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Uso de Substâncias e Problemas Familiares

Este estudo avaliou a associação entre o uso de substâncias (álcool, tabaco e drogas ilícitas) e problemas familiares em 965 adolescentes de escolas públicas em São Paulo. Os resultados indicaram que o uso de substâncias estava relacionado a uma avaliação negativa das relações familiares e à falta de suporte familiar. Adolescentes que consumiram substâncias relataram mais problemas familiares do que aqueles que não consumiram.

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pintomariana2003
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Uso de Substâncias e Problemas Familiares

Este estudo avaliou a associação entre o uso de substâncias (álcool, tabaco e drogas ilícitas) e problemas familiares em 965 adolescentes de escolas públicas em São Paulo. Os resultados indicaram que o uso de substâncias estava relacionado a uma avaliação negativa das relações familiares e à falta de suporte familiar. Adolescentes que consumiram substâncias relataram mais problemas familiares do que aqueles que não consumiram.

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678 ARTIGO ARTICLE

Uso de substâncias na adolescência


e problemas familiares

Adolescent substance use and


family problems

André Malbergier 1
Luciana Roberta Donola Cardoso 1

Ricardo Abrantes do Amaral 1

Abstract Introdução

1Faculdade de Medicina, This study aimed to evaluate the association be- O consumo de substâncias psicoativas é um gra-
Universidade de São Paulo,
São Paulo, Brasil.
tween substance use (alcohol, tobacco, and illicit ve problema de saúde pública. O início do uso
drugs) and family problems among 965 adoles- geralmente ocorre na adolescência e, nesta fase,
Correspondência cents from 50 public schools in two cities in São tem sido associado a problemas escolares (fal-
A. Malbergier
Departamento de Psiquiatria, Paulo State, Brazil, in 2007. The Drug Use Screen- tas, repetência, evasão escolar e dificuldade de
Faculdade de Medicina, ing Inventory (DUSI) was used for data collec- aprendizagem), sociais (relacionamentos com
Universidade de São Paulo.
tion. Use of alcohol, tobacco, and illicit drugs outros usuários e envolvimento em atividades
Rua Dr. Ovídio Pires de
Campos 785, São Paulo, SP was associated with a negative assessment of the ilegais), características de personalidade (intole-
05403-010, Brasil. family relationship, lack of monitoring/support, rância à frustração, desinibição, agressividade e
amalbergier@[Link]
and psychoactive substance use by family mem- impulsividade), transtornos psiquiátricos e pro-
bers (p < 0.05). Adolescents that reported having blemas familiares 1,2,3.
used alcohol, tobacco, and illicit drugs had more Os estudos têm mostrado que variáveis rela-
family problems than those who did not consume cionadas ao ambiente familiar exercem grande
any substance (p < 0.001). Adolescents that used influência no início e na manutenção do consu-
alcohol and tobacco (p = 0.028) and illicit drugs mo de álcool, tabaco e maconha entre adoles-
(p < 0.001) reported having more family problems centes 4,5. Fatores como relacionamento ruim
than those who used only alcohol. The results com os pais, ter membro da família que abusa e/
highlight the importance of awareness of alcohol ou é dependente de alguma substância, violência
and tobacco use by adolescents, since such use doméstica, desorganização familiar, viver ape-
was associated with significant family impair- nas com um dos pais, pouca comunicação entre
ments, similar to illicit drug use. familiares e falta de suporte e monitoramento
familiar têm sido associados ao uso de álcool,
Alcoholic Beverages; Tobacco; Street Drugs; Fam- tabaco e outras drogas nessa fase da vida 6,7,8,9.
ily Relations; Adolescent Embora essas associações sejam conhecidas
na literatura especializada, os estudos, todavia,
não avaliam se o consumo de diferentes drogas
estaria associado a vários níveis de problemas
familiares.
Este tema também merece atenção em nosso
país já que, no momento atual, o Brasil parece

