2.
1 Conceitos
Historicamente, no Brasil, todo material descartado após uma atividade humana era cha-
mado de lixo. A palavra lixo deriva do latim lix: cinza. Nos dicionários, é comum a definição
de lixo como algo inútil e sem valor. Considerando que a maioria dos materiais descartados
diariamente pela sociedade pode ser reutilizada ou reciclada, pode-se dizer que
praticamente
não existe lixo.
O termo resíduo sólido, também originado do latim residuum, a sobra de qualquer substân-
cia que foi utilizada, tem sido adotado em substituição à palavra lixo. Segundo Fiorillo
(2009),
“seu estudo permite constatar que a palavra resíduo possui um sentido mais amplo e apre-
senta-se como um termo mais técnico.
Com a publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), por meio da Lei nº
12.305/10, o conceito de resíduos sólidos é definido como:
[...] material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades
humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe pro-
ceder ou se está obrigado a proceder, nos estados sólido ou semissólido,
bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades
tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos
d’água, ou exijam para isso soluções técnicas ou economicamente inviáveis
em face da melhor tecnologia disponível (BRASIL, 2010b).
A esse conceito está atrelado o princípio de que o resíduo sólido reutilizável e reciclável é
um bem econômico e de valor social, importante para a geração de trabalho e renda para
os
catadores de material reciclável, os quais, por sua vez, são importantes agentes ambientais.
Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) não apresenta o termo lixo, e sim rejeito. No
artigo 3º inciso XV, rejeitos são definidos como resíduos sólidos que, depois de esgotadas
todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos
disponíveis
e economicamente viáveis, não apresentam outra possibilidade que não a disposição final
ambientalmente adequada. Assim, rejeitos representam sobras que, pelo menos por
enquanto,
não podem ser aproveitadas.
Dessa forma, no exercício profissional, os termos populares relacionados à temática
resíduos sólidos
devem ser substituídos pelos termos técnicos definidos por lei, com destaque para o uso de
resíduo sólido,
que tem valor econômico e deve ser reutilizado ou reciclado; e rejeitos, para os quais,
atualmente, não
há tecnologia adequada ao seu aproveitamento, devendo, portanto, ser dispostos
adequadamente em
aterros.
A ABNT NBR 10004:2004, norma brasileira publicada pela Associação Brasileira de Normas
Técnicas
(ABNT), classifica os resíduos sólidos quanto aos seus riscos potenciais ao meio ambiente
e à saúde pública,
a fim de que possam ser gerenciados adequadamente (ABNT, 2004a). A ABNT NBR
10004:2004 aplica a
seguinte definição para resíduos sólidos:
São considerados resíduos sólidos os resíduos nos estados sólido e semissólido, que
resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar,
comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Ficam incluídos nessa definição os lodos
provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e
instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particulari-
dades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água,
ou exijam para isso soluções técnicas e economicamente inviáveis em face à melhor
tecnologia disponível (ABNT, 2004a).
Essa definição leva a entender que o cenário de resíduos não é somente composto por
materiais sólidos
e, sim por uma variedade de determinados líquidos ou semissólidos que são gerados em
diversas fontes.
2.2.1 Segundo À origem
Os tipos de resíduo sólido, segundo a PNRS (BRASIL, 2010b), podem ser classificados
conforme sua ori-
gem (artigo 13 da Lei 12.305/2010) em:
a) Resíduos domiciliares: os originários de atividades domésticas em residências urbanas;
b) Resíduos de limpeza urbana: os originários da varrição, limpeza de logradouros e vias
públicas e
outros serviços de limpeza urbana;
c) Resíduos sólidos urbanos: os resíduos domiciliares e os resíduos de limpeza urbana;
d) Resíduos de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços: os gerados nessas
ativida-
des, a exceção dos resíduos de limpeza urbana, resíduos dos serviços públicos de
saneamento básico,
resíduos de serviços de saúde, resíduos da construção civil e resíduos de serviços de
transportes;
e) Resíduos dos serviços públicos de saneamento básico: os gerados nessas atividades,
excetuados
os resíduos sólidos urbanos;
f) Resíduos industriais: os gerados nos processos produtivos e instalações industriais;
g) Resíduos de serviços de saúde: os gerados nos serviços de saúde, conforme definido em
regula-
mento ou em normas estabelecidas pelos órgãos do Sistema Nacional de Meio Ambiente
(SISNAMA)
e do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS);
h) Resíduos de serviços de transportes: os originários de portos, aeroportos, terminais
alfandegários,
rodoviários e ferroviários e passagens de fronteira;
i) Resíduos de mineração: os gerados na atividade de pesquisa, extração ou
beneficiamento de miné-
rios;
j) Resíduos da construção civil: gerados na construção;
k) Resíduos radioativos: gerados em usinas nucleares.
