Magnetismo e Indução
Começaremos a estudar agora o magnetismo e a indução magnética, cujos
fenômenos associados a esses conceitos trazem o maior e mais importante conjunto
de aplicações tecnológicas na Engenharia Elétrica e na Eletrônica. Transformadores,
motores, atuadores, relés, indutores, osciladores, todos são exemplos de dispositivos
em que o uso das propriedades do magnetismo é direcionado para desempenhar
funções tecnológicas a partir das quais o ser humano é beneficiado em seu dia a dia.
Entenderemos o que é e como se manifesta o magnetismo no vácuo e na matéria,
definiremos conceitos de campo magnético, força magnética, fluxo magnético, indução
magnética e força eletromotriz induzida e mostraremos os princípios básicos de
funcionamento de alguns destes importantes dispositivos que mencionamos.
Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:
• Compreender os princípios físicos do magnetismo e o
cálculo de campos magnéticos produzidos por distribuições
de corrente e por ímãs.
• Aplicar o conceito de circulação de um campo vetorial com
base na lei de Ampére para a determinação do campo
magnético produzido por distribuições específicas de
corrente elétrica.
• • Utilizar o conceito de indução magnética na análise de
funcionamento de dispositivos elétricos gerais.
Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:
• Tema 1 - Campos magnéticos: os campos gerados por
correntes elétricas; dipolos magnéticos, fluxo magnético
e Lei de Gauss; força sobre cargas em movimento; Lei de
Ampère
• Tema 2 - Propriedades magnéticas da matéria:
paramagnetismo, ferromagnetismo e diamagnetismo;
circuitos magnéticos
• Tema 3 - Indução eletromagnética: Lei de Faraday e Lei de
Lenz; autoindutância e indutância mútua;
transformadores
Uma das mais fascinantes aplicações do magnetismo é observada nos veículos
terrestres de levitação magnética, que não possuem rodas e conseguem se deslocar
com atrito mínimo, pois flutuam acima de suas vias, suspensos por potentes arranjos de
campos magnético. Com isto, conseguem se deslocar a velocidades comparáveis às
das aeronaves, silenciosos e com grande economia de energia em relação aos veículos
com rodas. Vídeos interessantes de dispositivos de levitação magnética por
repulsão e por atração podem ser vistos nos links indicados.
Tema 1
Campos magnéticos: os campos gerados por
correntes elétricas; dipolos magnéticos, fluxo
magnético e Lei de Gauss; força sobre cargas em
movimento; Lei de Ampère
Qual é a natureza das forças magnéticas?
Desde o século VI a.C, eram conhecidos minerais capazes de atrair uns aos outros e
ao ferro. Eram encontrados próximos à cidade de Magnes, na Grécia, de onde o
fenômeno passou a se chamar magnetismo. Pedaços de ferro atritados com o mineral
magnético adquiriam também comportamento magnético. Com isso, objetos providos
de magnetismo passaram a ser chamados de imãs.
Descobriu-se ainda que o planeta Terra também possuía magnetismo, razão pela qual
os objetos com magnetismo, quando suspensos por fios finos ou outros recursos que
os permitissem girar, se orientavam de forma a apontar uma de suas faces livres em
direção ao norte, o que explica a origem da bússola, permitindo uma melhor
orientação dos navios na era das grandes navegações, mesmo sem a visibilidade do
sol ou das estrelas. Verificava-se que, como a eletricidade, o magnetismo apresentava
as características de possuir dois polos magnéticos, de modo que os polos idênticos
se repeliam, assim como polos opostos se atraíam. Esses polos foram batizados de
polo norte e polo sul, em alusão à direção geográfica para a qual tendiam a apontar
quando estavam livres para girar.
Sabemos hoje em dia que o planeta Terra possui um núcleo magnético, como um
grande imã terrestre, cujo polo magnético está localizado próximo ao polo norte
geográfico do planeta, razão pela qual atrai o polo norte dos imãs. Da mesma forma, o
polo sul geográfico corresponde ao polo norte do imã terrestre, atraindo o polo sul dos
imãs.
Uma diferença fundamental do magnetismo em relação à eletricidade no que se refere
a polos é que as cargas elétricas são encontradas na natureza como monopolos
elétricos, ou seja, possuem uma única polaridade definida, positiva ou negativa. A
junção de duas cargas elétricas separadas por uma distância forma um dipolo
elétrico, mas sempre poderemos separá-las novamente como dois monopolos. Se
pegarmos um imã, que possui dois polos magnéticos formando um dipolo magnético,
norte e sul, e o dividirmos ao meio, teremos dois pedaços que continuam se
comportando como dipolos. Dividindo cada pedaço sucessivamente continuaremos a
ter sempre dipolos, mesmo se levarmos a divisão ao nível subatômico e obtivermos
partículas elementares, as quais continuam se comportando como dipolos magnéticos.
Apesar de ter a existência prevista em teorias físicas, não foi isolada até hoje
nenhuma partícula subatômica que se comporte como um monopolo magnético.
Mesmo que sejam identificadas partículas fundamentais com monopolos magnéticos,
nosso estudo se refere à matéria presente no cotidiano e nela não são encontrados
monopolos magnéticos. Sendo assim, para efeitos práticos, podemos dizer que não
existe monopolo magnético.
Densidade de fluxo magnético
Como as cargas elétricas, os dipolos magnéticos produzem um campo no espaço, o
qual atua sobre a matéria. Por razões práticas, definiremos primeiramente uma
grandeza física denominada densidade de fluxo magnético, também chamada
indução magnética, um vetor que representaremos como 𝐵𝐵 �⃗. A unidade física SI
correspondente a essa grandeza é o tesla (T). A densidade de fluxo magnético é
definida como fluxo magnético por unidade de área, o que tem uma dimensão física
semelhante a campo, já que o fluxo equivale a campo multiplicado por área. Sendo
�⃗ equivale a um campo magnético, mas não é chamado desta forma porque
assim, 𝐵𝐵
inclui os efeitos do meio no qual se encontra, como veremos em breve. Apesar disso,
veremos que a indução magnética 𝐵𝐵 �⃗, tal qual o campo elétrico, distribui-se como um
campo vetorial em todo o espaço partindo de suas fontes.
