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Negligência Parental e Destituição do Poder Familiar

O documento discute a destituição do poder familiar em casos de negligência dos pais em relação a abusos sexuais, enfatizando a doutrina da proteção integral das crianças e adolescentes. Além disso, aborda a questão da adoção irregular, destacando a preferência pelo acolhimento familiar em vez de abrigo institucional, e a necessidade de avaliação do uso de algemas em menores pelo Ministério Público. Por fim, menciona a possibilidade de delegados requisitarem ao MP a antecipação de provas em casos de violência contra menores, mas ressalta a autonomia do MP na decisão.

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Thiago Azeredo
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Negligência Parental e Destituição do Poder Familiar

O documento discute a destituição do poder familiar em casos de negligência dos pais em relação a abusos sexuais, enfatizando a doutrina da proteção integral das crianças e adolescentes. Além disso, aborda a questão da adoção irregular, destacando a preferência pelo acolhimento familiar em vez de abrigo institucional, e a necessidade de avaliação do uso de algemas em menores pelo Ministério Público. Por fim, menciona a possibilidade de delegados requisitarem ao MP a antecipação de provas em casos de violência contra menores, mas ressalta a autonomia do MP na decisão.

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Estatuto da Criança e do Adolescente 2024


Data de Publicação: 01/01/2024

Pdf gerado por: THIAGO AZEREDO RODRIGUES ZUPPO | thiagoazro@[Link]

Segredo de Justiça I - Info 800


Tese Jurídica
A negligência ou omissão dos pais com relação ao grave abuso sexual cometido autoriza,
excepcionalmente, a destituição do poder familiar.

Comentários
Controvérsia

O caso discute se a negligência ou omissão dos pais com relação a grave abuso sexual da criança
pode levar à destituição do poder familiar.

Julgamento

O STJ entendeu que sim.

O art. 1° do EC estabelece a chamada doutrina da proteção integral, cuja principal ideia é o fato de as
crianças e adolescentes estarem em uma fase de desenvolvimento, sendo sujeitos de Direito e não
apenas objeto de tutela e intervenção dos adultos. Assim, são titulares do direito à vida, à liberdade, à
saúde, à segurança, à educação, como todas as demais pessoas, com a diferença de que, por
estarem nessa condição de desenvolvimento, há certas especificidades em relação a esses direitos.
Assim, para que esses direitos sejam observados, faz-se necessária a atribuição de deveres à
família, à sociedade e ao Estado de forma solidária, ou seja, tanto na esfera pública quanto na espera
privada, todos devem observar os deveres a serem cumpridos a fim de garantir os direitos das
crianças e adolescentes. Nesse sentido a CF:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao


adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação,
à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade
e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

No mesmo sentido, tem-se o art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente que traz a previsão
legal expressa do direito à prioridade absoluta, corolário da proteção integral:

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público


assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à


infância e à juventude.

Vale ressaltar que a doutrina da proteção integral garante juridicidade aos direitos das crianças e
adolescentes e assim, os deveres atribuídos à sociedade, ao Estado e à família não são uma
obrigação apenas moral, mas sim exigíveis ao Poder Judiciário caso não estejam sendo cumpridos.

Segundo a jurisprudência do STJ, a doutrina da proteção integral está diretamente relacionada ao


princípio do melhor interesse da criança e do adolescente, pelo qual ficam obrigados os aplicadores
do direito a buscar a solução que gere o maior benefício possível ao menor. Assim, deve-se buscar a
máxima efetividade aos direitos fundamentais da criança e do adolescente, especificamente criando
condições que viabilizem, concretamente, a obtenção dos alimentos para a sobrevivência.

No caso concreto, existem diversas provas que indicam o abuso sexual cometido contra o menor,
enquanto os pais recusam a evidência científica colhida em exame médico-hospitalar. Além disso, o
comportamento da criança mostra preocupante temor em relação ao pai, conforme atestam os
serviços de atendimento especializados.

Diante disso, o Tribunal de origem, com base no princípio da integral proteção à criança e ao
adolescente, concluiu pela total incapacidade de exercício do poder parental, além da submissão do
menor ao constante risco de violação da sua integridade física e psicológica. O colegiado também
apontou a falta de ente da família extensa em condições de cuidar da criança.

