Fisiologia do rúmen: você sabe
como esse órgão funciona?
O rúmen é o primeiro compartimento do sistema digestivo dos
bovinos e o maior dentre as quatro câmaras do estômago. O
alimento chega no rúmen e lá serão digeridos ou degradados por
processos fermentativos, os quais são realizados por microrganismos
ali presentes, como é o caso de bactérias, protozoários e fungos.
Nesse texto iremos abordar sobre o funcionamento ruminal,
compreendendo desde a sua anatomia até a importância da sua
motilidade. Além disso, iremos entender razões pelas quais é
fundamental conhecer mais sobre esse funcionamento.
Entendo a anatomia do rúmen
O rúmen é lateralmente comprimido e se estende da parte cárdica,
pouco abaixo do meio do sétimo espaço intercostal, até a entrada
pélvica, no teto do assoalho abdominal, e da parede corporal
esquerda do animal ao longo da linha média, caudal e ventralmente
podendo alcançar o flanco ventral direito.
O rúmen possui uma face parietal, adjacente ao diafragma e à parede
abdominal lateral esquerda e ventral e uma face visceral, onde se
encontra contra o fígado, intestinos, omaso e abomaso.
Ele possui vários compartimentos formados por inflexões de sua
parede que formam os pilares do rúmen que são projetados para o seu
lúmen, o que divide o órgão em saco dorsal e ventral. A parte dorsal é
dividida em saco cranial, saco dorsal e saco cego caudodorsal. A parte
ventral consiste no saco ventral e no saco cego caudoventral.
A mucosa ruminal é formada por papilas cônicas que se projetam
para a luz a partir da membrana mucosa, que podem ter 1,5 cm de
comprimento e conter um eixo de tecido conjuntivo altamente
vascularizado, composto por fibra colágenas finas e fibras elásticas. O
hábito alimentar dos ruminantes define o número, distribuição e
tamanho das papilas, que são dependentes da ação trófica dos
alimentos sobre o desenvolvimento da mucosa.
A – Estômago bovino, lado esquerdo. B – Estômago bovino, lado direito. 1 – retículo, 2 – omaso, 3 –
abomaso, 4 – rúmen. Fonte: Dyce, 2010.
Secção transversal esquemática da cavidade abdominal para mostrar a disposição do omento maior. 1,
saco dorsal do rúmen; 2, saco ventral do rúmen; 3, parede superficial do omento maior; 4, parede
profunda do omento maior; 5, bolsa omental; 6, duodeno descendente; 7, massa intestinal; 8, rim direito;
9, aorta; 10, veia cava caudal; 11, recesso supraomental; 12, fixação retroperitoneal do rúmen. Fonte:
Dyce, 2010
Fisiologia ruminal
O rúmen tem importante papel no trato digestivo dos ruminantes
devido à sua capacidade de fermentação. Esse órgão fornece um
ambiente ideal para sobrevivência e atividade de microrganismos
como bactérias e protozoários.
A presença de bactérias celulolíticas é importante devido à
característica da dieta das vacas, elas produzem enzimas capazes
de romper as ligações dos açúcares que compõe a celulose e
hemicelulose dos alimentos, elas clivam as ligações β dos
carboidratos estruturais da parede celular dos vegetais e utilizam as
hexoses e pentoses liberadas para obter energia, o produto final de
sua fermentação são os ácidos graxos voláteis (AGV’s) acetato,
butirato e proprionato.
Os AGVs são rapidamente absorvidos por difusão não iônica através
do epitélio do pré-estômago e usados pelo ruminante para obtenção
de energia. O pH ruminal médio permanece maior que 5,7, no
entanto, podem haver variações de acordo com a dieta dos animais,
por exemplo, dietas ricas em forragem promovem um pH ruminal mais
alto entre 6,5 – 7,0, enquanto dietas ricas em grãos diminuem o pH
ruminal devido à maior produção de ácidos graxos.
Manutenção do ambiente ruminal
Existem mecanismos fisiológicos ruminais para manter o ambiente
adequado para o crescimento de bactérias, fungos e protozoários,
favorecendo o processo fermentativo. Essas condições incluem:
• Manutenção da temperatura: mantida relativamente constante,
em média 39º C pelos mecanismos homeostáticos que mantêm
as condições fisiológicas dentro do hospedeiro.
