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Contestação e Ilegitimidade em Herança

As autoras, Alzira Gonçalves Cunha e Rosa da Silva Carvalho, alegam ser cabeças-de-casal de uma herança e buscam a declaração de propriedade de um imóvel e indenização por danos. A contestação dos réus argumenta a ilegitimidade das autoras para agir sozinhas, uma vez que a ação deve ser intentada por todos os herdeiros, conforme o Código Civil. O juiz conclui que as autoras são partes ilegítimas na ação, levando à absolvição dos réus.
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Contestação e Ilegitimidade em Herança

As autoras, Alzira Gonçalves Cunha e Rosa da Silva Carvalho, alegam ser cabeças-de-casal de uma herança e buscam a declaração de propriedade de um imóvel e indenização por danos. A contestação dos réus argumenta a ilegitimidade das autoras para agir sozinhas, uma vez que a ação deve ser intentada por todos os herdeiros, conforme o Código Civil. O juiz conclui que as autoras são partes ilegítimas na ação, levando à absolvição dos réus.
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COMARCA DE BRAGA

Juízo Local Cível de Braga- Juiz 4


Proc. 4539/24.4T8BRG

EXMA. SRA. JUÍZ

ALEXANDRE MIGUEL DE OLIVEIRA HENRIQUE E ADRIANA FILIPA PEREIRA


GONÇALVES, RR. nos presentes autos, vêm apresentar:

CONTESTAÇÃO com RECONVENÇÃO

QUESTÃO PRÉVIA- ILEGITIMIDADE

1. As AA. Alzira Gonçalves Cunha e Rosa da Silva Carvalho propõe a presente ação na qualidade de
cabeças-de-casal, alegando que a herança aberta por óbito de seus maridos é proprietária do
prédio identificado nos artigos 25 a 28 da petição e que esse mesmo prédio se encontra na posse
dos RR.

2. Pede a declaração da herança como proprietária daquele prédio e igualmente a condenação dos
RR. numa indemnização que compense os danos que sofreu com a “invasão” de propriedade.

3. O Autor, na petição inicial, alega que é parte legítima por “…estando em causa uma reivindicação
de um bem que é (parcialmente) pertença da herança, está o cabeça de casal legitimado para
lançar mão das ações possessórias contra terceiro…” nos termos do disposto nos artigos 2087º,
nº 1 e 2088º, nº 1 do Código Civil

4. No caso concreto, as AA. Alzira Cunha e Rosa Carvalho intentaram os presentes autos por si e
em representação da herança aberta por óbito de seus maridos, por serem as cabeça-de-casal.

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5. Tal como as AA. configuram a acção, a mesma reconduz-se, no essencial, a uma providência
destinada a reconhecer-se o direito de propriedade das AA. sobre uma parcela de terreno e
acionar a responsabilidade civil extracontratual pela prática de um acto ilícito imputado aos RR.,
alegando-se que essa ilicitude resulta da violação do direito de propriedade daquela herança
sobre um identificado prédio.

6. Nos termos do artigo 2091.º, n.º 1, do C. C., fora dos casos declarados nos artigos anteriores, e
sem prejuízo do disposto no artigo 2078.º, os direitos relativos à herança só podem ser exercidos
conjuntamente por todos os herdeiros ou contra todos os herdeiros.

7. Importa assim analisar se existe em algum dos artigos anteriores ou no artigo 2078.º a permissão
para o cabeça-de-casal intentar sozinho uma ação como a presente.

8. Nos termos do nº 1 do artigo 2088º do CC que se refere à entrega de bens, “O cabeça-de-casal


pode pedir aos herdeiros ou a terceiro a entrega dos bens que deva administrar e que estes
tenham em seu poder, e usar contra eles de ações possessórias a fim de ser mantido na posse
das coisas sujeitas à sua gestão ou a ela restituído.”

9. E o artigo 2089.º, respeitante à cobrança de dívidas, “O cabeça-de-casal pode cobrar as dívidas


ativas da herança, quando a cobrança possa perigar com a demora ou o pagamento seja feito
espontaneamente.”

10. Em relação ao primeiro artigo - 2087.º, do C. C. -, importa saber em que consistem atos de
administração dos bens do falecido.