Essa decisão está de acordo com a jurisprudência do STJ, segundo a qual, em demandas
envolvendo interesse de criança, como no caso, a solução da controvérsia deve sempre observar o
princípio do melhor interesse do menor, introduzido em nosso sistema como corolário da doutrina da
proteção integral (art. 227, CF), a qual deve orientar a atuação tanto do legislador quanto do aplicador
da lei.

Em resumo, a negligência ou omissão dos pais com relação ao grave abuso sexual
cometido autoriza, excepcionalmente, a destituição do poder familiar.

Segredo de Justiça I - Info 806


Tese Jurídica
A depender do caso concreto, a suspeita de ocorrência da adoção irregular de criança não justifica a
sua inserção em abrigo institucional.

Comentários
Adoção

A adoção tem por base um vínculo socioafetivo e sempre depende da chancela do Judiciário. Quando
uma criança deixará o poder dos seus pais biológicos, será dada preferência à sua família extensa ou
ampliada, constituída por pessoas que estão na família além dos pais e que possuam afetividade ou
afinidade com a criança ou adolescente, como tios e avós.

Em não sendo possível, será feita a colocação em família substituta, o que pode se dar por guarda,
tutela e adoção, na respectiva ordem de profundidade da relação. Portanto, a adoção é uma medida
excepcional no sistema jurídico, que segue determinado rito.

A adoção ocorre por meio de um processo judicial, que a formaliza. Não se admite, de forma regular,
a adoção fora dos meios legais (a adoção à brasileira é um crime).

Caso Concreto

Um casal assumiu a guarda de um menor porque a mãe biológica não estava em condições de cuidar
dele devido a problemas de saúde. O casal afirma que já eram amigos da família da mãe antes de a
criança nascer e que a acolheram desde os primeiros dias de vida. Além disso, teriam assinado um
Termo de Responsabilidade perante o Conselho Tutelar, com o consentimento da mãe. Portanto, ao
que tudo indica, não foi seguido o rito legal de adoção.

Nesse contexto, surge a seguinte controvérsia: a suspeita de ocorrência de adoção irregular autoriza
a inserção do menor em abrigo institucional?

Julgamento
No entendimento do STJ, a depender do caso concreto, a suspeita de ocorrência da adoção
irregular de criança não justifica a sua inserção em abrigo institucional.

Em situações envolvendo abrigamento institucional, é sempre necessário atentar ao princípio do


melhor interesse e da proteção integral do menor.

A jurisprudência da Corte firmou-se no sentido de priorizar o acolhimento familiar em detrimento da


colocação do menor em abrigo institucional, exceto nos casos em que há evidente risco concreto à
integridade física e psíquica, de modo a se preservar os laços afetivos eventualmente configurados
com a família substituta.

A Quarta Turma já decidiu que a ordem cronológica de preferência das pessoas previamente
cadastradas para adoção não possui um caráter absoluto, de modo que o melhor interesse da criança
ou do adolescente sempre irá prevalecer.

Isso posto, o abrigamento institucional do menor que, aparentemente, está bem inserido em um
ambiente familiar, além de ter seus interesses superiores preservados, com formação de vínculo
socioafetivo suficiente com os seus guardiões de fato, tem o potencial de gerar dano grave e de difícil
reparação à sua integridade física e psicológica.

Rcl 61.876-RJ
Tese Jurídica
Além das condições estabelecidas na Súmula Vinculante 11/STF, o uso de algemas por menores de
idade deve ser avaliada pelo Ministério Público e submetida ao Conselho Tutelar, que se manifestará
sobre as providências relatadas.

Comentários
Contexto

No caso concreto, um juiz manteve uma adolescente algemada durante a audiência de apresentação.
A menor foi acusada da prática de ato infracional análogo ao tráfico de drogas.

A defesa argumentou que houve violação á súmula vinculante 11/STF, segundo a qual:

Súmula Vinculante 11/STF. Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de


fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do
preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de
responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da
prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do
Estado.

Por essa razão, pleiteou a concessão de medida liminar para que o magistrado se abstenha de impor
o uso de algemas em audiências futuras, e a anulação da audiência de apresentação.

Julgamento

No julgamento da questão, o Supremo fixou algumas condições para o uso de algemas por menores
de idade.