• Manutenção do pH: o pH ruminal deve estar dentro da faixa ideal
para o desenvolvimento dos microrganismos. As bactérias
celulolíticas e protozoários necessitam de pH de 6,2 ou mais alto,
enquanto as bactérias aminolíticas são ativas em condições mais
ácidas com pH em torno de 5,7. Portanto o pH do fluido ruminal
afeta a degradação dos alimentos e o seu valor varia de 5,5 –
7,0, para manter o pH em níveis adequados a salivação é muito
importante que pela concentração elevada de bicarbonato,
fosfato e potássio e capaz de tamponar o rúmen.
• Ausência de oxigênio: o ambiente anaeróbico é necessário para
que as bactérias anaeróbicas estritas sejam capazes de realizar
a digestão fermentativa. Ocorre a passagem de oxigênio para o
rúmen através da ingestão dos alimentos ingeridos, água e por
difusão sanguínea, porém é usado rapidamente por bactérias
anaeróbicas facultativas e/ou eliminado por eructação.
• Manutenção dos padrões de motilidade características
• Presença de microrganismos.
Motilidade ruminal
Ocorrem três tipos distintos de contrações no rúmen que
desempenham papéis diferentes: mistura da ingesta com as
bactérias ruminais, remoção de gases (eructação) produzidos
durante a fermentação e regurgitação do conteúdo luminal
(ruminação) de modo que possa ser mastigado adicionalmente para
ajudar no processo de degradação pelas bactérias do rúmen.
Cada tipo de contração é controlado por um reflexo programado
distinto no bulbo em resposta aos estímulos pelos nervos eferentes do
vago, isso impede, por exemplo, que durante a contração de
regurgitação ocorra a passagem de gás do rúmen ou que durante o
reflexo de eructação ocorra entrada de material fibroso no esôfago.
A ingesta no rúmen forma camadas distintas dentro do órgão, as
partículas de forragens mais longas flutuam na estrutura
denominada colchão fibroso, dorsalmente à essa camada
encontramos a fase gasosa ou camada gasosa do rúmen, onde os
gases produzidos pela fermentação bacteriana, metano e CO2 situam-
se.
Ventralmente ao colchão fibroso encontramos um conteúdo mais
líquido, com partículas pequenas, nessa porção temos maior absorção
de AGVs e maior concentração de bactérias onde ocorre a
fermentação, essa porção está apta ao direcionamento ao omaso e
abomaso.
Contrações de mistura
Servem para manter o conteúdo ruminal bem misturado, buscando
promover uma fermentação efetiva. Esse movimento começa próximo
da cárdia (local de entrada do esôfago) e prossegue pela superfície
dorsal até a parte caudal do rúmen, essa contração prossegue até a
porção ventral do rúmen e o retículo e por fim, retorna à região da
cárdia. Durante esse processo o material presente no rúmen é
transferido do saco dorsal do rúmen para o saco ventral, depois para o
saco cego caudal dorsal e de volta ao saco dorsal.
Esse processo de mistura leva entre 30 – 50 segundos e as contrações
correm uma depois da outra, é possível auscultar com estetoscópio
sobre a região da fossa paralombar esquerda. Ausculta-se
aproximadamente três sons ribombantes a cada 2 minutos em uma
vaca saudável, e esse processo só é interrompido caso haja
contrações de regurgitação ou eructação.
A presença de material fibroso é importante fator para estimulação
das contrações, o colchão fibroso também é denominado de “fator
scratch”, pois a presença de material fibroso espesso promove um
aumento das contrações tanto da mistura quanto de regurgitação do
rúmen.
Imagem ilustrando a contração de mistura do rúmen. Fonte: Reece (2017).
Contrações de eructação
Durante a fermentação ruminal são produzidos a cada minuto 2 L de
gás, principalmente o dióxido de carbono e em pequenas quantidades,
metano. Esses gases precisam ser removidos para evitar a distensão
do rúmen. Cada contração dura 30 segundos para se completar e
ocorre uma eructação depois de três a cinco contrações de mistura.
