos indígenas,
com forte sentimento de inferioridade, enfrentam duplo desafio: lutar pela
autoafirmação identitária e pela conquista de direitos e de cidadania nacional e global.

18
As contradições e os preconceitos têm na ignorância e no desconhecimento
sobre o mundo indígena suas principais causas e origens e que precisam ser
rapidamente superados. Um mundo que se auto define como moderno e civilizado
não pode aceitar conviver com essa ausência de democracia racial, cultural e política.
Como se pode ser civilizado se não se aceita conviver com outras civilizações? Como
se pode ser culto e sábio se não se conhece – e o que é bem pior – não se aceita
conhecer outras culturas e sabedorias? Enquanto isso não acontece, continuamos
convivendo com as contradições em relação aos povos indígenas, as quais podemos
resumir na atualidade em três distintas perspectivas sociais. A primeira diz respeito à
antiga visão romântica sobre os índios, presente desde a chegada dos primeiros
europeus ao Brasil. É a visão que concebe o índio como ligado à natureza, protetor
das florestas, ingênuo, pouco capaz ou incapaz de compreender o mundo branco com
suas regras e valores. O índio viveria numa sociedade contrária à sociedade moderna.
Essa visão criada por cronistas, romancistas e intelectuais, desde a chegada de Pedro
Álvares Cabral em 1500, perdura até os dias de hoje e tem fundamentado toda a
relação tutelar e paternalista entre os índios e a sociedade nacional, institucionalizada
pelas políticas indigenistas do último século, inicialmente, por meio do Serviço de
Proteção ao Índio (SPI) e, atualmente, pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Aqui
o índio é percebido sempre como uma vítima e um coitado que precisa de tutor para
protegê-lo e sustentá-lo, isto é, sem tutor ou protetor os índios não conseguiriam se
defender, se proteger, se desenvolver e sobreviver. Daí a ideia da FUNAI como pai e
mãe, ainda muito presente entre vários povos indígenas do Brasil. A segunda
perspectiva é sustentada pela visão do índio cruel, bárbaro, canibal, animal selvagem,
preguiçoso, traiçoeiro e tantos outros adjetivos e denominações negativos. Essa visão
também surgiu desde a chegada dos portugueses, através principalmente do
seguimento econômico, que queria ver os índios totalmente extintos para se
apossarem de suas terras para fins econômicos. As denominações e os adjetivos
eram para justificar suas práticas de massacre, como autodefesa e defesa dos
interesses da Coroa.

Ainda hoje essa visão continua sendo sustentada por grupos econômicos que
têm interesse pelas terras indígenas e pelos recursos naturais nelas existentes. Os
índios são taxados por esses grupos como empecilhos ao desenvolvimento
econômico do país, pelo simples fato de não aceitarem se submeter à exploração

19
injusta do mercado capitalista, uma vez que são de culturas igualitárias e não
cumulativistas. Dessa visão resulta todo o tipo de perseguição e violência contra os
povos indígenas, principalmente contra suas lideranças que atuam na defesa de seus
direitos. A terceira perspectiva é sustentada por uma visão mais cidadã, que passou
a ter maior amplitude nos últimos vinte anos, o que coincide com o mais recente
processo de redemocratização do país, iniciado no início da década de 1980, cujo
marco foi a promulgação da Constituição de 1988. Eu diria que é a visão mais
civilizada do mundo moderno, não somente sobre os índios, mas sobre as minorias
ou as maiorias socialmente marginalizadas. Esta visão concebe os índios como
sujeitos de direitos e, portanto, de cidadania. E não se trata de cidadania comum,
única e genérica, mas daquela que se baseia em direitos específicos, resultando em
uma cidadania diferenciada, ou melhor, plural. Aqui os povos indígenas ganharam o
direito de continuar perpetuando seus modos próprios de vida, suas culturas, suas
civilizações, seus valores, garantindo igualmente o direito de acesso a outras culturas,
às tecnologias e aos valores do mundo como um todo.

Direitos específicos e cidadania plural indicam teoricamente que os povos


indígenas têm um tratamento jurídico diferenciado. Por exemplo, é concedido a eles
o direito de terra coletiva suficiente para a sua reprodução física, cultural e espiritual,
e de educação escolar diferenciada baseada nos seus próprios processos de ensino-
aprendizagem e produção, reprodução e distribuição de conhecimentos.

Dessa nova perspectiva, do ponto de vista dos povos indígenas, trataremos de


forma mais aprofundada nos próximos capítulos. Por ora, interessa saber um pouco
mais sobre como os brasileiros não índios percebem e concebem o futuro de vida dos
povos indígenas do Brasil. Para isso, utilizaremos uma interessante pesquisa
realizada pelo IBOPE a pedido do Instituto Socioambiental (ISA) em 2000, por ocasião
das comemorações dos 500 anos do “Descobrimento do Brasil” e publicada por Povos
Indígenas no Brasil (ISA, 2000). É uma pesquisa de opinião pioneira desta natureza,
envolvendo povos indígenas.

Segundo o IBOPE, foram ouvidos 2.000 homens e mulheres entre 24 e 28 de


fevereiro daquele ano. Imagem dos índios: 78% dos entrevistados revelaram ter
interesse no futuro dos índios sobre os quais prevalece uma visão positiva; 88%
concordam que os índios ajudam a conservar a natureza e vivem em harmonia com
ela, e que não são preguiçosos, mas encaram o trabalho de forma diferente da

20
sociedade branca ocidental; 89% afirmaram que os índios não são ignorantes, mas
possuem uma cultura diferente da cultura branca e que só são violentos com aqueles
que invadem as suas terras para tomar-lhes. As terras indígenas:

Apenas 22% dos entrevistados consideraram que os 11% das terras do Brasil
de posse dos índios sejam muita terra para eles, enquanto que 68% entendem que a
extensão das terras indígenas é adequada ou suficiente; 70% dos brasileiros
entrevistados consideraram que os índios, mesmo falando português e se vestindo
como os brancos, devem ter seus direitos territoriais garantidos.

O DIREITO À DIFERENÇA

Há quase um consenso nacional quanto ao reconhecimento dos direitos dos


índios de serem diferentes dos brancos, nos modos de viver, de pensar e de trabalhar;
92% dos brasileiros acham que os índios devem ter os direitos de continuar vivendo
de acordo com os seus costumes e suas culturas; 67% discordam que os índios
devam ser preparados para abandonar suas aldeias e selvas para viver como e com
os brancos.

Futuro: Em razão do trágico processo histórico vivido durante os 500 anos de


colonização, a garantia do futuro dos povos indígenas continua, na opinião de muitos
brasileiros, a ser muito incerta; 45% expressaram otimismo quanto ao futuro dos
povos indígenas do Brasil, tanto com relação a continuarem vivendo nas suas terras
quanto à preservação da sua cultura, enquanto 21% manifestaram pessimismo quanto
a isso.

Papel do governo: A maioria dos brasileiros entrevistados acha que o papel do


governo brasileiro é garantir a efetividade dos direitos indígenas para que continuem
vivendo de acordo com seus modos de vida desejada, implantando programas de
saúde e educação adequados (48%), demarcando as suas terras (37%) e estimulando
a produção de bens voltados para o mercado (31%); 82% acham que o governo
federal deveria atuar para evitar a sua extinção. Os entrevistados apontaram três
principais problemas enfrentados pelos povos indígenas: invasão das terras indígenas
(57%), desrespeito à cultura (41%) e doenças transmitidas pelo contato com os

21
brancos (28%). A opinião pública brasileira, expressa por meio da pesquisa acima
mencionada, confirma uma tendência percebida na prática cotidiana dos povos
indígenas: a do aumento progressivo de pessoas e de segmentos sociais que vão
superando a visão estereotipada sobre os primeiros habitantes do Brasil. Dito de outra
forma, há uma consciência cada vez maior de que os povos indígenas constituem,
sim, um dos pilares da sociedade brasileira e é uma referência importante, senão
central, da identidade nacional, assim como é o negro, sem os quais o Brasil não é
possível ser ele mesmo. Este caminho para o reencontro com sua história e sua
origem pode significar um reencontro consigo mesmo, única possibilidade de seu
desenvolvimento pleno, justo, democrático e igualitário diante da diversidade étnica e
cultural de seu povo.

Identidade Indígena: o orgulho de ser índio

O reconhecimento da cidadania indígena brasileira e, consequentemente, a


valorização das culturas indígenas possibilitaram uma nova consciência étnica dos
povos indígenas do Brasil. Ser índio transformou-se em sinônimo de orgulho
identitário. Ser índio passou de uma generalidade social para uma expressão
sociocultural importante do país.

Ser índio não está mais associado a um estágio de vida, mas à qualidade, à
riqueza e à espiritualidade de vida. Ser tratado como sujeito de direito na sociedade é
um marco na história indígena brasileira, propulsor de muitas conquistas políticas,
culturais, econômicas e sociais.

