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Lei Maria da Penha e Violência Doméstica

A monografia analisa a Lei Maria da Penha e sua importância no combate à violência doméstica e familiar, destacando inovações na proteção da mulher e da família. O trabalho é dividido em três capítulos que abordam a violência doméstica, a legislação pertinente e as medidas protetivas disponíveis para as vítimas. A pesquisa utiliza uma abordagem bibliográfica para discutir a complexidade da violência de gênero e as implicações legais da lei.

Enviado por

Yara Mendonca
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Lei Maria da Penha e Violência Doméstica

A monografia analisa a Lei Maria da Penha e sua importância no combate à violência doméstica e familiar, destacando inovações na proteção da mulher e da família. O trabalho é dividido em três capítulos que abordam a violência doméstica, a legislação pertinente e as medidas protetivas disponíveis para as vítimas. A pesquisa utiliza uma abordagem bibliográfica para discutir a complexidade da violência de gênero e as implicações legais da lei.

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YARA PRISCILA MENDONÇA

LEI MARIA DA PENHA: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

ANÁPOLIS GOIÁS
2019
YARA PRISCILA MENDONÇA

LEI MARIA DA PENHA: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Monografia apresentada à Banca


Examinadora do Curso de Direito da Faculdade
Anhanguera de Anápolis Goiás, como exigência
parcial para obtenção do grau de Bacharel em
Direito, sob a orientação do(a) professor(a)
Rafaela Carvalho.

ANÁPOLIS GOIÁS
2019
YARA PRISCILA MENDONÇA

LEI MARIA DA PENHA: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

FOLHA DE APROVAÇÃO

__________________________________________
Prof. Orientador:

__________________________________________
Prof.

__________________________________________
Prof.
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho em primeiro lugar a Deus que iluminou o meu Caminho durante
esta caminhada, por ser essencial na minha vida, autor de meu Destino, meu guia,
socorro presente na hora da angústia, pois, sem ele eu não teria forças para essa
longa jornada e que meu deu saúde e forças para superar todos os momentos
difíceis a que eu me deparei ao longo da minha graduação.

Dedico este trabalho a Minha mãe Ilda Maria Gomes da Silva Mendonça, heroína
que me dеυ Apoio, incentivo nas horas difíceis, de desânimo e cansaço.
A mеυ pai Kennede de Mendonça e tambem meu irmão Fernando Mendonça e
Aos familiares que torceram por esta conquista.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos os professores, especialmente a orientadora Rafaela Carvalho.


Obrigada, mestre, por exigir de mim muito mais do que eu imaginava ser capaz de
fazer. Manifesto aqui a minha gratidão eterna por compartilhar a sua sabedoria, o
seu tempo e a sua experiência.

Sou grata a esta Faculdade, desde o pessoal do administrativo até o coordenador


do curso Rodrigo Orlandini Volpato, que de alguma forma contribuíram para a
realização desse trabalho.

Sou grato (a) à empresa Tribunal Regional do Trabalho da 18° Região que me
concedeu a chance de fazer estágio supervisionado e assim conhecer um pouco
mais da minha área de formação. Obrigado (a) por confiarem nos conhecimentos
que adquiri durante minha faculdade.
MENDONÇA, Yara Priscila. LEI MARIA DA PENHA: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA,
2019. 56 Folhas. Trabalho de Conclusão de Curso Graduação em DIREITO –
Faculdade Anhanguera de Anápolis, 2019

RESUMO

A monografia estuda a Lei Maria da Penha e a violência doméstica. O objetivo é


analisar as inovações trazidas pela referida legislação no tocante à proteção da
família e da mulher e no combate a violência doméstica e familiar. Para a
compreensão do tema, num primeiro capítulo analisa-se a violência doméstica,
destacando a questão do gênero, a violência no âmbito da família e ainda a política
criminal em torno da violência doméstica. Na sequência, o segundo capítulo estuda
a Lei Maria da Penha, sua intervenção jurídico penal e as principais alterações
materiais e processuais trazidas pela lei. Por fim, o terceiro capítulo aborda as
medidas protetivas e de assistência à vítima de violência doméstica.

Palavras-chave: Família. Violência Doméstica. Lei Maria da Penha.


MENDONÇA, Yara Priscila. LAI MARIA DA PENHA: DOMESTIC VIOLÊNCE, 2019.
56 Sheets. Graduation in law Degree- Faculdade Anhanguera de Anápolis,
2019
ABSTRACT

The paper studies the Maria da Penha’s Act and the domestic violence. The main
scope is to analyze the innovations brought by this legislation regarding the
protection of family and women and to combat against domestic and familial
violence. To understand the issue, a first chapter analyzes the domestic violence,
highlighting the gender violence within the family and the criminal policy around
domestic violence. Furthermore, the second chapter studies the Maria da Penha’s
Act, its criminal legal intervention and the major changes brought about by the
substantive and procedural law. Finally, the third chapter deals with the protective
measures and the assistance to victims of domestic violence.

Keywords: Family. Domestic Violence. Maria da Penha’s Act.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 08

1 A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ............................................................................. 10

1.1 A questão do gênero .................................................................................... 13

1.2 A violência no âmbito da família ................................................................. 22

1.3 A política criminal e a violência doméstica ................................................ 26

2 A LEI MARIA DA PENHA ................................................................................. 28

2.1 Intervenção jurídico penal na Lei Maria da Penha .................................... 31

2.2 Alterações materiais e processuais ........................................................... 32

2.2.1 As alterações materiais ............................................................................ 33

2.2.2 Alterações processuais ............................................................................ 34

2.3 Implicações do afastamento da Lei nº 9.099/95 ......................................... 36

2.4 A Lei n° 11.340/06 e a autoridade policial................................................... 40

2.5 As mudanças no âmbito do Direito Civil .................................................... 41

3 MEDIDAS PROTETIVAS E DE ASSISTÊNCIA À VÍTIMA DE VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA ..................................................................................................... 43

3.1 As medidas protetivas de urgência ............................................................ 44

3.1.1 Medidas protetivas que obrigam o agressor ......................................... 46

3.1.2 Medidas protetivas à ofendida ................................................................. 47

3.2 Medidas assistenciais por parte dos poderes públicos ........................... 48

3.3 A prisão preventiva ...................................................................................... 48

CONCLUSÃO ...................................................................................................... 51

REFERÊNCIAS .................................................................................................... 53
8

INTRODUÇÃO

A violência contra a mulher é fato presente em toda a história da humanidade


e em diferentes épocas, de diferentes maneiras, em todos os países. Ora,
assumindo a forma de simples discriminação, ora apresentando-se sobre a forma de
assédio e exploração sexual, ora sob as variadas formas de violência doméstica,
com a própria esposa ou companheira, filha, mãe, seja como for.

A violência vitimiza a mulher tanto em sua própria casa quanto em outros


contextos que não apenas o doméstico. No Brasil, o grande avanço no combate à
violência contra a mulher ocorreu com a aprovação pelo Congresso Nacional da Lei
n° 11.340/06 – A Lei Maria da Penha. O advento da lei foi muito festejado, como
grande conquista do movimento de defesa dos direitos femininos.

Na verdade, a violência que a Lei Maria da Penha busca combater é


justamente a violência de natureza relacional que tem a mulher como vítima por
excelência. Somente a partir do estudo das violências ocorridas nas relações
interpessoais, especificamente, quanto ao gênero e, com a ultrapassagem das
interpretações subjetivas e culturais acerca do conceito de violência.

A Lei Maria da Penha tipifica a violência doméstica como uma das formas de
violação dos direitos humanos. Até o advento da Lei Maria da Penha a violência
doméstica não era considerada crime. Somente a lesão corporal recebia uma pena
mais severa quando praticada em decorrência de relações domésticas (art. 129, §
9º, CP). As demais formas de violência perpetradas em decorrência das relações
familiares geravam no máximo aumento de pena (art. 61, II, letra "f", CP).

A Lei Maria da Penha dispõe, de maneira concentrada, no título II, sobre a


definição de violência doméstica ou familiar contra mulher e sobre sua configuração.
Trata-se, aliás, da primeira iniciativa da experiência jurídico-legal nacional destinada
a estabelecer uma ideia mais ou menos bem delimitada conceitualmente acerca
desse fenômeno desviante, tomando-a, contudo, no sentido de violência de gênero.

O microssistema de proteção à família e à mulher que compõe o conteúdo da


Lei Maria da Penha congrega um conjunto de princípios, diretrizes e regras que
abordam a questão da violência em toda sua complexidade, objetivando
9

efetivamente resguardar a entidade familiar e assegurar à mulher o direito à sua


integridade física, sexual, psíquica e moral. A pluralidade de causas e diversidades
de formas de manifestação da violência fez com a lei previsse medidas de proteção
para a mulher que corre risco de vida, como afastamento do agressor do domicílio e
a proibição de sua aproximação física junto à mulher agredida e aos filhos. Prevê
ainda uma série de medidas no sentido de criar uma rede de apoio à Mulher, que
permita assisti-la, orientá-la e fortalecê-la a tomar decisões. Uma rede que permita
tentar recuperar o agressor e a própria relação afetada pela violência.

Nesse contexto resta evidenciado que a lei em cotejo surge como instrumento
de eficaz proteção das mulheres vitimadas pela violência moral e física, fruto de uma
cultura fincada na cultura ao patriarcado masculino.

Desta forma, a Lei 11.340/2006 combate a violência punindo os agressores,


mas, sobretudo, prevê medidas que evitem o desencadeamento da violência,
objetivando, por derradeiro, a construção de uma cultura de respeito aos direitos
humanos das mulheres e de respeito à família.

A metodologia aplicada no estudo consistiu na análise da doutrina nacional e


internacional acerca do tema. A ênfase bibliográfica não se limitou aos temas
jurídicos e, na medida do possível, procuraram-se posicionamentos de outras áreas
de conhecimento envolvidas na discussão do tema.

Assim sendo, para a análise do tema a monografia encontra-se dividida em


três capítulos.

O primeiro capítulo tem por objeto a violência doméstica, analisando a


questão do gênero, a violência no âmbito da família e ainda a política criminal em
torno da violência doméstica.

Na continuidade, o segundo capítulo trata da Lei Maria da Penha, sua


intervenção jurídico penal e as principais alterações materiais e processuais trazidas
pela lei.

Finalmente, o terceiro capítulo aborda as medidas protetivas e de assistência


à vítima de violência doméstica, destacando as medidas protetivas de urgência, as
medidas protetivas que obrigam o agressor e protetivas à ofendidas, as medidas
assistenciais por parte dos poderes públicos e ainda o papel da prisão preventiva.
10

1 A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é aquela que ocorre dentro do ambiente familiar,


geralmente por uma questão de gênero. É uma das formas de violência mais comum
e que mais permanecem encobertas. Todavia, não se pode afirmar que a violência
só ocorra dentro de casa, pois esta modalidade de violência é caracterizada pelas
relações estabelecidas entre vítimas e agressor, seus níveis de aproximação,
intimidade e afeto.

Desse modo, o local onde a violência será praticada poderá ser fora do
recinto familiar, mesmo assim continuará sendo caracterizada como violência
doméstica. De acordo com Day, Telles e Zoratto a violência doméstica é qualquer
ato que resulte em sofrimento, danos físicos, sexuais e psicológicos, inclusive
coerção e privação da liberdade1.

Ainda conforme o referido autor, esse tipo de violência ocorre mais


frequentemente no espaço privado do que no espaço público porque é no lar que
quase sempre não é presenciada por ninguém2.

Segundo Faleiros, a violência doméstica constitui:

[...] um fenômeno societário complexo que envolve não só o crime enquanto


transgressão, mas as relações entre as forças sociais e políticas da
sociedade assim como as relações familiares 3.

A conceituação de violência que se encontra na Lei Maria da Penha inspira-


se na Convenção de Belém do Pará, in verbis:

Art. 1º. Para os efeitos desta Convenção deve-se entender por violência
contra a mulher qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause
morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no
âmbito público como no privado.
Art. 2º. Entender-se-á que violência contra mulher inclui violência física,
sexual e psicológica: a. que tenha ocorrido dentro da família ou unidade
doméstica ou em qualquer outra relação interpessoal, em que o agressor

1 DAY, V. P.; TELLES, L. E. B.; ZORATTO, P. H. Violência Doméstica e suas diferentes manifestações. In:
Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v.25, supl.1, abr. 2003, p.9-21.
2 Ibid., p.10.
3 FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2001, p.88.
11

conviva ou haja convivido no mesmo domicílio que a mulher e que


compreende, entre outros, estupro, violação, maus-tratos e abuso sexual; b.
que tenha ocorrido na comunidade e seja perpetrada por qualquer pessoa e
que compreende, entre outros, violação, abuso sexual, tortura, maus tratos
de pessoas, tráfico de mulheres, prostituição forçada, sequestro e assédio
sexual no lugar de trabalho, bem como em instituições educacionais,
estabelecimentos de saúde ou qualquer outro lugar, e c. que seja
perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde quer que ocorra.