Até agora nos referimos aos dipolos magnéticos como fontes da indução magnética,
mas veremos que existem outra fonte, daí definiremos uma entidade diferente de 𝐵𝐵 �⃗ que
receberá a denominação de campo magnético e será representada por 𝐻𝐻 . De uma �⃗
forma geral muitos livros chamam a indução magnética 𝐵𝐵 �⃗ também de campo magnético,
�⃗ e 𝐻𝐻
ressalvado que as unidades físicas de 𝐵𝐵 �⃗ são diferentes. Neste conteúdo, vamos nos
�⃗ majoritariamente como indução magnética.
referir a 𝐵𝐵
�⃗ é independente do
É importante salientar como diferença fundamental que o campo 𝐻𝐻
meio, e o campo 𝐵𝐵 �⃗, ainda que possa ser considerado a entidade fundamental do
magnetismo, sempre dependerá do meio. Como no campo elétrico, podemos associar
linhas de campo à indução magnética. Por convenção, definimos o seguinte:
O vetor indução magnética aponta na direção da linha de campo em sentido oposto ao
polo, na região do polo norte magnético, e no sentido do polo, na região do polo sul
magnético.
Por similaridade, o comportamento da indução magnética nas proximidades do polo sul
de um dipolo magnético se assemelha ao comportamento do campo elétrico nas
vizinhanças da carga negativa de um dipolo elétrico, e vice-versa (Figura 2).
Figura 2 - (A) - Campo do dipolo elétrico; (B) - Campo do dipolo magnético; (C) - Limalha de ferro sobre
uma folha de papel, orientada pela indução magnética de uma barra de imã abaixo da folha.
Fontes: (A) e (B) extraídas de Geek3 (2010 a, b)
Uma consequência da configuração do campo de um dipolo magnético é que, ao
envolvermos um dipolo magnético por uma superfície gaussiana fechada, o fluxo do
vetor indução magnética através desta superfície gaussiana fechada será sempre
nulo, já que haverá sempre em igual proporção regiões da superfície atravessadas pela
indução magnética de dentro para fora e de fora para dentro. Desta forma, a Lei de
Gauss para a indução magnética pode ser escrita da seguinte forma:
�⃗ através da superfície
Aqui, (ΦB)A representa o fluxo do vetor indução magnética 𝐵𝐵
gaussiana imaginária fechada A.
No SI, o fluxo do vetor indução magnética através de uma área A, ou simplesmente
fluxo magnético, teria a unidade física tesla metro quadrado (Tm2). Essa unidade tem
nome próprio, é denominada weber (W).
Em 1819, ao segurar um fio metálico sendo atravessado por uma corrente elétrica nas
proximidades da agulha imantada de uma bússola, o físico dinamarquês Hans Christian
Oersted observou que a agulha se movimentava de forma similar ao que ocorria quando
um imã era aproximado da mesma. Descobriu-se então que cargas elétricas em
movimento (a corrente elétrica que percorre o fio) não só produzem uma indução
magnética no espaço ao seu redor, como também sofrem a ação de uma força
produzida por essa indução magnética.
Não descrevemos ainda a relação matemática entre um dipolo magnético e o vetor
indução magnética produzido por ele no espaço. De fato, a descoberta de que uma
corrente elétrica pode ser uma fonte de indução magnética no espaço nos permite
equiparar uma pequena espira circular plana de fio fino, sendo R o raio da espira, a um
dipolo magnético. Determinar então, a partir desta espira de corrente, a configuração do
campo do dipolo magnético exige que tratemos a corrente elétrica no espaço como
sendo composta por elementos infinitesimais distribuídos de corrente para poder somar
a contribuição do efeito de todos os elementos que compõem a espira.
Vimos em unidades anteriores que o movimento da corrente elétrica ponto a ponto no
espaço pode ser representado pelo vetor densidade de corrente elétrica. Em um fio fino,
as cargas que atravessam a seção transversal do fio podem ser consideradas como
tendo todas o mesmo módulo, direção e sentido. Sendo assim, ainda que a corrente
elétrica seja a grandeza escalar que representa o fluxo do vetor densidade de corrente
elétrica através da área de seção transversal do fio, podemos associar a direção e o
sentido da corrente a um vetor de comprimento infinitesimal, ����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑, paralelo à direção do
fio e apontando no sentido para o qual a corrente flui.
Sabe-se que o vetor indução magnética produzido no espaço em um ponto indicado
pelo vetor posição 𝑟𝑟⃗ , por um elemento de corrente na posição apontada pelo vetor
posição ���⃗
𝑟𝑟 ′ , é dado por:
𝜇𝜇0 ����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑 × �𝑟𝑟⃗ − ���⃗ 𝑟𝑟 ′ �
�����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑 = 𝑖𝑖
4𝜋𝜋 3
�𝑟𝑟⃗ − ���⃗
𝑟𝑟 ′ �
O produto representado no numerador é o produto vetorial entre os vetores 𝑑𝑑𝑑𝑑 ����⃗ e
�𝑟𝑟⃗ − ���⃗
𝑟𝑟 ′ �, o qual é um vetor perpendicular a ambos. A constante µ0 é conhecida como
permissividade magnética do vácuo, cujo valor no SI é dado por µ0 = 4π x 10-7 T m A-1.
Trata-se da Lei de Biot Savart e pode ser empregada para cálculos gerais dos campos
vetoriais de indução magnética produzidos por distribuições lineares de corrente.
Com base na Lei de Biot Savart, o campo vetorial associado à indução
magnética produzida por uma espira de corrente pode ser calculado. Veja os
detalhes deste cálculo no Capítulo 3, Exemplo 3.3 do livro Fundamentos de
Eletromagnetismo, de Wentworth, que se encontra disponível na Minha
Biblioteca.
Veremos que o módulo do vetor indução magnética no centro de uma espira de raio R
𝜇𝜇0 𝐼𝐼
tem valor 𝐵𝐵 = .
2𝑟𝑟
Um esquema das linhas de campo associadas ao vetor indução magnética
produzido por uma espira é mostrado na Figura 3. Uma versão tridimensional
desse campo vetorial está disponível como simulação no site de Paul
Falstad (os parâmetros da simulação podem ser alterados pelos cursores e
também clicando o botão esquerdo do mouse no campo vetorial e
arrastando).