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012


USO DE SUBSTÂNCIAS E PROBLEMAS FAMILIARES 679

apresentar uma tendência de aumento de con- Procedimentos


sumo de drogas (lícitas e ilícitas). Os trabalhos
científicos nacionais publicados sobre o uso de O objetivo inicial desta pesquisa era abranger
drogas entre adolescentes e as associações com 1.000 adolescentes, 20 em cada escola. Entretan-
variáveis familiares analisaram somente uma to, de acordo com os critérios de inclusão – 6 es-
droga (por exemplo, álcool) 10 ou os problemas tudantes foram excluídos por terem menos de 10
familiares foram apresentados como mais uma ou mais de 18 anos – e do prazo estipulado para a
variável estudada sem se aprofundar no tema 11. coleta de dados, conseguiu-se avaliar 965 adoles-
Os objetivos deste estudo são: (a) avaliar a centes. A pesquisa foi realizada em 2007.
associação entre variáveis do sistema familiar Inicialmente, o projeto foi divulgado por
e o consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas; meio de cartazes afixados na escola. Esses car-
(b) avaliar a possível associação de diferentes tazes continham informações sobre a realização
padrões de consumo de drogas (uso de álcool, da pesquisa e o que era necessário fazer para
uso de tabaco, uso de álcool e tabaco e uso de participar. Os interessados retiravam o termo de
drogas ilícitas) com diferentes níveis de proble- consentimento, levavam-no aos pais e/ou res-
mas familiares. ponsáveis e o devolvia ao monitor antes da apli-
cação do questionário. Todos os adolescentes e
os seus responsáveis assinaram o termo de con-
Método sentimento, garantindo a participação voluntá-
ria, sigilosa e o cumprimento das normas éticas
Desenho e população do estudo de pesquisa em seres humanos.
Para os estudantes que trouxeram o termo
Este trabalho, de desenho seccional, foi realizado de consentimento, os monitores agendaram dia
em 50 escolas públicas estaduais dos municípios e horário para a aplicação do questionário. Eles
de Jacareí e Diadema (São Paulo, Brasil) que ofe- recebiam o questionário da pesquisa que é auto-
reciam o Programa Escola da Família (PEF). Esse aplicável, respondiam às perguntas na presença
programa é uma iniciativa da Secretaria da Edu- do monitor e o inseriam numa urna sem precisar
cação do Estado de São Paulo com a cooperação se identificar.
da UNESCO (Organização das Nações Unidas Para aplicação desse instrumento, os autores
para a Educação, Ciência e Cultura) e consiste treinaram 50 monitores do PEF.
em utilizar o espaço físico das escolas públicas Este projeto foi aprovado pela Comissão de
estaduais, nos finais de semana, para desenvol- Ética do Hospital das Clínicas da Faculdade de
ver atividades socioeducativas com os jovens e Medicina da Universidade de São Paulo (proces-
suas famílias. so 425/06).
A seleção das escolas foi realizada junto com
os coordenadores do PEF e com os coordenado- Instrumento e variáveis de estudo
res da Secretaria da Educação do Estado de São
Paulo. Buscou-se, nessa seleção, a indicação de Nesta pesquisa, utilizou-se o questionário auto-
escolas que estivessem na média, entre as esco- aplicável DUSI (Drug Use Screening Inventory) já
las do estado, em relação a desempenho, uso de traduzido e validado no Brasil 12,13. Esse instru-
drogas e violência. Com isso, 50 escolas foram mento contém questões que buscam investigar o
selecionadas. Após a avaliação do consumo de consumo de substâncias no mês anterior à entre-
drogas, os adolescentes participavam de um vista e fatores relacionados ao uso. Os adolescen-
programa de prevenção de drogas. Para esse pro- tes responderam a todo o questionário, mas para
grama, o número de adolescentes deveria ser de este artigo foram analisadas as áreas do consumo
20. Assim, chegou-se a amostra de 1.000 sujeitos (área I) e de problemas familiares (área VI e parte
nesta pesquisa. da X), além dos dados sociodemográficos conti-
Todos os alunos que faziam parte do PEF dos no questionário.
foram convidados a participar da pesquisa até
que se atingisse o número necessário para aque- • Uso de substâncias
la escola. Os critérios de inclusão no trabalho
eram: ter idade entre 10 e 18 anos, participar des- O questionário avalia a frequência do consumo
se programa nas escolas selecionadas e trazer o de álcool, tabaco e drogas ilícitas (anfetamina,
termo de consentimento assinado pelos pais ou ecstasy, cocaína, crack, maconha, alucinógenos,
responsáveis. tranquilizantes, ansiolíticos, esteróides, ina-
lantes e solventes) nos trinta dias anteriores à
entrevista. Foram consideradas ilícitas algumas
drogas lícitas (por exemplo, anfetaminas) usa-

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680 Malbergier A et al.