A Lei Maria da Penha vincula-se, portanto, a um conjunto padrão de política


de erradicação da violência contra a mulher, assumido pela comunidade
internacional, que se arrima no reconhecimento de certos direitos humanos4.

A partir da vigência da nova lei, a violência doméstica foi definida sem


guardar correspondência a quaisquer tipos penais. Primeiro é identificado o agir que
configura violência doméstica ou familiar contra a mulher (art. 5º): qualquer ação ou
omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou
psicológico e dano moral ou patrimonial.

Destarte, a violência doméstica fornece as bases para que se estruturem


outras formas de violência, produzindo experiências de brutalidades na infância e na
adolescência, geradoras de condutas violentas e desvios psíquicos graves5.

O Conselho Social e Econômico (1992), da ONU, define a violência contra a


mulher como sendo “Qualquer ato de violência baseado na diferença de gênero, que
resulte em sofrimentos e danos físicos, sexuais e psicológicos da mulher; inclusive
ameaças de tais atos, coerção e privação da liberdade, seja na vida pública ou
privada” 6, o que, aliado à tipificação das condições de sua ocorrência estabelecida
na Convenção de Belém do Pará, indica as grandes linhas para a interpretação da
Lei Maria da Penha7.

Com efeito, a violência contra a mulher pressupõe não apenas a diferença de


gênero, mas também, condutas que tendam para seu menosprezo, devendo causar
alguma manifestação de sofrimento, físico, sexual ou psicológico.

De acordo com Cacique e Furegato:

4 GUIMARÃES, Isaac Sabbá. Combate à violência doméstica: da política criminal às políticas de atenção à
mulher. In: GUIMARÃES, Isaac Sabbá; MOREIRA, Rômulo de Andrade. Lei Maria da Penha - Aspectos
criminológicos, de política criminal e do procedimento penal. Curitiba: Juruá, 2010, p.34.
5 CAMPOS, Amini Haddad; CORREA, Lindinalva Rodrigues. Direitos Humanos das Mulheres. Curitiba: Juruá,

2007, p.111.
6 Apud GUIMARÃES, 2010, p. 37.
7 Ibid., p.37.
12

[...] a violência física é entendida como toda ação que implica o uso da força
contra a mulher em qualquer circunstância, podendo manifestar-se por
pancadas, chutes, beliscões, mordidas, lançamento de objetos, empurrões,
bofetadas, surras, lesões com arma branca, arranhões, socos na cabeça,
surras, feridas, queimaduras, fraturas, lesões abdominais e qualquer outro
ato que atente contra a integridade física, produzindo marcas ou não no
corpo8.

Um dos motivos da ocorrência da violência física é o rompimento na relação


hierárquica estabelecida entre os gêneros, pois “na medida em que o poder é
essencialmente masculino e a virilidade é aferida, frequentemente, pelo uso da
força, estão reunidas nas mãos dos homens as condições básicas para o exercício
da violência9”. É importante lembrar que a violência doméstica já configurava forma
qualificada de lesões corporais, tendo sido inserida no Código Penal em 2004, ao
acrescentar os §§ 9º e 10 ao art. 129 do Código Penal.

A violência psicológica ou agressão emocional pode ser tão ou mais


prejudicial que a física, sendo caracterizada, de acordo com Azevedo, por
recriminações constantes como: desvalorização profissional, rejeição,
depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e punições
exageradas10.

As atitudes que geram o menosprezo em relação à mulher podem ter diversas


interpretações psicológicas, que vão desde uma incontida prepotência por parte de
quem pratica os atos ditos violentos, passando por problemas relacionados com
disfunções sexuais do agressor e, até mesmo, problemas de cunho econômico-
financeiro11.

Para Day, Telles e Zoratto esse tipo de violência deixa sequelas mais graves
do que as físicas, porque “destrói a autoestima da mulher, expondo-a a um risco
mais elevado de sofrer problemas mentais, como depressão, fobia, estresse pós-
traumático, tendência ao suicídio e consumo abusivo de álcool e drogas”12.

8 CASIQUE, L. C.; FUREGATO, A. R. F. Violência contra mulheres: reflexões teóricas. Rev. Latino-Am.
Enfermagem, Ribeirão Preto/SP, v. 14, n. 6, 2006. Disponível em: <[Link]
[Link]?script=sci_arttext&pid=S0104-11692009000600008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:
9 SAFFIOTI, Heleieth; ALMEIDA, Suely Souza de. Violência de gênero: poder e impotência. Rio de Janeiro:
Revinter, 1995, p.57.
10 AZEVEDO, M.A. Mulheres espancadas: a violência denunciada. São Paulo: Cortez, 1985, p.11.
11 GUIMARÃES, 2010, p.37.
12 DAY; TELLES; ZORATTO, 2003, p.3.
13

Por fim, considera-se como violência sexual também o fato de o agressor


obrigar a vítima a realizar alguns desses atos com terceiros. O ato sexual é visto
como um dever conjugal em que a mulher tem a obrigação de ter relações sexuais
com o companheiro quando por ele solicitado, o que faz com que ele a induza ao
sexo independente de sua vontade, caracterizando uma opressão de gênero,
oriunda do poder patriarcal, em que a mulher é tratada como objeto de desejo
masculino13.

Apesar de se classificar a violência contra a mulher em três tipos, estes não


podem ser separados, estando, pois interligados. A violência sexual não é efetivada
sem que a mulher sofra conjuntamente agressões físicas e, principalmente,
psicológica. Poucas são as pessoas que reconhecem a interlocução das etapas que
abrangem a violência conjugal. No senso comum a violência, só ocorre após a
agressão física, desconsiderando a violência psicológica e a violência sexual entre
cônjuges. E os que reconhecem violência psicológica como violência, têm o grande
erro de alegar que esta não é tão grave quanto à física14.

Além destas, Alves destaca a violência patrimonial e a violência moral15.

A violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção,


subtração, destruição parcial ou total de objetos pertences à mulher,
instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou
recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas
necessidades. A violência moral, por sua vez, constitui qualquer conduta
que configure calúnia, difamação ou injúria.

1.1 A questão do gênero

A igualdade consagra-se como o mais importante princípio garantidor dos


direitos individuais. A Constituição Federal de 1988 adota o princípio da igualdade
de direitos, segundo o qual todos os cidadãos têm o direito a tratamento idêntico
pela lei, vedando-se diferenciações arbitrárias e discriminações absurdas.

13 AZEVEDO, 1985, p.12.


14 Ibid., p.12.
15 ALVES, Fabrício da Mota. Lei Maria da Penha: das discussões à aprovação de uma proposta concreta de

combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 1133, 8 ago. 2006.
Disponível em: <[Link] Acesso em:
14

Silva, no curso de direito Constitucional, abre o capítulo Direito de Igualdade


dizendo:

O direito de Igualdade não tem merecido tantos discursos como a liberdade.


As discussões, os debates doutrinários e até as lutas em torno desta
obnubilaram aquela. É que a igualdade constitui o signo fundamental da
democracia. Não admite privilégios e distinções que um regime
simplesmente liberal consagra. Por isso é que a burguesia, cônscia de seu
privilégio de classe, jamais postulou um regime de igualdade tanto quanto
reivindicara o de liberdade. É que um regime de igualdade contraria seus
interesses e dá à liberdade sentido material que não se harmoniza com o
domínio de classe em que assenta a democracia liberal burguesa 16.

Deve-se levar em consideração a dupla dimensão, as duas características


principais do princípio da igualdade: a igualdade formal e a igualdade material. Para
José Afonso da Silva:

Nossas constituições, desde o império, inscreveram o princípio da


igualdade, como igualdade perante a lei, enunciando que, na sua
literalidade, se confunde com a mera isonomia formal, no sentido de que a
lei e sua aplicação tratam a todos igualmente, sem levar em conta as
distinções de grupos. A compreensão do dispositivo vigente, nos termos do
Art. 5º, caput, não deve ser assim tão estreita. O intérprete há de aferi-lo
com outras normas constitucionais, e especialmente com as exigências da
justiça social, objetivo da ordem econômica e da ordem social 17.

Na Constituição Federal, o Princípio da Igualdade aparece logo no


preâmbulo, avisando-nos que este permeará toda a Carta Federal. A igualdade
aparece ora já estabelecida em condição formal e ora como meta a ser alcançada,
assumindo a sua vocação material.

Com o avanço das teorias liberais a partir do século XIX, estabeleceu-se nos
regimes de governo a chamada igualdade formal, que consiste na igualdade perante
a lei18. Tão forte e recente o conceito de igualdade formal que, depois de aplicada
em nossas constituições desde a de 1891, persiste o conceito na Constituição atual
que traz em seu artigo 5° caput a expressão: “Todos são iguais perante a lei (...)”.

16 SILVA, José Afonso. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p.211.
17 Ibid., p.212.
18 BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. São Paulo: Brasiliense, 1994.
15

Diante do mandamento constitucional, homens e mulheres que estiverem em


situação idêntica não poderão sofrer o cerceamento de suas prerrogativas, por parte
de quem quer que seja, sendo que só são válidas discriminações contidas na própria
Constituição, como a presente no art. 40, §1º, III, “a” e “b”, que disciplina a
aposentadoria da mulher com menos tempo de contribuição do que o homem.
Também é permitido ao legislador infraconstitucional elaborar normas que tenham
em vista diminuir os desníveis de tratamento em razão do sexo 19.

Com vistas ao direito à igualdade, observa Tavares:

Os elementos ou situações constitucionalmente arrolados (sexo, cor etc.),


na realidade, relacionam-se à ocorrência discriminatórias atentatórias de
direitos fundamentais, muito comuns em determinadas épocas históricas,
utilizadas indiscriminadamente e gratuitamente como forma de distinção e,
o mais das vezes, punição. Foram situações de injustiça, que marcaram
profundamente o espírito dos Homens, e que, por isso, o constituinte
brasileiro pretendeu pôr a salvo os indivíduos para o futuro. Assim, a título
exemplificativo, foi o caso da escravidão dos negros (distinção em função
da raça), da submissão das mulheres (por força do sexo), e outros tantos
casos20.

Para corroborar os esclarecimentos expostos, temos ainda as lições de


Bandeira de Mello:

Então, percebe-se, o próprio ditame constitucional que embarga a


desequiparação por motivo de raça, sexo, trabalho, credo religioso e
convicções políticas, nada mais faz que colocar em evidência certos traços
que não podem, por razões preconceituosas mais comuns em certa época
ou meio, ser tomados gratuitamente como ratio fundamentadora de
discriminação21.

Assim, o direito à igualdade configura-se em uma conquista social das


mulheres, que encontram um standard jurídico de proteção na Constituição Federal
de 1988, elencado entre os direitos fundamentais da pessoa humana, que impede
qualquer forma de discriminação negativa contra a mulher, permitindo-se tão
somente ao legislador estabelecer normas que tenham como função diminuir as

19MORAES, Alexandre. Direitos Humanos Fundamentais. São Paulo: Atlas, 2007, p.47.
20TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2002, p.401.
21 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antonio. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. São Paulo: Malheiros,
1997, p.17-18.
16

proporções das desigualdades presentes na sociedade, tal como o fez por meio da
Lei n° 11.340/06.

Por outro lado, mesmo que a lei seja igual para todos é necessário notar que
as condições em alguns casos não são. Existem as diferenças naturais e políticas,
que melhor veremos adiante, diferenciando cidadãos na ora da concorrência direta.

Lembrando que o objetivo da constituição não é uma homogeneidade de


pessoas, indo contra a pluralidade e consistindo em um absurdo lógico, mas sim
uma sociedade igualitária com diminuição das desigualdades sociais e regionais (art.
3°, III da CF).

Nota-se facilmente a injustiça, por exemplo, de norma que igualasse o foro de


homens e mulheres, baseando-se na igualdade formal da lei que reza que “homens
e mulheres são iguais em direitos e obrigações”.