Os povos indígenas do Brasil vivem atualmente um momento especial de sua


história no período pós-colonização. Após 500 anos de massacre, escravidão,
dominação e repressão cultural, hoje respiram um ar menos repressivo, o suficiente
para que, de norte a sul do país, eles possam reiniciar e retomar seus projetos sociais
étnicos e identitários.

Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas. Terras


tradicionais estão sendo reivindicadas, reapropriadas ou reocupadas pelos
verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas e praticadas na
aldeia, na escola e nas cidades. Rituais e cerimônias tradicionais há muito tempo não
praticados estão voltando a fazer parte da vida cotidiana dos povos indígenas nas

22
aldeias ou nas grandes cidades brasileiras. Isto é um retorno ao passado ou puro
saudosismo? De modo algum. Isto é identidade indígena e orgulho de ser índio. É ser
o que se é, como acontece com todas as sociedades humanas em condições normais
de vida. Passado um longo período institucionalizado de repressão (pois ainda é forte
no Brasil a repressão cultural não institucionalizada, não oficial, percebida, por
exemplo, na implementação das políticas públicas e no reconhecimento pleno dos
direitos garantidos, como o direito à terra, à educação e à saúde adequada), as novas
gerações de jovens indígenas parecem carentes de uma identidade que os identifique
e lhes garanta um espaço social e identitário em um mundo cada vez mais global e,
ao mesmo tempo, profundamente segmentário no que diz respeito à cultura, à
ancestralidade, à origem étnica, a partir das quais os direitos econômicos, sociais,
culturais contemporâneos se articulam e se fundamentam.

É notório o interesse das novas gerações indígenas, mais do que aquele dos
velhos anciãos, pela recuperação do valor e do significado da identidade indígena,
como afirmou um índio bororo certa vez: “É desejo de todo índio entrar e fazer parte
da modernidade e seu passaporte primordial é a sua tradição”. Parece ser esta a razão
principal da revalorização da identidade indígena. Entrar e fazer parte da modernidade
não significa abdicar de sua origem nem de suas tradições e modos de vida próprios,
mas de uma interação consciente com outras culturas que leve à valorização de si
mesmo.

Para os jovens indígenas, não é possível viver a modernidade sem uma


referência identitária, já que permaneceria o vazio interior diante da vida frenética
aparentemente homogeneizadora e globalizadora, mas na qual subjazem profundas
contradições, como a das identidades individuais e coletivas. As gerações indígenas
mais antigas parecem oferecer maior resistência à reafirmação das identidades
étnicas, em grande medida ainda influenciadas pelas sequelas do período colonial
repressivo. E não é por menos. Eles foram forçados a abdicar de suas culturas,
tradições, de seus valores e saberes por que eram considerados inferiores, satânicos
e bárbaros (ou seja, eram considerados como sinônimo de atraso, o que os impedia
de entrar no mundo civilizado, moderno e desenvolvido) e para poderem se tornar
gente civilizada, moderna e desenvolvida. Eles foram obrigados a acreditar que a
única saída possível para o futuro de seus filhos era esquecer suas tradições e
mergulhar no mundo não indígena sem olhar para trás. Mas mesmo assim, muitos

23
velhos sábios e anciãos indígenas estão superando esse trauma psicológico, e
embarcando no caminho que está sendo traçado e construído pelas gerações mais
jovens, onde prevalece a recuperação da autoestima, da autonomia e da dignidade
histórica, tendo como base a reafirmação da identidade étnica e do orgulho de ser
índio.

É importante destacar que quando estamos falando de identidade indígena não


estamos dizendo que exista uma identidade indígena genérica de fato, estamos
falando de uma identidade política simbólica que articula, visibiliza e acentua as
identidades étnicas de fato, ou seja, as que são específicas, como a identidade
baniwa, a guarani, a terena, a yanomami, e assim por diante. De fato não existe um
índio genérico, como já dissemos no início deste livro. Talvez exista no imaginário
popular, fruto do preconceito de que índio é tudo igual, servindo para diminuir o valor
e a riqueza da diversidade cultural dos povos nativos e originários da América
continental.

Os povos indígenas são grupos étnicos diversos e diferenciados, da mesma forma


que os povos europeus (alemão, italiano, francês, holandês) são diferentes entre si.
Seria ofensa dizer que o alemão é igual ao português, da mesma maneira que é
ofensa dizer que o povo Yanomami é igual ao Guarani. Os povos indígenas, ao longo
dos 500 anos de colonização, foram obrigados, por força da repressão física e cultural,
a reprimir e a negar suas culturas e identidades como forma de sobrevivência diante
da sociedade colonial que lhes negava qualquer direito e possibilidade de vida própria.

Os índios não tinham escolha: ou eram exterminados fisicamente ou deveriam


ser extintos por força do chamado processo forçado de integração e assimilação à
sociedade nacional. Os índios que sobrevivessem às guerras provocadas e aos
massacres planejados e executados deveriam compulsoriamente ser forçados a
abdicar de seus modos de vida para viverem iguais aos brancos. No fundo, era obrigá-
los a abandonarem suas terras, abrindo caminho para a expansão das fronteiras
agrícolas do país. O objetivo, portanto, não era tanto cultural ou racial, mas, sobretudo
econômico, guiando toda a política e as práticas adotadas pelos colonizadores. É este
o ressentimento das gerações indígenas mais antigas, ou mesmo das gerações mais
novas que ainda vivem sob essa repressão, como nas regiões Nordeste e Centro-
Oeste do Brasil.

24
A dinâmica e a intensidade da relação com a identidade variam de povo para
povo e de região para região, de acordo com o processo histórico de contato vivido.
Na Amazônia, por exemplo, onde o contato com os colonizadores brancos aconteceu
mais recentemente, muitos povos indígenas continuam conservando integralmente
suas culturas e tradições, como a terra, a língua e os rituais das cerimônias. Para
esses povos, a prioridade é fortalecer a identidade e promover a valorização e a
continuidade de suas culturas, de suas tradições e de seus saberes. Até pouco tempo
pairava na cabeça de muitos brasileiros serem esses os “verdadeiros índios”, porque
falavam suas línguas, viviam nas selvas nus e pintados e praticavam danças exóticas
estranhas às danças do mundo não-indígena. Atualmente, algumas poucas pessoas
menos informadas e esclarecidas ainda pensam assim, fruto da imagem pejorativa e
preconceituosa de índio veiculada ao longo de séculos pela escola e pelos meios de
comunicação de massa. O Nordeste é uma região emblemática para que se entendam
hoje os meandros do que foi o processo colonizador enfrentado pelos povos
indígenas. Por estar localizada ao longo do litoral brasileiro, a região foi alvo primeiro
da ocupação colonial pelos portugueses. Essa ocupação violenta resultou em
profundas perdas territoriais e na submissão, por absoluta necessidade de
sobrevivência, aos poderes econômicos coloniais, marca dos diversos povos da
região, como os Xucuru, os Fulniô, os Cariri-Xocó, os Tuxá, os Aticum, os Tapeba, os
Potiguara, entre outros. As línguas nativas foram substituídas pelo português e o
modo de vida desses povos pouco se distingue dos camponeses não índios.

As áreas que ocupam dificilmente possibilitam uma vida autônoma de produção


e reprodução de suas culturas, tradições e valores para as quais necessitariam de um
resgate e de uma reorganização social. No entanto, a identidade indígena entre os
povos da região é marcada por rituais específicos, como as festas do Toré (dos Tuxá)
e o Uricuri (dos Fulniô), nos quais é proibida a presença de não-índios, como marca
da fronteira identitária étnica. Neste sentido, a identidade indígena, negada e
escondida historicamente como estratégia de sobrevivência, é atualmente reafirmada
e muitas vezes recriada por esses povos. O processo de reafirmação da identidade
indígena e o sentimento de orgulho de ser índio estão ajudando a recuperar
gradativamente a autoestima indígena perdida ao longo dos anos de repressão
colonizadora. Os dois sentimentos caros aos povos indígenas estão possibilitando a

25
retomada de atitudes e de comportamentos mais positivos entre eles, diante de um
horizonte sociocultural mais promissor e esperançoso.

As atuais gerações indígenas nascem, crescem e vivem com um novo olhar


para o futuro, potencialmente possível e alentador, diferente das gerações passadas
que nasciam e viviam conscientes da tragédia do desaparecimento de seus povos. A
reafirmação da identidade não é apenas um detalhe na vida dos povos indígenas, mas
sim um momento profundo em suas histórias milenares e um monumento de conquista
e vitória que se introduz e marca a reviravolta na história traçada pelos colonizadores
europeus, isto é, uma revolução de fato na própria história do Brasil.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL INDÍGENA

Os povos indígenas no Brasil conformam uma enorme diversidade sociocultural


e étnica. São 222 povos étnica e socioculturalmente diferenciados que falam 180
línguas distintas. Ë verdade que essa diversidade é o resultado de uma drástica
redução ao longo da história de colonização, uma vez que já havia além de 1.500
povos falando mais de 1.000 línguas indígenas distintas quando Pedro Alvarez Cabral
chegou ao Brasil em 1500. Os linguistas organizam as línguas indígenas do Brasil em
três troncos: Tupi, Macro-Jê e Aruak. Mas existem algumas línguas que não se
enquadram em nenhum desses troncos linguísticos.