Figura 3 - (A) Linhas de campo da indução magnética produzida por uma espira de corrente;
(B) Vetor indução magnética produzido por um elemento de corrente I dL do exemplo em uma
posição z ao longo do fio.
Fonte: (A) Extraída de Geek (2010c); (B).
Apresentaremos outro exemplo de uso da Lei de Biot-Savart:
Exemplo 1
Vamos determinar o vetor indução magnética produzido a uma distância r da
origem de um sistema de coordenadas cilíndricas na posição z=0 por um fio
infinito, posicionado ao longo do eixo z desse sistema de coordenadas,
passando pela origem desse eixo, sendo percorrido por uma corrente I em
sentido positivo do eixo z, usando a Lei de Biot-Savart.
O vetor posição do ponto no espaço onde se que calcula a indução magnética
é 𝑟𝑟⃗, o vetor posição do elemento infinitesimal de corrente 𝑖𝑖 ����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑 que está sendo
considerado na soma é 𝑟𝑟���⃗′ e o vetor indução magnética 𝐵𝐵 �⃗ é a soma da
contribuição de todos os elementos de corrente do fio, desde 𝑧𝑧 → −∞ até 𝑧𝑧 →
+∞ . A distância d entre o elemento infinitesimal de corrente e o ponto no
espaço onde se calcula a indução magnética é:
𝑑𝑑 = �𝑟𝑟⃗ − ���⃗
𝑟𝑟 ′ � = √𝑟𝑟 2 + 𝑧𝑧 2
Na substituição dos elementos do problema na Lei de Biot-Savart, temos:
𝜇𝜇0 ����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑 × �𝑟𝑟⃗ − 𝑟𝑟���⃗′ � 𝜇𝜇0 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑧𝑧̂ × (𝑟𝑟 𝜌𝜌� − 𝑧𝑧 𝑧𝑧̂ )
�����⃗
𝑑𝑑𝑑𝑑 = 𝐼𝐼 = 𝐼𝐼 3
4𝜋𝜋 �𝑟𝑟⃗ − 𝑟𝑟���⃗′ � 3 4𝜋𝜋
(𝑟𝑟 2 + 𝑧𝑧 2 )2
Considerando que 𝑧𝑧̂ × 𝜌𝜌� = 𝜃𝜃� e que 𝑧𝑧̂ × 𝑧𝑧̂ = 0, além do que a indução
�⃗ é o resultado da integração por todo o fio, temos:
magnética 𝐵𝐵
Apesar de termos feito o cálculo do Exemplo 1 no plano z=0, a simetria do fio
infinito faz com que para todos os planos acima e abaixo de z=0 o resultado
seja o mesmo. Vemos desta forma que o vetor indução magnética produzido
por uma corrente ao longo de um fio reto tem linhas de campo circulares em
um plano perpendicular ao fio, com o sentido do campo sendo anti-horário do
ponto de vista de um observador que olha para o plano da posição para onde
está apontando o sentido da corrente elétrica.
Esse princípio pode ser enunciado para qualquer trecho reto de condutor como
a regra da mão direita, mostrada na Figura 4.
Figura 4 - Representação da regra da mão direita.
Fonte: MikeRun (2020).
O site de Paul Falstad disponibiliza uma simulação tridimensional desse exemplo (os
parâmetros da simulação podem ser alterados pelos cursores e também clicando o
botão esquerdo do mouse no campo vetorial e arrastando).
A indução magnética gerada por outras configurações de corrente pode ser vista com
mais detalhes na seção Solenoide, Capítulo 3, Figura 3.13 do livro Fundamentos de
Eletromagnetismo, de Wentworth, que se encontra disponível na Minha Biblioteca.
Quanto à força exercida sobre uma partícula carregada com carga se deslocando no
�⃗, temos que
espaço com velocidade 𝑣𝑣⃗ em presença de um vetor indução magnética 𝐵𝐵
esta força, chamada força de Lorentz, é dada por:
𝐹𝐹⃗ = 𝑞𝑞 𝑣𝑣⃗ × 𝐵𝐵
�⃗
�⃗ , a força de Lorentz
Pelo fato de depender do produto vetorial entre os vetores 𝑣𝑣⃗ e 𝐵𝐵
tem direção perpendicular a ambos, não contribuindo para exercer trabalho mecânico
sobre a partícula, porém desviando constantemente a direção de sua trajetória.
Uma simulação deste movimento pode ser vista no site oPhysics (ajuste os
parâmetros e pressione “play”).
De uma forma similar, a força magnética exercida por um vetor indução magnética 𝐵𝐵 �⃗
sobre um elemento infinitesimal de corrente com intensidade I fluindo na direção 𝑑𝑑𝑑𝑑
����⃗ é
dada por:
�����⃗ = 𝐼𝐼 𝑑𝑑𝑑𝑑
𝑑𝑑𝑑𝑑 ����⃗ × 𝐵𝐵
�⃗
Podemos calcular a força resultante calculando os elementos infinitesimais de força e
somando-os vetorialmente. Outros exemplos de cálculo de força magnética sobre
correntes elétricas podem ser vistos nas seções 7.2 e 7.3, p. 131 a 137 do livro Curso
de Física Básica, de Nussenzveig, que se encontra disponível na Biblioteca Virtual.
Uma consequência direta do fato de que não existe monopolo magnético, conforme
enunciamos anteriormente, é que todas as configurações de linhas de campo do vetor
indução magnética corresponderão a caminhos fechados, em contraposição às linhas
de campo elétrico das cargas elétricas isoladas (monopolos elétricos), que são abertas
e vão desde a carga até o infinito.
Considerando o cálculo da chamada circulação do vetor indução magnética,
representado por ΓL, que é a soma das projeções deste vetor ao longo de um caminho
imaginário L, fechado no espaço:
Se as linhas de campo seguem um percurso fechado, é possível determinar um caminho
fechado imaginário de tal forma que possamos estimar a circulação ao percorrê-lo em
um determinado sentido. Partimos de um ponto no caminho e o percorremos até
voltarmos ao ponto de partida. Teremos as projeções do campo ao longo de nosso
percurso ocorrendo predominantemente em um mesmo sentido, de forma que a soma
destas projeções não deverá ser nula. Já se considerarmos um campo vetorial sem
linhas de campo fechadas, é muito provável que as projeções do campo ao longo deste
caminho tenham um sentido igual ao daquele em que o caminho está sendo percorrido,
em uma parte do caminho, e sentido oposto ao do percurso em outra parte, podendo a
circulação se anular.
