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Descentralização e Governação Local em Moçambique

O documento discute a importância da governação local, diferenciando entre governo local e poder local, e enfatiza a necessidade de participação cidadã, transparência e responsabilidade na gestão pública. Destaca também os desafios da descentralização em Moçambique, incluindo a influência de elites políticas e a necessidade de um quadro institucional robusto. Além disso, menciona as leis que regulam a criação e funcionamento das autarquias locais e órgãos de governação descentralizada.

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Descentralização e Governação Local em Moçambique

O documento discute a importância da governação local, diferenciando entre governo local e poder local, e enfatiza a necessidade de participação cidadã, transparência e responsabilidade na gestão pública. Destaca também os desafios da descentralização em Moçambique, incluindo a influência de elites políticas e a necessidade de um quadro institucional robusto. Além disso, menciona as leis que regulam a criação e funcionamento das autarquias locais e órgãos de governação descentralizada.

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Importa antes de mais afirmar que os governos locais constituem um tema fundamental em

várias disciplinas e campos de estudo, como é o caso do direito, ciência política, a sociologia
e economia assim como no nosso caso da administração pública que é uma ciência que
dedica-se a analisar a estrutura, acção, organização e funcionamento do estado (administração
pública).

Nesta disciplina vamos discutir o conceito de governação local. Contudo antes, de discutir,
importa referenciar a diferença entre governo local e poder local: apresentado pela escola
nacional da administração pública brasileira: que designa que o primeiro conceito serve para
analisar o comportamento de uma instituição política e organizacional e as acções que
empreende em termos do escopo de atribuições que lhe cabem nos marcos do ordenamento
jurídico e constitucional no qual se inserem. Onde temos o governo local a actuar com
propósitos definidos em uma jurisdição territorialmente delimitada, e como tal possui uma
intencionalidade bem definida. Por outro lado, o segundo termo é tem a ver com à análise de
como uma comunidade ou localidade é dominada e/ou governada por líderes que ocupam
posições de destaque na sociedade aqui podemos mencionar chefes de localidade, régulos,
chefes de 10 casas.

Distinguir dois conceitos essenciais, um é o governo local e o outro é o poder local. Embora
ambos estejam concomitantemente ligados a governação local, diferem em substância.

Por um lado tem o Governo Local que tem como objectivo definido em uma jurisdição
territorialmente delimitada, e como tal possui uma intencionalidade bem definida. Por outro
lado, o Poder Local está associado à análise de como uma comunidade ou localidade é
dominada e ou governada por líderes que ocupam posições de destaque na sociedade.

Contudo, definimos Governação Local como conjunto de processos e estruturas usadas pelas
autoridades locais para tomada de decisões, prestando serviços e através dos quais interagem
com cidadãos e outras partes interessadas para promover o desenvolvimento sustentável e a
participação democrática. A governação local é exercida pelos governos locais, governos
locais pode ser visto gramaticalmente como pessoa jurídica colectiva, para uma variedade de
instituições de governação de diferentes modelos e tamanhos responsáveis por funções
diferenciados (Agranoff, 2014).
Normalmente são resultados do sufrágio universal, escolhidos pela população local. Sendo
caracterizado por possuir responsabilidades administrativas e são reconhecidos legalmente
pelo Estado ou segundo níveis de governo.

Estes têm a missão de implementar medidas de interesse dos cidadãos locais que vivem em
uma jurisdição territorialmente definida. Nesse sentido, pode também ser identificado com
autogoverno que possui um escopo definido de autoridade, poder, autonomia e
discricionariedade. Por exemplo, obter receitas próprias apoia-se em regras legais, assim
como ocorre com outras decisões de carácter regulatório e vinculativo no âmbito do território
(SACHDEVA, 2011; LIDSTROM, 1998). Neste caso, pode-se ver como exemplo os
municípios, que tem uma assembleia municipal, orçamento e poder fiscal (isto é, arrecadação
de receitas através de vários mecanismos).

