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Raias-Viola: Espécies e Ameaças

O documento discute as raias-viola, um grupo de Elasmobrânquios ameaçados de extinção devido à pesca de arrasto e destruição de habitats. As três espécies brasileiras estão listadas como em risco, destacando a importância ecológica dessas raias na manutenção do equilíbrio marinho. Iniciativas de conservação e conscientização estão sendo implementadas para proteger essas espécies e seus habitats.

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Raias-Viola: Espécies e Ameaças

O documento discute as raias-viola, um grupo de Elasmobrânquios ameaçados de extinção devido à pesca de arrasto e destruição de habitats. As três espécies brasileiras estão listadas como em risco, destacando a importância ecológica dessas raias na manutenção do equilíbrio marinho. Iniciativas de conservação e conscientização estão sendo implementadas para proteger essas espécies e seus habitats.

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Associação dos

Amigos do
Museu Nacional
apresenta

raias-viola
rumo à extinção?
A s raias, juntamente com os
tubarões, formam o grupo
dos Elasmobrânquios,
animais vertebrados cujo esqueleto
é constituído de uma cartilagem
bem calcificada, diferentemente
dos outros peixes - a sardinha, o
atum, o salmão, entre tantos
outros -, de esqueleto ósseo.
2
A s raias, de modo geral,
apresentam suas guel-
ras localizadas na parte
ventral do corpo, abaixo da
cabeça, e suas nadadeiras peito-
rais estão unidas à cabeça, for-
mando um contorno contínuo.

Guelras

Nadadeiras peitorais
A daptadas para viver
no fundo do oceano,
na zona dita bentôni-
ca, elas são comumente
encontradas em substratos
arenosos ou lamosos.
4
A raia-viola recebeu esse
nome devido ao seu forma-
to, que lembra o instrumen-
to musical. Por esse mesmo motivo,
também pode ser chamada de raia-
banjo. Na língua inglesa, são geral-
mente chamadas de guitarfishes
(guitar, do inglês violão, guitarra).

5
A s muitas espécies de
raias-viola que existem
pelo mundo atingem
comprimentos variados, desde
aquelas pequenas, com menos
de 40 cm, até algumas com
quase 2 metros. As espécies
brasileiras variam de 45 cm até
1,4 m de comprimento.

6
MACHO FÊMEA

Cloaca

Cláspers

A s raias, assim como todos os pei-


xes cartilaginosos, possuem um
par de órgãos sexuais denomina-
dos cláspers, localizados entre as nadadei-
ras pélvicas e encontrados apenas nos
7

machos. Diferente dos humanos, os elas-


mobrânquios não possuem ânus (para a
saída de fezes) e sim cloaca (por onde saem
as fezes, urina, ovos e embriões, tudo pela
mesma abertura). Todas as raias-viola se
reproduzem com bolsa de vitelo, ou seja, o
embrião fica dentro da mãe durante a ges-
tação e se alimenta por uma bolsa rica em
vitelo até o momento de ser parido.
A alimentação varia dependendo
da espécie, mas de modo geral
as raias-viola possuem hábitos
carnívoros, a dieta baseada principalmen-
te em pequenos crustáceos (camarões,
caranguejos e afins), anelídeos marinhos
(parentes das minhocas) e peixes. Elas
são importantes no controle populacional
de suas presas, ajudando a manter o
equilíbrio do ambiente onde vivem.
Caranguejo-azul

Camarão-rosa

Manjubinha

Poliqueta

Tatuí
N o litoral brasileiro
podemos encontrar
três espécies diferen-
tes de raias-viola: duas de foci-
nho mais longo e com tamanho
maior (Pseudobatos) e uma de
focinho mais curto e de tama-
nho menor (Zapteryx). 9

Uma raia-viola da espécie Pseudobatos horkelii.


A viola Pseudobatos horkelii é muito
parecida com a próxima por ter o
jeitão do corpo igual, o focinho
comprido e as nadadeiras peitorais menos
largas, mas se diferencia daquela em deta-
lhes, como a cor uniforme em tons amare-
lados ou castanho-oliváceos.

