Ficção Ualalapi de Ungulani Ba Ka Khosa
1. Contexto histórico e literário
Ualalapi foi publicado em 1987, num momento em que Moçambique já havia
conquistado sua independência (1975) e enfrentava desafios de construção nacional. A
obra retoma a figura histórica de Ngungunhane, último imperador de Gaza, subvertendo
a imagem heroica construída por narrativas coloniais e nacionalistas. Khosa adota uma
abordagem desmitificadora, inserindo-se no campo da "reescrita da história" —
estratégia comum à literatura pós-colonial africana.
2. Estrutura e fragmentação narrativa
A narrativa de Ualalapi é composta por episódios fragmentados — "Fragmentos do
fim" — intercalados com contos que giram em torno de personagens históricos ou
fictícios associados ao império de Gaza. Essa estrutura permite múltiplas perspectivas e
evoca a oralidade africana.
Exemplo: a obra abre com "Fragmentos do fim (1)" (p. 17), um trecho descritivo da
marcha guerreira, já carregado de tom épico e nostalgia, contrastando com a violência e
opressão que se revelam logo em seguida nos capítulos centrais.
3. A figura de Ngungunhane: entre o herói e o tirano
Ngungunhane é retratado com ambiguidade. É um líder astuto e forte, mas também
cruel, paranoico e opressor, especialmente contra seu próprio povo. O autor desconstrói
o mito do herói nacional.
Exemplo:
Na página 51, durante o julgamento de Mputa, Ngungunhane condena-o com
base em acusações infundadas feitas pela rainha: "É feiticeiro, disse o rei com
uma força jamais ouvida. E os feiticeiros não têm lugar no meu reino."
Na página 53, o rei estupra a filha de Mputa, Domia, que tentava vingar a morte
do pai. Ele a executa brutalmente depois de ela cuspir-lhe na cara e chamá-lo de
"cão".
4. Ualalapi como símbolo de decadência moral e violência
Ualalapi é o guerreiro que executa as ordens mais brutais, como o assassinato de
Mafemane, irmão de Ngungunhane (p. 36). Mas também é um personagem complexo,
que oscila entre a lealdade e o remorso.
Exemplo:
Página 36: “Ualalapi aproximou-se de Mafemane, ajoelhou, tirou a lança do
peito e voltou a enterrá-la vezes sem conta.”
O episódio revela a intensidade do trauma e a crítica à instrumentalização dos
guerreiros pelo poder central.
5. A crítica à cultura do poder patriarcal
A obra questiona o poder masculino absoluto e a dominação através da força. A
personagem Damboia, por exemplo, é símbolo de uma mulher política e cruel, que
incita à violência (p. 35). A própria estrutura familiar do império é apresentada como
instável, opressiva e corrupta.
6. Linguagem e estilo
Khosa emprega uma linguagem densa, simbólica, com forte carga poética e referências
à tradição oral africana. O uso de palavras em línguas locais (tsonga, nguni) confere
autenticidade e localização cultural à narrativa.
Exemplo:
Termos como “hosi” (rei), “inkonsikazi” (rainha principal), “mondzo” (veneno
ritual) aparecem recorrentemente (p. 50), reforçando o enraizamento da narrativa
na cultura moçambicana.
7. Crítica ao colonialismo e à guerra
Apesar de o inimigo principal não ser o colonizador, a presença colonial é evidenciada,
especialmente nas partes finais, como em “Fragmentos do fim (2)” (p. 39), com a
entrada das tropas portuguesas em Gaza:
“O coronel Galhardo olhou para o negro, viu as tripas escorrerem pela terra, [...]
e não se comoveu.” (p. 39)
A brutalidade da ocupação colonial é colocada em paralelo com a tirania de
Ngungunhane, questionando tanto o poder tradicional quanto o europeu.
8. Final simbólico e profético
A morte de personagens centrais e a queda do império são narradas em tons
apocalípticos. A repetição de temas como o sangue, a chuva, os lamentos, os sonhos
proféticos e a loucura conferem ao final um caráter de purgação histórica e cíclica.
Exemplo:
A morte de Domia é acompanhada por uma chuva que “não parou de cair
durante semanas e semanas” (p. 53), limpando simbolicamente a terra.
Conclusão
Ualalapi é uma obra profunda e multifacetada que realiza uma crítica feroz à história
política de Moçambique, à violência do poder tradicional e ao legado do colonialismo.
Sua fragmentação estrutural, linguagem simbólica e personagens ambíguos a tornam um
marco da literatura africana de expressão portuguesa.