O FUTURO
Apocalipse 4.1—22.21
Nesse ponto ocorre no livro de Apocalipse uma mudança drástica de cena e assunto. R.
H. Charles escreve: “O contraste dramático não podia ser maior. Até aqui a cena das
visões do Vidente tinha sido a terra; agora é o céu [...] Nos capítulos 2 e 3 tivemos uma
descrição vivida das igrejas cristãs da Ásia Menor [...] Mas no momento que deixamos a
inquietação, as aflições, as imperfeições e apreensões que permeiam os capítulos 2 e 3,
passamos no capítulo 4 para uma atmosfera de segurança e paz perfeita [...] Prevalece
uma harmonia infinita de justiça e poder”.
A cena muda da terra para o céu. O assunto muda do cuidado de Cristo como Cabeça
pelas condições predominantes na igreja para a autoridade soberana sobre seu universo.
Já observamos que 1.19 sugere uma divisão tríplice do livro de Apocalipse: 1) O
Passado — “as coisas que tens visto”, cap. 1; 2) O Presente — “as coisas que são”,
caps. 2—3; 3) O Futuro — “as coisas que hão de vir”, caps. 4—22.
Quanto à interpretação das duas primeiras divisões há uma pequena diferença de
opinião. João teve uma visão de Jesus glorificado parado no meio da sua Igreja (cap. 1).
Isto está claro. Nos capítulos 2—3, encontramos as cartas às sete igrejas da Ásia. A
maioria dos comentaristas concorda que essas cartas descrevem condições reais em
igrejas reais no primeiro século — embora elas também possam dar uma visão geral das
condições gerais a serem encontradas na cristandade até os nossos dias.
Mas quando chegamos à terceira seção de Apocalipse, a situação é bastante diferente.
Desconsiderando os “aspectos lunáticos” de incontáveis aberrações, descobrimos três
principais escolas de interpretação. A primeira, chamada a preterista, encontra o
cumprimento dos capítulos 4—22 nos eventos do período imperial. O grande inimigo da
Igreja, a besta, é o Império Romano.
A segunda, chamada historicista, busca o cumprimento nos acontecimentos sucessivos
de toda a era da Igreja e nos eventos culminantes que se seguem. Aqui geralmente se
afirma que a besta é a igreja católica romana ou, mais especificamente, o papado.
A terceira, chamada futurista, entende que o livro de Apocalipse, a partir de 4.1, ainda
precisa ser cumprido no fim dessa era. Ela continua sendo futura do ponto de vista do
leitor de hoje. A besta é identificada como o Anticristo. Veremos todas as três
interpretações em conexão com passagens-chave.
Essa terceira seção do Apocalipse parece compor-se de sete visões:
1) O Trono e o Cordeiro (4.1—5.14);
2) Os Sete Selos (6.1—8.1);
3) As Sete Trombetas (8.2—11.19);
4) A Sétupla Visão (12.1—14.20);
5) As Sete Taças (15.1—16.21);
6) As Sete Ultimas Cenas (17.1—20.15);
7) A Nova Jerusalém (21.1—22.21).
1
O TRONO E O CORDEIRO, 4. 1—5.14
1. A Adoração a Deus como Criador (4.1-11)
A primeira visão é dupla. Ela mostra a adoração a Deus como Criador (cap. 4) e a
adoração a Cristo como Redentor (cap. 5). Essa adoração, João vê acontecer no céu.
a) O trono de Deus (4.1-6a). João viu uma porta aberta no céu (1). O grego claramente
afirma que João viu uma porta que tinha sido aberta e permanecia aberta (particípio
passivo perfeito). Como Simcox diz: “Ele viu a porta aberta; ele não a viu sendo
aberta”. Era uma porta da revelação que permitiu uma visão do céu. Barclay observa
que nesses primeiros capítulos do livro encontramos “Três Portas Importantes na Vida”:
1) A porta da oportunidade (3.8); 2) A porta do coração humano (3.20); 3) A porta da
revelação (4.1).
A primeira voz, que [...] ouvira falar comigo é evidentemente a voz de Cristo,
mencionada em 1.10. Lá, como aqui, ela é descrita como o som de trombeta, poderosa e
penetrante. Essa voz disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem
acontecer. João teria uma prévia do futuro.
