Gisella Branco
Maria Fernanda Baptista
EMENTA DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO. PROCESSUAL CIVIL. SENTENÇA
ESTRANGEIRA CONTESTADA. AÇÃO DE GUARDA COMPARTILHADA JULGADA
POR SENTENÇA ORIUNDA DA ALEMANHA. ARTIGOS 15 E 17 DA LEI DE
INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO. ARTS. 960 E SEGUINTES
DO CPC/2015. ARTS. 216-C, 216-D E 216-F DO RISTJ. REQUISITOS ATENDIDOS.
PEDIDO DE HOMOLOGAÇÃO DE SENTENÇA ESTRANGEIRA DEFERIDO.
1. A homologação de decisões estrangeiras pelo Poder Judiciário possui previsão na
Constituição Federal de 1988 e, desde 2004, está outorgada ao Superior Tribunal de Justiça,
que a realiza com atenção aos ditames dos arts. 15 e 17 do Decreto-Lei n.º 4.657/1942
(LINDB), do Código de Processo Civil de 2015 (art. 960 e seguintes) e do art. 216-A e
seguintes do RISTJ.
2. Nos termos dos arts. 15 e 17 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, art. 963
do CPC/2015, e artigos 216-C, 216-D e 216-F do Regimento Interno do Superior Tribunal de
Justiça, que, atualmente, disciplinam o procedimento de homologação de sentença
estrangeira, constituem requisitos indispensáveis ao deferimento da homologação, os
seguintes: (i) instrução da petição inicial com o original ou cópia autenticada da decisão
homologanda e de outros documentos indispensáveis, devidamente traduzidos por tradutor
oficial ou juramentado no Brasil e chancelados pela autoridade consular brasileira; (ii) haver
sido a sentença proferida por autoridade competente; (iii) terem as partes sido regularmente
citadas ou haverse legalmente verificado a revelia; (iv) ter a sentença transitado em julgado;
(v) não ofender a soberania, a dignidade da pessoa humana e/ou ordem pública.
3. Entendo que o alegado descumprimento do referido acordo de guarda compartilhada não é
óbice para a homologação da sentença estrangeira, pois o ordenamento jurídico brasileiro
adota o sistema de delibação na hipótese, razão pela qual há que se verificar apenas a
presença dos requisitos formais, não cabendo o exame do mérito. Dessa forma, como bem
argumentando na réplica às e-STJ, fls. 164-167, "o ajuizamento de ação modificativa de
guarda no Brasil patrocinado pela requerida não tem o condão de obstar a homologação da
sentença estrangeira". Precedentes.
4. O fato de existir uma decisão liminar do Judiciário Brasileiro regulando deforma diversa
da sentença estrangeira os alimentos e a guarda de menor não importa, só por si, em ofensa à
soberania da jurisdição nacional, o que impediria o deferimento do exequatur à decisão
estrangeira. Precedentes.
5. A execução da sentença estrangeira no país, entretanto, deverá observar a prudente
ponderação da Relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, na SEC 14914-EX,
aprovada à unanimidade pela Corte Especial: "Como os provimentos jurisdicionais que
versam sobre guarda de menores, direito de visita, alimentos, são desprovidos de
definitividade, podendo ser revisto em caso de modificação do estado de fato, tem-se que a
sentença estrangeira homologada, quanto a esses pontos, será confrontada, pelo juízo da
execução, com as decisões proferidas pelo Poder Judiciário brasileiro.".
6. No que concerne à gratuidade da justiça concedida em favor do requente, já foi concedida
pela Presidência e merece ser mantida, nos termos do quanto salientado pela Defensoria
Pública da União, pois "a situação socioeconômica do mesmo no processo em questão
encontra-se em consonância com a Resolução 133/2016 do Conselho Superior da Defensoria
Pública da União, a qual disciplina os critérios para aferição da hipossuficiência econômica
de pessoa natural integrante de núcleo familiar cuja renda mensal bruta não ultrapasse valor
fixado para atuação do órgão.". Igualmente, penso que merece acolhida o pleito de concessão
da justiça gratuita à requerida, pois comprovou que não tem condições de arcar com as custas
e despesas do processo.
7. Portanto, os requisitos legais se encontram plenamente atendidos neste caso, quanto à
prova da citação do requerido no processo estrangeiro, ao trânsito em julgado e a estar a
decisão devidamente autenticada por autoridade consular brasileira e com tradução oficial
e/ou juramentada. Nesse sentido, a propósito, o parecer do MPF.
8. Pedido de homologação de sentença estrangeira deferido.
A jurisprudência escolhida trata da homologação de uma sentença estrangeira, mais
especificamente uma decisão de guarda compartilhada proferida por um tribunal da
Alemanha, que foi submetida ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) do Brasil. O requerente,
A. M. K. M., representado pela Defensoria Pública da União, buscou a homologação da
decisão, enquanto a parte requerida, N. T., apresentou contestação, onde alegou que a
homologação não deveria ser concedida em virtude de uma ação de modificação de guarda
em trâmite no Brasil, que indicava um descumprimento do acordo anteriormente
estabelecido.
O STJ, sob a relatoria do Ministro Og Fernandes, analisou o pedido à luz dos princípios que
regem a homologação de sentenças estrangeiras, conforme estipulado na Constituição Federal
e nas normas do Código de Processo Civil de 2015, bem como na Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro (LINDB). A decisão do tribunal ressaltou que a homologação
de sentenças estrangeiras é um procedimento que requer a verificação de requisitos formais,
tais como a citação regular das partes, a competência da autoridade que proferiu a decisão e
não ofender a ordem pública.
No contexto do direito internacional privado, a ordem pública desempenha um papel crucial
na análise de sentenças estrangeiras. O princípio da ordem pública serve como uma
salvaguarda que impede a aplicação de normas ou decisões que possam ferir os valores
fundamentais de uma jurisdição. No caso em questão, o STJ reafirmou que a homologação da
sentença estrangeira não poderia ser obstada apenas pela existência de uma decisão liminar
no Brasil que regulava de forma diversa a guarda do menor, já que isso não configurava, por
si só, uma ofensa à soberania nacional ou à ordem pública.
A Corte argumentou que a legislação brasileira adota um sistema de delibação, que se
concentra na verificação dos requisitos formais da sentença estrangeira, sem adentrar no
mérito da questão. Assim, a mera pendência de ação no Brasil sobre a mesma matéria não
implicava a anulação da eficácia da decisão alemã. O tribunal, portanto, reafirmou a ideia de
que as decisões que tratam de guarda de menores e direitos familiares são, em essência,
provisórias e podem ser revistas em função de alterações no estado de fato, reafirmando a
flexibilidade do direito familiar em uma perspectiva internacional.
Esse entendimento é coerente com a jurisprudência consolidada, que reconhece que, em
situações de competência internacional concorrente, a prevalência deve ser dada à decisão
que primeiro transitou em julgado. A homologação, então, foi deferida, mas com a ressalva
de que a execução da sentença no Brasil deve observar as decisões subsequentes do judiciário
brasileiro, garantindo que os direitos da criança sejam resguardados de acordo com as
mudanças nas circunstâncias.
Todavia, esta jurisprudência ilustra a interação entre a homologação de sentenças estrangeiras
e o princípio da ordem pública no direito internacional privado, destacando a necessidade de
um equilíbrio entre o respeito às decisões judiciais estrangeiras e a preservação dos valores e
normas fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro. A decisão do STJ reitera a
importância de proteger a dignidade da pessoa humana e os direitos do menor, refletindo a
flexibilidade e as complexidades que permeiam as questões familiares em um contexto
transnacional.