0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações6 páginas

O Despertar dos Sentidos em Solidão

O texto narra a experiência de um homem em uma cidade desolada, onde os sentidos humanos parecem ter desaparecido, resultando em uma vida sem significado. Após um toque gelado em sua testa, ele começa a redescobrir seus sentidos, mas enfrenta uma profunda solidão e a dor de não poder compartilhar suas descobertas. No clímax, ele encontra uma entidade aterrorizante que o convida a entender a realidade de sua existência e a consciência que ele finalmente conquistou.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações6 páginas

O Despertar dos Sentidos em Solidão

O texto narra a experiência de um homem em uma cidade desolada, onde os sentidos humanos parecem ter desaparecido, resultando em uma vida sem significado. Após um toque gelado em sua testa, ele começa a redescobrir seus sentidos, mas enfrenta uma profunda solidão e a dor de não poder compartilhar suas descobertas. No clímax, ele encontra uma entidade aterrorizante que o convida a entender a realidade de sua existência e a consciência que ele finalmente conquistou.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

O Último Toque

"O mundo não está diante de mim em um espaço objetivo; ele está ao meu
redor, ele me envolve, e eu estou inserido nele. Eu não vejo as coisas;
vejo entre as coisas, através das coisas; minha visão não é a de um
espelho, é a de uma carne que toca e é tocada."
Maurice Merleau-Ponty

Era só o vazio. Um silêncio e uma dor constante. Algo que gritava do


âmago da alma dos viventes daquela atmosfera. Na verdade, creio que o
termo “viventes” não seja adequado para dar àqueles que pairavam num
do escuro. E tudo era um breu. Não digo que o ambiente apresentava um
fundo preto e que tudo era escuridão, mas sim que a vida daqueles que ali
moravam não havia um sentido. Era inútil estar ali… O lugar em que se
passa tudo isso não tem sequer um nome, nenhum ponto de referência,
nada. Era simplesmente um lugar como qualquer outro no universo infinito:
simples e morto.
Ninguém lembra como ou por quê, mas o mundo simplesmente parou de
sentir. Os sentidos – olfato, tato, audição, paladar e visão – sumiram como
se nunca tivessem existido, ou como se fosse uma vaga lembrança de
algo a anos luz de distância. As pessoas andam, inexplicavelmente, como
sombras, com movimentos simples e automáticos, em constante silêncio,
sem saber o que fazem e porque fazem. Não existe nada ali que sacie.
Não há fome, dor, tristeza, alegria… só há a repetição infinita. A vida
simplesmente continua… mas sem o total sentido… literalmente.
O lugar onde tudo isso se passou ficava numa região morta e desértica em
algum lugar do mapa universal. Uma cidade negra e empodeirada, com
casas em ruínas e cheias de tias de aranha. O chão de pedra e os postes
iluminados são inúteis, assim como um sino velho e enferrujado no topo do
templo. Atrás da cidade havia um vasto campo de flores negras e murchas
e uma colina com uma árvore seca tão antiga, que não se sabe ao certo
quem e quando a plantou.
Independente, esses pequenos detalhes era inúteis e passam
desapercebidos pelos seus moradores. Como veriam tudo aquilo, se são
tinham a visão? Como ouviriam o som dos ventos e o badalar do sino, se
não tinham a audição? Como sentiriam o chão e o ambiente, se não
tinham o tato? Como sentiriam o cheiro podre da morte, se não tinham o
olfato? Como sentiriam o gosto da vida inútil, se não tinham o paladar?
Bem, era algo que pairava no ar.
Mas, tudo isso foi mudado uma vez. Um certo homem com uma certa
aparência andava pelas ruas infinitas daquela cidade inóspita. Seu andar
era automático. Ele não sentia o chão e nem sequer sabia onde estava
indo. Foi então que, de alguma forma, ele pode sentir algo. Sentiu um
toque extremamente gelado em sua testa. Pela primeira vez em sua vida
ele pode sentir! O seu andar não estava mais sendo automático. Ele havia
ganhado consciência. Sabia que realmente ele era real, que existia. Mas
ele não sentia mais nada além do toque gelado. Somente solidão…

***

Os dias se passaram, e em todos eles, ele sentia o mesmo toque em sua


testa. Ele sabia que sentia! Não estava louco. Mas não tinha uma
explicação. Dias e dias, semanas e semanas, meses e meses foram se
estendendo, e o mesmo toque se mantinha. Numa noite, enquanto o toque
gelado persistia em incomodá-lo, ele pôde, finalmente, ouvir o barulho forte
dos ventos. Era algo maravilhoso pra ele, mas inexplicável. Ouvir o som
dos ventos, ouvir o badalar do sino do templo, andar e ir tateando portas e
paredes enquanto ouvia o som que fazia enquanto dava seus longos ou
curtos passos… era algo incomparável.