Assim, além do disposto na SV 11, a Corte apontou os seguinte procedimento a ser seguido:

Procedimento Fundamento Legal

ECA

Art. 175. Em caso de não liberação, a autoridade


policial encaminhará, desde logo, o adolescente ao
representante do Ministério Público, juntamente com
cópia do auto de apreensão ou boletim de ocorrência.
(i) O menor, uma vez apreendido, será
encaminhado ao representante do MP competente,
que deverá opinar sobre a eventual necessidade de
uso das algemas § 2º Nas localidades onde não houver entidade de
atendimento, a apresentação far-se-á pela autoridade
policial. À falta de repartição policial especializada, o
adolescente aguardará a apresentação em
dependência separada da destinada a maiores, não
podendo, em qualquer hipótese, exceder o prazo
referido no parágrafo anterior.

ECA

(ii) Se não for possível a apresentação imediata do Art. 175 (...)


menor ao MP, ele será encaminhado à entidade de
atendimento especializada, que deverá apresentá-lo § 1º Sendo impossível a apresentação imediata, a
ao representante do Parquet em 24 horas. autoridade policial encaminhará o adolescente à
entidade de atendimento, que fará a apresentação ao
representante do Ministério Público no prazo de vinte e
quatro horas.
Procedimento Fundamento Legal

ECA
(iii) nos lugares em que não houver entidade de Art. 175 (...)
atendimento especializada, o menor ficará
aguardando a apresentação ao represente do MP § 2º Nas localidades onde não houver entidade de
em repartição policial especializada, e, na falta atendimento, a apresentação far-se-á pela autoridade
desta, em lugar separado do destinado a maiores. policial. À falta de repartição policial especializada, o
Tal permanência não poderá extrapolar o período adolescente aguardará a apresentação em
de 24 horas. dependência separada da destinada a maiores, não
podendo, em qualquer hipótese, exceder o prazo
referido no parágrafo anterior.

(iv) apresentado o menor ao MP e emitido o parecer


sobre a necessidade ou não de uso de algemas,
essa questão será submetida ao juiz que deverá se
manifestar de forma motivada sobre a matéria no
momento da audiência de apresentação do menor.

(v) o Conselho Tutelar deverá ser provocado a se


manifestar sobre as providências relatadas pela
autoridade policial, para decisão final do MP.

Em resumo, além das condições estabelecidas na Súmula Vinculante 11/STF, o uso de algemas
por menores de idade deve ser avaliada pelo Ministério Público e submetida ao Conselho
Tutelar, que se manifestará sobre as providências relatadas.

ADI 7.192-DF
Tese Jurídica
Em casos envolvendo violência contra vítimas menores de idade, o delegado pode requerer ao
Ministério Público a propositura de ação cautelar de antecipação de produção de prova, mas tal
pedido não é vinculante.

Comentários
Ministério Público
O MP é uma instituição pública e autônoma que funciona como espécie de ouvidoria da sociedade
brasileira. Está encarregada de defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses
sociais e individuais indisponíveis. Suas principais características são:

Instituição permanente – cláusula pétrea implícita. Apesar de não estar previsto expressamente
no art. 60, §4º da CF, o órgão do MP não pode ser retirado da Constituição Federal.
Função essencial à Justiça – não possui função jurisdicional mas é essencial para o exercício
da atividade jurisdicional, assim como o advogado, estando na posição de grande defensor dos
interesses do conjunto da sociedade brasileira.
Papel/objetivo – deve atuar na defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos
interesses sociais e individuais indisponíveis (direitos dos quais os indivíduos não podem abrir
mão).

São princípios que regem a atividade do órgão:

PRINCÍPIO DA UNIDADE. O MP é uma instituição única (embora tenha divisões funcionais, como
visto anteriormente).

PRINCÍPIO DA INDIVISIBILIDADE. O MP é um todo. Assim, não é formado pelos membros em si,


mas pelo órgão que atua. Em caso de vacância, portanto, é perfeitamente possível a substituição de
um membro pelo outro.

PRINCÍPIO DA INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL A hierarquia do MP é meramente administrativa,


nunca funcional. Assim, os membro de chefia, como o PGR, não têm competência para determinar
formas de atuação aos demais.

PRINCÍPIO DO PROMOTOR NATURAL Princípio doutrinário, extraído implicitamente do art. 5º, LIII
da CF, segundo o qual: "Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade
competente". Portanto, não pode haver um promotor ad hoc, ou seja, constituição de um promotor
para atuação em uma causa específica.