Você já aprendeu que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em seu artigo 13,
classifica os resí-
duos sólidos quanto à origem. Agora, aprofundaremos o estudo dos resíduos que se
enquadram em cada
uma dessas classes de resíduos sólidos:
a) Resíduos domiciliares e resíduos de limpeza urbana
De acordo com o artigo 13 da PNRS, os resíduos domiciliares são aqueles originários de
atividades
domésticas em residências urbanas. Os resíduos de limpeza urbana são os originários da
varrição, limpeza
de logradouros e vias públicas e outros serviços de limpeza urbana. Essas duas classes de
resíduos juntas
compõem a classe de resíduos sólidos urbanos (RSU);
b) Resíduos sólidos urbanos
Os resíduos sólidos urbanos (resíduos domiciliares e de varrição pública) podem ser
classificados tam-
bém quanto à sua composição, em orgânicos ou inorgânicos. Os resíduos sólidos urbanos
de natureza
orgânica são de origem animal ou vegetal (folhas, grama, animais mortos, esterco, papel,
madeira, restos
de alimentos, etc.). Esse resíduo pode ser considerado poluente devido à decomposição
desses produtos.
O armazenamento ou destino inadequado desses resíduos favorece o desenvolvimento de
organismos
indesejados (fungos, ratos, bactérias, baratas e moscas, entre outros), que podem causar
doenças ou trans-
miti-las.
Os resíduos sólidos urbanos de natureza inorgânica representam todo o material que não
provém de
origem biológica ou que foi produzido através de meios urbanos, como vidros, plásticos e
borrachas, entre
outros, que podemos chamar de resíduo seco (sem umidade). Esses resíduos, jogados
diretamente em um
local impróprio, sem tratamento prévio, demoram muito tempo para serem decompostos.
Uma das alter-
nativas para solucionar esse problema é reciclá-los ou reaproveitá-los;
c) Resíduos de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços
O artigo 13 da PNRS determina que os resíduos de estabelecimentos comerciais e
prestadores de
serviços são os resíduos gerados nessas atividades e não incluem os resíduos de limpeza
urbana, de sane-
amento, de saúde, da construção civil e de transporte. Nessa classificação estão inclusos,
por exemplo, as
caixas de papelão utilizadas para embalar eletrodomésticos;
d) Resíduos dos serviços públicos de saneamento básico
Os resíduos dos serviços públicos de saneamento básico, por sua vez, são os resíduos
gerados nessas
atividades, incluindo os resíduos de sistemas de tratamento de esgoto. Mas não estão
inclusos nessa cate-
goria os resíduos sólidos urbanos. O lodo seco proveniente do tratamento de esgotos em
uma estação de
tratamento de esgoto (ETE) é um exemplo dessa classe de resíduos sólidos;
e) Resíduos industriais
Os resíduos industriais são aqueles gerados nos processos produtivos e instalações
industriais (con-
forme o artigo 13 da PNRS). Compreendem uma grande variedade de temas interligados,
tais como as
da logística reversa (retorno ao fabricante do produto inutilizado, para que seja realizada a
destinação
ambientalmente adequada), da coleta seletiva, da atuação dos catadores de materiais
reutilizáveis e reci-
cláveis, da compostagem (produção de comporto orgânico ou húmus a partir da
decomposição biológica
de compostos orgânicos) e da recuperação energética, entre outros. Referem-se a questões
que apre-
sentam maior impacto nas relações entre os órgãos ambientais e os geradores de resíduos
industriais, a
exemplo daqueles resíduos gerados nos processos produtivos e instalações industriais.