Apesar de existir a igualdade na lei, no papel, é notório que homens e


mulheres são socialmente diferentes, estando às mulheres, na sua grande maioria,
em desvantagem em relação aos homens. No exemplo é fundamental perceber que
a desvantagem feminina não se estabeleceu por incapacidade das mulheres, mas
sim por fatores históricos e culturais da sociedade brasileira que foi e é em muitos
sentidos machista.

Assim sendo, as desigualdades de gênero são resultados de uma construção


sociocultural secular, não encontrando respaldo nas diferenças biológicas da
natureza. Assim, num sistema de sujeição, dominação e de poder, passa-se a
considerar natural a desigualdade construída socialmente.

Nesse perfil, a violência se naturaliza, incorporando-se no cotidiano e nas


relações intrafamiliares, proporcionando a complacência e a impunidade22.

O art. 6o da Lei 11.340/06, com essa visão historicista do patriarcado, procura


enfatizar que a violência doméstica contra a mulher constitui uma das formas de
violação dos direitos humanos.

As investigações criminológicas têm demonstrado que a grande parte dos


casos de violência doméstica ocorre contra mulheres, confluindo, para esse

22 CAMPOS; CORREA, 2007, p.111.


17

fenômeno tanto o aspecto de superioridade da força física do homem, como os


traços culturais a determinarem predomínio deste nas relações23.

Na época do Brasil colônia, por exemplo, a mulher era vista como mero objeto
numa sociedade patriarcal, extremamente machista, que estabelecia severas
restrições à liberdade feminina ao mesmo tempo em que garantia a perpetuação da
violência contra ela nos âmbitos doméstico e familiar.

Todavia, já século XX, em certa medida, o Código Penal de 1940 apresentou


avanços em relação à legislação anterior, revelando resquícios claros daquela
sociedade patriarcal ao criar a figura privilegiada ao crime de homicídio (art. 121,
§1º), que em verdade tem a natureza de causa especial de diminuição de pena, a
qual abarca conceitos indeterminados como “motivo de relevante valor social ou
moral” ou “sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação
da vítima” disciplinando, desta forma, aqueles casos de crimes passionais cometidos
contra a mulher24.

Tal concepção eminentemente machista representa nada mais do que o


fragmentário histórico da visão jurídica do fenômeno social de discriminação da
mulher.

Outro aspecto relevante, no que concerne ao período de promulgação do


Código Penal de 1940 em relação à violência contra a mulher, é a denominada
legítima defesa da honra e da dignidade. Esta construção jurídica reflete muito do
modelo cultural daquela época, cujos efeitos se deram na absolvição de diversos
homicidas passionais, que cometeram crime contra a mulher, ao serem julgados
perante o Tribunal do Júri25.

Não havia qualquer previsão legal a respeito da legítima defesa da honra; no


entanto, até a década de 1970, este artifício foi amplamente utilizado para ensejar a
absolvição de diversos assassinos de mulheres, que contavam com a benevolência
dos jurados que constituíam o Conselho de Sentença, os quais importavam para o
julgamento muito mais das manifestações culturais machistas presentes na
sociedade da época, do que o espírito de justiça e os fundamentos de legalidade

23 GUIMARÃES, 2010, p.38.


24 HUNGRIA, Nelson; LACERDA, Romão Cortes de; FRAGOSO, Heleno Cláudio. Comentários ao Código Penal.
Vol. VIII: arts. 197 a 249. Rio de Janeiro: Forense, 1983, p.150.
25 ELUF, Luiza Nagib. A paixão no banco dos réus - casos passionais célebres: de Pontes Visgueiro a Pimenta

Neves. São Paulo: Saraiva, 2002, p.68.


18

que deveriam nortear os julgamentos perante o Tribunal do Júri. Caso marcante de


uso da legítima defesa da honra, o crime de homicídio cometido por Raul Fernandes
do Amaral Street, conhecido como Doca Street, contra Ângela Diniz, demonstrou o
desgaste desta excludente, constituindo num marco do progresso do movimento
feminista e sua influência nos julgamentos dos crimes passionais26.

A primeira decisão do Tribunal do Júri proferida sobre este crime reconheceu


a legítima defesa da honra com excesso culposo, condenando Doca Street à pena
de dois anos de reclusão, o que possibilitava a aplicação do sursis, e assim ele não
precisou recolher-se à prisão. No entanto, em razão de ter ocorrido recurso por parte
da acusação para realização de novo julgamento, foi este realizado em novembro de
1981, quando houve grande mobilização por parte dos movimentos feministas, que
utilizavam o slogan “Quem ama não mata” para transformar aquele estado de coisas
que perpetrava a sociedade brasileira, em especial os jurados. Desta forma, no
segundo julgamento, Doca Street foi condenado por crime de homicídio qualificado à
pena de quinze anos de reclusão, tendo os jurados, por 5 votos a 2, afastado a tese
da legítima defesa da honra. “A condenação de Doca foi um verdadeiro marco na
história da luta das mulheres (...). Havia, finalmente, mudado a benevolência da
sociedade brasileira para com os ‘crimes de honra27”.

Havia, portanto, mudado o panorama referente à violência contra a mulher no


Brasil, o que foi corroborado com a ratificação de tratados internacionais assinado
no início da década de 1980, além da maior mobilização social a favor dos
movimentos em favor das causas defendidas pelas mulheres.

Em 1985, na Década da Mulher, então declarada pela ONU, é inaugurada a


primeira Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo e criado o Conselho
Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), com a edição da Lei 7.353/85.

A criação das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs)


deu mais visibilidade ao fenômeno da violência doméstica e familiar em razão das
denúncias efetuadas pelas vítimas28.

26 ELUF, 2002, p.68.


27 Ibid., p.69.
28 DAUFENBACH, Sasenazy Soares Rocha. Lei 11.340/06 como instrumento de pacificação do conflito familiar e

social. In: CAMPOS, Amini Haddad; DELLA COSTA, Lindinalva Rodrigues (Orgs.). Sistema de Justiça, Direitos
Humanos e Violência no Âmbito Familiar. Curitiba: Juruá, 2011, p.287.
19

A Constituição Federal de 1988 constitui um marco de suma importância, não


apenas em relação à violência contra a mulher, mas também em vista de inúmeras
inovações criadas as quais fundamentalmente importam na proteção da pessoa
humana, nos diversos aspectos referentes à sua dignidade, atribuindo direitos até
então desconhecidos pela sociedade brasileira, assim como criando mecanismos e
instituições com a função de tornar concretas as dimensões da dignidade da pessoa
humana.

A Constituição Federal de 1988 significou um marco em relação aos direitos


humanos das mulheres e ao reconhecimento de sua cidadania plena. Isso foi
consequência, principalmente, da articulação das próprias mulheres com ações
direcionadas para o Congresso Nacional, apresentando emendas populares e
organizando mobilizações que tiveram como resultado a inclusão da igualdade de
direitos sob uma perspectiva étnico-racial e de gênero.

A Constituição, como documento jurídico e político das cidadãs e dos


cidadãos, buscou romper com um sistema legal fortemente discriminatório contra as
mulheres. Contribuiu para que o Brasil se integrasse ao sistema de proteção
internacional dos direitos humanos, reivindicação histórica da sociedade29.

A Constituição Federal, em seu art. 226, § 8º, impõe ao Estado assegurar a


“assistência à família, na pessoa de cada um dos que a integram, criando
mecanismos para coibir a violência, no âmbito de suas relações”. Desse modo, a
Constituição demonstra, expressamente, a necessidade de políticas públicas no
sentido de coibir e erradicar a violência doméstica30.

Trata-se, portanto, de norma editada a fim de coibir a violência doméstica,


realidade enfrentada por diversas mulheres brasileiras, que ainda são
desrespeitadas, humilhadas e agredidas por seus consortes, apesar de já ocuparem
os mais altos lugares na sociedade, superando todo o atraso da sociedade em
reconhecer-lhes iguais direitos.

Por isso, após a Constituição de 1988, foram tomadas diversas medidas que
singularizam o período histórico após a sua promulgação, concernente à disciplina
da violência doméstica e familiar contra a mulher, seja fundamentando a ratificação

29 CAMPOS; CORREA, 2007, p.143.


30 Ibid., p.113.
20

de Tratados e Convenções Internacionais, ou pela própria produção legislativa (tal


como a Lei Maria da Penha, objeto do presente estudo), ou mesmo impulsionando a
criação de delegacias especializadas em violência contra a mulher.

O advento da Lei 9.099/95, que instituiu os Juizados Especiais Criminais,


também representou um passo na luta contra a violência em desfavor da mulher.
Porém, ao longo dos anos, verificou-se que eram apenas passos tímidos e que
foram “malversados”, especialmente porque o procedimento adotado revelou-se
ineficaz da forma como era aplicado, no que tange ao trato da violência contra a
mulher31.

Os primeiros passos à frente para uma inovação normativa no que tange,


especificamente, ao tema, surgiu com a Lei 10.455/02, que acrescentou ao
parágrafo único do art. 69 da Lei 9.099/95 a previsão de concessão de medida
cautelar de afastamento do agressor do lar conjugal na hipótese de violência
doméstica. Assim, o governo começou a movimentar-se no sentido de investir em
políticas públicas de enfrentamento da violência contra as mulheres somente com a
criação da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), isto em 200332.

No ano de 1998, houve a elaboração da Norma Técnica do Ministério da


Saúde para prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual.
Cinco anos depois, a promulgação da Lei 10.778/03 institui um novo avanço: a
notificação compulsória dos casos de violência contra as mulheres atendidos nos
serviços de saúde, públicos ou privados33.

Entrementes, é certo que o grande marco no combate à violência exercida


contra a mulher foi mesmo a edição da Lei 11.340/06. Desta feita, é contra as
relações desiguais que se impõem os direitos humanos das mulheres. O respeito à
igualdade está a exigir, portanto, uma lei específica que dê proteção e dignidade às
mulheres vítimas de violência doméstica. Não haverá democracia efetiva e
igualdade real enquanto o problema da violência doméstica não for devidamente
considerado. Os direitos à vida, à saúde e à integridade física das mulheres são

31 DAUFENBACH, 2011, p.288.


32 Ibid., p.288.
33 Ibid., p.288.
21

violados quando um membro da família tira vantagem de sua força física ou posição
de autoridade para infligir maus-tratos físicos, sexuais, morais e psicológicos34.

O artigo 2º da Lei nº 11.340/06 trata da isonomia das garantias previstas a


todas as mulheres, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual,
renda, cultura, nível educacional, idade e religião. Afirma ainda, que as mulheres
gozarão dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe
asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua
saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.

É uma norma de cunho principiológico, que reforça os princípios da isonomia


e da dignidade da pessoa humana, protegendo os meios necessários para que a
mulher possa ter uma vida digna e confortável35.

Observe-se que a parte final do art. 2º da referida lei garante oportunidades


para que a mulher possa preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento
moral, intelectual e social. Daí o questionamento sobre se essas garantias estão
diretamente ligadas à violência doméstica, ou de correm da omissão estatal no
sistema de saúde, na educação e em diversas outras áreas em que o Estado se faz
ausente36.

Em seu artigo 3º, o legislador tratou das condições que deverão ser
asseguradas às mulheres para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à
saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao
esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à
convivência familiar e comunitária.

Já no § 1º determinou que o Estado desenvolva políticas que visem garantir


os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares,
no sentido de resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão, cabendo à família, à sociedade e ao
próprio Estado a criação de condições necessárias para o efetivo exercício dos
direitos enunciados no caput, conforme disposições do § 2º.

34 CAMPOS; CORREA, 2007, p.113.


35 SILVA, Luiz Cláudio; SILVA, Franklyn Roger Alves. Manual de processo e prática penal. Rio de Janeiro:
Forense, 2009, p.510.
36 Ibid., p.510.
22

O art. 4º afirma que a interpretação da Lei nº 11.340/06 deve se dar à luz dos
fins sociais a que ela se destina e, especialmente, das condições peculiares das
mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Buscando minorar o aspecto cultural que envolve a matéria à devida


concreção dos direitos e garantias igualitariamente às mulheres e aos homens, os
arts. 8o e 9o, da Lei 11.340/06, trazem em suas disposições, diretrizes das políticas
públicas,com ações integradas para a prevenção e erradicação da violência
doméstica contra as mulheres, tais como implementação de redes de serviços
interinstitucionais, promoção de estudos e estatísticas, avaliação dos resultados,
implementação de centros de atendimento multidisciplinar, delegacias
especializadas, casas-abrigo e realização de campanhas educativas, capacitação
permanente dos integrantes dos órgãos envolvidos na questão, celebração de
convênios e parcerias e a inclusão de conteúdos de equidade de gênero nos
currículos escolares37.