Além disso, são garantias do MP:

AUTONOMIA FUNCIONAL. O MP não se submete a nenhum dos Poderes nem a quaisquer órgãos
ou autoridades no desempenho de suas funções. Isso é importante porque o MP também zela pela
autonomia dos Poderes, para evitar qualquer tipo de autoritarismo dentro deles.

AUTONOMIA ADMINISTRATIVA. Possui autogestão e autoadministração, de modo que compete ao


MP criar suas próprias regras, como a criação ou extinção de cargos. O MP também pode idealizar
lei, mas deve submetê-la ao processo legislativo regular.

AUTONOMIA FINANCEIRA. O próprio MP elabora sua proposta orçamentária, dentro dos limites da
Lei de Diretrizes Orçamentárias).

Contexto
A ação, ajuizada pela Associação dos Membros do Ministério Público (Conamp), trata sobre a
possibilidade de autoridade policial requisitar ao MP a antecipação de produção de prova nas causas
envolvendo violência contra crianças e adolescentes.

A entidade questiona o seguinte dispositivo da Lei 14.344/2022, a chamada Lei Henry Borel, que cria
mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a criança e o
adolescente:

Art. 21 (...)

§ 1º A autoridade policial poderá requisitar e o Conselho Tutelar requerer ao Ministério


Público a propositura de ação cautelar de antecipação de produção de prova nas causas
que envolvam violência contra a criança e o adolescente, observadas as disposições da
Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017.

A Conamp argumenta que a expressão "a autoridade policial poderá requisitar" inverte a lógica
acusatória, já que é incumbência do Parquet requisitar diligências policiais e não o contrário.
Argumenta que o MP não se submete à determinação ou ordem da autoridade policial, de modo que
cabe exclusivamente ao Parquet a promoção da ação penal pública.

Julgamento

O Supremo julgou parcialmente procedente a ação para conferir interpretação conforme a


Constituição ao dispositivo em apreço. Para a Corte, o delegado pode requerer ao MP a
propositura de ação cautelar de antecipação de produção de prova nas causas que envolvam
violência contra a criança e o adolescente, mas cabe ao membro do Parquet decidir se é o
caso de atuação ou não, nos limites de sua independência funcional e observados os deveres
que lhe são inerentes.

Uma das características mais marcantes do MP é a sua independência funcional, de modo a garantir
o cumprimento de sua missão constitucional sem a influência de interesses político-partidários:

CF

Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional


do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos
interesses sociais e individuais indisponíveis.

§ 1º - São princípios institucionais do Ministério Público a unidade, a indivisibilidade e a


independência funcional.

Nesse cenário, conclui-se que o MP não se subordina a outros órgãos ou autoridades públicas, e a
propositura da ação penal e da cautelar de produção de provas é função protegida pela autonomia
institucional.

Considerando o objetivo que da Lei 14.344/2022, é legítimo que a polícia judiciária provoque o MP na
proteção de crianças e adolescentes contra a violência doméstica e familiar. Contudo, essa
provocação não deve vincular o MP, dado o perfil constitucional de ambas as instituições. A CF
atribui ao Parquet a função de fiscalizar a polícia judiciária (art. 129, VII). Desse modo, qualquer
interpretação que atribua o controle externo do MP à polícia judiciária desorganizaria o desenho
constitucional desses órgãos. Logo, a palavra "requisitar", prevista no dispositivo citado, deve ser
interpretada como "solicitar", "requerer".

Súmula nº 669
Tese Jurídica
O fornecimento de bebida alcóolica a criança ou adolescente, após o advento da Lei nº 13.106, de 17
de março de 2015, configura o crime previsto no art. 243 do ECA.

Comentários
A conduta de fornecer bebida alcóolica para criança ou adolescente é
considerada crime?

Sim.

Em 2015, a Lei nº 13.106 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para prever
especificamente essa conduta como criminosa:

Art. 243. Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de
qualquer forma, a criança ou a adolescente, bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros
produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica: (Redação
dada pela Lei nº 13.106, de 2015)

Pena - detenção de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa, se o fato não constitui crime mais
grave. (Redação dada pela Lei nº 13.106, de 2015)

Portanto, após as alterações realizadas pela Lei nº 13.106/2015 a conduta de fornecer bebida
alcóolica para menores configura o crime previsto no art. 243 do ECA.
Mas e antes das alterações da Lei nº 13.106/2015, a conduta não era enquadrada
como crime?