Cada povo indígena possui um modo próprio de organizar suas relações


sociais, políticas e econômicas – as internas ao povo e aquelas com outros povos com
os quais mantém contato. Em geral, a base da organização social de um povo
indígena é a família extensa, entendida como uma unidade social articulada em torno
de um patriarca ou de uma matriarca por meio de relações de parentesco ou afinidade
política ou econômica. São denominadas famílias extensas por aglutinarem um
número de pessoas e de famílias muito maior que uma família tradicional europeia.
Uma família extensa indígena geralmente reúne a família do patriarca ou da matriarca,
as famílias dos filhos, dos genros, das noras, dos cunhados e outras famílias afins que
se filiam à grande família por interesses específicos.

Toda organização social, cultural e econômica de um povo indígena está


relacionada a uma concepção de mundo e de vida, isto é, a uma determinada

26
cosmologia organizada e expressa por meio dos mitos e dos ritos. As mitologias e os
conhecimentos tradicionais acerca do mundo natural e sobrenatural orientam a vida
social, os casamentos, o uso de extratos vegetais, minerais ou animais na cura de
doenças, além de muitos hábitos cotidianos. É a partir dessas orientações
cosmológicas que acontecem a organização dos casamentos exogâmicos
(casamentos cujos cônjuges pertencem a grupos étnicos ou sibs diferentes) ou
endogâmicos (casamentos cujos cônjuges pertencem ao mesmo grupo étnico ou sib)
e as divisões hierárquicas entre grupos (sibs, fratrias ou tribos), que implicam o direito
de ocupação de determinados territórios específicos e o acesso a recursos naturais,
bem como o controle do poder político.

A organização política de um povo indígena geralmente está baseada na


organização social feita através de grupos sociais hierárquicos denominados sibs,
fratrias ou tribos. Fratria ou sib é uma espécie de linhagem social dentro do grupo
étnico, que está relacionada direta ou indiretamente à origem do povo ou à origem do
mundo, quando os grupos humanos receberam as condições e os meios de
sobrevivência. Os sibs ou fratrias são identificados por nomes de animais, de plantas
ou de constelações estelares que, por si só, já indicam a posição de hierarquia na
organização sociopolítica e econômica do povo. Da mesma maneira, os nomes dados
aos indivíduos indígenas estão diretamente relacionados ao sib ou à fratria a que
pertencem, ou seja, à posição hierárquica que cada indivíduo ocupa dentro do grupo.

Essa diversidade cultural dos povos indígenas demonstra a multiplicidade de


povos e das suas relações com o meio ambiente, com o meio mítico religioso e a
variação de tipos de organizações sociais, políticas e econômicas, de produção de
material e de hábitos cotidianos de vida. Pode-se afirmar que os modos de vida dos
povos indígenas variam de povo para povo conforme o tipo de relações que é
estabelecido com o meio natural e o sobrenatural. Em razão disso, os lugares e os
estilos de habitação variam de povo para povo. Alguns escolhem para morar as
margens dos rios, outros, o interior da floresta e outros mais, as montanhas. Alguns
deles vivem em grandes malocas comunitárias, outros habitam aldeias ovais
compostas por várias casas ou pequenas malocas, ou ainda, casas separadas e
dispersas ao longo dos rios e das florestas. Do mesmo modo, alguns praticam
preferencialmente a pesca, outros, a caça e outros ainda, a agricultura ou a coleta de
frutos silvestres. Os tipos e as condições em que as relações acontecem com o meio

27
natural e sobrenatural também influenciam a qualidade de vida. Povos que vivem em
terras mais extensas e abundantes em recursos naturais têm a possibilidade de uma
vida mais rica, baseada em valores como a solidariedade, a reciprocidade e a
generosidade. Ao passo que os povos que ocupam terras reduzidas e com recursos
naturais escassos vivem conflitos internos maiores, o que dificulta muitas vezes as
práticas tradicionais de reciprocidade e o espírito comunitário e coletivo.

As relações sociais mais fortes entre os povos indígenas são as de parentesco


e de alianças. Como já vimos, as relações de parentesco estendem-se ao escopo de
uma família extensa e são a base de toda a estrutura social de um povo. As relações
de alianças estabelecem-se a partir de necessidades estratégicas comuns entre os
aliados e são muitas vezes temporais. Deste modo, as alianças constituem a base de
interesses comuns compartilhados e recíprocos, uma espécie de troca. Esses
interesses frequentemente estão relacionados à troca de mulheres, ao
compartilhamento de espaços territoriais privilegiados em recursos naturais, aos
interesses comerciais (trocas) ou às alianças de guerras contra inimigos comuns. São
essas relações de parentesco e as alianças que dinamizam e organizam as festas, as
cerimônias, os rituais, as pescas ou as caças coletivas, os trabalhos conjuntos de roça
e a produção, o consumo e a distribuição de bens e serviços, principalmente de
alimentos. As festas, por exemplo, são nada mais do que a comemoração de vitórias
e conquistas, e podem advir de uma boa coleta ou servem para festejar o sucesso
dos pajés que impediram qualquer castigo ou malfeito dos inimigos. A participação
nas festas e nas cerimônias revela explicitamente as fronteiras das relações de
amizade ou de inimizade entre grupos ou povos, sempre com uma lógica de
reciprocidade, ou seja: aos amigos, cabe a reciprocidade da amizade; aos inimigos, a
reciprocidade da inimizade e a consequente vingança.

São as relações de alianças e de inimizades que constituem o equilíbrio social dos


grupos e dos povos, uma espécie de contrato 46 social. Sem elas, o mundo indígena
seria um caos, ou melhor ainda, o mundo da lei do mais forte. De forma sucinta
podemos afirmar que a base da complexa organização social indígena está centrada
nas relações de parentesco e nas alianças políticas e econômicas que cada povo ou
grupo familiar estabelece. Os grupos de parentesco e de aliados formam potencial e
concretamente os grupos de organização que se constituem em verdadeiros grupos
de produção de bens e serviços. A distribuição e o consumo de bens são orientados

28
a partir de tais grupos. Quando um caçador consegue uma caça, sua obrigação é
distribuí-la em primeiro lugar entre os membros da sua família extensa e somente
satisfeita essa obrigação é que ele poderá atender a outros membros ou mesmo à
comunidade inteira.

DIVERSIDADE CULTURAL INDÍGENA

A riqueza da diversidade sociocultural dos povos indígenas representa uma


poderosa arma na defesa dos seus direitos e hoje alimenta o orgulho de pertencer a
uma cultura própria e de ser brasileiro originário.

A cultura indígena em nada se refere ao grau de interação com a sociedade


nacional, mas com a maneira de ver e de se situar no mundo; com a forma de
organizar a vida social, política, econômica e espiritual de cada povo. Neste sentido,
cada povo tem uma cultura distinta da outra, porque se situa no mundo e se relaciona
com ele de maneira própria.

Estima-se que quando Cristóvão Colombo chegou pela primeira vez ao


continente americano, em 1492, ele era habitado pelo menos por 250 milhões de
pessoas, que passaram a ser denominados de índios, distribuídos e organizados por
milhares de grupos étnicos ou povos autóctones. Apenas na região do atual México,
estima-se que ali habitavam naquela época mais de 30 milhões de índios, segundo
relatos de cronistas e historiadores de então. Apesar do grande massacre
implementado pelos invasores europeus, os povos indígenas ainda somam
atualmente mais de 50 milhões de pessoas espalhadas por todos os países da
América do Norte, da América Central e da América do Sul. Segundo as Nações
Unidas, os povos indígenas constituem hoje uma população de 300 milhões de
pessoas em 70 países. São povos que representam culturas, línguas, conhecimentos
e crenças únicas, e sua contribuição ao patrimônio mundial – na arte, na música, nas
tecnologias, nas medicinas e em outras riquezas culturais – é incalculável. Eles
configuram uma enorme diversidade cultural, uma vez que vivem em espaços
geográficos, sociais e políticos sumamente diferentes. A sua diversidade, a história de
cada um e o contexto em que vivem criam dificuldades para enquadrá-los em uma

29
definição única. Eles mesmos, em geral, não aceitam as tentativas exteriores de
retratá-los e defendem como um princípio fundamental o direito de se autodefinirem.
Lideranças indígenas se preparam para festa tradicional. Contrariamente ao que
costumamos ler nos livros escolares, pensados e escritos a partir da ótica dos brancos
invasores, os povos nativos do continente americano haviam desenvolvido grandes e
avançadas civilizações milenares muito semelhantes às indo-europeias e, em muitos
aspectos, até mais sofisticadas que elas.