Esse reflexo é iniciado por nervos aferentes vagais que detectam a
distensão do rúmen dorsal pelo gás. As contrações se iniciam na
porção caudal do órgão, seguem para o saco cego caudal dorsal para
o saco dorsal, simultaneamente ao relaxamento do saco caudal
ventral do rúmen, permitindo a entrada de gás no esôfago, ele é
propelido em movimento ascendente no esôfago por um esforço
inspiratório contra a nasofaringe parcialmente fechada. Isso ocasiona
a entrada de parte do gás eructado na traqueia e pulmões, ele é
expelido pelas narinas durante à expiração seguinte.
Reflexo de eructação dos bovinos. Fonte: Reece (2017).
Contrações de regurgitação
Permitem a transferência do material formado por partículas grandes
do rúmen para a boca. Para que a vaca possa mastiga-lo para reduzir
o tamanhão das partículas e aumentar a área de superfície disponível
para fixação das bactérias, a presença do colchão fibroso provoca o
início do reflexo de regurgitação.
Essa contração começa pela contração na porção média do saco
dorsal, esse movimento força o colchão fibroso em direção à cárdia,
enquanto a camada de gás do rúmen é direcionada para a parte
caudal do rúmen. Ocorre um esforço inspiratório contra a nasofaringe
fechada e o esfíncter esofágico superior aberto que cria uma grande
pressão negativa no esôfago para que o material fibroso entre no
esôfago, através do esfíncter esofágico inferior relaxado.
A presença do material fibroso no esôfago ocasiona contrações
antiperistálticas, retrógradas que leva o bolo para dentro da boca. O
bolo é mastigado por alguns minutos e deglutido.
A quantidade de fibra detergente neutra (FDN) na dieta afeta a taxa
de regurgitação, e o material fibroso demora 3 dias para ser digerido
no rúmen. A regurgitação também favorece a produção de saliva,
importante na manutenção de pH ruminal pela sua ação tamponante.
Normalmente ocorre uma contração de regurgitação a cada 2-3
minutos entre as contrações de mistura e de eructação, em um
rebanho em repouso pelo menos 60% das vacas devem estar
mastigando ativamente o material regurgitado.
Reflexo de regurgitação. Fonte: Reece (2017).
Mas porque é importante entender sobre o
funcionamento do rúmen?
Entender melhorar sobre o funcionamento do rúmen, bem como a
ocorrência de suas contrações, é fundamental por várias razões e
dentre elas podemos citar:
• Eficiência alimentar: O rúmen é o órgão responsável pela
fermentação dos alimentos fibrosos que a vaca ingere, por isso
compreender como ele funciona pode permitir a otimização das
dietas, ou seja, a garantia se que os nutrientes sejam digeridos e
absorvidos de forma adequada, elevando assim a eficiência
alimentar.
• Saúde digestiva: Para a movimentação dos alimentos dentro do
rúmen as contrações ruminais são essenciais, pois culminam
promovendo uma digestão eficiente. Conhecer sobre essas
contrações pode ajudar na identificação precoce de problemas
digestivos, como é o caso da acidose ruminal e timpanismo.
• Bem-estar: Sabemos que o bem-estar das vacas está
profundamente ligado a saúde do rúmen. Vacas com um bom
funcionamento ruminal se sentem mais confortáveis, o que vai
ser evidenciado por comportamentos tranquilos.
• Desempenho produtivo: Vacas saudáveis e com adequado
funcionamento ruminal irão ter um desempenho produtivo
promissor dentro da atividade. Uma dieta bem equilibrada aliada
a uma função ruminal eficiente irão contribuir para uma melhor
produção e qualidade do leite.
• Monitoramento da saúde: Além das contrações ruminais serem
um bom indicador da saúde digestiva e evidenciar problemas
digestivos, elas também podem ser um sinal precoce de outros
problemas de saúde nos animais. Redução na frequência ou
intensidade das contrações podem indicar a presença de dor ou
desconforto, permitindo assim intervenções em estágios iniciais
dos problemas.
Em resumo, é importante compreender melhor as contrações ruminais
e o funcionamento do rúmen para a garantia do bem-estar, da saúde
e do desempenho produtivo das vacas leiteiras.
Isso permite aos produtores tomar decisões antecipadas e informadas
sobre dieta, manejo e cuidados de saúde, o que irá contribuir para o
sucesso da atividade leiteira.
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