Antes das modificações legislativas no ECA, a conduta era enquadrada como contravenção penal.

Isso porque, art. 243 do ECA previa um crime específico, porém, não mencionava expressamente a
bebida alcóolica no seu rol:

Art. 243. Vender, fornecer ainda que gratuitamente, ministrar ou entregar, de qualquer
forma, a criança ou adolescente, sem justa causa, produtos cujos componentes
possam causar dependência física ou psíquica, ainda que por utilização indevida:

Pena - detenção de seis meses a dois anos, e multa, se o fato não constitui crime mais
grave.

Nesse sentido, a conduta era enquadrada no art. 63, I, da Lei de Contravenções Penais:

Art. 63. Servir bebidas alcoólicas:

I – a menor de dezoito anos; (Revogado pela Lei nº 13.106, de 2015)

Sobre o tema, o STJ já havia esclarecido essa interpretação em julgados não vinculantes:

A entrega a consumo de bebida alcoólica a menores é comportamento deveras


reprovável. No entanto, é imperioso, para o escorreito enquadramento típico, que se
respeite a pedra angular do Direito Penal, o princípio da legalidade. Nesse cenário, em
prestígio à interpretação sistemática, levando em conta os arts. 243 e 81 do ECA, e o art.
63 da Lei de Contravenções Penais, de rigor é o reconhecimento de que neste último
comando enquadra-se o comportamento em foco. (HC 167.659?MS, Rel. Ministra MARIA
THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 07/02/2013)

REsp 1.992.735-PE
Tese Jurídica
A Justiça estrangeira é competente para analisar o pedido de expedição de passaportes para
menores e decidir sobre a saída do país quando este for o domicílio das crianças e de seus genitores.
Comentários
Caso concreto

No caso concreto analisado, um casal (ela, brasileira; ele, norueguês) casaram na Noruega e lá
mantiveram domicílio desde 2015. O casal teve dois filhos, ambos com nacionalidade brasileira e
norueguesa.

Anos depois do casamento, o casal decidiu se separar. Após a separação, o pai das crianças não
autorizou a renovação dos passaportes dos menores por temer que eles, se viajassem para o Brasil
com a mãe, não mais retornassem.

A mãe das crianças, brasileira, ajuizou ação contra a União buscando autorização judicial para a
emissão de passaportes para seus filhos menores, em razão da negativa do pai, de nacionalidade
norueguesa.

Assim, a controvérsia que chegou ao STJ é a seguinte: qual é a Justiça competente para decidir
sobre a expedição de passaportes e saída das crianças do país, no caso?

Julgamento

A Segunda Turma do STJ decidiu que a Justiça Norueguesa é competente para analisar o pedido de
expedição de passaportes para os menores e decidir sobre a saídas das crianças do país.

A Convenção da Haia de 1980, da qual Brasil e Noruega são signatários, prioriza as decisões do país
de residência das crianças em questões de guarda e visitas.

Além disso, embora o Decreto nº 5.978/2006 permita que a justiça brasileira ou estrangeira decida
sobre divergências na concessão de passaportes para menores, a Justiça Norueguesa já
decidiu sobre a guarda dos menores.

Assim, uma decisão judicial brasileira autorizando a emissão dos passaportes poderia violar a
Convenção sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças (Decreto nº 3.413/2000).

Nesse contexto, o princípio do juízo imediato, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, é


melhor atendido pela Justiça Norueguesa, dada a proximidade com as partes envolvidas. No mais,
busca-se o melhor interesse dos menores e o respeito aos acordos internacionais sobre a matéria.

REsp 1.944.020-MG
Tese Jurídica
O artigo 249 do ECA deve ser interpretado de forma abrangente, aplicando-se a qualquer pessoa ou
entidade que descumpra ordens judiciais ou do Conselho Tutelar relacionadas à proteção de crianças
e adolescentes, não se limitando apenas ao âmbito familiar.

Comentários
No caso, discute-se a amplitude do artigo 249 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

O dispositivo está inserido no Capítulo referente às Infrações Administrativas e descreve quem pode
ser responsabilizado por descumprir deveres relacionados à proteção de crianças e adolescentes.