As civilizações astecas, maias e incas em nada são inferiores às europeias,


exceto no domínio da arma de fogo. Elas criaram sistemas políticos muito
semelhantes aos do continente europeu, com grandes impérios, cidades-estados e
monarquias, com reis, imperadores e governos democráticos ou monárquicos. Muitas
dessas civilizações indígenas tinham alcançado o ponto máximo de desenvolvimento
e a sua consequente decadência muito antes da chegada dos europeus ao continente;
outras foram destruídas por esses invasores. Esta constatação histórica desconstrói
a ideia predominante no senso comum de que os povos nativos do continente
americano eram inferiores e primitivos em relação aos colonizadores europeus, pois
não pertenciam a nenhuma civilização. Desconstrói também a ideia de que foram os
europeus que aniquilaram todas essas grandes civilizações indígenas. Ë verdade que
algumas foram destruídas pela barbaridade dos invasores, que se aproveitaram da
superioridade que tinham na arte da guerra com armas de fogo, cidades indígenas
sendo completamente arrasadas e queimadas. Mas muitas civilizações, como a
asteca e a zapoteca no México, desenvolveram-se e entraram em decadência muito
antes da chegada dos europeus. Os motivos desse declínio pré-contato com o
Ocidente ainda são desconhecidos, mas pode-se supor que tenha acontecido por
causa de guerras intertribais, tragédias ecológicas ou ainda por limitações naturais.

No Brasil, não há indícios de que tenham sido desenvolvidas civilizações


indígenas semelhantes às grandes da América Central e das Terras Altas da América
do Sul ou da Região Andina (na Cordilheira dos Andes). O Brasil está localizado nas
denominadas terras baixas da América do Sul, onde os povos nativos expandiram
outras formas de civilização igualmente milenares e sofisticadas, como a marajoara,
na Ilha do Marajó, no estado do Pará.

Os povos indígenas habitantes do território brasileiro são caracterizados por


terem criado sistemas políticos baseados em grandes redes de alianças políticas e

30
econômicas, chamadas confederações. Uma das mais conhecidas, a Confederação
dos Tamoios, ficou famosa por sua resistência e bravura no período inicial da
colonização portuguesa. Estimativas menos otimistas indicam que em 1500, quando
da chegada de Pedro Álvares Cabral, viviam no Brasil pelo menos 5 milhões de índios.
Há dados históricos e científicos suficientes para se afirmar que eram muito mais, uma
vez que somente os Guarani representavam pelo menos 1 milhão de pessoas à
época. Desta constatação histórica importa destacar que, quando falamos de
diversidade cultural indígena, estamos falando de diversidade de civilizações
autônomas e de culturas; de sistemas políticos, jurídicos, econômicos, enfim, de
organizações sociais, econômicas e políticas construídas ao longo de milhares de
anos, do mesmo modo que outras civilizações dos demais continentes: europeu,
asiático, africano e a oceania. Não se trata, portanto, de civilizações ou culturas
superiores ou inferiores, mas de civilizações e culturas equivalentes, mas diferentes.
Deste modo, podemos concluir que não existe uma identidade cultural única brasileira,
mas diversas identidades que, embora não formem um conjunto monolítico e
exclusivo, coexistem e convivem de forma harmoniosa, facultando e enriquecendo as
várias maneiras possíveis de indianidade, brasilidade e humanidade. Ora, identidade
implica a alteridade, assim como a alteridade pressupõe diversidade de identidades,
pois é na interação com o outro não idêntico que a identidade se constitui.

O reconhecimento das diferenças individuais e coletivas é condição de


cidadania quando as identidades diversas são reconhecidas como direitos civis e
políticos, consequentemente absorvidos pelos sistemas políticos e jurídicos no âmbito
do Estado Nacional. A compreensão dessa diversidade étnica e identitária é
importante para a superação da visão conservadora da noção clássica de Unidade
Nacional e Identidade Nacional monolítica e única, na qual se pretende que a
identidade seja uma síntese ou uma simplificação das diversas culturas e identidades
que constituem o Estado-nação, o que aconteceria a 50 partir dos processos
denominados de hibridismo ou mestiçagem. Fazem parte de qualquer dinâmica
cultural os intercâmbios e as interações com outras culturas, quando acontecem
perdas e ganhos de elementos culturais, inclusive biológicos, mas que não resultam
em perdas das identidades em interação. Dito de outra forma, não existe cultura
estática e pura, ela é sempre o resultado de interações e trocas de experiências e
modos de vida entre indivíduos e grupos sociais.

31
As culturas indígenas em grande medida têm conservado sua singularidade em
face do mundo moderno, sem isolamento. Até hoje existem códigos culturais
autóctones pouco conhecidos das civilizações europeias, como são as medicinas
tradicionais. A consciência de uma cultura própria é em si um ato libertador, na medida
em que vence o sentimento de inferioridade diante da cultura opressora. As culturas
indígenas são concretas, como concretos são os que dão vida a elas. Os índios
conservam suas línguas, suas experiências e sua relação com a natureza e com a
sociedade. Eles mantêm a tradição oral e os rituais como manifestação artística e
maneira de vinculação com a natureza e o sobrenatural. Mantêm o papel socializador
e educador da família, aplicam os sábios conhecimentos milenares e praticam o
respeito à natureza. Com isso, as culturas indígenas seguem manifestando sua
personalidade coletiva e de alteridade, seja no trabalho ou na festa, e por isso são
democráticas e populares.

À sua maneira, as culturas indígenas expressam os grandes valores universais.


Nas solenidades das festas, no refinamento dos vestidos e na pintura corporal, na
educação dos filhos, na concepção sagrada do cosmos, elas manifestam a
consciência moral, estética, religiosa e social.

A diversidade de visões do mundo, do homem e dos modos de organização da


vida, os conhecimentos e os valores transmitidos de pais para filhos, a tradição oral e
a experiência empírica são a base e a força dos conhecimentos e dos valores.

A territorialidade atua como um estado de espírito e os ritos e os mitos, como


referência da identidade e da consciência humana e da natureza. A interculturalidade
é uma prática de vida que pressupõe a possibilidade de convivência e coexistência
entre culturas e identidades. Sua base é o diálogo entre diferentes, que se faz
presente por meio de diversas linguagens e expressões culturais, visando à
superação da intolerância e da violência entre indivíduos e grupos sociais
culturalmente distintos.

Atualmente, a diversidade cultural do mundo é reconhecida pela Organização


das Nações Unidas (ONU), através da UNESCO, como patrimônio comum da
humanidade. No caso particular da diversidade cultural indígena ou das populações
tradicionais ou tribais, ela é considerada patrimônio da humanidade pela Convenção

32
169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada (reconhecida como Lei
do país) pelo Brasil em 2003.

PROCESSO HISTÓRICO DE CONSTRUÇÃO DO MOVIMENTO


INDÍGENA

Segundo o cientista social e militante da causa indígena Sílvio Cavuscens, a


história dos movimentos indígenas contemporâneos pode ser organizada em períodos
de acordo com o tipo de agência que intermediava as relações entre os povos
indígenas e a sociedade dos brancos. Para o autor, o primeiro período seria o
denominado Indigenismo Governamental Tutelar, que teve a duração aproximada de
um século e caracterizou-se pela criação e forte presença do Serviço de Proteção ao
Índio – SPI, que posteriormente foi reformulado para se tornar a Fundação Nacional
do Índio – FUNAI, criada em 1967 e atuante no presente.

A criação do SPI ocorreu em 1910, no embalo das ideias positivistas do mundo


europeu, as quais exerceram forte influência na política brasileira, tendo como uma
das suas características a valorização do homem e da natureza (valorização da

33
ciência do homem e da natureza), contra a visão teocrática da Idade Média, na qual o
que importava era a ciência de Deus e a alma humana. Mesmo sob o auspício do
positivismo, que impulsionou a necessidade de proteção do Estado aos povos
indígenas contra o seu extermínio, a criação do SPI foi fortemente marcada pela ideia
vigente da “relativa incapacidade dos índios”, razão pela qual eles deveriam ficar sob
a “tutela” do Estado. A tutela aqui não é entendida como necessidade de proteção e
assistência social aos índios, como de forma comum e errônea é definida pelos
defensores do princípio da tutela oficial, mas como a incapacidade civil e intelectual
dos índios. O serviço de proteção e assistência por parte do Estado é um direito
universal dos cidadãos, indígenas e não indígenas. Aliás, os Estados existem em
função dessa necessidade. Seguindo a concepção equivocada da incapacidade
indígena, o SPI passou a ser o porta-voz e o representante dos índios dentro e fora
do país. Paralelamente à atuação do SPI, havia em curso um processo conhecido por
“integração e assimilação cultural” dos povos indígenas sob a tutela do Estado, o que
na prática significava a efetiva e inexorável apropriação de suas terras e a negação
de suas etnicidadades e identidades. Os índios deveriam o mais rápido possível ser
integrados à sociedade nacional, ou seja, precisariam viver de maneira igual a dos
brancos, nas cidades ou nas vilas, deixando de ser índios para abrir caminho à
ocupação de suas terras pelos não índios, sob o argumento e a justificativa da
necessidade de expansão das fronteiras agrícolas para o desenvolvimento econômico
do país.