Logo o vidente foi arrebatado em espírito (2). Para o significado dessa frase veja
os comentários em 1.10. Aqui evidentemente significa que João foi levado
espiritualmente (não fisicamente) para o céu.
Lá ele viu um trono e Alguém sentado nele. Aquele sentado no trono era na aparência,
semelhante à pedra de jaspe e de sardônica, com um arco semelhante à esmeralda (3).
Swete faz essa observação útil: “A descrição rigorosamente evita detalhes
antropomórficos, O olho do vidente fica detido pelo luzir das cores como de pedras
preciosas, mas ele não vê nenhuma forma”
A identificação dessas três pedras é debatida. Não se sabe ao certo se a pedra de jaspe
era vermelha ou verde. A pedra sardônica era vermelha. O arco (gr., iris4) era
semelhante à esmeralda, que é verde. Phillips traduz essa passagem da seguinte
maneira: “Sua aparência resplandecia como diamante e topázio, e ao redor do trono
brilhava um arco semelhante a um arco-íris de esmeraldas”
Nos vinte e quatro assentos ao redor do trono havia vinte e quatro anciãos assentados
(4). Por que vinte e quatro? Alguns sugerem que eles representavam os vinte e quatro
turnos dos sacerdotes (1 Cr 24). Vitorinus, o comentarista latino mais antigo de
Apocalipse, diz que os anciãos representavam os doze patriarcas e os doze apóstolos.
Com base nisso, Swete encontra “na representação dupla a sugestão dos dois elementos
que coexistiam no novo Israel, os crentes judeus e os crentes gentios que eram um em
Cristo. Assim, os 24 anciãos formavam a Igreja em sua totalidade”. Melhor ainda, eles
podem ser considerados os representantes de todo o povo de Deus, tanto dos santos do
Antigo Testamento quanto dos cristãos.
Esses anciãos estavam vestidos de vestes brancas; e tinham sobre a cabeça coroas de
ouro. Eles estavam limpos e coroados. A palavra para coroas significa as coroas dos
vencedores (cf. 2.10).
2
Do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes (5). Esses três elementos são
mencionados em conexão com a concessão da lei (Ex 19.16). Barclay comenta: “Aqui
João está usando a imagem que é regularmente conectada com a presença de Deus”.
Diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo que eram identificadas como os sete
Espíritos de Deus. A referência é evidentemente ao Espírito Santo (veja comentários de
1.4).
Havia diante do trono um como mar de vidro (6). Isto é, ele parecia como um mar de
vidro. Para ressaltar sua transparência, é acrescentado: semelhante ao cristal. Quanto ao
significado do mar semelhante ao vidro, Swete diz: “Ele sugere a vasta distância que,
mesmo no caso de alguém que estava parado na porta do céu, existia entre ele mesmo e
o Trono de Deus”.
b) As quatro criaturas viventes (4.6b-8). Elas estão no meio do trono e ao redor do
trono (6). Essa estranha combinação é explicada da seguinte maneira por Moffatt: “e
no meio (de cada lado) do trono e (conseqüentemente) ao redor do trono”.
Animais (zoa) deveria ser traduzido por “criaturas viventes”. A tradução aqui é
particularmente infeliz visto que “animais” ou “bestas” é a tradução correta de theria
nos capítulos 11—13. Trench escreve o seguinte acerca dessas duas palavras gregas:
“Ambas desempenham um importante papel nesse livro; ambas têm um simbolismo
muito elevado; mas ambas se movem em esferas tão distantes uma da outra quanto dista
o céu do inferno. As zoa ou ‘criaturas viventes’, que estão diante do trono e em quem
habitam a plenitude de toda criatura [...] constitui uma parte do simbolismo celestial; as
theria, a primeira besta e a segunda [...] essas formam parte do simbolismo diabólico”.
Os quatro animais (“criaturas viventes”) são descritos como cheios de olhos por diante e
por detrás. Isso sugere que eles sabiam tudo que estava acontecendo; isto é, eles
mantinham uma vigilância ininterrupta.
Tem havido muita discussão em relação ao significado dessas quatro criaturas viventes.