das de forma ilícita (sem prescrição ou indicação de regressão logística multinomial. O método de
médica). seleção utilizado foi o Wald’s backward test.
O consumo de substância foi avaliado consi-
• Variáveis do sistema familiar derando cinco categorias: (1) não usou nenhuma
substância; (2) usou apenas álcool; (3) usou ape-
As questões abordavam a avaliação do relaciona- nas tabaco; (4) usou álcool e tabaco; e (5) usou
mento com os pais, atenção, suporte, monitora- drogas ilícitas, podendo ou não ter feito uso de
mento e uso de álcool e outras drogas por mem- álcool e/ou tabaco.
bros da família. Seguem as questões relacionadas As análises univariadas avaliaram a relação
a problemas familiares do DUSI: entre as categorias de consumo de drogas e as
1. Algum membro de sua família (mãe, pai, ir- variáveis sociodemográficas e do sistema fa-
mão ou irmã) usou maconha ou cocaína no últi- miliar. Também foram utilizadas análises uni-
mo ano? variadas para o estudo das associações entre a
2. Algum membro de sua família usou álcool a média de problemas familiares e as categorias
ponto de causar problemas em casa, no trabalho de consumo.
ou com amigos? A análise múltipla considerou como variáveis
3. Algum membro de sua família foi preso no dependentes o consumo de álcool, tabaco, álcool
último ano? e tabaco, e drogas ilícitas separadamente, e como
4. Você tem discussões frequentes com seus independentes as questões (listadas anterior-
pais ou responsáveis que envolvam gritos e mente) relacionadas aos problemas familiares.
berros? Também foram incluídas no modelo as covariá-
5. Sua família dificilmente faz coisas juntas? veis idade, gênero, pessoa com quem vive, esco-
6. Seus pais ou responsáveis desconhecem o laridade e repetência escolar (questões também
que você gosta e o que não gosta? presentes no DUSI).
7. Na sua casa faltam regras claras sobre o que Os valores descritos nos resultados e nas ta-
você pode e não pode fazer? belas referem-se aos casos válidos. As respostas
8. Seus pais ou responsáveis desconhecem o em branco foram excluídas das análises de cada
que você realmente pensa ou sente sobre as coi- questão.
sas que são importantes para você? A razão de chances (OR) foi calculada con-
9. Seus pais ou responsáveis brigam muito en- siderando um intervalo de 95% de confiança. O
tre si? nível de significância foi de 5%.
10. Seus pais ou responsáveis frequentemente Para as análises utilizou-se o programa esta-
desconhecem onde você está ou o que você está tístico SPSS, versão 15.0 (SPSS Inc. Chicago, Es-
fazendo? tados Unidos).
11. Seus pais ou responsáveis estão fora de casa a
maior parte do tempo?
12. Você sente que seus pais ou responsáveis não Resultados
se importam ou não cuidam de você?
13. Você se sente infeliz em relação ao local no A Tabela 1 mostra a descrição da amostra. Nessa
qual você vive? tabela estão apresentados os dados sociodemo-
14. Você se sente em perigo em casa? gráficos e a distribuição dos problemas familia-
15. Na maioria das festas que você tem ido recen- res na amostra total, que foi constituída por 965
temente, os pais estão ausentes? adolescentes, 436 (45,2%) do sexo feminino e
16. Nas suas horas livres você simplesmente pas- 529 (54,8%) do masculino; 831 (86,1%) estavam
sa a maior parte do tempo com amigos? no ensino fundamental, 132 (13,7%) no ensino
17. Você realiza a maior parte das atividades de médio e dois não responderam a esta pergunta
lazer sozinho? (0,2%); 771 (80,0%) nunca repetiram o ano esco-
As questões eram respondidas com “SIM” ou lar, 185 (19,1%) repetiram o ano ao menos uma
“NÃO”. vez e nove não responderam (0,9%); 606 (62,8%)
vivem com o pai e com a mãe, 218 (22,6%) ape-
Análise dos dados nas com a mãe, 21 (2,2%) apenas com o pai, 98
(10,1%) com outros familiares, dois (0,2%) em
Nas análises univariadas, empregou-se o teste instituição e 20 (2,1%) não responderam. A idade
qui-quadrado com correção de Yates quando ne- média dos adolescentes foi de 13,5 (DP = 1,41)
cessário (valor esperado menor que 5) para as va- anos.
riáveis categóricas e o teste de Kruskal-Wallis com Não houve diferenças entre os gêneros quan-
correção de Bonferroni para as variáveis contínu- to à idade (p = 0,670), escolaridade (p = 0,100)
as. Para as análises múltiplas, foi aplicado o teste e pessoa com que vive (p = 0,923). O índice de

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USO DE SUBSTÂNCIAS E PROBLEMAS FAMILIARES 681

Tabela 1

Descrição sociodemográfica e das variáveis do sistema familiar em uma amostra de adolescentes de 50 escolas públicas
estaduais de Jacareí e Diadema, São Paulo, Brasil (N = 965).

n %

Gênero (n = 965)
Meninas 436 45,2
Meninos 529 54,8
Idade (anos) (n = 866)
10-14 653 75,4
15-18 213 24,6
Escolaridade (n = 963)
Ensino Fundamental 831 86,3
Ensino Médio 132 13,7
Repetência escolar (n = 956)
Não 771 80,6
Sim 185 19,4
Com quem vive (n = 945)
Pai e mãe 606 64,1
Só com a mãe 21 2,2
Só com o pai 218 23,1
Outros familiares 98 10,4
Instituição 2 0,2
Relacionamento com os pais (n = 949)
Bom 815 85,9
Ruim (inclui respostas: regular e depende) 134 14,1
Ter membro da família que usou maconha ou cocaína no último ano (n = 948)
Não 862 90,9
Sim 86 9,1
Ter membro da família que usou álcool a ponto de causar problemas (n = 949)
Não 742 78,2
Sim 207 21,8
Ter membro da família que foi preso no último ano (n = 947)
Não 842 88,9
Sim 105 11,1
Tem discussões frequentes com os pais (n = 941)
Não 749 79,6
Sim 192 20,4
Família dificilmente faz coisas juntas (n = 945)
Não 658 69,6
Sim 287 30,4
Pais desconhecem o que o filho gosta/desgosta (n = 936)
Não 684 73,1
Sim 252 26,9
Faltam regras claras, em casa, sobre o que pode ou não fazer (n = 946)
Não 775 81,9
Sim 171 18,1
Pais desconhecem o que pensa ou sente sobre coisas importantes para ele (n = 938)
Não 679 72,4
Sim 259 27,6
(continua)

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012


682 Malbergier A et al.

Tabela 1 (continuação)

n %

Pais brigam muito entre si (n = 948)