Assim, podemos afirmar que governação local é o processo pelo qual diferentes actores,
incluindo governo, sociedade civil e a comunidade colaboram na gestão e provisão de
serviços e recursos a nível local, promovendo a participação, descentralização e
fortalecimento das instituições locais. O governo local no estado moçambicano, é instituído
pela lei que vamos profundamente discutir nos próximos dias. O que devemos avançar é que
este é eleito pelo sufrágio universal, pela sua província, município, distrito ou bairro.

Weimer destacou na área de governação descentralizada, tendo trabalhado e apoiado


diferentes processos da reforma. Ele caracterizou o processo da governação local que deve
incluir

1. Descentralização – que é a transferência de poderes e responsabilidades do governo


central para instâncias locais. Dando assim a independência aos governos municipais e
governos provinciais na tomada de decisões, adaptando políticas às realidades locais.

2. Interacção entre actores – os governos locais devem interagir com o sector privado,
ONGs, sociedade civil, religiões e a comunidade de forma geral.

3. Accountability e transparência – para haver sucesso na governação local deve haver


mecanismos de prestação de contas e transparência na gestão dos recursos públicos e
processos. Isso fortalece a confiança dos cidadão, nas instituições locais. Principalmente para
que estes tenham desejo de continuar a contribuir.
4. Participação cidadã – sem a participação dos cidadãos, torna-se ineficaz a governação
local, isto é feito através da sociedade civil, comunidade e sector privado, religiosos, midia
que tem um papel importante na formulação e implementação de políticas públicas.

5. Capacitação institucional – neste aspecto, o professor weimer defende que a governação


local terá efeito se houver instituições fortes e capacitadas para lidar com os desafios na
descentralização administrativa e política, garantindo desta feita a eficiência e equidade nas
políticas públicas.

No contexto da Governação Local, Dr. Nobre Canhanga aponta como desafios da


descentralização e da planificação participativa: a ausência de um quadro institucional que
regulamente o processo de planificação participativo a nível dos municípios, fraqueza na
análise dos instrumentos de gestão política, exclusão de certos grupos políticos e sociais,
manipulação de prioridades e preferências dos cidadãos em benefício dos desejos das elites
políticas locais, monopólio do poder sobre o processo de planificação participativa.

A boa governação, para o Banco Mundial, significa um serviço público eficiente, um sistema
judicial independente, um quadro legal para garantir a implementação dos contractos, a
prestação de contas e responsabilização dos gastos com fundos públicos, uma auditoria
pública independente; responsabilização dos orgãos eleitos, respeito pela lei e pelos direitos
humanos a todos os níveis do governo, uma estrutura institucional pluralista e imprensa livre.
Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), boa governação refere-se à implementação de
políticas e práticas eficazes que promovam estabilidade económica, transparência, prestação
de contas e o Estado de Direito. E para Nações Unidas (ONU), boa governação é um
conjunto de princípios e práticas que garante que os governos e instituições públicas atuem de
maneira transparente, responsável, eficiente e participativa, promovendo o desenvolvimento
sustentável e os direitos humanos. O conceito de boa governação do Banco Mundial, FMI, e
Nações Unidas tem muitos pontos em comum, todas destacam a transparência, a prestação de
contas, o Estado de Direito e a eficiência na administração pública, além de que são unânimes
a concordarem que a boa governação é essencial para estabilidade económica e o
desenvolvimento sustentável. No entanto, existem diferenças, o Banco Mundial foca na
eficiência do sector público, auditoria independente e pluralismo institucional. O FMI
prioriza a estabilidade económica e políticas eficazes com menos ênfase em direitos
humanos. A Organização das Nações Unidas traz uma abordagem mais ampla, incluindo o
desenvolvimento sustentável, participação cidadã e direitos humanos.
Em suma, o que pretendemos dizer é que estas instituições compreendem que a boa
governação deve estar enraizado nos princípios orientadores sem as quais é impossível
discutir a boa governação. Como é o caso das eleições livres, justas e transparentes,
participação dos cidadãos na tomada de decisões, accountabilty, transparência, consideração
de grupos minoritários.

