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Chomsky no Brasil: Linguística e Reflexões

Este número especial da D.E.L.T.A. é dedicado à visita de Noam Chomsky ao Brasil, onde ele discutiu temas relacionados à linguística e suas interconexões com outras áreas do conhecimento. O volume reúne conferências, perguntas e respostas, e uma entrevista, destacando a importância da teoria gerativa e a abordagem crítica de Chomsky em relação à ciência e à educação. A publicação é resultado do esforço colaborativo de várias instituições e promete enriquecer o ensino e a pesquisa em linguística.

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miriam.oliveira
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Chomsky no Brasil: Linguística e Reflexões

Este número especial da D.E.L.T.A. é dedicado à visita de Noam Chomsky ao Brasil, onde ele discutiu temas relacionados à linguística e suas interconexões com outras áreas do conhecimento. O volume reúne conferências, perguntas e respostas, e uma entrevista, destacando a importância da teoria gerativa e a abordagem crítica de Chomsky em relação à ciência e à educação. A publicação é resultado do esforço colaborativo de várias instituições e promete enriquecer o ensino e a pesquisa em linguística.

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada - <b>APRESENTAÇÃO</b>

DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e


Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997


Como citar
este artigo

APRESENTAÇÃO

Este número especial é dedicado à visita ao Brasil do Professor Noam Chomsky, do M.I.T.,
um dos cientistas mais controvertidos e respeitados na área das Ciências Humanas, cujo
trabalho encontra ressonância em outras áreas do conhecimento como a Biologia, as Ciências
da Computação, a psicologia, a neurologia e a filosofia. Igualmente conhecido é seu trabalho
na áreas das ciências políticas, cujo foco é sempre contra qualquer forma de opressão e de
autoritarismo. Sua visita atende ao convite das duas áreas, mas este volume contém apenas
suas atividades ligadas à Lingüística.

É também uma grande fonte de alegria ver, como fruto democrático e duradouro, este volume
da D.E.L.T.A. Estão nele reunidas as conferências feitas no Rio/Belém e em São Paulo, as
perguntas e respostas que se seguiram às conferências nessas cidades, e a entrevista dada em
Maceió. Esta D.E.L.T.A. foi possível graças ao esforço cooperativo dos grupos que
hospedaram Chomsky nessas cidades em sua visita ao Brasil, entre 17 de novembro e 4 de
dezembro de 1996.

Cada texto e cada resposta nutre a compreensão das linhas essenciais do sistema da
linguagem, dos outros sistemas mentais que a cercam, de como esses sistemas se
interconectam e de como transcorreu na história das idéia o tratamento dessas matérias. Cada
texto nos dá uma janela sobre como Chomsky está avaliando posturas teóricas, convergências
inter-disciplinares e empreendimentos explicativos, mostrando-nos mais uma vez sua
acuidade crítica e coerência de sempre. Algumas das respostas a perguntas podem ser
consideradas antológicas, e deixamos ao prazer de leitor de cada um a tranquilidade do
julgamento intocado. Adiantamos que a conferência do Rio de Janeiro/Belém foi
experimentada por Myriam Lemle, com resultados muito satisfatórios, como fio condutor para
um curso introdutório de gramática gerativa, o que aponta para um uso efetivo na formação
pós-graduada.

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada - <b>APRESENTAÇÃO</b>

A conferência de São Paulo contém um testemunho pessoal muito intrigante de como a


história da Lingüística ocorreu, afetada pela pressão das tendências intelectuais
predominantes, com condutas acadêmicas que não podem ser atribuídas a convicções teóricas
sinceras de seus praticantes, mas sim a pressões de naturezas outras. Faz-nos pensar sobre até
que ponto se repetem, em outros lugares e outros momentos, cisões semelhantes.

Nas sessões de perguntas e na entrevista de Maceió os inquiridores conseguiram provocar uma


avalanche de posicionamentos radicais e vibrantes, lúcidos e agudos como sempre impossíveis
de ler sem sentir aquela vontade intensa de participar da discussão das idéias. Por algumas
respostas dadas em entrevistas, observa-se que suas duas áreas de atuação se refletem em sua
forma de fazer ciência e de educar cientistas, pois, para ele, fazer ciência é questionar
autoridades e aprender é duvidar do conhecimento estabelecido. O que mais surpreende em
seus textos e sua fala, ainda, é o questionamento de suas próprias assunções, afirmando que
elas podem estar totalmente erradas. Dessa postura resulta sua humildade em partilhar com
colegas e alunos não apenas as perguntas e questionamentos, mas também o incrível sucesso
da teoria gerativa, em cujo bojo tem sido descritas línguas do mundo inteiro, inclusive o
português do Brasil e línguas indígenas brasileiras. Em nenhuma teoria existente tem-se um
banco de tantas línguas descritas na mesma meta-linguagem.

A leitura deste volume, mesmo para quem não faz gerativa, será uma lição de como fazer
ciência em geral e em nossa área em particular. Temos certeza que esta D.E.L.T.A. vai render
muitas aulas de graduação e pós, e muita discussão em todos os níveis do ensino da
Lingüística e da pesquisa.

A publicação deste número especial se deve ao esforço conjunto da ABRALIN e da


D.E.L.T.A. e de todos que hospedaram o Professor Chomsky. Os signatários desta agradecem
ainda ao CNPq e às demais instituições que possibiblitaram a visita do Professor Chomsky e a
todos os que armados de entusiasmo e muita simpatia, entraram em cheio neste esforço
coletivo, que tornou possíveis estes momentos seminais (e possibilitaram a edição dos textos
que integram esta publicação conjunta) que tanto renderam e vão render mais ainda, nas mãos
de todos os que lerem esta D.E.L.T.A.

Resta agradecer ainda uma vez, e acima de tudo ao mestre que acabou virando amigo por ter
nos dedicado esses dias super carregados de atividades, por ter tido uma paciência enorme no
longo trato dos múltiplos acertos que foram necessários para a excursão densa dar certo em
todos os detalhes, e ainda por seu oferecimento para publicar os textos inéditos neste número
especial.

Boa viagem na leitura.

Pelos anfitriãos: Miriam Lemle


Pela Abralin: Maria Denilda Moura
Pela D.E.L.T.A.: Leila Barbara

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada - <b>APRESENTAÇÃO</b>

PRESENTATION

This special issue of D.E.L.T.A. is devoted to the visit to Brazil by Prof. Noam Chomsky of
the M.I.T. who is one of the most controversial and esteemed scholars in the field of the
human sciences and whose work has had an immense impact on other areas of knowledge
such as biology, computational science, psychology, neurology, and philosophy. Also widely
known is his work in the field of political science, where he has targeted any and every form
of oppression and authoritarianism. Chomsky's visit to Brazil covered both these areas, though
the present issue presents only the transcriptions of those of his talks that addressed issues in
linguistics.

It is also gratifying to present this issue of the journal as a volume produced in the best spirit
of democracy and with enduring results. It contains the written versions of talks given at
Rio/Belém and São Paulo, together with the questions and answers that followed these talks,
as well as a tête-à-tête conceded at Maceió. The publication of this special number was
possible thanks to the cooperative spirit of the groups that took care of the arrangements each
of these cities during Chomsky's sojourn in Brazil between November 17th and December 4th,
1996.

Each of the texts and answers to questions contributes to the comprehension of the essential
characteristics of the system of language, as well as the other neighbouring mental system and
also how these various systems happen to be interconnected and finally how all these
questions have been historically handled. Each text opens a window on how Chomsky
evaluates the different theoretical perspectives, evidencing once again his sharply critical
acumen and characteristic internal coherence. Some of the answers to questions may be
considered anthological and we leave it to the readers to make their own calm and considered
judgments at their own pace and pleasure. We do wish to register, though, that the text of the
talks given at Rio/Belém were put to test by Miriam Lemle, with highly satisfactory results, as
part of an introductory course in generative grammar, and this clearly points to its possible use
in post-graduates programmes elsewhere.

The talk given at São Paulo contains a fascinating personal account of recent history of
linguistics, submitted as it was to the pressures of dominant intellectual tendencies, often
marked by academic reactions that can by no means be attributed to the sincere theoretical
convictions of those who claim to subscribe to them, but rather to pressures of an occult and
non-descript nature. It makes us wonder to what extent such rifts may not turn out to be a
familiar pattern in other contexts and moments.

In the question-answer sessions at Maceió, the interviewers were successful in drawing forth
an avalanche of theoretical positionings - at once radical, vibrant, clear and sharp - of the sort
that one can ill afford to read without having to contain first the intense wish to participate in
the ongoing discussion. In the case of some of the answers, the two major interests of
Chomsky are reflected in the twin questions of doing scientific research and training future

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scientists, for, from his point of view, to do scientific research is to question the authorities
and to learn to doubt established knowledge. What is even more intriguing in his texts and in
his talks is the will to question his own assumptions, and his claims to the effect that they may
well be wrong outright. It is in this posture that one may detect the roots of Chomsky's
characteristic modesty when it comes to sharing with his colleagues and students not just the
questions and the answers to them, but also the enormous success of the generative theory,
upon whose premisses are currently being described languages from all over the world,
including Brazilian Portuguese as well as many native Brazilian Indian languages. No other
theory today can boast such a wealth of languages described by means of the same
metalanguage.

The readers of the volume, irrespective of whether they work under the generative paradigm,
will certainly learn a lot about how to do science in general and in our field in particular. We
are confident that this special issue of D.E.L.T.A. will find its way to many undergraduate and
pos-graduate classrooms and stir a lot of fruitful discussion at all levels of teaching and
research in linguistics.

The publication of this issue was made possible thanks to the combined effort of the
ABRALIN (Brazilian Association of Linguistics) and D.E.L.T.A., as well as all those who
hosted Prof. Chomsky in the different parts of the country. We also wish to thank the CNPq
(The National Council for Research and Development) and other local funding agencies that
financed Chomsky's visit and all those who, armed with enthusiasm and goodwill, rolled up
their sleeves and contributed to the collective effort that resulted in those wonderful moments
(as well as this joint publication of the texts that appear in this volume) that inspired so many
and will certainly inspire many more who happen to lay their hands on the present number.

It remains to thank once again, and, no doubt, on top of everything else, the great Teacher who
ended up becoming a Pal for having taken these few days off his busy schedule, for having
had the enormous patience along the protracted negotiations before finally settling on the
dense programme of activities, and finally, his generous permission to publish the texts in this
special issue.

Enjoy your journey.

Pelos anfitriãos: Miriam Lemle


Pela Abralin: Maria Denilda Moura
Pela D.E.L.T.A.: Leila Barbara

© 2002 DELTA

PUC-SP - Departamento de Lingüística

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Rua Monte Alegre, 984


05014-001 São Paulo SP - Brazil
Tel.: (55 11) 3864-4409
Fax: (55 11) 3862-5840

delta@[Link]

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada - <b>Novos Horizontes no Estudo da Linguagem</b>

DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e


Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997 Como citar


este artigo

Novos Horizontes no Estudo da Linguagem* **

Noam CHOMSKY

O estudo da linguagem é um dos ramos mais antigos de investigação sistemática, com marcos
que rastreamos na antigüidade clássica da Índia e da Grécia, e uma história rica em
realizações. A partir de outro ângulo, esse estudo é novo. Os principais empreendimentos da
pesquisa de hoje em dia tomaram forma apenas há cerca de 40 anos, quando algumas das
idéias mestre da tradição foram revitalizadas e reconstruídas, abrindo caminho ao que provou
ser uma linha de investigação grandemente produtiva.

Não surpreende que tamanho fascínio viesse a ser exercido pela linguagem ao longo dos anos.
A faculdade humana de linguagem parece ser uma verdadeira "propriedade da espécie",
variando pouco de indivíduo a indivíduo e sem , em outra parte, nada de análogo que seja
significativo. Provavelmente os fenômenos análogos mais significativos são encontrados nos
insetos, um bilhão de anos distantes na evolução. Não há hoje nenhuma boa razão para
desafiar a visão cartesiana de que a habilidade para fazer uso de signos lingüísticos para
expressar pensamentos formados livremente marque "a verdadeira distinção entre o homem e
o animal" ou a máquina, quer entendamos por "máquina" os autômatos que fascinaram
imaginações nos séculos 17 e 18, quer os que estão estimulando o pensamento e a imaginação
em nossos dias.

Além de tudo isso, a faculdade da linguagem tem papel crucial em todos os aspectos da vida,

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do pensamento e da interação humana. Ela é em grande parte responsável pelo fato de que no
mundo biológico somente os seres humanos têm uma história, uma evolução cultural e uma
diversidade algo complexa e rica, e também pelo sucesso biológico no sentido técnico de que
a população humana é numerosa.

Um cientista de Marte observando as estranhas ações aqui na Terra dificilmente deixaria de


ficar impressionado com a emergência e a significação dessa forma de organização intelectual
aparentemente única. Mais natural ainda é que o tema, com seus muitos mistérios, tivesse
estimulado a curiosidade daqueles que procuram compreender sua própria natureza e seu lugar
no conjunto maior das coisas do mundo.

A linguagem humana está baseada numa propriedade elementar que parece também ela ser
biologicamente isolada: a propriedade da infinitude discreta, que em sua forma mais pura é
exibida pelos números naturais 1, 2, 3,... As crianças não apreendem esta propriedade; se a
mente não possuísse já de antemão os princípios básicos, não haveria quantidade de evidência
capaz de provê-los. Do mesmo modo, nenhuma criança precisa aprender que existem frases
com três palavras e frases com quatro palavras mas não com três palavras e meia, e que esse
número pode ir aumentando sem ter fim; é sempre possível construir uma frase mais
complexa, com uma forma e um sentido definidos. Tal conhecimento nos chega
necessariamente "originário da mão da natureza, " nas palavras de David Hume, como parte
da nossa dotação biológica.

Esta propriedade intrigou Galileu, que considerava a descoberta de um meio de comunicar


"nossos pensamentos mais secretos a outra pessoa com 24 diminutos caracteres" como a maior
de todas as invenções humanas. A invenção destes caracteres é bem sucedida porque reflete a
infinitude discreta da linguagem que é representada fazendo uso deles. Poucos anos mais
tarde, os autores da gramática de Port Royal ficaram impressionados com a "maravilhosa
invenção" de um meio de construir a partir de umas poucas dúzias de sons uma infinidade de
expressões que nos tornam capazes de revelar a outras pessoas o que pensamos e imaginamos
e sentimos ---- em visão contemporânea, não uma "invenção" mas não menos maravilhoso
como produto da evolução biológica, sobre a qual virtualmente nada se sabe, neste caso.

A faculdade de linguagem pode razoavelmente ser considerada como "um órgão lingüístico"
no mesmo sentido em que na ciência se fala, como órgãos do corpo, em sistema visual ou
sistema imunológico ou sistema circulatório. Compreendido deste modo, um órgão não é
alguma coisa que possa ser removida do corpo deixando intacto todo o resto. Um órgão é um
subsistema que é parte de uma estrutura mais complexa.

Nós temos a esperança de compreender a complexidade do todo em sua plenitude através da


investigação das partes que têm características distintivas, e das interações entre elas. Do
mesmo modo procede o estudo da faculdade de linguagem.

Assumimos ainda que o órgão da linguagem é como outros órgãos no sentido de que seu
caráter fundamental é uma expressão dos gens. De que maneira se dá isto é uma pergunta que
permanece sendo um projeto de investigação a longo prazo, porém, por outros meios,

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podemos investigar o "estado inicial" geneticamente determinado. Evidentemente, cada língua


é o resultado da interação de dois fatores: o estado inicial e o curso da experiência. Podemos
conceber o estado inicial como um "mecanismo de aquisição de linguagem" que recebe como
dados de entrada (input) a experiência, e fornece como saída (output) a língua --- saída esta
que constitui um objeto internamente representado na mente/cérebro. Tanto a entrada quanto a
saída estão à nossa disposição para serem examinadas: podemos estudar o transcorrer da
experiência e podemos estudar as propriedades das línguas que são adquiridas. O que
aprendemos assim fazendo pode nos dizer muita coisa a respeito do estado inicial,
intermediário entre a entrada dos dados e a língua pronta. Mais ainda, há muita razão para crer
que o estado inicial é comum no âmbito da espécie: se meus filhos tivessem sido criados em
Tokyo, eles falariam japonês, tal como todas as crianças de lá. Isto significa que evidências da
língua japonesa têm aporte direto sobre assunções feitas com respeito ao estado inicial para o
inglês. Por estes caminhos, é possível estabelecer condições empíricas fortes a serem
satisfeitas pela teoria do estado inicial, e também é possível propor vários problemas para a
biologia da linguagem: De que modo os genes determinam o estado inicial, e quais são os
mecanismos envolvidos nesse estado inicial do cérebro e nos estados que ele assume mais
tarde? Estes são problemas muito árduos, até para sistemas muito mais simples que permitem
a experimentação direta, mas mesmo assim é possível que alguns estejam dentro do alcance
das fronteiras da investigação.

Para poder prosseguir, deveríamos colocar com maior clareza o que entendemos por "uma
língua". Tem havido muita controvérsia apaixonada a respeito da resposta correta para esta
pergunta, e, de maneira mais geral, para a pergunta sobre como deveriam ser estudadas as
línguas. A controvérsia não tem razão de ser, porque a resposta correta não existe. Se tivermos
interesse em compreender como se comunicam as abelhas, tentaremos apreender algo sobre a
natureza interna das abelhas, suas organizações sociais, e seu meio ambiente físico. Estas
abordagens não são conflitantes; são reciprocamente comprovantes. O mesmo se dá com o
estudo da linguagem humana: pode ser investigado de um ponto de vista biológico, e de
inúmeros outros: o sócio-lingüístico, o de língua e cultura, o histórico e assim por diante. Cada
uma dessas abordagens define o objeto de sua investigação sob a luz de seus próprios
interesses; e, se for racional, cada uma tentará apreender o que puder do que vem das outras
abordagens. Por que razão estas são matérias que despertam muita paixão no estudo dos seres
humanos seja talvez uma pergunta interessante, mas por ora vou pô-la de lado.

A abordagem que estive delineando se interessa pela faculdade de linguagem: seu estado
inicial, e os estados que ela assume. Suponha que o órgão de linguagem de Pedro se encontra
no estado L. Podemos conceber L como a "língua internalizada" de Pedro. Quando aqui falo
de uma língua, isto é o que tenho em mente. Compreendida assim, uma língua é algo como
"nosso modo de falar e de compreender", uma concepção de linguagem que tem tradição.

Adaptando um termo tradicional a um novo arcabouço, chamamos a teoria da língua de Pedro


de "gramática" da sua língua. A língua de Pedro determina um conjunto de expressões
infinito, cada uma com seu som e sua significação. Em terminologia técnica, a língua de Pedro
"gera" as expressões da sua língua. Por isso, a teoria da língua dele é chamada de gramática
gerativa. Cada expressão é um pacote de propriedades, que proporcionam "instruções" aos
sistemas de desempenho de Pedro: seu aparelho articulatório, seus modos de organizar seus

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pensamentos, e assim por diante. Com sua língua e seus sistemas de desempenho associados
devidamente instalados, Pedro possui um vasto acervo de conhecimento sobre o som e o
sentido de expressões, e uma capacidade correspondente de para interpretar aquilo que ouve,
expressar seus pensamentos e utilizar a sua língua de outras várias formas.

A gramática gerativa teve origem no contexto do que muitas vezes é chamado de "a revolução
cognitiva" dos anos 50, e foi um fator importante no desenvolvimento dela. Seja ou não
apropriado o termo "revolução", aconteceu uma mudança de perspectiva importante: do
estudo do comportamento e seus "produtos " ( textos, por exemplo) para os mecanismos
internos que entram em jogo no pensamento e na ação.

A perspectiva cognitiva considera o comportamento e seus produtos não como o próprio


objeto da investigação mas como dados que podem proporcionar evidências sobre os
mecanismos interiores da mente e sobre as formas com que esses mecanismos operam ao
executar ações e interpretar experiência. As propriedades e padrões que eram o foco de
atenção na lingüística estrutural têm seu lugar nesta abordagem, mas como fenômenos a serem
explicados, juntamente com muitos outros, em termos dos mecanismos internos que geram
expressões. É uma abordagem "mentalista", mas mentalista num sentido que deveria ser não
controvertido. Ela se importa com "aspectos mentais do mundo", que ficam lado a lado com
os aspectos mecânicos, químicos, óticos e outros. Ela se propõe a estudar um objeto real no
mundo natural --- o cérebro, seus estados e funções -- e assim levar o estudo da mente para
uma eventual integração com as ciências biológicas.

A "revolução cognitiva" renovou e deu forma nova a muitos dos insights, realizações e
divagações do que poderíamos chamar de "a primeira revolução cognitiva" dos séculos 17 e
18, que foi parte da revolução científica que modificou tão radicalmente nosso entendimento
do mundo. Foi visto naquela época que a linguagem envolve "o uso infinito de meios finitos",
na expressão de von Humboldt; porém só foi possível desenvolver esse insight de maneira
muito limitada, porque as idéias básicas permaneciam vagas e obscuras. Nos meados do
século 20, os avanços nas ciências formais haviam fornecido conceitos apropriados em forma
bem precisa e clara, tornando possível dar conta com precisão dos princípios computacionais
que geram as expressões de uma língua e capturar com isso, ao menos em parte, a idéia do
"uso infinito de meios finitos". Outros avanços também abriram caminho para a investigação
de questões tradicionais com mais esperança de sucesso. O estudo da mudança lingüística
havia registrado realizações muito importantes. A lingüística antropológica trazia uma
compreensão muito mais rica da natureza e variedade das línguas, também minando
numerosos estereótipos. E certos tópicos, especialmente o estudo dos sistemas fonológicos,
tinham dado um bom avanço dentro da lingüística estrutural do século 20.

Os primeiros esforços para colocar em prática o programa da gramática gerativa revelou sem
demora que mesmo nas línguas mais bem estudadas propriedades elementares haviam passado
sem reconhecimento explícito, e que as gramáticas e dicionários tradicionais mais abrangentes
apenas tocam a superfície.

As propriedades básicas das línguas são invariavelmente pressupostas, passam sem

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reconhecimento e não vêm expressas. Fazer isso é perfeitamente apropriado se o objetivo é


ajudar pessoas a apreender uma segunda língua, a descobrir qual é o sentido convencionado e
a pronúncia de palavras, ou a ter uma idéia geral de como diferem as línguas. Porém se nossa
meta é compreender a faculdade de linguagem e os estados que ela assume, não podemos
pressupor tacitamente "a inteligência do leitor". Antes, é este o objeto da pesquisa.

O estudo da aquisição de língua leva à mesma conclusão. Um olhar cuidadoso sobre a


interpretação de expressões revela bem rapidamente que desde os primeiros estágios a criança
sabe muito mais do que lhe foi fornecido pela experiência. Isto é uma verdade até mesmo para
palavras simples. Nos momentos de pico do crescimento da língua, uma criança está
adquirindo palavras numa velocidade aproximada de uma por hora, com exposição
extremamente limitada e em condições grandemente ambíguas. As palavras são
compreendidas de modos sutís e intricados que vão muito além do alcance de qualquer
dicionário, e que estão apenas começando a ser investigados. Quando vamos além das
palavras isoladas, a conclusão se torna ainda mais dramática. A aquisição de língua é bem
semelhante ao crescimento de órgãos de maneira geral; é uma coisa que acontece com a
criança, e não uma coisa que ela faz. E embora basicamente o meio-ambiente importe, o curso
geral do desenvolvimento e os traços essenciais daquilo que emerge são pre-determinados
pelo estado inicial. Mas o estado inicial é uma posse comum a todos os homens. É necessário,
então, admitir que em suas propriedades essenciais e mesmo até o mínimo detalhe as línguas
são moldadas na mesma fôrma. O cientista de Marte poderia arrazoadamente concluir que
existe uma só língua humana, com diferenças apenas pelas margens.

Na prática de nossa vida, o que importa são as pequenas diferenças, e não as semelhanças
abrangentes, que nós inconscientemente tomamos como certas. Mas se desejamos
compreender que tipo de criatura somos, devemos adotar uma postura bem diferente,
basicamente a de um Marciano estudando seres humanos. Este é, de fato, o ponto de vista que
adotamos quando estudamos outros organismos, ou os próprios seres humanos afora os
aspectos mentais -- humanos "do pescoço para baixo", metaforicamente falando. É
inteiramente razoável estudar da mesma maneira o que fica do pescoço para cima.

À medida que muitas línguas foram investigadas com cuidado a partir do ponto de vista da
gramática gerativa, ficou claro que tinham sido radicalmente sub-estimados, em igual medida,
sua diversidade, sua complexidade e o grau em que são determinadas pelo estado inicial da
faculdade de linguagem. Ao mesmo tempo, sabemos que a diversidade e complexidade não
podem ser mais que mera aparência superficial.

Estas foram conclusões surpreendentes, paradoxais porém inegáveis. Elas colocam de forma
contundente aquele que veio a se tornar o problema central do estudo moderno da linguagem:
Como podemos mostrar que todas as línguas são variações sobre um mesmo tema, e também,
ao mesmo tempo, registrar fielmente suas propriedades intricadas de som e sentido,
superficialmente diversas? Uma teoria genuína da linguagem humana precisa satisfazer duas
condições: "adequação descritiva" e "adequação explicativa". A gramática de uma língua
particular satisfaz a condição de adequação descritiva na medida em que oferece uma
descrição completa e minuciosa das propriedades da língua, ou seja, daquilo que o falante
dessa língua sabe. Para satisfazer as condições de adequação explicativa, uma teoria de língua

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deve mostrar como cada língua particular pode ser derivada de um estado inicial uniforme sob
as "condições-limite" impostas pela experiência. Deste modo, ela fornece explicação para as
propriedades das línguas em um nível mais profundo.

Há considerável tensão entre estas duas tarefas da pesquisa. A busca da adequação descritiva
parece conduzir à crescente complexidade e variedade dos sistemas de regras, enquanto a
busca da adequação explicativa requer que a estrutura das línguas seja invariante, exceto nas
partes marginais. Foi esta tensão que em grande parte deu a guia para a pesquisa. A maneira
natural de resolver a tensão é desafiar a idéia que a tradição assumia e que foi tomada pela
gramática gerativa na sua fase inicial, de que uma língua é um sistema complexo de regras, e
cada regra é específica de línguas particulares e construções gramaticais particulares: regras
para formar orações relativas em hindi, sintagmas verbais em banto, passivas em japonês, e
assim por diante. Considerando a adequação explicativa, tem-se a indicação de que isto não
pode estar certo.

O problema central era encontrar propriedades gerais de sistemas de regras que pudessem ser
atribuídas à própria faculdade de linguagem, na esperança de que o resíduo viesse a se mostrar
mais simples e uniforme.

Cerca de 15 anos atrás, estes esforços se cristalizaram numa abordagem à linguagem que foi
um afastamento muito mais radical em relação à tradição do que havia sido a gramática
gerativa da primeira fase. Esta abordagem, que veio a ser chamada de "Princípios e
Parâmetros", rejeitou por completo o conceito de regra e de construção gramatical: não há
regras para a formação de orações relativas em hindi, sintagmas verbais em banto, passivas
em japonês, e assim por diante. As construções gramaticais familiares são tomadas como
artefatos taxionômicos apenas, talvez úteis para a descrição informal, porém destituídas de
valor teórico. Elas têm um status de algum modo semelhante ao de " mamífero terrestre" ou
"bichinho de estimação". E as regras são decompostas em princípios gerais da faculdade de
linguagem, que interagem tendo como resultado as propriedades das expressões.

Podemos comparar o estado inicial da faculdade de linguagem com uma fiação fixa conectada
a uma caixa de interruptores; a fiação são os princípios da linguagem, e os interruptores são as
opções a serem determinadas pela experiência. Quando os interruptores estão posicionados de
um modo, temos o banto; quando estão posicionados de outro modo, temos o japonês. Cada
uma das línguas humanas possíveis é identificada como uma colocação particular das tomadas
-- uma fixação de parâmetros, em terminologia técnica. Se o programa de pesquisa der certo,
deveríamos poder literalmente deduzir o banto de uma escolha dos posicionamentos, o
japonês de outra e assim por diante em todas as línguas que os seres humanos podem adquirir.
As condições empíricas em que se dá a aquisição de língua requerem que os interruptores
sejam posicionados com base na informação muito limitada que está disponível para a criança.
Notem que pequenas mudanças em posicionamento de interruptores podem conduzir a grande
variedade aparente em termos de output, pela proliferação dos efeitos pelo sistema. Estas são
as propriedades gerais da linguagem que qualquer teoria genuína precisa captar de algum
modo.

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Evidentemente, este é um programa, e não ainda um produto pronto. As conclusões que


tentativamente alcançamos não sobreviverão em sua forma atual, provavelmente; e é
desnecessário dizer que não se pode garantir que toda a abordagem esteja no caminho certo.
Como programa de pesquisa, porém, tem sido muito bem sucedido, conduzindo a uma
verdadeira explosão de pesquisa empírica em línguas de um amplo leque tipológico, a novas
perguntas que nunca poderiam ter sido sequer colocadas antes, e a muitas respostas
intrigantes. Questões de aquisição, processamento, patologia, e outras também tomaram novas
formas, que se provaram também muito produtivas. Além disso tudo, seja o seu destino qual
for, o programa sugere como a teoria da linguagem poderia satisfazer as condições
conflitantes de adequação descritiva e explicativa. Ele dá pelo menos um esquema de uma
teoria da linguagem genuína, realmente pela primeira vez.

Neste programa de pesquisa, a tarefa principal é descobrir e esclarecer os princípios e


parâmetros e a forma de sua interação, e estender o arcabouço para incluir outros aspectos da
língua e seu uso. Enquanto ainda há uma grande área obscura, houve progresso bastante para
ao menos considerar, e talvez desenvolver, algumas questões novas e de maior alcance sobre o
design da linguagem. Em particular, podemos indagar em que medida o design é bom. Em que
medida a linguagem se aproxima do que um super-engenheiro construiria, dadas as condições
que a faculdade de linguagem precisa satisfazer?

As perguntas necessitam ser aguçadas, e há meios para seguir adiante. A faculdade da


linguagem se encaixa dentro da arquitetura maior da mente/cérebro. Ela interage com outros
sistemas, que impõem condições que a linguagem deve satisfazer se for para ser de todo
usável. Estas poderiam ser pensadas como "condições de legibilidade", no sentido que outros
sistemas precisam ser capazes de "ler" as expressões da língua e delas fazer uso para o
pensamento e a ação. Os sistemas sensório -motores, por exemplo, precisam ser capazes de ler
as instruções que têm a ver com som, as "representações fonéticas" geradas pela língua. O
aparelho articulatório e o perceptual têm um design específico que lhes permite interpretar
certas propriedades fonéticas, e não outras. Estes sistemas, portanto, impõem condições de
legibilidade aos procedimentos gerativos da faculdade lingüística, que precisam oferecer
expressões com forma fonética apropriada. A mesma coisa se dá com os sistemas conceptuais
e outros sistemas que fazem uso dos recursos da faculdade lingüística: eles têm suas
propriedades intrínsecas, que exigem que as expressões geradas pela língua tenham
"representações semânticas" de certo tipo, e não de outro tipo. Conseqüentemente, podemos
perguntar até que ponto a linguagem é uma "boa solução" para as condições de legibilidade
impostas pelos sistemas externos com os quais ela interage. Até bem recentemente, esta
questão não poderia ser colocada de forma séria, e nem mesmo formulada de forma sensata.
Agora isto parece ser possível, e há até mesmo indicações de que a faculdade lingüística possa
ser próxima do "perfeito" neste sentido, uma conclusão, que se for verdadeira é surpreendente.

Aquilo que veio a ser chamado de "programa minimalista" é um esforço para explorar estas
questões. É cedo demais para oferecer um juízo seguro sobre o projeto. Segundo meu juízo
pessoal, as perguntas podem atualmente ser agendadas de maneira proveitosa, e os primeiros
resultados são promissores. Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre as idéias e as
expectativas do programa, e voltar em seguida para alguns problemas que continuam na
distância do horizonte.

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O programa minimalista requer que reanalisemos de forma crítica o que convencionalmente se


assume. A mais venerável dentre estas assunções é que a língua possui som e significado. Em
termos correntes, isto se traduz de modo natural na tese de que a faculdade de linguagem
coloca em função outros sistemas da mente/cérebro em dois "níveis de interface", um
relacionado ao som, o outro ao sentido. Uma expressão qualquer gerada pela língua contém
uma representação fonética que pode ser lida pelos sistemas sensório-motores, e uma
representação semântica que é legível para sistemas conceptuais e outros sistemas de
pensamento e ação.