Para ficar mais claro, vejamos a literalidade do artigo:

Art. 249. Descumprir, dolosa ou culposamente, os deveres inerentes ao pátrio poder


poder familiar ou decorrente de tutela ou guarda, bem assim determinação da
autoridade judiciária ou Conselho Tutelar: (Expressão substituída pela Lei nº 12.010,
de 2009) Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em
caso de reincidência.

No julgamento, a Quarta Turma do STJ destacou que o artigo 249 do ECA prevê duas situações
distintas de infração:

1. Descumprimento de deveres por pais, tutores ou guardiães;


2. Descumprimento de ordens da justiça ou do Conselho Tutelar.

Nesse contexto, conforme entendimento da Corte:

A primeira parte do artigo se aplica especificamente a pais, tutores e guardiães;


A segunda parte pode se aplicar a qualquer pessoa ou entidade responsável por crianças e
adolescentes;

Conforme interpretação dada pelo Tribunal, limitar a aplicação apenas a familiares iria contra o
objetivo de proteção integral do ECA. Assim, a interpretação ampla do artigo permite responsabilizar
outros agentes importantes, como escolas ou entidades assistenciais.

Segredo de Justiça II - Info 833


Tese Jurídica
A mera convivência e reconhecimento de avô como pai, por neto concebido por inseminação
artificial, não é suficiente para permitir a adoção avoenga.

Comentários
Adoção avoenga no Brasil

A adoção avoenga refere-se à adoção de netos pelos avós. No Brasil, esta prática é geralmente
vedada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O artigo 42, § 1º do ECA expressamente proíbe a adoção de netos pelos avós:

§ 1º Não podem adotar os ascendentes e os irmãos do adotando.

Essa vedação tem como objetivo garantir que não haja confusão das relações familiares para o
adotando.

Apesar da vedação, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem permitido flexibilizações em casos
excepcionais, considerando razões humanitárias e sociais, e para preservar situações de fato
consolidadas.

Ao julgar o REsp 1.587.477/SC, o STJ fixou os seguintes requisitos para adoção avoenga:

Adotando deve ser menor de idade


Avós devem exercer exclusivamente as funções parentais desde o nascimento
A parentalidade socioafetiva deve ser comprovada por estudo psicossocial
Deve haver reconhecimento dos adotantes como genitores pelo adotando
Não deve existir conflito familiar sobre a adoção
Não deve haver risco de confusão mental e emocional para o adotando
Os motivos para a adoção devem ser legítimos
Deve haver reais vantagens para o adotando

Controvérsia e julgamento

No caso concreto analisado, o neto foi concebido por inseminação artificial e mora com sua mãe e
com o seu avô materno, reconhecendo-o como pai. Assim, o avô pediu a adoção do menino.

Ao analisar a controvérsia, o STJ enfatizou que a família monoparental (com apenas uma das figuras
- mãe ou pai) é reconhecida constitucionalmente (Art. 226, § 4º, CF).

No caso, segundo a Corte, o planejamento da gestação por inseminação artificial demonstra a


intenção da mãe em exercer plenamente a maternidade.
Por essas razões, o mero reconhecimento do avô como pai não é suficiente para superar a vedação
legal da adoção avoenga.

A adoção avoenga pode ser considerada em circunstâncias excepcionais, sempre priorizando o


melhor interesse da criança e respeitando as complexidades das relações familiares.

REsp 2.107.638-SP
Tese Jurídica
É juridicamente possível o pedido de reconhecimento de filiação socioafetiva entre avós e neto, pois
não há vedação legal expressa nesse sentido.

Comentários
Contexto

O caso em questão se refere a uma ação de reconhecimento de paternidade socioafetiva ajuizada


por um neto maior de idade (19 anos na época) em conjunto com seus avós maternos. O objetivo da
ação era o reconhecimento da paternidade socioafetiva do neto em relação aos avós, mantendo o
registro da maternidade biológica.

A sentença inicial indeferiu a petição e extinguiu o processo sem resolução do mérito, argumentando
falta de interesse de agir e impossibilidade jurídica do pedido, com base na vedação prevista no art.
42, §1º, do ECA. O TJSP manteve a sentença em segunda instância.

O caso chegou ao STJ.

Julgamento

O STJ decidiu que é juridicamente possível o pedido de reconhecimento de filiação socioafetiva


entre avós e neto, pois não há vedação legal expressa nesse sentido.