Não 799 84,3
Sim 149 15,7
Pais desconhecem onde está ou o que está fazendo (n = 945)
Não 752 79,6
Sim 193 20,4
Pais ficam fora de casa a maior parte do tempo (n = 952)
Não 655 68,8
Sim 297 31,2
Sente que os pais não se importam/não cuidam dele (n = 951)
Não 845 88,9
Sim 106 11,1
Se sente infeliz onde vive (n = 947)
Não 790 83,4
Sim 157 16,3
Se sente em perigo em casa (n = 948)
Não 882 93,0
Sim 66 7,0
Na maioria das festas que frequentam os pais estão ausentes (n = 944)
Não 621 65,8
Sim 323 34,2
Passa a maior parte do tempo livre com os amigos (n = 946)
Não 518 54,8
Sim 428 45,2
Realiza a maior parte das atividades de lazer sozinho (n = 934)
Não 761 81,5
Sim 173 18,5

repetência escolar foi maior entre os meninos Os estudantes entre 15 e 18 anos apresenta-
(n = 126; 24,1%) do que entre as meninas (n = 59; ram 2,7 vezes mais chances de fazer uso apenas
13,6%) (p < 0,001; OR = 2,022). de álcool (p < 0,001), 3 vezes mais chances de
A Tabela 2 apresenta os fatores associados usar álcool e tabaco (p < 0,001) e 4,6 vezes mais
(sociodemográficos e familiares) às diferentes chances de usar drogas ilícitas (p < 0,001) do que
categorias de consumo em comparação aos os de 10 a 14 anos. Ter repetido o ano escolar tam-
adolescentes que não consumiram nenhuma bém aumentou a chance dos adolescentes faze-
substância. rem uso de álcool e tabaco (p = 0,034; OR = 2,076)
e drogas ilícitas (p < 0,001; OR = 3,551).
Uso de substância entre os adolescentes Não houve associação entre a variável “pes-
soa com quem reside” e o consumo de álcool
Entre os adolescentes que responderam às ques- (p = 0,413), tabaco (p = 0,449), álcool e tabaco
tões sobre consumo de drogas (919), 570 (62%) (p = 0,843) e drogas ilícitas (p = 0,384). O con-
não usaram nenhuma substância, 208 (22,6%) sumo de álcool (p = 0,657), álcool e tabaco (p =
usaram apenas álcool, 24 (2,6%) apenas tabaco, 0,641) e drogas ilícitas (p = 1,000) foi semelhante
54 (5,9%) álcool e tabaco e 63 (6,9%) usaram al- entre os adolescentes dos sexos feminino e mas-
guma droga ilícita nos 30 dias anteriores à entre- culino. O uso de tabaco foi mais frequente entre
vista. As drogas ilícitas utilizadas foram: maco- as meninas (p = 0,048; OR = 0,393).
nha (n = 27; 2,9%), tranquilizantes (n = 17; 1,8%),
anfetaminas (n = 15; 1,6%), ecstasy (n = 10; 1,1%),
inalantes (n = 10; 1,1%), cocaína (n = 8; 0,8%),
alucinógenos (n = 4; 0,4%) e anabolizantes (n =
4; 0,4%).

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012


USO DE SUBSTÂNCIAS E PROBLEMAS FAMILIARES 683

Tabela 2

Frequência de consumo de substâncias segundo o relato de problemas familiares entre adolescentes de 50 escolas públicas estaduais de Jacareí e Diadema,
São Paulo (N = 965) *.

Tabaco Álcool Álcool e Drogas ilícitas


tabaco
% OR % OR % OR % OR

Idade (anos) (n = 828)


10-14 25,0 33,7 35,7 47,1
15-18 75,0 1,7 66,3 2,7 ** 64,3 3,0 ** 52,9 4,6 **
Repetiu o ano (n = 912) 29,2 2,2 16,8 1,0 27,8 2,0 *** 39,7 3,5 **
Relacionamento ruim (n = 904) 20,8 1,8 16,2 1,4 30,0 4,1 ** 29,3 2,7 **
Ter membro da família que usou maconha ou cocaína no último mês (n = 912) 25,0 5,5 *** 8,7 1,1 15,3 2,9 # 22,8 4,4 **
Ter membro da família que usou álcool a ponto de causar problemas (n = 912) 25,0 1,3 28,0 2,1 ** 37,3 3,0 ** 43,9 3,6 **
Ter membro da família que foi preso no último mês (n = 910) 20,8 2,5 12,1 1,4 10,2 1,3 31,6 4,8 **
Tem discussões frequentes com os pais (n = 904) 29,2 1,8 27,3 2,4 ** 35,6 3,3 ** 48,2 5,1 **
Família dificilmente faz coisas juntas (n = 908) 37,5 1,4 35,0 1,6 *** 39 2,3 *** 56,1 3,5 **
Faltam regras claras, em casa, sobre o que pode ou não fazer (n = 909) 6,6 1,8 34,3 1,5 # 11,5 1,4 13,3 1,5
Pais desconhecem o que gosta ou desgosta (n = 899) 27,3 1,1 25,9 1,0 33,9 1,6 44,6 2,3 ***
Pais desconhecem o que pensa ou sente sobre coisas importantes para ele (n = 901) 30,4 1,2 29,6 1,2 37,3 2,0 # 46,3 2,6 **
Pais brigam muito entre si (n = 911) 20,8 1,5 18,8 1,8 *** 28,8 3,5 ** 25,0 2,6 ***
Pais desconhecem onde está ou o que está fazendo (n = 908) 33,3 2,2 19,3 1,0 23,7 1,5 45,6 3,7 **
Pais ficam fora de casa a maior parte do tempo (n = 915) 37,5 1,3 36,1 1,5 *** 42,4 2,2 *** 42,1 1,8 #
Sente que os pais não se importam/não cuidam dele (n = 914) 16,7 1,8 13,5 2,0 *** 18,6 3,4 ** 24,6 4,2 **
Se sente infeliz onde vive (n = 910) 25,0 1,7 16,8 1,0 25,4 2,0 21,1 1,3
Se sente em perigo em casa (n = 912) 20,8 4,8 *** 6,7 0,9 15,3 3,7 *** 10,5 1,6
Na maioria das festas que frequentam os pais estão ausentes (n = 909) 41,7 1,4 41,0 1,6 *** 38,3 1,4 42,9 # 1,7
Passa a maior parte do tempo livre com os amigos (n = 910) 56,5 1,6 49,5 1,4 # 55 2,1 *** 59,6 2,0 ***
Realiza a maior parte das atividades de lazer sozinho (n = 899) 29,2 1,9 16,7 0,8 32,2 2,4 *** 21,8 1,2

OR: razão de chance.