Se isto estiver correto, cabe-nos perguntar em seguida onde exatamente a interface se localiza.
Do lado do som, é preciso determinar em que medida, se for este o caso, os sistemas sensório-
motores têm especialização para linguagem, sendo neste caso internos à faculdade de
linguagem; uma boa dose de discordância cerca o assunto. Do lado do sentido, as perguntas se
dirigem à relação entre a faculdade de linguagem e outros sistemas cognitivos -- a relação
entre a linguagem e o pensamento. Do lado do som, as questões têm sido estudadas de modo
intensivo com tecnologia sofisticada por meio século, mas os problemas são árduos, e a
compreensão continua sendo limitada. Do lado do sentido, as perguntas são muito mais
obscuras. Sabe-se muito menos a respeito dos sistemas externos à linguagem; da evidência
que se tem sobre eles, grande parte é vinculada à linguagem de maneira tão íntima que fica
reconhecidamente difícil determinar quando ela tem a ver com linguagem e quando com
outros sistemas (na medida em que a distinção existe) . E a investigação direta de tipo
semelhante à que se pode fazer com os sistemas sensório-motores ainda engatinha. Ainda
assim, existe uma imensa quantidade de dados sobre como se empregam e se compreendem
expressões em determinadas circunstâncias, o suficiente para permitir que a semântica das
línguas naturais seja uma das áreas de maior vivacidade no estudo da linguagem, e o
suficiente para que possamos fazer pelo menos algumas conjeturas plausíveis sobre a natureza
do nível de interface e sobre as condições de legibilidade que ele precisa satisfazer.

Assumindo tentativamente alguma coisa sobre a interface, podemos prosseguir para perguntas
subseqüentes. Perguntamos que proporção daquilo que estamos atribuindo à faculdade de
linguagem é motivada realmente por evidência empírica, e que proporção é uma espécie de
tecnologia, adotada com o intuito de apresentar os dados de maneira conveniente porém
encobrindo falhas de compreensão. Com certa freqüência, relatos oferecidos em trabalhos
técnicos demonstram-se ao exame como sendo da mesma ordem de complexidade que aquilo
que se está querendo explicar, e envolvem assunções que não têm, independentemente, muito
boa fundamentação. Isto não constitui por si só um problema, contanto que não fiquemos
desorientados pensando que descrições úteis e informativas, que podem servir de degrau para
o prosseguimento da investigação, sejam mais do que exatamente isto.

Questões como estas são sempre apropriadas em princípio, mas freqüentemente na atividade
prática é inútil colocá-las; podem ser prematuras, por ser o entendimento simplesmente
demasiado limitado. Mesmo nas ciências exatas, e de fato até na matemática, questões desta
natureza foram postas muitas vezes de lado. Mas as questões são reais, apesar de tudo, e se
tivéssemos em mãos um conceito mais plausível do caráter geral da linguagem, poderia talvez
valer a pena explorá-las.

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Voltemo-nos para a questão da optimalidade do design da língua: Que medida de excelência


tem a linguagem como solução para as condições gerais impostas pela arquitetura da
mente/cérebro? Esta também poderia ser uma pergunta prematura, mas ao contrário do
problema de distinguir entre assunções feitas com base em princípios e tecnologia descritiva,
esta poderia ser uma pergunta sem qualquer resposta. Não há razão forte para acreditarmos
que um sistema biológico devesse possuir um design excelente no sentido estrito da
expressão. Na medida em que essa excelência existe, causa-nos surpresa essa conclusão, que é
portanto uma conclusão interessante, talvez mais um aspecto curioso da faculdade de
linguagem, que a coloca muito à parte no universo biológico.

Apesar da aparente implausibilidade inicial, vamos assumir tentativamente que ambas estas
perguntas sejam apropriadas, na prática também em princípio. Procedemos agora sujeitando
princípios lingüísticos anteriormente postulados a uma reanálise crítica para verificar se eles
encontram justificativa empírica quando pensamos em termos de condições de legibilidade.
Farei menção de uns poucos exemplos, desculpando-me de antemão por fazer uso de alguma
terminologia técnica, que tentarei restringir ao mínimo, mas que não disponho aqui de tempo
para explicar de alguma maneira satisfatória.

A primeira pergunta é se existem outros níveis além dos níveis das interfaces: há níveis no
interior da língua e, especificamente, os níveis de estrutura profunda e estrutura de superfície,
conforme postulados em trabalho dos últimos anos? O programa minimalista tenta mostrar
que todos os fatos que vieram sendo tratados em termos destes níveis foram descritos mal, e
podem ser igualmente bem ou melhor compreendidos em termos de condições de legibilidade
na interface: para os leitores que conhecem a literatura técnica, o que está sendo posto em
questão é o princípio de projeção, a teoria da ligação, a teoria do caso, a condição de formação
de cadeia, e assim por diante.

Tentamos também mostrar que as únicas operações computacionais são as que não se podem
evitar se forem acatadas as assunções mais fracas a respeito das propriedades das interfaces.
Uma assunção da qual ninguém pode escapar é a de que existem unidades do tipo palavra: os
sistemas exteriores precisam ser capazes de interpretar elementos como "Pedro" e "alto".
Outra assunção é que estes elementos ficam organizados em expressões maiores, como em
"Pedro é alto". Ainda outra é a de que estes elementos possuem propriedades de som e de
significado: A palavra "Pedro" começa com oclusão labial e é empregada para fazer referência
a pessoas. A língua envolve, portanto, três espécies de elementos: as propriedades de som e
significado, denominadas "traços"; os elementos que são montados a partir dessas
propriedades, denominados "unidades lexicais", e as expressões complexas construídas a
partir dessas unidades "atômicas". Disto se segue que o sistema computacional que gera
expressões possui duas operações básicas: uma ajunta traços montando itens lexicais, e a
segunda, começando com os itens lexicais, compõe objetos sintáticos maiores a partir dos já
construídos.

Podemos pensar no produto que resulta da primeira operação de montagem como sendo
essencialmente uma lista de elementos lexicais. Em termos tradicionais, esta lista, chamada

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"léxico", é a lista das "exceções", associações arbitrárias de som e sentido e escolhas


particulares entre as propriedades flexionais postas à disposição pela faculdade lingüística,
que determinam como indicamos que nomes e verbos recebem plural ou singular, determinam
que caso nominativo ou acusativo são marcas que recaem sobre nomes, e assim por diante.
Estes traços flexionais exercerão um papel central na computação.

Num design com a propriedade da otimidade, não haveria introdução de novos traços no curso
da computação. Não deveria haver nem índices, nem unidades frasais, nem níveis de barra
(portanto, nem regras de estrutura de frase, nem teoria X-barra). Também tentamos mostrar
que se pode prescindir de invocar relações estruturais além daquelas exigidas por condições de
legibilidade ou induzidas de alguma maneira natural pela própria computação. Na primeira
categoria entram propriedades como a adjacência no nível fonético, e estrutura argumental e
relações quantificador-variável no nível semântico. Na segunda categoria , temos relações
muito locais entre traços, e relações elementares entre dois objetos sintáticos associados no
curso da computação: a relação que vige entre um objeto sintático e partes de um outro é a
relação de c-comando, conforme apontado por Samuel Epstein, uma noção cujo papel central
se irradia por todo o design da língua e que havia sido considerada grandemente não-natural,
embora dentro desta perspectiva encontre seu lugar de maneira natural. Porém excluímos a
regência, relações de ligação no interior da derivação de expressões, e uma variedade de
outras relações e interações.

Como sabe quem está a par de trabalho recente, há vasta evidência empírica para sustentar a
conclusão oposta em toda a linha. E pior ainda, uma assunção central do trabalho feito dentro
do quadro de princípios-e-parâmetros, com seus sucessos dignos de nota, é que tudo isto que
acabo de expor é falso - que a língua é altamente "imperfeita" nas relações acima, como bem
seria de se esperar. Assim, não é pequena a tarefa de mostrar que tal aparato pode ser
eliminado por ser uma tecnologia descritiva indesejável; ou mais ainda, que o poder de
descrição e explicação se ampliam se for eliminado este excesso de peso. Não obstante, penso
que o trabalho destes últimos anos sugere que tais conclusões, que pareciam fora de cogitação
uns poucos anos atrás, são pelo menos plausíveis, e com boas possibilidades de estarem
corretas.

As línguas diferem umas das outras, pura e simplesmente, e gostaríamos de saber de que
maneiras diferem. Uma é a escolha dos sons, que variam no interior de um determinado leque.
Outra é a associação de som e sentido, essencialmente arbitrária. Estas possibilidades de
diferença entre línguas são fáceis de ver, e não precisamos nos deter nelas. Mais interessante é
o fato de que as línguas diferem nos sistemas flexionais: sistemas de caso, por exemplo.
Verificamos que estes são muito ricos em latim, ainda mais ricos em sânscrito ou finlandês,
mas mínimos em inglês, e totalmente invisíveis em chinês. Ou assim parece; considerações de
adequação explanatória sugerem que também aqui as aparências podem ser enganosas, e de
fato trabalho recente indica que esses sistemas variam muito menos do que parece quando se
olha para as formas superficiais. O chinês e o inglês, por exemplo, podem ter o mesmo
sistema de caso que o latim, mas diferir tão somente na sua realização fonética. Além disso,
parece que muita coisa da variabilidade das línguas pode ser reduzida a propriedades dos
sistemas flexionais. Se isto for correto, então a possibilidade de variação entre as línguas está
localizada numa parte diminuta do léxico.

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As condições de legibilidade repartem os traços que se associam na montagem de itens


lexicais em três grupos:

(1) traços semânticos, interpretados na interface semântica


(2) traços fonéticos, interpretados na interface fonética
(3) traços que não recebem interpretação em nenhuma das duas interfaces

Independentemente, os traços se subdividem em "traços formais" que são usados pelas


operações sintáticas e outros que essas operações não usam. Um princípio natural que
restringiria fortemente a variação das línguas é que apenas as propriedades flexionais sejam
traços formais. Isto parece correto, e é um assunto importante que deverei deixar de lado.

Em uma língua de design perfeito, cada traço deveria ser semântico ou fonético, e não
meramente um mecanismo destinado a criar uma posição ou facilitar a computação. Se é
assim, então traços formais não interpretáveis não existem. Esta exigência é, ao que parece,
excessivamente forte. Prototípicos traços formais, como o caso estrutural -- o nominativo e o
acusativo do latim, por exemplo -- não têm nenhuma interpretação na interface semântica e
não são necessariamente expressos no nível fonético. Portanto, podemos propor uma
exigência mais fraca que se aproxima do design ótimo: cada traço ou é interpretado na
interface semântica ou é acessível ao componente da gramática que dá forma fonética a um
objeto sintático, o componente fonológico, que pode fazer uso (e algumas vezes faz) dos
traços em questão para determinar a representação fonética. Vamos assumir que é esta
condição mais fraca que atua.

Na computação sintática, parece existir uma segunda imperfeição, mais dramática, no design
da língua, ou ao menos uma aparente imperfeição: a "propriedade de deslocamento", que é um
aspecto pervasivo da língua: unidades sintáticas são interpretadas como se encontrassem numa
posição diferente daquela em que de fato se encontram na expressão, sendo esta uma posição
em que elementos semelhantes às vezes são encontrados, e interpretados em termos de
relações locais naturais. Tomem a sentença "Clinton parece ter sido eleito". Nosso
entendimento da relação entre "eleger" e "Clinton" é idêntico ao que temos quando estes dois
termos estão localmente relacionados como na sentença "Parece que elegeram Clinton": na
terminologia tradicional da gramática, "Clinton" é o objeto direto de "elegeram" , embora
"deslocado" para a posição de sujeito de "parece" : o sujeito e o verbo concordam em traços
flexionais neste caso, mas não têm relação semântica alguma; a relação semântica do sujeito
da frase é a que se dá com o longínquo verbo "eleger".

Temos agora duas "imperfeições": traços formais não interpretáveis, e a propriedade de


deslocamento. Se assumimos que o design é ótimo, deveríamos esperar que as duas
imperfeições tivessem alguma relação, e parece mesmo que isto é verdade: traços formais não
interpretáveis são os mecanismos que implementam a propriedade de deslocamento.

A propriedade de deslocamento nunca é utilizada nos sistemas simbólicos que são


intencionalmente desenhados com vistas a propósitos especiais, denominados em uso

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metafórico "linguagens" ou "linguagens formais": "a linguagem da aritmética", ou "linguagem


para computador" ou "as linguagens da ciência". Estes sistemas também não possuem
sistemas flexionais, e portanto não possuem traços formais não interpretados. O deslocamento
e a flexão são propriedades especiais das línguas humanas, entre as muitas que são postas de
lado no design de sistemas simbólicos para outras finalidades, quando se pode prescindir das
condições de legibilidade impostas à linguagem humana natural pela arquitetura da
mente/cérebro.

A propriedade de deslocamento da linguagem humana pode ser expressa na descrição em


termos de transformações gramaticais ou mediante qualquer outro mecanismo, mas de alguma
forma essa propriedade é sempre expressa. Por que razão teriam as línguas a propriedade do
deslocamento é uma pergunta interessante, que tem sido discutida por quase 40 anos, sem que
se encontrasse uma boa resposta.

Suspeito que uma parte da sua razão de ser tem algo a ver com fenômenos que têm sido
descritos em termos de interpretação de estrutura de superfície, muitos deles familiares desde
a gramática tradicional: tópico-comentário, especificidade, informação nova e informação
velha, o sentido agentivo que existe mesmo em posição resultante de deslocamento, e assim
por diante. Se isto está certo, então, a propriedade de deslocamento é realmente provocada por
condições de legibilidade: sua motivação está em exigências interpretativas que são
externamente impostas por nossos sistemas de pensamento, que possuem estas propriedades
especiais, ao que indica o estudo do uso da língua. Há em curso atualmente interessantes
investigações destas questões, porém, neste momento não posso delongar-me nisto.

Desde os trabalhos iniciais, assumiu-se na gramática gerativa que a computação é composta


de operações de duas espécies: regras de estrutura de frase que formam objetos sintáticos
maiores a partir de itens do léxico, e regras transformacionais que expressam a propriedade de
deslocamento. Embora os primórdios do tratamento de ambas as operações se possam
encontrar desde os estudos gramaticais tradicionais, em pouco tempo de trabalho pudemos
verificar que elas são substancialmente diferentes do que anteriormente se supunha, por
apresentarem graus inesperados de variedade e complexidade. O programa de pesquisa tentou
mostrar que a complexidade e variedade são apenas aparentes, e que os dois tipos de regras
podem ser reduzidos a uma forma mais simples. Uma solução "perfeita" para o problema da
variedade das regras de estrutura de frase seria eliminar totalmente essas regras em favor da
operação irredutível que toma dois objetos já formados e junta um ao outro formando um
objeto maior dotado exatamente das propriedades do alvo da junção: a operação que podemos
chamar de junção (merge ). Esse objetivo pode muito bem ser atingível, é o que trabalho
recente indica.

O procedimento computacional ótimo, então, consiste da operação juntar e operações


destinadas a construir a propriedade do deslocamento: operações transformacionais ou alguma
contraparte delas. O segundo dos dois empreendimentos paralelos tentava reduzir o
componente transformacional à forma mais simples, embora, à diferença das regras de
estrutura de frase, este componente não parece poder ser eliminado. O resultado final foi a tese
de que para um conjunto nuclear de fenômenos existe uma única operação Mover --
basicamente, mover qualquer coisa para qualquer posição--, que não tem propriedades

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específicas em uma dada língua ou uma construção particular. Como a operação se aplica é
uma decorrência de princípios gerais que interagem com escolhas paramétricas específicas --
posicionamentos de interruptores -- que determinam uma língua particular. A operação Juntar
toma dois objetos distintos X e Y e junta Y a X. A operação Mover toma um único objeto X e
um objeto Y que é uma parte de X, e junta Y a X. O objeto que é formado desta maneira inclui
o que se chama de CADEIA, que consiste de duas ocorrências de Y; a ocorrência na posição
inicial é chamada de VESTÍGIO ( ing. trace ).

O problema seguinte é mostrar que de fato os traços formais não interpretáveis são o
mecanismo que implementa a propriedade do deslocamento, de modo que as duas
imperfeições básicas do sistema computacional ficam reduzidas a uma. E se vier a se mostrar
verdadeiro que a propriedade do deslocamento tem como motivação condições de legibilidade
impostas por sistemas externos de pensamento, conforme acabo de sugerir, então as
imperfeições acabam por ficar completamente eliminadas e o design da língua se mostra, ao
final das contas, ótimo: traços formais não interpretados são necessários como um mecanismo
que satisfaz a condição de legibilidade imposta pela arquitetura geral da mente/cérebro.

Esta unificação pode ser feita de maneira bastante simples, mas para explicá-la coerentemente
deveríamos transpor os limites deste espaço. A idéia intuitiva básica é a de que traços formais
não interpretáveis precisam ser apagados para satisfazer as condições da interface, e o
apagamento requer uma relação local entre o traço indesejado e um outro traço combinado
que possa apagar o primeiro.

A situação típica é a de que estes dois traços estão afastados um do outro, devido à maneira
pela qual a interpretação semântica procede. Por exemplo, na sentença "Clinton parece ter sido
eleito", a interpretação semântica requer que "eleito" e "Clinton" estejam relacionados de
modo local na frase "eleito Clinton" para que a construção possa ser interpretada de maneira
apropriada, como se a sentença fosse realmente "parece ter sido eleito Clinton". O verbo
principal da sentença, "parece", possui traços flexionais não-interpretáveis: está na forma
/singular/, /terceira pessoa/, /masculino/, propriedades que nada de independente acrescentam
ao sentido da sentença, uma vez que já se encontram expressas no sintagma nominal com o
qual há acordo, sendo não-elimináveis neste. Estes traços ofensores de "parece" precisam,
pois, ser apagados numa relação local, operação que é uma versão explícita da categoria
descritiva tradicional de "concordância". Para conseguir este resultado, os traços coincidentes
do sintagma concordante "Clinton" são atraídos pelos traços ofensores do verbo principal
"parece", que são então apagados por efeito do pareamento no local onde ele se dá. Mas agora
o sintagma, "Clinton", está deslocado.

Observem que apenas os TRAÇOS de "Clinton" são atraídos; o sintagma inteiro se move por
razões relacionadas ao sistema sensório-motor, por ser este incapaz de "pronunciar" ou
"escutar" traços isolados da frase à qual pertencem. Porém se por alguma razão o sistema
sensório-motor fica inativo, sobem apenas os traços, e lado a lado de sentenças como "um
candidato impopular parece ter sido eleito" , com deslocamento explícito, temos sentenças da
forma "parece ter sido eleito um candidato impopular": aqui a frase longínqua "um candidato
impopular" concorda com o verbo "parece", o que significa que seus traços foram atraídos

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para uma relação local com "parece", mas deixaram atrás o restante da frase. A razão é que o
sistema sensório-motor foi desativado neste caso, ao qual denominamos de "movimento
encoberto", um fenômeno com muitas propriedades interessantes. Em muitas línguas, como o
espanhol, existem tais sentenças. O inglês as possui também, embora, por outras razões, seja
necessário introduzir o elemento semanticamente vazio "there", dando lugar à sentença "there
seems to have been elected an unpopular candidate" ; e também, por razões muito
interessantes, é necessário efetuar uma inversão de ordem, de modo que o resultado é "there
seems to have been an unpopular candidate elected". Estas propriedades decorrem de escolhas
específicas de parâmetros, que têm efeitos nas línguas de um modo geral e que interagem
dando lugar a uma rede bem complexa de fenômenos, distintos apenas na superfície. No caso
que estamos considerando, tudo se reduz ao simples fato de que traços formais não
interpretáveis precisam ser apagados numa relação local com um traço coincidente,
produzindo a propriedade de deslocamento exigida para poder haver interpretação semântica
na interface.

Combinando estas variadas idéias, algumas ainda um tanto especulativas, podemos


descortinar tanto o que motiva quanto o que detona a propriedade do deslocamento. Observem
que é preciso distinguir estas duas coisas. Um embriologista que estude o desenvolvimento do
olho poderá anotar o fato de que para que um organismo sobreviva pode ser de muita ajuda
que as lentes contenham algo que as proteja de danos e algo que faça a refração da luz; e
continuando a observar, descobriria que as proteínas do cristalino têm ambas as propriedades
e parecem ser também componentes da lente do olho encontrados sempre, marcando presença
por caminhos de evolução independentes. A primeira propriedade tem a ver com "motivação"
ou "design funcional", a segunda com o fator detonante que provoca o design funcional
apropriado. Há uma relação indireta e importante entre estas duas coisas, mas seria um engano
confundi-las. Assim, um biólogo que aceite tudo isto não proporia a propriedade do design
funcional como o próprio mecanismo do desenvolvimento embriológico do olho.

Por raciocínio semelhante, não gostaríamos de confundir motivações funcionais para


propriedades da linguagem humana com os mecanismos específicos que as implementam.
Semelhantemente, não queremos fazer confusão entre o fato de que a propriedade de
deslocamento é exigida por sistemas externos em níveis de interface e os mecanismos mesmos
da operação Atrair e seu reflexo.

Há uma boa porção de coisas apenas alinhavadas nesta breve descrição. Preenchendo os claros
se chega a um quadro bastante interessante, com muitas ramificações em línguas
tipologicamente distintas. Contudo, não é possível prosseguir porque iríamos além do escopo
destas observações.

Eu gostaria de finalizar fazendo pelo menos uma breve referência a outras questões que dizem
respeito ao modo pelo qual o estudo internalista da linguagem se liga ao mundo exterior. Para
facilitar, vamos nos ater a palavras simples. Suponhamos que "livro" é uma palavra que existe
no léxico de Pedro. A palavra é um complexo de propriedades, fonéticas e semânticas. Os
sistemas sensório-motores usam as propriedades fonéticas para articulação e percepção,
relacionando-as a eventos externos: movimentos de moléculas, por exemplo. Outros sistemas
da mente usam as propriedades semânticas das palavras, quando Pedro fala sobre o mundo e

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quando interpreta o que outros falam.

Não há nenhuma controvérsia profunda sobre como proceder do lado dos sons, porém do lado
da significação há muitos pontos de discórdia, ou pelo menos assim parece; no mínimo alguns
podem se desfazer se olhados mais de perto. Noto que estudos empiricamente orientados
abordam problemas de significação com a mesma postura com que abordam o estudo dos
sons, como na fonética e fonologia. Procuram descobrir as propriedades semânticas de "livro":
que é nominal, não verbal, empregado para referir-se a um artefato e não a uma substância,
como água, ou a uma abstração, como saúde, e assim por diante. Alguém poderia indagar se
estas propriedades são parte do significado da palavra "livro" ou do conceito associado à
palavra; até onde chego a compreender, não há boa maneira de fazer distinção entre as duas
propostas, mas é possível que algum dia se possa desencavar um dilema empírico. De uma
forma ou de outra, alguns traços do elemento lexical "livro" que são internos a ele determinam
modos de interpretação do tipo mencionado acima.

Investigando o uso da língua, descobrimos que a interpretação das palavras é feita em termos
de fatores como constituição material, formato, uso característico e pretendido, papel
institucional, e assim por diante. As coisas são identificadas e alocadas a categorias em termos
de tal tipo de propriedade, que estou tomando como sendo os traços semânticos, paralelamente
aos traços fonéticos que determinam o seu som. O uso da língua pode atentar para esses traços
semânticos de várias maneiras. Suponhamos que a biblioteca possui duas cópias do Guerra e
Paz de Tolstoy, e que Pedro toma de empréstimo uma, e João a outra. Pedro e João pegaram o
mesmo livro, ou livros diferentes? Se atentamos para o fator material do elemento lexical,
diremos que eles pegaram livros diferentes; se atentamos para o seu componente abstrato, eles
pegaram o mesmo livro. Podemos focalizar simultaneamente o fator material e o fator
abstrato, como quando dizemos que "o livro que ele está projetando vai pesar no mínimo dois
quilos se ele conseguir escrevê-lo" ou "seu livro está em todas as livrarias do país". De
maneira semelhante, podemos pintar a porta de branco e passar por ela, empregando o
pronome "ela" referindo-nos ambiguamente tanto à figura como ao fundo. Podemos relatar
que o banco sofreu um atentado a bomba depois de elevar a taxa de juros, ou que ele elevou a
taxa de juros para evitar sofrer um atentado a bomba. Aqui, o pronome "ele" e a categoria
vazia que é o sujeito de "sofrer atentado" simultaneamente adotam tanto os fatores materiais
quanto institucionais.

A mesma situação se verifica se minha casa é destruída e eu a reconstruo, possivelmente em


outro lugar; não é a mesma casa, mesmo se eu fizer uso dos mesmos materiais, embora eu
diga que A RE-construí. Os termos referenciais "re" e "a" sobrepassam a fronteira. Com
cidades tem-se outra situação ainda. Londres poderia ser destruída por fogo e, em outro lugar
e com materiais completamente diferentes, ELA poderia ser reconstruída, sendo ainda
Londres. Cartago poderia ser reconstruída hoje, e ser ainda Cartago. Suponha que eu lhe diga
que antigamente eu acreditava que Istambul e Constantinopla fossem cidades diferentes, mas
agora sei que são a mesma cidade, acrescentando que Istambul deverá ser removida para uma
outra localização, para que Constantinopla não tenha um caráter islâmico; ELA deverá ser
levada para outro lugar e lá deverá ser RE-construída, embora de alguma maneira mantendo-
se como a MESMA cidade. Este uso é perfeitamente inteligível; já me deparei com exemplos
ainda mais estranhos na fala e na escrita, e estes exemplos mal arranham a superfície do que

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encontramos quando começamos a olhar de perto os significados das palavras.

Os fatos envolvidos nestas questões são no mais das vezes claros, mas nada triviais. Assim,
elementos referencialmente dependentes, mesmo os mais estritamente restritos, observam
algumas distinções mas ignoram outras, de maneiras que variam curiosamente para diferentes
tipos de palavras. Tais propriedades podem ser investigadas de muitas maneiras: aquisição de
língua, generalidade entre línguas, formas inventadas etc. O que descobrimos é
surpreendentemente intricado; e, não surpreendentemente, é sabido antes de se terem
evidências, portanto compartilhado entre as línguas. Não há razão a priori para se ter
expectativa de tais propriedades nas línguas do mundo; em Marte a língua poderia ser
diferente. Os sistemas simbólicos das ciências e da matemática são decerto diferentes.
Ninguém sabe em que medida as propriedades específicas da língua humana são uma
conseqüência de leis bioquímicas gerais que se aplicam a objetos com traços gerais do
cérebro, outro problema importante num horizonte ainda distante. A filosofia dos séculos 17 e
18 desenvolveu de maneira interessante uma abordagem à interpretação semântica semelhante
a esta, freqüentemente adotando o princípio de Hume de que a identidade que atribuímos às
coisas é somente fictícia, estabelecida pelo entendimento humano. A conclusão de Hume é
muito plausível. O livro sobre a minha mesa não tem estas estranhas propriedades em virtude
de sua constituição interna; antes, em virtude da maneira de pensar das pessoas, e dos sentidos
dos termos em que esses pensamentos são expressos. As propriedades semânticas das palavras
são usadas para pensar e falar sobre o mundo em termos de perspectivas postas à nossa
disposição pelos recursos da mente, o que de certo modo se assemelha à maneira pela qual
parece proceder a interpretação fonética.

A filosofia da linguagem contemporânea toma um caminho diferente. A pergunta que faz é a


que coisa uma palavra se refere, dando variadas respostas. Mas a pergunta não tem um sentido
claro. O exemplo de "livro" é típico. Faz pouco sentido perguntar a que COISA a expressão
"Guerra e Paz de Tolstoy" se refere, quando Pedro e João retiram da biblioteca duas cópias
idênticas. A resposta depende de como os traços semânticos são usados quando pensamos e
falamos, de um modo ou outro. Estas observações se estendem aos elementos referenciais e
referencialmente dependentes mais simples (pronomes, categorias vazias, "mesmo", etc.). E
também a nomes próprios, que têm propriedades semântico-conceptuais muito ricas. As coisas
recebem nomes de pessoa, de rio, de cidade, com a complexidade de entendimento que vai
junto com estas categorias. A linguagem não possui nomes próprios do ponto de vista lógico,
despidos dessas propriedades, conforme apontou há muitos anos atrás o filósofo Peter
Strawson, de Oxford. Em geral, uma palavra, mesmo do tipo mais simples, não pinça uma
entidade no mundo externo, ou de nosso "espaço de crenças"-- o que, evidentemente, não
implica em negar que existam livros ou bancos, ou que estejamos de fato falando de alguma
coisa real se, discutindo o destino da Terra, dizemos que ELE é duvidoso. Mas deveríamos
seguir o bom conselho do filósofo do século XVIII Thomas Reid e seus sucessores modernos,
Ludwig Wittgenstein e outros, e não tirar do uso comum conclusões injustificadas.

Podemos, se isto nos apraz, dizer que a palavra "livro" se refere a livros, "céu" ao céu, "saúde"
à saúde, e assim por diante.

Acreditar em convenções como essas expressa basicamente uma falta de interesse em como as

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palavras são usadas para falar sobre coisas, e sobre suas semânticas. Essas supostas
convenções levantam outros problemas e envolvem o que me parecem suposições duvidosas,
outro tópico importante que não posso ter a esperança de poder abordar aqui.

Mencionei antes que a gramática gerativa moderna tentou fazer face a preocupações que
davam ânimo à tradição, em particular, à idéia cartesiana de que "a verdadeira distinção" entre
o homem e outras criaturas ou máquinas é a habilidade de agir da maneira que consideravam
como muito claramente ilustrada no uso normal da linguagem: sem limites finitos,
influenciada mas não determinada pelo estado interno, apropriada a situações mas não causada
por elas, coerente e evocadora de pensamentos que o ouvinte poderia ter expresso, e assim por
diante. O objetivo do trabalho que estive discutindo é o de desvendar alguns dos fatores que
entram nesta prática normal. Mas somente ALGUNS.

A gramática gerativa procura descobrir os mecanismos que são usados, contribuindo assim
para o estudo de COMO eles são usados de maneira criativa da vida normal. Como são usados
é o problema que intrigou os cartesianos, e se mantém tão misterioso para nós quanto era para
eles, mesmo se hoje compreendemos bem mais sobre os mecanismos envolvidos.

Neste aspecto, o estudo da linguagem é mais uma vez bastante similar ao de outros órgãos. O
estudo dos sistemas visual e motor pôs a descoberto mecanismos pelos quais o cérebro
interpreta estímulos esparsos como um cubo e o braço que se estende para pegar um livro
sobre a mesa. Porém, note-se que estes ramos da ciência não levantam a questão de como as
pessoas decidem olhar para um livro na mesa ou pegá-lo, e especulações sobre o uso dos
sistemas visual ou motor, ou outros, importam bem pouco. São estas capacidades, manifestas
mais impressionantemente no uso da língua, que estão no cerne das preocupações tradicionais:
para Descartes, elas são "a coisa mais nobre que podemos ter" e são tudo o que a nós
"realmente pertence". Meio século antes de Descartes, o filósofo-médico espanhol Juan
Huarte observou que esta "capacidade gerativa" do entendimento e ação humana ordinários é
estranha a "animais e plantas", embora seja uma forma inferior de entendimento que está
aquém do exercício verdadeiro da imaginação criativa. Mesmo esta forma inferior está além
do nosso alcance teórico, afora o estudo dos mecanismos que entram na sua composição.

Num bom número de áreas, em que está incluída a linguagem, muita coisa se aprendeu nos
últimos anos a respeito destes mecanismos. Os problemas que agora somos capazes de encarar
são difíceis e desafiadores, porém muitos mistérios ainda estão além do alcance da forma de
inquirição humana que chamamos de "ciência", o que é uma conclusão que não deveríamos
achar surpreendente se consideramos os seres humanos como parte do mundo orgânico, e
talvez uma conclusão que não nos deveria tampouco parecer desanimadora.

* Conferência proferida na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 18 de


novembro de 1996. Promoção do Departamento de Lingüística e da Pós-Graduação em

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Lingüística da Faculdade de Letras da UFRJ e na UFPa (Universidade Federal do Pará) em


29 de novembro de 1996. Promoção do Museu Goeldi/CNPq e BASA (transmitido ao vivo
pela TV Cultura) (Tradução: Miriam Lemle).

** Nossos agradecimentos ao CNPq pelo apoio financeiro, à COPPE/UFRJ por ter se juntado
ao Departamento de Lingüística na organização das duas conferências que aconteceram na
nossa UFRJ, a vários colegas deste Departamento que investiram energias imensas (em modo
muito especial, Carlota Rosa bem como Edione Trindade Azevedo e Lucinda Britto), ao
Diretor da Faculdade de Letras, Carlos Tannus, pela colaboração inestimável.