Entre os resíduos
industriais, inclui-se também grande quantidade de material perigoso, que necessita de
tratamento espe-
cial devido ao seu alto potencial de impacto ambiental e à saúde (BRASIL, 2011);
f) Resíduos de serviço de saúde
Segundo o artigo 13 da PNRS, os resíduos de serviços de saúde são os gerados nos
serviços de saúde,
definidos em regulamento ou em normas estabelecidas pelos órgãos do Sistema Nacional
de Meio
Ambiente (SISNAMA) e do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS).
Os resíduos de serviço de saúde (RSS) são resíduos especiais, que, por suas
características, necessi-
tam de processos diferenciados em seu manejo, armazenamento e acondicionamento,
devido ao caráter
infectante de alguns de seus componentes, a grande heterogeneidade, a presença de
materiais perfuro-
cortantes e substâncias tóxicas inflamáveis e radioativas de baixa quantidade, exigindo ou
não tratamento
prévio à sua disposição final;
Figura 2 - Resíduos de serviços de saúde
Fonte: SENAI DR BA, 2013.
g) Resíduos agrossilvopastoris
Os resíduos agrossilvopastoris são os gerados nas atividades agropecuárias e silviculturais,
incluídos
os relacionados a insumos utilizados nessas atividades. Resíduos da agricultura, como
palhada e capina;
resíduos da agroindústria associada, incluindo sobras de vegetais processados, são
exemplos de resíduos
agrossilvopastoris;
h) Resíduos de serviços de transporte e resíduos de mineração
Os resíduos de serviços de transporte são aqueles gerados em terminais alfandegários,
rodoviários e
ferroviários, portos, aeroportos e passagens de fronteira. Dessa forma, os resíduos gerados
em estabeleci-
mentos como rodoviárias, por passageiros e transeuntes, são resíduos de serviços de
transporte. Enquanto
os resíduos de mineração são os gerados na atividade de pesquisa, extração ou
beneficiamento de miné-
rios (artigo 13 da PNRS). A escória resultante da exploração de minério de uma mina é um
exemplo de
resíduo da mineração;
SAIBA
MAIS
Para complementar os estudos sobre resíduos de serviços de saúde, leia: BRASIL.
Saúde ambiental e gestão de resíduos de serviços de saúde. Brasília: Ministério da
Saúde, 2002.
i) Resíduos da construção civil
Os resíduos da construção civil (RCC) são os gerados nas construções, reformas, reparos e
demolições
de obras de construção civil, incluídos os resultantes da preparação e escavação de
terrenos para obras
civis (artigo 13 da PNRS). O gerenciamento adequado dos RCC ainda encontra obstáculos
pelo desconhe-
cimento da natureza dos resíduos e pela ausência de cultura de separação, entre outros
(BRASIL, 2011). A
figura a seguir apresenta alguns tipos de resíduos resultantes dessa atividade.
Figura 3 - Resíduos da construção civil
Fonte: SENAI DR BA, 2013.
2.2.2 Periculosidade
A PNRS em seu artigo 13 classifica os resíduos também quanto à sua periculosidade, ou
seja, quanto ao
perigo ao ambiente e à saúde humana. Nesse contexto, os resíduos podem ser: Perigoso
ou Não Perigoso,
sendo que os perigosos são aqueles que possuem ao menos uma das seguintes
características:
a) Inflamabilidade: facilidade de queimar ou entrar em ignição, causando fogo ou
combustão;
b) Corrosividade: capacidade de destruir ou danificar superfícies com as quais esteja em
contato,
incluindo tecidos vivos;
c) Toxicidade: capacidade de produzir um efeito nocivo quando interage com um organismo
vivo;
d) Patogenicidade: capacidade de o agente infeccioso causar doenças;
e) Carcinogenicidade: processo envolvendo mutações que alteram a expressão de genes e
está asso-
ciado ao desenvolvimento de câncer;
f) Teratogenicidade: capacidade de induzir malformações no feto;
g) Mutagenicidade: capacidade de induzir ou aumentar a frequência de mutações genéticas
em um
organismo.
