DIDÁTICA: TENDÊNCIAS E
ABORDAGENS PEDAGÓGICAS
Aula 1
Didática: Abordagem Conceitual e Histórica
Concepções de educação: ensino, pedagogia, didática e suas relações com o
trabalho pedagógico
Antes de falarmos sobre pedagogia e didática, é importante tecermos algumas
considerações sobre os conceitos de educação e ensino. Desde o surgimento da vida
em sociedade, a humanidade precisou produzir meios para sua sobrevivência e isso só
foi possível mediante a produção de diferentes ferramentas, troca de conhecimentos e
desenvolvimento da cultura. Para apropriação dos saberes e desenvolvimento da
cultura, foi necessário passarmos por um processo de aquisição de conhecimentos
sistematizados, que caracteriza o que chamamos de educação. Podemos compreender
a educação como um processo de apropriação de conhecimentos, valores, hábitos,
comportamentos, entre outras coisas, sendo um elemento importante para a produção
da existência humana.
Se pensarmos em aspectos históricos, nas antigas comunidades, a educação era uma
parte intrínseca a todas as atividades individuais e coletivas, influenciando diretamente
o contexto social. Muitas vezes, os conhecimentos eram transmitidos de maneira
geracional, de forma oralizada ou escrita, dos mais velhos para os mais jovens. Com a
passagem das sociedades primitivas para sociedades de classe e, posteriormente, para
sociedades industrializadas, a educação passou por um processo significativo de
institucionalização, e a institucionalização da educação trouxe luz sobre outro processo
significativo que é o processo formal de ensino em um espaço organizado para tal fim: a
escola.
Quando falamos em ensinar, é importante termos em mente a multiplicidades de fatores
que envolvem essa ação. Ensinar pode ter diferentes sentidos a depender da
perspectiva e referencial teórico adotado. De maneira geral, podemos dizer que ensinar
é transmitir, repassar informações, experiências e práticas sobre algo a outras pessoas.
No contexto formal de ensino, na escola, essa ação se efetiva por meio da
intencionalidade pedagógica. Ou seja, por meio dos propósitos, objetivos e o resultado
final dessa ação que será sempre produzir aprendizagem. A intencionalidade, o
propósito e o objetivo de gerar aprendizagem é que diferenciam o ensinar outras
atividades humanas.
Se ensinar pressupõe objetivos e finalidades, podemos inferir que, quando falamos da
educação formal e institucionalizada, para que o ensinar resulte em aprendizagem, é
necessária uma organização, métodos, currículo, planejamento, saberes e princípios
basilares para o processo intencional de ensinar. A escola, enquanto esse espaço do
ensinar institucionalizado, passou por profundas mudanças ao longo da sua trajetória
histórica, conforme Saviani (2005, p. 32):
O surgimento da escola, que na Grécia se desenvolverá como paidéia, enquanto
educação dos homens livres, em oposição à duléia, que implicava a educação dos
escravos, fora da escola, no próprio processo de trabalho. Com a ruptura do modo de
produção antigo (escravista), a ordem feudal vai gerar um tipo de escola que em nada
lembra a paidéia grega. Diferentemente da educação ateniense e espartana, assim
como da romana, em que o Estado desempenhava papel importante na organização da
educação, na Idade Média as escolas trarão fortemente a marca da Igreja Católica. O
modo de produção capitalista provocará decisivas mudanças na própria educação
confessional e colocará em posição central o protagonismo do Estado, forjando a idéia
da escola pública, universal, gratuita, leiga e obrigatória, cujas tentativas de realização
passarão pelas mais diversas vicissitudes.
A partir desse panorama apresentado pelo teórico, podemos observar que a escola se
relaciona com as questões sociais de sua época e as demandas da sociedade,
desencadeando diferentes abordagens e concepções, que passam a ser pensadas e
repensadas a partir da pedagogia. A pedagogia é um campo importante e significativo
que vai muito além da compreensão do que e como ensinar. Segundo Libâneo (2001), a
pedagogia constitui-se em um campo do saber que aborda de maneira abrangente e
histórica os desafios relacionados à educação. Simultaneamente, ela desempenha o
papel de guia para as ações educacionais, busca compreender o ato educativo e a
prática educativa enquanto integrantes das atividades humanas, ou seja, como parte da
vida social.
Os estudos da pedagogia compreendem elementos como o aluno, escola, professor,
situações de ensino, o saber e o contexto social. Resumidamente, o objetivo do
pedagógico se configura na relação entre os elementos da prática educativa: o sujeito
que se educa, o educador, o saber e os contextos em que ocorrem. (Libâneo, 2001, p.
11)
Por meio dos saberes científicos, filosóficos e técnicos, mobilizados pela pedagogia,
podemos explorar a dinâmica da realidade educacional, compreendendo de maneira
mais abrangente os objetivos, processos de intervenção metodológica e organizacional
relacionados à transmissão e assimilação de conhecimentos.