1.2 A violência no âmbito da família

Para Slaibi Filho, a família é o grupo social mais próximo do indivíduo, pois
através dela obtém a satisfação da necessidade mais próxima e densa de uma
personalidade; é o grupo social que serve de intermediação entre o indivíduo e os
demais grupos sociais 38.

A Constituição Federal de 1988 provocou uma transformação significativa


na sociedade, diante de tantas modificações que introduziu, preponderando,
dentre elas, o reconhecimento da supremacia da dignidade da pessoa humana,
lastreada no princípio da igualdade e da liberdade, impedindo a superposição de
qualquer instituição à tutela de seus integrantes39.

Nas palavras de Gustavo Tepedino, a milenar proteção da família como


instituição, unidade de produção e reprodução dos valores culturais, éticos,

37 CAMPOS; CORREA, 2007, p.114.


38 SLAIBI FILHO, Nagib. Direito Constituciona. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 715.
39 DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. São Paulo: RT, 2007, p. 39.
23

religiosos e econômicos dá lugar à tutela essencialmente funcionalizada à


dignidade de seus membros 40.

Dessa feita, a família atual não pode ser tutelada em face dos direitos
patrimoniais que decorrem das relações entre seus membros, posto que, como
afirma Paulo Lobo, é vincada por outros interesses de cunho pessoal ou humano,
tipificados por um elemento aglutinador e nuclear distinto: a afetividade. Esse
elemento nuclear define o suporte fático da família tutelada pela Constituição,
conduzindo ao fenômeno que denominamos repersonalização41.

Nas palavras de Slaibi Filho:

Ao dispor sobre família, a Constituição de 1988 atende aos valores


predominantes no final do século XX, diferentemente da inspiração liberal
que teve o Código Civil de 1916 a dedicar excessiva preocupação com os
efeitos patrimoniais ao dispor sobre as relações de família. Nela, a
dimensão material predomina sobre os aspectos do homem e, até mesmo,
dispondo a Constituição, quanto aos valores sociais, de forma muito
superior ao previsto no Código Civil de 2002, parte do Direito de Família
atende muito mais aos valores da época em que foi redigido, década de 70,
que aos valores predominantes na sociedade brasileira deste início de
século XXI42.

A família, portanto, passa a ser vista num contexto de promover a


dignidade e realizar a personalidade de seus membros, integrando sentimentos,
esperanças e valores, servindo como alicerce fundamental para o alcance da
felicidade43.

Nesse contexto, a Lei Maria da Penha representa uma quebra de paradigmas


no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher, e é muito mais
que um diploma legal de caráter repressivo.

A legislação em voga possui três objetivos principais: a) a prevenção da


violência; b) a repressão da violência; e, ainda c) o tratamento terapêutico das partes
envolvidas, inclusos em tais contextos não só ofensor e vítima, mas todo aquele
inserido no mecanismo familiar44.

40 TEPEDINO, Gustavo. Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 349.
41 LOBO, Paulo Luiz Netto. A repersonalização das relações de família. Disponível em:
<[Link]/doutrina/[Link]?id=5201>. Acesso em:
42 SLAIBI FILHO, 2004, p.715-716.
43 CHAVES, Cristiano; ROSENVALD, Nelson. Direito das famílias. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 34.
44 DAUFENBACH, 2011, p.289.
24

A partir de tanto, consigne-se que o comando normativo está amparado sob o


princípio constitucional da primazia da dignidade da pessoa humana e, por isso
mesmo, a gama diversificada de medidas e ações nele previstas, todas com o
escopo de atacar a violência contra a mulher desde a raiz até o seu estágio mais
avançado.

Com o advento da Lei 11.340/06, estar-se diante de verdadeiro microssistema


de proteção à família e à mulher, pois congrega um conjunto de princípios, diretrizes
e regras que têm por escopo o alcance da questão da violência em toda sua gênese
e complexidade, objetivando efetivamente resguardar a entidade familiar e
assegurar à mulher o direito à sua integridade física, sexual, psíquica e moral.

O art. 5º, I, da Lei nº 11.340/06 ao dispor que a violência poderá ocorrer na


unidade doméstica, definida como “espaço de convívio permanente de pessoas”, a
um só tempo circunscreve as condições depreendidas do fenômeno e dá indicativos
de quem pode ser o agente dos atos de agressão contra a mulher.

A primeira modalidade de configuração da violência doméstica e familiar


contra a mulher, conforme preconiza o inciso I, do art. 5º, ocorre no âmbito da
unidade doméstica, assim entendida como o espaço de convívio permanente de
pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas. É o
que se dá no convívio familiar, entre parentes ou não, que convivam entre si, ainda
que transitoriamente.

O inciso II delimita o campo de abrangência da norma para alcançar os


membros da família que se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por
afinidade ou por vontade expressa, considerando que as pessoas que se
enquadram no inciso I devem manter um convívio espacial, ainda que transitório,
diferentemente do que ocorre com os membros de uma família.

E, a fim de generalizar ao máximo o campo de incidência da norma em


estudo, o inciso III prevê que a violência se configurará em qualquer relação íntima
de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida,
independentemente de coabitação.

É no lar, efetivamente, que os pais dirigem de forma compartilhada a


educação dos filhos, organizam a vida financeira da família e fazem projetos. Mas
25

não há dúvida de que o convívio no mesmo espaço gera situações conflituosas e a


possibilidade da manifestação da violência doméstica.

Desta forma, para a Lei, o sujeito passivo da violência será sempre a mulher
ou as mulheres da unidade doméstica (a esposa ou companheira, a filha comum do
casal ou de um dos cônjuges ou conviventes, a ascendente, e mesmo a mulher
“esporadicamente” agregada, como a empregada doméstica) 45.

Por outro lado, explica Alves que:

A entidade familiar ultrapassa os limites da previsão jurídica (casamento,


união estável e família monoparental) para abarcar todo e qualquer
grupamento de pessoas em que permeie o elemento afeto (affectio
familiae). Em outras palavras, o ordenamento jurídico deverá sempre
reconhecer como família todo e qualquer grupo no qual os seus membros
enxergam uns aos outros como seu familiar46.

Nessa direção, a Lei Maria da Penha vai para mais além dos marcos
conceituais sobre a família estabelecidos na Constituição e no Código Civil, para
admitir sua caracterização a partir da comunidade de pessoas que são parentes por
disposição do direito, ou que se considerem aparentadas, unidas por laços naturais,
por afinidade ou por vontade expressa47.

Assim sendo, por força da nova tendência social de se reconhecer o direito às


uniões homoafetivas, o legislador previu no parágrafo único que as relações
pessoais independem de orientação sexual.

Veja que a própria lei, em seu art. 6º, afirma que a violência doméstica e
familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos.
Essa previsão terá muita influência não só em nosso ordenamento jurídico, mas em
relação ao ordenamento jurídico alienígena, como prevê o art. 1º da Lei nº
11.340/06, uma vez que o Brasil é signatário de diversos acordos e tratados que
visam à repressão à violação aos direitos humanos e, a Emenda Constitucional nº
45/04 (Reforma do Judiciário), instituiu procedimento que garante a estas
convenções força de Emenda Constitucional.

45 GUIMARÃES, 2010, p.40.


46 ALVES, Leonardo Barreto Moreira. A função social da família. O reconhecimento legal do conceito moderno de
família: o art. 5º, II, parágrafo único, da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Revista Brasileira de Direito de
Família, a. VIII, n. 39, p. 131-153, dez./jan. 2007, p. 132.
47 GUIMARÃES, 2010, p.41.
26

O art. 7º define, mais detalhadamente, o que deve ser entendido por violência
doméstica e familiar contra a mulher, tendo em vista que o art. 5º trouxe apenas
definições do que seriam as relações domésticas e familiares.

1.3 A política criminal e a violência doméstica

Segundo Reale Júnior e Paschoal, a política criminal é o conjunto de


princípios e ações através dos quais o Estado realiza a luta contra o delito,
desenvolvendo estratégias de repressão e prevenção sobre as condutas vistas
como socialmente insuportáveis, num grau máximo de intolerância. Não se tratam,
necessariamente, de estratégias para a repressão e prevenção de delitos, mas, sim,
de atos desviados, sendo este um conceito mais amplo, no qual está abraçada a
idéia de delito48.

No que tange ao seu campo de atuação, a política criminal lança-se em


direção a um horizonte amplo, podendo ser compreendida em diferentes âmbitos.
Assim, a política criminal pode ser entendida como o processo dialogal que precede
a edição de uma lei. Ainda no âmbito legislativo, pode ser entendida como as
diretrizes inscritas nessa lei voltadas para a repressão e prevenção de um tipo de
ato desviado49.

A política criminal também pode ser identificada com o conjunto de ações


colocadas em prática pelo poder executivo, para dar cumprimento às normas
programáticas de uma lei. Ou, ainda, pode ser vista como o complexo de atos do
poder executivo, de ordem interna (e não em função de uma lei), visando o combate
aos comportamentos desviados, sendo, todavia, essa atividade, limitada pelos
princípios e garantias constitucionais50.

A política criminal é também uma importante fonte de onde nascem os valores


transportados por uma lei. Nesse aspecto, a política criminal se impõe firmemente
como um processo dialogal amplo, através do qual se extraem decisões valoradas
pelos agentes que nele interferem. Como toda relação entre direito e política, a

48 REALE JÚNIOR, Miguel; PASCHOAL, Janaína. Mulher e Direito Penal. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p.29.
49 Ibid., p.29.
50 Ibid., p.29.
27

norma pressupõe um (imediatamente anterior) momento decisório em conformidade


com os valores vigentes ao tempo respectivo.

Nesse sentido, a Lei Maria da Penha nasceu totalmente imersa em uma


política criminal que demandava por posturas inteiramente novas e endereçadas não
somente ao executivo, mas também aos operadores do direito e à dogmática por
estes empregada.

O Estado brasileiro, por seu turno, consumiu quase dezoito anos para finalizar
um conjunto de leis que tendem, direta ou indiretamente, para o combate do
fenômeno da violência no meio familiar.

Ao promulgar o Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069, de


13.07.1990, o Estado brasileiro deu já início a esse amplo programa jurídico-
constitucional. O Estatuto não apenas se destina a criar um regime especial para a
educação e socialização de crianças e adolescentes que estejam nas margens da
omissão familiar e social e da delinquência, como, também, dispõe de um conjunto
de direitos relacionados à sua vivência no meio familiar. Para tanto, a Lei os protege
de práticas que configurem violência doméstica, na sua mais ampla acepção,
abarcando suas concretizações psicológica e física51.

O Estatuto do Idoso, Lei 10.741, de 01.10.2003, por seu turno, define um


regime jurídico-legal para a proteção do idoso, dispondo sobre seus direitos e
garantias, partindo dos mais diversos aspectos da vida social e familiar sendo que,
neste contexto, também cria mecanismos de prevenção, para além de desenvolver
uma política criminal de neocriminalização.

Assim, a negligência em relação ao idoso, uma espécie de violência moral


que se concretiza através da omissão de socorro (Lei, art. 97), ou do abando- no
(Lei, art. 98), ou da exposição ao perigo (Lei, art. 99), consubstanciam uma política
criminal destinada ao combate da violência doméstica52.

A Lei Maria da Penha encerra, finalmente, o sistema de normatizações do


programa constitucional de combate à violência doméstica, declarando este
propósito expressamente não apenas pela inserção de uma nova política criminal,

51 GUIMARÃES, 2010, p.22.


52 Ibid., p.22.
28

com efeitos diretos no direito substantivo penal e no processo penal, como também,
pelo estabelecimento de medidas preventivas e de tratamento da mulher seviciada53.

Aqui já aparece uma política criminal que discrepa da anteriormente referida,


determinando a não aplicabilidade da Lei 9.099/95 aos crimes categorizados como
de violência doméstica, sob o suposto de falta de efetividade de prevenção especial
pretendida na transação penal13. Em suma, o Estado brasileiro, parece-nos, deu
cumprimento, ao menos no aspecto jurídico-legal, à regra programática contida no §
8º do art. 226, da Constituição Federal, instituindo um amplo sistema político-jurídico
de atenção à criança e ao adolescente, ao idoso e à mulher, onde se destacam
mecanismos jurídicos de combate à violência ocorrida no meio doméstico.