Segundo a ABNT NBR 10004:2004, a classificação de resíduos envolve a identificação do
processo ou
atividade que lhes deu origem, de seus constituintes e características e a sua comparação
com a listagem
de resíduos e substâncias que podem causar impacto à saúde e ao meio ambiente. Os
resíduos sólidos são
classificados em perigosos e não perigosos, sendo estes últimos subdivididos em inertes e
não inertes.
Os resíduos perigosos são classificados pelas suas características de inflamabilidade,
corrosividade,
reatividade, patogenicidade e toxicidade (resíduo perigoso classe I). Caso o resíduo não
apresente essas
características, o mesmo se enquadra na categoria de resíduo não perigoso classe II. Os
resíduos classe
II podem ser classificados como não inertes (classe II A), caso possuam constituintes
facilmente solubili-
záveis, sejam combustíveis e/ou biodegradáveis, ou inertes (classe II B), caso não possuam
nenhuma das
características citadas para IIA.
2.3 Processo de geração
Para entender de onde vêm os resíduos, é importante saber como se iniciam os processos
através dos
quais eles são gerados. Tudo começa com a extração da matéria-prima diretamente do
ambiente natural
em que ela se encontra. A etapa seguinte é transportar a matéria-prima até a indústria,
onde os processos
industriais a transformarão em produtos para uso do consumidor final ou produtos que
podem ser apli-
cados a outros sistemas produtivos. Dependendo da característica desses processos, além
dos produtos
finais, pode-se ainda ter a geração de produtos secundários geralmente denominados de
subprodutos ou
mesmo de resíduos. Da mesma forma, o consumo humano gera grandes quantidades de
resíduos, os quais
são descartados como resíduos sólidos domiciliares.
Atualmente, o Brasil produz, a cada ano, cerca de 86 milhões de toneladas de resíduos
sólidos industriais.
Destes, 3,76 milhões de toneladas são resíduos industriais perigosos, conforme panorama
da Associação
Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). As
indústrias do ramo químico,
por sua vez, apresentam uma geração de 355 mil t/ano, o que equivale a 14% da geração
de resíduos
sólidos industriais. A geração de resíduos perigosos nessas empresas apresenta uma
relação de 2,5 kg/t
de produto final produzidos. Já os resíduos urbanos possuem uma geração na ordem
182.700 t/dia de
milhões de toneladas por ano (ABRELPE, 2010). Veremos a seguir um estudo de caso
preocupante sobre a
imprecisão dos dados de geração de resíduos sólidos em nosso país.
CASOS E RELATOS
A imprecisão dos dados de geração de resíduos sólidos industriais do Brasil
No Brasil, a principal fonte de dados sobre resíduos sólidos industriais (RSI) são os
inventários esta-
duais, exigidos pela Resolução do Conama nº 313/2002. No entanto, estes apresentam
problemas:
alguns estados não elaboraram seus inventários, os inventários estaduais existentes não
estão
padronizados, foram elaborados a partir de coleta de dados em diferentes períodos e não
foram
atualizados recentemente (são anteriores a 2003) e, portanto, já não refletem a situação
atual da
geração de resíduos. Alguns estados avançaram mais que outros na produção de
informações sobre
RSIs. É o caso de Minas Gerais, que elaborou inventários em 2003, 2007, 2008 e 2009, e
do Paraná,
que realizou atualizações entre 2004 e 2009.
Apesar de não ter sido possível uma compilação dos dados estaduais para a produção do
Inventário
Nacional de Resíduos Sólidos Industriais (INRSI), os estados que elaboraram seus
inventários propor-
cionaram uma visualização preliminar da geração de resíduos em seus territórios e a
identificação
da necessidade de reformulação da metodologia para a obtenção do INRSI, que é urgente,
conside-
rando-se o aumento das indústrias de transformação no país nos últimos anos e a
necessidade de
dados atualizados para as tomadas de decisão por parte do poder público.