O SPI provia os povos indígenas de assistências mínimas, as quais consistiam


em terra, saúde, educação e subsistência, sempre a partir da ótica da “relativa
incapacidade indígena” e da necessidade de sua “tutela” pelos órgãos do Estado, cujo
principal objetivo era acomodar os povos indígenas sobreviventes, ao mesmo tempo
em que fazia avançar e legitimava as invasões territoriais já consumadas, e abria
novas fronteiras de expansão. Ao mesmo tempo em que o Estado reafirmava a
“relativa incapacidade indígena”, surgiam tentativas de emancipação dos índios, como
estratégia final de apropriação das terras indígenas e extinção definitiva dos seus
povos como grupos étnicos diferenciados, visando torná-los cidadãos comuns,
acomodados nas camadas mais pobres e excluídos da sociedade brasileira.

O Estado brasileiro, por meio de dirigentes políticos e intelectuais, buscou


várias estratégias e artimanhas para perseguir este objetivo. Uma das mais

34
conhecidas, nas décadas de 1960 e 1970, foi a tentativa de definição de critérios de
indianidade, para estabelecer quem era mais índio, menos índio e quem deveria
deixar de ser índio através de um procedimento administrativo do governo. Por esses
critérios, os índios eram classificados segundo o seu grau aparente de contato: índios
arredios ou isolados; índios não aculturados; índios em vias de aculturação; índios
aculturados e índios brasileiros integrados. Houve agentes públicos e intelectuais que
propuseram e tentaram realizar exames de sangue para definirem o grau de
aculturação ou integração dos índios. Todo o esforço estava voltado para acelerar o
processo de integração, que deveria focar um único objetivo de interesse do Estado:
o fim da existência dos povos indígenas e a consequente negação e anulação de seus
direitos sobre seus territórios. Essas diferentes tentativas de emancipação dos povos
indígenas deixaram até hoje suas marcas na forma de pensar dos brasileiros. Na
região Nordeste, por exemplo, pelo fato de o contato dos índios com a sociedade
branca ter sido mais longo e intenso desde o início da colonização, os índios, ao
perderem várias de suas características culturais, como a língua, a cor do cabelo, a
cor da pele e os hábitos que muito se assemelham ao dos camponeses não indígenas,
são discriminados e taxados de não serem mais índios, negando-se a eles, assim, o
direito à terra e a outros aspectos específicos dos povos indígenas do Brasil. O
segundo período pode ser denominado de Indigenismo não-governamental e teve seu
início em 1970, caracterizando-se pela introdução de dois novos atores: a Igreja
Católica renovada e as organizações civis ligadas a setores progressistas da
Academia (as universidades).

A Igreja Católica, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil –


CNBB, instituiu em 1970 uma pastoral específica para trabalhar com indígenas e um
Conselho Indigenista Missionário – CIMI, como resposta às críticas que sofria como
cúmplice do Estado brasileiro na condução da política etnocida ao longo dos anos de
colonização. A pastoral indígena, assim como as demais pastorais, tiveram e ainda
têm um papel de assistência às necessidades básicas. Já o CIMI, tem o importante
papel político de articulação, apoio, divulgação e denúncia de questões relativas à
violação dos direitos indígenas, e é um importante aliado dos movimentos indígenas.
A partir dos anos 1970, surgiram várias outras organizações não governamentais
(ONGs) de apoio aos índios, quebrando o monopólio do Estado e das velhas missões
religiosas e questionando suas doutrinas civilizatórias. Dentre muitos, podemos citar

35
OPAN (Operação Amazônia Nativa); CTI (Centro de Trabalho Indigenista); CCPY
(Comissão Pró-Yanomami); ISA (Instituto Socioambiental); GTME (Grupo de Trabalho
Missionário Evangélico); ANAI (Associação Nacional de Ação Indigenista) etc. Essas
organizações civis passaram a assumir várias das funções que antes eram de
obrigação do órgão oficial tutelar e também, em muitas situações, o protagonismo da
questão indígena. Foi um período extremamente rico, principalmente no que diz
respeito às mobilizações indígenas desde os níveis locais e regionais até as grandes
mobilizações do início da década de 1980 em favor dos direitos indígenas, no
processo constituinte que culminaria em importantes conquistas na Constituição de
1988. Essas mobilizações indígenas eram patrocinadas pelas organizações não
governamentais brancas e consistiam basicamente na realização de encontros e de
assembleias indígenas, como espaços de intercâmbios entre as comunidades e os
povos. Ao se conhecerem, perceberam uns e outros que não eram poucos e que,
unidos e articulados, poderiam ganhar mais forças para enfrentar os problemas
comuns. Quando descobriram que enfrentavam problemas e tinham potencialidades
comuns, passaram a se unir e a se mobilizar para fazer frente a inimigos também
comuns e a atuar de forma conjunta e coordenada em busca de seus direitos e
interesses, principalmente aquele que diz respeito à terra. O terceiro período pode ser
denominado de Indigenismo Governamental Contemporâneo – pós 1988. Nessa
ocasião, ocorreu a ampliação da relação do Estado com os povos indígenas, a partir
da criação de diversos órgãos em vários ministérios com atuação com povos
indígenas, quebrando a hegemonia da FUNAI como órgão titular e absoluto da política
indigenista. Várias ações indigenistas antes centradas na FUNAI foram transferidas
para outros ministérios. Como exemplo, citamos os casos de saúde indígena, que
passou para a responsabilidade do Ministério da Saúde, especificamente para a
Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), e a Educação Escolar Indígena, que foi
transferida para o Ministério da Educação. Deste modo, também no âmbito interno do
governo a interlocução dos povos indígenas foi substancialmente ampliada.

Por diversificar o diálogo com múltiplos órgãos de governo, foi sendo possível
diversificar também as relações e o exercício de novas políticas públicas destinadas
às comunidades indígenas, com diferentes orientações políticas, metodológicas e
socioculturais. Foi o caso do Ministério do Meio Ambiente que, a partir da realização
da Conferência Mundial sobre Meio Ambiente no Rio de Janeiro em 1992, patrocinou

36
a construção e a implementação de projetos pioneiros para os povos indígenas da
Amazônia com ampla participação e corresponsabilidade destes, rompendo de vez a
hegemonia da prática tutelar da política indigenista brasileira. Desde então, não é mais
possível pensar no Brasil programas para os povos indígenas sem a sua participação
e o controle social mínimo. Porém, o fato marcante desse período foi a superação
teórico-jurídica do princípio da tutela dos povos indígenas por parte do Estado
brasileiro (entendida como incapacidade indígena) e o reconhecimento da diversidade
cultural e da organização política dos índios. Digo teórico porque até hoje esta
mudança na Letra da Lei não foi implementada na prática. A FUNAI, por exemplo,
continua atuando a partir da orientação da tutela e do não reconhecimento das
organizações indígenas como interlocutoras diretas e legítimas dos povos indígenas.
Outro exemplo pode ser o fato de que algumas políticas públicas destinadas aos
povos indígenas, principalmente no âmbito da FUNAI, continuam insistindo na
formulação e na execução das tomadas de decisões com pouca ou nenhuma
participação indígena e sem qualquer envolvimento compartilhado de
responsabilidade. Daí, a permanente crítica dos índios ao órgão. Ao mesmo tempo,
ocorre um processo de retração do Estado na gestão da questão indígena,
caracterizado principalmente pelo esvaziamento político-orçamentário da
administração tutelar no órgão responsável, a FUNAI, ocasionando um indigenismo
oficial mal adaptado. A má adaptação e a má atualização da política indigenista
resultam em paradoxos profundos na relação do Estado com os povos indígenas, na
medida em que vários instrumentos jurídicos, políticos e administrativos não foram
regulamentados, sendo o Estatuto das Sociedades Indígenas, que há mais de dez
anos se encontra parado no Congresso Nacional, um exemplo paradigmático.