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Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997


Como citar
este artigo

Perguntas - Rio de Janeiro

1. Perguntas ao Vivo 18/11/96

1. Por que o senhor parou de usar o termo sintaxe?

Bem, eu não parei propriamente de usar o termo sintaxe. Algumas vezes evito empregá-lo
porque é um termo ambíguo. Costumava ter diversas significações distintas. No sentido mais
técnico, aquele que tem nas ciências formais, como a matemática, a sintaxe tem a ver com as
propriedades das expressões simbólicas e como elas se relacionam umas com as outras. Isto é
sintaxe. Nesse uso, toda a fonologia é sintaxe. Em minha opinião praticamente tudo que se
denomina semântica é sintaxe. Tem a ver com alguma coisa que está se passando dentro da
sua cabeça. Com representações internas que são objetos simbólicos e como interagem e
assim por diante. Você tem a fonética propriamente dita quando você passa a olhar o que está
do lado de fora da cabeça. Por exemplo, as pessoas que trabalham com análise da fala ou
produção de fala no departamento de engenharia. Elas trabalham com o que acontece entre a
cabeça e o ar, com o que acontece aí fora. E as pessoas que estivessem trabalhando com a
verdadeira semântica estariam falando da relação entre o que está na cabeça e o que está lá
fora no mundo, as coisas sobre as quais as pessoas falam. Quase ninguém trabalha sobre isso.
É um problema muito difícil. Aquilo com que as pessoas trabalham é a relação entre o que
está dentro da cabeça e a maneira como é interpretado. Então, quando os semanticistas falam
de livros, eles não estão falando sobre os objetos físicos, mas sobre essas estranhas coisas que
possuem a propriedade pela qual você e eu podemos retirar o mesmo livro da biblioteca,
mesmo se tratando de objetos diferentes. Mas isto é algo imposto pela mente, então eles estão
realmente estudando o que está na cabeça. Este é o sentido técnico de sintaxe. Também é
empregado num sentido mais restrito, que exclui todo o sistema de sons, o componente
fonológico, e algumas vezes é empregado de outras formas. Mas é somente devido à sua

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ambigüidade que eu às vezes tento evitá-lo.

2. A respeito do léxico, quais aspectos estão relacionados aos traços descritivos e quais
aspectos têm relação com traços explanatórios?

Esta distinção na verdade não pode ser feita para traços. Traços são somente coisas.
Realmente, como oclusão labial ou referência a artefato. Estas são as coisas elementares a
partir das quais a linguagem é constituída. Você pode pensar nelas como partículas
elementares na física. Lá estão, e você deseja saber como funcionam, como interagem umas
com as outras. Você deseja fazer isso quer seja o seu propósito a descrição quer seja a
explicação. Estas não são categorias nitidamente distintas, ou seja, qualquer tipo de descrição
é alguma forma de explicação. Por exemplo: se alguém que gosta de flores fala de como elas
se agrupam, de forma que esta daqui se parece com aquela dali, e são da mesma cor, e por aí
vai, o que se chama história natural. Isto é um tipo de explicação, porque qualquer tipo de
organização dada aos fenômenos é colocar estrutura neles. Por outro lado, é uma explicação
muito superficial. Você chega a uma explicação mais profunda se, digamos, a biologia
molecular chegar algum dia ao ponto - ainda hoje longínquo - suponhamos que algum dia ela
chegue ao ponto em que possa dar conta do fato de que esta flor tem uma determinada cor ou
um certo tipo de caule ou algo assim. Isto constituiria uma explicação mais profunda, de
forma que você poderia querer captar isso em termos de química ou em termos de teorias de
partículas elementares. Explicações podem ir mais a fundo sempre. Mas no estudo da
linguagem existe um emprego técnico, e este é o que eu mencionei. Adequação descritiva é a
propriedade que tem uma teoria da linguagem. Por exemplo, se alguém escreve uma gramática
do português nós diremos que ela é descritivamente adequada na medida em que ela apresenta
os fatos corretamente. Adequação explanatória é propriedade de teorias da linguagem, não de
teorias de uma língua particular. Assim, uma teoria geral da linguagem, o que às vezes
chamamos de gramática universal, satisfaz a condição de adequação explanatória na medida
em que possa fornecer automaticamente uma gramática do português, diante das evidências
disponíveis a uma criança de três anos numa comunidade lingüística que fale português. Se a
teoria é capaz de realizar esta transição, tomando os dados disponíveis para a criança,
computando-os e transformando-os numa gramática do português descritivamente adequada,
então ela satisfaz a condição de adequação explanatória. A idéia é que os princípios da teoria,
dentro das condições limitantes, estariam explicando as propriedades do português
depreendidas com a base de dados de português oferecidos à criança. De certa maneira, é
como se fosse um modelo da aquisição de língua. A criança ouve os dados, a mente sai
computando, e o resultado é conhecimento de português, a gramática descritivamente
adequada. Mas cada traço entra tanto na descrição como na explicação. Há apenas modos
diversos de encarar o emprego dos traços. Assim, não podemos de fato distinguir entre os
traços, os que são descritivos dos que são explanatórios. Simplesmente, eles não se dividem
desta maneira.

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3. O trabalho descritivo sobre a sintaxe tem alguma utilidade para lançar luz sobre o que
é uma explicação? Nesse caso, o modelo assim chamado modelo GB é ainda o melhor
para propósitos descritivos?

Bom, apenas a propósito da terminologia, o que se denomina modelo GB é exatamente aquilo


a que me referi como modelo princípios e parâmetros. Andei brigando por quinze anos, sem
sucesso, para fazer com que as pessoas parassem de chamá-lo de modelo GB. GB representa
as palavras Government and Binding, e tem o nome GB porque teve origem em uma série de
seminários e discussões que eu dei em Pisa, de onde saiu um livro intitulado Lectures on
Government and Binding, de onde veio a falar-se em teoria Government and Binding, teoria
GB. Mas isto foi só porque a maior parte da discussão tinha a ver com esses dois assuntos.
Poderia do mesmo modo ter recebido o nome de teoria do caso e teoria temática, foi somente
uma questão acidental, e não significa nada. Apenas, acho que é um termo inadequado, mas
todo o mundo está usando, então acho que esta batalha está perdida. Mas é igualmente bom
chamá-lo de modelo de princípios e parâmetros. E na minha visão atual, a regência nem
sequer existe. E a ligação não é interna à língua como assumi naquela época, mas sim um
sistema interpretativo.

A seguir vem a segunda pergunta, o trabalho descritivo em sintaxe é útil para lançar luz sobre
explicação? Bem, é inevitável. Você não pode explicar fenômenos a menos que tenha alguma
descrição dos fenômenos. Assim, por exemplo, se você é um químico teórico, alguém tem que
lhe mostrar quais são os dados. Não é como a matemática, onde você como que constrói o
sistema todo. Existe alguma coisa que está lá fora. E você tem que imaginar como funciona.
As ciências experimentais tratam de dar alguns dados sobre como funciona. Ora, as ciências
experimentais não estão separadas das ciências teóricas. Assim, um físico experimental sabe o
que procurar, porque existe alguma questão levantada na ciência teórica. Assim, por exemplo,
aquele foguete para Marte que falhou levava lá dentro alguns mecanismos de experimentação
que iam fazer determinadas perguntas que haviam sido colocadas pelos teoricistas. E o mesmo
deveria dar-se aqui Se a lingüística avançar bastante isto se tornará óbvio. As pessoas que
estão fazendo trabalho descritivo estão mais no lado experimental deste empreendimento
conjunto, e as pessoas que estão sentadas às suas mesas tentando imaginar como podem ser
explicadas estas coisas impossíveis estão no lado mais teórico do empreendimento. Perguntar
se o trabalho descritivo seria útil para a explicação seria como perguntar se experimentos são
úteis para a teoria em física. Bom, eles são centrais. Você não vai adiante sem eles. Quanto à
questão de qual é o melhor modelo para fins descritivos, isto é um pouco como perguntar
quais os melhores métodos experimentais em química ou em biologia. E isto será como será,
quer dizer, em ciência experimental é difícil ter sentimentos. Você precisa usar os mecanismos
que estiverem disponíveis, você se orienta pelas questões que parecem importantes, e não há
resposta para a pergunta de qual seja o melhor método experimental. De fato, esta é uma
decisão criativa. E a mesma coisa é verdadeira quando se faz trabalho descritivo sério sobre
uma língua. Se você tomar o português ou uma das línguas indígenas do Brasil você pode
interessar-se em estudá-la por muitas razões diferentes. Talvez o seu interesse seja preservar a
língua porque os seus falantes estão morrendo. OK, isto é muito importante. Possivelmente o
seu interesse seja ajudar a tornar a cultura da comunidade disponível para as pessoas que
vivem nela. Tarefa importantíssima do ponto de vista humano. Se o seu interesse é tentar
contribuir para a teoria geral da linguagem você provavelmente colocaria outras perguntas e

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faria um outro tipo de trabalho. Mas não há resposta sobre qual seja a maneira certa de fazer
isto. Há muitas maneiras corretas, dependendo de qual a questão sobre a qual você está
trabalhando.

4. Se a morfologia tem os seus próprios primitivos, que aparentemente não são


motivados pelo sistema articulatório-perceptual, em que medida a morfologia é um sub-
componente do componente fonológico em vez de ser um nível sintático de
representação?

Bem, estes são presentemente tópicos de pesquisa muito vivos, e as pessoas com muita razão
discordam sobre o que crêem que sejam as respostas. Estas são questões que estão sendo
investigadas. Mas quando falamos de morfologia há uma distinção que precisa ser feita. Tome
o latim e o chinês e pense nos seus sistemas morfológicos. Em latim, você tem uma expressão
para os casos. Você tem caso nominativo, genitivo, acusativo e por aí vai. E você tem flexão
no verbo, de forma que os verbos são marcados quanto ao número, pessoa e gênero, e os
nomes se repartem em diferentes declinações. Estas coisas todas você aprende na escola. Esta
é a expressão da morfologia em latim. Suponha que você esteja estudando chinês. Bem, a
expressão da morfologia é zero. A morfologia nunca é expressa. Assim, o caso nunca é
marcado, e nenhuma dessas distinções recebe qualquer marca. Se você faz pura morfologia
descritiva superficial você quer ouvir quais são os sons. As duas línguas são aparentemente
completamente diferentes. Uma das conclusões bastante interessantes que foram alcançadas
nos últimos quinze anos - que foi sugerida inicialmente numa carta famosa que jamais foi
publicada, escrita por Jean Roger Vergnaud - é que seria possível explicar uma quantidade de
fenômenos que estávamos tentando cobrir se assumíssemos que o inglês tem sistema de casos
como o latim, com a diferença de não ser pronunciado. Ou seja, a mente o escuta, mas os
ouvidos não. É como se tudo estivesse acontecendo, mas apenas não ocorre que haja
expressão saindo da boca. Porque há muitas conseqüências do que são os casos. Se algo é
nominativo ou acusativo, isso tem toda sorte de efeitos, e se uma palavra está numa posição
em que não pode ter caso todo tipo de coisa acontece, como não fazer sentido ou coisa assim.
Perseguindo essa idéia, como muita gente começou a fazer, pareceu evidente que os sistemas
de casos, mesmo os mais ricos que o do latim, são provavelmente universais. Ou seja,
provavelmente a mente os escuta sempre. Só que alguns saem para fora da boca de maneiras
diferentes em línguas diferentes. Em chinês, num dos extremos, eles não saem de nenhuma
forma. Em sânscrito ou finlandês, no outro extremo, eles saem de forma abundante. Se você
examinar um grupo maior de línguas, por exemplo as línguas aborígenes da Nova Guiné, você
vê sistemas muito complexos que fazem o sânscrito ou o latim parecerem muito simples. Mas
provavelmente tudo isto é basicamente a mesma coisa. Está apenas saindo para fora pela boca
de maneiras diferentes.

Retornando à pergunta, é a morfologia parte do sistema articulatório-perceptual ou parte da


sintaxe, bem, é realmente ambas as coisas. Depende da parte da morfologia para a qual você
está olhando. Se você está olhando para a parte da morfologia que a mente está ouvindo
sempre e que está envolvida na computação, aí é parte do sistema sintático num sentido
estreito. Se por vezes ela se relaciona com o sistema articulatório-perceptual, aí há variação

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entre as línguas. Ou seja, elas lhe dão expressão de maneiras diferentes. E de fato parece que o
que ocorre é que uma boa parte do que aparenta ser a variação entre línguas é uma
conseqüência do modo de dar expressão à morfologia. Quando as coisas recebem pronúncia
há muitos efeitos no modo de funcionamento dos fenômenos sintáticos. A bem dizer, isto foi
notado há centenas de anos, no início do século dezessete. As pessoas se deram conta de que
as línguas que apresentam mais flexões explícitas, como por exemplo o latim, onde você
pronuncia muitas dessas coisas, diferem de línguas com menos flexões, como por exemplo o
inglês, pelo fato de terem ordem de palavras muito mais livre. Assim, a ordem das palavras
em latim é muito mais livre do que a do inglês. Em inglês ela é bastante rígida, em chinês é
muito rígida, em latim é bastante livre. O espanhol e o português ficam mais ou menos a meio
caminho. Foi notado que existe uma relação entre riqueza flexional e liberdade de ordem das
palavras. É intuitivamente óbvio porque as coisas são assim. Os casos pronunciados
expressam relações. Por isso, mesmo se as palavras não estão próximas umas das outras você
pode saber que elas estão relacionadas por causa das marcas que você vê na flexão. Quando
você toma línguas que não têm flexões você pede isso. Há línguas, por exemplo algumas das
línguas indígenas da América do Norte - o Navajo é um exemplo bem estudado - onde parece
que toda a sintaxe envolve apenas traços, traços flexionais que algumas vezes são expressos
como flexões, e os nomes ficam todos do lado de fora, de modo que você como que faz toda a
computação somente com traços bastante abstratos, como número, tempo, caso e assim por
diante, e em seguida os nomes que ficam na parte de fora, cuja parte pronunciada é
suficientemente rica, de forma que você pode saber qual nome vai com qual traço na parte
interna. Esta é uma modalidade extrema de variação. Mas a morfologia está se mostrando um
assunto muito interessante por causa de coisas como estas e também por causa das coisas que
mencionei antes: que parece ser o caso, e se for verdadeiro será uma descoberta muito
interessante, que os traços morfológicos semanticamente não interpretados estão lá somente
para implementar a propriedade do deslocamento que é necessária por outras razões. Se isto
vier a confirmar-se verdadeiro, será bem interessante.

5. A gramática gerativa tomou alguma contribuição das pesquisas de Piaget com relação
à linguagem? Como o senhor vê hoje a posição de Jean Piaget com relação à dicotomia
linguagem e estrutura cognitiva? Fale um pouco sobre a sua discussão com Piaget nesse
sentido.

Há contribuições duradouras do trabalho de Piaget, o que quer que as pessoas ao final acabem
decidindo sobre as teorias dele. Ele abriu novos modos de experimentação sobre os
conhecimentos das crianças. Pois ele desenvolveu uma quantidade de idéias experimentais
sobre o que você poderia estudar com crianças, e o que você poderia procurar quando estuda o
que as crianças sabem a respeito das coisas. Isso foi muito importante, e conduziu a trabalho
muito importante e de certo modo se poderia dizer que boa parte da psicologia experimental
contemporânea, a psicologia cognitiva, voltada para o conhecimento e desenvolvimento
conceptual das crianças tem suas origens no trabalho descritivo que Piaget fez anos atrás e que
depois foi elaborado dentro da psicologia cognitiva moderna. Assim, isto é inquestionável.

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Por outro lado, se você olhar para as teorias mesmas que Piaget propôs, especialmente suas
idéias sobre os assuntos que receberam perguntas aqui, suas idéias a respeito da relação entre
linguagem e estrutura cognitiva, elas não resistiram bem ao teste do tempo. Piaget teve duas
idéias centrais. Uma é que o desenvolvimento cognitivo passa por vários estágios. Assim, uma
criança de um ano é capaz de fazer certas coisas, e uma de quatro anos outras coisas e uma de
dez outras diferentes coisas ainda. E que a cada um destes estágios há determinados tipos de
operações estruturais que são possíveis. E que os estágios diferem, e que estruturas diferentes
estão disponíveis. Esta é a primeira idéia.

A segunda idéia é que em cada estágio a mente é uniforme. Sendo assim, são sempre as
mesmas operações que estão disponíveis para tudo. Por exemplo, uma criança de sete anos usa
as mesmas operações para a linguagem e para reconhecer objetos no espaço visual.

Estas são as duas idéias básicas. Nenhuma das duas parece estar nem sequer remotamente
próxima da verdade. A idéia da uniformidade em cada nível particular, não creio que alguém
ainda acredite nisso, será difícil achar quem acredite. Parece que a mente é o que se chama
"modular". No sentido de que tem muitos sub-sistemas diferentes, o que quer dizer que é
como tudo o mais no universo. O que estou dizendo é que você não pode encontrar um
organismo complexo, nem mesmo uma ameba, que não possua sub-sistemas que funcionam
de maneiras distintas. Se você olhar para a parte do corpo humano que não seja o cérebro, ou
seja, do pescoço para baixo, é claro que ele consiste de diferentes sub-sistemas. Assim o
sistema circulatório funciona diferente do rim, que funciona diferente do fígado, e o sistema
imunológico é outra espécie de sistema, e assim por diante. Qualquer sistema complicado terá
sub-partes que fazem coisas diferentes. E seria um milagre de estarrecer se o mais complicado
dos objetos no universo, o cérebro humano, fosse de alguma forma homogêneo, e tivesse um
único modo de fazer tudo. Não se conhece nada assim no mundo orgânico, e certamente não é
assim no cérebro, tampouco. Então, há sub-sistemas especiais que funcionam para coisas
diferentes. Já agora até mesmo conhecemos algo sobre a sua neurologia, mas é seguro que
suas propriedades são bem diversificadas. O sistema visual e o sistema de linguagem
funcionam de modos inteiramente diferentes. Eles são semelhantes em algum nível, mas esse
nível é o da biologia celular, onde eles se assemelham também ao rim. Mas não teremos
adivinhação sobre órgãos mentais, assim como não há adivinhação quando se trata de órgãos
físicos. Eles são o que são, estão juntos ao nível da biologia celular, e também seja quais
forem os princípios gerais existentes na bioquímica, aplicam-se a todos eles.

Então essa idéia, realmente esboroou. Diga-se de passagem que esta era uma idéia
compartilhada com o behaviorismo. Assim, Piaget e B.F. Skinner estavam realmente em
extremos opostos na psicologia desses anos, mas ambos concordavam em achar que a mente é
uniforme, uma só coisa homogênea, com mecanismos gerais para fazer tudo. De um ponto de
vista biológico isto seria quase inconcebível, e tudo o que sabemos indica que está errado.

Que dizer sobre os estágios? Bem, certamente é verdade que uma criança de dez anos sabe
coisas diferentes de uma de um ano. Mas o que tem ocorrido ao longo dos anos foi que à
medida em que foram sendo desenvolvidas maneiras mais sofisticadas de estudar o que uma
criança sabe, resultou que coisas que Piaget e outros acreditavam que fossem apreendidas
mais tarde já estão na verdade lá desde muito cedo. E de fato quanto melhores se tornam os

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experimentos mais cedo resulta que os saberes já estão lá. Assim, os estágios basicamente
caíram por terra. Se você fizer os experimentos corretamente os tipos de coisas que Piaget
procurava você pode encontrar nos primeiros estágios. De fato, quase tão logo você tenha
condições de começar a realizar experimentos. Atualmente já há excelentes técnicas para fazer
experimentos com bebês muito novinhos, com dias de nascidos, ou até mesmo minutos. Estão
saindo resultados muito surpreendentes.

Por outro lado, havia um problema lógico na teoria de Piaget, que a escola de Genebra nunca
se dispôs a encarar. As pessoas ficavam perguntando isso a eles, se você ler o livro daquele
encontro você verá que o assunto fica sendo levantado a toda hora, mas eles nunca o
enfrentaram. O problema lógico era o seguinte. Vamos assumir a teoria de Piaget. Vamos
supor que esteja certa. Como você chega de um estágio até o seguinte? Tome por exemplo
uma criança no estágio que precede ao da conservação. Então, você tem um jarro de água alto
e você despeja a água num jarro grande e largo, e se a criança tem o conhecimento da
conservação ela saberá que a quantidade de água nos dois jarros é a mesma. Mas no estágio
precedente ao da conservação, de acordo com a teoria, a criança pensará que existe mais água
no jarro alto e fino do que no baixo e largo. Na realidade, como já disse antes, isto resulta
como não sendo verdadeiro quando se fazem os experimentos de maneira apropriada, mas
suponhamos que fosse verdade. Como a criança passaria do estágio pré-conservacionista para
o estágio conservacionista? Alguma coisa precisa acontecer para fazer essa transição ocorrer.
Bem, o que poderia acontecer? Uma possibilidade é que a criança recebeu mais informação.
Mas isto é inconsistente com a teoria de Piaget, porque se a criança tivesse recebido mais
informação no estágio anterior então o estágio teria acontecido mais cedo, e não seria um
estágio. Seria apenas uma questão de quanta informação a criança recebe. Portanto, o estágio
não depende do ambiente externo. Supõe-se que seja alguma mudança interna que está
acontecendo. Bom, como acontece uma mudança interna? Bem, só existe uma maneira
conhecida, afora o milagre. Está nos gens, de algum modo. Nos gens nós podemos ter até
maturação, que acontece tardiamente na vida, mas ainda assim é programada geneticamente,
Quero dizer, a puberdade, por exemplo, tem lugar muito após o nascimento. Mas tem lugar
devido a alguma coisa no programa genético. Até a morte está programada. Você está
arquitetado de tal maneira que você morre numa certa idade, grosseiramente falando. Pode
variar, mas está dentro de um certo leque. E isto é parte do programa genético. Assim,
qualquer forma de maturação que tenha lugar, qualquer transição de um estágio a outro está de
alguma maneira representada nos gens. Os bebês humanos adquirem a visão binocular - usar
os dois olhos para ver as coisas - mais ou menos aos quatro meses. Bem, isto é passar de um
estágio a outro, mas todos assumem que seja parte das instruções genéticas. Ninguém sabe
bem o que é, mas você toma como certo que é isso que é. Bem, vamos atrelar aí o lado mental
do que se denomina inatismo. O que nada mais é senão ser racional, a meu ver. Porém para a
escola de Genebra o inatismo era considerado um tremendo pecado. Ser inatista você não
pode. Mas agora você deu cabo de toda esperança. Você não pode ter maturação
geneticamente determinada, você não pode ter informação proveniente do meio ambiente,
logo a transição de um estágio a outro é um milagre. Obviamente, isto não pode estar certo. A
escola de Genebra nunca encarou isto.

Há uma espécie de comentário à parte, que poderia ser feito. Isto tem algo a ver com a
tradição de educação superior européia, que é muito hierárquica. Não nas ciências exatas,

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como a física. Na física você nem poderia existir se você fosse desse jeito, então nessa área é
como em todo lugar. Mas quando você sai das ciências exatas, o sistema europeu de educação,
que foi trazido para a América Latina, como você sabe, infelizmente para a América Latina, é
um sistema muito hierárquico. O professor é como se fosse um deus, e as pessoas copiam o
que ele diz, e depois você passa isso para outras pessoas. Bom, deste jeito não vai haver nunca
progresso. Quero dizer, isso é inconcebível. O jeito de haver progresso é quando os alunos se
levantam e dizem a você que você errou. Você cometeu um erro, então você começa a pensar
no caso e descobre que é um erro. Como Jean Roger Vergnaud, que eu mencionei, que era um
antigo aluno meu. Pois ele me escreveu uma carta dizendo: olha, você cometeu um engano, há
uma maneira melhor de fazer isso. OK, é assim que se consegue progresso. E nas ciências isto
é simplesmente dado como certo. Ninguém nem levanta a questão. Mas nas humanidades, na
psicologia, nas ciências sociais, isso não se dá na mesma medida. Assim, é possível haver
erros sérios que se perpetuam para sempre, porque ninguém jamais coloca uma pergunta. "O
Patrão" falou alguma coisa, então você não questiona. E isto é o que aconteceu neste caso.
Acredito que haja aí algumas lições sobre educação em geral. Mas de qualquer maneira: esta
era uma situação impossível, então não podia durar. E para resumir: as teorias particulares que
Piaget desenvolveu não são realmente sustentáveis, não acho, você não pode realmente aceitá-
las e não acho que as pessoas que trabalham na área as aceitem. Por outro lado, o tipo de
investigação de que ele foi pioneiro, e que ele desenvolveu, estas vieram a mostrar-se muito
frutíferas.

6. Se o léxico é parte da gramática, por que dizer que a semântica está na interface, e não
dentro da gramática? E as informações pragmáticas codificadas na língua também não
estariam na gramática?

Bem, vamos olhar a coisa considerando que o sistema está dentro da cabeça. Há uma
faculdade de linguagem lá dentro, de alguma maneira. Mais ou menos do mesmo modo que o
seu rim está dentro do seu corpo. O rim precisa interagir com outros sistemas, então ele tem
que interagir com o sistema circulatório, com o sistema digestivo, e coisa e tal. Então, algumas
coisas estão no rim, se você olha você vê que há um sistema, e há algumas coisas que estão
dentro do sistema e outras que estão fora, mas ele interage com todos os outros órgãos. Agora,
quando você pensa seriamente a respeito de um órgão, o exemplo do rim é um pouco
enganador, porque muitos dos órgãos do corpo você não pode remover. Quero dizer, você
pode remover o rim de dentro do corpo e o corpo continua lá, talvez não funcione muito bem
mas continua lá. Por outro lado, você não pode remover o sistema circulatório do corpo e
continuar tendo um corpo. O sistema circulatório está em toda a parte. Para remover o sistema
circulatório você terá de remover cada célula, por isso você não pode remover o sistema
circulatório. O sistema imunológico, você não pode remover. Ele é apenas uma parte das
células, mas ainda assim é um sistema. E o sistema imunológico interage com outros sistemas.

O sistema lingüístico é a parte do aparato mental que está produzindo expressões de uma
língua, está produzindo expressões como a última sentença que pronunciei antes, que possuía
um determinado som e um determinado significado. Se o sistema lingüístico estivesse lá
sozinho, com nada mais interagindo com ele, você nem saberia que você tem um sistema

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lingüístico. Como por exemplo, talvez os macacos realmente possuam o órgão da linguagem,
mas apenas eles não têm nenhum sistema para acessá-lo, então talvez ele esteja sacolejando
por ali em algum lugar mas eles não podem fazer nada com ele. Isso não é verdade, mas você
poderia imaginar que é verdade. Os seres humanos têm outros sistemas, por exemplo o
sistema articulatório e os sistemas pelos quais organizamos nossa experiência, digamos, nossa
experiência visual. E estes sistemas têm algum tipo de acesso ao sistema lingüístico. É assim
que usamos a linguagem para comunicar nossos pensamentos. Nós podemos exteriorizá-los
através do aparelho sensório-motor articulatório, e outra pessoa pode captar os ruídos no ar
por meio de seus aparelhos perceptuais. E nós possuímos um modo de organizar pensamentos
que nos capacita a pensar pensamentos que podemos enviar a outras pessoas, as quais podem
em seguida pensar mais ou menos os mesmos pensamentos, porque a língua interage com os
seus outros sistemas.

Bem: o que está dentro da língua e o que está fora? Bem, uma expressão típica com
articulação, isto é o que está dentro da língua. Então, tome a semântica. Ela está na interface
ou está dentro do léxico? Bom, os sistemas de pensamento precisam saber o que significa a
expressão lingüística. E eu tenho uma maneira de pensar no mundo. Por exemplo, eu olho e
vejo o mundo organizado de determinada maneira, e meu modo de organizar esta impressão
visual precisa ser capaz de interagir com a expressão produzida por minha língua que diz: "Há
pessoas no auditório". Eu tive que fazer isso. Então, a semântica tem que estar na interface.
Caso contrário eu jamais poderia pensar. Minha expressão nunca teria um pensamento
associado. A semântica está no léxico? Bem, o léxico possui os traços, ou seja, as
propriedades que precisam ser interpretadas na interface. De maneira que se digo "livro" o
léxico contém estes traços que no nível do pensamento, no nível da interface, serão
compreendidos. E a interface compreenderá não somente estes traços, mas também o modo
em que estão organizados. Então uma sentença é uma organização complexa de coisas, e do
seu lado semântico ela deverá ser interpretada, e não somente os traços mas o modo em que
estão organizados, e suas conexões, e tal. A semântica está no léxico no sentido em que os
elementos estão lá, mas ela está também na interface porque é aí que eles são interpretados. A
mesma coisa ocorre com o sistema de sons. A palavra "book", deve haver alguma informação
sobre a palavra para me indicar que em inglês vai sair "book" e em português vai sair -
perdoem a pronúncia - "livre" ou coisa assim. Alguma coisa nessa palavra precisa me indicar
que estes dois conceitos saem para fora diferentemente. E isto é feito pelas propriedades
fonéticas que estão no léxico. Agora, suponha que alguém pergunte: As propriedades
fonéticas estão no léxico ou na interface com os órgãos articuladores? Bem, as duas coisas. Há
algo no léxico que vai dizer aos órgãos articuladores "faça tal e tal coisa". E vai dizer ao
sistema perceptual: "faça tal e tal coisa com o que você ouve". Então está nos dois lugares.

Quanto às propriedades pragmáticas, a pragmática tem a ver com a maneira pela qual o
sistema lingüístico é usado. Para fazer isso, ele precisará saber quais são as propriedades do
sistema lingüístico. Você não pode dizer como se usa um martelo a menos que saiba o que é
um martelo. Você precisa saber que não pode usá-lo como palito de dente, por exemplo.
Porque você tem que saber o que é para saber como usar. E a língua é uma espécie de
instrumento, num certo sentido. E o modo como é usada, que a pragmática tenta estudar,
depende da fonética, da sintaxe e da semântica. Todas estas propriedades entram na maneira
pela qual a linguagem é usada. Então a pragmática é alguma parte da mente que sabe como

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usar coisas que têm determinado som, sentido e forma. Bem, o estudo disto é a pragmática, e
está codificada lá dentro do mesmo jeito. Está como que a um passo de distância da sintaxe,
mais do que a semântica, porque faz uso das interpretações semânticas. Então ela usa os
processos de pensamento para falar sobre como fazer uma pergunta, por exemplo, ou como
conversar com uma pessoa. Você conversa de maneiras diferentes com diferentes pessoas, e a
pragmática lida com estas questões. Mas ela usa tudo isto.

A pragmática está codificada no sistema interno? Bem, esta é uma questão para se descobrir.
Não se pode estipular. É do jeito que é. Talvez sim, talvez não. Então, pode ser que os modos
de falar com diferentes pessoas seja uma coisa codificada no sistema formal. Na verdade, em
algumas línguas sabemos que isso é em parte verdadeiro. Assim, por exemplo, tomem o
japonês, onde há um monte de modos ritualizados de falar com as pessoas dependendo de qual
seja a relação delas com você numa hierarquia de autoridade. Nós fazemos isso em todas as
línguas, mas em japonês é altamente formalizado. Você se dirige de maneira diferente a
alguém que está acima de você do que a alguém que está abaixo. Vocês têm isso em
português, não têm? "o senhor" e "você". Portanto, este é um modo de expressar estas
diferenças. Você fala com uma criança de uma maneira, e com o reitor da universidade de
outra. Em japonês isto é altamente formalizado, e há pequenas partículas, do tipo das flexões,
chamadas honoríficos, e você os coloca em certos lugares, dependendo da sua relação com a
pessoa com quem está falando. Nesse caso, uma parte da pragmática, isto é, como você fala
com as pessoas, está formalizada. Está marcado no interior da linguagem. Quantas outras
coisas estão marcadas, não sabemos. Certamente é verdadeiro de certos estilos de fala,
incluindo a pronúncia, está certamente lá dentro, em algum lugar. Até a altura da voz difere.
Por exemplo, as pessoas falam com uma criança com um tom mais alto de voz. Quando você
fala com seus próprios filhos o seu tom de voz sobe.

As línguas diferem notavelmente em tom característico. Tenho uma filha que é bilingüe em
espanhol e inglês. Mesmo se eu não estiver escutando o que ela diz, sei dizer que língua está
falando apenas pela altura da voz. Se ela está falando espanhol o tom é mais alto, ao menos no
espanhol da Nicarágua, porque as mulheres lá tendem a falar com um tom de voz mais alto do
que nos Estados Unidos, então ela automaticamente muda de tom quando muda de língua.
Então alguma coisa está codificada no sistema lingüístico mesmo, que tem relação com
arranjos sociais complicados. Então está bem: está lá dentro. Mas estas coisas você tem que
descobrir, não pode fazer pronunciamentos a respeito.

2. Perguntas via e-mail1

1. Existe pensamento sem palavras? Em que momento ele se traduz em linguagem?

Não há conhecimento científico sobre essas questões. O que sabemos vem de introspecção,
intuição e outras fontes semelhantes. A sua suposição vale tanto quanto a de qualquer outra
pessoa. A minha própria suposição é a de que existe pensamento não-verbal. A experiência
comum é difícil de entender em outras bases. Para tomar um exemplo apenas, é comum a

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experiência de dizer alguma coisa para depois constatar que não era o que pretendíamos dizer,
donde se conclui que devia haver algo que se pretendia dizer mas não se disse. Às vezes é
preciso tentar várias vezes até conseguir capturar o que se pretende; às vezes não se consegue
mesmo, e temos consciência disso. Portanto, parece que estamos pensando alguma coisa de
forma não-verbal e tentando capturar isso em palavras.