11. Não definindo a lei qual o conteúdo dessa administração, tem que se encontrar o seu significado
tendo presente que se está perante uma atuação temporária, por parte de quem não será essa a
sua ocupação principal.

12. Desse modo, deve estar em causa a prática dos atos indispensáveis à conservação do património
em partilha, o exercício de direitos que a lei especificamente determina com vista a essa

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conservação e o cumprimento de tarefas que a lei lhe impõe – Lopes Cardoso, Partilhas Judiciais,
I, página 323 -.

13. O mesmo autor, nas páginas seguintes, enumera vários exemplos de atos de administração, em
nenhum se enquadrando a defesa do direito de propriedade perante uma agressão perpetrada por
terceiros.

14. Esta situação, para ser exercida unicamente pelo cabeça-de-casal tem de resultar do exercício de
direitos inerentes à administração, entre os quais: pedir aos herdeiros ou a terceiro a entrega dos
bens que deva administrar e que estes tenham em seu poder, e usar contra eles de ações
possessórias a fim de ser mantido na posse das coisas sujeitas à sua gestão ou a ela restituído.

15. Está em causa a pretensão formulado pelo cabeça-de-casal de solicitar a entrega de bens sob a
sua administração, entrega essa necessária ao exercício da gestão desse direito de
administração, usando contra a pessoa de ações possessórias (artigos 1276.º e seguintes, do C.
C.).

16. A presente ação não é uma ação possessória.

17. Nos presentes autos, as AA. pedem a que se restaure a situação do prédio (identificado nos
artigos 25 a 28 da PI) a uma situação anterior à que sucedia antes de os RR. construírem o muro
que impede o acesso daquelas àquele.

18. Ora, intentar uma ação em que se pede o reconhecimento do direito de propriedade de um imóvel
a favor de uma herança e o pagamento de uma indemnização por danos causados, numa ação
declarativa com processo comum, sem estar revestida de natureza urgente, não é uma situação
idêntica à de uma cobrança de dívida estipulada no artigo 2089º, do CC.

19. Além de não estar em causa uma situação equivalente à cobrança de uma dívida, mas antes uma
pretendida análise da existência de um direito de propriedade sobre um imóvel e os danos que
foram causados neste (não está em causa a celebração de um contrato e o seu incumprimento –
direito obrigacional -,

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20. está em causa a prova de um direito real e a sua violação, também não está em questão o perigo
com a cobrança do direito.

21. Nem a ação é urgente nem a situação alegada pode conduzir a um perigo na demora com a
cobrança, havendo apenas que analisar se existe o direito e ressarcir os danos que tenham sido
provados, passados, atuais ou futuros.

22. Deste modo, para nós, não existe identidade de situações entre a presente ação e o disposto no
artigo 2089.º, do CC, o que impede o recurso à analogia (artigo 10.º, do C C.), até porque não se
deteta que haja uma lacuna na lei; esta define a regra – a ação tem de ser intentada por todos os
herdeiros.

23. O artigo 2078.º, n.º 1, do C. C. dispõe que sendo vários os herdeiros, qualquer deles tem
legitimidade para pedir separadamente a totalidade dos bens em poder do demandado, sem que
este possa opor-lhe que tais bens lhe não pertencem por inteiro.

24. Este artigo reporta-se à ação de petição (petição de herança), prevista no artigo 2075.º, do C. C.
em que o herdeiro pede o reconhecimento judicial da sua qualidade de herdeiro e a consequente
restituição dos bens da herança contra quem os possua (como herdeiro ou por outro título).

25. Não entrando na análise do que constitui este tipo de ação que, para nós, não é a que está em
causa pois as AA. não pedem o seu reconhecimento como herdeiro em contraponto a um
possuidor, mas antes e apenas, o reconhecimento da herança como proprietária do bem.

26. Assim, não vemos que seja aplicável na presente ação o citado artigo 2078.º, n.º 1, do CC.

27. No Acórdão do Tribuna da Relação do Porto de 22/03/2011, , decidiu-se que


- I - Numa ação em que pretende uma indemnização por atos ilícitos que imputa aos réus por
estes terem prestado maus conselhos e executado o produto do subsídio de uma forma imprópria,
ilegal e, em grande parte, em proveito próprio, e, ainda, terem praticado danos no prédio com a

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destruição da vinha e arranque de árvores estamos perante uma relação jurídica que diz respeito
aos herdeiros, pois que o prédio objeto do projeto de implantação de vinha integrou a herança do
seu autor.
28. II - A cabeça-de-casal, desacompanhada dos demais herdeiros, carece de legitimidade para
intentar a presente ação dado estarmos perante uma situação de litisconsórcio necessário o que
leva à absolvição dos réus da instância nos termos do artigo 288.º, n°1, alínea d), do CPC.”