Com base no comportamento da circulação do vetor indução magnética ao longo de um
caminho imaginário fechado L, o qual representa o contorno de uma superfície
imaginária A, observou-se que o que foi enunciado pelo físico francês André Marie
Ampére, no início do século XIX, como a Lei de Ampère:
A circulação de um vetor indução magnética 𝐵𝐵 �⃗ em um caminho fechado L
é proporcional à corrente elétrica total Iint que atravessa a superfície A
delimitada por este caminho.
A Lei de Ampère pode ser descrita matematicamente por:
Podemos exemplificar o uso da Lei de Ampère empregando-a para uma forma
alternativa de resolução do Exemplo 2, sem empregar a Lei de Biot-Savart:
Exemplo 2
Usando a Lei de Ampère, vamos determinar o vetor indução magnética
definido no enunciado do Exemplo 1, escolhendo o mesmo caminho fechado
representado na Figura 3B, o círculo de raio r com centro na origem do
sistema de coordenadas. Esse caminho tem como característica o fato de
que todos os seus pontos estão equidistantes do fio, o que nos leva a
considerar que o módulo da indução magnética seja constante ao longo
deste caminho. Somente a componente tangencial do vetor indução
magnética contribui para a circulação e escolheremos o sentido do percurso
como sendo o mesmo que o desta componente. Daí, temos:
Chegamos a um valor do módulo da indução magnética idêntico ao obtido no
Exemplo 2.
Um conteúdo adicional sobre a Lei de Ampére pode ser encontrado no
Capítulo 3, Seção 3.7, p. 143-153 do livro Eletromagnetismo Básico, de
Ricardo Afonso do Rego, Grupo GEN, 2010. ISBN: 9788521626688, que se
encontra disponível na Minha Biblioteca.
Vídeo
Para saber mais, assista ao vídeo publicado na unidade da disciplina no
Ambiente Virtual de Aprendizagem.
Tema 2
Propriedades Magnéticas da Matéria:
Paramagnetismo, ferromagnetismo e
diamagnetismo; Circuitos magnéticos
Quais são os comportamentos possíveis da matéria em
presença de um campo magnético?
As entidades fundamentais do magnetismo na natureza são os dipolos magnéticos. O
dipolo magnético foi observado primeiramente em partículas portadoras de carga
elétrica, como os elétrons e os prótons, e nas supostas órbitas dos elétrons ao redor do
núcleo dos átomos. Pela analogia com o dipolo magnético criado por uma espira de
corrente, supôs-se que as partículas fundamentais giravam em torno de si mesmas e
foi atribuída às mesmas uma propriedade chamada spin, que representa essa rotação
e é diretamente relacionável com o dipolo magnético.
A grandeza física que representa a magnitude do dipolo magnético é chamada de
momento de dipolo magnético. Sua unidade no SI é o joule por tesla (J/T). Apesar
de a ideia do spin continuar sendo mantida, foi posteriormente abandonada a ideia de
que o spin corresponde a um movimento de rotação, já que:
1. Partículas sem carga, como o nêutron, também têm dipolo magnético.
2. A velocidade de rotação das partículas teria que ser tão alta para produzir o
dipolo magnético observado a partir da carga elétrica existente em rotação, que
violaria outros princípios físicos já bem estabelecidos.
Sabemos hoje que o dipolo magnético atribuído aos elétrons é o principal componente
do comportamento magnético da matéria. Em diferentes elementos químicos, os
elétrons se distribuem em orbitais ao redor dos núcleos desses átomos de acordo com
níveis de energia. Normalmente cada orbital só pode ser ocupado por no máximo um
par de elétrons, desde que seus momentos de dipolo magnético estejam em sentidos
opostos, o que faz com que se anulem. Em alguns átomos, por razões de melhor
distribuição da energia dos elétrons nos orbitais para que o menor valor possível de
energia total seja alcançado, alguns elétrons ficam sozinhos em seus orbitais,
resultando em não anulação mútua de seus dipolos magnéticos individuais e, portanto,
em um momento de dipolo magnético total não nulo para o átomo.
Olhando em um material macroscópico, em especial em um sólido, os átomos estão
mais frequentemente distribuídos em direções aleatórias, ainda que suas posições
sejam ordenadas, como em um cristal. Sempre haverá então a possibilidade de que,
para uma dada orientação do dipolo magnético de um átomo, exista outro átomo com o
dipolo orientado na mesma direção, porém em sentido oposto, anulando o dipolo
magnético total.
Ao submeter este material a um campo magnético externo aplicado, os dipolos
magnéticos tendem a se alinhar com o campo. Daí, a soma de todos os dipolos
magnéticos alinhados forma um dipolo magnético total que não existia antes, o qual se
chama dipolo magnético induzido. Em algumas situações esse alinhamento pode se
tornar estável de forma que, ao retirar o campo magnético que o produziu, o alinhamento
continua, pelo menos de forma parcial. Criou-se então um momento de dipolo
permanente. O alinhamento dos dipolos magnéticos pode ocorrer, em muitas
substâncias, no mesmo sentido que o do campo magnético externo aplicado. Em
algumas delas pode ocorrer até em sentido oposto ao do campo magnético externo
aplicado, porém em geral com momento magnético total com intensidade bem menor
do que nos casos em que o alinhamento é no mesmo sentido.
Chamam-se paramagnéticas as substâncias que, em presença de um campo
magnético, adquirem momento de dipolo magnético induzido orientado no mesmo
sentido que o do campo magnético externo aplicado. Em geral, esse comportamento
pode estar associado até mesmo ao desalinhamento temporário de dipolos magnéticos
antes emparelhados.
Chamam-se diamagnéticas as substâncias que, em presença de um campo
magnético, adquirem momento de dipolo magnético induzido orientado no sentido
oposto ao do campo magnético externo aplicado.