A pedagogia tratará tanto da educação, no seu sentido social, político, filosófico mais
amplo, quanto do caráter da instrução, da formação intelectual, cognitiva e do ensino. E
é nesse contexto, que podemos inserir a didática, como ramo principal da pedagogia,
que estuda e investiga os fundamentos e modos pelos quais ocorre a instrução e o
ensino. A partir da didática, podemos pensar as metodologias. Conforme Libâneo
(2017), enquanto a didática, trata da teoria geral do ensino, as metodologias ligam-se
aos conteúdos e métodos próprios de cada disciplina e seus fins educacionais.
A palavra didática tem sua origem etimológica da palavra grega didaskein que significa
instruir, ensinar. Ganhou um caráter mais “pedagógico” com Jan Amos Komensky,
educador e bispo tcheco, que propôs uma educação para a vida cotidiana, com a
sistematização do conhecimento e a criação de um sistema educacional universal. Em
sua obra principal, Didáctica Magna (1628-1632), equilibrava aspectos da religiosidade
e do ensino. Sua obra marcou o início da didática moderna no Ocidente.
Em síntese, a relevância da didática e da pedagogia na prática docente é incontestável,
desempenhando um papel crucial ao proporcionar estratégias e abordagens que
ampliam a eficácia do processo educacional, principalmente no contexto institucional. A
didática, ao orientar a transmissão de conhecimento de modo intencional e planejado,
contribui para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Enquanto isso, a pedagogia,
ao explorar teorias e processos educacionais, fornece um alicerce teórico científico
sólido para a criação de diferentes ambientes e situações de aprendizado.
Pressupostos teóricos, históricos, filosóficos e sociais da didática
A didática fundamenta-se em outras áreas além da pedagogia, como psicologia, filosofia
e sociologia, que trazem reflexões significativas para as práticas educativas na
sociedade e na escola. Desse modo, enquanto professores e profissionais da área da
educação, é importante compreendermos e aprofundarmos alguns dos principais
teóricos e as contribuições que eles trouxeram para a formação epistemológica da
didática. Além de Comenius, que problematizou as questões referentes à didática,
esboçando preocupação sobre aquilo que o aluno deve saber, o que deve ser ensinado
e a aplicação prática do conhecimento, podemos destacar também as contribuições de
outro pensador e filósofo, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), cujas ideias sobre
educação são expressas em sua obra Emílio ou Da Educação.
A principal influência de Rousseau foi o enfoque em uma educação ética, considerando
os conhecimentos humanos e a criança como um ser integral, que se desenvolve em
etapas, com seus sentimentos, interesses e desejos individuais.
Outro expoente importante foi Heinrich Pestalozzi (1746-1827), pedagogo suíço, que
contribuiu de maneira significativa para a formulação de um método que servia como
alicerce para sua prática educacional. Esse método consistia em apresentar o
conhecimento de maneira simples e prática, utilizando a observação por meio dos
sentidos e, posteriormente, exercitando gradualmente o conhecimento para consolidá-
lo. A concepção de ensino de Pestalozzi enfatizava que o desenvolvimento da criança
ocorre de dentro para fora.
Johann Friederich Herbart (1776-1841), mesmo atuando no ensino universitário,
ampliou as ideias de Pestalozzi ao criar um seminário pedagógico com uma escola de
aplicação anexa para experimentação acadêmica. Herbart, concebia a educação como
uma ciência e, por isso, introduziu no trabalho docente o rigor metodológico. Seus
procedimentos incluíam o controle do comportamento do aluno, o ensino por meio de
instrução voltada para o desenvolvimento de interesses e a disciplina como promotora
da formação do caráter desejado pela sociedade.
Podemos ainda destacar as contribuições de John Dewey (1859–1952), professor e
filósofo americano que defendia que os conteúdos ensinados são assimilados de forma
mais fácil quando associados às tarefas cotidianas realizadas pelos alunos.
No Brasil, uma série de mudanças e discussões pedagógicas foram se constituindo a
partir da década de 1920, influenciadas pelas ideias de John Dewey, como o movimento
da Escola Nova. No país, o escolanovismo desenvolveu-se em meio a significativas
mudanças econômicas, políticas e sociais. O rápido processo de urbanização e a
expansão da cultura cafeeira impulsionaram o progresso industrial e econômico no país,
mas também deram origem a instabilidades nos âmbitos político e social, provocando
uma notável transformação no pensamento intelectual brasileiro e nas discussões sobre
educação.
Entre algumas das discussões que o movimento trouxe, estava a percepção de que a
educação é um elemento crucial para a construção de uma sociedade democrática, que
valoriza a diversidade e o respeito à individualidade dos sujeitos. Propunha um ensino
que capacitasse os cidadãos a refletirem sobre a sociedade e a se integrarem
ativamente a ela, e um ensino cujo foco fosse o estudante e não mais o professor.