Lenski escreve: “As zoa têm sido chamadas de esfinge do Apocalipse. Um autor oferece
vinte e uma interpretações”. Mas isso é tornar a situação desnecessariamente difícil.
Swete sugere esta simples explicação: “As zoa representam criação e a imanência divina
na natureza”. Um pouco mais adequada é a interpretação de Donald Richardson:
“Quatro é o número cósmico: e as quatro criaturas viventes dos versículos 6-8 são o
símbolo de toda a criação redimida, transformada, aperfeiçoada e trazida para debaixo
da obediência à vontade de Deus e manifestando a sua glória”. Alguns entendem que os
vinte e quatro anciãos representam os santos redimidos de todos os tempos e as quatro
criaturas viventes representam os seres angelicais.
As quatro criaturas viventes são descritas como: semelhante a um leão [...] semelhante a
um bezerro [...] o rosto como de homem [...] semelhante a uma águia voando (7). Essas
são as mesmas faces das “quatro criaturas viventes” [animais] de Ezequiel 1.5-10 e
similares às faces dos “querubins” de Ezequiel 10.14. Ao entender que as criaturas
viventes representam toda criação, Swete escreve: As quatro formas sugerem
[ respectivamente ] o que é mais nobre, mais forte, mais sábio e mais veloz na natureza
animada”.” Alguns dizem que Mateus tipifica Cristo como um leão (Rei), Marcos como
um bezerro, ou boi (Servo), Lucas como um homem (Filho do Homem) e João como
uma águia voando (Filho de Deus). Os paralelos, embora interessantes, não devem ser
exagerados.
3
Cada uma das quatro criaturas viventes tem respectivamente, seis asas e, ao redor e por
dentro, estavam cheios de olhos (8). Uma tradução melhor seria: “E as quatro criaturas
viventes, cada uma delas tendo seis asas, estão cheias de olhos ao redor e por dentro”
(NASB). Donald Richardson sugere que as asas “simbolizam a perfeição do seu
equipamento para o serviço de Deus”.’4 Quanto ao significado dos olhos veja os
comentários do versículo 6.
Acerca das quatro criaturas viventes lemos: e não descansam nem de dia nem de noite.
Swete escreve: “Essa atividade ininterrupta, da natureza debaixo da mão de Deus é um
tributo ininterrupto de louvor”. Elas clamam: Santo, Santo, Santo. Esse é um eco do
clamor dos serafins em Isaías 6.3. Senhor Deus, o Todo-poderoso substitui o “Senhor
dos Exércitos” em Isaías. Acerca do significado de que era, e que é, e que há de vir, veja
os comentários em 1.8.
No versículo 8, encontramos “Um Cântico de Louvor a Deus”: 1) Pela sua santidade;
2) Pela sua onipotência; 3) Pela sua eternidade (Barclay).
c) O louvor universal (4.9-11). As quatro criaturas viventes dão glória, e honra, e ações
de graças a Deus (9). Swete diz: “Enquanto time (honra) e doxa (glória) dizem respeito
às perfeições divinas, eucharistia (ações de graça) se refere aos dons na criação e
redenção”.’6 Que vive para todo o sempre é encontrado novamente em 4.10; 10.6; 15.7.
Deus é supremamente o “Deus vivo”.
Na sua adoração ininterrupta, as quatro criaturas viventes recebem a companhia dos
vinte e quatro anciãos, que se prostram diante do que estava assentado sobre o trono
(10). Eles estavam assentados na sua presença (v. 4). Mas agora são impelidos a
prostrar-se em adoração diante do Eterno, lançando suas coroas de vitória aos seus pés.
Isso era “equivalente a um reconhecimento de que sua vitória e sua glória eram de Deus,
e isso somente por meio da graça dele”.
Ao adorá-lo, eles o aclamavam como Digno [...] de receber glória, e honra, e poder (11).
Eles o reconheciam como o grande Criador de todas as coisas. Para a sua vontade
(thelema) são e foram criadas. O grego diz: “elas eram, e foram criadas”. Novamente
Swete apresenta a melhor explicação: “A Vontade divina tinha feito do universo um
fato no projeto das coisas antes que o Poder divino desse expressão material ao fato”.
2. A Adoração de Cristo como Redentor (5.1-14)
No capítulo 4, vimos Deus sentado no seu trono eterno, recebendo louvor perpétuo.