2 A LEI MARIA DA PENHA

A Lei Maria da Penha é fruto da pressão dos órgãos internacionais e


movimentações de órgãos governamentais e não governamentais relacionadas à
violência contra a mulher, mas, principalmente, da luta pessoal de Maria de Penha,
que ousou mudar a sua história e a do país.

Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica, protagonizou um caso


simbólico de violência doméstica e familiar contra a mulher. Em 1983, por duas
vezes, seu marido tentou assassiná-la (animus occidenti). Na primeira vez por arma
de fogo e na segunda por eletrocussão e afogamento. As tentativas de homicídio
resultaram em lesões irreversíveis à sua saúde, como paraplegia e outras sequelas.

Já em 1998, quinze anos após o crime, embora ocorridas duas condenações


pelo Tribunal do Júri do Estado do Ceará, em 1991 e 1996, não havia uma decisão
definitiva no processo e o agressor de Maria da Penha permanecia em liberdade. Foi
então que Maria da Penha, em 20.08.1998, juntamente com o Centro pela Justiça e
o Direito Internacional (CEJIL), por meio do Comitê Latino-Americano e do Caribe
para a Defesa de Direitos da Mulher (CLADEM), formalizou denúncia contra o Brasil

53 GUIMARÃES, op. cit., p.23.


29

à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados


Americanos (CIDH/OEA) 54.

A ação resultou no Relatório 54 de 2001, que concluiu pela omissão,


negligência e tolerância do Estado Brasileiro em relação à violência doméstica e
familiar contra as mulheres do país, estabelecendo recomendações específicas ao
caso para: a) completar o processamento penal do responsável; b) proceder à
investigação e responsabilização sobre as irregularidades e atrasos injustificados no
processo; c) prover a reparação simbólica e material à vítima55.

Determinou, ainda, recomendações de políticas públicas, no sentido de


prosseguir e intensificar o processo de reforma que evite a tolerância Estatal e o
tratamento discriminatório à violência doméstica contra mulheres no Brasil, adotando
medidas específicas no sentido de capacitar funcionários judiciais e policiais
especializados; simplificar procedimentos judiciais penais, sem afetar direitos e
garantias do devido processo; promover formas alternativas de solução de conflitos
no âmbito familiar; multiplicar o número de delegacias especializadas, seus recursos
e apoiar o Ministério Público nos informes judiciais; e, por fim, incluir, nos planos
pedagógicos, unidades curriculares sobre respeito à mulher, seus direitos, a
Convenção de Belém do Pará e manejo de conflitos intrafamiliares56.

Com base no acima descrito e no já anteriormente abordado, tem-se que a


Lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar
contra a mulher.

O conteúdo da lei resta claro em sua ementa: “cria mecanismos para coibir a
violência doméstica e familiar contra a mulher, e visa dar cumprimento ao § 8º do art.
226 da Constituição Federal, à Cedaw e à Convenção de Belém do Pará, dispondo
sobre os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, alterando o
Código Penal e de Processo Penal, a Lei de Execução Penal”, entre outras
providências.

Por óbvio que a Lei Maria da Penha trouxe uma efetivação de direitos
humanos que, expressamente, exigem a articulação de ações do governo de
organismos não governamentais, bem assim a integração funcional do Poder

54 DAUFENBACH, 2011, p.286.


55 Ibid., p.286.
56 DAUFENBACH, 2011, p.286
30

Judiciário com o Ministério Público, a Defensoria Pública, Conselhos estaduais e


municipais de mulheres e demais estruturas formadoras da rede de serviços de
atendi mento a mulher vítima de violência e ao agressor, conforme determina o art.
8º da lei57.

Anteriormente à referida lei, a violência doméstica já havia sido introduzida no


Código Penal, como lesão corporal qualificada, no ano de 2004. Com a edição da
Lei n° 10.886, de 17 de Junho de 2004, instituindo o § 9 o do art. 129 do Código
Penal, buscou o legislador através da figura da "violência doméstica" criar um tipo
qualificado de lesão corporal de natureza leve dolosa em relação ao tipo básico,
excluindo a forma negligente (culposa), as lesões graves, gravíssimas ou com o
resultado morte. Quando, abarcadas pelo quadro de sujeitos e circunstâncias
normativas, descritas na figura da "violência doméstica", constitui majorante nas
hipóteses de lesão corporal de natureza grave, gravíssima ou que resulte a morte58.

A ratio do tipo especial está na maior proteção da comunidade familiar e


conjugal através da proteção individual da pessoa e de sua dignidade humana, que
na verdade, se traduzia numa "conquista simbólica" de movimentos feministas59.

Portanto, tem-se que a Lei Maria da Penha procura trazer o atendimento


especializado não só à vitima, mas também ao agressor, seus filhos, familiares. O
tratamento terapêutico instituído pela lei demonstra o caráter também humanitário e
reparador/pacificador dos conflitos que o legislador, sensível à problemática das
relações afetivas, procurou imprimir à nível de comando legal.

De fato, a submissão das partes envolvidas a tratamento terapêutico, o


agressor no sentido de se conscientizar acerca das causas da agressão e a vítima,
por sua vez, para se fortalecer emocionalmente, representa um grande aliado, senão
numa utópica (mas não impossível) erradicação de conflitos, mas na eficaz
prevenção de futuras contendas60.

No mesmo sentido de uma atuação preventiva de novas agressões e


protetiva do ente familiar, a Lei Maria da Penha também estabelece diretrizes para
que a União, os Estados e os Municípios implantem políticas preventivas à violência

57 Ibid., p.289.
58 REALE JÚNIOR; PASCHOAL, 2007, p.31.
59 REALE JÚNIOR; PASCHOAL, 2007, p.31.
60 DAUFENBACH, 2011, p.290.
31

doméstica (art. 35), tais como programas e campanhas de enfrenta- mento à


violência doméstica e familiar, centros de educação e reabilitação para agressores e
uma série de serviços especializados à mulher, seus filhos (atendimento
multidisciplinar, casas-abrigo, delegacias, núcleos da defensoria pública, serviços de
saúde etc.) 61.

Com efeito, se objetiva a pacificação de conflitos, pois quando uma mulher


sofre de violência doméstica, constata-se que sua voz fora silenciada pela dor e o
seu direito de lamentar tal perda, juntamente com outras reivindicações que também
foram subtraídas ou violadas pelo ato violento do ambiente de convívio.

A pacificação dos conflitos acende a possibilidade de aproximar a vítima, o


ofensor e a sua comunidade para exercitarem o seu direito de lamentação, de
informação e de sobrevivência ao dano sofrido e de sua reparação. Evidente que se
sabe da complexidade e inclusive da dificuldade de transformar esse cenário em
realidade quando a violência é de natureza doméstica, está-se diante de ambiente
particular, hermético por natureza62.

Destarte, a pluralidade de causas e diversidades de formas de manifestação


da violência fez com a lei previsse, conforme se verá, além das medidas de
prevenção através de mecanismos sociais, como escola, família e meios de
comunicação, respostas penais de reparação do dano causado à vítima e à
sociedade com o cometimento do crime.

2.1 Intervenção jurídico penal na Lei Maria da Penha

Em análise à Lei 11.340/06, observa-se que a mesma detém consideráveis


repercussões no âmbito jurídico, criando trâmite inovador de garantia, decorrentes
dos acréscimos efetivados no campo do Direito Penal, da Execução Penal, do
Processo Penal, do Processo Civil, do Direito Trabalhista e do Previdenciário, do
Direito Civil, do Direito Administrativo, tudo isso para maximizar a ordem jurídica no

61 Ibid., p.291.
62 DAUFENBACH, 2011, p.291.
32

que se refere à integração sistêmica de benefícios assistências e de proteção,


buscando, sempre a devida concreção dos direitos e garantias fundamentais63.

A Lei Maria da Penha introduziu alterações de diversas ordens ao


ordenamento jurídico brasileiro, por meio de normas programáticas e
principiológicas, bem como por intermédio de regras de índole material e processual,
estabelecendo definições acerca da violência doméstica e familiar contra a mulher,
competências, procedimentos, circunstâncias agravantes, alteração de pena em tipo
penal, mecanismos de execução de pena e outras mudanças.

Ademais, a integração sistêmica e a simplificação dos procedimentos judiciais


à universalidade e integralidade de mecanismos hábeis de proteção, são alguns dos
aparatos da novel disciplina normativa.

Nessa nova realidade procedimental dos feitos atinentes à Justiça se inserem


as equipes multidisciplinares. Estas deverão ser formadas por profissionais de
diversas áreas do conhecimento, inclusive, externas ao meio jurídico, tais como
psicólogos, assistentes sociais e médicos. Esse sistema viabiliza o conhecimento
das causas e dos mecanismos da violência, oportunizando meios à realização da
Justiça64.

É importante ressaltar que a lei não contém nenhum novo tipo penal, apenas
dá um tratamento penal e processual distinto para as infrações penais já elencadas
na legislação. Com efeito, a Lei apenas alterou os mecanismos de caráter
preventivo-geral já existentes no art. 129, § 9º, do Código Penal, aumentando a pena
e acrescentando ao mesmo artigo um parágrafo, que trata de causa especial de
aumento de pena quando o crime for cometido contra pessoa portadora de
deficiência (art. art. 44); para além disso, agravou as consequências jurídico-penais
ao vedar a aplicação de cesta básica ou outras de prestação pecuniária (art. 17) e
impedindo a aplicação do rito desjudiciarizado da Lei dos Juizados Especiais (art.
41)65.

Os arts. 18 a 24 pretendem garantir às mulheres o acesso direto ao juiz,


quando em situação de violência, possibilitando uma celeridade de resposta à
necessidade imediata de proteção.

63 CAMPOS; CORREA, 2007, p.145.


64 CAMPOS; CORREA, 2007, p.117.
65 GUIMARÃES, 2010, p.74.
33

Conforme já destacado, a Lei Maria da Penha assenta a definição de


violência contra a mulher no aspecto da desigualdade; reforça os mecanismos
penais de persuasão do agressor; impede-lhe a transação da pena; assegura que a
vítima não retrocederá de seu desejo de perseguir o crime (através de um maior
formalismo concernente à retratação da representação, previsto no art. 16); e
reconhece que a violência contra a mulher manifesta-se de diferentes modos
(definindo violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral), tudo, enfim,
endereçado à maior intervenção penal, instrumentalizando o direito penal que,
conforme entendem as teses feministas, pode diminuir a situação de desigualdade
estrutural66.

2.2 Alterações materiais e processuais

Inicialmente, importa destacar algumas destas alterações, para


posteriormente realizar uma análise detalhada sobre aquelas que apresentam maior
relevância e também as mais polêmicas, com a finalidade de se aferir o sistema ou
microssistema disciplinado pela nova lei em favor das mulheres vítimas de violência
doméstica e familiar.

2.2.1 As alterações materiais

As alterações materiais são aquelas de “disciplinam imediatamente a


cooperação entre pessoas e os conflitos de interesses ocorrentes na sociedade”,
cabendo destacar os artigos 5º, 6º, 7º, 43 e 44 da Lei n° 11.340/0667.

Diante disso, são inovações da lei68:

 Define a violência doméstica e familiar contra a mulher;

66 Ibid., p.74-75.
67 GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel; CINTRA, Antonio Carlos de Araújo. Teoria geral
do processo. 18. ed. São Paulo: Malheiros, 2002.
68 SOUZA, Sérgio Ricardo de. Comentários à Lei de combate à violência contra a mulher: Lei Maria da Penha

11.340/2006, Curitiba: Juruá, 2007.