O Estado, através das suas instituições, tem promovido medidas protelatórias


para não atualizar e não colocar em execução as bases da nova política indigenista,
como a paralisia de mais de dez anos de tramitação do Estatuto das Sociedades
Indígenas e outros projetos de lei no Congresso Nacional, os quais tratam da questão
indígena e da reforma da FUNAI. Ao mesmo tempo, parlamentares anti-indígenas e
representantes dos grupos econômicos interessados nas terras indígenas encheram
o Congresso Nacional de projetos de lei que visam reduzir ou mesmo anular direitos
indígenas conquistados, pondo em risco o futuro dos povos indígenas brasileiros.
Esse período foi marcado por importantes conquistas políticas e de direitos, como a

37
ratificação de alguns convênios internacionais, como a Convenção 169 da OIT
(Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 1993. A Convenção
determina o controle social e a participação indígena nas instâncias decisórias,
sobretudo nas que lhes dizem respeito, mas que se encontram muito distantes de
qualquer possibilidade de efetivo respeito e implementação de seus preceitos, os
quais poderiam ajudar no encaminhamento de soluções para muitos problemas
enfrentados pelas comunidades e pelos povos indígenas. A Convenção também ajuda
a superar um problema conceitual e de cidadania indígena, reconhecendo a categoria
de povos aos índios, admitindo com isso o direito de autodeterminação sociocultural
e étnica nos marcos do Estado brasileiro (desde que não signifique soberania
territorial). Além disso, essa época foi também caracterizada pelo processo de
redemocratização do país, o que trouxe uma abertura maior à participação indígena
nos debates nacionais e na implementação de políticas de seu interesse.

Atualmente, existem dezenas de Conselhos Nacionais, Estaduais e Municipais


em que os índios mantêm suas representações, embora ainda com muitas fragilidades
por falta de maior preparo e qualificação política e técnica desses representantes para
exercerem com qualidade suas funções. No campo da participação do poder político
do país, também houve expressivos avanços nas conquistas, o que fica atestado
pelos atuais números de dirigentes políticos indígenas: 3 prefeitos e 76 vereadores
indígenas em todo o Brasil.

MOVIMENTO INDÍGENA CONTEMPORÂNEO

Como já vimos, a partir de 1970 ocorreu um fortalecimento dos movimentos


indígenas provocado pela realização de assembleias articuladas pelo CIMI e pela
ascensão de lideranças indígenas carismáticas com projeção regional, nacional e
internacional, as quais impulsionaram o surgimento das primeiras grandes
organizações indígenas regionais e nacionais, sob a liderança da União das Nações
dos Indígenas – UNI. O amadurecimento do movimento levou à formação de uma
frente indígena em defesa dos direitos coletivos (lideranças e organizações locais,
regionais, nacionais e internacionais), ao mesmo tempo em que eram identificadas

38
necessidades e estratégias de cada povo, formando a base concreta do movimento e
da luta indígenas. Seguiu-se o surgimento de numerosas organizações e associações
indígenas aldeãs, étnicas, locais, regionais e nacionais, de categorias profissionais,
de gênero e de estudantes.

O crescimento do número de organizações indígenas é tão expressivo que se


em 1970 não havia nenhuma organização indígena reconhecida, em 2001 elas já
eram em número de 347 somente na Amazônia Legal (PDPI, 2001). Essas
organizações trouxeram à luz novas lideranças indígenas (professores, agentes de
saúde, agentes ambientais indígenas etc.), que passaram a atuar como interlocutores
com o Estado e as organizações não governamentais. Elas assumiram cada vez mais
o protagonismo da luta e forçaram um repensar da relação, do papel e da função das
entidades de assessoria e de apoio, assim como da relação com o Estado.

As organizações indígenas formam atualmente uma rede de entidades, de


estratégias e de iniciativas indígenas espalhadas por todo o território nacional e
utilizam todos os meios políticos e tecnológicos do mundo moderno para defender e
fazer valerem os direitos indígenas. Durante todo o tempo, as lideranças dessas
organizações percorrem o país e o mundo na luta pela promoção e pela defesa dos
direitos e dos interesses indígenas, ocupando tribunas importantes como as da ONU,
da OEA e de outros organismos internacionais.

SITUAÇÃO POLÍTICA DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL

Atualmente, no Brasil, a maioria das terras indígenas em extensão está


demarcada, mas ainda faltam muitas terras a serem regularizadas. Existem também
várias famílias e diversos povos indígenas que estão sem terra, ou que estão com
terra insuficiente para garantir a sobrevivência do grupo. Há ainda a situação dos
índios urbanos, que só muito recentemente começam a ser incluídos nas pautas de
discussões e de interesse do movimento indígena e indigenista.

A seguir, apresentaremos alguns dados estatísticos que mostram a situação do


reconhecimento e da regularização das terras indígenas. Salientamos que a garantia
efetiva da terra é fundamental para a sobrevivência física e cultural dos povos

39
indígenas e para o desenvolvimento econômico sustentável do país. A falta de terra
ou a sua insuficiência acarreta não apenas dificuldades de sobrevivência física das
comunidades indígenas, mas ameaça a própria continuidade étnica, na medida em
que impede a realização de práticas tradicionais, como os rituais, as cerimônias, as
festas e outras tradições fundamentais para a reprodução da cultura ancestral do
povo. É igualmente grave a situação de terras já regularizadas mas que foram
invadidas, impedindo a ocupação efetiva dos povos indígenas, seus habitantes
originais. A situação das terras indígenas no Brasil é tão complexa que é difícil obter
e confiar em dados sobre elas, uma vez que eles podem representar aspectos e
horizontes de interesses diversos. Considerando essa complexidade, tratamos de
trabalhar dados e informações oficiais e não-oficiais e alguns aspectos limitantes que
eles sugerem, a fim de que o leitor crítico construa uma leitura qualificada sobre os
dados e as diferentes realidades e perspectivas que expressam, a partir de algumas
variáveis importantes que necessariamente precisam ser consideradas.

Segundo os dados fornecidos pelo Departamento Fundiário (DAF) da FUNAI,


em agosto de 2006, existem no Brasil 612 terras indígenas com algum grau de
reconhecimento por parte do órgão, totalizando uma extensão de 106. 373.144ha, ou
seja, 12,49% dos 851.487.659,90ha do território brasileiro.

A Amazônia Legal é a região brasileira que concentra a maior parte das terras
indígenas em número e extensão. São 405 terras indígenas, que somam
103.483.167ha, ou seja, 98,61% de todas as terras indígenas do país, ou ainda
20,67% da região amazônica.

Essa disparidade entre a quantidade e a extensão das terras indígenas na


Amazônia em relação a outras regiões do país é um fator relevante para a
compreensão dos problemas enfrentados pelos povos indígenas na atualidade e os
diferentes modelos de colonização que imperaram em diversos momentos da história
de contato dos povos indígenas com os colonizadores europeus.

TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL

Descrição Extensão (ha) %

40
Território Nacional 851.487.659 100 612

Terras Indígenas 106.373.144 12,49

Terras Indígenas na Amazônia Legal Descrição Extensão (ha) %

Área total da Amazônia Legal 100 405

Terras Indígenas na Amazônia Legal 103.483.167 20,67 106

Antes da Constituição de 1988, o direito dos povos indígenas sobre suas terras
era muito pouco claro, o que permitia inúmeras interpretações, deixando nas mãos
dos administradores públicos e dos dirigentes políticos concederem ou não os direitos
segundo condições e critérios geralmente muito subjetivos e aleatórios. Deste modo,
as terras indígenas demarcadas antes de 1988 são muito reduzidas, insuficientes para
garantir a sobrevivência mínima das comunidades indígenas, gerando uma crescente
pressão por retomadas e ampliações de terras em todos os cantos do país, mas muito
acentuada nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Segundo dados da
FUNAI, existem hoje 48 terras indígenas em processos ou com pedidos de revisão de
seus limites, com expressos objetivos de ampliação.

Para entendermos a situação das terras indígenas que necessitam de


ampliação é necessário recorrermos ao processo histórico de concepção de
territorialidade indígena adotada pelo Estado brasileiro.

As terras indígenas regularizadas antes da Constituição de 1988 foram


demarcadas, na sua grande maioria e de forma muito reduzida, a partir da ideia
dominante na época de que os índios constituíam populações minoritárias
sobreviventes, decadentes e transitórias, cujo único futuro era a integração total à
“comunhão nacional”. Essa tese foi sustentada por elites políticas, econômicas e
intelectuais da Academia.

Ora, se os índios tinham os dias de existência contados, por que garantir-lhes


terras abundantes? Notadamente na época do SPI, as demarcações de terras tinham
o objetivo de dar aos índios sobreviventes o espaço mínimo necessário para
desenvolverem seus projetos Distribuição das Terras Indígenas no Brasil

Descrição Extensão (ha) % Área total das 612 Terras Indígenas no Brasil
106.373.144 100 405 Terras Indígenas na Amazônia Legal 103.483.167 98,73 207

41
Terras Indígenas no Centro-Oeste, no Nordeste, no Sul e no Sudeste 2.889.992 1,27
107 econômicos segundo os modelos dos pequenos produtores camponeses, como
estratégia para acelerar os processos de integração.