Princípios e Dimensões da Boa Governação segundo Nobre Canhanga, Salvador Forquilha e


Bernard Weimer NOBRE CANHANGA: Nobre Canhanga, em seus estudos sobre a
governação local e as reformas necessárias para uma governaçao eficaz, destaca os seguintes
princípios e dimensões fundamentais para a Boa Governação: Participação cidadã: A
participação ativa da população nas decisões locais é essencial para garantir que as políticas
públicas atendam às necessidades reais da comunidade. Transparência: A gestão pública deve
ser clara e acessível, de modo que os cidadãos possam fiscalizar e avaliar o uso dos recursos.
Responsabilidade: Os líderes locais devem ser responsabilizados por suas ações e pela
implementação eficaz das políticas públicas. Equidade: A governança deve ser inclusiva,
garantindo que todos os grupos da sociedade, especialmente os mais marginalizados, tenham
acesso aos recursos e serviços. Eficiência e eficácia: As políticas devem ser executadas de
forma eficiente, garantindo o uso adequado dos recursos públicos. SALVADOR
FORQUILHA: Salvador Forquilha enfatiza a importância da descentralização como um
processo que permite que a governaçao local seja mais próxima da população, promovendo
um envolvimento direto dos cidadãos nas decisões políticas. FORQUILHA também destaca a
gestão responsável e a qualidade institucional como condições para o fortalecimento da
governança local. BERNARD WEIMER: BERNARD WEIMER, por sua vez, aborda a
governação local como um processo dinâmico que envolve parcerias e redes de ação coletiva,
em que a participação e a cooperação entre diferentes atores da sociedade (governo local,
organizações da sociedade civil, setor privado e cidadãos) são essenciais. Ele também discute
a descentralização do poder e da autoridade para melhorar a eficácia da gestão pública e
promover o desenvolvimento local. Confronto entre os autores: Embora Canhanga, Forquilha
e Weimer compartilhem a ênfase na participação cidadã, na responsabilidade e na
transparência, cada um tem uma ênfase distinta: Canhanga dá uma atenção particular à
equidade e eficácia, com um foco nos processos de reforma. Forquilha enfatiza a
descentralização como um processo crucial para a boa governação local, particularmente no
contexto de Moçambique. Weimer foca na cooperação e redes como componentes
fundamentais para a melhoria da governança local, com um foco no aspecto dinâmico e
interdependente da governança.

No meu município, o princípio da participação cidadã é operacionalizado através de diversos


mecanismos que visam envolver os munícipes no processo de governação local. As
autoridade municipais utilizam principalmente as lideranças comunitárias, como o caso dos
secretários de bairro para disseminar informações e mobilizar populações. Os líderes
convocam reuniões comunitárias onde auscultam as preocupações das populações e
transmitem as decisões e políticas do município, como forma de interacção entre o governo
local e os cidadãos. Mas também o município mantém o contacto permanente com várias
organizações da sociedade civil buscando desta forma a cooperação entre o sector público e
privado com objectivo de desenvolver a autarquia.

Antes de mais é necessário compreender o conceito de cidadão. Este é aquele que participa
activamente na vida da urbe, contribui com seus impostos, tem capacidade de eleger e ser
eleito no sufrágio universal nos diferentes campos de escurtinio que ocorrem na sua nos seus
limites geográficos. O cidadão, participa de forma exemplar, nas reuniões do quarteirão,
bairro, distrito, província e nação através de diferentes fóruns como ONGs, sociedade civil,
grupos religiosos ou e ainda artes. O cidadão promove o desenvolvimento sustentável da sua
urbe, comportando-se condignamente no que diz respeito ao bem-estar da cidade, seja na sua
limpeza, não jogando lixo no chão ou removendo-o. Ser cidadão exige uma mente flexível
para compreender seu papel no desenvolvimento urbano. Ao promover a prestação de contas,
transparência, inclusão de grupos minoritários, a participação do cidadão na tomada de
decisões, bem como a criação de condições para o sufrágio universal, os governos locais
estão a promover a cidadania. Que por sua vez, estas acções configuram-se em marcas de
exercício democrático.