Os conceitos em si mesmos são de tal modo obscuros que é difícil formular questões que
possam ser seriamente investigadas. Por exemplo, o que é pensamento? Algum dia, é possível
que os pontos venham a ser esclarecidos. Mas por ora, é quase tudo mistério.

2. Como o senhor entende a relação entre processamento de linguagem e memória?

O processamento de linguagem requer o acesso ao conhecimento da língua, mas


evidentemente a muitas outras coisas mais. Pode envolver estratégias especiais de
processamento que não são estritamente parte da língua (no sentido estrito de língua-I). E
requer uma memória. Há muitos exemplos de falhas de processamento devidas à estrutura e
limitações da memória, e permanece como um tópico de pesquisa descobrir o que é a
memória, como é usada, se é específica para linguagem, e assim por diante.

3. Qual é a posição do léxico no programa minimalista? E qual a importância da


informação sintática que o léxico envia para a gramática?

O assunto está longe de resolvido. Minha suposição é que o léxico tem um teor bem
tradicional: é a "lista de exceções", em termos tradicionais. Para a palavra "livro", por
exemplo, a entrada lexical indicará suas propriedades semânticas e fonológicas, com sua
associação arbitrária. Qualquer propriedade que seja previsível por regra geral não estará no
léxico. O mesmo com outros elementos.

Mas isto é apenas minha visão. Outras pessoas discordam, como por exemplo meus colegas
Morris Halle e Alec Marantz, que estiveram desenvolvendo uma teoria de "inserção tardia" e
"morfologia distribuída" em que não há léxico no sentido aqui indicado; mas sim, vários
sistemas distintos que fornecem a informação lexical em pontos diversos da computação.
Pessoalmente, não estou convencido de que pontos empíricos reais tenham sido apresentados,
mas esta é provavelmente uma opinião minoritária.

De qualquer forma, as entradas lexicais precisam fornecer todas as propriedades que são
usadas pelo sistema computacional, que no final as converte em representações na interface.
Os traços acessados pela parte não fonológica do sistema computacional são o que se chama
de "traços formais". Há muitas questões interessantes a respeito desses traços, algumas das
quais discuti na conferência. Mas lembrem-se, estas são questões abertas, e há aí muito espaço
para debate e exploração.

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4. Qual é a sua avaliação das línguas de sinais, ou seja, a estrutura das línguas baseadas
no canal visual-gestual?

Parece haver forte evidência de que as línguas de sinais fazem uso do mesmo "órgão" de
linguagem que é usado para a linguagem falada. É claro que há também diferenças: os
sistemas sensório-motores permitem opções diferentes. A pesquisa destes assuntos nos
últimos anos mostrou-se muito reveladora, e estou certo de que ainda há muita coisa a
descobrir.

5. Existe alguma prova de que todos os falantes nativos realmente possuem o mesmo
nível de competência na sua língua?

Na pesquisa empírica, a palavra "prova" está fora de lugar. Somente em matemática há


provas. Assim, o que deveríamos estar perguntando é se há evidência de que todos possuem o
mesmo nível de competência. Mas há um problema com esta formulação também. A noção
"nível de competência" não está definida, e de fato parece uma amálgama de duas noções de
"competência" bem distintas.

Há um sentido técnico do termo, em que ele é usado para referir a um estado da faculdade de
linguagem. É apenas uma outra maneira de fazer referência à língua-I, ou o estado de possuir
uma língua-I específica. Neste sentido do termo, não podemos falar de "nível de
competência".

Há também um sentido informal do termo "competência", quando ele é usado para significar
algo como habilidade. Sem dúvida, as pessoas diferem bastante na habilidade de fazer uso dos
recursos da língua - alguns são poetas, outros não. Mas mesmo aqui, o termo "nível de
competência" está fora de lugar. Há dimensões em demasia. Um grande poeta pode ter falta de
competência para a conversação comum, por exemplo. Em suma, a pergunta requer uma boa
quantidade de clarificação antes de poder ser enfrentada de forma séria. Um número excessivo
de fatores entram em cena, e é necessário que sejam extrincados.

6. Por que o senhor disse que não há nível X-barra?

Em base de assunções minimalistas, esperaríamos que a teoria X-barra não deveria existir,
pois viola o que se chama às vezes de "condição de inclusividade": a condição pela qual a
computação não deveria introduzir traços que já não estivessem presentes no léxico, mas
deveria restringir-se a reunir e reestruturar traços do léxico. Este seguramente seria um
"design melhor". Se esta expectativa é preenchida é contudo uma outra questão. Acho que

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talvez seja, por razões que discuti em outros trabalhos: Bare phrase structure e o capítulo 4 da
coletânea The Minimalist Program. Mas muitos lingüistas conhecidos discordam, e é possível
que estejam certos. É uma questão em aberto em que medida as línguas satisfazem princípios
de bom design - isto é, até que ponto as intuições minimalistas são acertadas.

7. Porque a ligação não está dentro da teoria?

O mesmo que em 6. Se a teoria da ligação estiver dentro da computação, então são necessários
índices ou algo semelhante, o que viola a condição de inclusividade. Há alguns argumentos no
capítulo 1 de Minimalist Program que tentam mostrar que podemos sustentar a assunção
preferível de que a teoria da ligação é externa. E no final do capítulo 3 há argumentos
adicionais defendendo que podemos até melhorar a adequação descritiva e explicativa
assumindo o design melhor, nesse sentido. Porém, novamente, esta é uma questão em aberto e
controvertida.

8. Se eu compreendi bem, regência não existe, c-comando é uma condição não-natural, os


níveis de barra deveriam ser anulados e as antigas regras de estrutura de frase
eliminadas. Isto quer dizer que não há organização estrutural das sentenças? Como eu
deveria lidar com a ambigüidade da sentença "flying planes can be dangerous?"

Com base em assunções minimalistas, regência, níveis de barra e regras de estrutura de frase
não deveriam existir. Estas assunções podem estar ou não corretas. Quanto ao c-comando,
sempre pareceu muito pouco natural, mas como apontou Samuel Epstein, ele fica muito
natural a partir de assunções minimalistas, se tomarmos a abordagem derivacional ao pé da
letra. Visto assim, o c-comando é a relação que existe entre X e partes de Y quando X é
fundido (merged) a Y (e, inversamente, entre Y e as partes de X) . É, portanto, uma relação
que é induzida de modo muito natural pela computação mesma.

Evidentemente, isto não é bem o c-comando tradicional. Assim, se X for fundido não-
ciclicamente - i. é, fundido com um Y que já é parte de uma estrutura maior Z - então não há
relação de c-comando entre X e as partes de Z que estão fora de Y. Este fato foi usado como
argumento para mostrar que a fusão deve ser cíclica (o que significa que Mover-alpha também
deve ser cíclico). A proposta foi trabalhada primeiro por Hisa Kitahara (um aluno de pós-
graduação de Epstein, em Harvard) se não me falha a memória, e foi discutida em sua tese de
doutoramento, alguns artigos e um livro a sair.

Mas mesmo se assumirmos tudo isto, não concluiremos que não há organização estrutural das
sentenças. Antes, existe organização estrutural, porém ela não envolve outras categorias além
de elementos lexicais e os objetos sintáticos construídos a partir deles por Merge e Atrair. No
caso de "flying planes can be dangerous", não há nós NP ou VP, etc., mas a organização
estrutural está lá, conforme desejado, expressa simplesmente em termos dos traços categoriais

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dos elementos lexicais e suas combinações. Os detalhes estão elaborados nos trabalhos citados
acima (Bare Phrase Structure e o capítulo 4 de The Minimalist Program).

9. As representações analíticas da Gramática Universal (Faculdade de Linguagem) têm


se tornado cada vez mais abstratas no modelo. Não seria demais esperar que princípios
tão abstratos possam explicar (restringir) todos os padrões lingüísticos observáveis? Não
haveria uma espécie de "fosso" entre estes dois níveis? Se isto é verdade, sem levar em
conta a contribuição de outros fatores (sócio-históricos, uso etc.) sobre o comportamento
lingüístico, como é possível fazer afirmações seguras sobre o poder de determinação
(restrição) da faculdade de linguagem sobre o comportamento lingüístico?

Se compreendi bem, há aqui duas perguntas: (1) É "esperar demais" que princípios do tipo que
postulamos dêem conta das estruturas possíveis da língua? (2) "Como é possível fazer
afirmações seguras" sobre o modo em que a faculdade lingüística determina o comportamento
lingüístico?

O único meio de responder à pergunta (1) é prosseguindo na investigação da gramática


universal (GU). Estou de acordo com que seria extremamente surpreendente se a GU acabasse
por mostrar ter as propriedades de "bom design" que motivaram o programa minimalista. Para
colocar isto de modo figurativo, seria como dizer que a língua se parece mais com um floco de
neve do que com um pescoço de girafa, se olhada em termos evolucionários. Isto seria muito
surpreendente, sem dúvida, e portanto muito interessante na medida em que for verdadeiro.

Quanto à pergunta (2), não dá para fazer afirmações seguras sobre este tipo de assunto. O
corriqueiro "aspecto criativo do uso da linguagem" fica muito além da pesquisa do tipo que
costumamos chamar de "ciência". A mesma observação se aplica ao uso do sistema visual, do
sistema motor, e assim por diante. Podemos ser capazes de dizer algumas coisas sobre o que
as pessoas terão propensão a dizer ou fazer em determinadas circunstâncias. Por exemplo,
vocês poderiam ter previsto que eu não iria responder a esta pergunta com informação
meteorológica a respeito do tempo em Boston hoje. Porém desconheço o que se possa dizer de
sério sobre tais questões. Tudo isto ainda se mantém verdadeiro se levarmos em conta fatores
sócio-históricos e outros.

10. No Português do Brasil, a inversão sujeito-verbo de modo geral não é permitida.


Contudo, dá resultados gramaticais, tanto em frases afirmativas quanto interrogativas
quando o verbo é inacusativo. Dado o programa minimalista, é possível ter uma classe de
verbos "marcada" de algum modo para que permita que o sujeito cheque seu caso de
maneira encoberta? (isto não é obrigatório, porque as duas ordens, sujeito-verbo e verbo-
sujeito, são possíveis com verbos inacusativos). A inversão do sujeito não é gramatical,
em regra, com todos os demais verbos, com o sujeito checando caso abertamente em
[spec , tp] ou [spec, agrp]. Note que a proposta de caso partitivo de Belletti (1988) não se

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aplica aqui.

A pergunta só pode ser respondida se pudermos olhar os fatos de perto. A descrição, se


entendi bem, dá os fatos como equivalentes aos do francês neste ponto (e, virtualmente, como
os do inglês, exceto que em inglês o objeto de um inacusativo é na verdade extraposto, eu
acho, por razões que não posso discutir aqui - estão no "capítulo 5", ainda não redigido). Se
for assim, não deveria haver razão para assumir mecanismos mais ricos do que os do capítulo
4, portanto nenhuma marcação especial para verbos além da [+/- acusativo]. Mas
possivelmente não compreendi bem o ponto.

1 As perguntas da seção “Via e-mail”, colocadas ao final do evento, acima anexadas ao texto,
foram enviadas ao conferencista e por ele respondidas via e-mail (Miriam Lemle,
organizadora).

© 2002 DELTA

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e


Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997 Como citar


este artigo

Conhecimento da História e construção Teórica na Lingüística


Moderna* **

Noam CHOMSKY

As questões que me foram sugeridas são bastante interessantes1. Elas referem-se ao lugar do
estudo da linguagem dentro das Ciências Humanas em geral, tanto na atualidade como no
decorrer da história. É uma longa história que remete à Grécia e à Índia clássicas e, na minha
opinião, é uma história importante, mas entendida muito superficialmente, mesmo nos dias de
hoje. Pediram para que eu falasse dessas questões de um ponto de vista mais pessoal: como eu
passei a me interessar por esses tópicos? Na verdade, tudo aconteceu quando eu e alguns
outros amigos e colegas da mesma época éramos alunos de pós-graduação, a maioria de nós
em Cambridge, Massachussets. No meu caso, 50 anos atrás.

É possível abordar essas questões de várias formas. Uma delas seria descrever os fatos reais, o
que realmente aconteceu. Como a história do avanço intelectual, tão longa e rica, veio a ter
tamanha importância no trabalho contemporâneo? Uma segunda maneira mais interessante
para abordar a questão seria indagar como as coisas deveriam ter ocorrido num mundo mais
racional do que este em que vivemos. A primeira, ou seja, a seqüência real dos
acontecimentos, não é por si só muito interessante, na minha opinião; ela é uma história que
nunca foi contada corretamente e, como normalmente acontece no mundo real, trata de
eventos casuais e acidentes pessoais, acidentes de histórias pessoais. A segunda questão, ou
seja, como deveria ter acontecido, é muito mais interessante e importante e, certamente, nunca

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foi investigada apropriadamente. Além disso, uma outra colocação interessante é a diferença
entre o que aconteceu de fato e o que deveria ter ocorrido num mundo mais lógico. Tal
diferença nos conta algo sobre o clima intelectual nos Estados Unidos e no restante do mundo
em meados do século XX, e nos leva a algumas explorações das origens sociais e políticas
desse clima. Este também é um tema interessante, uma história que quase nunca é relatada e,
de fato, não é examinada, apesar de ser uma parte muito interessante da história
contemporânea, conforme vem se desenvolvendo desde a Segunda Guerra Mundial. E eu a
considero muito instrutiva. Eu gostaria de mencionar algumas coisas sobre esses temas
mesclando o real e o ideal; em outras palavras, o que realmente ocorreu e o que deveria ter
acontecido.

Na História da Lingüística como um todo, existem bons trabalhos acadêmicos sobre aspectos
particulares mas, na minha visão, eles freqüentemente interpretam erroneamente o que
aconteceu. Desde que o termo ‘Lingüística Cartesiana’ apareceu, devo dizer que há duas
versões para ‘Lingüística Cartesiana’: uma é o livro que escrevi; a outra é uma mitologia
criada a respeito do tema. A mitologia foi a única versão até hoje discutida, a não ser em
trabalhos acadêmicos sérios. A mitologia baseia-se no título. Há muitos artigos denominados
‘a não existência da Lingüística Cartesiana’ e assim por diante, e eu concordo com todos (cf.
Koener & Tajima, 1986:24-26). E se os leitores tivessem chegado até a página 2 do meu livro,
eles entenderiam o porquê. O título é ‘Lingüística Cartesiana’, mas lá pela página 2 eu explico
que Descartes (1596-1650) quase não discutia lingüística. Havia algumas idéias, que foram
desenvolvidas de várias maneiras, inclusive por pessoas que eram notadamente anti-
cartesianas e que não se enquadravam nessa tradição. Eu estou interessado nas idéias. Não me
importa como foi o café da manhã da pessoa que expressou as idéias, ou o que ela leu ontem e
assim por diante, mas sim como as idéias se desenvolveram nas mais diversas tradições. Se
você observar as idéias, encontrará uma continuidade relevante. No meu ponto de vista, um
dos problemas da história intelectual, embora seja chamada de História das Idéias, é que ela
quase não se atem às idéias. Tal história se preocupa com outros fatos, como ‘as influências’,
e ‘quem falou com quem’ etc. Isso oferece uma versão enganosa de como as idéias se
desenvolveram. Você pode observar tal fato no seu próprio trabalho atual. Ou seja, se as
pessoas tentarem desenvolver a história do trabalho que eu conheço muito bem, já que ele me
pertence, baseando-se nos livros de biblioteca e com quem eu falei, etc., poderão ter uma
visão distorcida. Há certas idéias que surgem, são mudadas, modificadas e, a não ser que você
as observe, não entenderá realmente a História das Idéias. Contudo, muitas vezes não é assim
que o tema é abordado. Como eu sempre digo, no momento em que usei a frase ‘Lingüística
Cartesiana’, não estava querendo dizer a ‘Lingüística de Descartes’, que não existe, mas sim o
estudo da linguagem, da psicologia e de temas afins que foram desenvolvidos num arcabouço
mais ou menos cartesiano. Rousseau (1712-1778), por exemplo, não é considerado um
cartesiano. É claro que não. Ele é uma das figuras mais importantes do Romantismo. Mas se
você realmente analisar o que ele escreveu, perceberá que algumas coisas basearam-se em
princípios cartesianos rígidos, que haviam conseguido penetrar na tradição intelectual francesa
e que ele usou, provavelmente inconscientemente, para desenvolver teorias sociais e políticas.
Essa é a História das Idéias, mas na maior parte das vezes, não é a forma como a História
Intelectual é feita. Digamos que há algumas diferenças de abordagem.

Eu gostaria de fazer algumas colocações sobre esses temas - não de forma sistemática; estarei

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mesclando a história real e a história ideal, o que deveria ter ocorrido - fornecendo alguns
exemplos particulares como ilustração. Deixe-me iniciar com um exemplo bastante atual.

Através dos anos, houve muitas ocasiões nas quais as idéias e os pensamentos antigos, há
muito esquecidos, foram recuperados ou revividos, redescobertos ou reestruturados de várias
formas. Um caso bastante recente aconteceu há alguns meses, quando a editora do MIT
publicou um trabalho muito interessante sobre a semântica do léxico. Esse livro, chamado The
Generative Lexicon, foi escrito por um lingüista e especialista em ciência da computação
chamado James Pustejovsky. Ele desenvolveu idéias sobre o significado das palavras
propostas pelo filósofo e acadêmico clássico Julius Moravcsik, meu amigo pessoal. Nós
estudamos juntos na Pós-Graduação, e Moravcsik trouxe tais idéias diretamente da teoria
aristotélica de aitia, que em inglês é normalmente traduzida como "causes" (causas), as
"causas aristotélicas". "Fatores gerativos", "fatores que geram coisas", seriam traduções mais
razoáveis para aitia. Moravcsik reafirmou essas idéias aristotélicas - as quais são metafísicas,
possuem relação com a estrutura do mundo - em termos cognitivos, como ‘Aitiational
Semantics’ (Moravcsik, 1975), a Semântica baseada na teoria aristotélica de aitia. Foi uma
boa alternativa que se encaixa muito bem nos desenvolvimentos absolutamente independentes,
contudo muito importantes, do estudo da linguagem e da mente que aconteceram na Filosofia
Racionalista inspirada por Descartes nos séculos XVII e XVIII, e também na Tradição
Empírica Britânica, desde Thomas Hobbes (1588-1679) até David Hume (1711-1776).

Aqui, mais uma vez, a historiografia padrão é mal direcionada na minha opinião. A principal
figura do empirismo britânico é John Locke (1632-1704), mas a sua visão de linguagem - que
mudou o foco do estudo da linguagem na Inglaterra, da relação entre as palavras e as coisas
para a relação entre as palavras e as idéias, uma conjectura mentalista que foi de importância
crucial - foi muito influenciada pela Gramática de Port-Royal (que possui, dentre outras
origens, uma forte influência cartesiana; Antoine Arnauld (1612-1694), uma das figuras
principais, foi um importante cartesiano e também pelo Neoplatonismo britânico -
particularmente, por Ralph Cudworth (1617-1688), presente no meio - além de derivar-se
também das fontes racionalistas. Quando você observa do ponto de vista dos seus conteúdos,
as tradições racionalistas e empiricistas estão muito mais interligadas do que os cursos de
história comuns ou os livros de história o levariam a acreditar.

Nos séculos XVII e XVIII, esse complexo intrincado da Psicologia e Filosofia racionalistas, e
da Psicologia e Filosofia empiricistas britânicas desenvolveu, dentre outras coisas, idéias
importantes sobre a Semântica Lexical. Há uma relação intrigante com o tipo de Semântica
que Moravcsik sugeriu, através da adaptação da teoria metafísica tradicional de aitia em
Aristóteles, e agora com o recente livro de Pustejovsky. O livro é bastante conhecido e
influente numa área com uma boa parcela de trabalho construtivo e muita controvérsia, mas as
origens não são muito conhecidas, apesar de, nesse caso, serem conhecidas pelo menos por
algumas pessoas, incluindo as que mencionei. É um dos raros casos em que a redescoberta foi
consciente. Ou seja, foi uma conscientização das idéias tradicionais que foram remodeladas
dentro de uma abordagem da Semântica Lexical, a qual, na minha visão, é muito produtiva e
é, provavelmente, a abordagem correta.

Esse trabalho sobre o Léxico Gerativo faz parte de uma área maior denominada Gramática

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Gerativa, cuja intenção é abranger o estudo da linguagem de modo bem genérico: o estudo da
forma e do significado, o estudo da estrutura da linguagem, todas as áreas da fonologia,
morfologia, sintaxe, semântica, pragmática etc. Esse estudo tomou forma a partir do final da
década de 40, e ocorreu ignorando completamente a história. Eu mesmo posso atestar tal fato.
Não havia nenhum conhecimento da história, nem de minha parte nem da parte de nenhum
membro da área naquela época. Se eles a conheciam, ela estava tão aprofundada nas suas
mentes que nunca a trouxeram à tona. E isso é, de fato, interessante.

Na verdade, a Gramática Gerativa inicial do fim da década de 40 reviveu e remodelou as


idéias que provavelmente tinham recebido sua mais rica expressão na Índia, 2500 anos antes,
na tradição de Panini, o famoso gramático hindu. Em parte, a Gramática Gerativa reviveu e
remodelou idéias que se desenvolveram na revolução científica do século XVII, com muitas
ramificações no estudo da linguagem e da mente, no pensamento e também na ação sociais e
políticos. Idéias que se alimentaram da Revolução Francesa e da Revolução Americana e de
outros desenvolvimentos, incluindo as revoluções nacionalistas, as revoluções anti-
colonialistas na América do Sul. Agora, algumas dessas ligações são familiares. Pelo menos,
alguns trabalhos estão em andamento. Naquele tempo tudo isso era desconhecido. Alguns
trabalhos acadêmicos importantes sobre a gramática hindu clássica têm sido elaborados,
influenciados por perspectivas bem contemporâneas. Há também algumas investigações sobre
a tradição dos séculos XVII e XVIII, muitas delas extremamente enganosas no meu ponto de
vista, por razões que já mencionei; mas há outras bastante sérias. Pelo menos, agora os textos
estão disponíveis. Trinta ou quarenta anos atrás, eu precisei ir ao Museu Britânico para
encontrar textos comuns que não existiam nos Estados Unidos. Agora eles estão disponíveis e
há alguns bons estudos acadêmicos, apesar de que, para mim, os temas ainda não são bem
conhecidos e entendidos.

Contudo, voltando à década de 40, a ignorância era total e, na verdade, digna de chamar a
atenção. Eu vou mudar por um momento para uma perspectiva pessoal. Iniciei os meus
trabalhos a respeito desses temas no final dos anos 40, quando eu tinha 17 ou 18 anos e era
aluno de Graduação na Universidade da Pensilvânia. Felizmente, eu tinha muito pouca base
em Lingüística ou em qualquer outra coisa. Então, principiei meus estudos sem nenhum
preconceito, apenas fazendo aquilo que parecia lógico. E o que parecia lógico era a Gramática
Gerativa. O principal trabalho que fiz, basicamente sozinho, na Graduação, foi sobre a
Gramática Gerativa de uma língua que eu conhecia, o hebraico moderno. Ao invés de usar as
formas da Lingüística Estrutural como nos ensinaram, e que não faziam muito sentido para
mim, trabalhei de um modo que me pareceu mais natural, e escrevi uma Gramática Gerativa
detalhada do Hebraico Moderno (Chomsky, 1951), concentrando-me mais na morfologia e
fonologia. O resultado final é muito semelhante aos tipos de trabalhos gramaticais que Panini
havia feito sobre sânscrito 2500 anos antes. O corpo docente da Universidade onde eu estava
era muito renomado, com alguns dos principais lingüistas do país e do mundo. Um deles era
um semitista bastante famoso, além de ser um dos principais teóricos em Lingüística
Estrutural Americana moderna2. O outro era um lingüista histórico proeminente e também um
acadêmico da tradição hindu3 . Nenhum deles apontou-me as relações, e eu não acredito que
eles estivessem cientes da existência das mesmas, apesar de que elas deveriam estar em algum
canto das suas mentes.

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Naquela época, a figura principal na Lingüística Americana, o grande mestre, era Leonard
Bloomfield (1887-1949). Bloomfield era uma pessoa muito interessante, o fundador da
Lingüística Americana moderna, a Lingüística Estrutural. Os membros do corpo docente na
minha Universidade eram todos seus alunos e amigos. Mas Bloomfield aparentemente sofria
de esquizofrenia. Ele era um lingüista americano com profundas raízes no positivismo lógico,
no behaviorismo, em todas as idéias que estavam na moda na época, e que eram vistas como
ciência exata. Mas em algum outro lugar em sua mente ele era um acadêmico tradicional e,
coincidentemente, muito versado em estudos hindus. Ele certamente conhecia a tradição
Paniniana. Em 1939, na verdade, Bloomfield escreveu uma gramática gerativa da língua
indígena americana Menomini, bem ao estilo de Panini. Aquele trabalho, apesar dele ser o
principal lingüista americano, não era conhecido nos Estados Unidos, a não ser pelos seus
alunos mais próximos. Na verdade, quando Bloomfield morreu, alguns anos depois, um dos
seus principais alunos realizou um amplo estudo do seu trabalho sobre as línguas
algonquianas, e tal trabalho foi omitido4 . Não foi sequer listado. Na verdade, ele publicou
esse artigo em Travaux du Cercle Linguistique de Prague, na Checoslováquia (Bloomfield,
1939).

Eu não conheci Bloomfield pessoalmente. Mas fazendo um retrospecto, o que eu gostaria de


ter perguntado é se ele publicou aquele estudo em Praga porque não era o tipo de trabalho que
os lingüistas menos abertos a outras perspectivas faziam nos Estados Unidos. Se você
observar as suas idéias, verá que sua esquizofrenia era bastante profunda. No seu principal
livro, Language (Bloomfield, 1933), o texto mais importante da Lingüística americana
moderna, ele é bem crítico no que diz respeito ao conceito das estruturas ocultas, regras
ordenadas e esse tipo de coisa: "isso é mentalismo à moda antiga, nós queremos nos livrar
dessa louca bagagem ideológica". Por outro lado, se você olhar para a sua gramática do
Menomini, sua gramática gerativa na tradição Paniniana, encontrará muitas estruturas ocultas
e regras ordenadas. Isso é precisamente o que ele rejeita como sem sentido no seu trabalho
teórico, publicado exatamente no mesmo período.

O que é mais estranho é que ninguém apontou para mim, um jovem aluno de Graduação que
estava elaborando um trabalho, que alguns anos antes, a principal figura da Lingüística
americana já havia feito algo semelhante numa outra língua. Eu fui descobrir isso quase vinte
anos depois, quando me interessei pela História da Lingüística. Isso faz parte do terceiro tema
que mencionei, a diferença entre o que realmente aconteceu e o que deveria ter acontecido. Ou
seja, a origem Paniniana da Gramática Gerativa, que é muito significativa e que agora é
entendida (cf.,e.g., Kiparsky, 1979), apesar de não ter tido nenhuma influência naquela época.

Uma outra fonte importante, a Lingüística do século XVII e os seus desenvolvimentos


posteriores, que denominei ‘Lingüistica Cartesiana’, mas no sentido especial que eu
mencionei, levou à tradição da chamada ‘Gramática Universal’, às vezes denominada
‘Gramática Racional e Filosófica’. Sua concepção básica era a de que há uma "noção de
estrutura" na mente da pessoa. Eu e você temos algum tipo de noção de estrutura em nossas
mentes e gostaríamos de saber qual é a natureza dessa noção de estrutura, qual a sua origem,
como ela chegou lá, e o que é. Essa noção de estrutura nos permite criar "expressões livres".
Nós podemos dizer coisas novas, diferentes de quaisquer outras da nossa história ou mesmo

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da história da nossa língua. Essas expressões novas não são determinadas, não são causadas,
não são determinadas mecanicamente como acontence com as máquinas. Elas não são
determinadas pelo nosso estado interior nem pelo nosso ambiente externo. Elas são, sem
dúvida, influenciadas pelo nosso estado interior e pelo meio externo, mas não são forçadas por
eles. De alguma maneira nós fazemos uma escolha dentro daquele espectro, mas selecionamos
tipicamente de uma forma que não é causada pelas situações, mas apropriada às situações.
Essas propriedades de não serem causadas mas apropriadas, ilimitadas mas não randomizadas,
evocando pensamentos comparáveis nas outras pessoas - essas são as propriedades das
expressões livres. Para Descartes, essa é a diferença fundamental entre o homem e a máquina,
entre o homem e o animal. Isso remete diretamente a Rousseau e ao Romantismo por um bom
período, de maneiras ainda não muito bem entendidas. Uma das razões disso, por exemplo, no
caso de Descartes e Rousseau, pode ser porque Rousseau é considerado a principal figura do
Romantismo, e o Romantismo é considerado como uma crítica ao Racionalismo. Portanto, são
estudados sob pontos de vista diferentes. E está certo, eles são diferentes. Contudo, você passa
desapercebido pelo fato de que algumas idéias cruciais nas quais Rousseau baseou suas teorias
sociais do livre-arbítrio envolvem uma distinção entre homem e máquina que remetem a
Descartes.

De qualquer forma, a Gramática Racional e Filosófica preocupava-se com as seguintes idéias:


a noção da estrutura da mente, sua origem, sua natureza, a forma como é usada para construir
expressões livres. A questão implicava tanto a chamada Gramática Universal, que é comum a
todas as línguas, como a Gramática Específica, cujas propriedades são específicas de uma ou
outra língua.

Isso que eu estou citando na verdade vem do último representante dessa tradição, Otto
Jespersen (1860-1943), um renomado lingüista dinamarquês do começo deste século. A
tradição durou entre os séculos XVII e XVIII, enfraqueceu-se e, no início do século XX,
quase desapareceu. Jespersen talvez tenha sido a última figura principal. O livro ao qual estou
me referindo é de 1924 - que veio a ser o ano da fundação da Sociedade de Lingüística da
América, que enveredou por um caminho totalmente diferente, Lingüística Estruturalista e
Antropológica. Leonard Bloomfield, a figura principal, estava ciente de tudo isso, ele na
verdade resenhou Jespersen (Bloomfield, 1922) e o elogiou, mas todo esse conhecimento
desapareceu. Mesmo o trabalho de Edward Sapir (1884-1939), que foi a outra figura de
destaque na Lingüística Americana moderna, basicamente desapareceu. O seu trabalho
também envolvia estruturas mentais subjacentes, regras ordenadas, padrões sonoros abstratos
etc., mas na época em que eu era aluno, no fim dos anos 40, isso já era ignorado e descartado,
embora todos que estudaram com Sapir - ele era muito admirado - tivessem lido o que ele
escreveu.

Descobri Jespersen por conta própria, como aluno. Pesquisando numa biblioteca, eu achei
seus livros, que pareciam intrigantes e, então, resolvi levá-los para ler. Eu acho que nunca
disse isso para ninguém. Parecia algo tão longe daquilo que estava acontecendo que resolvi
estudá-lo por curiosidade pessoal minha. O extenso estudo lingüístico de Jespersen foi
retomado na Gramática Gerativa no MIT graças à visita de um acadêmico israelense que, por
acaso, era um especialista em línguas Hamíticas e Semíticas5 . Ele tinha uma formação
acadêmica clássica européia, conhecia o trabalho de Jespersen e nos fez um relato. Nós nos

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interessamos pelo assunto e as pessoas começaram a estudar os trabalhos detalhados sobre a


gramática de Jespersen. Foi assim que as coisas aconteceram, não como deveriam ter
acontecido.

Quando eu e Morris Halle escrevemos Sound Patterns of English, mais ou menos em 1966,
conscientemente tomamos como modelo Panini e Sapir, e desde o início dos anos 60, temos
trabalhado sobre o desenvolvimento das idéias cartesianas iniciais sobre linguagem, o que
chamei de ‘Lingüística Cartesiana’, incluindo as formas que elas tomaram no Empirismo
Britânico no período Romântico, Wilhelm von Humboldt (1767-1835) e outros. Parte desse
trabalho é revisto em Cartesian Linguistics. Portanto, até então, a integração da área era
consciente, mas isso foi depois que a maior parte do trabalho já havia sido concluída. As
origens foram descobertas após terem sido redescobertas, e não é assim que as coisas
deveriam ter acontecido. Deveria ter sido bem diferente.