Na decisão, a Corte pontuou a diferença entre adoção e filiação socioafetiva: a adoção pressupõe a
destituição do poder familiar, enquanto a filiação socioafetiva reconhece um vínculo pré-existente,
independentemente da destituição do poder familiar.

A vedação prevista no art. 42, §1° do ECA se aplica à adoção e não impede o reconhecimento de
filiação socioafetiva, especialmente de maiores de idade.
Além disso, a filiação socioafetiva pode coexistir com a filiação biológica, conforme o Tema nº 622 de
Repercussão Geral do STF.

Por fim, a Corte destacou que o pedido é juridicamente possível porque o ordenamento jurídico
brasileiro permite o reconhecimento de vínculos socioafetivos, inclusive entre avós e netos (art. 1.593,
CC), além de não existir qualquer tipo de proibição expressa nesse sentido. Igualmente, os avós e o
neto possuem interesse de agir quando alegam ter desenvolvido relação de socioafetividade parental
que extrapola a mera afetividade entre avós e neto, e que demanda a declaração jurídica desse
vínculo.

REsp 2.086.404-MG
Tese Jurídica
A mulher que deseja entregar seu filho para adoção tem o direito de manter essa decisão em sigilo,
protegendo sua identidade e informações sobre o nascimento da criança, mesmo em relação ao pai e
à família.

Comentários
Contexto

O recurso em questão discute o direito ao sigilo no processo de entrega voluntária de recém-nascido


para adoção, questionando se esse direito se estende ao suposto pai e à família extensa.

A cronologia do caso concreto é a seguinte:

Uma mulher, mãe de outros cinco filhos, manifestou o desejo de entregar seu recém-
nascido para adoção sob o crivo do sigilo;
A decisão de primeiro grau homologou a renúncia ao poder familiar materno, determinou o
encaminhamento do infante para adoção e garantiu o sigilo sobre a entrega;
O MP/MG interpôs agravo de instrumento, argumentando que a família extensa deveria ser
consultada antes da adoção;
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ/MG) deu provimento ao agravo, revogando a decisão
de sigilo em relação à família extensa;
A mãe interpôs recurso especial ao STJ, alegando violação ao art. 19-A e § 9º do ECA, que
garantem o sigilo à mãe.

Julgamento
Ao analisar o caso, o STJ deu provimento ao recurso especial, restabelecendo a decisão de primeiro
grau e garantindo o direito da mãe ao sigilo em relação à família extensa.

A decisão tem por fundamento o art. 19-A do ECA, que confere exclusivamente à gestante ou mãe o
direito de entregar o filho para adoção e de manter o sigilo sobre o nascimento, não dizendo nada a
respeito da manifestação de vontade do pai da criança. A manifestação do pai só é considerada se
ele for registral ou indicado pela mãe.

A Corte reconheceu a importância da autonomia da vontade da mulher no processo de entrega


voluntária para adoção, assegurando sua liberdade de escolha e protegendo-a de pré-julgamentos e
constrangimentos.

O STJ considerou que o direito ao sigilo, previsto no § 9º, se estende à família extensa, a menos que
a mãe expressamente renuncie a ele. Essa interpretação se baseia na ideia de que a busca pela
família extensa, prevista no § 3º, só se aplica quando não há solicitação de sigilo.

O direito ao sigilo sobre o nascimento não exclui o direito da criança de saber sua origem genética,
sendo ele apenas postergado nos termos do art. 48 e parágrafo único do ECA (após completar 18
anos ou antes por decisão judicial), que é o ocorre até mesmo para as crianças que são
encaminhadas à adoção fora das hipóteses do art. 19-A do ECA.

A preferência pelo esgotamento de recursos para manutenção da criança ou adolescente no âmbito


da família natural não é absoluta, pois deve-se levar em consideração o melhor interesse do menor, o
qual está associado ao seu bem estar físico e psicológico.

A Resolução nº 485/2023 do CNJ, que dispõe sobre o atendimento de gestantes que desejam
entregar o filho para adoção, também foi utilizada como base para a decisão. A norma reforça o
direito ao sigilo, inclusive em relação à família extensa, a menos que a mãe expressamente renuncie
a esse direito.

Em suma, a mulher que deseja entregar seu filho para adoção tem o direito de manter essa
decisão em sigilo, protegendo sua identidade e informações sobre o nascimento da criança,
mesmo em relação ao pai e à família.

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