Sem manchas
10

Tonalidade uniforme
verde-oliva acinzentada

Nadadeiras dorsais
A s fêmeas de Pseudobatos horkelii
podem atingir até 1,4 m de com-
primento e se tornam maduras
sexualmente com 91 cm. Já os machos são
maduros a partir dos 75 cm.

Fossa nasal

11
Fendas
branquiais

91 cm
A s fêmeas adultas conse-
guem interromper ou
retardar temporariamente
o desenvolvimento do seu embrião
no útero (o nome técnico disso é
diapausa embrionária). É uma
especialização no modo de repro-
dução que nem todos os tubarões e
raias possuem. A cada gestação ela
gera de 3 a 12 filhotes.
12

Embriões de Pseudobatos horkelii


coletados de fêmeas grávidas capturadas
pela pesca de arrasto no Sul do Brasil.
E las habitam fundos moles
na região da costa, desde
águas rasas no verão até
150 metros de profundidade. No
Brasil, essa espécie é conhecida
principalmente do Rio de Janeiro
ao Rio Grande do Sul, mas houve
um curioso caso em que foi encon- 13
trada em Sergipe, no Nordeste.

Área de distribuição de
Pseudobatos horkelii
A outra espécie de viola de foci-
nho comprido é Pseudobatos
percellens, que se diferencia da
anterior por ter uma coloração também
castanha mas que pode ter pintas claras
(muitas ou poucas) e algumas faixas
escuras, bem marcadas ou não, mas
sempre presentes. Ela é um pouco 14
menor, atingindo 1 m de comprimento.

Uma raia-viola da espécie Pseudobatos percellens.


N a parte de cima do corpo,
correndo pelo meio das costas
desde a parte de trás da cabe-
ça até as nadadeiras dorsais, ela tem
mais de 70 pequenas protuberâncias (o
nome técnico é tubérculo), todas de
tamanho similar. A espécie anterior
também apresenta esses tubérculos, 15
mas eles são de tamanhos diferentes
entre si, de modo que as costas parecem
ser mais ásperas em sua linha central.

Nadadeira caudal

Tubérculos

Coloração marrom
Nadadeira peitoral
O s indivíduos de
Pseudobatos
percellens se
tornam adultos a partir dos
50 cm, podendo chegar até
1 metro de comprimento
total (CT).
16

cm
100
F êmeas maduras de
Pseudobatos percellens
podem dar à luz no máximo
até 5 filhotes por gestação.

Embrião em desenvolvimento inicial


de Pseudobatos percellens com presença de saco vitelino.

17

Fêmea grávida de Pseudobatos percellens,


medindo 71 cm de comprimento total
(do focinho à cauda).
P ode preferir águas
costeiras até um limi-
te de 110 metros de
profundidade, com distribui-
ção geográfica do México até
o sul do Brasil.
18

Área de distribuição de
Pseudobatos percellens
C omo o próprio nome já
diz, a raia-viola-do-
focinho-curto, Zapteryx
brevirostris, diferentemente
das outras, apresenta a extre-
midade do focinho curto, arre-
dondado, e o corpo em forma
de pá ou de banjo, que é outro
tipo de instrumento musical.

19

Raia-viola-do-focinho-curto, também
chamada de banjo (Zapteryx brevirostris).
S eu corpo lembra
uma “pá” doméstica,
apresentando nada-
deiras peitorais mais largas
quando comparado às
outras raias-viola.

Olhos
Focinho
curto

20

Coloração marrom
acinzentada Manchas escuras
e translúcidas
Q uando atingem a fase
adulta, as fêmeas de
Zapteryx brevirostris
apresentam comprimento total
entre 42 cm e 44 cm. A espécie
fica madura sexualmente a
partir de 35 cm, mais ou menos.