No capítulo 5, encontramos Cristo, o Cordeiro, revelado como Redentor divino,
a) O livro selado (5.1-5). O Eterno, sentado no seu trono, tinha em sua mão direita um
livro (1). A palavra grega é biblion —. lit.: “feito de papiro” — de onde vem a “Bíblia”.
Ela significa um “rolo” ou “pergaminho” (veja comentários em 1.11). Esse rolo foi
escrito por dentro e por fora. Geralmente, a escrita aparecia somente por dentro, onde as
tiras de papiro corriam horizontalmente. Mas, ocasionalmente, também se escrevia do
lado de fora, onde sería difícil escrever nas tiras perpendiculares. Folhas de papiro (de
] onde vêm o “papel”) eram elaboradas ao se colarem tiras de papiro horizontais sobre
tiras verticais. Esse é o material no qual a maior parte do Novo Testamento, se não todo
ele, foi originariamente escrito.
4
Nossos manuscritos gregos mais antigos, do terceiro século, são de papiro.
Esse rolo foi selado com sete selos. Selado é o particípio passivo perfeito de um verbo
composto, sugerindo que ele foi “completamente selado”, ou “selado firmemente”.
Esse aspecto é reforçado com a menção dos sete selos, o número da perfeição ou
inteireza,
Alguns acreditam que os sete selos se referem a um costume legal daquela época.
Charles os descreve como: “Uma resolução, de acordo com o Testamento Pretoriano, na
lei romana trazia os sete selos das sete testemunhas nos fios que seguravam as tabuinhas
ou o pergaminho [...] Esse Testamento não podia ser executado até que todos os sete
selos tivessem sido quebrados”.
Qual livro João tinha visto? Muitas respostas têm sido apresentadas a essa pergunta.
Simcox resume algumas delas. Ele escreve: “O ponto de vista tradicional, se de fato
existe um, desse livro selado é que ele representa o Antigo Testamento, ou de forma
mais geral, as profecias das Escrituras, que só se tornam compreensíveis com O seu
cumprimento em Cristo”. Rejeitando isso, ele continua: “Muitos comentaristas pós-
Reforma, tanto romanos quanto protestantes, têm considerado o livro como o próprio
Apocalipse”. Ele acrescenta: “A maioria dos comentaristas modernos generaliza e
entende que este é o Livro dos conselhos de Deus”. Simcox prefere interpretá-lo como o
Livro da Vida (20.12; 2 1.27).
O ponto de vista mais comumente aceito relaciona esse livro com as “coisas que depois
destas devem acontecer” (4.1); isto é: Apocalipse 4—22. Charles escreve: “O rolo
contém os decretos divinos e os destinos do mundo [...] Em outras palavras, o livro é
uma profecia das coisas que ocorrem antes do fim”. Ele acrescenta: “Que esse livro é
selado com sete selos mostra que os conselhos e julgamentos divinos que ele contêm
são um segredo profundo 1...) que somente pode ser revelado pela mediação do
Cordeiro”. Swete o chama simplesmente de “Livro do Destino”. Erdman diz: “Ele
contém todos os decretos de Deus, um esboço de todos os eventos até o fim dos tempos.
Os capítulos seguintes revelarão esses conteúdos”.
E vi (2) torna-se uma frase recorrente (cf. 5.1; 6.1; 7.1; 8.2; 9.1; 10.1), introduzindo
novos aspectos. Com grande voz, alcançando todo o universo, um anjo forte (cf. 10;
18.21) proclamou: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos? A quebra
dos selos necessariamente precederia a abertura do livro, mas a abertura é colocada
primeiro porque é o principal objeto procurado.
Num primeiro momento, a proclamação em alta voz não foi respondida: E ninguém no
céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele (3).
Ninguém (oudeis) claramente inclui seres angélicos e humanos. Essa situação
desagradável incomodava João grandemente. Ele diz: E eu chorava muito, porque
ninguém fora achado digno (apto) de abrir o livro (4).
