Os livros infantis de Clarice Lispector tiveram origem
no pedido de um de seus filhos que vendo a mãe
sempre com a máquina de escrever ao colo, pediu que
lhe es-crevesse um livro. O primeiro foi o Mistério do
coelho pensante, originalmente escrito em inglês, no
período em que a família morou nos Estados Unidos.
Seus livros infantis, de alguma forma, traduzem o que
o conceito de “infância” significava para a escritora. De
acordo com a pesquisa de Moser, “sobre a infância de
Clarice Lispector pairava a terrível e incessante visão
de sua mãe, paralisada, num país
desconcertantemente es-trangeiro, incapaz de se
mover ou de falar, presa numa cadeira de balanço,
morrendo de modo lento e penoso” (2009, p. 97). Essa
pode ser uma das razões pelas quais suas narrativas,
inclusive as infantis, abordam temas sobre as
inclemências da realidade.
Clarice Lispector escreveu cinco livros voltados para o
público infantil, que não são menos complexos que
aqueles escritos para os adultos. Os livros são: O
mistério do coelho pensante (1967), A mulher que
matou os peixes (1968), A vida íntima de Laura (1974),
Quase de verdade (1978 – obra póstuma), Doze lendas
brasileiras (1987 - obra póstuma). Muitas das
peculiaridades que marcam sua estilística nos contos,
romances e crônicas, estão presentes nos livros infantis.
Algumas das principais características dos textos,
história da protagonista Joana, da sua infância solitária
de menina órfã até sua vida adulta. Narração centrada na experiência
interior e na
introspecção, onde Clarice Lispector trata sobre a vida de uma
perspectiva inteiramente
voltada para a condição do “eu” em relação ao “Outro” e ao mundo
que nos
cerca.
A hora da estrela (1977) apresenta Macabéa, que não é uma menina,
mas uma
jovem mulher. Porém, é possível discorrer sobre sua vulnerabilidade,
que a transforma
quase na imagem de uma criança. Uma moça nordestina
desamparada no Rio de
Janeiro, que somente “brilha” no momento de sua morte. Esse foi o
último livro publicado
por Clarice Lispector e que carrega em si toda a trajetória literária da
escritora.
Independente do gosto do leitor, é possível constatar que Macabéa é
o “resultado” do
abandono, da negligência, da carência afetiva e da pobreza, que
subjuga mulheres
como seres marginais em uma sociedade patriarcal. A poética deste
livro se inicia logo
na escolha do título, pois quando todos acham lindo o céu estrelado,
não pensam ou
se esquecem que apenas as estrelas mortas brilham. O que veem é
um cadáver cósmico
que só brilha na hora de sua morte, assim como acontece com
Macabéa.
Os livros infantis, embora não tenham sido explanados neste
trabalho, também
possuem relatos pessoais de Lispector. Os filhos da escritora tiveram
um coelho
quando eram pequenos, Clarice Lispector matou os peixes de seus
filhos acidentalmente
quando esqueceu de alimentá-los e não gostava de galinhas, por
achar as
aves inferiores aos demais animais. Nesses três livros, Lispector narra
em primeira
pessoa fatos, mas com uma linguagem maternal, suave, porém não
menos reflexiva.
O desafio de crescer como menina é o fio condutor de todas as
narrativas. A escritora
traça o percurso entre ser uma menina púbere, a expectativa pela
mocidade e enfim
a decepção que a idade da mulher madura provoca, algo que é
evidente no conto “A
legião estrangeira”