29. Ora, nos presentes autos as AA. pedem a condenação dos RR. a indemnizarem os prejuízos que
causaram com a sua atuação.

30. Não cabendo a situação, na nossa visão, em nenhuma das exceções expressamente previstas
que permitem às cabeça-de-casal agirem sozinhas,

31. importa determinar se pedir o pagamento de uma indemnização em nome de todos os herdeiros
configura um ato de conservação do património e, consequentemente, um ato de administração
ordinária.

32. Em relação à herança, existe norma específica, o artigo 2091º do CC que afasta a voluntariedade
na atuação, no caso, do cabeça-de-casal.

33. Por força do caráter transitório destas funções, se não estiver em causa nenhuma das situações
legalmente previstas e excecionadas, a ação tem de ser intentada por todos os herdeiros, onde se
inclui a petição de uma indemnização por danos ilícitos.

34. O artigo 2078º, nº 1 do CC é a versão daquele artigo 1405.º, aplicável aos herdeiros, concedendo
a qualquer co-herdeiro legitimidade para intentar a ação de petição de herança; mas esta não é a
ação que em causa nos autos.

35. Deste modo, nem as AA. como cabeça-de-casal podem pedir uma indemnização pela violação da
parte do seu direito porque ainda não determinada na herança indivisa nem pode pedir sozinho a
totalidade da indemnização a favor da herança.

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36. Acresce que nos autos se discute se a parcela em causa pertence ou não à herança (conforme
objeto do litígio), o que mais adensa a conclusão de que está em causa um julgamento que pode
afetar o direito de todos os herdeiros.

37. Assim, salvo melhor opinião, as AA. Alzira Cunha e Rosa Carvalho são partes ilegítimas na
presente ação, o que conduz à absolvição da instância dos RR., nos termos dos artigos 33.º, n.º 1,
278.º, n.º 1, d), do C. P. C.

38. Desconhece-se a legitimidade da A. Susana Cunha uma vez que na identificação da mesma, no
formulário, na petição inicial ou sequer na procuração forense emitida a favor do mandatário
signatário nada se diz quanto ao estado civil da mesma.

39. Ainda que no documento da Conservatória do Registo Predial refira como sendo aquela
divorciada, em 2016, nada se diz quanto à situação civil atual.

CONTESTAÇÃO

40. Não podem, de todo, proceder, os pedidos formulados pelas AA..

41. Aceita-se o alegado nos artigos 2º, 5º a 7º, 15º, 16º, 17º, 23º, 24º, 30º, 32º, 33º, 35º, 36º, 37º, 69º,
70º, 73º, 75º e 76º.

42. É falso o alegado nos artigos 25º a 29º, 34º, 38º a 68º, 71º, 72º, 74º, 77º a 86º, 97º a 102º e 106º
bem como todos os que estejam em contradição com o infra alegado.

43. Desconhecem, por não serem factos pessoais seus de que devam conhecer, o alegado nos
artigos 8º a 14º, 18º a 22º, 103º a 107º.

44. Impugna-se, por desconhecer a autenticidade dos mesmos, os documentos juntos com a
designação de docs. 13, 14 e 15.

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45. As AA. nunca foram sequer possuidoras da parcela de terreno que pretendem agora seja
reconhecida como sendo delas propriedade.

46. No âmbito do procedimento cautelar que correu termos neste Tribunal, no Juízo Local Cível, Juiz
3, processo 4212/23.0T8BRG, foi considerado como provado, ao contrário do que alegam as AA.
que, pelo menos a A. Alzira Cunha reconheceu que a propriedade da área de terreno que se
discute nos autos pertence a Lino Soares Vieira e não às AA.

47. E a A. Susana Cunha confirmou que, aquando da intenção de as AA. ali colocarem uma rede de
separação, solicitaram autorização àquele Lino Soares Vieira para tal.