* As OR referem-se à comparação com os adolescentes que não usaram as respectivas drogas em questão. Os valores não são ajustados;
** p £ 0,001;
*** p £ 0,01;
# p £ 0,05.

Consumo de tabaco entre os adolescentes de não ter um bom relacionamento com os pais
e problemas familiares (p = 0,007), dos pais brigarem muito entre si (p =
0,006), da família dificilmente fazer coisas juntos
Os adolescentes que usaram tabaco apresenta- (p = 0,005), de frequentar festas em que não há
ram 5,5 vezes mais chances de ter algum mem- pais presentes (p = 0,004), de faltar regras cla-
bro da família que usou maconha ou cocaína no ras sobre o que se pode ou não fazer (p = 0,034),
mês anterior à entrevista (p = 0,001) e 4,8 vezes dos pais ficarem fora a maior parte do tempo
mais chances de se sentir em perigo em casa (p = (p = 0,015) e de passar a maior parte do tempo
0,005) do que aqueles que não consumiram ne- livre com os amigos (p = 0,024) em comparação
nhuma substância. com os adolescentes que não usaram nenhuma
substância. Também apresentaram 2,1 vezes
Consumo de álcool entre os adolescentes mais chances de ter algum membro da família
e problemas familiares que usou álcool a ponto de causar problemas em
casa, no trabalho ou com amigos (p < 0,001) e 2,4
Os adolescentes que consumiram álcool tiveram vezes mais chances de ter discussões frequentes
até 2 vezes mais chances de achar que os pais não com os pais (p < 0,001).
se importam ou não cuidam deles (p = 0,008),

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012


684 Malbergier A et al.

Consumo de álcool e tabaco entre os membro da família que usou álcool a ponto de
adolescentes e problemas familiares ter prejuízos (p = 0,005), sentir que os pais não se
importam ou não cuidam deles (p = 0,014) e dis-
Os adolescentes que fizeram uso de álcool e taba- cutir frequentemente com os pais (p = 0,042).
co apresentaram entre 2 e 3 vezes mais chances Em relação ao uso de tabaco, sentir que os
da família dificilmente fazer coisas juntos (p = pais não se importam ou não cuidam deles (p =
0,005), dos pais desconhecerem o que eles pen- 0,017) foi o fator de maior associação, seguido por
sam/sentem sobre coisas que os adolescentes ter algum membro da família que usou maconha
consideram importantes (p = 0,029), dos pais fi- ou cocaína (p = 0,018). Para os adolescentes que
carem fora de casa a maior parte do tempo (p = usaram álcool e tabaco, os fatores de maior as-
0,007), de passar a maior parte do tempo livre sociação foram: não avaliar positivamente a re-
com os amigos (p = 0,010) e de realizar a maior lação que têm com os pais (p = 0,001), ter entre
parte das atividades de lazer sozinho (p = 0,007) 15 e 18 anos (p = 0,003), sentir que os pais não se
em comparação com aqueles que não usaram importam ou não cuidam deles (p = 0,006) e ter
nenhuma substância. membro da família que usou álcool a ponto de
Também apresentaram entre 3 e 4 vezes mais ter prejuízos (p = 0,030).
chances de não avaliar a relação com os pais co- Entre os adolescentes que usaram drogas ilí-
mo boa (p < 0,001), de sentir-se em perigo em citas, a idade foi o fator de maior associação (p <
casa (p = 0,002), dos pais brigarem muito entre 0,001), seguido por discutir frequentemente com
si (p < 0,001), de sentir que os pais não se impor- os pais (p = 0,005), passar a maior parte do tempo
tam/não cuidam deles (p = 0,001), de discutir fre- livre com os amigos (p = 0,005), sentir que os pais
quentemente com os pais (p < 0,001), de ter pais não se importam ou cuidam deles (p = 0,007) e
que usaram álcool a ponto de ter problemas (p < ter membro da família que foi preso (p = 0,009).
0,001) e de ter pais que fizeram uso de maconha
ou cocaína (p = 0,017). Categorias de consumo de substâncias
e problemas familiares
Consumo de drogas ilícitas entre os
adolescentes e problemas familiares A Figura 1 mostra a média do número de pro-
blemas familiares relatados pelos adolescentes
Como pode ser visto na Tabela 2, os adolescentes pertencentes às diferentes categorias de consu-
que usaram alguma droga ilícita tiveram até 3 mo. Os que usaram álcool (p < 0,001), tabaco (p =
vezes mais chances de não avaliar a relação com 0,001), álcool e tabaco (p < 0,001) e drogas ilícitas
os pais como boa (p < 0,001), dos pais desconhe- (p < 0,001) relataram ter mais problemas fami-
cerem o que eles gostam e desgostam (p = 0,002), liares do que aqueles que não usaram nenhuma
dos pais desconhecerem o que eles pensam ou substância. Os adolescentes que usaram álcool
sentem sobre coisas que consideram importan- e tabaco (p = 0,028) e drogas ilícitas (p < 0,001)
tes (p = 0,001), dos pais brigarem muito entre si relataram ter mais problemas familiares do que
(p = 0,004), dos pais passarem a maior parte do aqueles que usaram apenas álcool. Não houve
tempo fora de casa (p = 0,035) e de passar a maior diferença entre os adolescentes que usaram ál-
parte do tempo livre com os amigos (p = 0,009) cool e tabaco e aqueles que usaram drogas ilíci-
em comparação com aqueles que não usaram tas (p = 0,449) em relação à média de problemas
nenhuma substância. familiares.
Também apresentaram entre 3 e 5 vezes mais
chances de ter algum membro da família que fez
uso de maconha ou cocaína (p < 0,001), de ter Discussão
pais que usaram álcool a ponto de ter proble-
mas (p < 0,001), de ter algum membro da família A classificação do consumo de drogas em cinco
que foi preso no mês anterior à entrevista (p < categorias (não uso, uso somente de álcool, uso
0,001), de discutir frequentemente com os pais somente de tabaco, uso de álcool e tabaco, e uso
(p < 0,001), da família dificilmente fazer coisas de drogas ilícitas) vem ao encontro de estudo
juntos (p < 0,000), dos pais não saberem onde recente que discute padrões de início e evolu-
eles estão ou o que estão fazendo (p < 0,001) e ção do consumo e associações com diferentes
de sentir que os pais não se importam ou não probabilidades de problemas sociais, familiares,
cuidam deles (p < 0,001). escolares, legais e de saúde associados a este
A Tabela 3 mostra os resultados obtidos com consumo 14.
a análise múltipla. A idade entre 15 e 18 anos foi Corroborando a literatura, adolescentes mais
o fator de maior associação com o uso de álcool velhos tiveram mais chances de usar substâncias
entre os adolescentes (p < 0,001), seguido por ter psicoativas do que os mais novos 2,15. Também