(Fonte: INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA E APLICADA, 2010, Adaptado).
2.4 Principais poluentes
A poluição ambiental tornou-se, em poucas décadas, um problema que pode ameaçar o
futuro da vida
na Terra. A natureza e a extensão da contaminação (física, química ou biológica)
representam riscos não só
à saúde pública, como também à integridade e à sobrevivência dos ecossistemas
existentes. Dessa forma,a problemática dos resíduos está diretamente relacionada ao
consumo, ou seja, se o consumo aumenta, a
geração de resíduos também aumenta.
Anualmente, são desenvolvidas e introduzidas no mercado milhares de novas substâncias
químicas e
apenas uma pequena fração dessas substâncias é testada para avaliar sua toxicidade,
acrescentando difi-
culdades à gestão dos riscos da permanência desses produtos no ambiente.
A intensidade dos problemas criados pelas substâncias tóxicas é grande e global. Devido a
grande quan-
tidade de substâncias tóxicas existentes, desconhecem-se os impactos da maioria desses
tóxicos. Também
há um desconhecimento em relação às consequências da interação de diferentes
substâncias tóxicas, que
podem resultar em: efeitos sinérgicos (quando, ao interagirem, os efeitos maléficos
individuais de cada
tóxico são amplificados), aditivos (quando, ao interagirem, os efeitos maléficos individuais
de cada tóxico
são somados) e antagônicos (quando, ao interagirem, os efeitos maléficos individuais de
cada tóxico são
reduzidos).
A disposição inadequada de resíduos sólidos industriais apresenta-se como um dos
problemas mais
críticos da atualidade, uma vez que originou um passivo ambiental de solos e águas
contaminados.
A figura a seguir apresenta os riscos de lixiviação1
e de contaminação do solo e de águas subterrâneas.
Além disso, vapores podem contaminar o ar e, consequentemente, a saúde humana.
Figura 4 - Contaminação ambiental devido à disposição inadequada de resíduos sólidos
Fonte: SENAI DR BA, 2013.
Identificar os potenciais agentes de contaminação do meio ambiente é fundamental para
diminuir os
possíveis impactos decorrentes do seu uso. Tratando-se de resíduos sólidos industriais, é
muito grande a
possibilidade destes serem classificados como perigosos, do ponto de vista químico ou
biológico. Daí a
importância do conhecimento das características dos resíduos e as concentrações de
poluentes presentes,
pois, a partir dessas informações, podemos estabelecer alternativas de reutilização ou
reciclagem em seto-
res comerciais, industriais, urbanos ou residenciais.
1 Lixiviação: processo de extração de substâncias químicas de uma rocha ou mineral
através da sua dissolução por um líquido,Os resíduos perigosos são constituídos de
substâncias orgânicas, inorgânicas ou da mistura delas. Em
particular, os resíduos que possuem substâncias inorgânicas ou orgânicas não
recalcitrantes2
merecem
uma grande atenção no que diz respeito à possibilidade de conterem espécies metálicas de
interesse
ambiental em sua composição. A grande preocupação com essas espécies é que a sua
liberação na natu-
reza, pode gerar diversos problemas ambientais, devido ao seu potencial tóxico, visto que
estas podem ser
bioacumuladas pelos organismos e são resistentes à biodegradação (BAIRD,
2002).Verifique o símbolo utilizado para os resíduos perigosos na figura a seguir.
Figura 6 - Simbologia e cor para resíduos perigosos
Fonte: OPERSAN RESÍDUOS INDUSTRIAIS S.A., 2012.
Os resíduos industriais são representados por resíduos de processo, resíduos de operações
de controle
de poluição ou descontaminação resultantes de atividades de remediação de solo
contaminado, resíduos
da purificação de matérias-primas e de produtos, cinzas, lodos, óleos, resíduos alcalinos ou
ácidos, plás-
ticos, papel, madeira, fibras, borracha, metal, escórias, vidros e cerâmicas. Entre os
resíduos industriais,
inclui-se grande quantidade de material perigoso (em torno de 40%), que necessita de
tratamento especial
devido ao seu alto potencial de impacto ambiental e à saúde (IPEA, 2012b).