34

 Estabelece as formas da violência doméstica contra a mulher como física,


psicológica, sexual, patrimonial e moral;

 Determina que a violência doméstica contra a mulher independe de sua


orientação sexual;

 Determina que a mulher somente poderá renunciar à denúncia perante o


juiz;

 Ficam proibidas as penas pecuniárias (pagamento de multas ou cestas


básicas);

 Veda a entrega da intimação pela mulher ao agressor;

 Estabelece que mulher vítima de violência doméstica deverá ser notificada


dos atos processuais, em especial quando do ingresso e saída da prisão
do agressor;

 Estabelece que mulher deverá estar acompanhada de advogado (a) ou


defensor (a) em todos os atos processuais;

 Retira dos juizados especiais criminais (Lei n° 9.099/95) a competência


para julgar os crimes de violência doméstica contra a mulher. Observa-se,
ademais, que a Lei Maria da Penha alterou o máximo da pena para essa
forma qualificada de lesão corporal, que passou a ser de três anos de
detenção. Com esta alteração, o infrator não mais estará sujeito ao rito
descrito na Lei 9.099/95. Isto significa que a ação penal é incondicional
pública, promovida, portanto, pelo representante do Ministério Público,
independentemente de representação da vítima69;

 Altera o código de processo penal para possibilitar ao juiz a decretação da


prisão preventiva quando houver riscos à integridade física ou psicológica
da mulher;

 Altera a lei de execuções penais para permitir o juiz que determine o


comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e
reeducação;

69 GUIMARÃES, 2010, p.77.


35

 Determina a criação de juizados especiais de violência doméstica e


familiar contra a mulher com competência cível e criminal para abranger
as questões de família decorrentes da violência contra a mulher;

 Determina que caso a violência doméstica seja cometida contra mulher


com deficiência, a pena será aumentada em 1/3.

2.2.2 Alterações processuais

Segundo dispõe o art. 13 da Lei nº 11.340/2006,

ao processo, ao julgamento e à execução das causas cíveis e criminais


decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher
aplicar-se-ão as normas dos Códigos de Processo Penal e Processo Civil e
da legislação específica relativa à criança, ao adolescente e ao idoso que
não conflitarem com o estabelecido nesta lei.

No que diz respeito ao processo judicial as principais alterações foram70:

 O juiz poderá conceder, no prazo de 48h, medidas protetivas de urgência


(suspensão do porte de armas do agressor, afastamento do agressor do
lar, distanciamento da vítima, dentre outras), dependendo da situação;

 O juiz do juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher terá


competência para apreciar o crime e os casos que envolverem questões
de família (pensão, separação, guarda de filhos etc.).

O Ministério Público apresentará denúncia ao juiz e poderá propor penas de 3


meses a 3 anos de detenção, cabendo ao juiz a decisão e a sentença final. O
legislador, atento para a efetividade do processo, determinou que nas causas que
versem sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher será necessária a
intervenção do Ministério Público. Desta feita, a participação do Ministério Público é
indispensável, tendo este legitimidade para agir como parte, intervindo nas demais
ações tanto cíveis como criminais (art. 25).

70 SOUZA, 2007, p.29.


36

Mais além, confere a lei, em seu art. 37, legitimidade para que o Ministério
Público e as Associações constituídas há pelo menos um ano e que tenham atuação
em questões de violência doméstica e familiar contra a mulher, defendam os
interesses e direitos transindividuais.

Diga-se de passagem, quebrando a regra constante das Leis n os 9.099/95 e


10.259/01, em se tratando dos Juizados de Violência doméstica, a ofendida deverá
ser patrocinada por advogado regularmente constituído, excetuada a hipótese do art.
19, da lei em voga, que versa sobre a concessão de medidas protetivas de urgência,
como se observa do comando previsto do art. 2771:

 A ação penal por lesão corporal leve ou lesão corporal culposa passa a
ser pública incondicionada, visto que o art. 41 da Lei nº 11.340/06 veda a
aplicação da Lei nº 9.099/95 e, por conseguinte, o art. 88 da Lei nº
9.099/95, que estabelece a necessidade de representação para a
instauração da ação penal nestes crimes não será aplicável;

 Na Execução Penal, tem-se a devida vinculação de objetivos prioritários: a


ressocialização do agressor. Assim, a pena até então meramente
retributiva, inserida nas ocorrências mais gravosas, reveste-se de um novo
perfil: os programas de recuperação e reeducação (art. 45, da Lei n°
11.340/06);

 A Lei Maria da Penha cria uma sistemática adicional ao critério da


conexão, quando insere a ocorrência da violência doméstica e familiar, na
modalidade de crime, à procedimentalização conjunta dos feitos criminais
e civis.

Todavia, segundo Dias, mesmo que tenham sido conferidas ao juízo da vara
crime competências cíveis e criminais para conhecer e julgar as demandas, somente
os procedimentos oriundos das delegacias de polícia são distribuídos às varas
criminais. Persistem na jurisdição cível os pedidos de medidas protetivas formulados
por meio de demandas cautelares72.

71SILVA; SILVA, 2009, p.514.


72 DIAS, Maria Berenice. O reflexo da Lei Maria da Penha no Direito de Famílias. In: MADALENO, Rolf;
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito de Família - Processo, teoria e prática. Rio de Janeiro: Forense, 2008,
p.14.
37

Portanto, um mesmo fato que enseja a concessão de idêntica medida


protetiva pode ser deferido tanto pelo juízo criminal como pelo juiz da vara de família
ou da vara cível. A definição da competência depende de o pedido ter sido veiculado
perante a autoridade policial ou por meio de demanda cautelar intentada pela parte
representada por procurador73.

2.3 Implicações do afastamento da Lei nº 9.099/95

O art. 41 da Lei Maria da Penha veda a aplicação do procedimento previsto


na Lei nº 9.099/95, que prevê a competência dos Juizados Especiais para o
processamento e julgamento das causas de menor complexidade – matéria cível – e
menor potencial ofensivo – matéria criminal, in verbis:

Art. 41. Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra a
mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei nº 9.099,
de 26 de setembro de 1995.

Desse modo, numa interpretação literal do dispositivo, o autor do fato que


praticar um delito considerado de menor potencial ofensivo contra uma mulher, no
âmbito das relações domésticas, não poderá ser beneficiado com a transação penal
ou mesmo com a suspensão condicional do processo.

O referido artigo certamente o que vem causando o mais acirrado debate na


doutrina. Alguns autores entendem ser o mesmo inconstitucional pelo fato de violar
princípios constitucionais (igualdade e proporcionalidade). Para Moreira, se a
infração penal praticada for um crime de menor potencial ofensivo (o art. 41 não se
refere às contravenções penais) devem ser aplicadas todas as medidas
despenalizadoras previstas na Lei 9.099/95 (composição civil dos danos, transação
penal e suspensão condicional do processo), além da medida “descarcerizadora” do
art. 69 (termo circunstanciado e não lavratura do auto de prisão em flagrante, caso o
autor do fato comprometa-se a comparecer ao Juizado Especial Criminal)74.

73Ibid., p.14.
74MOREIRA, Rômulo de Andrade. A Lei Maria da Penha. In: GUIMARÃES, Isaac Sabbá; MOREIRA, Rômulo de
Andrade. Lei Maria da Penha - Aspectos Criminológicos, de Política Criminal e do Procedimento Penal. Curitiba:
Juruá, 2010, p.130-131.
38

Seguindo o mesmo raciocínio, para o autor, em relação às lesões corporais


leves e culposas, a ação penal continua a ser pública condicionada à representação,
aplicando-se o art. 88 da Lei 9.099/9575.

Moreira destaca ainda que, ao prevalecer a tese contrária (pela


constitucionalidade do artigo), uma injúria praticada contra a mulher naquelas
circunstâncias não seria infração penal de menor potencial ofensivo (interpretando-
se o art. 41 de forma literal); já uma lesão corporal leve, cuja pena é o dobro da
injúria, praticada contra um idoso ou uma criança (que também mereceram
tratamento diferenciado do nosso legislador – Leis 10.741/03 e 8.069/90) é um crime
de menor potencial ofensivo. No primeiro caso, o autor da injúria será preso e
autuado em flagrante, responderá a inquérito policial, haverá queixa-crime etc. etc.
Já o segundo agressor não será autuado em flagrante, será lavrado um simples
termo circunstanciado, terá a oportunidade da composição civil dos danos, da
transação penal e da suspensão condicional do processo etc. etc. (Lei 9.099/95,
arts. 69, 74, 76 e 89)76.

O afastamento da Lei nº 9.099/95 fez com que Silva e Silva destacassem as


implicações negativas que o mesmo acarreta ao processo, a saber77:

 Impossibilidade de lavratura do termo circunstanciado.

De início, teremos que a comunicação das infrações penais praticadas com


emprego de violência doméstica e familiar contra a mulher não estarão suscetíveis à
lavratura do termo circunstanciado, mas caberá à autoridade policial a abertura do
inquérito policial, em razão da inaplicabilidade do art. 69 da Lei nº 9.099/9578.

 Possibilidade de prisão em flagrante.

Por conseguinte, não será possível a utilização do parágrafo único do art. 69


da Lei nº 9.099/95, que veda a imposição da prisão em flagrante e a exigência de
fiança para o autor do fato, encaminhado ou que assume o compromisso de
comparecer aos Juizados Especiais Criminais. Portanto, nos crimes de menor

75 Ibid., p.131.
76 Ibid., p.131-132.
77 SILVA; SILVA, 2009, p.514.
78 SILVA; SILVA, 2009, p.514.
39

potencial ofensivo praticados com emprego de violência doméstica e familiar contra


a mulher será possível a prisão em flagrante79.

 Inviabilidade das propostas de transação penal e suspensão condicional


do processo.

Não será cabível a proposta de transação penal nos crimes praticados com
emprego de violência doméstica e familiar contra a mulher e muito menos a
possibilidade de suspensão condicional do processo, tendo em vista a
inaplicabilidade dos arts. 76 e 89 da Lei nº 9.099/9580.

Todavia, alguns autores justificam tal afastamento da Lei nº 9.099/95 a partir


da exposição de motivos da Lei Maria da Penha, tendo em vista o fato da Lei nº
9.099/95 não ter sido criada com o objetivo de atender a casos de violência
doméstica e não apresentando desse modo solução adequada, uma vez que os
mecanismos utilizados para averiguação e julgamento dos casos são restritos81.

Para além do mais, refere-se que a conciliação é um dos maiores problemas


dos Juizados Especiais Criminais, visto que é a decisão terminativa do conflito, na
maioria das vezes induzida pelo conciliador82.

Para Campos e Carvalho, do ponto de vista sociológico e da teoria político-


econômica, pode-se afirmar que a criação da Lei 9.099/95 se insere no plano de
reforma das políticas judiciais no contexto das economias globalizadas, da
hegemonia do mercado, da desregulamentação das economias nacionais, da
diminuição do Estado social e da ampliação do controle social83, conduzindo seu
raciocínio, portanto, para o entendimento de que:

[...] em primeiro lugar, a desjudiciarização é uma política criminal ditada pela


onda globalizante e, em segundo lugar, que a diminuição do Estado social
(leia-se: neoliberalismo) expõe as fraturas de seu sistema ao mesmo tempo
em que deixa a sociedade sem suficiente assistência84.

79 Ibid., 2009, p.514.


80 Ibid., p.515.
81 GUIMARÃES, 2010, p.77.
82 Ibid., p.77.
83 CAMPOS, Carmen Hein de; CARVALHO, Salo de. Violência doméstica e juizados especiais criminais: análise

desde o feminismo ao garantismo. Revista de Estudos Criminais, Porto Alegre, v. 5, n. 19, p. 53-63, jul./set.
2005, p. 54.
84 Ibid., p. 56.
40

Os autores prosseguem a análise, referindo que:

[...] os crimes de ameaça e de lesões corporais que passaram a ser


julgados pela ‘nova’ Lei são majoritariamente cometidos contra as mulheres
e respondem por cerca de 60% a 70% do volume processual dos Juizados.
[...] O procedimento “poderia” dar maior visibilidade ao problema da
violência contra a mulher, no entanto, esse “desvelamento” não se prestou a
minimizá-lo85.

Ao invés disso, os autores observam sérias implicações no fato de tratar os


casos de violência doméstica seguindo-se o procedimento desjudiciarizado.

A mais importante deriva do fato de que, em se tratando de violência de


gênero, o polo passivo (da relação penal material) é composto
majoritariamente de mulheres. Assim, a exclusão da análise de gênero
sobre a Lei 9.099/95 impossibilitou compreender as diferenças da incidência
do controle formal sobre as mulheres. (...) E dentre as muitas desvantagens
observadas, seguindo a crítica legal feminista ao tratamento da violência
doméstica, os autores destacam o fato de que: a) a violência doméstica
gera graves impactos emocionais na vítima, que impede a mulher de [...]
romper a situação violenta [...]; b) a categoria de crime de menor potencial
ofensivo, ao desconsiderar os efeitos emocionais e psicológicos que a
violência doméstica causa na mulher, nega [...] seu uso como mecanismo
de poder e de controle sobre as mulheres [...]; por fim, c) a transação penal
exclui a vítima, uma vez que ela fica sem oportunidade para opinar sobre as
condições a serem impostas ao autor do crime, correndo-se, por isso, o
risco de as disputas conjugais serem renovadas, [...] devolvendo o poder ao
autor da violência, pois, em última análise, é o sujeito que tem a capacidade
de aceitar os termos da proposta [...]86.