Mas o problema agonizante foi logo resolvido. Um dos anciãos disse a João para parar
de chorar. Havia boas-novas: o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi [...] venceu para
abrir o livro (5). O primeiro desses títulos para Cristo nos leva de volta ao tempo em
que Jacó abençoou seus doze filhos. Ele descreveu Judá como um “leãozinho” ou
filhote (Gu 49.9). Mas Jesus foi o supremo Leão dessa tribo. Ele também foi a Raiz de
Davi (cf. 22.16).
5
Essa expressão é um eco de Isaías 11.1,10; também citado em parte em Romanos 15.12.
E um termo messiânico. No período intertestamentário parecia que a casa de Davi tinha
morrido. Em Cristo reapareceu.
Venceu (enikesen) vem de nike, “vitória” (cf. Phillips — “obteve a vitória”). Charles
comenta: “Enikesen deve ser entendido aqui, como sempre na LXX e no NT, de forma
absoluta. Esse termo expressa que de uma vez por todas Cristo venceu [...] e o propósito
dessa vitória era capacitá-lo a abrir o livro do destino e levar a história do mundo até os
seus estágios finais [...] A vitória tinha sido obtida por meio da sua morte e
ressurreição”.
b) O Cordeiro morto (5.6-7). Um Leão tinha sido anunciado, mas um Cordeiro (6)
apareceu. Esse é um dos paradoxos de Cristo. Os judeus esperavam que seu Messias
fosse “o Leão da tribo de Judá”. O que eles não perceberam foi que Ele precisa ser
primeiro “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Por causa da
menção do Cordeiro [...] morto, alguns interpretam o “livro” desse capítulo como que se
referindo à redenção. Straus declara: “O assunto do rolo selado é a redenção”.
A palavra grega para Cordeiro (arnion) é usada para Cristo vinte e sete vezes no
Apocalipse. Literalmente, ela significa “cordeirinho”. No entanto, Jeremias observa que
nos tempos do Novo Testamento ela não tem mais a força de um diminuitivo.
Embora um cordeiro geralmente traga consigo a idéia de desamparo e fraqueza, esse
Cordeiro tinha sete pontas, significando poder perfeito, e sete olhos, indicando
conhecimento perfeito. Ele é onipotente e onisciente. Os sete olhos são então
identificados como sendo os sete Espíritos de Deus enviados a toda a terra.3’ Isso
significa o Espírito Santo (veja comentários em 1.4).
O versículo 7 é traduzido literalmente da seguinte forma: “E veio e tomou da mão
direita do que estava sentado no trono”. Assim João descreve com bastante realismo a
ação enquanto ela ocorre. Mas, obviamente o livro precisa ser suprido como objeto e
algum copiador posterior o inseriu.
c) A companhia que canta (5.8-14). Quando o Cordeiro pegou o rolo, as quatro
criaturas viventes e os vinte e quatro anciãos (veja comentários em 4.4, 6) prostraram-se
diante dele (8). Todos eles — talvez apenas os anciãos32 — tinham harpas. O melhor
texto grego está no singular: “Cada um tendo uma cítara” (ou lira). Eles também tinham
salvas de ouro cheias de incenso. O incenso simboliza as orações dos santos. Swete nota
que o uso de incenso em algumas igrejas nos tempos modernos, talvez com base nessa
passagem, não tem apoio dos Pais da igreja dos três primeiros séculos.
Eles cantavam um novo cântico (9). Christina Rossetti habilmente disse: “O céu é
revelado à terra como a pátria da música”.33 A expressão um novo cântico ocorre uma
série de vezes nos Salmos (33.3; 40.3; 96.1; 98.1; 144.9; 149.1). Ela também é
encontrada em Isaías 42.10.
O hino que se segue é um hino de adoração a Cristo, o Redentor. Ele era digno (cf. v. 2)
de tomar o livro e de abrir os seus selos. Por quê? Porque foste morto e com o teu
sangue compraste para Deus. A idéia de que somos comprados da escravidão do pecado
com o sangue de Cristo é de grande importância no Novo Testamento.
6
Essa é a redenção, o tema central da Bíblia. Somos comprados para Deus; portanto,
pertencemos a Ele. Não está escrito de quem fomos comprados; a ênfase estápor quem e
para quem. Essa redenção se estende a toda a humanidade, às pessoas de toda tribo, e
língua, e povo, e nação — “representantes de cada nacionalidade, sem distinção de raça
ou posição geográfica ou política”.