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USO DE SUBSTÂNCIAS E PROBLEMAS FAMILIARES 685

Tabela 3

Análise múltipla do uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas segundo relato de problemas familiares entre adolescentes de 50
escolas públicas estaduais de Jacareí e Diadema, São Paulo, Brasil (N = 919).

Categorização do uso de substância Valor de p OR IC95%

Usou apenas álcool


Idade entre 15 e 18 anos < 0,001 2,393 1,581-3,623
Ter membro da família que usa álcool a ponto de ter prejuízos 0,005 1,903 1,215-2,978
Ter discussões frequentes com os pais 0,042 1,642 1,017-2,649
Sentir que os pais não se importam ou cuidam dele 0,014 2,232 1,178-4,226
Usou apenas tabaco
Ter membro da família que usou maconha ou cocaína 0,018 4,972 1,322-18,698
Sentir que os pais não se importam ou cuidam dele 0,017 4,697 1,318-16,742
Usou álcool e tabaco
Idade entre 15 e 18 anos 0,003 2,747 1,404-5,376
Relacionamento com os pais 0,001 3,690 1,687-8,069
Ter membro da família que usa álcool a ponto de ter prejuízos 0,030 2,194 1,081-4,452
Sentir que os pais não se importam ou cuidam dele 0,006 3,373 1,409-8,076
Drogas ilícitas
Idade entre 15 e 18 anos 0,000 4,649 2,345-9,214
Relacionamento com os pais 0,090 2,102 0,890-4,963
Ter membro da família que foi preso 0,009 3,068 1,318-7,139
Ter discussões frequentes com os pais 0,005 2,866 1,369-6,000
Sentir que os pais não se importam ou cuidam dele 0,007 3,575 1,428-8,952
Passar a maior parte das horas livres com os amigos 0,005 2,704 1,343-5,444

IC95%: intervalo de 95% de confiança; OR: razão de chance.

Figura 1

Relação entre a média de problemas familiares e o consumo de substâncias entre os adolescentes.

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686 Malbergier A et al.

houve associação entre aumento da idade e Também na análise multivariada, aspectos