CURIOSIDADES
Você sabia que os resíduos industriais devem ser, preferencialmente, tra-
tados no local onde foram gerados e ter destinação adequada, de acordo
com as normas legais e técnicas vigentes?
(Fonte: OPERSAN RESÍDUOS INDUSTRIAIS, 2012).
Devido a busca pelo desenvolvimento econômico e a escassez de regulamentos de controle
da polui-
ção, até a década de 1980, o setor industrial não possuía estrutura adequada para a gestão
dos resíduos,
panorama que vem sendo superado com a implementação de novas políticas de não
geração, reúso e
reciclagem. Veja o “Casos e relatos” a seguir, que exemplifica os riscos ambientais e à
saúde causados pela
presença de poluentes na água
Riscos da presença de poluentes emergentes na água
Pesquisas avançadas sobre os efeitos dos poluentes emergentes, realizadas com peixes,
revela-
ram o aumento da incidência de mutações. Um exemplo de substâncias químicas que pode
causar
mutações em organismos vivos é atrasina, um herbicida bastante usado nas lavouras
brasileiras,
controlado pelo Ministério da Saúde. Em 2010, a revista Proceedings of the National
Academy of Scien-
ces publicou um estudo mostrando que a exposição à substância podia levar sapos machos
a trocar
de sexo. Estudos anteriores já haviam demonstrado que a substância podia aumentar a
quantidade
de indivíduos hermafroditas entre pássaros, peixes e ratos. Os conhecimentos científicos
ainda não
permitem conhecer os efeitos individuais, aditivos, sinérgicos e antagônicos de muitos
agrotóxicos,
fármacos, polímeros industriais e outros químicos na saúde humana e a sua dinâmica no
ambiente.
No entanto, está comprovado que inúmeras dessas substâncias interferem no sistema
endócrino
(hormonal) humano.
(Fonte: ROSA, 2012).
O caso apresentado anteriormente revela um pouco da complexidade da problemática dos
resíduos
sólidos e os desdobramentos da contaminação por resíduos, que em muitas situações não
se restringe
ao local da disposição final, podendo atingir corpos d’água superficiais e subterrâneos, além
de outros
ambientes.
De modo geral, podemos destacar alguns poluentes importantes a serem investigados em
resíduos:
orgânicos clorados e hidrocarbonetos, metais e patógenos.
Os principais poluentes orgânicos podem ser divididos em algumas classes, como:
a) Pesticidas, bifenilas policloradas (PCBs), hidrocarbonetos aromáticos polinucleares
(PAHs);
b) Poluentes orgânicos persistentes (POPs).
Os POPs representam uma classe de compostos caracterizados por serem altamente
estáveis no
ambiente, resistindo à degradação química e biológica. Podem ser transportados de uma
região para outra
através dos ventos, das águas ou pelos animais, ao longo da cadeia alimentar. A exposição
humana aos
POPs pode causar alterações no sistema reprodutivo, imunológico e endócrino (hormonal),
sendo também
carcinogênico (causador de câncer). O quadro a seguir mostra uma lista de POPs, segundo
Baird (2002).Os hidrocarbonetos poliaromáticos (HPAs) são compostos persistentes de
múltiplos anéis de benzeno,
que possuem elevada solubilidade em lipídeos e podem causar alterações genéticas. Os
HPAs estão pre-
sentes no petróleo e derivados, principalmente nos hidrocarbonetos aromáticos naftaleno,
antraceno,
benzopireno e fenantreno, que uma vez em contato com o ambiente aquático, representam
uma impor-
tante fonte de poluição das á[Link] metais são outros importantes poluentes químicos
que, quando presentes nos resíduos, podem ofe-
recer riscos à saúde e ao meio ambiente. Entre os principais, podemos destacar o cobre
(Cu), chumbo (Pb),
mercúrio (Hg), cádmio (Cd), níquel (Ni), zinco (Zn), arsênio (Ar) selênio (Se) e cromo (Cr).