Pela sua redenção graciosa, Cristo os fez reis e sacerdotes para o nosso Deus
(10). Essa combinação das funções real e sacerdotal do crente é encontrada diversas
vezes no Novo Testamento. Ela já ocorreu em 1.6 e voltará a ocorrer em 20.6. Pedro usa
a expressão “o sacerdócio real” (1 Pe 2.9). Que privilégio sublime!
Eles reinarão sobre a terra parece apontar para o reino do milênio. A KJV traz:
“Nós reinaremos sobre a terra”. Mas muitos estudiosos (incluindo Swete e Charles)
entendem que a tradução aqui deve ser: Eles reinarão. Mesmo isso poderia ser tomado
como um presente profético. Há um sentido no qual os santos reinam com Cristo agora.
Mas o cumprimento mais amplo olha para o futuro.
Swete ressalta o significado dos versículos 9-10: “O ‘novo cântico’ reclama para Je-
sus Cristo o lugar singular que Ele tomou na história do mundo. Por meio de um ato
supremo de abnegação Ele comprou homens de todas as raças e nacionalidades para o
serviço de Deus, fundou um vasto império espiritual e transformou a vida humana em
um serviço sacerdotal e uma dignidade real”.
Os versículos 9,10 mostram “A Morte de Jesus Cristo” como: 1) Uma morte sacrificial
— com o teu sangue; 2) Uma morte libertadora — nos compraste; 3) Uma morte
universalmente expiatória — de toda tribo; 4) Uma morte eficaz — os (nos) fizeste. E
olhei (11) é o mesmo no grego que “e vi” nos versículos 1 e 2. Dessa vez o vidente
também ouviu a voz de muitos anjos ao redor do trono. O número deles era de milhões
de milhões (gr., myriadas myriadon, “dez milhares de dez milhares”) e milhares de
milhares (chiliades chiliadon). As mesmas duas expressões, só que na ordem inversa,
são encontradas em Daniel 7.10. E uma típica linguagem apocalíptica, ressaltando a
grandeza e majestade de Deus.
A grande voz (12) sugere um grito em vez de um cântico. As miríades de anjos
clamavam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e
sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças. Essa expressão é quase duplicada
em 7.12. Uma sétupla descrição semelhante de honra é encontrada em 1 Crônicas 29.11-
12. A lista de sete itens sugere perfeição de poder e glória. Toda criatura (13) participou
nessa adoração a Deus e ao Cordeiro. Quatro habitações são mencionadas — que está
no céu, e na terra, e debaixo da terra, e [...] no mar. O último item é acrescentado ao
“universo de três andares” costumeiro (cf. v. 3). Toda criação estava engajada em louvar
o Pai e o Filho. Charles comenta: “Assim, o universo de coisas criadas, os habitantes do
céu, da terra, do mar e do Hades, se unem na parte final do louvor diante do trono de
Deus”.
Quatro itens de louvor são mencionados aqui, em comparação com os sete mencionados
no versículo 12. Mas no grego, o artigo é repetido com cada um dos quatro itens, dessa
forma ressaltando os diversos itens para a ênfase individual. Ações de graça é eulogia.
Quando aplicada a Deus, como aqui, essa palavra significa “louvor”.
7
Honra (time) sugere primazia. Glória (doxa) fala do “esplendor” de Deus, um brilho que
irradia da sua presença. Poder não é dynamis, mas kratos, que significa “força” ou
“vigor” (“might” em inglês).
As quatro criaturas viventes disseram: Amém (14), confirmando a doxologia anterior.
Os vinte e quatro anciãos tomaram parte da adoração ao Eterno no trono. Charles sugere
que há quatro maneiras de o Amém ser usado no livro de Apocalipse:
1) “O amém inicial no qual as palavras do falante anterior são referidas e aceitas como
se fossem as suas próprias palavras”, como em 5.14; 7.12; 19.4; 22.20;
2) “o amém separado”, como aqui;
3) “o amém final sem mudança de orador”, como em 1.6,7; 4) “o Amém”, como um
nome aplicado a Deus em 3.14.
Elaboração pelo:- Evangelista Isaias Silva de Jesus
Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério Belém Em Dourados – MS
Comentário Bíblico Beacon