Pelo viés da crítica garantista ao tratamento dos crimes de menor potencial


ofensivo, os autores indicam que o procedimento dos juizados especiais expõe o
autor do fato a situações constrangedoras, mormente quando muitos dos casos
levados ao juizado constituiriam apenas demandas temerárias; há uma lógica
econômica nesses juizados, pois que seu principal objetivo seria o de diminuir o
volume dos processos; com isso, fatalmente cometem-se agressões aos direitos
fundamentais da pessoa rotulada como autor dos fatos87.

2.4 A Lei n° 11.340/06 e a autoridade policial

85 CAMPOS; CARVALHO, 2005, p. 56.


86 Ibid., p. 57-58.
87 CAMPOS; CARVALHO, 2005, p. 60-61.
41

Condutas que configuram violência doméstica, ao serem levadas ao


conhecimento da polícia, desencadeiam providências policiais e judiciais.

No que diz respeito à autoridade policial, a lei88:

 Prevê um capítulo específico para o atendimento pela autoridade policial


para os casos de violência doméstica contra a mulher;

 Permite a autoridade policial prender o agressor em flagrante sempre


que houver qualquer das formas de violência doméstica contra a mulher;

 Registra o boletim de ocorrência e instaura o inquérito policial


(composto pelos depoimentos da vítima, do agressor, das testemunhas e
de provas documentais e periciais);

 Remete o inquérito policial ao Ministério Público. O Ministério Público


deve ser comunicado acerca das medidas que foram adotadas no
processo (art. 22 § 1º), podendo requerer a aplicação de outras (art. 19)
ou sua substituição (art. 19, §3ª). Quando a vítima manifestar interesse em
renunciar à representação, deve o promotor estar presente na audiência
(art. 16). Também lhe é facultado requerer o decreto da prisão preventiva
do agressor (art. 20);

 Pode requerer ao juiz, em 48h, que sejam concedidas diversas medidas


protetivas de urgência para a mulher em situação de violência.

Solicita ao juiz a decretação da prisão preventiva com base na nova lei que
altera código de processo penal. A decretação da prisão preventiva está
condicionada a existência de pressupostos, que estão elencados no art. 313 do
CPC. Em regra, somente os delitos apenados com reclusão admitem a prisão
preventiva. Excepcionalmente, os delitos apenados com pena de detenção a
admitem quando o acusado é vadio ou, havendo dúvida sobre sua identificação, não
fornece elementos para esclarecê-la.

Nesse ponto, a Lei Maria da Penha também inovou ao dispor em seu artigo
20 que, em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução criminal, caberá a
prisão preventiva do agressor. Esse dispositivo alterou o Código de Processo Penal,

88 SOUZA, 2007, p.31.


42

acrescentando no artigo 313 o inciso IV, possibilitando a decretação da prisão


preventiva “se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos da lei específica, para garantir a execução das medidas protetivas de
urgência”.

No processo penal, outros modificativos são externados: oportuniza-se trâmite


conjunto, apenso, de tutelas cíveis em autos apartados (art. 19, 1 III da Lei n°
11.340/06).

Tal inserção maximiza a ordem jurídica em razão do benefício da prova


emprestada. Sendo desnecessária a realização de inúmeras diligências instrutórias.
Criam-se novas possibilidades de Decreto Preventivo (art. 42 – art. 313, IV do CPP);
Assim, o decreto preventivo poderá ser externado à devida observância das
medidas protetivas (tutelas de amparo).

2.5 As mudanças no âmbito do Direito Civil

No âmbito do direito civil, a lei89:

 Autoriza a restrição ou suspensão do direito de visitas aos dependentes


(art. 22, IV), bem como oportuniza a imediata restituição de bens, em
tutela de amparo (protetiva);

 Traz ênfase no concernente à proteção da manifestação da vontade


consciente, reconhecendo anomalias prévias autorizadoras da suspensão
de procurações conferidas ao agressor (art. 24);

 De igual forma, a Lei n° 11.340/06 concede benefício protetivo à


inviabilidade de celebração de contratos e atos de compra e venda pelo
agressor (art. 24), procurando de tal forma, resguardar os direitos
patrimoniais da vítima. Caso haja o descumprimento de tal ordem,
configura-se a nulidade absoluta do ato, dos aspectos tendo-se em vista o
proibitivo legal (art. 104 do CC), além da devida inserção da
desobediência caracterizada à ordem emanada. Tal previsão significa um
grande avanço legislativo no favorecimento da vítima de violência

89 SOUZA, 2007, p.34.


43

doméstica e familiar, tendo em vista que em muitos dos casos, além da


agressão física e psicológica, ainda sofre com os danos de natureza
patrimonial;

 A lei desburocratiza medidas cautelares, conceituando estas como tutelas


de ordem protetiva que, apesar de serem conceituadas como
procedimentos acautelatórios, não estão vinculadas às regras formais do
procedimento do Código de Processo Civil, tal como petição inicial,
condições, prazos, contestação, revelia etc.

Além disso, dentre outras mudanças a Lei n° 11.340/06, dispõe quanto à


obrigatoriedade da remoção da servidora pública (art. 9º, I) e garante a manutenção
do vínculo trabalhista, quando necessário o afastamento do local de trabalho da
vítima, pelo período de 6 (seis) meses (art. 9º. II).

3 MEDIDAS PROTETIVAS E DE ASSISTÊNCIA À VÍTIMA DE


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

É certo que um dos principais objetivos da Lei Maria da Penha é dar


efetividade à função protetiva de bens jurídicos tutelados pela norma. Conforme
Porto, o legislador brasileiro, inspirado em documentos internacionais dos quais o
Brasil tomou parte, sensibilizou-se contra uma injusta tradição de nefandas
consequências:
44

A violência generalizada contra a mulher por parte do homem, e deliberou


legislar sobre o tema, buscando, dentre outros meios mais tipicamente
promocionais, combater uma das causas desta lamentável tradição: a
impunidade ou, no mínimo, a proteção deficiente, através da autorização de
medidas protetivas de urgência a serem deferidas em favor da mulher
agredida, com nítido cunho cautelar e inspiradas nas ideias de
hipossuficiência da mulher, informalidade, celeridade e efetividade 90.

Neste contexto, a Lei Maria da Penha surgiu como forma de concretização


dos pilares lançados pelo constituinte originário em relação à proteção por parte do
Estado à família, que nada mais é do que o núcleo central da sociedade. A lei realiza
esta proteção na pessoa da mulher contra a qual é praticada a violência doméstica e
familiar, criando mecanismos que se apresentam especialmente destinados à tutela
daquela que é hostilizada nos âmbitos doméstico e familiar.

Desse modo, o título III da Lei nº 11.340/06 trata das medidas integradas de
prevenção assim descritas no art. 8º, que prevê a integração entre o Poder
Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública.

A Lei Maria da Penha estabelece o que se pode denominar de categorias de


medidas de atenção à mulher vítima de violência doméstica91:

a) no art. 9º encontram-se as normas de assistência (recorrentes aos


princípios e diretrizes previstos na Lei Orgânica da Assistência Social, no Sistema
Único de Saúde, no Sistema Único de Segurança Pública), que tratam da inclusão
da mulher no cadastro de programas assistenciais; remoção de servidora pública;
manutenção de vínculo trabalhista;

b) no art. 11 estão as medidas de atendimento pela autoridade policial


consistentes na proteção policial, no encaminhamento da vítima ao atendimento
médico-ambulatorial, no fornecimento de transporte para a vítima e dependentes
para abrigo ou local seguro, no acompanhamento da vítima para a retirada dos
pertences do local de ocorrência ou do lar, na informação dos direitos e serviços
disponíveis para a vítima;

c) no art. 22 estão as medidas protetivas que obrigam o agressor, que se


referem à restrição da posse ou restrição do porte de armas de fogo, afastamento do
lar, domicílio ou local de convivência coma vítima, proibição de determinadas
90 PORTO, Pedro Ruy da Fontoura. Violência doméstica e familiar contra a mulher. Lei 11.340/2006: análise
crítica e sistêmica. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 86.
91 GUIMARÃES, 2010, p.82-83.
45

condutas (aproximação da vítima ofendida e de seus familiares e das testemunhas;


contato com a ofendida, parentes e testemunhas; frequência a determinados
lugares; restrição de visitas aos dependentes menores; prestação de alimentos);

d) nos arts. 23 e 24 estão as medidas protetivas à ofendida, de


encaminhamento da ofendida e de seus dependentes a programa de proteção ou de
atendimento, recondução da vítima e de seus dependentes ao domicílio,
afastamento da ofendida do lar, restituição à vítima de bens subtraídos pelo
agressor, proibição de celebração de atos e contratos de compra, venda e locação
de propriedades em comum, suspensão de procurações que a ofendida tenha
conferido ao agressor, prestação de caução relativa a perdas e danos decorrentes
de prática de violência doméstica e familiar.

3.1 As medidas protetivas de urgência

A Lei Maria da Penha estabelece a assistência à mulher em situação de


violência doméstica e familiar apresentando primeiramente medidas integradas de
proteção que podem ser resumidas na adoção de políticas públicas de integração de
entidades estatais e não estatais com vista à promoção, estudo, o respeito nos
meios de comunicação, o atendimento especial, dentre outras medidas em relação
às relações domésticas e familiares.

Além dessas medidas de políticas públicas e atendimento e procedimento


especial, a Lei Maria da Penha criou medidas protetivas de urgência à mulher em
situação de violência familiar e doméstica.

As medidas protetivas de urgência têm por finalidade permitir maior eficácia


das medidas e, com isso, garantir a proteção almejada, aproximando o Estado
destes âmbitos de incidência da violência.

Leonardo Sica comenta, que:

A previsão de tais medidas protetivas encontra respaldo na Resolução 45-


110 da Assembleia Geral das Nações Unidas – Regras Mínimas da ONU
para a Elaboração de Medidas Não Privativas de Liberdade (Regras de
Tóquio, editadas nos anos 90). Estas regras enunciam um conjunto de
princípios básicos para promover o emprego de medidas não privativas de
46

liberdade, assim como garantias mínimas para as pessoas submetidas a


medidas substitutivas da prisão92.

As medidas protetivas de urgência, assim chamadas pela lei, poderão ser


concedidas pelo juiz, a requerimento do Ministério Público ou a pedido da ofendida
(art. 19), não havendo necessidade, no último caso, de ser o pedido subscrito por
advogado, e independentemente de audiência das partes e de manifestação do
Ministério Público93.

As medidas protetivas de urgência disponibilizam formas concretas de


proteção à mulher em situação de violência doméstica e familiar, sendo dotadas de
procedimentos próprios e que podem ser deferidas pelo juiz a requerimento do
Ministério Publico e da ofendida. Elas podem ser aplicadas isoladamente ou
cumulativamente pelo juiz, podendo ser substituídas a qualquer tempo por outra de
melhor eficácia, consoante o art. 19.

Para Moreira, algumas destas medidas são salutares, seja do ponto de vista
de proteção da mulher, seja sob o aspecto “descarcerizador” que elas encerram. Em
outras palavras: é muito melhor que se aplique uma medida cautelar não privativa de
liberdade do que se decrete uma prisão preventiva ou temporária (adiante
trataremos do novo inciso acrescentado ao art. 313 do Código de Processo Penal)
94.

Destarte, por terem a natureza jurídica de medidas cautelares, devem


observar, para a sua decretação, a presença do fumus commissi delicti e do
periculum in mora95.

A partir do já abordado, tem-se que as medidas protetivas de urgência


classificam-se quanto aos destinatários de sua incidência: a) medidas protetivas de
urgência que obrigam o agressor e; b) as medidas protetivas de urgência à ofendida.

3.1.1 Medidas protetivas que obrigam o agressor

92 SICA, Leonardo. Direito Penal de emergência e alternativas à prisão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002,
p. 123.
93 MOREIRA, 2010, p.123.
94 Ibid., p.123.
95 MOREIRA, 2010, p.123.
47

As medidas protetivas de urgência são espécies de medidas essencialmente


cautelares, que objetivam garantir principalmente a integridade psicológica, física,
moral e material (patrimonial) da mulher vítima de violência doméstica e familiar,
com vistas a garantir que ela possa agir livremente ao optar por buscar a proteção
estatal e em especial a jurisdicional contra o seu suposto agressor96.