Particularmente, uma idéia central para a tradição do século XVII foi a da coleção de
propriedades das expressões livres citadas anteriormente. Isso foi vital para o pensamento
cartesiano e para os desenvolvimentos provenientes dele até o Romantismo. A frase usada por
Wilhelm von Humboldt no início do século XIX para essa idéia era que a linguagem envolvia
"usos infinitos de meios finitos". E isso é verdade. Você tem meios finitos porque o seu
cérebro é finito, mas você o utiliza infinitamente, de forma criativa. E isso parece um
paradoxo. Como poderia ser possível? Uma das razões pelas quais tal trabalho não prosseguiu
foi a ausência de uma maneira para expressar tal conceito e tornar o seu significado claro.
Bem, em meados do século XX, uma parte do problema havia sido resolvida. Nas ciências
formais, como a Matemática e a Teoria da Computação, alguns aspectos da idéia do uso
infinito de meios finitos foram bem esclarecidos. Na verdade, na época em que eu era aluno,
isso era um hábito e descobriu-se que era exatamente a idéia necessária para que se retornasse
aos interesses tradicionais da Gramática Gerativa e da Gramática Universal, abordando-as de
uma forma mais construtiva. Era possível tornar explícitas as noções vagas e obscuras que já
tinham sido notadas na fase anterior, mas de uma maneira onde pouco poderia ser feito.
Houve muitas conversas interessantes e comentários sugestivos, mas só alguns avanços
construtivos limitados.

Podemos passar ao que deveria ter sido, ou seja, a história ideal. Nela, a Gramática Gerativa
dos anos 40 e 50 deveria ter sido uma espécie de agrupamento, uma confluência das visões
tradicionais, as quais eram bastante vagas e obscuras, com um instrumental de conceitos que
havia sido desenvolvido pelas ciências formais, e que passaram a permitir que essas idéias
tradicionais fossem captadas e estudadas, pelo menos em parte. Essa é a forma como o assunto
deveria ter sido desenvolvido, junto com o reconhecimento das raízes Paninianas na Índia
clássica, onde parte do tema foi trabalhado num estilo muito preciso, mas sem alcançar o uso
infinito dos meios finitos. A ignorância do passado no caso da Lingüística é notável, mas foi
parte de algo muito mais geral - novamente retorno para a minha história pessoal.

Quando eu era aluno de pós-graduação na Universidade de Harvard, estava na verdade


estudando principalmente filosofia, com figuras que eram líderes na área, Willard V.O. Quine
(1908- ) e outros. Eu estava em Cambridge, Massachussetts, considerado um dos principais
centros da Filosofia Contemporânea. Eles tinham os melhores alunos, que agora lecionam no

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mundo todo. Nós não líamos muito, nunca nos foi pedido para lermos alguma coisa na
tradição. Nós líamos aquilo que os nossos professores interessavam-se em discutir. Lemos os
últimos trabalhos de Rudolf Carnap (1891-1970), porque Quine criticava-o; estávamos
familiarizados com o Positivismo Lógico porque estava sob discussão pelos filósofos lidos na
época. Estávamos familiarizados com os últimos trabalhos de Ludwig Wittgenstein (1889-
1951), o seu trabalho estava começando a ser conhecido; e também com os filósofos de
Oxford, Inglaterra, que era um centro importante. As pessoas circulavam entre Cambridge,
Massachusetts, Cambridge, Inglaterra, Oxford e, assim, acontecia um amplo intercâmbio.
Todo aquele trabalho em andamento era conhecido. Liam-se os primeiros trabalhos de
Bertrand Russel (1872-1970) - aliás, não os primeiros trabalhos de Russell, e sim os últimos -
Gottlob Frege (1848-1925), a lógica moderna, suas raízes e não muito mais do que isso. Nós
sabíamos que existia alguém chamado Hume, Locke, os pré-socráticos, esse tipo de coisa.
Mas não conhecíamos ou entendíamos bem tais vertentes e, aliás, elas ainda não são estudadas
profundamente, mesmo em muitos dos melhores programas. A ignorância do passado não se
restringia à lingüística. Também era uma verdade para a Filosofia em geral e, de fato, reflete
algo bem geral sobre o meio cultural que já mencionei. Quaisquer que sejam as razões para
esse isolamento intelectual - esse é um outro tema interessante sobre o qual eu poderei falar
mais tarde, se vocês quiserem - ele é um fato e um problema que hoje está resolvido apenas
em parte.

Apenas para ilustrar como esse isolamento foi profundo, novamente com um exemplo pessoal,
no início dos anos 60, provavelmente em 62 ou 63, um filósofo clássico muito conhecido de
Princeton, Gregory Vlastos, veio para Boston para dar uma palestra. A sua palestra era sobre o
diálogo Meno de Platão, o famoso diálogo em que Platão descreve como um menino escravo
conhecia a Geometria, mesmo sem nenhuma experiência. Ele demonstrou isso simplesmente
perguntando ao garoto uma série de questões, não dando nenhuma informação e conseguindo
obter do menino escravo, que não era escolarizado, um conhecimento sobre Geometria, o que
significa que isso sempre esteve lá, escondido em algum lugar. Eu, Julius Moravscik e alguns
outros amigos fomos assistir à palestra e houve um confronto estranho. Vlastos fez um relato
acadêmico do diálogo, mas apresentou-o como se fosse algo absurdo e ridículo, como se
quisesse se desculpar por nos importunar com aquele tipo de coisa. Nós éramos jovens e
tínhamos recém terminado o curso de pós-graduação. Nós nos colocamos contrários a sua
visão. Levantamos questões e dissemos ‘não, é um assunto muito sério’ e, de fato, está
correto, é o jeito como as coisas realmente funcionam. Platão estava essencialmente correto.
Vlastos surpreendeu-se, na verdade ele também acreditava naquilo, mas sabia que no meio
cultural da época, ninguém dizia coisas como aquela. Afinal, essa é a era das ciências exatas,
o comportamento pode ser investigado mas não idéias místicas e estranhas. Ele ficou surpreso
ao ver jovens vindos do centro da vida acadêmica tomando aquilo a sério e dizendo que
aquela era a forma como as coisas funcionavam. Mais tarde nós saímos e tomamos uma
cerveja juntos, falamos sobre o assunto e começamos a travar um relacionamento de amizade.
Mas ele ficou espantado por ter descoberto que jovens estavam interessados de verdade no
tema e que concordavam com ele, com suas visões secretas de que aquilo estava
verdadeiramente correto, e realmente está. (cf. Vlastos, 1973)

Aquela foi parte da base para a Revolução Cognitiva, que reconstruiu tais idéias de várias
maneiras. Agora nós não falamos mais em reminiscências de uma vida passada, que era a

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explicação de Platão. Ao invés disso, falamos em herança genética. Mas se você quer saber
mesmo, isso é tão misterioso como as reminiscências de Platão. Nos dias de hoje soa
científico, mas ninguém tem idéia do que seja. Então, ela é a contrapartida contemporânea das
reminiscências de Platão, com a esperança de que alguém de algum jeito achará a base na
Bioquímica. Mais uma vez, isso demonstra o isolamento dominante naquela época. Isso nos
remete à chamada Revolução Cognitiva da década de 50, da qual a Gramática Gerativa foi
uma parte. Ela contribuiu para a Gramática Gerativa e aproveitou-se dela. As pessoas
realmente a chamam de Revolução Cognitiva; eu nunca a chamei assim, pessoalmente eu não
a denomino assim porque eu não acho que tenha sido uma revolução. Foi uma redescoberta e,
de fato, parece-me que se você observá-la apropriadamente, talvez tenha sido uma segunda
Revolução Cognitiva, muito semelhante em várias formas ao que estava acontecendo durante
a primeira Revolução Científica do século XVII, que mudou radicalmente a visão de mundo.
Descartes e outros estudaram praticamente os mesmos temas que se tornaram o centro das
atenções nos anos 50, principalmente a visão e a linguagem, que eram os dois temas principais
de estudo, tanto na época como atualmente, por caminhos que não foram diferentes da
maneira como eles começaram a ser estudados na segunda Revolução Cognitiva dos anos 50.

Essa mudança, não importa se a chamemos ou não de revolução, realmente mudou a


perspectiva. Na época, o tema de estudo eram coisas que você podia mais ou menos ver.
Então, o Estruturalismo estudou os padrões que podiam ser observados; era fenomenalista;
para alguns, como Jakobson, conscientemente fenomenalista. Você deveria perceber as
características e você via suas estruturas, então era mais ou menos como estudar a forma de
um floco de neve. Você vê a estrutura, olha as partes, mas não os princípios que determinam
essas formas curiosas. O Estruturalismo é assim. A outra principal tendência era behaviorista.
Você olha o comportamento, as ações observáveis. A área genérica dos estudos sociais,
História e Ciência Política, Linguagem e Antropologia, eram chamadas de Ciências
Behavioristas, porque estudavam o comportamento. Estudava-se o comportamento, ou os
padrões e as estruturas. A Lingüística investigava um corpus de textos reais que eram
analisados por partes e suas distribuições, concentrando-se em coisas observáveis. Isso era,
supostamente, bastante lógico e científico, o que é muito curioso, já que as ciências não fazem
nada disso, e na verdade, talvez não façam isso desde a Astronomia Babilônica. O que as
ciências estudam são os mecanismos interiores, as estruturas ocultas, que explicam alguns dos
fenômenos observados. Mas os fenômenos observados em si não têm interesse. A razão pela
qual as pessoas fazem experimentos, e há fenômenos observáveis suficientes no mundo para
que pudéssemos descrevê-los eternamente, é porque os fenômenos observáveis são na sua
maioria inúteis, não dizem nada. Se você quiser obter respostas específicas para questões
teóricas específicas, isso implica em que você deve inventar os fenômenos que tentará
explicar. Por muitos milhares de anos, as ciências não procuraram o caminho que foi
considerado como científico e tomado como modelo pelas Ciências Behavioristas e pelo
Estruturalismo, o que é, novamente, uma anomalia curiosa.

A Revolução Cognitiva mudou a perspectiva do estudo do comportamento das estruturas, dos


padrões, do texto para o estudo dos mecanismos interiores da mente que respondem por esses
fenômenos e, muito mais, mecanismos que estão na sua maioria ocultos. Então, foi o tema da
investigação que mudou. O que antes era o tema agora são apenas os dados, talvez dados
bons, talvez dados ruins, mas são apenas como as coisas que você observa quando está

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caminhando pela sala; não são um tema. Desse ponto de vista, as Ciências Behavioristas são
uma área muito estranha. É como se você chamasse a Física de ‘ciência da leitura de
medidores’, porque em Física as pessoas lêem medidores. Mas a Física não é uma ciência da
leitura de medidores. Você lê medidores porque eles lhe dizem algo. A Física é o estudo
daquilo que eles estão dizendo para você. A ciência behaviorista era apenas o estudo dos
‘medidores’, e o Estruturalismo era o estudo da forma dos flocos de neve, porém não dos
princípios que fazem as coisas serem flocos de neve.

Isso foi uma mudança importante e, com tal mudança, foi possível reviver as idéias
tradicionais que retomam a Gramática Universal e o século XVII. O Estruturalismo
Saussuriano foi certamente importante, mas principalmente fora da Lingüística. Ele teve a sua
importância na antropologia, história e literatura, mas na Lingüística teve um impacto por
pouco tempo, com exceção do estudo dos sistemas sonoros. Nesse caso houve um progresso,
pois existiam padrões interessantes. Porém, se você olhar para a Lingüística Saussuriana, ela
nem tinha um lugar para o conceito de sentença. Pode-se dizer que o conceito de Sentença tem
uma existência um pouco desconfortável entre langue e parole. Não se encaixa realmente em
nenhum desses conceitos. Mas você não pode ter um estudo da língua que não inclua o
conceito de sentença, ou pelo menos de frase. E isso não está lá. Está excluído da abordagem
bastante estreita, rígida e realmente superficial da linguagem que foi adotada no
Estruturalismo Saussuriano, que desapareceu quase sem impacto no estudo da linguagem, a
não ser pelos sistemas sonoros, onde surgiram descobertas interessantes sobre padrões, e
algumas outras áreas. Eu não quero exagerar.

A segunda Revolução Cognitiva redescobriu independentemente, na ignorância, muitas idéias


e insights da Revolução Científica dos séculos XVII e XVIII, relacionados principalmente à
visão e à linguagem, conforme eu mencionei anteriormente. Na realidade, o estudo da visão
reconstruiu muitas idéias cartesianas sobre sistemas computacionais de visão, sobre a
utilização dos recursos internos da mente para a construção de padrões e modelos, a partir dos
quais a experiência é interpretada. Mais tarde, essas idéias entraram para a filosofia moderna,
principalmente através de Kant, mas elas são, na verdade, idéias cartesianas, muito bem
desenvolvidas durante o Neoplatonismo do século XVII. Conforme sugerido por (Arthur
Oncker) Lovejoy (1873-1962), é possível que Kant tenha tirado essas idéias daí, dando a elas
uma forma diferente. Isso foi redescoberto de maneira isolada na teoria da visão do século
XX, mas não terei tempo de entrar em detalhes sobre o modo como isso aconteceu. No estudo
da linguagem, as idéias de expressões livres, do aspecto criativo da linguagem, novamente
tornaram-se centrais. No século XVII, os filósofos cartesianos - o mais importante
provavelmente foi Géraud de Cordemoy (1626-1684) - desenvolveram testes para determinar
se outras criaturas possuíam mente. Nós temos uma teoria do mundo segundo a qual existe
mente e corpo, e queremos saber, queremos um teste que decida se algo tem mente. É como se
você fosse um químico e tivesse ácidos e bases, e quisesse saber se uma substância é um ácido
ou uma base. Coloca-se um pedaço de papel tornassol na substância, e se ele ficar vermelho a
substância é um ácido, se ficar azul é uma base. Queremos um teste de tornassol para mente e
corpo, e Cordemoy e outros cartesianos propuseram testes para verificar se outras criaturas
possuíam mentes, tipicamente testes de linguagem. Eles investigaram o aspecto criativo do
uso da linguagem. E chegaram à conclusão razoável de que, se a criatura passasse nos testes
mais difíceis que você pudesse inventar para verificar a presença das propriedades estranhas

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do uso da linguagem, então seria perfeitamente razoável presumir que ela possuía uma mente
como a nossa. Isso é ciência padrão, comum, como a química. É o jeito de decidir se uma
determinada substância possui uma certa propriedade.

Havia, também, uma boa razão para presumir que o mundo era dividido em mente e corpo.
Essa razão era o que na época foi chamado de ‘filosofia mecânica’. Lembre-se que, na época,
‘filosofia’ significava "ciência"; portanto, ciência mecânica. Ciência mecânica era a idéia de
que o mundo era uma grande máquina, grande e complicada, como um relógio, mas muito
mais complexa, que poderia, em princípio, ser construída por um mestre artesão. Na verdade,
a máquina foi construída por um super mestre artesão, de acordo com as idéias da época. Mas,
em princípio, você poderia construí-la. De Galileu a Descartes e Christiaan Huygens (1629-
1693), e outros cientistas do século XVII - basicamente, de Galileu a Newton - essa foi a
concepção de mundo. Essa é a origem da ciência moderna: o mundo é uma máquina. Mas era
óbvio que essas propriedades da mente, como o aspecto criativo do uso da linguagem, não
poderiam ser realizadas em uma máquina; isso está certo, não podem mesmo. Assim, os
cartesianos postularam um outro princípio além das máquinas: as propriedades da mente.
Tudo isso é ciência lógica. Foi provado que estava errada, mas isso ocorre com quase tudo na
ciência; então, já era de se esperar. Mas era ciência perfeitamente lógica e, naquele contexto,
queriam um teste, um teste de tornassol. Há uma certa semelhança com o que hoje chamamos
de Teste Turing para inteligência artificial, assim chamado em homenagem a Alan Mathison
Turing (1912-1954), famoso matemático britânico, um dos fundadores da ciência da
computação, entre outras coisas. O Teste Turing é, supostamente, uma maneira de tentar
verificar se uma máquina está exibindo comportamento inteligente. Porém, há uma diferença
significativa entre o Teste Turing e os testes do século XVII. Os testes do século XVII eram
ciência perfeitamente lógica; o Teste Turing é algo bem diferente. Além disso, Turing tinha
consciência desse fato. Turing era um homem esperto. Ele escreveu um artigo muito
importante em 1950, que é a base da inteligência artificial moderna, das máquinas que jogam
xadrez, esse tipo de coisa (Turing, 1950). Grande parte da discussão sobre se as máquinas têm
inteligência ou não seria evitada se as pessoas lessem o artigo de Turing, ao invés de olhar
apenas para o teste inventado por ele. Turing chamou atenção para o fato de que investigar se
as máquinas pensam é uma questão "inexpressiva demais para merecer discussão". Portanto,
ele não estava interessado em saber se as máquinas pensam, pois é uma questão sem sentido.
É como perguntar se os submarinos nadam. Se você quiser chamar isso de "nadar", tudo bem,
é nadar; se não quiser, não é nadar, mas essa não é uma questão factual. É como perguntar se
o ônibus espacial voa. Se você quiser usar a palavra "voar" para isso, tudo bem, se não quiser,
tudo bem também. Para Turing, essa questão não tinha sentido, e ele estava certo, não tem
sentido mesmo. Isso se deve ao fato de que a palavra "pensar" é usada para pessoas, assim
como a palavra "nadar" é usada para peixes, não para submarinos. Hoje, não tem sentido
querer saber se as máquinas pensam mas, infelizmente, há muita discussão sobre essa não-
questão; na verdade, é um dos temas mais importantes na Filosofia contemporânea e na
Ciência Cognitiva. Mas não faz sentido algum, como Turing reconheceu. Já as discussões do
século XVII faziam total sentido, pois naquela época, era uma questão científica. Eles
presumiam que havia duas substâncias - mente e corpo -, e fazia total sentido verificar se uma
coisa possuía uma propriedade ou a outra. Portanto, nesse caso, não houve um
redescobrimento, mas uma regressão. Estamos abaixo do nível de compreensão que havia sido
atingido no século XVII, embora, como eu disse, Turing tenha sido claro a respeito do

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assunto.

Voltando ao século XVII, a razão pela qual isso deixou de ser uma questão foi a grande
descoberta de Newton de que a Filosofia Mecânica estava errada. O mundo não é uma
máquina. Newton não demonstrou que havia algo errado com a mente. Isso estava correto. O
que ele demonstrou é que não há máquinas no mundo. O mundo é governado por o que ele
chamou de uma propriedade oculta, uma propriedade mística chamada ‘atração à distância’.
Newton considerou isso um completo absurdo, e seus contemporâneos também, mas
infelizmente, era verdade. O mundo está baseado simplesmente numa força mística. Você não
pode construir um mundo porque ele está baseado numa propriedade mística, a ‘atração à
distância’. Alguns anos depois, por volta de 1700, as pessoas estavam descobrindo outras
forças místicas, como a atração e a repulsão elétricas, coisas também totalmente místicas, não
máquinas. Depois disso, a ciência simplesmente continuou em seu próprio caminho,
construindo um conceito místico depois do outro, abandonando qualquer esperança de
compreensão humana, no sentido que havia sido procurado, porque tudo havia desaparecido.
Não temos uma compreensão intuitiva da ciência desde Newton. Nós apenas descobrimos
coisas que parecem explicar o mundo, não importa o quão absurdas elas soem.

Nesse estágio, não resta corpo, não restam máquinas. Não dá para postular uma segunda
substância baseando-se no argumento de que a mente não é corpo, porque nada é corpo.
Então, o problema mente/corpo desapareceu, e com ele os testes cartesianos, pois não existe
nenhum corpo. Não há nada físico, no sentido antigo; há apenas o mundo em todos os seus
aspectos, incluindo os aspectos mentais, elétricos, químicos e assim por diante. Desde aquela
época, os testes cartesianos para verificar a existência de outras mentes não fazem mais
sentido, mas as idéias estavam corretas: o aspecto criativo do uso da linguagem parece ser um
fato, uma das propriedades estranhas do mundo, como a atração à distância, ou a repulsão
elétrica, ou outras propriedades ainda mais estranhas que foram descobertas desde então.

Por volta daquele época, um pouco antes de Newton, antes dessa descoberta terrível, chocante
ser feita - e foi um grande choque - a Gramática de Port-Royal apareceu. A Gramática de Port-
Royal e a Lógica, surgiram por volta de 1660, em parte sob a influência cartesiana, em parte
sob a influência da gramática renascentista (aliás, como foi apontado em Cartesian
Linguistics). Sob essas influências, idéias interessantes foram desenvolvidas, incluindo o
conceito de sentido e referência, fundamental para a lógica e a matemática modernas,
redescoberto por Frege. A teoria das relações foi desenvolvida de maneira um tanto quanto
rudimentar. No tocante à linguagem, foi a primeira exposição real do que mais tarde passaria a
ser chamado de Gramática da Estrutura da Frase e Regras Transformacionais. De alguma
forma, e de forma bastante interessante, isso já estava presente na Gramática de Port-Royal.

Devo dizer que a Gramática de Port-Royal (Arnauld & Lancelot, 1660) é freqüentemente mal-
interpretada, mesmo em trabalhos acadêmicos contemporâneos, assim como o conjunto da
tradição da Gramática Universal e da Gramática Racional e Filosófica. Muitas pessoas acham
que os gramáticos de Port-Royal estavam tentando encontrar um tipo perfeito de linguagem,
uma linguagem racional, não essas coisas erradas que as pessoas falam. Mas isso
simplesmente não é verdade; é um mal-entendido com relação ao que "filosófica" e "racional"
significavam. Naquela época, "filosófica" significava o que hoje chamaríamos de "científica".

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Racional significava em parte o que significa hoje, embora agora possamos dizer "formal" ou
"explícita". A gramática racional não diz apenas "isto acontece", "aquilo acontece"; ela tenta
fazer isso de maneira precisa e procura dar os motivos. A Gramática Universal é uma
gramática precisa, científica. Não estava preocupada com línguas perfeitas, mas com o
vernáculo, com as línguas faladas. Isso ficou bem claro.

Por acaso, esse trabalho foi escrito em francês, o que, para a época, foi importante. Até pouco
tempo atrás, escrevia-se em latim, mas agora era em francês, como fez Descartes. Foi uma
grande mudança, assim como fazer experimentos foi uma grande mudança. Quando Descartes
foi a um açougue, comprou um carneiro e retirou seus olhos, isso foi considerado muito
impróprio. Cavalheiros não faziam coisas desse tipo, eles liam textos antigos, ou algo assim.
Mas esse engajamento com o mundo, seja cortando os olhos de carneiros, ou analisando o
francês oral, era algo novo.

Um dos temas principais na Gramática de Port-Royal foi algo denominado ‘regra de


Vaugelas’. Não vou entrar em detalhes, mas em 1647, Claude Favre de Vaugelas (1585-1650)
escreveu uma gramática descritiva do francês. Essa foi uma das primeiras gramáticas
descritivas de uma língua oral. Era uma gramática descritiva simples, sem grandes pretensões.
Vaugelas não tentou explicar muito as coisas, mas ele realmente descobriu algumas coisas
muito interessantes sobre o francês oral, que eram verdadeiros enigmas: questões relacionadas
a quando se pode usar uma oração relativa, quando não se pode, com exemplos interessantes.
Ele elaborou uma regra descritiva, conhecida como regra de Vaugelas. Esse foi um dos temas
mais importantes dentro da Gramática Universal durante cerca de 150 anos. As pessoas
tentaram entender, tentaram dar uma explicação para a regra de Vaugelas. A Gramática de
Port-Royal explica a regra em termos das noções de Frege de sentido e referência. Portanto, é
uma gramática explicativa, que tenta descrever e explicar fenômenos da língua oral, é isso que
a Gramática Universal realmente é.

Vaugelas não foi o primeiro a construir uma gramática descritiva de uma língua oral
verdadeira. A primeira, até onde eu sei - estou me apoiando em Carlos Otero (Otero, 1995) -
foi a de Leon Battista Alberti (1404-1472), "um esboço gramatical brilhante" florentino. Um
exemplo mais conhecido é a primeira Gramática do Espanhol, publicada na Espanha no "ano
fatídico" de 1492. O autor espanhol foi Antonio de Lebrixa (1444?-1522), também conhecido
como Nebrija. A gramática de Vaugelas foi a primeira gramática descritiva do francês, em
1647. A Gramática de Port-Royal tentou explicar a regra alguns anos mais tarde, em termos
mais ou menos modernos, e é assim que as coisas se movimentam. 1647 foi um ano
interessante. 1647 poderia ser considerado como a origem da Lingüística Moderna, o ano da
primeira gramática descritiva extensa de uma língua vernácula, propondo enigmas
interessantes, que precisam ser explicados por princípios. É lingüística moderna. O ano
seguinte, 1648, é, às vezes, considerado como o ano em que a química moderna teve o seu
início. A história padrão da química de Brock (1992) se inicia com um "experimento
impressionante e sua conclusão", realizado por um químico chamado Johann(es) Baptista van
Helmont (1579-1644), publicado em 1648. Van Helmont obteve um resultado muito
surpreendente, e muito convincente, que "capta a essência do problema da transformação
química", observa Brock. Ele demonstrou experimentalmente que a água pura poderia se
transformar numa árvore, sem a adição de nenhuma substância, o que é muito misterioso. A

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água era considerada a substância pura naquela época. Não possuía componentes, era apenas
uma substância elementar e indivisível, e o experimento pareceu mostrar que ela poderia se
transformar em algo bastante complexo: uma árvore. A química então se desenvolveu como o
estudo da maneira como estruturas complexas vêm de coisas simples, assim como na
lingüística. O paralelo é impressionante.

A conclusão tirada do experimento de van Helmont é, obviamente, falsa, mas era muito
convincente. E, na verdade, permaneceu convincente por muito tempo. Não foi realmente
explicada até que Antoine Laurent de Lavoisier (1740-1796), cerca de 150 anos depois, em
1789, finalmente demonstrou que a água não é uma substância simples; outras coisas estavam
acontecendo. Mas as verdadeiras descobertas sobre a fotossíntese e assim por diante não
foram feitas até mais recentemente. Na época, o experimento de van Helmont foi muito
convincente, mas obteve o resultado errado. Era compatível com a crença de Newton e de
outros cientistas de que o mundo consistia de minúsculas partículas sólidas que eles chamaram
de ‘corpúsculos’, os quais poderiam ser combinados de maneiras diferentes. Assim como
tijolos podem ser usados para construir prédios diferentes, os mesmos corpúsculos poderiam
formar água ou construir uma árvore, e você poderia desmontá-los e construir outra coisa. É
por isso que Newton estava interessado em Alquimia, a transmutação de uma coisa em outra.
Atualmente, isso é considerado loucura, mas era perfeitamente lógico. É ciência perfeitamente
lógica, clara, comprovadamente errada, como quase tudo.

As origens da química moderna e as origens da lingüística moderna são mais ou menos


paralelas; têm caráter semelhante. A química é o estudo de como as formas complexas são
construídas a partir de partes simples, e isso assemelha-se ao que ocorre na linguagem. Você
estuda como as estruturas complexas são feitas a partir de componentes simples, por exemplo,
os traços fonológicos, os traços semânticos elementares ou causas aristotélicas etc. Daí em
diante, a química desenvolveu-se por si mesma. Não estava ligada à física, e nem poderia
estar, pois a física foi incapaz de incorporar a química até a década de 30. Apenas
recentemente é que a química e a física se unificaram, após a revolução do quantum na física.
Enquanto isso, a lingüística e a lógica seguiram seu próprio rumo. Tornaram-se o estudo da
mente, sem relação com as ciências naturais, nem mesmo com as ciências do cérebro, embora
agora estejam começando a aparecer os tipos de ligações que talvez levem à unificação, como
aconteceu recentemente na química.

Se tivéssemos uma história verdadeira do tema, essas são algumas das coisas que estaríamos
discutindo, na minha opinião. Estaríamos discutindo as origens paninianas, a grande
Revolução Científica, as formas que ela tomou no estudo de objetos complexos como línguas
e moléculas e substâncias químicas, as maneiras como idéias semelhantes se desenvolveram
no período Romântico, tanto na Gramática Universal - e na teoria de como as experiências são
construídas pela mente - como na filosofia social e política - conforme foi desenvolvida por
Rousseau e, mais tarde, por Humboldt e pelo liberalismo clássico, com muitas outras
ramificações. Todos esses temas vêm mais ou menos da mesma rede de idéias. Tudo isso foi
esquecido, e parcialmente retomado, em meados do século XX, na chamada ‘Revolução
Cognitiva’. Acho que há muito o que aprender sobre isso. Todas essas questões são
fascinantes, e têm muitas implicações contemporâneas, muito além de seu interesse
intelectual. Há muito o que fazer para tentar descobrir e entender seus vários fragmentos, para

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perguntar por que eles floresceram, por que murcharam, e por que houve lacunas tão
surpreendentes quando seria de se esperar continuidade e revisão, ao invés de redescobrimento
sem conscientização. A história segue caminhos muito estranhos. Sabe-se muito pouco sobre
isso, e o que se sabe é pouco compreendido.

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* Este trabalho refere-se à conferência proferida em 22 de novembro de 1996 no Auditório da


Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, cujo intuito era responder à questão
sobre a "Utilidade da História para a Construção Teórica na Ciência Lingüística Moderna". Eu
gostaria de registrar a colaboração de Angela Ribeiro França na transcrição das fitas originais
e, especialmente, a assistência do próprio Noam Chomsky na elaboração da versão final do
texto. Eventuais falhas são de minha responsabilidade. Cristina Altman.

** Traduzido por Carolina Siqueira & Maria Cecília Lopes.

1 Eu gostaria de agradecer ao Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo e


particularmente ao Projeto Historiografia da Lingüística, pelo convite e pelas questões
desafiadoras que foram colocadas para discussão. Noam Chomsky.

2 Zellig Harris (1909-1992).

3 Henry Hoenigswald (1915 - )

4 O aluno era Charles Hockett (1916 - ). O artigo é "Implications of Bloomfield’s Algonquian


Studies". Language 24:117-131 (1948). O trabalho "Menomini Morphophonemics", de
Bloomfield, não foi citado. Hockett percebeu a omissão quando re-publicou esse artigo numa
antologia dedicada a Leonard Bloomfield, publicada pela Indiana University Press
(Bloomington, 1970:495).

5 O acadêmico israelense era Hans (Hayim) Jacob Polotsky (1905-1991).

© 2002 DELTA

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DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e


Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997


Como citar
este artigo

Perguntas - São Paulo*

1. Qual o lugar do Programa Minimalista na tradição da Gramática Gerativa?

A Gramática Gerativa Moderna é parecida com as ciências em alguns aspectos. Um deles é


que tudo que está impresso já está ultrapassado. Se você é um médico, você consulta as cartas
que aparecem na Physical Review, pois elas falam de artigos não publicados e dos últimos
experimentos que são realmente importantes. Não estou dizendo que a Lingüística é igual à
Física, muito pelo contrário, mas alguns aspectos da Lingüística estão se movendo nessa
direção. As coisas mudam muito rapidamente. Se as pessoas ainda estiverem ensinando as
mesmas coisas que ensinavam vinte anos atrás, ou a área está morta ou o cérebro delas está
morto. As coisas simplesmente mudam o tempo todo, como nas Ciências Naturais. O
Programa Minimalista é uma das mudanças recentes. Eu não diria nem mesmo que é uma
mudança. É uma idéia, talvez completamente maluca. Dentro de alguns anos, saberemos se
faz algum sentido. O Programa Minimalista baseia-se numa idéia muito estranha. A
linguagem é um objeto biológico muito engraçado. Não tem as propriedades da maior parte do
mundo biológico, e essa proposta diz que ela é ainda mais estranha do que pensávamos: é
projetada de maneira perfeita. Se você pedir a algum engenheiro de primeira linha para pegar
um primata como nós, mas sem a capacidade da linguagem, e inserir uma capacidade de
linguagem nele, o dispositivo terá que satisfazer algumas especificações do projeto. O
dispositivo tem que trabalhar com outras partes do cérebro, tem que acessá-las. Então você
pega as especificações do projeto, entrega-as ao engenheiro e pede que ele cumpra sua tarefa
da melhor maneira possível, deixando de lado as propriedades do cérebro ou qualquer outra
coisa. A questão é: quanto a linguagem se aproxima disso? Pessoalmente, suspeito que,
surpreendentemente, o projeto da linguagem aproxima-se muito disso. Onde parecem haver
imperfeições, elas são impostas pelas especificações do projeto. Se descobrirmos que isso se
aproxima da verdade, será realmente surpreendente. Os sistemas biológicos tipicamente não

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têm propriedades como essa. É apenas um programa, um programa de pesquisa, com muito
trabalho sendo feito. Não há consenso de jeito nenhum, nem mesmo entre meus próprios
amigos e colegas. Longe disso.

2. Qual o interesse das línguas artificiais, como o esperanto, por exemplo, para os
cientistas? Seria possível termos uma língua universal nesse sentido?