Denomina-se ferromagnéticas as substâncias que, em presença de um campo
magnético, têm a possibilidade de adquirir momento de dipolo magnético permanente,
em geral no mesmo sentido que o do campo magnético externo aplicado. A condição
para isso é que os átomos individuais já tenham momento de dipolo magnético
permanente devido ao alinhamento de dipolos magnéticos de elétrons
desemparelhados, como mencionamos antes.
Dipolos magnéticos produzem campos magnéticos no espaço. Orientados a favor de
um campo externo aplicado, produzem um campo que se soma ao campo magnético
externo aplicado e que resulta em um campo magnético mais intenso que o próprio
campo aplicado.
Antes de apresentar uma forma de como descrever isso, vamos analisar o campo de
uma espira de fio colocada no vácuo.
𝜇𝜇0 𝐼𝐼
𝐵𝐵 =
2𝑟𝑟
Definiremos o campo magnético como sendo a entidade cuja descrição no espaço
independe de um meio. A contribuição do meio é indicada pela permissividade
magnética, o que, nesse caso, nos permite escrever que:
𝜇𝜇0 𝐼𝐼
𝐵𝐵 = 𝜇𝜇0 𝐻𝐻 =
2𝑟𝑟
Isto significa que, nesse caso, o campo magnético é definido pela espira de corrente,
que é:
𝐼𝐼
𝐻𝐻 = .A
2𝑟𝑟
Estabelecido como conclusão que tiramos desta forma de descrever é que a intensidade
do campo magnético independe da presença de matéria, enquanto a intensidade da
indução magnética depende.
Se houver um material no interior desta espira, a permeabilidade do meio será µ,
diferente da permeabilidade do vácuo, µo. Considerando que o vetor indução magnética
tem agora a contribuição do campo produzido pela espira e pelo material, atribuiremos
a contribuição do material como dependendo de uma constante χ, com mesma unidade
física que a permissividade magnética, chamada de susceptibilidade magnética, a
qual indica a tendência de alinhamento dos dipolos magnéticos daquele material:
𝐵𝐵 = 𝜇𝜇𝜇𝜇 = 𝜇𝜇0 𝐻𝐻 + 𝜒𝜒𝜒𝜒,
ou
𝜇𝜇 = 𝜇𝜇0 + 𝜒𝜒
Podemos definir também uma grandeza adimensional chamada permissividade
magnética relativa:
𝜇𝜇 = 𝜇𝜇𝑅𝑅 𝜇𝜇0
Considerando o sentido do alinhamento dos dipolos magnéticos, a favor ou contrário ao
campo aplicado, esse sentido implicará o sinal da susceptibilidade magnética.
Substâncias paramagnéticas e ferromagnéticas têm susceptibilidade magnética
positiva, e as diamagnéticas, susceptibilidade negativa. Daí, µ > µ0 para
paramagnéticas e ferromagnéticas, e µ < µ0 para diamagnéticas.
A intensidade do vetor indução magnética pode ser representada em termos das suas
linhas de força pela quantidade (densidade) de linhas de força por unidade de área.
Quanto maior essa densidade, maior a indução magnética. A Figura 5 mostra o
comportamento dos materiais em termos da linha de campo do vetor indução magnética.
Figura 5 - Materiais diamagnéticos (acima), paramagnéticos (centro) e ferromagnéticos (abaixo).
Fonte: MarLed (2006).
Vemos que, com maior intensidade, materiais ferromagnéticos tendem a “concentrar”
as linhas de campo dentro deles, de forma a obter um fluxo magnético maior no interior
destes materiais do que no ar ou no vácuo. É como se fossem capazes de “conduzir”
linhas de campo. Tendo em mente essa analogia, é possível se definir o conceito de
circuitos magnéticos:
Um circuito magnético é um caminho magnético fechado, simples ou
ramificado, percorrido por um fluxo magnético concentrado em relação às
vizinhanças, fluxo este mantido por uma força magnetomotriz F.
Da mesma força que a definição de força eletromotriz, a força magnetomotriz pode ser
definida como uma integral ao longo de um caminho:
Já havíamos definido o fluxo magnético como
A relação entre a força magnetomotriz e o fluxo pode, então, ser definida de uma
forma similar à Lei de Ohm:
F = R Φℱ=ℛΦ
A grandeza R é definida como a relutância magnética do circuito.
A unidade física da força magnetomotriz é o ampère-espira (A-espira, a
corrente que passa pelas espiras do enrolamento que produz a força
magnetomotriz multiplicada pelo número de espiras). A unidade SI da relutância
equivale a ampére-espira por weber (A-espira/W), que também pode ser definida
em termos de uma outra unidade que apresentaremos mais tarde, o henry, como
sendo 1/henry.
A relutância magnética pode ser definida em termos do comprimento L do circuito
𝐿𝐿
magnético e da área A de seção transversal como ℛ = 𝜇𝜇𝜇𝜇 , onde µ é a
permeabilidade magnética do meio.
Veja, por exemplo, o cálculo da relutância de um núcleo ferromagnético com
formato toroidal sem entreferro e com entreferro, na Seção 11.8, p. 235 a
238 do livro Curso de Física Básica, de Nussenzveig, ISBN
9788521208020, que se encontra disponível na Minha Biblioteca.
O entreferro é um pequeno espaço de ar ao longo do circuito magnético, utilizado em
núcleos com a finalidade de se obter um valor específico de relutância para os mesmos
e controlar o valor do fluxo magnético para uma dada força magnetomotriz.
Muitos materiais ferromagnéticos apresentam um comportamento entre B e H que não
é linear, podendo ser expresso graficamente na Figura 6:
Na Figura 6, considera-se o campo magnético aplicado a um material ferromagnético
numa condição inicial em que H=0 e B=0. Nessa condição, em ausência de campo
externo aplicado, não há nenhuma magnetização permanente no material.
À medida que um campo magnético é aplicado, uma magnetização vai se formando, de
forma que no gráfico um caminho inicial de magnetização é estabelecido (linha verde).