48. Por isso mesmo, naqueles autos, na sentença proferida, considerou-se como não provado que “a)
Quando Alzira Cunha (e marido) e Rosa Carvalho (e marido) (aqui AA.) compraram os respetivos
prédios urbanos, no mesmo dia 15 de setembro de 1993, também compraram a parcela de terreno
referida em 13º.”

49. Ou seja, a sentença considerou que as aqui AA., naqueles autos, não provaram que a área de
terreno que aqui se discute nos presentes, também por elas havia sido adquirida em 15 de
setembro de 1993. (cfr. sentença que ora se junta sob a designação de doc. 1).

50. Mais, considerou ainda como não provado a sentença proferida nos autos de procedimento
cautelar que “b) As requeridas Alzira e Susana praticam os atos referidos em 45º a 54º na
convicção de que de um bem próprio se tratava”.

51. São os seguintes aqueles artigos 45º a 54º:

“45º São as requeridas, conjuntamente com os respetivos maridos e filhos, quem cuidavam da parcela de
terreno referida em 13º,
46º limpando-a de modo regular, cortando ervas, eliminando pragas,
47º cultivando-a, plantando diversos produtos hortícolas, nomeadamente, couves e colhendo os respetivos
frutos;
48º conservando as delimitações da mesma;

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49º Também era ali que as requeridas e os respetivos maridos e filhos estacionavam, desde há muito, os
seus veículos automóveis.
50º Utilizando também esse espaço para aparcar outro tipo de bens, sempre que se afigurasse necessário.
51º Acedendo a essa parcela de terreno, para efeitos recreativos- convívios, brincadeiras, almoços,
52º Tudo isto há mais de 10, 20, 30 e 40 anos,
53º À vista de toda a gente.
54º Sem oposição de ninguém, durante todo aquele tempo.
55º José Lino de Freitas Vieira, por si e em representação dos demais proprietários, sempre permitiu a
Alzira Cunha e marido e Rosa Carvalho e marido a plena utilização da parcela objeto dos autos, nada
tendo a opor.”

52. As aqui AA. apenas usavam aquela área de terreno porque o proprietário, pelas mesmas
reconhecido, por mera cortesia, as autorizava.

53. Nunca agiram como se de proprietárias ou sequer possuidoras se tratassem.

54. Nos autos de processo de inquérito que com o número 471/21.7GAVVD correram termos na 3ª
Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal de Braga, as AA. Alzira Cunha e Susana
Cunha reconheceram Lino Vieira como proprietário daquela área de terreno. (cfr. despacho que
ora se junta sob a designação de doc.2 e autos de interrogatório que se protestam juntar em dez
dias).

55. É, por isso, falso o alegado nos artigos 25º a 29º, 31º, 34º, 38º a 41º, 43º a 64º e 68º.

56. As AA. bem sabem que o uso da parcela de terreno de cuja propriedade se arrogam, para
estacionamento de viaturas apenas lhes era permitida pelo então considerado pelas mesmas
como proprietário, Lino Vieira, por mera cortesia.

57. Ou seja, as AA. nem tampouco possuidoras da área de terreno foram.

58. E tal posse também não ficou demonstrada na sentença proferida nos autos de procedimento
cautelar que, ainda que constando do pedido formulado na oposição apresentada pelas aqui AA.
àquele procedimento a restituição da posse, tal não foi determinado,

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59. julgando-se apenas procedente a caducidade do mesmo.

60. Posse que certamente não ficará demonstrada nestes autos, invocando-se, desde já, a
autoridade de caso julgado.

61. Na mesma sentença, foi considerado provado que os ali requerentes e aqui RR. aquando da
compra do prédio aos anteriores proprietários, adquiriram também a parcela de terreno que nestes
autos se discute,

62. porquanto ainda antes dessa compra por parte dos RR., o Sr. Lino Vieira havia transmitido, ainda
que verbalmente, aquela área de terreno triangular ao Sr. Plínio, anterior proprietário do prédio
rústico adquirido pelos RR..

63. Mais, em Novembro de 1998, já o falecido marido da A. Rosa Carvalho, em requerimento


apresentado na Câmara Municipal de Braga, onde solicitava a construção de um primeiro andar
no seu prédio, juntava planta topográfica da área do prédio que lhe pertencia e onde pretendia a
construção,

64. não indicando naquela planta a área de terreno triangular que a sua esposa, ora A. Rosa Carvalho
alega haver adquirido aquando da compra do prédio que lhe pertence efetivamente (cfr. cópias
que se juntam sob a designação de doc. 3).