21

m
44 c
42 -
A s raias são animais que apresen-
tam seu desenvolvimento desa-
celerado. Fêmeas grávidas, por
exemplo, de Zapteryx brevirostris, demo-
ram cerca de um ano para gestar seus
filhotes, gerando poucos indivíduos por
gestação. Nascem, geralmente, de 3 a 6
filhotes por gestação.

22

1 - Saco vitelínico; 2
2 - Ovário;
3 - Útero.

1 Embriões de Zapteryx
brevirostris, medindo 10,5 cm
de comprimento total
(do focinho à cauda).
S ão encontradas até 50
metros de profundidade
no Brasil (do Espírito
Santo até a Região Sul), no
Uruguai e na Argentina.

23

Área de distribuição de
Zapteryx brevirostris
A grande ameaça que esse
grupo enfrenta é a pressão
intensa da pesca de arrasto
de fundo. Esta modalidade de pesca
acaba sendo extremamente impac-
tante para esses animais, retirando
da água desde indivíduos imaturos,
como recém-nascidos e jovens, até
adultos, o que os impede de se
reproduzir e “repor” a quantidade
retirada pela pesca. 24

Barco de pesca de arrasto de camarão.


Fêmeas ovígeras (grávidas)
de Persephona punctata,
popularmente conhecidas
como “reloginho”, mortas
pelo arrasto de camarão e
descartadas no mar.

Embriões de
Zapteryx brevirostris
retirados do útero de
fêmeas grávidas mortas 25
pelo arrasto de camarão
no Sudeste do Brasil.

Diversidade de espécies
mortas e frequentemente
descartadas pela pesca
de arrasto de camarão
no Sudeste do Brasil.
A captura frequente desses animais
gera danos rotineiros em sua
estrutura física, chegando até a
morte, mesmo quando devolvidos ao mar.

Pseudobatos horkelii
capturada por arrasto de camarão
em uma área de proteção
ambiental, onde não é permitido
qualquer tipo de pesca. Obs: O
material foi apreendido pela
policia ambiental.

26

Corte profundo na
nadadeira peitoral
ocasionado por
rede de pesca.

Pseudobatos percellens
morta em decorrência da
pesca de arrasto. Note a
presença de cortes em sua
coluna vertebral.
A destruição das zonas costeiras,
impulsionada pela ação humana, é
um problema ambiental significati-
vo para as raias-viola, pois degrada os habi-
tats essenciais destas espécies, que vivem
junto ao continente.
Poluição.

27

Erosão.
E m vista disso, este grupo
de raias foi recentemente
considerado como um dos
grupos mais ameaçados de
Elasmobrânquios, atrás apenas
das raias-serra (Pristis), conside-
radas o grupo de elasmobrânqui-
os mais ameaçado do mundo!

28
A tualmente, as três espécies de raias-
viola ocorrentes no litoral brasileiro
fazem parte da lista vermelha de
espécies mundialmente categorizadas em
risco de extinção. Da esquerda para a direita:
Pseudobatos horkelii (criticamente em peri-
go), Zapteryx brevirostris (em perigo) e
Pseudobatos percellens (em perigo).

29
Por que preservá-las?

E stes animais exercem papéis


importantíssimos para o funcio-
namento dos oceanos, sendo
cruciais para o equilíbrio populacional
de suas presas e predadores; portanto,
qualquer mudança na cadeia alimentar
influencia também na sobrevivência dos
outros seres vivos. 30

Denominados predadores de topo,


os tubarões ocupam o nível mais
alto da cadeia alimentar.

As raias-viola exercem a função de


predadoras intermediárias, consumindo
geralmente os consumidores primários
(camarões, p. ex.) e sendo consumidas
por uma diversidade de peixes marinhos
acima do seu nível trófico.

Presentes no Bentos (fundo do mar),


seres como os poliquetas (1) e os
crustáceos (2) fazem parte da dieta
2 das raias-viola.

1
Por que preservá-las?

A lém disso, as raias-viola surgi-


ram no início do Período
Jurássico, sendo um dos poucos
indivíduos sobreviventes a intensos
períodos geológicos e às mudanças drás-
ticas ocorridas no Planeta Terra. 31
Por que preservá-las?