Quando o campo magnético externo alcança um determinado valor (dependente do
material) se estabelece uma saturação magnética, no momento em que a
magnetização tende a alcançar um valor máximo independente do campo magnético
continuar a aumentar, o que faz com que a curva no gráfico B x H tenda a se tornar
quase horizontal nessa condição. Assim que o campo magnético externo é retirado,
permanece uma magnetização permanente cujo valor corresponde ao do campo
remanente do material (Br).
O caminho da diminuição do campo magnético aplicado seguiu um caminho diferente
do inicial (linha azul). Se desejarmos remover a magnetização do material, precisamos
aplicar um campo magnético externo em sentido oposto cuja intensidade seja suficiente
para desfazer a magnetização do material (Br =0), chamado campo coercivo (Hc).
Se continuarmos, entretanto, a aumentar o campo magnético aplicado até a saturação
no sentido inverso, a curva de magnetização seguirá um caminho similar ao que ocorreu
na condição inicial. Removendo o campo aplicado teremos o material com
magnetização em sentido oposto. O caminho necessário para tornar a desmagnetizar o
material e magnetizá-lo no sentido inicial continua seguindo pela linha azul do gráfico
até chegar ao ponto inicial de saturação. A partir daí, uma nova repetição do ciclo
seguirá no gráfico com os mesmos limites de intensidade máxima do campo externo
aplicado, e continuará sempre pela linha azul, no gráfico.
Essa é a chamada curva de histerese do material. A área compreendida pela curva de
histerese (cor rosa) representa a quantidade de energia empregada no processo, que
será transformada em calor durante o processo de desmagnetização e remagnetização
a cada ciclo fechado da curva.
Materiais ferromagnéticos para a produção de imãs permanentes devem ter o maior
campo remanente e o maior campo coercivo possíveis. São chamados de materiais
ferromagnéticos duros. Para aplicação na orientação do fluxo magnético em corrente
alternada, onde o campo magnético externo aplicado se inverte continuamente, é
desejável que o material magnético não possua uma histerese elevada, pois se assim
o tiver, uma quantidade de energia magnética será continuamente transformada em
calor a cada ciclo completo, resultando em perdas significativas de energia e grande
aquecimento do dispositivo.
Para essas finalidades são usados materiais chamados de materiais ferromagnéticos
moles, os quais possuem valores de campo remanente e campo coercivo muito baixos.
São materiais que não adquirem magnetização permanente.
Mais detalhes sobre materiais magnéticos podem ser encontrados na Seção
3.7, Capítulo 3, do livro Fundamentos de Eletromagnetismo, de
WENTWORTH, S. M. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2006. ISBN
9788521626701. Disponível na Minha Biblioteca.
Tema 3
Indução Eletromagnética: Lei de Faraday e Lei de
Lenz; autoindutância e indutância mútua;
transformadores
Como funciona o princípio da indução de uma força
eletromotriz pela ação de um campo magnético?
No início do século XIX, o físico inglês Michael Faraday e o físico russo Heinrich Lenz,
independentemente, formularam princípios sobre um fenômeno que basicamente
consiste na observação de uma força eletromotriz induzida em um circuito elétrico, do
qual faz parte um enrolamento contendo múltiplas espiras de um fio condutor elétrico,
quando há uma variação temporal de um fluxo magnético que eventualmente atravesse
as espiras do enrolamento. A corrente elétrica que surge no condutor nestas condições
é chamada de corrente elétrica induzida. Os princípios enunciados são hoje
conhecidos como Lei de Faraday e Lei de Lenz.
Considerando que a força eletromotriz ε em um circuito fechado representado por um
caminho fechado L é definida como
,
e que o fluxo do vetor indução magnética através da área A delimitada por este caminho
L é dado por
,
a Lei de Faraday pode ser enunciada a princípio como:
A variação do fluxo magnético que atravessa um circuito fechado representado por um
caminho fechado L definido no espaço produz sobre o circuito uma força eletromotriz
que é proporcional à taxa de variação do fluxo magnético no tempo.
𝑑𝑑Φ
𝜀𝜀 =
𝑑𝑑𝑑𝑑
Essa definição, embora estabeleça a magnitude da força eletromotriz induzida, não
estabelece, entretanto, a possibilidade de determinar o sentido de uma corrente elétrica
que será produzida pela força eletromotriz se o caminho L for ocupado por uma espira
fechada de um fio condutor de eletricidade.
A Lei de Lenz complementa então esta informação definindo o sentido da corrente da
seguinte maneira:
O sentido da corrente elétrica que ocorrerá em um condutor que define um caminho
fechado L, submetido a uma variação de fluxo magnético, será tal que o campo
magnético produzido por essa corrente se opõe à variação do fluxo magnético.
Uma vez que o sentido da corrente produzida que é atribuído como tendo sinal positivo
segue o sentido do campo elétrico que foi integrado para o cálculo da força eletromotriz
e que a orientação definida pela regra da mão direita determina o sentido positivo do
campo magnético gerado por essa corrente, a relação de oposição em relação à
variação do fluxo terá de ser definida por meio de um sinal negativo.
Dessa forma, para atender ao que é estabelecido na Lei de Lenz, a Lei de Faraday deve
ser estabelecida como:
𝑑𝑑Φ
𝜀𝜀 = −
𝑑𝑑𝑑𝑑
Vamos considerar daqui em diante os efeitos da Lei de Faraday em enrolamentos de
fios com N espiras, as quais chamaremos de bobinas. As espiras delimitam no espaço
a área Φ = 𝑁𝑁 𝐵𝐵 𝐴𝐴 que circundam.
Temos duas situações de produção de uma corrente induzida: quando a variação de
fluxo ocorre por conta de um campo magnético externo aplicado que atravessa a área
delimitada pelos condutores da bobina e, quando a variação de fluxo ocorre em
consequência de um campo gerado na própria bobina pela imposição de uma força
eletromotriz externa a ela.
Veremos o primeiro caso. Conectar a bobina a uma fonte de força eletromotriz (uma
bateria, por exemplo) originará uma corrente elétrica que se estabelecerá na bobina,
atravessando cada espira. A corrente, no entanto, não se estabelece de forma
instantânea, de modo que sofrerá uma variação de intensidade até alcançar um valor
estacionário. A passagem da corrente produzirá em todo o espaço um campo magnético
H e uma indução magnética B=µH que são proporcionais à corrente, como já vimos.