maior chance de usar drogas ilícitas. Os mais ve- como repetência escolar e gênero não expressa-
lhos também apresentaram até duas vezes mais ram maior chance de uso de substâncias. De for-
chances de usar mais de uma droga do que os ma relevante, apenas o uso de tabaco não se as-
mais jovens. sociou à faixa etária mais velha, sugerindo o uso
Os adolescentes que repetiram o ano esco- mais precoce desta substância nesta amostra.
lar tiveram mais chances de usar álcool e outras Quando as médias de problemas familiares
drogas do que aqueles que não repetiram. Es- são analisadas (Figura 1), os adolescentes que
tudos mostram que repetência e evasão escolar usaram tabaco, álcool e tabaco, e drogas ilícitas
são mais frequentes em estudantes que usam não apresentaram diferenças significativas. Os
substâncias 16. Para os adolescentes que usaram usos isolados de álcool e de tabaco também ti-
álcool e tabaco e para os que usaram drogas ilí- veram médias de problemas no sistema familiar
citas, os riscos de repetência foram duas e três e semelhantes. Portanto, aparentemente, o uso de
meia vezes maior, respectivamente, do que para tabaco ocupa uma posição intermediária entre
aqueles que não usaram nenhuma substância. as categorias somente álcool e as demais em ter-
O gênero é outra variável sociodemográfica mos de média de problemas.
frequentemente associada ao uso de álcool e dro- Diversos fatores relacionados ao sistema fa-
gas entre adolescentes. Em geral, o consumo ten- miliar discutidos neste artigo têm sido apontados
de a ser mais freqüente entre os meninos 2,7, mas como indicadores de risco para o uso de subs-
a diferença vem diminuindo nos últimos anos 1. tâncias entre os adolescentes. Todavia, até onde
Neste trabalho não houve diferenças nas taxas de se pôde observar, não foi encontrado nenhum
consumo entre meninos e meninas, exceto para estudo que mostrasse que o uso de álcool e taba-
o uso de tabaco que foi mais frequente entre as co concomitantemente e de drogas ilícitas está
meninas, o que já havia ocorrido em outro estu- associado a mais problemas familiares (mensu-
do em nosso país 17. Uso de álcool, tabaco e dro- rados por meio da média dos problemas referi-
gas parece estar cada vez mais deixando de ser dos pelos adolescentes) do que o uso de álcool
um comportamento essencialmente masculino isoladamente. Esse é o principal achado deste
em vários países, incluindo Brasil 17. trabalho. Ou seja, os adolescentes que fizeram
A associação, observada neste estudo, entre uso de álcool e tabaco (p = 0,028) e drogas ilícitas
uso de álcool e drogas pelos pais e risco de uso (p < 0,001) relataram ter mais problemas familia-
destas substâncias pelos filhos tem sido expli- res do que aqueles que usaram apenas álcool.
cada por fatores genéticos e ambientais 18. Além O uso de álcool e tabaco esteve associado a
disso, pais que usam substâncias oferecem me- prejuízos familiares significativos, semelhantes
nos suporte, monitoramento e outros cuidados aos associados ao uso de drogas ilícitas. Ou seja,
aos filhos. O uso de substâncias também poderia o consumo das duas drogas lícitas mais comuns
levar a discussões frequentes entre ambos, con- parece ser mais grave do que o consumo de uma
tribuindo para a falta de controle e dificultando a delas isoladamente. Essa associação merece
inserção de limites e disciplina 19. atenção, já que há uma tendência em acreditar
Na análise multivariada, as variáveis “passar que o uso de álcool e tabaco é um comportamen-
a maior parte das horas livres com amigos” e “ter to esperado na adolescência. Essa percepção
membro da família que foi preso” mostraram-se parece estar associada ao fato de serem drogas
associadas somente ao uso de drogas ilícitas, pro- lícitas, à alta prevalência do uso em nossa socie-
vavelmente apontando para um menor monito- dade e à expectativa que adolescentes contestem
ramento dos pais em relação aos adolescentes. regras e limites 21.
Também indicando tal distanciamento familiar, O fato do uso de álcool estar menos associa-
as razões de chances das associações entre uso do a problemas familiares que o uso de álcool e
da substância e a variável “sentir que os pais não tabaco também pode indicar recentes mudan-
se importam ou cuidam deles” são menores nas ças sociais, caracterizadas por maior aceitação
categorias uso de álcool e tabaco isoladamente, do uso e maior disponibilidade do álcool do que
em relação às categorias uso de álcool e tabaco do tabaco. Revisão recente aponta para os bons
e drogas ilícitas, indicando um incremento da resultados de campanhas educativas e sociais na
associação entre este problema familiar e o uso redução do consumo de tabaco, mas, por outro
das duas drogas lícitas concomitantemente. Es- lado, ressalta o baixo impacto e a inconsistên-
se último padrão parece ser semelhante ao uso cia dos resultados de campanhas que abordam o
de drogas ilícitas. A falta de monitoramento tem consumo de álcool e drogas ilícitas 22.
sido apontada como um dos fatores familiares A alta frequencia de problemas familiares
mais associados ao risco de uso de substâncias em estudantes que usaram alguma substância
psicoativas por adolescentes 20. neste estudo indica que as estratégias de pre-

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USO DE SUBSTÂNCIAS E PROBLEMAS FAMILIARES 687

venção devam conter intervenções nos adoles- uma avaliação dos transtornos mentais nos es-
centes e nos familiares. Tal modelo tem mostra- tudantes, e, portanto, deve-se considerar que as
do bons resultados na prevenção e redução de associações encontradas podem, pelo menos em
problemas associados ao consumo de substân- parte, decorrer de transtornos psiquiátricos as-
cias 23,24. sociados tanto aos problemas familiares quanto
ao uso de substâncias. Vale ressaltar, entretanto,
que o fato de todos os adolescentes estarem estu-
Limitações do estudo dando em escolas regulares sugere que não haja
transtornos mentais graves.
Este estudo, pela sua transversalidade, não foi Vieses de amostragem (apenas 50 escolas
capaz de avaliar se as associações encontradas em dois municípios do Estado de São Paulo fo-
são causais nem a possível direção da causali- ram avaliadas) e de autosseleção (adolescentes
dade. O consumo de álcool e tabaco pode estar tinham o controle sobre a possibilidade de par-
aumentando as chances dos adolescentes re- ticipação) não podem ser descartados. Esses fa-
ferirem problemas familiares ou os problemas tos podem comprometer a generalização desses
familiares podem estar aumentando as chances resultados para toda a população brasileira. Por
de consumo destas substâncias. Problemas fa- outro lado, o tamanho da amostra (quase 1.000
miliares e consumo de drogas podem, ainda, ser adolescentes) é uma das virtudes deste traba-
consequências de outros fatores de risco comuns lho. O presente estudo pode servir de estímulo
aos dois problemas, como por exemplo, trans- para levantamentos nacionais sobre tema tão
tornos mentais. Neste trabalho, não realizamos relevante.