As pessoas, especialmente nos círculos do esperanto, têm a ilusão de que o esperanto é uma
língua que possui uma gramática bem-definida. Mas isso não é verdade. Ninguém nunca
escreveu uma gramática do esperanto, e ninguém saberia como escrever uma. Isso se deve ao
fato de que o esperanto se apropria inconscientemente dos princípios das línguas a partir das
quais ele foi construído, e ninguém sabe que princípios são esses. O esperanto baseia-se mais
ou menos nas línguas românicas, e elimina alguns detalhes esquisitos, como a flexão do verbo
"to be" etc. Mas os princípios do esperanto são os princípios do português, do espanhol, do
francês, do japonês e de outras línguas, e nós temos apenas uma compreensão limitada do que
eles sejam. O propósito do estudo da linguagem é descobrir esses princípios. Sabemos um
pouco em relação a eles, mas a maioria dos princípios ainda é desconhecida. Há muito
trabalho a fazer. Então, se o Programa Minimalista afinal estiver correto, o esperanto seria
uma língua cujo projeto é perfeito, pois assim é o mundo, mas ninguém sabe disso. As pessoas
pensam que sabem as regras do esperanto porque, inconscientemente, elas conhecem a
linguagem; está em algum lugar na cabeça delas. Mas isso é a mesma coisa que dizer que o
estudo da visão resume-se a estudar se esta coisa está perto ou longe de mim. Isso não é o
estudo da visão. O estudo da visão é o que está acontecendo no meu cérebro, e eu sei muito
pouco sobre isso. Esse é um tema para os cientistas descobrirem. O estudo da linguagem
também é assim. Até onde eu vejo, o esperanto não tem interesse especial para o estudo da
linguagem. Pode ser que seja útil, pode ser que não seja, esse é um problema de utilidade
social. Pode ser que seja útil para as pessoas aprenderem esperanto como uma segunda língua,
o que eliminaria alguns dos detalhes estranhos de línguas específicas que haviam se
desenvolvido na época delas. Mas é apenas uma língua comum, com princípios em sua
maioria desconhecidos, como os princípios de qualquer outra língua. Portanto, eu não acho
que tenha algum interesse intelectual. A questão sobre o esperanto é como uma questão sobre
um martelo. Se for útil, use-o, se não for, não use. Mas não tem nenhum interesse intelectual.

3. Qual é o futuro da tradução automática - qual a relação entre as linguagens


computacionais e as línguas naturais?

Quando falamos de linguagens artificiais e de linguagens computacionais, é um pouco como


discutir se os submarinos nadam, ou se os aviões voam. As línguas naturais são fenômenos
biológicos. São como o sistema circulatório do seu corpo, simplesmente estão lá. Há outras
coisas que possuem algumas dessas propriedades. As pessoas projetam coisas que têm
algumas dessas propriedades, como um bulldozer, por exemplo, que derruba árvores e levanta

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terra. O bulldozer é parecido com uma pessoa; uma pessoa também pode derrubar árvores ou
levantar terra. Então, talvez pudéssemos chamar um bulldozer de uma pessoa forte. Seria
como chamar uma linguagem computacional de língua. Esses sistemas assemelham-se
vagamente à linguagem humana, mas não passam muito disso. As linguagens artificiais e as
linguagens computacionais não precisam satisfazer as especificações do projeto das línguas
naturais, e elas não têm muitas das propriedades das línguas naturais. Elas não têm fonologia
nem morfologia; têm uma sintaxe artificial muito simplificada de um tipo que as línguas
naturais não têm. Elas têm uma semântica que as línguas naturais não têm; elas não têm
pragmática. Isso está muito distante das línguas naturais.

Quando perguntamos o que está faltando para um computador falar, ou traduzir, o que falta é
uma mente como a dos seres humanos. Ninguém sabe o que é isso. Os cartesianos não sabiam,
nós não sabemos, é um mistério. Há algo na nossa mente que permite que façamos o que eu e
você estamos fazendo, esse uso livre, criativo da linguagem. Ninguém compreende isso. Se
você compreende algo, pode programar um computador para fazê-lo. Um computador não é
um objeto místico. Quando discutimos sobre o que um computador faz, não é realmente o que
o computador está fazendo, é o que um programa está fazendo. O computador apenas executa
o programa, que é uma teoria que possui uma notação muito estranha, para que o computador
possa usá-la. Talvez seja uma boa teoria, talvez seja uma teoria ruim, mas é apenas uma
teoria, uma teoria de outra pessoa. A questão é: podemos ter uma teoria da fala, ou uma teoria
da tradução? É difícil, muito além de qualquer coisa que os cientistas esperam atingir
atualmente. Hoje, os cientistas estão perplexos tentando explicar o comportamento de uma
coisinha chamada ‘nematóide’, uma lesma minúscula que tem mais ou menos 1000 células. É
um animal interessante, porque é possível compreender totalmente seu sistema nervoso, saber
direitinho como é o diagrama de seus impulsos elétricos. Mas é difícil explicar por que a
lesma faz o que faz, como por exemplo, por que ela decide virar à esquerda num determinado
ponto, ou qualquer outra coisa que os nematóides fazem. Esse problema é bastante difícil e
envolve um organismo de 1000 células, e sabemos tudo sobre seu sistema nervoso. Tentar
explicar o comportamento humano está completamente fora de cogitação no momento. Pode
ser que nunca venhamos a entender isso. Se conseguirmos, será ótimo. Poderemos fazer com
que uma máquina fale, ou traduza, porque teremos um entendimento teórico dessas questões.
Não temos uma teoria assim. Temos uma teoria de alguns dos mecanismos que entram nessas
ações, como no estudo da visão ou da organização do comportamento motor.

4. Há futuro para a tradução automática?

Quando fui contratado pelo MIT, na década de 50, eu não tinha nenhuma profissão específica,
e fui contratado por um Laboratório de Eletrônica para trabalhar num projeto sobre tradução
automática. Eu disse ao diretor do laboratório que, na minha opinião, o projeto não tinha
sentido, e que eu não iria trabalhar nele, mas que se eles quisessem me contratar para fazer o
que eu queria, eu não faria nenhuma objeção. O diretor gostou da minha atitude e me
contratou. Eu ainda acho que não faz muito sentido. Quer dizer, é como um bulldozer. Nós
não temos o tipo de compreensão da linguagem que permita que entendamos o que aquelas
pessoas estão fazendo. Não estamos nem começando a entender o que elas estão fazendo.

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Então, se você quer fazer algo útil, você o faz pela força bruta. Talvez valha a pena, talvez
não, mas não tem interesse intelectual. É como as máquinas de jogar xadrez. Quando as
pessoas começaram a programar máquinas para jogar xadrez, no início elas tentaram copiar o
que um mestre do xadrez faz, como ele pensa etc. Isso acabou não funcionando, pois ninguém
sabe o que ele faz. Não entendemos quase nada sobre o pensamento humano. Assim, eles
simplesmente começaram a usar a força bruta. Eles usaram o fato de que um computador é
extremamente rápido e tem uma memória imensa, e é completamente estúpido. E se você fizer
com que ele seja suficientemente rápido e sua memória seja suficientemente grande, um dia
ele provavelmente será melhor do que um campeão de xadrez, o que é quase tão interessante
quanto o fato de que um bulldozer consegue empurrar coisas que um levantador de pesos não
consegue. Não tem interesse. A tradução feita por máquinas é mais ou menos assim. Um tema
muito chato, mas que talvez seja útil. Às vezes, tecnologias maçantes acabam sendo úteis. É
bom ter bulldozers. Então, talvez essa coisa faça algo um dia, mas de maneira estúpida.

5. Qual a relação entre a Lingüística e as outras ciências - como a Matemática, a Física, a


Biologia? Nesse caso, fazer a história da lingüística é fazer a história da ciência?

Podemos estudar a linguagem de diferentes pontos de vista. Faz bastante sentido estudar a
linguagem como um fenômeno histórico, social, ou político. Por acaso, estou falando da
linguagem de um ponto de vista específico: como um fenômeno biológico. Essas abordagens
não são conflitantes. Elas ajudam umas às outras, se apóiam mutuamente. Por exemplo, se
você está estudando as abelhas, você pode estudar sua organização social, seus meios de
comunicação, a maneira como comem, todo tipo de coisas. Essas coisas não estão
competindo. Um estudo lógico de qualquer um desses fenômenos se complementaria com o
estudo dos outros. Mas ao estudar os seres humanos, por algum motivo as pessoas
freqüentemente tornam-se extremamente irracionais, não sei por quê. Portanto, quando as
pessoas estudam sociolingüística, isso supostamente entra em conflito com estudar lingüística
como um fenômeno biológico. É totalmente sem sentido. Quando você estuda a organização
social das abelhas, isso não entra em conflito com o estudo de sua natureza interior. As
pesquisas aprendem umas com as outras. Com relação à história da lingüística, ela faz parte da
História da Ciência, ou da História do Conhecimento. Deveria fazer parte da cultura geral e
ser acessível a qualquer pessoa, como acontece com o estudo das descobertas de qualquer
outra área. Ao mesmo tempo, deveríamos ter em mente que a maioria das descobertas são
provavelmente falsas. Pode ser que representem melhorias, talvez estejamos nos aproximando
do entendimento, mas no passado, mesmo nas ciências exatas, elas sempre estiveram erradas,
pelo menos em parte. É muito difícil entender o mundo.

6. Há um outro conjunto de perguntas na área da aprendizagem de línguas. Qual é o


peso do ambiente biológico e do ambiente cultural na aquisição da linguagem?

Como temos pouco tempo, vamos falar apenas dos casos normais, não da fronteira da

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patologia, na qual há alguma deficiência de aprendizagem. Nos casos normais, mesmo o


termo "aprendizagem" é enganoso. Quero dizer, uma criança adquire uma língua, da mesma
forma como ela cresce. Se você puser uma criança num certo ambiente, no qual há comida,
compreensão e carinho, a criança crescerá. Tire esses fatores, e ela não crescerá. Não lhe dê
comida, não lhe dê carinho, nem interação entre mãe e filho, e ela não crescerá. Pode ser que
ela cresça de alguma maneira, mas não adequadamente. Se você puser uma criança num
ambiente em que haja linguagem, ela vai adquirir a linguagem, é apenas uma outra forma de
crescimento. Não há aprendizagem em qualquer sentido geral do termo. Você pode tentar
ensinar uma língua se quiser, mas você estará apenas distorcendo o processo normal, e
provavelmente a criança não prestará nenhuma atenção. As crianças tipicamente falam como
as outras crianças. Elas não falam como seus pais. Eu falo como as crianças da minha rua,
onde eu cresci. Eu não falo como os meus pais, que eram a primeira geração de imigrantes,
com sotaque russo etc. Isso é normal, o desenvolvimento normal da língua simplesmente
acontece. E a segunda língua? É mais difícil. Assim como outras formas de crescimento, a
aquisição de linguagem acontece facilmente até uma certa idade, mas não mais tarde. Chega
uma hora em que o sistema não funciona mais. Há diferenças individuais - aqueles tradutores
são perfeitos, eles continuam aprendendo línguas de alguma forma, eu não sei como - mas
para a maioria das pessoas, depois da adolescência, fica muito difícil. O sistema simplesmente
não está funcionando por algum motivo, então, você tem que ensinar a língua como se fosse
algo estranho. Então a questão é, qual a melhor maneira de fazer isso? A melhor maneira, até
onde se sabe, é mantendo as pessoas interessadas. Se elas estiverem interessadas, elas
aprenderão, se não estiverem, não aprenderão, não importa o método que seja usado. E isso é
verdadeiro em outras áreas, também. Não existe um método para ensinar química. O método
para ensinar química é fazer as pessoas se interessarem, fazer com que pareça excitante,
intrigante aprender química. Assim eles aprenderão. Fora isso, não há métodos. Eu acho que
com línguas é mais ou menos a mesma coisa.

Com relação a um compromisso entre as perspectivas behaviorista e cognitiva no ensino de


línguas, não acho que seja fácil. Não tenho muito o que dizer sobre esse assunto. A
perspectiva behaviorista é particularmente ruim, porque, em primeiro lugar, é simplesmente
falsa. Não há utilidade para métodos baseados em falsos pressupostos. Mesmo um animal
primitivo, um rato, por exemplo, não age pelos princípios da psicologia behaviorista. Então, se
você tentar ensinar línguas dessa maneira, terá vários problemas: em primeiro lugar, a teoria
está errada; em segundo lugar, mesmo se estivesse certa, não teria muita utilidade, porque a
maior parte da aprendizagem é simplesmente interesse, motivação, esse tipo de coisa, apenas
senso comum. A ciência não tem muito o que dizer sobre isso, na minha opinião.

* Problemas técnicos com as fitas gravadas e sua posterior re-edição podem ter acarretado
certas discrepâncias entre o teor das perguntas e suas respostas. O textos apresentados,
entretanto, refletem fielmente a expressão do autor. Cristina Altman

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Aplicada
ISSN 0102-4450 versão impressa

DELTA v.13 [Link] São Paulo 1997 Como citar


este artigo

Lingüística gerativa: Desenvolvimento e Perspectivas uma Entrevista


com Noam Chomsky* **

Mike DILLINGER (Universidade Federal de Minas Gerais)


Adair PALÁCIO (Universidade Federal de Pernambuco e Universidade Federal de Alagoas)

A Profª Denilda Moura, Presidente da Associação Brasileira de Lingüística, abriu a sessão,


dando as boas vindas ao Prof. Chomsky e apresentou a seguinte pergunta para posterior
discussão:
"As investigações sobre a língua falada nos forneceram dados empíricos interessantes sobre o
uso da linguagem. O modelo de Princípios e Parâmetros tornou possível construir
explicações satisfatórias para muitos dos fenômenos deste uso. Qual o papel dos dados
empíricos sobre o uso da linguagem na teoria de hoje?"

Adair Palácio: Professor Chomsky, como a Gramática Transformacional evoluiu de Syntactic


Structures1 para The Minimalist Program2? Parece-me que a sua Cartesian Linguistics3
delineou um plano geral que o senhor desenvolveu durante esses anos.

Noam Chomsky: Este é um comentário realmente muito perspicaz e também não muito
comum.

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Acho que uma perspectiva histórica é importante, mas quase ninguém mais faz isso, além de
nós. Não é o tipo de tema que interessa às pessoas na Lingüística ou na Filosofia, nem mesmo
àqueles que estudam História da Lingüística ou História da Filosofia. Na Lingüística e na
Filosofia, geralmente as pessoas estão interessadas em questões mais atuais, por exemplo, em
idéias não publicadas, que ainda estão sendo trabalhadas. Assim, uma obra que é um pouco
mais antiga, mesmo tendo sido importante nos anos 60 e 70, raramente é discutida, o que pode
às vezes levar a erros sérios. Para alguns, parece que se você voltar alguns séculos, você está
em outro mundo. Há razões interessantes para se pensar porque é assim.

Na História da Lingüística, para a maioria, as pessoas não estão interessadas em idéias, mas
em detalhes da interação humana, tais como, que livros David Hume tinha em sua biblioteca,
quem falou com quem, quem emprestou idéias de quem, e assim por diante. Nesse sentido,
compartilha algumas das piores características de partes da História das Idéias. O modo como
as idéias são remodeladas, redescobertas, reformuladas ou abordadas sob nova perspectiva ou
como elas reaparecem em diferentes contextos, simplesmente não é muito investigado. Não é
uma questão de como historiadores são formados, já que na História da Física, por exemplo, o
foco está nas idéias. Nas ciências humanas, entretanto, este tipo de trabalho não tem sido
muito feito.

Por exemplo, na época em que eu estava trabalhando na Cartesian Linguistic, não havia textos
disponíveis. Eu tive que ir ao Museu Britânico para encontrar uma cópia da primeira tradução
inglesa da Gramática de Port Royal, que teve grande influência nos filósofos britânicos, pelo
menos em Locke e nos neo-platonistas britânicos. Simplesmente não havia traduções
disponíveis nos Estados Unidos. Quando comecei a observar as traduções clássicas de
Leibniz, por exemplo, descobri que elas estavam cheias de erros. Podia-se ver ao lê-las que
não era o que Leibniz dizia e quando você voltava aos originais, descobria que elas diziam o
oposto. Eram textos clássicos no sentido de que eles eram os únicos disponíveis. A situação é
muito melhor agora: pelo menos há materiais bem editados, e assim por diante. O tipo de
coisa que me interessa, entretanto, ainda não é muito estudado.

Então, você está certa sobre a importância de um ponto de vista histórico e eu concordo com
sua perspectiva sobre isso. Para muitos, a Cartesian Linguistic parece um caminho à parte no
desenvolvimento da lingüística moderna, mas para mim não é.

Quanto à história da Gramática Gerativa, devo começar dizendo que é extremamente


enganoso iniciar com Syntactic Structures. Nos anos 50, não havia lingüística deste tipo;
aparentemente não existia. Contudo, ela realmente tem uma tradição que se iniciou há 2500
anos com a gramática de Panini, mas que foi completamente esquecida. Este tipo de trabalho
ressurgiu no século 17, 18 e 19, mas também foi esquecido juntamente com lingüistas do
século 20 como Otto Jespersen que, em certo sentido, foi a última pessoa que veio desta
tradição.

Nos meus tempos de estudante, nunca ouvimos falar sobre este trabalho. De fato, o passado
foi de tal modo esquecido, que mesmo alguns trabalhos de Bloomfield não foram discutidos.
Bloomfield, um dos fundadores da área, era meio esquizofrênico; numa metade de seu

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cérebro, ele era um acadêmico que conhecia a história da lingüïstica germânica, lingüística
índica e como as coisas tinham sido praticadas durante centenas de anos. Na outra metade de
seu cérebro ele foi muito influenciado pelo positivismo lógico, pelo behaviorismo, por tudo
que se chamava "idéias modernas". Se você olhar seu trabalho, então, há dois caminhos
separados.

Na sua ciência comportamental, no trabalho positivista, por exemplo, ele ridiculariza a idéia
de regras ordenadas como um tipo de mentalismo fora de moda ao qual nenhuma pessoa em
sã consciência podia prestar qualquer atenção, porque nós não podemos observar nenhuma
delas e portanto, elas não são reais. Ao mesmo tempo, enquanto ele estava escrevendo
Language por volta de 1930 e fazendo o que as pessoas então consideravam como um
trabalho científico obstinado na lingüística estrutural, Bloomfield também estava trabalhando
com questões gramaticais no estilo de Panini. Por exemplo, em 1939 ele publicou uma
monografia muito interessante sobre Menomini, uma língua Indígena Algonquiana da
América do Norte - Menomini Morphophonemics 4 -, que teve como modelo a gramática do
sânscrito, de Panini, escrita por volta de 2500 anos antes e que incluía regras ordenadas,
explicações de coisas e assim por diante. Bloomfield publicou o trabalho que ele fez nesses
moldes somente na Europa e embora ninguém tenha explicado por que, minha suspeita é de
que ele não queria que o trabalho fosse visto pelos seus obstinados amigos cientistas nos
Estados Unidos. De alguma maneira, entretanto, ele sabia que aquilo era a verdadeira
lingüística e que o estruturalismo não o era, mesmo que naquela época ele parecesse mais
científico.

Eu era aluno iniciante por volta de 1946, uns seis ou sete anos mais tarde, e todos os
professores eram lingüistas ilustres e amigos ou alunos de Bloomfield. Havia até um
acadêmico índico. Entretanto, nunca nos disseram que Bloomfield, proeminente figura da
lingüística do século 20, tivesse feito qualquer trabalho nesta linha, que de certo modo era
muito semelhante à gramática gerativa. Por sorte, comecei a trabalhar com a lingüística sem
qualquer conhecimento anterior e fiz o que me pareceu óbvio: a gramática gerativa. Meu
trabalho final de graduação foi uma gramática rudimentar, na realidade, um tanto detalhada na
fonologia e morfologia e contendo alguma coisa de sintaxe rudimentar, mas apesar disso, uma
gramática gerativa. Somente fiquei sabendo sobre Menomini Morphophonemics uns 20 anos
mais tarde, quando estava me interessando por história. Isto é só um exemplo de como o
passado era desconhecido.

Voltando, então, a Syntactic Structures. Bem, tive vários anos de tempo livre para pesquisa
em Harvard e trabalhei no livro que apareceu 20 anos mais tarde como The Logical Structure
of Linguistic Theory5. Inicialmente, tinha cerca de 800 páginas e era completamente
impublicável. Foi escrito somente para alguns amigos. Minha esposa e eu o rodamos em um
mimeógrafo (não havia cópia xerox naquela época), fazendo cerca de 30 cópias, e o dei a
alguns amigos que estavam interessados neste estranho tema.

Então fui para o MIT e comecei a ensinar. O MIT, que é um centro de ciências e engenharia,
incorporou o entusiasmo da época: as ciências comportamentais, computadores, ciências da
comunicação, cibernética. Havia grandes expectativas em relação à inteligência artificial e

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muita euforia tecnológica em geral, e o MIT estava à frente disso. Ficou muito óbvio na
época, entretanto, que todas as coisas maravilhosas com a inteligência artificial nunca iam
realmente acontecer e de fato, nunca aconteceram. Os alunos do MIT são cientistas,
engenheiros e matemáticos e eu estava ministrando um curso introdutório de Lingüística para
eles. Comecei o curso com o que eles estavam interessados, que eram as fontes de Markov,
automata finita, modelos matemáticos, etc. A primeira metade de Syntactic Structures, então,
é um tentativa de mostrar que nada disso fazia qualquer sentido para a linguagem. A segunda
metade de Syntactic Structures inicia com o que eu considerava certo: a gramática gerativa
transformacional. Nunca pensei em publicar o livro; era simplesmente um conjunto de
anotações de sala de aula para um curso de graduação no MIT. Na época Mouton estava
publicando qualquer coisa, então eles decidiram publicá-lo juntamente com uma centena de
outras coisas inúteis que estavam aparecendo. Esta é a história de Syntactic Structures:
anotações de um curso para alunos de graduação em ciências, publicadas acidentalmente na
Europa.

Embora a primeira parte de Syntactic Structures não tivesse nada a ver com lingüística,
exerceu grande influência. Conseqüentemente, a discussão representa de maneira inadequada
a área. Por exemplo, a divisão entre sentenças gramaticais e agramaticais não tem nada a ver
com lingüística. A linguagem não tem essas propriedades. A questão toda era mostrar que,
embora os sistemas simbólicos inventados, como a programação de línguas, tenham essas
propriedades, a linguagem não as tem. A segunda metade do livro explica porque é assim, mas
é a primeira metade que foi influente, inclusive na lingüística. Por causa disso, muito tempo
foi gasto em lingüística nos anos 70 estudando-se o que as pessoas consideravam problemas,
coisas como o fato das gramáticas transformacionais serem muito ricas, porque permitem que
uma grande variedade de línguas possa ser gerada. Supõe-se que isto seja um problema porque
se deseja que a classe de sentenças bem-formadas seja de um tipo especial, na qual cada
membro pode ser determinado por algoritmo. Portanto, você precisaria de uma gramática livre
de contexto e assim por diante. Nada disso tem sentido, simplesmente porque não existe
alguma coisa do tipo, uma classe de sentenças bem-formadas, pelo que sabemos.

Muitos lingüistas profissionais perderam um tempo sem fim debatendo questões decorrentes
de uma má interpretação dos primeiros capítulos de Syntactic Structures, onde estas distinções
foram feitas de fato, mas somente para refutá-las e para mostrar que esta não é a maneira
como as línguas naturais funcionam, por exemplo, o inglês. Não há nenhuma divisão entre
sentenças gramaticais e agramaticais: cada expressão que você produz tem alguma
interpretação. Se um falante do inglês ouve uma sentença em português, ele vai tentar dar a
ela uma interpretação, com certeza não a maneira que foi pretendida, mas ele não pode deixar
de dar alguma interpretação. A mente impõe interpretações reflexivamente: o ouvinte impõe
uma interpretação fonológica e escolhe frases e provavelmente lê de maneira errada algumas
palavras. A interpretação irá com certeza refletir a estrutura do inglês, ou do japonês, se ele for
um falante do japonês. Isto significa que cada sentença do português é também uma sentença
do inglês e português, a não ser que tal sentença receba uma interpretação estranha, que não
seja aquela dada por um falante do português. Isto simplesmente não pode ser evitado. A
mente trabalha da mesma maneira que quando você olha para algum objeto. Você não pode
evitar de vê-lo, pode ser uma ilusão, você pode não estar vendo o que está lá, mas você está
vendo alguma coisa, porque é assim que a mente funciona.

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Portanto, não há divisão entre sentenças gramaticais e agramaticais. Não faz sentido procurar
por uma gramática que gere sentenças gramaticais e não faz absolutamente nenhum sentido
estudar em termos matemáticos o poder gerativo de sistemas que geram sentenças gramaticais.
Todo este trabalho é completamente sem sentido e se baseia em uma má-interpretação de
anotações de um curso de graduação, cujo objetivo era tentar afastar os cientistas de mal-
entendidos, confusões e erros que estavam surgindo neste período de euforia tecnológica sobre
as perspectivas de se usar tecnologia moderna para entender a natureza da mente. Tudo isso
era errado e a maioria das pessoas das ciências felizmente deixou de lado essas questões Essa
discussão teve efeito muito negativo na lingüística.

Assim, iniciar gramática gerativa a partir de Syntactic Structures é um grande equívoco:


deveria se iniciar com Panini e então continuar através da história. Se você quiser acompanhar
seu percurso através do período moderno, poderia iniciar com minha tese de mestrado6, depois
prosseguir com The Logical Structure of Linguistic Theory e outras coisas que estavam sendo
feitas naquela época. A primeira gramática gerativa descritiva extensa foi a do Hidatsa, uma
língua indígena norte-americana; foi feita por Hugh Matthews, e publicada no final dos anos
507. A partir daí, você deve continuar com o trabalho de pessoas como Robert Lees, que fez
uma livro sobre a língua turca8 e Edward Klima e então as coisas se desenvolveram. Esta é a
verdadeira história, embora não seja contada dessa maneira.

Para onde a gramática gerativa foi a partir daí? Bem, a partir do momento em que você
começava a estudar as línguas sob este ponto de vista, instantaneamente você descobria que as
gramáticas e dicionários existentes estavam completamente errados, mesmo os das línguas
mais estudadas como inglês, alemão e francês. Mesmo nas gramáticas mais abrangentes e
extensas faltava quase tudo que estava acontecendo na língua. As coisas que as pessoas
estudam hoje em dia, como restrições na extração de palavras interrogativas, não eram
encontradas nas gramáticas tradicionais. Ninguém falava de coisas assim porque eram
consideradas pressupostas. As pessoas que escreviam as gramáticas sabiam as línguas tão bem
que nem mesmo notavam as coisas que estavam acontecendo.

É como se um pássaro tivesse que escrever a Biologia dos Pássaros: ele não descreveria o vôo,
porque é automático; ele iria discutir diferenças marginais entre os pássaros, como por
exemplo, este tem um tom de voz mais alto que aquele, ou alguma coisa assim. Quando nós
estudamos os pássaros, estudamos o vôo porque é o que nos parece mais importante e
interessante, mas não é interessante para os pássaros porque para eles, voar é normal e
automático. Os pombos, por exemplo, não discutiriam como eles se orientam usando o campo
magnético da terra porque, para eles, é lógico, que isso seja feito assim. De que outra maneira
um pombo chegaria onde ele quer chegar? Por outro lado, quando estudamos os pombos,
ficamos impressionados pelo fato de que eles podem fazer coisas que nós não podemos, como
por exemplo, encontrar o caminho usando o campo magnético da Terra. Acontece o mesmo
com as pessoas que estudam a si mesmas: as coisas óbvias não são discutidas. O que você
realmente estuda são as coisas que parecem diferentes.

Assim, se você olhar uma gramática bem abrangente, você perceberá que ela estuda exceções:

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há grandes partes sobre verbos irregulares e flexões incomuns. É claro, você tem que
memorizar o vocabulário porque ele é feito de exceções: qual som corresponde a qual
significado é árbitrário. Na realidade, mesmo as maiores gramáticas e dicionários são na sua
maioria listas de exceções, de coisas que você não poderia saber só porque é um ser humano.
De fato, quando se ensina uma segunda língua, o que você ensina é exatamente isso: exceções.
Os verbos irregulares, por exemplo, têm que ser memorizados, embora você possa tentar
encontrar algumas regularidades. Se você der uma olhada nos maiores dicionários, é a mesma
situação. Eles não lhe dizem quase nada a respeito do significado das palavras. Logo que você
começa a pensar sobre o que cada criança de quatro anos sabe, você vê que muito pouco está
no dicionário. Se você pensar em uma palavra simples como "livro", "árvore", "rio" e
perguntar o que uma criança realmente sabe sobre isso, perceberá que não há nada disso no
dicionário. O que o dicionário inclui são coisas que não são óbvias, que são excepcionais ou
que diferem no inglês e português, não as coisas que consideramos como pressupostas. De
fato, estamos apenas começando a entender essas coisas.

A gramática gerativa teve um efeito positivo, disciplinar: como tínhamos que escrever regras
explícitas, tínhamos que entender os fatos corretamente. E no momento em que começamos a
escrever as regras, vimos que estávamos entendendo os fatos de maneira errada. Não se
percebia isso na gramática tradicional porque ela não era suficientemente explícita: eles
estavam tomando como certo o que as pessoas normalmente sabem, de maneira semelhante
aos pombos, que tomam como certo que não se pode encontrar o caminho sem usar o campo
magnético da Terra. De repente, começou a aparecer todo o tipo de coisa que antes ninguém
notava; milhares de dados novos. Imediatamente, tornou-se óbvio que tinha de se começar
tudo de novo, fazer novos tipos de perguntas, mesmo sobre as línguas mais estudadas. No
momento em que se começou a descobrir propriedades diferentes que não haviam sido
notadas antes, começaram a aparecer também perguntas que os lingüistas não costumavam
fazer, sobre como as coisas realmente funcionam, o que levou a um novo tipo de investigação
empírica.

Continuando com esta história detalhada, você descobre que a maior parte do que aconteceu é
um esforço cooperativo, não é uma questão de pessoas isoladas, cada uma em um escritório,
tendo algumas idéias e escrevendo sobre elas. Isto quase nunca acontece. O que realmente
acontece é que há seminários acontecendo que envolvem grandes grupos, como em minhas
aulas, que podem ter por volta de 100 pessoas. É só discussão em grupo: eu faço alguma
sugestão, alguém se levanta e me diz porque está errada e então vamos para outra direção.
Desta interação, as melhores coisas permanecem e as piores são descartadas. De vez em
quando as idéias se cristalizam e começam a se assemelhar a uma nova teoria, uma nova
abordagem, mas na verdade, é o resultado de muita interação, anos de clarificação,
modificação, mudanças, e assim por diante.

O próximo nível de "cristalização" aconteceu por volta de meados dos anos 60, com trabalhos
como Toward an integrated theory of linguistic description9 de Katz e Postal, o meu Aspects
of the Theory of Syntax10, e outros trabalhos, que levaram ao que mais tarde veio a ser
chamado de Teoria Padrão, uma certa concepção de como a linguagem funciona. Quando
Aspects foi publicado em 1965, já era completamente óbvio que estava errado e de maneira
crucial. De fato, minhas palestras de 1964 e 1965 foram sobre o que havia de errado nessa

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teoria e durante alguns anos, estudantes e outras pessoas continuaram a estudar o que estava
errado com ela. Desse trabalho veio o que mais tarde passou a ser chamado de Teoria Padrão
Ampliada.

Houve um problema crítico que apareceu bem no início da gramática gerativa. Havia uma
tensão crucial, ainda não resolvida, que de certo modo direcionou a área desde o início: a
tensão entre o que chamamos tecnicamente de adequação descritiva e explicativa. Se uma
gramática de, digamos, Hidatsa deve ser descritivamente adequada, então tem que apresentar
os fatos de maneira correta. As gramáticas tradicionais não são descritivamente adequadas
porque elas nem mesmo tentam descrever os fatos. Não é o objetivo delas. Seu objetivo é
descrever propriedades um tanto gerais e exceções, e talvez elas sejam descritas de maneira
precisa. Mas a maneira como as coisas realmente funcionam, era algo que nem mesmo elas
tentaram descrever. Não era considerado problema; então não dá nem para perguntar se as
gramáticas tradicionais possuem a condição de adequação descritiva. No caso de uma
gramática explícita - a gramática gerativa é simplesmente uma gramática explícita - tão logo
as regras se tornem explícitas, pode-se questionar se elas estão apresentando os fatos
corretamente, e é claro que isso nunca acontece. Os fatos são complicados demais; não
entendemos suficientemente deles. Mesmo a Química e Física conseguem apenas descrever
parcialmente os fatos. Então, você pode tentar entender alguns fatos essenciais da melhor
maneira possível. A partir do momento em que você começa a entendê-los, a gramática passa
a ser descritivamente adequada. Quando se tenta descrever os fatos, no início eles parecem ser
incrivelmente complexos. Cada língua parece ser diferente das outras e dentro de uma mesma
língua, parece não haver duas construções semelhantes. Por exemplo, em inglês, orações
relativas não se parecem com interrogativas, elas têm propriedades bem diferentes e as
passivas também não se parecem com interrogativas. Todas as coisas parecem ser tão
diferentes umas das outras, que no fim você tem sistemas de regras muito ricos para
determinadas construções em determinadas línguas. O mesmo é verdadeiro para a parte
fonológica ou para a parte semântica: você tem descrições muito extensas e detalhadas que
são muito complicadas e variam muito de língua para língua, e mesmo dentro de uma mesma
língua.