65. As AA, pretendem que, caso não seja reconhecido que aquando da compra dos seus prédios
identificados nos artigos 5 e 16, aquela área triangular não estava incluída no negócio, seja
considerada a aquisição da parcela por usucapião.

66. Como acima se disse, todos os atos praticados pelas AA. naquela parcela de terreno, foram-no
apenas com a anuência do seu proprietário.

67. Estabelece o artigo 1287° do CC que a posse do direito de propriedade ou de outros direitos reais
de gozo mantida por certo lapso de tempo, faculta ao possuidor, salvo disposição em contrário, a
aquisição do direito a cujo exercício corresponde a sua actuação.

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68. Para que se verifique a aquisição do direito de propriedade com base na usucapião é
indispensável se reúnam os seguintes requisitos: a) a posse do bem; b) o decurso de certo
período de tempo e c) a invocação triunfante desta forma de aquisição.

69. A usucapião é uma forma originária de aquisição do direito de propriedade baseada na posse,
numa posse em nome próprio, de uma intenção de domínio, e uma intenção que não deixe
dúvidas sobre a sua autenticidade V. Prof. Orlando de Carvalho, Introdução à Posse, Revista de
Legislação e Jurisprudência, 122, pág. 67..

70. Como decorre do art. 1251° CC posse é o poder que se manifesta quando alguém actua por
forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real.

71. Nesta definição legal de posse se insere a nota do "corpus" - quando alguém actua - e a nota do
"animus" - por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito
real.

72. E uma relação entre "corpus", enquanto exercício de poderes de facto que encerre uma vontade
de domínio, e "animus", enquanto intenção jurídica ou vontade de agir como titular de um direito
real V. Durval Ferreira, Posse e Usucapião, pág. 126 e seg, Almedina..

73. No caso dos autos, e como acima já se disse, as AA. nem tampouco eram possuidoras porquanto,
elas próprias admitiram ser o Sr. Lino Vieira o proprietário da área de terreno triangular.

74. Logo, não se encontra sequer preenchido o primeiro dos requisitos para que as AA. invoquem a
aquisição da parcela de terreno por usucapião.

75. E, se isso não bastasse, a eventual posse, que não se aceita, nem tampouco seria pacífica.

76. Em 06 de fevereiro de 2015 já o anterior proprietário daquela área de terreno triangular havia
interpelado a A. Alzira Cunha para se abster de praticar quaisquer atos de posse sobre aquele
prédio. (cfr. notificação judicial avulsa que ora se junta sob a designação de doc. 4),

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77. havendo aquela cessado os atos de posse sobre a área de terreno.

78. A posse, suscetível de conduzir à aquisição por usucapião tem de revestir sempre duas
características, quais são as de ser pública e pacífica (arts. 1293°, al. a), 1297° e 1300°, nº 1).

79. A alegada posse que, repita-se, não se aceita, por parte das AA. não foi, portanto, de todo,
pacífica.

80. Não houve, da parte dos RR. qualquer violação do direito de propriedade das AA..

RECONVENÇÃO

81. Os RR. reconvintes adquiriram em 14 de outubro de 2021 o prédio rústico, composto por terra de
mato, situado no Lugar de Monte da Forca, freguesia de Merelim (S. Paio), concelho de Braga,
descrito na Conservatória do Registo Predial com o número 453 e inscrito na matriz predial rústica
sob o artigo 708 com a área total de 3441,893 m2. (conforme escritura que ora se junta sob a
designação de doc. 5 e certidão cadastral simplificada BUPI que se junta sob a designação de
doc. 6).

82. Daquele prédio, foi desanexada a área de 1428m2, que deu origem ao prédio rústico, descrito na
Conservatória do Registo Predial de Braga com o número 1291 e inscrito na matriz predial rústica
sob o artigo 739. (cfr. certidão de registo predial e caderneta predial que se juntam sob a
designação de docs. 7 e 8),

83. prédio este que se mantém na propriedade dos RR.. e reconhecido pelas AA. e que confronta a
norte e nascente com caminho público, a Sul com José Manuel Correia e poente com José da
Silva.