Resumo Colaboradores

Esta pesquisa visou a avaliar a associação entre o con- A. Malbergier participou na concepção e planejamento
sumo de substâncias (álcool, tabaco e drogas ilícitas) da pesquisa, coordenação dos pesquisadores, análise e
e problemas familiares numa amostra de 965 adoles- interpretação dos dados e elaboração do artigo. L. R. D.
centes em 50 escolas públicas de dois municípios do Cardoso participou na concepção e planejamento da
Estado de São Paulo, Brasil, em 2007. Foi utilizado o pesquisa, análise e coleta dos dados, coordenação do
Drug Use Screening Inventory (DUSI) para a coleta de trabalho de campo e elaboração do artigo. R. A. Amaral
dados. O uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas foi asso- participou na coleta, análise e interpretação dos dados,
ciado à avaliação negativa da relação familiar, à falta e elaboração do artigo.
de suporte/monitoramento e ao uso de substâncias por
familiares (p < 0,05). Os estudantes que relataram ter
feito uso de substâncias apresentaram mais proble- Agradecimentos
mas familiares do que aqueles que não consumiram
nenhuma substância (p < 0,001). Os adolescentes que Organização das Nações Unidas para a Educação, Ci-
usaram álcool e tabaco (p = 0,028) e drogas ilícitas ência e Cultura (UNESCO); Secretaria da Educação do
(p < 0,001) relataram ter mais problemas familiares do Estado de Estado de São Paulo; Secretaria Nacional de
que aqueles que usaram apenas álcool. Os resultados Políticas Sobre Drogas.
apontam para a importância de se ficar atento ao con-
sumo de álcool e tabaco entre os adolescentes, já que
o relato do consumo das duas substâncias esteve asso-
ciado a prejuízos familiares significativos, semelhan-
tes ao uso de drogas ilícitas.

Bebidas Alcoólicas; Tabaco; Drogas Ilícitas; Relações


Familiares; Adolescente

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012


688 Malbergier A et al.

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(4):678-688, abr, 2012

Common questions

Com tecnologia de IA

Adolescents using alcohol and tobacco have 2 to 3 times higher chances of reporting family issues, such as lack of family activities (p=0.005), compared to those who do not use substances. In contrast, those who use illicit drugs have up to 3 times the chance of not evaluating their parental relationship positively, among other serious issues (p<0.001). This demonstrates a clear correlation between substance type and the severity of associated family problems.

Adolescents who used alcohol and tobacco were associated with family issues such as the family rarely spending time together (p=0.005), parents being unaware of their thoughts and feelings on important matters (p=0.029), and spending most of their free time with friends (p=0.010). In contrast, adolescents using illicit drugs had an even stronger likelihood of reporting poor relationships with their parents, frequent arguments, and a sense of parental neglect (p<0.001).

Intervention programs should focus on strengthening family dynamics by facilitating better communication, supporting positive parent-child interactions, and educating parents on the risks associated with substance use. Programs could offer family counseling and workshops on effective monitoring techniques and encourage family activities to counteract the risk factors such as neglect and lack of parental presence identified in the study (p<0.001). These programs should also address external stressors that exacerbate family problems.

All types of substances (alcohol, tobacco, and illicit drugs) negatively impact family dynamics, but the severity and nature of the impact vary. Alcohol and tobacco users share similar issues with familial participation and supervision, while illicit drug users report more severe problems, including parental neglect and frequent familial arguments (p<0.001). These findings suggest that while all substance use strains familial relations, the impact is more severe for illicit drugs.

The presence of a family member who uses substances significantly increases the risk of substance use in adolescents. Specifically, having a family member who uses alcohol to the point of causing problems is associated with a higher likelihood of adolescents using both alcohol and tobacco or illicit drugs (p<0.001). This suggests a strong familial influence on substance use behavior, potentially due to modeling or a lack of guidance and support.

Family-related difficulties among adolescents who use substances are primarily attributed to poor parental relationships, frequent arguments, a lack of familial support, and a home environment where parents are frequently absent or unaware of their children's needs. Additionally, having a family member with substance issues exacerbates these difficulties (p<0.001).

Protective factors that could reduce substance use among adolescents include strong parent-child communication, parental supervision, and supportive family environments. Efforts to improve family engagement, such as establishing clear rules and involving adolescents in family activities, could mitigate the risk of substance use (p<0.001). This approach highlights the importance of creating nurturing and interactive domestic environments.

Adolescents using both alcohol and tobacco report significantly more family problems than those using only alcohol. They are more likely to experience frequent arguments with parents and a lack of supervision (p=0.028). This difference underlines the compounded impact on family dynamics when multiple substances are used.

Age is a significant factor in adolescent substance use, with older adolescents (aged 15-18) having higher associations with substance use. This age group also reports more issues like feeling uncared for by parents and having significant familial substance use problems (p<0.001). The family dynamics often become strained as adolescents mature and seek independence, potentially leading to increased substance use.

The quality of the parent-child relationship critically influences adolescent substance use. Evidence shows that poor relationships, frequent disagreements, and feeling uncared for by parents are linked to increased substance use among adolescents (p<0.001). These relationships are pivotal in providing the guidance and support necessary to deter adolescent engagement in substance use.

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