Esses elementos
podem causar toxicidade, mutagenicidade (mutações genéticas), carcinogenicidade (causar
câncer) ou
teratogeniciade (danos no desenvolvimento de embriões ou fetos) (BAIRD, 2002;
MANAHAN,2005).
FIQUE
ALERTA
As lâmpadas fluorescentes contêm substâncias prejudiciais à saúde e ao meio am-
biente, incluindo metais como o mercúrio (Hg), que, se ingerido ou inalado, preju- dica os
sistemas nervoso e cardiovascular. Se descartadas inadequadamente, o Hg
contaminará solo, ar e água.
Além dos contaminantes químicos, há também os poluentes patogênicos de origem
microbiológica, os
quais podem também tornar os resíduos perigosos. Um resíduo é caracterizado como
patogênico se uma
amostra representativa dele, obtida segundo a ABNT NBR 10007:2004 (que fixa requisitos
exigíveis para a
amostragem de resíduos sólidos), contiver ou se houver suspeita de conter
micro-organismos patogênicos,
proteínas virais, ácido desoxiribonucleico (ADN) ou ácido ribonucleico (ARN)
recombinantes, organismos
geneticamente modificados, plasmídios, cloroplastos, mitocôndrias ou toxinas capazes de
produzir doen-
ças em homens, animais ou [Link] riscos associados à saúde pública estão
atrelados à presença de organismos oriundos dos lixões
ou outros locais de disposição inadequada de resíduos. Esses locais oferecem
principalmente alimento e
abrigo, ou seja, condições favoráveis à proliferação de doenças.
Acurio et al (1997) apontaram oito principais problemas de saúde associados às
substâncias presen-
tes nos locais de disposição inadequadas de resíduos: anomalias imunológicas, câncer,
danos ao aparelho
reprodutor e defeitos de nascença, doenças respiratórias e pulmonares, deficiências
hepáticas, problemas
neurológicos e problemas epidemiológicos.
Segundo os autores, o que mais preocupa as comunidades afetadas pela disposição
inadequada dos
resíduos são os problemas epidemiológicos. O quadro a seguir mostra os principais vetores
relacionados
aos resíduos sólidos e as principais doenças causadas pelos mesmos.
VETORES MODO DE
TRANSMISSÃO DOENÇAS
Mosquito Picada da fêmea Dengue, malária, febre amarela e leishmaniose.
Rato
Mordida, pulga e
urina
Tifo, peste bubônica e leptospirose.
Mosca doméstica e
varejeira
Contato das patas Febre tifoide, verminose e gastroenterite.
Barata e formiga Patas, corpo e fezes Febre tifoide, giardíase e diarreias.
Escorpião e aranha Picada Doenças cardíacas (coma e morte).
Urubus, gaivotas,
pombos Patas, piolho Pestes e toxoplasmose.
Porcos Carne Verminoses, cisticercose.
Quadro 2 - Algumas doenças transmitidas por vetores associados aos resíduos sólidos
Fonte: ACURIO et al, 1997.
A disposição inadequada dos resíduos pode favorecer a acumulação da água da chuva,
que, consequen-
temente, contribui para a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti, mosquito vetor
da dengue,que se desenvolve em água parada. Em caso de enchentes, os
micro-organismos presentes nos resíduos
– como a bactéria Leptospira, que é causadora da leptospirose –, são carregados pelas
águas e expõem a
população a riscos de doença. Portanto, a qualidade da saúde pública também está
diretamente ligada à
disposição e ao tratamento dos resíduos sólidos.
Figura 8 - Leptospira, bactéria causadora da leptospirose
Fonte: SENAI DR BA, 2013.
SAIBA
MAIS
Para aprofundar os conhecimentos a respeito dos poluentes e riscos, leia os capítulos
6 e 7 do livro: BAIRD, Colin. Química ambiental. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2002.