Há outra consideração que mostra de imediato que esta abordagem não pode ser correta: o fato
das crianças aprenderem uma língua. Elas aprendem e o fazem rapidamente com poucos
dados. Na aprendizagem de vocabulário, é fácil demonstrar que as crianças não têm ao seu
redor dados suficientes para saber o que sabem. Quando se vai estudar sintaxe e outras coisas,
vê-se que as crianças não ouvem muita coisa, mas elas sabem muito, portanto, deve haver
algum método pelo qual a mente constrói uma gramática descritivamente adequada com base
em dados limitados e ambíguos. Este é o segundo grande problema que deve ser explicado
satisfatoriamente: adequação explicativa. Uma teoria de linguagem deve satisfazer as
condições de adequação explicativa na medida em que explica este problema, isto é, na
medida em que mostra como a mente pode construir uma teoria de linguagem descritivamente
adequada (o que ela faz de alguma maneira), usando somente os dados que estão prontamente
disponíveis para a criança.

A procura pela adequação explicativa instantaneamente levou à percepção de que as línguas


devem ser todas semelhantes. Não pode haver muita variação entre elas, porque qualquer

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criança pode aprender qualquer língua. Em qualquer lugar em que a criança esteja, ela
instantaneamente desenvolverá ("aprender" realmente não é a palavra certa nesse caso) a
língua daquela comunidade. Então a mente deve ser capaz de desenvolver qualquer língua;
não é possível que desenvolver esta ou aquela língua seja algo pré-determinado. Isto significa
basicamente que as línguas devem ser todas semelhantes, porque muito rapidamente e baseada
em muito pouca evidência, a criança desenvolve a língua específica da comunidade, com
todas suas propriedades detalhadas, que vão muito além do que alguém jamais descreveu.

Assim, por um lado, sabemos que as línguas têm que ser semelhantes e que elas têm que ser
simples, pois de outro modo elas não poderiam ser adquiridas. Por outro lado, quando são
analisadas descritivamente, parecem muito complicadas, muito variadas. Esse ponto gera uma
tensão real e esta é a questão básica na área: tentar mostrar que é possível resolver esta tensão.
Da década de 60, quando estes problemas tornaram-se óbvios, até por volta de 1980 essa foi a
questão fundamental. Se você olhar o trabalho daquele período, o princípio A-sobre-A, as
condições de ilhas-QU , a recuperação de apagamentos, ilhas de Ross, teoria X-barra, a
hipótese da preservação da estrutura de Emond, as condições sobre transformações - tudo isso
eram tentativas de ver se era possível abstrair princípios muito gerais de regras complicadas,
deixando um resíduo mais simples para a criança adquirir. Então, você poderia dizer que os
princípios básicos interagem para produzir os fenômenos e a criança simplesmente adquire o
resíduo, as exceções, como verbos irregulares e assim por diante.

Essa abordagem finalmente começou a funcionar. As conferências de Pisa11 representam um


período muito interessante. Passei alguns meses em Pisa e houve um Seminário na Scuola
Normale. A Itália é um país do sul, do tipo do Brasil: nada funciona. Mas eles têm uma
universidade avançada, a Scuola Normale, principalmente em ciências e matemática que, para
ser honesto, é a única parte do sistema de educação superior lá que parecia funcionar. Havia
lingüistas muito bons de toda a Europa no Seminário, pessoas como Luigi Rizzi, Giuglielmo
Cinque, Giuseppe Longobardi, Adriana Belletti, pessoas dos países do norte e tivemos um
seminário bem dinâmico. Todos trabalhamos, dia após dia e as coisas parece que se
encaixaram. Depois, houve um seminário internacional em abril, aquele em que você esteve,
Denilda. Foi o encontro dos Lingüistas Gerativos do Velho Mundo (GLOW: 'Generative
Linguists of the Old World'), a sociedade européia de lingüística gerativa.

O GLOW era composto praticamente de pessoas muito jovens, pois elas tinham que fazer a
mesma coisa que fizemos: trabalhar fora da instituição acadêmica das humanidades e ciências
sociais. Essas áreas são muito resistentes a novas idéias, diferentemente das outras ciências
que acolhem as novas idéias, porque sabem que é assim que crescemos e nos desenvolvemos.
As ciências em geral também recebem bem os desafios: nessas ciências espera-se que os
alunos se levantem e digam ao professor porque ele está errado. As humanidades e as ciências
sociais ainda têm caráter pré-científico em certo sentido: elas são autoritárias. Os alunos
simplesmente aceitam o que lhes dizem e não desafiam o mestre; desse modo, essas áreas não
permitem que novas idéias se desenvolvam. Este é um ambiente perigoso e os lingüistas
sempre se desenvolveram fora dele. Os Estados Unidos são um caso típico: os lingüistas
desenvolveram-se não em Harvard, mas no MIT, que fica apenas a 3200kms. O MIT é uma
grande universidade baseada em ciências e matemática, enquanto Harvard é uma grande
universidade baseada em humanidades e ciências sociais. As diferenças são muito acentuadas

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e o padrão se repete através dos E.U.A. e do mundo. Portanto, o GLOW é formado


principalmente por jovens, que de alguma maneira se afastaram do sistema tradicional.

No encontro do GLOW, houve um seminário muito intenso onde passamos o dia debatendo,
conversando etc. e muitos resultados surgiram daí. Mais tarde, eu escrevi sobre eles em
Lectures on Government and Binding, mas esse livro foi basicamente os resultados dessas
discussões e de outras no MIT. Representou uma grande mudança, e na época, pelo menos,
não percebi quão grande foi essa mudança. Depois de um ou dois anos, entretanto, ficou claro
que representou uma mudança radical: foi a primeira teoria genuína, apesar de estar errada,
mas pelo menos uma com as propriedades certas. Foi a primeira teoria de linguagem genuína
a ser produzida nesses 2500 anos, porque mostrou como é possível, em princípio e até um
certo ponto mesmo na prática, superar o conflito entre adequação descritiva e explicativa.

A abordagem delineada nesse livro é a de Princípios e Parâmetros. Pressupõe-se que os


princípios sejam uniformes, isto é, que eles sejam apenas parte da mente. Os parâmetros
também são fixos, mas eles permitem escolhas: por exemplo, uma língua expressa sujeitos e
outra não, ou em uma língua você expressa as flexões e em outra não, embora elas estejam em
sua mente da mesma maneira. As diferenças entre as línguas, então, são pequenas e audíveis:
uma criança pode ouvi-las. Os princípios simplesmente estão lá e eles interagem: os princípios
da teoria de ligação, teoria de casos, teoria theta, e assim por diante. Eles interagem de um
modo que produz o que parecem ser fenômenos superficialmente muito diferentes, embora
sejam, na verdade, quase todos idênticos, do ponto de vista de outro organismo, por exemplo,
um marciano olhando para nós da mesma maneira que olhamos para os pombos. Há
basicamente uma língua única com algumas pequenas diferenças dialetais: essa língua única
são os princípios; as pequenas diferenças dialetais são a escolha dos valores para parâmetros.
Essa parece ser uma maneira muito produtiva de olhar as coisas. É preciso satisfazer a
adequação descritiva, essa é a principal condição: apresentar os fatos corretamente. Esta,
entretanto, foi uma maneira de satisfazer tanto a adequação descritiva como a condição para a
adequação explicativa, o que levou a uma explosão de trabalhos descritivos porque havia
novas perguntas a fazer, e agora as pessoas de todas as partes do mundo estavam interessadas
em estudar sua própria língua em profundidade.

Acontece que o MIT é um centro, talvez um dos maiores centros do mundo, de lingüística
aborígena australiana porque Ken Hale está lá e é nisso que ele trabalha. Começamos um
programa sob sua direção para ensinar os princípios básicos da lingüística para americanos
nativos tais como falantes de Navajo ou Hopi. Trouxemos essas pessoas para o MIT, embora
elas tenham tido muito menos educação formal do que a maioria dos que entram no MIT, com
a idéia de que seria mais fácil ensinar lingüística para eles do que nós aprendermos sua língua.
Parece que estávamos certos. Como eles não tinham formação em ciências e matemática,
tivemos que ensiná-los o que significa fazer um trabalho científico, mas é possível ensiná-los
e eles realmente aprendem.

Então, eles começaram a trabalhar com suas línguas. É claro que eles descobriram todo o tipo
de coisa que nenhum dos lingüistas antropológicos nunca havia notado, pois eram detalhes
muito sutis e é preciso realmente ter um domínio completo da língua para estudá-la

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seriamente. Há alguns lingüistas que conseguem adquirir algo parecido com o domínio
completo de outras línguas e realmente estudam-nas seriamente. Se você sabe o que você está
procurando, mesmo se for alguém que tenha muito pouco talento para línguas como eu, pode
fazer perguntas que levarão a respostas interessantes. Isto acontece porque elas são as
perguntas corretas, não porque eu saiba alguma coisa sobre a língua.

Quando as pessoas começam a estudar suas próprias línguas, descobrem todo o tipo de coisa,
principalmente se o fizerem em grupos. Se estiverem sozinhas, pode ser que cheguem a
conclusões errôneas, pois não se tem a correção que vem ao experimentar suas idéias com
outra pessoa. O estudo do inglês, italiano, francês, alemão, japonês etc. avançou muito rápido,
em parte porque havia grupos de pessoas fazendo pesquisa. Uma pessoa diz: "Olhe, é assim
que funciona na minha língua materna" e a outra na carteira próxima diz: "Você está errado.
Não é assim que ocorre na sua língua e aqui está o porquê". Então, quando se tem grupos de
pessoas trabalhando pode-se progredir rapidamente e obter novas idéias teóricas. Você vê
claramente o quanto as teorias têm que mudar, e assim por diante.

Este tipo de pesquisa explodiu na década 80, que foi um período muito rico. Provavelmente se
aprendeu mais sobre linguagem nos anos 80 do que nos 2500 anos anteriores. Ainda está
crescendo, e tão rapidamente, que está ficando impossível acompanhar o ritmo. Há vinte ou
trinta anos, no meu próprio Departamento, qualquer membro da faculdade podia estar em
qualquer banca de dissertação. Isto é impossível agora. Você tem que estar na banca de uma
dissertação que verse sobre algum tópico que você conheça; caso contrário, talvez você possa
aprender alguma coisa, mas realmente não poderá contribuir muito. Não é somente porque
tudo está se tornando mais especializado: quanto mais se entende sobre as coisas, mais fácil
fica de acompanhar, porque você consegue pegar os princípios e o que parece ser um monte
de exceções acaba caindo em um padrão. Assim, ambas as coisas acontecem simultaneamente,
como nas ciências.

Isto nos traz para o Programa Minimalista, que é uma tentativa de procurar mostrar que estes
grandes sucessos não são nada sólidos. Isto é, eles se baseiam em uma tecnologia descritiva
que funciona, mas que está errada porque não é motivada e deve ser abandonada. Quando uma
área torna-se suficientemente avançada, você pode começar a fazer perguntas baseadas em
princípios sobre ela e mesmo nas ciências isso não é feito com freqüência. Na maioria das
ciências e na matemática, você faz o melhor que pode em condições difíceis. Mesmo na
matemática, até cerca de um século e meio atrás, as pessoas estavam fazendo um trabalho
extremamente avançado com sistemas que eles sabiam que possuíam contradições internas.
Os sistemas não funcionavam, mas eles continuavam sendo usados, porque não havia nada
melhor. Portanto, fazer perguntas realmente baseadas em princípios é um tanto raro e talvez
prematuro. Tenho a impressão, juntamente com algumas outras pessoas (não diria que é
consensual), de que agora é uma boa hora para fazer isso. Você pode começar a fazer essas
perguntas em lingüística e você pode aprender muito com elas, embora não estejamos nem um
pouco perto de poder dar respostas razoáveis. Novamente, isso tem um efeito positivo,
disciplinar. Quando você olha para as descrições das coisas que acontecem, como extração de
sujeitos, percebe que, algumas vezes elas são tão complicadas quanto os fenômenos em si. São
chamadas de teorias, mas não são teorias verdadeiramente explicativas porque não se baseiam
em princípios independentemente justificados. Tais teorias têm freqüentemente o mesmo nível

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de complexidade dos fenômenos que elas tentam descrever, e na medida em que isso é
verdadeiro, elas são basicamente tecnologia descritiva apresentada como teoria. O modelo
Minimalista o força a olhar para as descrições existentes e perguntar "Onde tenho realmente
uma explicação ?" "Onde a descrição foi motivada por algo que está fora da teoria ?"
Perguntas como essas levaram ao Programa Minimalista, que ainda está em seus primeiros
estágios; temos que ver onde ele nos levará.

Adair Palácio: Muito obrigado, Professor Chomsky. Agora a Núbia vai fazer sua pergunta.

Núbia Rabelo Baker Faria: Professor Chomsky, estou aqui representando os alunos. Minha
pergunta está relacionada às qualificações acadêmicas de um lingüista, então acho que tem a
ver com a primeira parte da sua resposta à pergunta de Adair e à pergunta da Denilda.

Observando a história da gramática gerativa, podemos ver que alguns lingüistas e


psicolingüistas aplicaram a gramática gerativa sem levar em consideração suas pressuposições
teóricas e conseqüências. O que normalmente parece acontecer é que a base epistemológica da
teoria é mal compreendida por aqueles que afirmam ser a favor ou contra a teoria,
especificamente em relação ao uso da teoria para lidar com problemas empíricos. As
tentativas feitas em meados dos anos 60 para se escrever as gramáticas das crianças é um
exemplo disso. A partir dessas considerações, o que o senhor julga necessário num currículo
acadêmico como conhecimento prévio para estudantes de lingüística, para que a teoria
lingüística possa ser avaliada em bases mais sólidas ?

Noam Chomsky: Deixe-me primeiro dizer que há diferentes opiniões sobre este tópico.
Então, o que eu vou falar é o que eu penso; não é o consenso. Na verdade, no meu próprio
Departamento, que consiste de cerca de 10 professores, eu sou claramente uma minoria. Isto
vem à tona todos os anos quando estamos admitindo novos alunos de pós-graduação. Eu
discordo de quase todos os meus colegas sobre o tipo de aluno que devemos aceitar. Este é o
meu ponto de vista individual, você não o ouviria em outros lugares, nem mesmo dos meus
colegas mais próximos, quanto mais de outras pessoas; portanto, não leve muito a sério.

Uma qualificação importante, não sei se é acadêmica ou pessoal, é o ceticismo. Acima de


tudo, você não deve levar muito a sério qualquer coisa que ouvir de qualquer pessoa que seja
uma autoridade. Este é o requisito número um. Não sei de onde vem isso, mas é uma
qualidade muito boa da mente. Nas ciências você é de certa maneira treinado assim. Então, se
você está fazendo um curso de pós-graduação em física no MIT, não se espera que você tome
notas, espera-se que desafie o professor e descubra o que está errado. Espera-se que você
tenha idéias novas e diga aos mais velhos porque eles estão errados. É assim que as ciências
avançadas funcionam, mas isso não ocorre nas outras disciplinas, e é um dos motivos pelos
quais elas não progridem muito. A primeira qualidade é o ceticismo. Você quer que lhe
mostrem as coisas, não que lhe digam como elas são. Não é suficiente ouvir alguém dizer
alguma coisa, você quer as razões para poder avaliá-las. Então, você deve encarar o que eu
vou dizer agora com muito ceticismo.

Daqui a um mês, no MIT, teremos uma reunião para admitir alunos para o próximo ano.

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Talvez uma centena de alunos se inscrevam, os melhores alunos de todo o mundo. Eles são
altamente qualificados, têm bom preparo e é muito difícil escolher entre eles. Posso prever
como será a discussão porque tem sido assim há 30 anos. Vou discordar de todo mundo no
Departamento sobre quem devemos escolher, baseado numa questão específica. Hoje em dia,
já há cursos de lingüística oferecidos em nível de graduação, em todo mundo. Isto é, temos
alunos com 22 anos de idade que estudaram 4 anos, durante os quais sua área de concentração
foi em lingüística. E eles realmente sabem muito; eu não sei a metade do que eles sabem sobre
muitas coisas. Entretanto, logo que eles entram descobrimos que temos que começar desde o
início. Não importa o que fizeram, mesmo que tenham publicado seis livros sobre temas
técnicos, eles têm que iniciar pelos cursos introdutórios porque tudo é feito de maneira
diferente na pós-graduação. Você olha os problemas de uma maneira diferente. Em parte é o
que você disse: as pessoas aplicam coisas sem realmente entender e algumas vezes isso é feito
em grande detalhe, com uma certa sofisticação, mas sem um entendimento real. Então, nós
sempre achamos que temos de começar do início, mesmo com alunos que têm o equivalente a
PhD de outra instituição.

Tenho a impressão de que as pessoas não deveriam dedicar toda sua atenção para a lingüística
quando têm entre 18 e 22 anos de idade. Há um mundo muito mais interessante do que esse.
Acho que elas deveriam estar estudando outras coisas e vir para nós com outros
conhecimentos: matemática, história, alguma coisa que não seja lingüística. Isto é, eles
deveriam vir para a lingüística com uma bagagem cultural mais rica. Mas eu acho que sou o
único no departamento que pensa assim e como é um departamento democrático, aceitamos
estudantes cujas qualificações acadêmicas principais estão na lingüística. Pessoalmente, não
acho que seja uma boa idéia, embora algumas das melhores pessoas venham daí, mas é assim
que fazemos.

Eu pessoalmente acho que nesta época da vida - na graduação, as pessoas deveriam estar
explorando o mundo de maneira mais ampla, e somente na pós-graduação faz sentido se
concentrar em um tópico específico. Na pós-graduação, faz sentido trabalhar intensivamente
sobre um tópico, aprender alguma coisa sobre ele, prestando atenção a outras coisas, é claro,
mas não antes disso. Talvez esta opinião seja influenciada pela minha própria experiência
pessoal. Eu vim para a área sem nenhum conhecimento prévio. Na realidade, há um pequeno
segredo conhecido entre lingüistas profissionais e eles são suficientemente educados para não
falar sobre isso. É que mesmo agora, não tenho qualificações profissionais. Nunca conseguiria
entrar num bom curso de pós-gradução em lingüística; eles nunca me admitiriam. Certamente,
eu não passaria no nosso próprio exame. Isto é uma coisa pessoal, mas para mim tem valor e
eu acho que pode ter para outras pessoas também.

Vamos para outro extremo: o programa que eu mencionei com os falantes nativos americanos
de, digamos, Navaho ou Hopi. Eles vêm com conhecimentos acadêmicos muito limitados.
Alguns deles fizeram faculdade, mas não fizeram faculdade de primeira linha, pode-se dizer
que tiveram uma formação acadêmica razoavelmente limitada. No entanto, eles conseguem
aprender lingüística e são capazes de fazer um trabalho muito bom. Nos dias de hoje, muitas
pessoas que fazem um trabalho mais avançado em lingüística tiveram uma formação intensiva
em lingüística durante o período equivalente ao programa de graduação norte-americano, isto
é, entre as idades de 18 e 22 anos. Se essa é uma boa idéia ou uma má idéia, pode-se discutir,

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mas essa é a situação.

Qualquer que seja a base acadêmica do aluno, acho que a coisa mais importante é ter clareza
de espírito, um espírito exploratório, vontade de mudar as coisas, isto é, uma insistência de
que coisas que lhe disseram façam sentido e se elas não fizerem, você não tem que aceitá-las.
Esse ponto de vista se desenvolve nas pessoas de maneiras diferentes e é muito útil. Nas
ciências é comprovadamente útil e acho que na lingüística, isso é definitivamente útil. Quando
olho para os últimos 35 anos, durante os quais preparamos alunos de pós-graduação, vejo que
todos eles entraram para o programa com qualificações extremamente altas. São todos muito
inteligentes, os melhores alunos das melhores universidades, mas eles se separam
rapidamente. Normalmente, você pode sentir quais vão se dar bem e quais não vão, e na
maioria das vezes isso tem a ver com essas qualidades. Portanto, é bom ter essas qualidades,
não importa de onde elas venham.

Quanto à formação acadêmica, acho que pode variar muito. Atualmente, em sua maior parte,
tal formação é fortemente profissional. Mas por outro lado, as pessoas têm de entender que,
quando você faz uma pesquisa sobre um tema, você faz porque interessa saber qual é a
resposta, não só porque você está curioso.

Por exemplo, eu acabei de vir de helicóptero de Recife para Maceió e vi muitas palmeiras.
Digamos que alguém do Departamento de Biologia proponha uma tese na qual pretenda
contar o número de palmeiras que há entre Recife e Maceió. Ninguém no departamento de
biologia permitirá que ele faça isso, porque não interessa saber a resposta. Sim, ele terá uma
resposta e talvez alguém ache que ela está errada e tente fazê-lo melhor. Mas isso não faz
nenhuma diferença, então por que fazê-lo ? Muitos trabalhos em lingüística são assim
também: não há razão para fazê-los. Não interessa se a resposta vem de uma maneira ou de
outra. Não se pode fazer nada com os dados e você provavelmente descobrirá mais tarde que
fez a pergunta errada.

Então, acho que uma parte da formação acadêmica deveria tornar as pessoas não apenas
céticas mas também auto-críticas. Pergunte a si mesmo: "Vou investigar esta questão. Tem
importância saber a resposta? "Se não tiver, você deve se perguntar porque está fazendo isso.
Só por curiosidade ? Contar o número de palmeiras que existem entre aqui e Recife?

O que você disse sobre as pessoas em outras áreas é absolutamente correto. O trabalho que foi
feito em lingüística aplicada, com ensino de línguas, com a linguagem da criança, em
processamento de linguagem, em patologia e em outras áreas foi realmente baseado numa
compreensão muito superficial. Na maioria das vezes, eles olharam para a tecnologia
descritiva sem entender do que se tratava e porque estava provavelmente errada. Em relação a
isso, o início da história da psicolingüística é muito interessante. A psicologia não é como as
ciências, embora esteja mudando. Em física, por exemplo, não há uma diferença real entre
física experimental e física teórica. Algumas pessoas passam mais tempo fazendo
experimentos e outras mais tempo em suas mesas, mas todas elas interagem. O físico
experimental não espera que lhe digam qual teoria aplicar para depois fazer um experimento
sobre ela. A coisa funciona nas duas direções: os experimentos são inovadores e o teórico tem

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que mudar sua opinião e assim por diante.

Na psicologia foi diferente: os psicólogos queriam que lhes dissessem a verdade sobre a
linguagem para depois aplicá-la ao processamento da linguagem ou à linguagem da criança.
Eles pegaram a última coisa que publicamos, por exemplo, Aspects, e decidiram fazer alguns
experimentos com ele. Experimentos, entretanto, são difíceis de fazer e quando conseguiram,
ninguém mais acreditava no modelo de Aspects, porque ele estava em transição. Isso fez com
que os psicólogos ficassem muito aborrecidos. Algumas vezes era muito engraçado olhar para
os experimentos. Eram estudos sobre processamento baseados na idéia de que a negação, a
formação de interrogativas e a formação da passiva eram transformações independentes que
de alguma maneira contribuíram para tornar as coisas ainda mais difíceis de processar. Os
experimentos tinham resultados confusos, o que levou os psicólogos a algumas conclusões
muito estranhas e pré-científicas. Por exemplo, eles concluíram que como os experimentos
chegaram a resultados confusos, a teoria deveria estar errada. Além disso, disseram eles, os
lingüistas ficavam mudando a teoria, então ela realmente deve estar errada. Assim, durante um
período de 15 anos, os psicólogos não fizeram nada com a teoria lingüística. Tais crenças
simplesmente acabaram com a pesquisa psicolingüística. Somente agora ela está ressurgindo
com pessoas que têm mentalidade científica.

É claro que não se pode simplesmente pegar a última publicação em lingüística e fazer
experimentos com ela. É preciso entender por que a pessoa colocou as coisas daquela forma,
se suas razões foram motivadas, que partes provavelmente sofrerão mudanças porque eram
apenas palpites, que partes foram colocadas lá apenas para aproveitar os dados que estavam à
mão (embora você não saiba por que os dados são daquele jeito), e que parte tem um princípio
importante por trás. Você tem que acreditar que seu próprio trabalho mudará a maneira de
olhar as coisas. Você está lá para ser criativo à sua maneira, não para fazer o que os lingüistas
dizem. Ao ver o que acontece quando se trabalha com idéias lingüísticas em diferentes
contextos, como a linguagem da criança ou afasia, você pode ter novas idéias.

De maneira geral, esse problema foi contornado: cada vez mais há uma troca natural entre
lingüistas e psicólogos. Mas por um bom tempo esta interação não foi possível e as aplicações
eram exatamente como você as descreveu: mecânicas, sem propósito e algumas vezes até
prejudiciais.

No caso das aplicações em educação, foram realmente prejudiciais. O pior dano, na minha
opinião, foi causado pela lingüística estrutural. Os lingüistas estruturais não ajudaram os
professores a serem céticos; apenas disseram "esta é a verdade" e os professores acreditaram,
desenvolvendo métodos de ensino com base nessas teorias. As teorias estão na sua maioria
erradas, mas mesmo na medida em que estão certas, a aplicação é irremediavelmente tediosa.
Se você tiver que aprender uma língua usando os métodos da lingüística estrutural, você tem
que memorizar padrões. É insuportavelmente enfadonho.

Uma vez, minha esposa e eu fomos convidados para ir a Porto Rico, uma colônia americana,
onde todos falam espanhol e aprendem inglês. Nós descobrimos, simplesmente andando pelas
ruas, que se você quisesse encontrar um restaurante perguntando em inglês, você tinha que

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encontrar um pessoa que tivesse mais de 25 anos. Se você falasse com uma pessoa mais nova,
que tivesse estudado inglês no sistema escolar durante 12 anos, ela não era capaz de dizer a
você como encontrar um restaurante na esquina mais próxima. Então, quando fomos às
escolas, descobrimos por quê. Os alunos estavam aprendendo inglês por métodos
estruturalistas, principalmente análise estrutural: estudando padrões, memorizando estruturas
de sentenças, repetindo coisas inúmeras vezes. Depois de cinco minutos, todas as crianças
estavam jogando coisas umas nas outras, correndo pela sala, colocando os livros no chão ou
fazendo algo parecido, porque aquilo era chato demais. Sem mencionar que intelectualmente
não tem sentido algum. Qualquer professor sabe que talvez 95% do problema esteja em
manter o aluno interessado. Se eles estiverem interessados, eles aprenderão. Se não estiverem,
não aprenderão, não importa o método. Aí apareceram as gramáticas transformacionais e elas
produziram uma outra coisa que era igualmente chata. Desta vez, em vez de estudar padrões,
estudavam-se transformações. Os alunos estudavam como se formam sentenças pela regra da
passiva, algo em que ninguém mais acreditava e que era chato demais, de qualquer maneira.

Este é o tipo de aplicação de teoria com a qual você deve se preocupar. Em psicolingüística,
esses mal-entendidos interromperam a pesquisa por cerca de 15 anos. Na educação, eles
realmente prejudicaram as pessoas e isso é sério. Você tem que ter responsabilidade suficiente
como profissional para dizer ao professor: "Olhe, nós não sabemos as respostas. Você tem que
descobrir a resposta que é a melhor para a sala de aula. Nós podemos dizer a você como
achamos que a língua funciona e realmente faz sentido saber o que as pessoas pensam. Mas
você tem que descobrir o que funciona tendo em vista os seus objetivos educacionais e sua
situação". Os profissionais têm a responsabilidade de deixar isso bem claro. Nas ciências eles
o fazem. Você não vê um físico no MIT dizendo às pessoas como ensinar crianças de 12 anos.
Eles dizem: "Olhe, isto é o que sabemos sobre física. Tente explicar num nível adequado, para
que seus alunos entendam". Na lingüística, não tem sido assim, infelizmente. Na psicologia é
ainda pior. Os psicólogos têm verdadeiramente a responsabilidade de dizer: "Olhe, aqui estão
algumas coisas que achamos que entendemos. Provavelmente vão mudar amanhã, se a área da
psicologia ainda estiver viva. Você deve refletir sobre elas e usá-las, se elas fizerem sentido
para você. Não as use se achar que não têm sentido. Modifique-as e diga-nos como mudar
nossas teorias, porque você está experimentando-as." Esse é o tipo certo de interação e na
maioria das áreas é extremamente difícil transpor essa barreira. A formação acadêmica
simplesmente não funciona desta maneira nas ciências. Nas humanidades e nas ciências
sociais, tudo é muito mais autoritário, então você toma atitudes erradas, o que pode ser um
tanto prejudicial algumas vezes. Mas, como eu disse, essa é apenas a minha visão pessoal e
você deve ser cética em relação a ela.

Adair Palácio: Muito obrigada. O senhor nos deu muito sobre o que refletir. Agora o Mike
vai perguntar sobre o futuro.

Mike Dillinger: Eu gostaria de retomar a pergunta da Denilda sobre o papel do uso da


linguagem dentro da teoria lingüística e formulá-la um pouco. No início dos anos 60, o senhor
propôs uma distinção entre uso e competência dizendo: "Estamos nos concentrando nessas
coisas no presente momento (competência), e há outras que poderão ser levadas em
consideração mais tarde (desempenho)". Uma das coisas que eu tenho dificuldade em achar
um lugar nessa dicotomia é o processamento da linguagem, principalmente o parsing. As

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coisas que a Denilda mencionou, o uso e a variação da linguagem, são ainda mais difíceis de
situar. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso?

Noam Chomsky: A diferença entre saber alguma coisa e fazer alguma coisa é indiscutível. Há
uma diferença: você sabe coisas e você faz coisas. Você pode estudar o que sabe e estudar o
que faz: são temas diferentes, não importa o que você esteja estudando. Se você estiver
estudando o uso do sistema visual, digamos, a maneira como você vê as coisas, é possível
estudar o que você faz e quais são os mecanismos internos. São simplesmente estudos
diferentes, embora obviamente relacionados.

Num mundo sensato, que não é o mundo em que vivemos, chamaríamos o desempenho de
"conhecimento". Nosso mundo não é sensato: basta dizermos "conhecimento" para sermos
soterrados por idéias dúbias provenientes da epistemologia, da psicologia e da filosofia da
mente que tentam explicar o que é o conhecimento. É preciso afastar essas idéias e dizer,
"Estou apenas me referindo ao que as pessoas sabem e queremos descobrir o que é esse
saber". Utilizei a palavra "competência" apenas para evitar discussões, embora signifique
simplesmente "conhecimento" . No entanto, "competência" levou a outras interpretações
errôneas, pois as pessoas possuem conotações de competente e não-competente. É
extremamente difícil encontrar uma palavra que as pessoas não interpretem erroneamente.

Novamente, isso não é problema nas ciências. Se um físico fala de, por exemplo, "trabalho",
ninguém reclama que ele não tem emprego. Sabemos que eles estão apenas usando o som
como um conceito técnico e que, para eles, essa palavra tem um significado especial. Nesse
ponto, os lingüistas estão num estágio semelhante ao das ciências no início do século XVII,
quando essas coisas foram estabelecidas.

Os debates sobre competência versus desempenho e dados versus teoria, são bons exemplos
disso. No século XVII, foi desenvolvido o conceito moderno de racionalidade que é utilizado
nas ciências. Embora não tenha sido muito difundido, tal conceito desenvolveu-se
significativamente em algumas áreas, e é extremamente importante, pois não apenas levou ao
desenvolvimento das ciências, mas também foi um dos principais fatores na Revolução
Industrial. Uma das razões pelas quais a Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra e não do
outro lado do Canal, na França, foi porque a mentalidade científica estava muito mais
estabelecida na Inglaterra do que na França.

Houve muitos outros efeitos desse conceito de racionalidade. Considere Descartes, por
exemplo, que comprava animais mortos em açougues e retirava seus olhos porque estava
interessado na teoria da visão. Isso foi considerado chocante. Cavalheiros não faziam essas
coisas; eles sentavam e estudavam Aristóteles para saber o que ele dizia sobre a mente.
Depois, verificavam o que Tomás de Aquino disse sobre Aristóteles, e era assim que se
desenvolvia uma teoria da visão. Na época, isso era considerado a verdadeira ciência.

Descartes superou isso, dizendo: se você quiser desenvolver a teoria da visão, terá que abrir o
olho de um carneiro, e terá que fazê-lo sozinho, ao invés de mandar o criado. Isso provocou
uma grande mudança, e o mesmo aconteceu com o estudo da linguagem. Foi nesse período

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que o estudo das línguas vernáculas realmente começou. Foi muito importante o fato de
pessoas como Descartes escreverem em francês, ao invés de em latim, coisa que também não
era comum naquela época. Eles não apenas escreveram em francês, mas começaram a estudar
francês.