Não é por menos que o SPI durante toda a sua existência concentrou
explicitamente sua ação em iniciativas que visavam à inserção dos índios nos
mercados regionais e no nacional. A partir de 1970, contrariando todas as previsões
e teorias políticas e científicas, os povos indígenas do Brasil iniciaram um período de
recuperação demográfica e de autoestima identitária, abrindo novos horizontes
epistemológicos e políticos quanto ao seu futuro. As terras demarcadas até então
foram se tornando insuficientes para atender às necessidades vitais dos povos
indígenas e aos novos preceitos constitucionais. A luta por revisões e ampliações de
terras demarcadas antes de 1998 é, portanto, uma luta que só está começando, se
considerarmos o crescimento demográfico médio dos povos indígenas que está muito
acima do crescimento médio da população brasileira. É uma luta vital e legítima. Vital
porque as terras são necessárias para garantir o futuro das novas gerações em franco
crescimento. Legítima porque se trata de uma reivindicação de fato e de direito
histórico inegável. Essa reviravolta histórica dos povos indígenas do Brasil contou com
forte apoio de setores progressistas da sociedade brasileira, notadamente de setores
da Igreja, da Sociedade Civil organizada e da Academia. A reviravolta histórica em
favor dos povos indígenas foi consolidada pela Constituição Federal promulgada em
1988, após intensa articulação e mobilização indígena que contou com o apoio dos
aliados acima citados. Desde então, os princípios que regem o direito dos povos
indígenas às suas terras tradicionais passaram a ser as necessidades vitais de
sobrevivência e reprodução física e cultural. O direito à terra está relacionado, dessa
forma, ao direito de pertencimento e de continuidade étnica e cultural.

O processo de reconhecimento e regularização de terras indígenas no Brasil é


repleto de complexidade política, técnica, administrativa e jurídica.

A Constituição Federal de 1988, atualmente em vigor, reconhece


explicitamente aos povos indígenas o direito originário de posse e uso exclusivo de
suas terras tradicionalmente ocupadas. Isto quer dizer que no Brasil os povos
indígenas não podem adquirir o direito de propriedade de suas terras, que são bens e
patrimônios da União, mas lhes são garantidos a posse e o usufruto exclusivo.

42
Destacamos que, embora esse direito originário de posse e uso sobre as terras
tradicionais seja reconhecido na Letra da Lei, garantir de fato tal direito não é uma
tarefa fácil e simples. Há casos em que processos de regularização de terras
indígenas já duram mais de um século ou simplesmente nunca são concluídos. O
principal problema não é o procedimento administrativo em si, mas o jogo de forças
políticas e econômicas que envolve. Para melhor conhecimento desse labirinto
administrativo que abrange o processo de regularização de uma terra indígena,
apresentamos a seguir, de forma sucinta, as várias etapas desse processo, segundo
os procedimentos adotados na atualidade pelo Departamento de Assuntos Fundiários
da FUNAI (DAF/FUNAI). 1 Demandas por novas áreas: as áreas são registradas
preenchendo-se algumas informações básicas: origem da demanda, data, meio,
endereço para contato, grupo indígena interessado, localização geográfica e
descrição. As demandas são agrupadas a outras demandas e a pedidos de revisão e
passam a fazer parte do “Ordenamento de Demandas”. Quando houver informações
suficientes sobre a demanda e a situação em que está inserida, opta-se diretamente
pela entrada no “Banco de Terras da FUNAI”.

1 Uma vez ordenadas as demandas, planeja-se a realização de “Diagnósticos de


Situação”, que têm por objetivo detectar as relações conjunturais que possam
fundamentar propostas de delimitação no amplo contexto de inter-relações
apresentadas. As que apresentarem situação específica são encaminhadas para
um “Estudo de Fundamentação Antropológica”, resultando em um diagnóstico
próprio que auxiliará na formulação do Plano Operacional para a realização dos
trabalhos de campo. Ao final desta fase, as áreas indígenas estão identificadas.
2 A identificação, fundamentada em uma base sólida de informações, permite a
segurança na eleição das terras onde haja prioridade na constituição dos Grupos
Técnicos (GT), que irão realizar os “Relatórios Circunstanciados de Identificação
e Delimitação” com o objetivo final de regularização das terras indígenas
tradicionalmente ocupadas.
3 As terras planejadas são ordenadas em uma Lista de Terras, constante da
programação anual, para que seja iniciado o trabalho da Delimitação, seguindo
alguns critérios:
a) a regulamentação fundiária soluciona situação de conflitos em que há graves
riscos à integridade física da população;

43
b) a regulamentação fundiária auxilia na solução de graves problemas de saúde,
segurança alimentar;
c) há atraso na regulamentação da Terra Indígena;
d) envolve cumprimento de acordos públicos firmados;
e) envolve apoio técnico ou financeiro que poupa a FUNAI de parte do volume de
trabalhos e de custos. O relatório de Identificação e Delimitação do GT, uma vez
aprovado pelo titular do órgão indigenista, tem seu resumo publicado no Diário
Oficial da União e da Unidade Federada onde fica o local da delimitação. Se for
desaprovado, poderá ser instruído um novo GT para a complementação dos
elementos falhos do relatório.

Uma vez publicado o Resumo do Relatório, fica aberto o período de Contestação


à Delimitação por parte de interessados, ações estas que demandarão Respostas às
contestações, obedecendo-se aos prazos devidamente definidos. Juntadas as
contestações e as respectivas respostas aos atos do processo, e após aprovação pela
Presidência da FUNAI, o processo é despachado para o Ministério da Justiça. Autos
de identificação desaprovados pelo Ministério da Justiça retornarão à FUNAI e serão
submetidos a uma nova análise. A FUNAI poderá encaminhar à Complementação a
designação de novo Grupo Técnico ou, em caso de impossibilidade, sugerir o
estabelecimento de uma Reserva Indígena.

No caso de revisão de Terras Indígenas ou de Reserva Indígena, os procedimentos


são os mesmos, observando-se sempre as condições mínimas garantidas por leis
infraconstitucionais.

Quando os autos de identificação e delimitação são aprovados, o Ministério da


Justiça expede uma Portaria Declaratória reconhecendo a referida terra indígena e
determinando o processo de demarcação física de seus perímetros.

Em seguida, a FUNAI realiza o processo de seleção de uma empresa


especializada, que será contratada para realizar os trabalhos de demarcação física,
os quais compreendem basicamente a abertura de picada e a instalação de marcos e
placas de identificação ao longo dos limites da terra, conforme os relatórios de
identificação e delimitação aprovados pelo Ministério da Justiça. Concluídos os
trabalhos de demarcação física e estes sendo aprovados pelo Ministério da Justiça, o

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Presidente da República assina um Decreto Presidencial de Homologação da Terra
Indígena.

Por fim, são ainda necessárias duas medidas procedimentais para concluir a
regularização de uma terra indígena: registrar a terra indígena homologada no
Cartório Local e no Registro de Patrimônio Público da União. Assim é concluído o
longo processo. Isto posto, agora é possível mostrar qual a situação geral das terras
indígenas do Brasil, de acordo com as etapas apresentadas acima, para melhor
compreensão da complexidade histórica que envolve o direito das terras indígenas
desde a chegada dos portugueses ao Brasil há 506 anos.

Reserva Indígena é uma terra adquirida pela comunidade indígena por meio de
compra e venda, ou por outra forma que não seja a dos procedimentos legais e
administrativos que regem o estatuto da terra indígena tradicional, de que tratamos
anteriormente.

Dados não oficiais estimados por organizações não governamentais indicam


que existem muito mais terras sendo reivindicadas por povos e comunidades
indígenas. Um levantamento preliminar realizado em 2005 pelo Fórum em Defesa dos
Direitos Indígenas (FDDI), que reúne as principais organizações indígenas e
indigenistas do Brasil, indicou que existiriam mais de 600 terras reivindicadas pelos
povos indígenas que estão sem nenhuma providência administrativa, nem mesmo
algum tipo de reconhecimento por parte da FUNAI. No cômputo dessas 600 terras,
incluem-se as 125 constantes no Banco de Dados da FUNAI na fase de providências
de Estudos. O fato é que há elementos sociopolíticos fortes para se acreditar na
demanda indicada por esses dados não-oficiais. Um fator que explica o crescente
aumento de demanda por terra indígena é o fenômeno conhecido como “etnogênese”,
que ocorre com maior incidência na região Nordeste, mas que também é verificado
na região amazônica, principalmente em algumas áreas do estado do Pará.

A “etnogênese” é um fenômeno” em que, diante de determinadas


circunstâncias históricas, um povo étnico, que havia deixado de assumir sua
identidade étnica por razões também históricas, consegue reassumi-la e reafirmá-la,
recuperando aspectos relevantes de sua cultura tradicional. Em grande medida, o
processo de etnogênese ocorreu e ocorre em todas as regiões do Brasil. O que

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acontece é que em algumas regiões, como a Nordeste, este fenômeno está tendo
caráter mais impactante na dinâmica sociocultural e política da região.