Antes de mais, temos de compreender o contexto que influenciou o processo de


descentralização nos moldes actuais, se estão lembrados este processo vem na sequência de
esforços anteriores fracassadas, mediadas por actores nacionais e internacionais, de
ressuscitar o acordo geral de paz de Roma, Itália, de Outubro de 1992 e alcançar uma paz
definitiva. As negociações de paz entre o presidente Nyusi e o falecido líder da Renamo,
Dhlakama, e o seu sucessor Momade, mediada pelo antigo embaixador suíço Mirko Manzoni
e pela sua equipa, resultaram num acordo em que se negociava o objectivo do governo da
Frelimo de acabar definitivamente com a capacidade militar da Renamo, cedendo ao desejo
da Renamo de governar em províncias consideradas seus bastiões. De facto, a reforma
pontual da constituição de Junho de 2018 instituiu os governos provinciais descentralizados,
que na linguagem técnica da legislação, chamam-se órgãos de governação descentralizada da
província (OGDP). Criava-se assim a as condições de a Renamo governar uma província ao
ganhar as eleições para o governador de província (GP) e para a assembleia provincial (AP).
Nas primeiras eleições provinciais sob o novo pacote, a 15 de Outubro de 2019, assistiu-se,
porém, a vitórias exclusivas da Frelimo em todas as províncias, incluindo Sofala, Zambézia e
Nampula, que eram consideradas bastiões da oposição. Estudos apontam que a previsão de
vitória da Renamo em algumas províncias influenciou o processo legislativo, na medida em
que a maioria da Frelimo na Assembleia da República introduziu na legislação um forte
contrapeso institucional aos OGDP em todas as províncias, nomeadamente a representação
do estado para a província (REP), chefiada pelo Secretário de Estado na província (SEP).
Estão ambos directamente subordinados aos órgãos centrais do estado (OCE), ou seja, o
conselho de ministros (CM), perante os quais respondem. Assim, os progressos na
descentralização decorrentes do «momento crucial» do acordo de paz foram cerceados pelo
recurso à «dependência histórica» da lógica do «centralismo democrático», uma característica
fundamental da maneira como a Frelimo tem abordado a governação descentralizada, como
mostra o professor Weimer e outros especialistas.

Este é quadro legal e institucional que cria as entidades de governação local e são
fundamentais que todos tenham dominio pos serao avaliados.

 lei nº 1/2018, de 12 de junho revê, pontualmente, a constituição da república para


ajustá-la ao processo de consolidação da reforma democrática do Estado

 lei nº 6/2018, de 3 de agosto estabelece o quadro jurídico-legal para a implantação das


autarquias locais (alterada e republicada pela lei n.º 13/2018, de 17 de dezembro)

 • lei nº 7/2018, de 3 de agosto estabelece o quadro jurídico-legal para a eleição dos


titulares da assembleia municipal e do presidente do conselho municipa

 l • lei nº 3/2019, de 31 de maio estabelece o quadro jurídico para eleição dos membros
da assembleia provincial e do governo de província.
 lei n.º 12/2023, de 25 de agosto, lei de bases de criação, organização e funcionamento
das autarquias locais (lei de bases das autarquias locais - lebal), revogando, desta
forma, a lei n.º 6/2018, de 3 de agosto, alterada e republicada pela lei n.º 13/2018, de
17 de dezembro.

 lei nº 4/2019, de 31 de maio estabelece os princípios, as normas de organização, as


competências e o funcionamento dos órgãos executivos de governação
descentralizada provincial.

 lei nº 5/2019, de 31 de maio estabelece o quadro legal da tutela do estado a que estão
sujeitos os órgãos de governação descentralizada provincial e das autarquias locais.

 lei nº 6/2019, de 31 de maio estabelece o quadro legal sobre a organização,


composição e o funcionamento da assembleia provincial.

 lei nº 7/2019, de 31 de maio estabelece o quadro legal sobre a organização,


composição e o funcionamento da assembleia provincial.

 lei nº 15/2019, de 24 setembro estabelece o quadro legal da organização e do


funcionamento dos órgãos de representação do estado na cidade de maputo

 lei nº 16/2019, de 24 de setembro define o regime financeiro e patrimonial dos órgãos


de governação descentralizada provincial.

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