84. Após a aquisição, os RR. cederam à União de Freguesias de Merelim (S. Paio), Panoias e parada
de Tibães, uma parcela de terreno com a área de 754 m2, situada entre o prédio destacado e o

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prédio originário (cfr. planta topográfica que se junta sob a designação de doc. 9 onde o caminho
se encontra assinalado a amarelo),

85. de forma a facilitar o acesso carral e de pessoas entre a Rua do Monte da Forca e a Rua dos
Combatentes, comprometendo-se a União de freguesias a pavimentar aquela área.

86. Ora, a parcela de terreno que os RR. pretendem seja reconhecida como sendo de sua
propriedade, a área triangular que se discute nos presentes autos situa-se a Sul do prédio dos RR.
(cfr. planta topográfica que se junta sob a designação de doc. 9, assinalada que se encontra a
área que se discute nos autos).

87. A Sul do prédio dos RR. situa-se o prédio urbano pertencente a José Manuel Correia, e não
qualquer área dos prédios das AA. ou sequer do anterior proprietário.

88. Quando adquiriram o prédio a Maria do Rosário Martins Ribeiro e a João Paulo Martins Ribeiro e
mulher Teres Alexandra Alves da Silva Ribeiro, Plínio Fernandes Ribeiro e mulher Maria da
Conceição Correia de Aguiar Ribeiro, os RR. reconvintes adquiriram toda a área que fazia parte
do artigo descrito no artigo 80 do presente articulado,

89. incluindo a área triangular que se discute nos autos.

90. E, ainda que se entenda tal não ter acontecido, o que não se concede, sempre o Sr. Lino Vieira,
proprietários dos prédios vendidos às AA. havia cedido parte da sua área de terreno àqueles
proprietários há mais de 20 anos,

91. exercendo aqueles proprietários, já antes dos ora RR. todos os actos de posse daquela área de
terreno situada a Sul,

92. razão pela qual já em 2015 interpelaram a A. Alzira Cunha, através de notificação judicial avulsa,
para se abster de praticar quaisquer actos de posse sobre o prédio que lhes pertencia. (cfr.
documento que se junta sob a designação de doc.3).

93. Após a compra por parte dos RR., foram estes que exerceram a posse daquela área de terreno.

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94. Aliás, foram os RR. que houveram necessidade de alegar a ofensa da posse e propriedade da
área de terreno por parte das AA., sem que estas, até à interposição da presente ação judicial,
lograssem obter judicialmente a restituição daquela posse ou o reconhecimento do direito de
propriedade.

95. E, ainda que se entenda que aquela área de terreno possa não estar incluída na compra e venda
celebrada entre os RR. e os anteriores proprietários, o que não se concede,

96. sempre, desde pelo menos data anterior a 1990 e até data de hoje, foram os RR. e os anteriores
proprietários que ocuparam a área de terreno em forma triangular, situada a Sul do prédio dos
RR..

97. cuidando do terreno,

98. pagando os respetivos impostos,

99. e defendendo a sua propriedade.

100. O uso eventual da área de terreno por parte das AA. foi apenas por mera cortesia, dos
anteriores proprietários e ou até do Sr. Lino Vieira.

101. E, como as próprias reconheceram, nunca com convicção de serem proprietárias.

102. Os ante possuidores e os RR. agiram sempre com o animus de quem é dono e
convencido que não lesam e nuca lesaram direitos de quem quer que fosse,

103. fazendo-o convictos que estavam que de um bem próprio se tratava,

104. há mais de 10, 20, 30 e 40 anos,

105. de forma pública e, repita-se, sem oposição.

106. Foram as AA. que violaram o direito de propriedade dos RR., motivo pelo qual estes
construíram o muro de vedação do terreno, de forma a evitar invasões da propriedade.
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107. Estabelece o art. 1287° do CC que a posse do direito de propriedade ou de outros direitos
reais de gozo mantida por certo lapso de tempo, faculta ao possuidor, salvo disposição em
contrário, a aquisição do direito a cujo exercício corresponde a sua actuação: é o que se chama
usucapião.

108. Para que se verifique a aquisição do direito de propriedade com base na usucapião é
indispensável se reúnam os seguintes requisitos: a) a posse do bem; b) o decurso de certo
período de tempo e c) a invocação triunfante desta forma de aquisição.