E las podem auxili-


ar nas economi-
as locais como
atrativo para o turismo
de mergulho.
32
Cenário Atual

- Ainda carecemos de propostas


para a delimitação de áreas de
proteção utilizadas por estas
espécies como habitats essenciais.

- Nenhum regime de controle


é aplicado para um manejo
sustentável destas espécies.
33

Pseudobatos percellens recém-nascido


capturado acidentalmente e devolvido ao mar.
Conservação

E xistem exemplares de
Zapteryx brevirostris manti-
dos em cativeiro que rece-
bem atenção especial no sentido de
desenvolver estudos de preservação
da espécie. No Aquário de Ubatuba
(SP), por exemplo, os pesquisadores
34
vêm tentando desenvolver a repro-
dução em cativeiro.
Conservação

A tualmente, algumas iniciativas


conduzidas por grupos de pesquisa
têm buscado realizar solturas com-
pensatórias de várias espécies de raias que
sobrevivem à captura, no intuito de diminuir
o impacto da redução de suas populações e
sensibilizar os pescadores quanto à impo.r-
tância dessas espécies. 35

Soltura de indivíduos
de Zapteryx brevirostris.

Soltura realizada
na Praia de Píuma, ES.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, São Paulo, Brasil

Raias-Viola: rumo à extinção? / Pedroso, I. M.; Santana, F. M;


Santander Neto, J.; Barreto, R. R. P.; Gadig, O. B. F.; Vianna, M. Rio
de Janeiro: Associação dos Amigos do Museu Nacional/ FUNBIO, 2023.

35p. ilus.

ISBN 978-65-00-89569-8

[Link]ânquios - conservação. 2. Raias - conservação. I. Pedroso, I. M


II. Santana, F. M. III. Santander Neto, J. IV. Gadig, O. B. F. V. Barreto,
R. R. P. VI. Vianna, M. VII. Título.

CDU 597.31:574.1
Ficha Catalográfica: Dione Seripierri, Museu de Zoologia, USP. CRB-8/ 3805

Elaboração e texto:
Isabel Martins Pedroso (IFES, Piuma/ES)
Francisco Marcante Santana (UFRPE, Serra Talhada/PE)
Jones Santander Neto (IFES, Piuma/ES)
Rodrigo Risi Pereira Barreto (UDESC, Laguna/SC)
Otto Bismarck Fazzano Gadig (UNESP, São Vicente/SP)
Marcelo Vianna (UFRJ, Rio de Janeiro/RJ)

Agradecemos aos seguintes fotógrafos, pesquisadores, entidades e instituições


pela cessão das imagens de domínio público, cedidas por autores ou sob
Licenças CC by 2.0. 3.0. 4.0: Annie Sprat, Arquivo Polícia Ambiental Marítima, C.
Avalos, Carlos Eduardo de Oliveira, Carolus Maria Vooren, D. Derrick, E.
Espinoza, F. Marcante, F. Motta, G. E. Chiaramonte, G. Rincon, Igor Silva
Gonçalves da Cruz, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade,
Isabel Martins Pedroso, J. M. Cuevas, J. Nunes, K. Herman, L. Paesch, Laborató-
rio de Dinâmica de Populações Marinhas (IFES, Piúma/ES), Laboratório de
Invertebrados Marinhos (UFES, Alegre/ES), M. F. Martins, M. P. Blanco-Parra, N.
K. Dulvy, P. A. Mejía-Falla, P. Charvet, R. Barreto, R. Pollom, S. Montealegre-
Quijano, Thaíza Maria Rezende da Rocha Barreto, V. Faria.

A realização do projeto Pesquisa Marinha e Pesqueira é uma medida compensatória


estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta, de responsabilidade da empresa
PRio e conduzido pelo Ministério Público Federal - MPF/RJ.
Apoio

Projeto Gráfico

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