***

Então mais dias foram se passando. As semanas se estendiam enquanto


ele ouvia bem cada som, desenvolvendo cada ver mais sua audição. Os
meses também se esticavam, e ele conseguia discernir cada vez melhor o
que ele tocava. Mas algo gritava dentro dele mês após mês, e era a
impossibilidade de compartilhar aquilo com alguém. Logo, depois de uma
longa noite de pensamentos e questionamentos, ele acordou com algo
diferente. Além de sentir na pele e ouvir os ventos fortes, de alguma
maneira ele pôde sentir o cheiro dos ventos! Ele não se conteve. Correu o
mais rápido que pode até os campos mortos de flores negras, arrancou
uma do chão, levou-a ao seu nariz e cheirou. O cheiro nojento e negro da
flor seca não o incomodava. Muito pelo contrário, ele estava satisfeito por
conseguir “desbloquear” mais um dos sentidos. Os cheiros amargos e
rançosos do ambiente não eram o suficiente para fazê-lo reclamar.

***

Então mais dias foram se passando. As semanas se estendiam enquanto


ele tocava, ouvia e cheirava as coisas com vigor e ânimo. Ainda era tudo
sem sentido, mas a sensação de sentir era inexplicável. Ainda lhe faltavam
dois sentidos que ele não conhecia, então, a cada sentido desbloqueado,
uma sensação de paz presencia seu corpo e sua alma. Logo, numa manhã
densa e nublada, após uma queda inesperada no chão enlameado da
cidade, ele pode sentir o gosto de algo molendo e viscoso em sua boca.
Era a lama! Era o gosto! Era a sensação! Ele correu novamente aos
campos de flores mortas e pôs uma em sua boca, e enfim pôde sentir o
gosto amargo que predominava naquele ambiente campestre. Era
esplêndido!

***

Entre o “desbloqueio” de um sentido e outro ele sentia uma dor inigualável


em seu interior. Um vazio extremo. E a duas oram se passando de uma
forma terrível em sua vida. Um dia parecia ser uma semana, uma semana
parecia ser um mês e um mês parecia ser um ano inteiro. Uma solidão
imensa foi penetrando em seu ser. Apesar de tocar, ouvir, sentir o cheiro e
o gosto, tudo aquilo passou a ser inútil para ele. Ele não tinha com quem
partilhar aquelas sensações, e haviam mais perguntas do que respostas
em sua consciência.
Então, após dois anos de pura tortura, enquanto ele andava pelas ruas da
cidade, seus olhos foram finalmente abertos! A sensação de poder
enxergar era descomunal! Finalmente tudo havia sido conquistado, e ele
podia enxergar o universo aterrorizante em que se encontrava. Mas, pela
primeira vez ele sentiu dor ao poder ter um sentido em si. Ele via os
homens, ele via as mulheres, ele via as crianças e idosos andando e
vagando sem rumo como se fossem máquinas programadas ou zumbis.
Eles eram cinzas e andavam com o corpo cabisbaixo e cambaleante. Mas
aquilo não o fez esquecer de que ele podia sentir. Ele correu até os
campos de flores mortas e pôde ver sua imensidão negra e complexa.
Como as flores dançavam ao comando do vento frio e úmido daquela tarde
nublada. Ele não se abateu, mas continuou a viver sem nenhum sentido
aparente.

***

Então, naquela fatídica manhã, enquanto ele descansava debaixo daquela


árvore “tão antiga quanto o mundo” e contemplava a longa vista daquele
universo mórbido e, até entã, sem sentido, algo aconteceu. Aquele mesmo
toque gelado em sua testa retornou. Mas não dá mesma intensidade que
antes, mas de uma forma pior. Era uma dor tão agoniante que o fazia se
contorcer de um modo desesperador. Sua cabeça doía cada vez mais, e
não parava de modo algum. Ele ficou naquela situação por mais de uma
hora. E, quando ele achou que não aguentarua mais e que iria sucumbir,
algo aconteceu. Alguma coisa extremamente gigantesca pairava no céu
negro da manhã o ocupando quase por completo. Era algo inexplicável.
Seu corpo de um cinza escuro, e seus membros longos, finos e
contorcidos, que pareciam se estender infinitamente, o davam uma
aparência mais aterrorizante. Seus olhos fundo e vermelhos o fitavam
como se analisassem até a alma do homem. Seu corpo seco mostrava que
aquilo era tão velho quanto a própria existência. Seu rosto era a máscara
do mais puro horror e, em sua testa, havia uma mancha azul que brilhava
intensamente. Mas o que mais chamava a atenção era o sorriso perverso
e perturbador com infinito ms dentes pontiagudos que se estendiam em
seu rosto com inúmeros tentáculos em ambos os lados e e moviam com se
tivessem vida própria.
Aquele homem quase desejou seus olhos arrancados (mesmo tendo-os
conquistado há pouco tempo). Eles se olhavam por um longo tempo,
enquanto o homem esperava alguma reação daquela coisa.
– Você me vê… e eu te vejo! – disse aquela coisas com uma voz
ensurdecedora e sem parar de sorrir – mas eu não mais serei por muito
tempo. Venha comigo, e lhe darei explicações.
O homem se levantou e seu corpo foi subindo cada vez mais, até que ele
chegou aos pés contorcidos e cruzados daquele ser. Ele escalou seu
corpo colossal por muito tempo até que chegasse em seu rosto. Ele
percebeu que aquela “mancha” azul não era uma mancha, e sim um portal
para a consciência do monstro. Então ele entrou naquele lugar brilhante e,
finalmente pôde entender:

Você também pode gostar