A etnogênese é o primeiro passo para a superação das sequelas dos séculos


de escravidão e repressão a que os povos indígenas do Brasil foram submetidos ao
longo do processo de colonização, no qual os poucos sobreviventes tiveram que abrir
mão de suas culturas e identidades negando-as aos seus filhos e descendentes como
única forma de sobrevivência.

A redemocratização do país nas últimas duas décadas e principalmente as


conquistas de direitos na Constituição de 1988 e nas leis internacionais, como as
Convenções 107 e 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), reabriram as
possibilidades de os povos indígenas subsumidos na chamada “Comunhão Nacional”
reassumirem suas identidades étnicas e reivindicarem seus direitos. O processo
acelerou com a melhoria dos serviços públicos prestados pelo Estado, com forte
pressão e participação do movimento indígena organizado que cada vez mais foi
conquistando espaço e protagonismo na formulação e na implementação das políticas
sociais mais eficientes voltadas para os povos indígenas.

O aumento quantitativo e qualitativo de participação política em todos os níveis


de poder possibilitou que os povos indígenas reduzissem o grau de preconceito e de
discriminação contra eles, na medida em que a opinião pública pôde perceber que os
índios – ao contrário do que era repassado pelo senso comum colonial – eram
capazes de gerenciar e decidir os seus destinos e ainda contribuir para o
desenvolvimento do país.

A sociedade vê com muita simpatia o fato de várias organizações e


comunidades indígenas estarem conduzindo e gerenciando em suas terras projetos
de desenvolvimento autossustentável que associam a preservação ambiental, a
valorização das culturas tradicionais e a geração de renda.

É também considerado valor positivo a presença cada vez maior de lideranças


indígenas assumindo espaços públicos estratégicos, como prefeituras, câmaras
municipais e secretarias municipais e estaduais, por contribuírem para superar a velha
e preconceituosa concepção de índios incapazes. Esta reconquista de espaço
sociopolítico despertou a consciência étnica de povos dominados e reprimidos pela
violência colonial. Ao observar o contexto em que emerge o fenômeno da etnogênese

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no Brasil, é impossível projetar sua abrangência e limite, já que se torna difícil saber
quantas comunidades e povos indígenas continuam subsumidos no Brasil e que
podem, a qualquer momento, despertar para a consciência étnica e reivindicar seus
legítimos direitos, como o direito às suas terras tradicionais que lhes foram roubadas
e das quais foram expulsos.

É absolutamente errôneo afirmar que os índios invadem terras. Os índios


reocupam suas terras tradicionais, direito que é garantido pela Constituição Federal
quando reconhece o direito originário sobre elas.

É possível que dos mais de 1.000 povos indígenas que habitavam o território
brasileiro quando da chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500 ainda existam vários
dos seus remanescentes vivendo espalhados pelo Brasil, muito além dos 220 povos
oficialmente conhecidos hoje.

A verdade é que a cada ano surgem novas comunidades ou povos que se


autodeclaram pertencentes a uma etnia indígena. É verdade também que o governo
brasileiro, preocupado com essa situação de grande imprevisibilidade política, mostra
sinais de reação negativa ao processo de etnogênese e tenta desqualificá-lo,
argumentando que a questão de terras indígenas já estaria quase resolvida; isto
visando negar as novas reivindicações e demandas territoriais dos povos indígenas,
enfim, não reconhecendo os chamados povos indígenas “ressurgidos” ou povos
indígenas emergentes.

A atual forma de agir do governo preocupa em função da retomada de alguns


conceitos já superados pelo indigenismo contemporâneo, como a ideia de
identificação étnica, baseada em critérios raciais, físicos, ou que considera alguns
padrões culturais isoladamente. Neste sentido, para negar o reconhecimento étnico,
o governo tem usado critérios de cor, língua, grau de interação com a sociedade
regional e nacional, critérios estes muitos utilizados nas décadas de 1950 a 1970 para
forçar a teoria da emancipação dos índios, período predominante da teoria e da prática
da tutela que considerava os índios incapazes. Pela lógica da tutela, os índios são
aqueles que precisam de um tutor (o Estado) para protegê-los e representá-los em
seus direitos e interesses. Por isso, os que falam a língua portuguesa (e não mais a
língua indígena), que vivem com padrões semelhantes aos camponeses ou urbanos,
que apresentam características físicas próximas aos não-índios não seriam mais

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índios, portanto, sem direito à terra ou a outros benefícios destinados aos povos
indígenas. Tais critérios têm sido utilizados atualmente pela FUNAI para não
reconhecer os povos indígenas emergentes e, consequentemente, os seus direitos
territoriais. Na prática, os tais critérios são apenas instrumentos para esconder as
verdadeiras razões de negação dos direitos, que são os interesses das elites políticas
e econômicas do país nos recursos naturais existentes nas terras indígenas.

No campo mais geral, a pressão externa sobre as terras indígenas só tende a


aumentar, na medida em que as frentes de expansão agrícola pastoril avançam sobre
os últimos recantos de florestas e terras nativas. Graças aos modos de vida e das
culturas indígenas, imagens fornecidas por modernas fotografias de satélites
demonstram que as terras indígenas brasileiras são as áreas mais preservadas da
floresta tropical equatorial, com cobertura vegetal e uso sustentável dos recursos
naturais da biodiversidade, como contraponto ao galopante processo de destruição
em seus entornos.

As terras indígenas vão se transformando a cada dia em verdadeiras ilhas no


meio de imensidões de áreas destruídas de campos ou lavouras de monoculturas. A
forte pressão econômica está atingindo também as terras indígenas nos últimos anos,
impondo novos desafios aos seus habitantes. O exemplo mais preocupante é a prática
de arrendamento de parte dessas terras por algumas lideranças comunitárias para
fazendeiros e pecuaristas em troca de algumas migalhas de recursos financeiros. Isto
acontece principalmente nas terras pequenas e já totalmente degradadas, onde só os
grandes fazendeiros conseguem produzir utilizando-se de altos investimentos e
tecnologias. O fato sinaliza para uma mudança radical na relação das referidas
comunidades indígenas com a sua terra, relação esta dominada pela ótica materialista
e economicista que é contrária aos principais fundamentos do direito às suas terras
tradicionais.

É a força da visão capitalista sobre os povos que praticam o arrendamento


ilegal – ilegal porque a lei proíbe qualquer tipo de negócio com a terra indígena. Há
certamente uma mudança nos horizontes socioculturais que orientam as atuais
lideranças indígenas comunitárias com consequências imprevisíveis para os direitos
indígenas. No embate interno nas comunidades indígenas, essas práticas estão
sendo frontalmente discutidas e criticadas, envolvendo principalmente as novas
gerações e as lideranças mais antigas.

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Os jovens, preocupados com o seu futuro, tendem a repudiar tais práticas, e as
gerações mais velhas inclinam-se para apoiá-las com base em interesses econômicos
imediatos e egoístas. Mas talvez esteja aí exatamente a solução para os problemas
criados pelas lideranças atuais que praticam de forma autoritária e arbitrária modelos
ilícitos e predatórios de exploração dos recursos naturais de seus povos, dominados
e cooptados pelas promessas sedutoras do mercado, por conta das dificuldades de
compreensão da complexidade e das contradições da modernidade economicista.

As novas gerações – mais esclarecidas, escolarizadas e conscientes dos seus


direitos e de seus legados aos filhos e descendentes – buscam retomar os princípios
ancestrais de relação com a terra e não a veem simplesmente como um bem
mercadológico.

Vale destacar que se os índios reivindicam o direito sagrado à terra para a sua
reprodução física e cultural e, após conquistado, ela é arrendada e negociada a
terceiros, o principal argumento a este direito perde força e cria impasses imprevisíveis
ao processo administrativo de reconhecimento e regularização da terra, pois os
grupos políticos e econômicos contrários certamente utilizarão tais práticas para
inviabilizarem os processos demarcatórios, bem além dos que já existem hoje e que
estão protelando os processos em curso.

São muitos os desafios enfrentados pelos povos indígenas para garantirem


efetivamente os seus direitos de posse e exclusividade às suas terras tradicionais, por
causa de invasões, degradações, reduções, arrendamentos e impedimentos de posse
por forças de liminares judiciais.

Nos últimos anos, cresceu assustadoramente a interferência do Poder


Judiciário nos processos de reconhecimento e regularização das terras indígenas,
com a tendência de ele se tornar o mais novo aliado das elites políticas e econômicas
contra os direitos dos povos indígenas, apesar da clareza com que esses direitos
estão assegurados na Carta Magna do país.

Por fim, reafirmamos a indispensabilidade da terra para a sobrevivência digna


dos povos indígenas do Brasil.

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