A Gramática de Port-Royal12 foi chamada de "Gramática Racional e Filosófica", e algumas


pessoas acharam que isso queria dizer que ela era meio que deduzida de altos princípios, algo
como a geometria. No entanto, ela não era nada disso. Por exemplo, eles estava estudando
algo que permaneceu um grande enigma durante 150 anos: alguns fatos curiosos sobre o
francês falado, chamados de Regra de Vaugelas. Vaugelas foi um gramático descritivo francês
que publicou a primeira gramática do francês falado realmente extensiva13. Ele descobriu
algumas coisas muito interessantes sobre as orações relativas, coisas como, quando você pode
colocar um artigo e quando não pode. Era nisso que estavam interessados no Monastério de
Port-Royal, e grande parte dos seus esforços foram empregados na tentativa de explicar coisas
como essa. As teorias resultantes têm algo de bastante moderno e foram as primeiras a
envolver noções mais ou menos do tipo de transformações e estrutura frasal . Na área
semântica, as idéias que surgiram também são bastante modernas. Desenvolveram uma visão
que é exatamente a mesma das noções desenvolvidas por Frege de sentido e referência14 e
usaram-na para explicar a Regra de Vaugelas: onde você pode colocar uma oração relativa,
onde não pode, quando ela delimita um sintagma, quando ela o expande, a diferença entre
expandir a referência e expandir o significado, e assim por diante. Tudo isso foi desenvolvido
por eles, mas não foi deduzido dos primeiros princípios, e sim através da análise de alguns
fatos interessantes sobre o francês falado que, até aquele momento, não haviam sido estudados
por ninguém. É assim que as coisas funcionam nas ciências. Não dá para distinguir os dados
da teoria; é tudo integrado. Até muito recentemente, os únicos dados que tínhamos vinham do
uso da linguagem. Agora, porém, estamos começando a obter dados exóticos como as
imagens mentais/cerebrais ('brain imagery'), o que tornará as coisas mais interessantes.

Mike Dillinger: O senhor diria, então, que o processamento e o parsing passaram a ser
considerados parte da competência?

Noam Chomsky: Não, o processamento é o que você faz, é o que você e eu estamos fazendo
agora: processando as sentenças um do outro. É algo que fazemos, e pode-se estudar como
fazemos. De algum modo, eu tenho que ter, na minha cabeça, conhecimento de inglês e muito
mais, porque o que você está falando não é o que eu falo. Sempre há diferenças, e às vezes
elas podem ser muito grandes, o que significa que eu tenho na minha mente conhecimento da
minha própria língua, mas também capacidade de memória, memória estruturada, habilidades
analíticas e muitas outras coisas de vários tipos.

A teoria do parsing é um pouco artificial, pois é baseada na pressuposição de que acessamos


apenas a gramática, e isso certamente não é verdade. Quando você está processando, está
usando seus conhecimentos, mas também está adaptando-os. É preciso adaptá-los até mesmo
para entender a pronúncia de outra pessoa, quase reflexivamente, e a menos que a diferença
seja enorme, você nem mesmo nota que está adaptando. Isso faz parte do desempenho, que
envolve conhecimento e muitas outras coisas. Se você estudar processamento, você estuda

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todas essas coisas.

Mike Dillinger: Mas muitos estudos parecem indicar que pelo menos algumas partes do
parsing utilizam apenas informações gramaticais, e não necessitam de outros tipos de
informação.

Noam Chomsky: Isso deve ao fato de as pessoas estarem estudando situações altamente
idealizadas, o que faz sentido quando se está fazendo um experimento. Por que as pessoas
fazem experimentos, ao invés de simplesmente retratarem o que está acontecendo no mundo?
A resposta é que o está acontecendo no mundo é complicado demais, não dá para entender. Se
os físicos, os químicos ou os biólogos tivessem que estudar os fenômenos que os cercam, não
entenderiam nada, porque são complexos demais. Então, fazem experimentos para eliminar
coisas. Um experimento nada mais é que uma teoria que diz, "Eu acho que isso não é
relevante, portanto, só vou olhar para aquilo". Nos primórdios da ciência, quando Galileu
estava começando a fazer seus experimentos, foi criticado por serem artificiais demais. Afinal,
o que tem de importante numa esfera deslizando por um plano? Isso não acontece na vida real,
o que acontece é bem diferente. Quem se importa com as linhas retas ? Não há nenhuma linha
reta na natureza. Você está apenas estudando essa coisinha artificial que não faz sentido
algum.

Hoje, as pessoas fazem o mesmo tipo de crítica à lingüística: é muito artificial, você não está
estudando toda a riqueza e a complexidade da linguagem, exatamente o que se dizia de
Galileu.

Se voltarmos no tempo e analisarmos a história cuidadosamente, veremos que Galileu, um dos


primeiros a perceber que a idealização é necessária, era, de certo modo, um charlatão. Galileu
inventava dados porque sabia que precisava convencer os aristocratas que lhe davam apoio,
uma espécie de CNPq, mas que naquela época eram duques e lordes. Eles não conseguiam
perceber a serventia desse tipo de coisa, e Galileu precisava convencê-los de que valia a pena.
Quem está interessado em saber por que as coisas caem para baixo ao invés de para cima? É
óbvio que elas caem para baixo, para onde mais elas poderiam cair? Foi muito difícil
convencer as pessoas de que havia algo para ser estudado.

Ele distorceu os fatos quando inventou o telescópio; é uma história interessante. O que
geralmente aprendemos é que Galileu inventou o telescópio, viu as quatro luas de Júpiter e
todo mundo ficou empolgado. Não foi bem assim que as coisas se passaram. É difícil utilizar
um telescópio; você tem que aprender a entender o que vê. O telescópio de Galileu era bem
primitivo e quando as pessoas olhavam através dele, viam apenas coisas inúteis, não sabiam o
que estavam vendo. Mas descobriram que, se olhassem para uma casa do outro lado do vale,
ela ficava maior. Hoje entendemos por quê: nossa mente é capaz de suprir toda a riqueza de
compreensão que a imagem visual não pôde proporcionar. Então, quando o Duque - o
representando do CNPq - olhava para as coisas das quais ele entendia, como por exemplo,
casas, ele conseguia vê-las. Mas quando olhava para Júpiter, não conseguia enxergar nada, e
Galileu fez com que ele acreditasse que estava vendo quatro luas. Portanto, Galileu teve que
empregar muitos truques para fazer com que as pessoas acreditassem que essas coisas eram

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importantes, e alguns casos são muito engraçados.

Pode-se compreender isso com a leitura de seus Diálogos15, onde ele descreve seus
experimentos. Galileu não realizou a maioria daqueles experimentos famosos; muitos deles,
aliás, são impossíveis de realizar. O que ele realmente fazia era deduzir coisas de princípios, e
depois forjava experimentos para provar suas conclusões. Um experimento famoso é aquele
de soltar duas esferas de cima da Torre de Pisa. Seria impossível obter resultados apropriados
soltando duas esferas, todo tipo de coisa interferiria e nunca daria certo. Galileu apenas contou
uma história sobre soltar esferas de cima da Torre, mas o que ele fez na verdade foi muito
mais interessante: deduziu seus resultados a partir de princípios abstratos. Se você ler o
argumento dele com atenção, verá que ele diz que se você pegar uma esfera grande e uma
pequena, elas cairão numa determinada velocidade, qualquer que seja ela. Se você aproximá-
las um pouco, elas continuarão a cair na mesma velocidade. Se você aproximá-las de maneira
que elas passem a se tocar, isso não mudará a velocidade com que elas caem. Como isso é
possível? Agora elas são apenas uma massa, uma massa maior, portanto, o que se depreende
daí é que não importa o tamanho da massa, a esfera cairá com a mesma velocidade. Esse foi o
argumento de Galileu na verdade, mas com esse argumento ele nunca convenceria os duques,
por isso ele contou a história das esferas caindo da Torre de Pisa.

Hoje conseguimos superar esses problemas e realizamos apenas os experimentos necessários.


Sabemos que um experimento é uma teoria que assume que algumas coisas são irrelevantes, e
que se elas forem postas de lado, talvez possamos encontrar um princípio que explique parte
do fenômeno. Em última análise, esperamos poder voltar e explicar toda a complexidade de
fenômeno.

O mesmo ocorre com o parsing. O motivo pelo qual as pessoas estudam parsing em situações
artificiais, sob circunstâncias especiais, e não no discurso comum, é porque elas esperam que
se você conseguir se livrar dos outros fatores, talvez consiga encontrar os princípios. E depois,
você pode voltar e olhar os outros fatores. Mas são criticados pelos sociolingüistas e pelas
pessoas que trabalham com a chamada lingüística "da vida real" por se abstraírem da
complexidade, quando na verdade, estão apenas sendo racionais.

Mike Dillinger: Então isso é um tipo de idealização, não é?

Noam Chomsky: É, mas "idealização" é um termo que pode provocar alguns mal-entendidos,
porque seu verdadeiro significado é: se mover em direção à realidade. Quando você fala em
idealização ou abstração, é um esforço para encontrar a realidade. Quando fazemos uma esfera
deslizar por um plano sem atrito, isso se chama idealização, mas o que estamos realmente
fazendo é buscando o princípio real pelo qual as coisas atraem umas às outras. Os fenômenos
é que são inconvenientes: de certo modo eles não são reais, porque são complicados demais. É
como se a realidade se escondesse por trás dos fenômenos; é necessário se livrar de grande
parte dos fenômenos para encontrá-la.

Mike Dillinger: O senhor está dizendo, então, que os estudos de parsing não são
suficientemente abstratos?

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Noam Chomsky: Provavelmente não são. Mas eu gostaria de salientar que precisamos nos
lembrar de que quando as pessoas empregam a palavra "idealização", empregam-na com o
sentido de uma tentativa de encontrar a realidade. É realmente um termo estranho para isso.
Os cientistas entendem esse significado, mas em outras áreas ele é mal compreendido.
Algumas pessoas acham que você está estudando algo de outro mundo quando você fala de
idealizações. Foi isso o que os duques disseram a Galileu, e se eles tivessem vencido, não
haveria ciência hoje. Estamos apenas estudando a coisa real: descrevemos o que as pessoas
fazem quando conversam umas com as outras.

A ciência começa quando você entende que, para encontrar a realidade, terá que se afastar dos
fenômenos. Precisamos olhar para as coisas simples que podem revelar os verdadeiros
princípios, e depois talvez possamos voltar e compreender algo dos fenômenos observáveis.
Se concentrarmos nossa atenção apenas nos fenômenos, não entenderemos nada sobre a
realidade. As pessoas que olham para os fenômenos acabam obtendo uma porção de dados,
mas fazem muitas perguntas cujas respostas simplesmente não interessam.

A teoria do parsing é interessante e tem fornecido resultados interessantes porque é altamente


idealizada, ou seja, altamente racional, o que significa que está tentando encontrar os
verdadeiros princípios, os quais certamente envolverão conhecimento. Não poderia ser de
outra maneira. Quando eu ouço você falar, eu uso o meu conhecimento de inglês. Mas estou
usando várias outras coisas também, e queremos tentar descobrir que outras coisas são essas.

Mike Dillinger: O senhor acha possível estabelecermos um paralelo entre as teorias


anatômica e fisiológica dos sistemas biológicos de um lado e as teorias gramatical e de
parsing de outro? Seria razoável fazer esse paralelo?

Noam Chomsky: Na verdade não, porque elas não recortam o objeto de estudo da mesma
maneira. Quando estudamos a fisiologia do cérebro, estudamos como os neurotransmissores
funcionam, como as substâncias químicas se movimentam entre os neurônios. Isso é chamado
de fisiologia, mas é paralelo à gramática gerativa. Podem-se estudar os mecanismos, tanto na
sua anatomia como sua fisiologia, e também é possível estudar como se usam os mecanismos.
As Ciências do Cérebro como um todo são como a gramática gerativa: não estudam como os
mecanismos são usados.

Considere o estudo da visão, por exemplo. Quando eu olho para essa sala, posso focalizar
minha atenção em um ou em outro aspecto da sala, e ela parecerá diferente. A mesma
impressão será gravada na minha retina, mas eu enxergarei coisas diferentes, dependendo do
que eu estiver procurando. Isso está dentro da minha mente: eu escolho o que vou procurar. A
imagem da retina permanece a mesma, como se eu estivesse procurando outra coisa, mas eu
vejo coisas diferentes. As pessoas não estudam isso, pois é complexo demais.

Vejamos outro exemplo: na verdade, é muito difícil explicar como eu consigo esticar o braço
e pegar isto. Ninguém consegue compreender muito bem como isso é possível, o que é um
grande problema para a robótica. Tentar entender como construir um robô que possa fazer isso
é um problema bastante complicado. É preciso saber as instruções que vão para o ombro e o

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cotovelo, é preciso planejar, ter um feedback etc. As pessoas estudam isso, mas ninguém
estuda por que fazer isso e não aquilo. Esse é o tipo de problema que não dá nem para tentar
estudar.

Portanto, a maioria dos problemas relativos ao uso dos sistemas nem mesmo faz parte da
ciência. No estudo da linguagem, pelo menos tenta-se fazer com que isso seja parte da ciência,
mas apenas uma pequena parte. Lembre-se de que você estuda o parsing e não a produção; há
uma teoria de parsing, mas não há uma teoria de produção. Existem livros sobre produção,
obviamente, como Speaking, de Willem Levelt, mas não há muito a dizer porque estudar a
produção é como tentar entender por que eu estico o braço para isso e não para aquilo. Está
muito além do que a ciência pode fazer. Mas o parsing, e a psicologia da percepção em geral,
podem ser estudados. Você pode fazer algum progresso porque você a simplifica o suficiente
para tentar aprender alguma coisa.

Mike Dillinger: O senhor mencionou que a psicolingüística está ressurgindo. Na sua opinião,
que direções parecem ser mais promissoras para a pesquisa psicolingüística?

Noam Chomsky: Há muitos trabalhos interessantes. O meu próprio Departamento é um


exemplo. Cerca de metade dos nossos alunos fazem parte de um programa conjunto com o
Departamento de Ciências Cerebrais e Comportamentais, com duração de cinco anos, que é,
basicamente, Psicologia Cognitiva. Os alunos fazem cursos e desenvolvem projetos de
pesquisa nas duas áreas. Sempre quisemos aproximar esses dois campos, e agora o programa
está tomando caminhos interessantes, e eles fazem de tudo, desde estudos de processamento
até estudos das imagens cerebrais.

Um dos grandes problemas de se estudar a linguagem é que ela é própria dos seres humanos;
não dá para fazer experiências com outros organismos. Uma das maneiras importantes que as
pessoas descobriram para estudar a visão, por exemplo, foi torturar gatos e macacos, colocar
eletrodos em seus cérebros, criá-los em ambientes controlados, e assim por diante. Há
discussões sobre se isso é correto ou não, mas as pessoas fizeram isso e aprendemos muito
com essas pesquisas. No caso dos seres humanos, isso simplesmente não pode ser feito, e
torturar macacos não ajuda muito, porque eles não têm linguagem ou algo parecido. Estimular
o cérebro humano eletricamente durante uma cirurgia só para ver o que acontecia, algo que
era feito anos atrás - isso foi feito em McGill, aliás16 - não é mais permitido. Hoje isto é
considerado apropriadamente antiético. Você não pode simplesmente realizar experimentos
intrusivos com humanos, o que dificultou saber mais sobre a linguagem. Por outro lado, há
técnicas não-intrusivas sendo desenvolvidas, como por exemplo, registrar a atividade elétrica
do cérebro. Hoje em dia, é possível registrar boa parte do que ocorre: pode-se ver que partes
do cérebro estão ativas enquanto você está processando (estudos do fluxo sangüíneo cerebral
regional - rCBF = 'regional cerebral blood flow'), você pode ver algumas reações químicas
acontecendo (com espectroscopia de ressonância magnética nuclear (NMR = 'nuclear
magnetic resonance'), e assim por diante. É possível até mesmo ver que partes do cérebro são
ativadas quando você ouve um verbo irregular. Aliás, o último número de Language tem um
longo editorial sobre a formação de imagens cerebrais com resultados sobre processamento de
verbos regulares e irregulares17. Descobriu-se que eles envolvem o uso de partes diferentes do

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cérebro. Até agora, ninguém sabe o porquê, está muito além da nossa compreensão, mas
estamos começando a ter algumas evidências sobre isso. Portanto, há desde estudos como esse
até estudos sobre processamento, e muito trabalho na área de aquisição de linguagem, que é
uma área muito [Link] isso está acontecendo, e muitos de nossos alunos estão
envolvidos, estão desenvolvendo até suas dissertações sobre esses temas.

Mike Dillinger: Eu gostaria de passar para o Minimalismo e perguntar: Nesse momento,


quais seriam os melhores candidatos a princípios da linguagem e como eles podem ser
parametrizados? As pessoas perguntam isso freqüentemente, e às vezes é difícil apontar
princípios específicos que sobreviveram à passagem do tempo.

Noam Chomsky: Eu acho que muitas coisas sobreviveram à passagem do tempo. Uma deles
é que há dois tipos básicos de operações: a Junção18 ('Merge') e a Atração ('Attract-feature').
Essas são operações recursivas, você as usa para construir coisas e uni-las.

A Junção parece ser inevitável. Parece ser assimétrica: se você juntar uma coisa na outra, o
resultado tem exatamente as propriedades do alvo.

Outra coisa é a idéia de que grande parte do conjunto de operações transformacionais na


realidade se reduz a componentes atrativos para apagar componentes não-interpretáveis. Este
me parece um princípio muito poderoso, embora não seja possível afirmar que ele sobreviveu
à passagem do tempo, porque é novo, tem apenas cerca de dois anos. Mas é o tipo de resultado
que realmente parece estar correto.

A idéia de que o movimento aberto é um reflexo das propriedades sensório-motoras é ainda


mais controversa, mas eu acho que deve estar certa, embora não possa ser provada no
momento. É possível demonstrar isso em casos muitos simples, como algumas propriedades
do movimento -QU, mas o tópico geral é bastante complicado. Infelizmente, ninguém está
trabalhando nisso, talvez porque seja complicado demais. Faz anos que sugiro esse tema para
as dissertações dos alunos, sem resultados, ainda. É um problema complexo: por que o italiano
funciona diferentemente do espanhol? Você acha que os sintagmas que podem ser formados
funcionariam da mesma maneira, mas não é isso que ocorre. Ainda acho que descobrirão que
isso é verdade, como a teoria de Galileu sobre as esferas caindo da Torre de Pisa. Sua lógica
está correta.

Quanto aos outros princípios, como o da teoria da ligação, por exemplo, ainda não foram
totalmente compreendidos, mas penso que resistiram razoavelmente bem à passagem do
tempo.

Mike Dillinger: Mas eles não estão fora do componente computacional?

Noam Chomsky: Acho que sim. A questão de onde eles estão é importante, mas o que eles
são, não está bem entendido ainda. A nossa compreensão deles não está bem clara. Há, ainda,
muitas questões quanto aos mecanismos, embora as idéias básicas estejam bem estabelecidas.
Minha opinião é de que eles são interpretados na interface, como argumentei em The

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Minimalist Program, mas parece que há evidências contra isso. Então, se você analisar,
descobrirá que as coisas acontecem como se estivessem nos primeiros estágios da derivação.
O que temos de demonstrar é que isso é um reflexo dos traços de cadeias de estruturas
anteriores. Acho que isso sim, funciona.

Muitas dessas questões técnicas relacionam-se à reconstrução em cadeias-A. Aqui, por


exemplo, as opiniões são bastante diferentes. Norbert Hornstein tem algumas idéias novas
sobre isso que diferem das minhas. Elas estão num artigo não-publicado, em que ele defende a
reconstrução19. Porém, eu não acredito nisso. Essas questões são bastante atuais, mas sua
estrutura básica é bem estável.

Com relação à teoria theta, também há muita polêmica. Tenho a impressão de que o que
acabará sendo mais adequado, é algo como a teoria de Hale e Keyser20, mas novamente, isso
se deve mais a razões conceptuais do que devido às evidências. A teoria deles restringe
fortemente a variedade dos papéis theta, mas parece ser possível encontrá-la em uma grande
quantidade tipológica de línguas que parecem ser totalmente diferentes. As línguas parecem
ser mais ou menos iguais em termos dessas estruturas semânticas; meu palpite é que Hale e
Keyser estão no caminho certo. Meu outro motivo para acreditar nisso é que Ken Hale tem um
instinto milagroso sobre a língua. Então, quando ele tem algum palpite, geralmente está certo.
Minha experiência diz que ele provavelmente está certo, mesmo que não tenha nenhuma razão
para tal; eu acredito nele, apesar de contradizer o que eu disse anteriormente sobre ser cético.

A Teoria dos Casos começou há mais ou menos dezessete anos, com uma proposta original
que realmente revolucionou a área. Quando Howard Lasnik e eu escrevemos Filters and
Control em 197721, o qual juntou muitas coisas de forma interessante, ficamos muito
satisfeitos. Mas aí eu recebi uma carta do Jean-Roger Vergnaud, mostrando que muito do que
estávamos tentando explicar poderia ser explicado mais facilmente se assumíssemos que o
inglês possuía os mesmos casos do latim22. Ninguém havia pensado nisso, porque
obviamente, o inglês não tem nenhum caso, mas quando você analisa a idéia dele, percebe que
ela funciona. Muito do que estávamos descrevendo funcionaria melhor se fingíssemos que o
inglês era como o latim. Essa sugestão foi muito valiosa, e provocou uma grande explosão de
estudos sobre a Teoria dos Casos. Os resultados desse trabalho parecem bastante estáveis,
embora eu ache que haverá mudanças radicais quando as pessoas começarem a analisar dados
provenientes de um conjunto mais rico de línguas. A maior parte desse trabalho baseou-se em
línguas indo-européias, mas se você analisar as línguas amazônicas ou as línguas da Nova
Guiné e outras, encontrará uma grande variedade de coisas que lembram os sistemas de caso,
mas funcionam de modo completamente diferente. Acho que, quando essa informação for
melhor compreendida, provavelmente transformará dramaticamente o que pensamos sobre os
sistemas de caso. Mesmo assim acho que há muitos aspectos estáveis nesse princípio.

No entanto, há algumas propriedades que não se encaixam no Programa Minimalista. Durante


muito tempo, por exemplo, as pesquisas concentravam-se em coisas como o princípio da
categoria vazia: quando você pode extrair, ilhas, barreiras, e tudo mais. Eu ainda não consigo
ver uma maneira melhor de lidar com isso. Os mecanismos que foram utilizados, regência,
regência apropriada e assim por diante, operavam descritivamente, mas esse é um daqueles

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casos em que a tecnologia descritiva é quase da mesma complexidade do fenômeno que se


está descrevendo. Não é uma explicação verdadeira, é apenas um modo de dizer que por
enquanto não vemos nenhuma maneira melhor de explicá-lo. É por isso que há estudos sobre
esse tema atualmente.

Quando você se volta para a variação paramétrica, esta é também uma questão bastante
interessante. Por exemplo, qual é o significado do QU-in situ ('wh-in situ') em chinês? é um
princípio interpretativo? É um movimento coberto?

Mike Dillinger: Não seria uma parametrização da Atração ('Attract-feature')?

Noam Chomsky: Há alguma parametrização acontecendo aí, sim, mas o quê exatamente ela é
e onde ela ocorre não está claro, e isso é a chave do problema. O que exatamente indica para a
criança se ela vai ocorrer ou não? A melhor idéia que eu conheço, ainda é a proposta por Lisa
Cheng em sua dissertação23, em que ela tentou relacionar isso à presença, em alguns casos de
morfemas abertos de interrogativas; isso parece ser um bom tipo de acionamento. Pelo menos
a proposta dela parece ser bem ampla em termos de descrição. Acho que coisas como sujeito
nulo, porém, ainda estão muito no ar.

Mike Dillinger: O senhor poderia nos dar um exemplo de parametrização da operação de


Junção ('Merge')?

Noam Chomsky: Espero que não exista nenhum. Na verdade, há algumas perguntas bastante
interessantes como essa, que estão sendo feitas agora, pela primeira vez. As perguntas sempre
se baseiam em idéias teóricas, não há outra maneira de fazer perguntas, não importa quão
superficiais elas sejam. À medida que as teorias vão sendo aperfeiçoadas, as perguntas
também melhoram.

Considere a Junção. Se você analisar a teoria segundo a qual as operações fundamentais são
Junção e Atração, quando você olha o movimento aberto, você descobre que é uma
combinação das duas. Aliás, isso não foi colocado corretamente no Capítulo 4 do The
Minimalist Program. Se você estudar mais detalhadamente, perceberá que o movimento
aberto vai envolver tanto a junção como a atração e portanto, é uma opção mais complexa.
Isso, por sua vez, leva-nos a predizer que, se a teoria deve ser elegante, no curso da
computação você sempre vai fazer junção, se puder; e fará o movimento aberto apenas se não
existir nenhuma outra maneira da derivação convergir.

Isso traz conseqüências importantes para a ordem relativa nas quais as coisas deveriam
aparecer, por exemplo, no sintagma verbal. Assumindo que o sujeito seja SV-interno, isto é, a
ordem padrão, o que deveria ocorrer é que quando você tem o movimento aberto do objeto, o
objeto ficará acima do sujeito, porque o sujeito será introduzido primeiro. Como o sujeito é
introduzido simplesmente pela Junção e o objeto se move só depois, tanto por Atração como
Junção, a ordem que você esperaria encontrar seria objeto sobre sujeito. Bem, no quarto
capítulo de The Minimalist Program há muita discussão sobre por que isso não ocorre, pois
todo mundo achava que era o contrário. A principal evidência veio das línguas germânicas.

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Em japonês, isso não ocorre exatamente assim: a evidência não está clara porque há muita
mistura. Mas em islandês, as evidências são extremamente claras e toda a literatura - é uma
literatura muito rica, desenvolvida por lingüistas excelentes - concluiu que uma coisa era
certa: o sujeito estava acima do objeto. Mas a teoria prediz que a ordem tem que ser outra: o
objeto tem que estar acima do sujeito.

No Capítulo quatro há um grande esforço para explicar por que encontramos o sujeito acima
do objeto, que foi o que eu pressupus. Descobri que foi uma falsa pressuposição. Dianne
Jonas, uma aluna de Harvard, que concluiu sua dissertação recentemente, estudou o islandês e
o faroês e descobriu que todos os lingüistas estavam errados24. Os testes da ordem de
sujeito/objeto que eles utilizavam são muito complicados porque na verdade, nada permanece
no sintagma verbal. O que permanece no sintagma verbal são apenas traços, os elementos
ficam todos fora. A questão é: em que ordem eles apareceram no sintagma verbal? A ordem é
determinada pela colocação relativa aos advérbios; é assim que se pode testar. Todos os testes
que haviam sido usados baseavam-se nos advérbios que podem ocorrer no final da sentença.
Na realidade, eles são forçados a isso quando há uma escolha. Isso é que estava produzindo os
resultados errados. Essa aluna pegou um novo conjunto de advérbios, que não possuíam essa
propriedade, e descobriu, para surpresa geral, que o objeto está acima do sujeito. O que foi
muito bom, pois fornece suporte empírico para um princípio razoavelmente abstrato, ou seja,
que as únicas operações são Junção e Atração. Quando você é forçado por motivos acidentais,
você pode fazer as duas, produzindo o movimento aberto.

A outra evidência empírica principal para isso tem a ver com alguns problemas estranhos
sobre alçamento cíclico sucessivo. O fato é que você não pode ter, em inglês ou espanhol
coisas como "There seems a man to be in the room" e a questão é, por quê ? Se assumirmos
que a Junção precede a Atração, temos aí um novo conjunto de argumentos empíricos.

Na verdade, em islandês é diferente. É preciso analisar questões muito complicadas sobre


infinitivos, e essa é a diferença. Há casos em que as operações fundamentais parecem ser
parametrizadas. Meu palpite é que ocorre um alçamento do objeto, não-parametrizado: isso
ocorre em todas as línguas. A diferença entre o francês e o inglês de um lado e o islandês de
outro é a riqueza do sistema flexional. Quando se tem especificadores múltiplos, eles são
eqüidistantes do tempo verbal numa língua cujo sistema flexional seja rico (isso ainda não é
totalmente compreensível para nós). Ambos são visíveis e é isso que permite o alçamento
aberto do objeto, pois mesmo se ele for movido abertamente, ainda é possível pegar o sujeito e
alçá-lo. É assim que funciona em islandês. Por outro lado, o escandinavo, o francês e o inglês
possuem sistemas flexionais menos ricos. Apenas o especificador mais elevado é visível, o
que significa que se o objeto ficar in situ, a derivação falha, mas se o objeto for movido a
derivação converge. É o que acontece com o movimento-QU. O objeto ao ser alçado, recebe o
caso e continua a se mover, para que o elemento flexional possa ver o sujeito. Então, o que
realmente ocorre em francês e em inglês é o alçamento do objeto seguido de um outro
movimento, ao passo que em islandês, o objeto não precisa mais se mover. Parece haver uma
diferença paramétrica dentro do escandinavo, entre o islandês e o escandinavo e outras
línguas, mas tenho a impressão que isso pode ser reduzido a alguma outra coisa: uma
propriedade do tempo verbal. É aí que você gostaria que essas propriedades estivessem. E
como várias coisas estão se movendo dessa forma, é possível supor que essas diferenças serão

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determinadas por aspectos um tanto abstratos do tempo verbal, e não por diferenças
paramétricas de Atração.

Mike Dillinger: Muito obrigado, Professor Chomsky.

Adair Palácio: Obrigado, Professor Chomsky.

Noam Chomsky: Foi um prazer.

* Entrevista dada na UFAL (Universidade Federal de Alagoas) em Maceió, a 3 de dezembro


de 1996. Traduzido por Maria Aparecida Caltabiano-Magalhães & Carolina Siqueira.

** A Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN) gostaria de agradecer o Professor


Chomsky pela entrevista e pela autorização para publicá-la na revista D.E.L.T.A.

1 CHOMSKY, N. (1955) Syntactic Structures. The Hague: Mouton.

2 CHOMSKY, N. (1996) The Minimalist Program. Cambridge, MA: MIT Press

3 CHOMSKY, N. (1968) Cartesian Linguistics. New York: Harper & Row

4BLOOMFIELD, L. (1939) Menomini Morphophonemics. Travaux du Cercle Linguistique


de Prague, vol. 8 , pp. 105-115. Reprinted in: C. HOCKETT (Ed.) (1970) A Leonard
Bloomfield Anthology (pp. 351-362). Bloomington, IN: Indiana University Press.

5CHOMSKY, N. (1955-56/1975) The Logical Structure of Linguistic Theory. New York:


Plenum Press.

6CHOMSKY, N. (1951/1979) The Morphophonemics of Modern Hebrew. Master's Thesis,


University of Pennsylvania.

7 MATTHEWS, G.H. (1965) Hidatsa Syntax. The Hague: Mouton.

8 LEES, R.B. (1961) The Phonology of Modern Standard Turkish. The Hague: Mouton.

9KATZ, J. & P. POSTAL (1964) Toward an integrated theory of linguistic description.


Cambridge, MA: MIT Press.

10 CHOMSKY, N. (1965) Aspects of the Theory of Syntax. Cambridge, MA: MIT Press

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11 CHOMSKY, N. (1981) Lectures on Government and Binding. Dordrecht: Foris.

12LANCELOT, C. et A. ARNAULD (1660) Grammaire générale et raisonnée. [The Port


Royal Grammar]

13 VAUGELAS, C. (1647) Remarques sur la langue française

14 FREGE, G. (1892) On sense and reference. In: ZABEEH, F. E. KLEMKE & A.


JACOBSON (Eds.) (1974) Readings in Semantics (pp. 117-140). Urbana, IL: University of
Illinois Press.

15 GALILEI LINCEO, G. (1638) Discorsi e dimonstrazioni matematiche, intorno à due nuove


scienze. Leiden: Elsevirii. Edição em Português: Duas novas ciências. [Tradução e notas:
Letizio Mariconda e Pablo Mariconda.] São Paulo: Nova Stella, sem data.

16 PENFIELD, W. & L. ROBERTS (1959) Speech and brain mechanisms. Princeton, NJ:
Princeton University Press.

17JAEGER, J. et alii. (1996) A positron emission tomography study of regular and irregular
verb morphology in English. Language, 72 (8): 451-497

18Outras traduções do termo merge têm sido utilizadas: concatenação (por Jairo Nunes) e
composição (por Eduardo Raposo) (N. do T.)

19HORNSTEIN, N. (1996) Existentials, A-chains and reconstruction. Unpublished


manuscript, University of Maryland, College Park.

20HALE, K. & KEYSER, S. (1993) On argument structure and the lexical expression of
syntactic relations. In: HALE, K. & J. KEYSER (Eds.), The view from Building 20.
Cambridge, MA: MIT Press.

21 CHOMSKY, N. & H. LASNIK (1977) Filters and Control. Linguistic Inquiry, 8: 425-504.

22
VERGNAUD, J-R. (1985) Dépendence et niveaux de representation en syntaxe.
Amsterdam: J. Benjamins

23 CHENG, L. (1991) On the typology of wh-questions. Unpublished dissertation, MIT.

24JONAS, D. (1996) Clause Structure and Verb Syntax in Scandivanvian and English.
Unpublished PhD Dissertation, Harvard University, Cambridge, MA.s

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