Vamos considerar por ora que o módulo da indução magnética dependa de um fator de
proporcionalidade k qualquer, o qual na prática será definido pelas características
geométricas da bobina, de modo que ela esteja no vácuo:
𝐵𝐵 = 𝑘𝑘 𝜇𝜇0 𝑁𝑁 𝐼𝐼
Daí, sendo o campo aproximadamente perpendicular à área de seção transversal da
bobina produzirá um fluxo magnético em cada espira. E a soma dos fluxos em todas as
espiras será dada aproximadamente por:
Φ = 𝑁𝑁 𝐵𝐵 𝐴𝐴 = 𝑘𝑘 𝜇𝜇0 𝑁𝑁 2 𝐴𝐴 𝐼𝐼
Pelo princípio definido pela Lei de Lenz, uma força eletromotriz induzida pela variação
do fluxo de campo magnético produzido na própria bobina, chamada de força
eletromotriz autoinduzida, tenderá a se opor ao crescimento do fluxo. De acordo com
a definição da Lei de Faraday, a força eletromotriz terá módulo proporcional à taxa de
variação temporal do fluxo. Como em geral apenas a corrente elétrica depende do
tempo, usaremos a regra da cadeia para realizar a derivação:
𝑑𝑑Φ 𝑑𝑑Φ 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑Φ 𝑑𝑑𝑑𝑑
= , ou = 𝑘𝑘 𝜇𝜇0 𝑁𝑁 2 𝐴𝐴
𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑
Assim a força eletromotriz induzida será:
𝑑𝑑𝑑𝑑
𝜀𝜀 = − 𝑘𝑘 𝜇𝜇0 𝑁𝑁 2 𝐴𝐴
𝑑𝑑𝑑𝑑
𝑑𝑑Φ
O termo , que considerando a proporcionalidade entre o fluxo magnético e a corrente
𝑑𝑑𝑑𝑑
Φ
equivalerá a , é denominado autoindutância da bobina, usualmente chamada
𝐼𝐼
apenas de indutância e simbolizada por L em equações, cuja unidade física no SI tem
a dimensão tesla x metro quadrado por ampère (Tm2A-1), e o nome específico é henry
(H).
Considerando a indutância, a Lei de Faraday é expressa por:
𝑑𝑑𝑑𝑑
𝜀𝜀 = − 𝐿𝐿
𝑑𝑑𝑑𝑑
Veremos agora o segundo caso, onde existem duas bobinas, b1 e b2. A corrente
elétrica I1 variável no tempo passando pela bobina b1 produz um fluxo magnético
variável no tempo sobre a segunda bobina, b2, o qual produz uma força eletromotriz ε2
em b2.
Uma definição equivalente da Lei de Faraday nos diz que:
𝑑𝑑𝐼𝐼1
𝜀𝜀2 = − 𝑀𝑀
𝑑𝑑𝑑𝑑
Onde M é a indutância mútua entre as duas bobinas, cuja unidade SI também é o
henry.
A indutância mútua depende das indutâncias L1 e L2 das bobinas. Também depende de
que fração do campo magnético produzido pela bobina b1 consegue atravessar a área
de seção transversal da bobina b2 e produzir um fluxo de campo sobre ela. Esta última
dependência é modelada definindo-se um parâmetro adimensional com valor entre 0 e
1, chamado coeficiente de acoplamento, representado por k, que depende do fluxo
entre bobinas.
Temos, então, que a indutância mútua é dada por:
𝑀𝑀 = 𝑘𝑘 �𝐿𝐿1 𝐿𝐿2
O princípio da indução mútua entre duas bobinas é a base do funcionamento dos
dispositivos denominados transformadores. Uma bobina simples é frequentemente
denominada em circuitos elétricos como indutor.
Exemplo 3
Princípio de funcionamento de um transformador
Considere duas bobinas b1 e b2 acopladas, formando um transformador. A
bobina b1 contém N1 espiras, e a bobina b2 contém N2 espiras, em seus
respectivos enrolamentos. Suponha que o campo magnético produzido em b1
é totalmente canalizado para produzir um fluxo magnético em b2, de forma
que Φ1 = Φ2 e, portanto, dΦ1 / dt = dΦ2 / dt .
Como a força eletromotriz total produzida em cada bobina é igual à soma das
forças eletromotrizes em todas as espiras desta bobina, que por sua vez,
considerando que todas as espiras sejam iguais, é igual à força eletromotriz
em uma espira da bobina multiplicada pelo número de espiras, temos:
𝑑𝑑Φ 𝑑𝑑Φ
𝜀𝜀1 = − 𝑁𝑁1 e 𝜀𝜀2 = − 𝑁𝑁2
𝑑𝑑𝑑𝑑 𝑑𝑑𝑑𝑑
Podemos substituir em uma equação a variação de fluxo calculada na outra;
nesse caso, teremos:
𝑁𝑁2
𝜀𝜀2 = 𝜀𝜀
𝑁𝑁1 1
Entenderemos que a FEM ε1 da bobina b1 é também a FEM de uma fonte
externa de FEM, que está conectada ao enrolamento de b1, sendo esta FEM
aplicada a ele, e que o enrolamento b2 produzirá a FEM ε2, que será aplicada
ao restante do circuito.
O enrolamento de entrada do transformador, no qual é aplicada uma FEM
externa, é denominado enrolamento primário.
Figura 7 - Representação esquemática de um transformador (A) e símbolo equivalente usado em
diagramas esquemáticos (B).
Fontes: (A): adaptada de FBAT (2006); (B): Adaptada de Paco (2005). Adaptações feitas pelo autor para
troca da simbologia de força eletromotriz.
O enrolamento cuja FEM induzida pelo fluxo do enrolamento primário é aplicada ao
restante do circuito é chamado enrolamento secundário (Figura 6).
Pela equação anteriormente apresentada:
A magnitude da FEM no secundário de um transformador corresponde à magnitude da
FEM no primário do transformador multiplicada pela razão entre os números de espiras
do enrolamento secundário pelo do enrolamento primário (Ns / Np); onde, no exemplo,
Ns = N2 e Np = N1.