109. A usucapião é uma forma originária de aquisição do direito de propriedade baseada na


posse, numa posse em nome próprio, de uma intenção de domínio, e uma intenção que não deixe
dúvidas sobre a sua autenticidade V. Prof. Orlando de Carvalho, Introdução à Posse, Revista de
Legislação e Jurisprudência, 122, pág. 67.

110. Como decorre do art. 1251° CC posse é o poder que se manifesta quando alguém actua
por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real.

111. Nesta definição legal de posse se insere a nota do "corpus" - quando alguém actua - e a
nota do "animus" - por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro
direito real.

112. E uma relação entre "corpus", enquanto exercício de poderes de facto que encerre uma
vontade de domínio, e "animus", enquanto intenção jurídica ou vontade de agir como titular de um
direito real V. Durval Ferreira, Posse e Usucapião, pág. 126 e seg, Almedina..

113. A posse susceptível de conduzir à usucapião, tem de revestir sempre duas


características, quais são as de ser pública e pacífica (arts. 1293°, al. a), 1297° e 1300°, n.° 1).

114. O lapso de tempo necessário à usucapião é variável conforme a natureza móvel ou imóvel
dos bens sobre que a posse incida e conforme os caracteres que esta revista.

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115. Tratando-se de imóveis, o prazo de usucapião é menor se o possuidor estiver de boa fé e
se houver registo, quer do título, quer da mera posse (arts. 1294º a 1296°).

116. Invocada triunfantemente a usucapião, os seus efeitos retrotraem-se à data do início da


posse (art. 1288°).

117. Assim, o lapso de tempo decorrido de posse exercida sobre o imóvel, pelos RR.
reconvintes e pelos seus ante-possuidores, é susceptível de atribuir aos RR um título originário de
aquisição - a usucapião - uma vez que ultrapassa o período máximo necessário que a lei prevê
para que os seus efeitos possam operar (arts. 1287° e segs. do Código Civil).

Nestes termos, e por tudo o exposto:

a) Devem os pedidos formulados pelas AA. ser julgados improcedentes


por não provados e os RR. absolvidos dos mesmos;

b) deve a reconvenção ser julgada procedente por provada e, em


consequência ser reconhecido o direito de propriedade dos RR.
reconvintes sobre a área de terreno situada a Sul do prédio dos
mesmos e identificada na planta topográfica que se junta sob a
designação de doc. 9.

REQUERIMENTO PROBATÓRIO

A) Depoimentos de parte

1- depoimento de parte da A. Alzira Cunha à matéria alegada nos artigos 52, 53, 54, 56, 73, 76 e
77do presente articulado;
2- depoimento de parte da A. Rosa Carvalho à matéria alegada nos artigos 52, 53, 56, 63, 64 e 73;

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3- depoimento de parte da A. Susana Cunha à matéria alegada nos artigos 47, 52, 53, 54, 56 e 73
do presente articulado.

B) Testemunhas

1- Custódio José da Silva Veloso, residente na Rua Monte da Forca n25, 4700-838, Merelim S
Paio, Braga.

2- Liliana de Fátima Ferreira Taxa, residente na Avenida Baltazar Nuno Gomes de Castro, nº 3,
freguesia de Merelim S. Paio, 4700-838 Braga;

3- Carmindo João da Costa Soares, residente na Rua Padre Domingos Duarte da Cunha, nº 2,
freguesia de Merelim S. Paio, 4700-845 Braga;

4- Jerónimo Manuel Vilela da Silva, residente na Rua Padre Sena de Freitas, nº 100, 2º Esq.,
freguesia de Maximinos, 4700-283 Braga;

5- José Lino de Freitas Vieira, residente na Rua da Cachada, nº 6, freguesia de Merelim S. Paio,
4700- 845 Braga;

6- Plínio Martins Ribeiro, residente na Rua Professor Domingos José Ribeiro, 85, freguesia de
Merelim, 4700-839 Braga

7- João Paulo Martins Ribeiro, residente na Rua João de Freitas Branco, 27, 3º D, freguesia de S.
Domingos de Benfica, 1500-627 Lisboa;

C) Documental

- nove documento ora juntos


- dois documentos que protesta juntar em dez dias;

Valor da reconvenção: 30.000,01€

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O Advogado

(João Ferreira Araújo)

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