As medidas que se referem à pessoa do agressor, elencadas no artigo 22 da


Lei n° 11.340/06, estabelecem uma série de deveres, proibições e restrições que
têm por núcleo a segurança do ambiente familiar e da ofendida. Dentre as medidas
estabelecidas neste artigo, pode-se mencionar: a suspensão da posse ou restrição
do porte de armas com a comunicação do órgão competente; o afastamento do lar,
domicílio ou local de convivência com a ofendida; a proibição de determinadas
condutas que podem ser resumidas na restrição ao contato com a ofendida; a
restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores e a prestação de
alimentos provisórios ou provisionais.

Observa-se que este rol de medidas é meramente exemplificativo, não


impedindo a aplicação cumulativa ou isolada de outras previstas no ordenamento
jurídico. Também se verifica em relação a elas a previsão de garantia de eficácia
prevista no § 3º, que possibilita ao juiz requisitar o auxílio da força policial e,
também, institutos do artigo 461, §§ 5º e 6º do CPP, dentre os quais a imposição de
multa por tempo de atraso, busca e apreensão, impedimento de atividade nociva,
dentre outras.

3.1.2 Medidas protetivas à ofendida

As medidas assistenciais, de proteção pessoal e patrimonial à ofendida estão


elencadas nos artigos 23 e 24 da Lei n° 11.340/06, as quais complementam as
medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor.

Dentre as medidas assistenciais e de proteção pessoal à ofendida, as quais


se encontram no art. 23, pode-se destacar: o encaminhamento a programa
assistencial de proteção ou atendimento; a determinação da recondução da ofendida
e de seus dependentes ao domicílio após o afastamento do agressor; o afastamento
da ofendida do lar sem prejuízo aos direitos relativos aos bens, guarda de filhos e

96 SOUZA, 2007, p.38.


48

alimentos e a determinação da separação de corpos. Por estas medidas se observa


especial proteção em relação à pessoa da ofendida e constitui rol exemplificativo97.

Além dessas medidas mencionadas, encontram-se aquelas que visam


oferecer proteção especial ao patrimônio da ofendida, em vista da modalidade de
violência patrimonial prevista no art. 7º, inciso IV, da Lei n° 11.340/06.

O legislador normatizou medidas que já vinham sendo requeridas com


habitualidade, principalmente nos juízos de família, mas que agora poderão ser
aplicadas no âmbito criminal, posto que os Juizados de Violência Doméstica são
detentores de uma competência ampliada, com vistas a possibilitar a almejada
proteção integral para a vítima, que agora poderá resolver praticamente todas as
questões vinculadas com a agressão doméstica e familiar sofrida, em um único
lugar.

Cumpre destacar que as medidas protetivas supra citadas têm como limite os
princípios da razoabilidade e da legalidade, tendo caráter exemplificativo, e não
exaustivo. Logo, o juiz poderá, com vistas a assegurar a efetividade das medidas
protetivas deferidas em favor da vítima, determinar a providência preconizada no art.
461, § 5º do CPC e outras que sejam pertinentes98.

3.2 Medidas assistenciais por parte dos poderes públicos

Além de todas estas medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da


Penha, cabe mencionar as diversas previsões assistenciais referentes à atuação dos
poderes públicos, incluindo atribuições do Ministério Público no combate à violência
doméstica e familiar contra a mulher, órgão que teve suas atribuições ampliadas e
ao qual cabe intervir quando não for parte nas causas cíveis e criminais relacionadas
à violência doméstica e familiar contra a mulher.

97 SOUZA, 2007, p.38.


98 Ibid., p.39.
49

As medidas assistenciais dos poderes públicos encontram especial previsão,


podendo ser relacionadas as relativas à assistência judiciária e o atendimento por
parte de equipe multidisciplinar99.

A Lei Maria da Penha também estabelece previsão de defesa de interesses e


direitos transindividuais no art. 37, conferindo legitimação concorrente ao Ministério
Público e associação de atuação na área regularmente constituída há pelo menos
um ano, que pode ser dispensada pelo juiz quando este entender que não há outra
entidade com representatividade adequada para ajuizamento da demanda coletiva
(art. 37, parágrafo único)100.

3.3 A prisão preventiva

Segundo Feitoza, as medidas protetivas de urgência são cautelares


preparatórias, preventivas ou incidentais. Desta maneira, a prisão preventiva seria
uma espécie de prisão provisória ou cautelar aplicada aos delitos cometidos
dolosamente contra mulher, no âmbito doméstico e familiar, desde que estejam
presentes indícios suficientes de autoria e materialidade no crime cometido101.

Por força do art. 42 da lei ora comentada, acrescentou-se o inc. IV ao art. 313
do Código de Processo Penal que passou a ter a seguinte redação:

99SOUZA, 2007, p.40.


100Ibid., p.40.
101 FEITOZA, Denílson. Direito Processual Penal: Teoria, crítica e práxis. Rio de Janeiro: Impetus, 2009, p. 626.
50

Art. 313. Em qualquer das circunstâncias, previstas no artigo anterior, será


admitida a decretação da prisão preventiva nos crimes dolosos:
I – punidos com reclusão;
II – punidos com detenção, quando se apurar que o indiciado é vadio ou,
havendo dúvida sobre a sua identidade, não fornecer ou não indicar
elementos para esclarecê-la;
III – se o réu tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença
transitada em julgado, ressalvado o disposto no parágrafo único do art. 46
do Código Penal;
IV – se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos da lei específica, para garantir a execução das medidas protetivas
de urgência.

Lemes explica a mudança afirmando que além das hipóteses legais já


previstas para a decretação da preventiva, somou-se agora a prática de crimes
cometidos no ambiente doméstico e familiar contra a mulher102.

Desse modo, permite-se que, qualquer que seja o crime (doloso), ainda que
apenado com detenção (uma ameaça, por exemplo), seja decretada a prisão
preventiva, bastando que estejam presentes o fumus commissi delicti e que a prisão
seja necessária para garantir a execução das medidas protetivas de urgência103.

A lei criou, portanto, este novo requisito a ensejar a prisão preventiva. Nas
palavras de Prado:

A primeira observação que se faz é que, com a alteração legislativa, o art.


313, inc. IV, do Código de Processo Penal passou a prever, além de mais
uma hipótese legal para a prisão preventiva, qual seja: a possibilidade de
sua decretação nos crimes dolosos praticados com violência doméstica e
familiar contra a mulher, mais um fundamento daquela custódia cautelar,
consubstanciado na garantia da execução das medidas protetivas de
urgência, previstas na Lei 11.340/06. Tecnicamente, melhor seria se essa
última parte da disposição legal tivesse sido inserida no art. 312 do Código
de Processo Penal. Entretanto, o equívoco do legislador não lhe retira a
natureza de verdadeiro fundamento da prisão preventiva, calcada que está
na necessidade da restrição. Assim, a partir da vigência da Lei 11.340/06, é
possível a decretação da prisão preventiva para a garantia das medidas
protetivas de urgência previstas na referida lei104.

102 PRADO, Fabiana Lemes Zamalloa do. A prisão preventiva na Lei Maria da Penha. 2009. Disponível em:
Disponível em: <[Link]
com-violencia-domestica-contra-a-mulher>. Acesso em:
103 MOREIRA, 2010, p.140.
104 PRADO, op. cit., p.2.
51

O dispositivo é providencial, constituindo-se em um utilíssimo instrumento


para tornar efetivas as medidas de proteção preconizadas pela novel legislação. Não
houvesse essa modificação, a maioria dos casos de violência doméstica e familiar
contra a mulher ficaria privada do instrumento coercivo da Prisão Preventiva por
ausência de sustentação nos motivos elencados no artigo 312, CPP,
tradicionalmente e nos casos de cabimento arrolados no artigo 313, CPP.

É claro que deverão ser satisfeitos os requisitos do artigo 312, CPP,


normalmente também nesses casos (prova do crime e indícios suficientes de
autoria). O legislador apenas acrescentou mais uma hipótese criminal de cabimento
do decreto extremo no artigo 313, CPP (casos de violência doméstica ou familiar
contra a mulher, independente dos demais incisos do dispositivo) e também criou
mais uma motivação ou fundamento, agora situado fora do artigo 312, CPP,
abrigado no inciso IV do artigo 313 do mesmo diploma, qual seja, “para garantir a
execução das medidas protetivas de urgência”. Estas, por seu turno, são aquelas
elencadas nos artigos 22 a 24 da Lei 11.340/06105.

O art. 20 da lei prevê ainda que “em qualquer fase do inquérito policial ou da
instrução criminal, caberá a prisão preventiva do agressor, decretada pelo juiz, de
ofício, a requerimento do Ministério Público ou mediante representação da
autoridade policial”, podendo o juiz “revogar a prisão preventiva se, no curso do
processo, verificar a falta de motivo para que subsista, bem como de novo decretá-
la, se sobrevierem razões que a justifiquem”.
A Lei Maria da Penha busca, por meio da prisão preventiva, inibir a prática de
violência contra mulher na unidade familiar, pois, diante de punições mais enérgicas,
visa dirimir, bem como assegurar a ela, maior proteção contra agressões por elas
sofridas.

105CABETE, Eduardo Luiz Santos. Anotações críticas sobre a Lei de Violência Doméstica e Familiar. RFE, Rio
de Janeiro: Editora Revista Forense, v. 385, jul./ago. 2006, p. 614.
52

CONCLUSÃO

O microssistema de proteção à família e à mulher que compõe o conteúdo da


Lei Maria da Penha congrega um conjunto de princípios, diretrizes e regras que
abordam a questão da violência em toda sua complexidade, objetivando
efetivamente resguardar a entidade familiar e assegurar à mulher o direito à sua
integridade física, sexual, psíquica e moral.

A Constituição Federal assegura a igualdade entre os sexos. Assim, toda a


legislação deve ser interpretada de forma a garantir a máxima efetividade à proteção
dos direitos fundamentais e, diante do reconhecimento da violência doméstica como
um problema histórico de desigualdades nas relações de gênero, a lei em questão
deve ser interpretada de forma que se maximize a prevenção à violência doméstica,
evitando quaisquer práticas que indiquem a persistência e a tolerância aos crimes
praticados contra a mulher, em situação de violência doméstica e familiar.

A Lei Maria da Penha ampliou o conceito de violência doméstica desde a


tradicional agressão física até as formas de violência psíquica, sexual, patrimonial e
moral, praticadas no âmbito doméstico ou das relações familiares e afetivas. Fica
clara, portanto, a intenção de criar um sistema judicial próprio para aplicação das
normas mais severas de controle à violência contra a mulher.

As alterações estabelecidas no ordenamento jurídico pelas leis anteriores à


Lei n° 11.340/06 se mostraram insuficientes ante os problemas sociais apresentados
em vista da violência contra a mulher. Todavia, de nada adianta uma legislação
nova, inteiramente fundada em novos princípios e com promissoras diretrizes
político criminais, se a dogmática utilizada pelos agentes atuantes no sistema não
vier, também, acompanhada de uma atualização sobre a visão que se tem do
sistema penal e sua operatividade.
53

Destarte, a violência doméstica contra a mulher demanda a análise de


diferentes questões, uma vez que esse é um fenômeno complexo que envolve uma
multiplicidade de fatores.

Assim sendo, observou-se no decorrer do estudo que a Lei Maria da Penha


deu destaque ao exercício da punição estatal como meio de coibir a reiteração
delitiva; trouxe a aplicação de medidas protetivas que afastassem a necessidade de
segregação e ainda, que concedeu tratamento da problemática da violência com
atendimento especializado não só à vitima, mas também ao agressor, humanizando
o tratamento.

A Lei Maria da Penha foi criada especificamente para prevenir, frear e


erradicar a violência contra as mulheres. Infelizmente, a agressão de todos os
gêneros contra a mulher brasileira continua com a mesma invisibilidade de antes,
tratada como se fosse um problema doméstico que deva ser resolvido apenas pelos
envolvidos.

Assim, é fundamental a participação do Estado para que, em parceria com a


sociedade, e todas as organizações que formam um Estado Democrático de Direito,
o quanto antes, se criem e se estruturem eficazes redes de atendimento
multidisciplinar às vítimas de violência doméstica.

Importante que se tenha em mente que a violência aqui tratada não é caso de
intervenção na vida privada alheia, mas intervenção no sentido de interesse público,
com a adjudicação de meios para tornar uma sociedade melhor, já que os agentes
estão inseridos na mesma sociedade.
54

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