Uma bobina com indutância L percorrida por uma corrente elétrica I produzirá no espaço
um campo magnético que contém uma certa quantidade de energia armazenada. A
energia armazenada na forma de um campo magnético pela bobina é dada por:
1 2
𝐸𝐸𝑀𝑀 = 𝐿𝐿 𝐼𝐼
2
Outro efeito que decorre diretamente da Lei de Faraday é o de produção de correntes
elétricas indesejáveis em superfícies metálicas atravessadas por campos magnéticos
variáveis. Tais correntes são conhecidas como correntes de Foucault, ou “correntes
parasitas”. Veja na Figura 8 um exemplo da indução de correntes em uma fita de aço
se movimentando em relação ao campo magnético de um imã:
Figura 8 - Correntes parasitas induzidas pela movimentação de uma fita metálica em um
campo magnético.
Fonte: Chetvorno (2014)
No lado direito do imã, à medida que a fita se aproxima, tem-se uma variação de campo
desde zero até a intensidade máxima voltada para baixo. Pela Lei de Lenz, a corrente
induzida forma um campo que se opõe à variação, apontando para cima. Do lado direito
do imã, à medida que a fita se afasta, sofre uma variação de campo que vai desde a
intensidade máxima apontando para baixo até zero, o que corresponde a uma variação
de campo cujo vetor correspondente aponta para cima. Pela Lei de Lenz, a corrente
induzida na chapa produz um campo que se opõe a essa variação, apontando para
baixo.
Falaremos agora como se comporta um circuito elétrico que contém um indutor L, um
resistor R e uma chave conectados em série e ligados a uma bateria com FEM Vb.
Considerando a situação inicial em que não há corrente elétrica no circuito em instantes
anteriores ao instante t=0, a chave está aberta e é fechada nesse instante, teremos a
corrente elétrica aumentando, mas sofrendo uma oposição da força eletromotriz
induzida.
No instante inicial, a FEM autoinduzida é máxima e se opõe totalmente à FEM da
bateria, resultando que a DDP no resistor é zero. A FEM autoinduzida vai diminuindo
gradativamente, de forma que não consegue mais cancelar totalmente a FEM da
bateria, e uma corrente começa a atravessar o circuito. À medida que a corrente
aumenta, a variação dela vai diminuindo e, consequentemente, a FEM autoinduzida.
Para tempos suficientemente longos a FEM autoinduzida se anula e a corrente elétrica
atinge um valor estacionário de tal forma que Imax = Vb / R.
Se nesse instante a chave é aberta, o aumento abrupto da resistência total do circuito,
que se deve à resistência da chave aberta ser muito elevada, faz com que a FEM
autoinduzida se torne extremamente elevada a fim de produzir uma corrente cujo campo
se oponha à diminuição da corrente no circuito. Essa FEM tem a polaridade oposta à
FEM que havia quando a chave foi fechada e pode chegar a romper o isolamento elétrico
do ar entre os contatos da chave, causando centelhamento e produzindo uma corrente
através do ar que realiza o efeito de oposição à diminuição do campo. Com isso, a
corrente no indutor vai diminuindo rapidamente e chega a zero novamente.
Uma análise detalhada desse fenômeno pode ser vista nas páginas 185 e
186, Tópico b) Circuitos RL do livro Curso de Física Básica,
Eletromagnetismo, de Nussenzveig, ISBN: 9788521208020, que se
encontra disponível na Minha Biblioteca.
Encerramento
Qual é a natureza das forças magnéticas?
São forças de ação a distância que decorrem da existência de campos magnéticos no
espaço, produzidos por ímãs ou por correntes elétricas. Esses campos magnéticos
atuam sobre cargas em movimento ou sobre dipolos magnéticos produzindo uma força
sobre eles.
Quais são os comportamentos possíveis da matéria em
presença de um campo magnético?
Em presença de um campo magnético, de maneira uniforme ao espaço contendo
materiais magnéticos e ao entorno deles existem três comportamentos gerais
possíveis: o dos materiais diamagnéticos, para os quais a indução magnética formada
em seu interior é menor que a formada no espaço vazio ao redor; os materiais
paramagnéticos, para os quais a indução magnética em seu interior é um pouco maior
que no espaço vazio ao redor, porém sempre irá se anular quando o campo magnético
for removido; e o dos materiais ferromagnéticos, para os quais a indução magnética
formada em seu interior é muito maior que no espaço vazio ao redor e poderá, em
muitos casos, permanecer após a retirada do campo magnético externo.
Como funciona o princípio da indução de uma força
eletromotriz pela ação de um campo magnético?
O princípio da indução de uma força eletromotriz por um campo magnético funciona
pela produção de um fluxo magnético variável no tempo através de uma área
delimitada por um caminho fechado no espaço. Pela Lei de Faraday, a magnitude da
força eletromotriz será proporcional à taxa de variação temporal do fluxo magnético; e
pela Lei de Lenz, o sentido da força eletromotriz será tal que, em um condutor
colocado sobre o caminho fechado citado, essa FEM tenderá a produzir um campo
magnético que se oponha à variação do campo magnético que produziu a FEM.
Resumo da Unidade
Definimos nesta unidade os principais conceitos relativos ao campo magnético
(H) e à indução magnética (B) no que diz respeito às suas fontes e aos efeitos que
produzem sobre a matéria, tanto relacionados com a orientação de dipolos
magnéticos submetidos aos campos e a forças magnéticas decorrentes, quanto
relacionados com correntes elétricas induzidas por campos variáveis no tempo.
Referências da Unidade
• NUSSENZVEIG, H. M. Curso de Física básica. São Paulo: Blucher, 2015.
ISBN: 9788521208020. Disponível na Minha Biblioteca.
• REGO, R. A. do. Eletromagnetismo básico. Rio de Janeiro: Grupo GEN,
2010. ISBN: 9788521626688. Disponível na Minha Biblioteca.
• WENTWORTH, S. M. Fundamentos de Eletromagnetismo. Rio de
Janeiro: Grupo GEN, 2006. ISBN: 9788521626701. Disponível na Minha
Biblioteca.
Para aprofundar e aprimorar os seus conhecimentos sobre os assuntos
abordados nessa unidade, não deixe de consultar as referências
bibliográficas básicas e complementares disponíveis no plano de
ensino publicado na página inicial da disciplina.