Tendências pedagógicas: liberais e progressistas
A partir do conjunto de informações, concepções e teorias sobre os processos de
ensino e aprendizagem que foram se desenvolvendo ao longo dos anos, temos a
constituição das chamadas tendências pedagógicas que abordam de forma conceitual,
prática e teórica a interação entre educação, contexto histórico e as dimensões sociais
e econômicas que moldam uma determinada sociedade. No Brasil, conforme os
estudos de Libâneo (1983), elas se concentram em duas linhas principais. Veja o
quadro.
Pedagogia Liberal Tradicional , Renovada progressivista,
Renovada não diretiva, Tecnicista
Pedagogia Progressista Libertadora, Libertária, Crítico-social dos conteúdos
Quadro 1 | Categorização das tendências pedagógicas. Fonte: adaptado de Libâneo
(1985, p. 2).
As tendências que correspondem ao grupo da Pedagogia Liberal compreendem que a
escola tem como função principal preparar os indivíduos para desempenhar papéis
sociais alinhados com suas habilidades individuais, destaca a necessidade de
adaptação aos valores e normas sociais predominantes. Já o grupo da Pedagogia
Progressista preza a avaliação crítica das realidades sociais e os objetivos
sociopolíticos da educação.
Tendência Características educacionais
Ensino voltado para cultura geral.
A relação professor-aluno não tem vínculo com o cotidiano
Tradicional ou realidades sociais. Predominância no professor e regras
impostas.
Ensino voltado para a cultura das aptidões individuais.
A escola propõe um ensino que valoriza a autoeducação.
Renovada Desdobra-se em duas versões: a renovada progressivista
e pragmatista. A renovada não diretiva visa o desenvolvimento
pessoal e relações interpessoais,
tendo como base os estudos de Carl Rogers.
Ensino voltado para preparação de mão-de-obra para a indústria.
Foco nas técnicas (forma) de descoberta e aplicação.
Tecnicista
Utiliza-se basicamente do enfoque sistêmico, da tecnologia
educacional e da análise experimental do comportamento.
Uma educação voltada para a criticidade.
Questiona concretamente a realidade das relações humanas.
Progressista
O trabalho deve ser com “temas geradores”.
libertadora O foco deve estar na troca de experiências em torno
da prática social, codificação-decodificação e problematização
do “vivido” pelo estudante.
A escola promove uma transformação na personalidade dos
alunos em sentido libertário e autogestionário.
Progressista
Os conteúdos derivam das necessidades e interesses expressos
libertária pelo grupo, não sendo obrigatoriamente disciplinas de estudo.
Ênfase na motivação, no grupo, no informal
e no combate à repressão.
Foco na difusão de conteúdos culturais universais que
se constituíram em diferentes campos do saber
ligados à realidade social. Preparação para a vida adulta.
Crítico-social O professor é mediador. Aprender consiste em processar
dos conteúdos informações, lidar com os estímulos, do ambiente,
organizando os dados disponíveis e adquiridos
a partir da experiência.
Quadro 2 | Tendências pedagógicas - características educacionais. Fonte: adaptado de
Libâneo (1985, p. 3).
A partir do quadro, podemos observar que as tendências pedagógicas são importantes
para pensarmos os modos pelos quais as concepções de ensino e aprendizagem foram
se desenvolvendo ao longo da história e as permanências, mudanças e contribuições
de cada uma para pensar os sujeitos. Ao refletirmos sobre as visões contemporâneas
de aprendizagem e desenvolvimento, essas tendências oferecem orientações valiosas
para educadores, contribuindo para a formação de cidadãos críticos e adaptáveis em
um mundo em constante transformação.
Vamos Exercitar?
No início desta aula, apresentamos a situação-problema relacionada à solicitação da
coordenadora Ana, para que seus professores compartilhassem suas considerações
sobre como cada abordagem didática pode impactar no processo de construção do
conhecimento e no trabalho pedagógico do próximo ano letivo. Uma forma de organizar
a exposição das reflexões levantadas pelos docentes seria:
Realizar junto aos docentes um levantamento e estudo das principais abordagens
didáticas, destacando suas premissas teóricas, filosóficas e sociais.
Trabalhar com materiais de apoio, como artigos, livros e recursos multimídia, para
aprofundar a compreensão dos docentes.
Realizar pré-encontros entre os professores para discussões em pequenos grupos,
permitindo a troca de experiências e percepções.
Solicitar que os professores identifiquem os pontos fortes e os desafios de cada
abordagem em relação à construção do conhecimento e ao trabalho pedagógico que
ele desenvolve atualmente.
Organizar um seminário para que cada grupo ou professores apresentem suas
considerações e propostas.
Essa proposta colaborativa e reflexiva pode contribuir significativamente para a
construção de uma proposta pedagógica e de formação continuada mais robusta e
alinhada aos princípios da instituição, valorizando a relação entre a didática e o trabalho
do professor no processo de ensino.
Saiba Mais
Vamos conhecer um pouco mais sobre o tema estudado? É importante que você tenha
outras fontes de pesquisa para ser capaz de pensar de forma crítica o conteúdo
abordado nesta aula, por isso seguem algumas sugestões para ampliar seus
conhecimentos.
Leia a reportagem Desafios e caminhos para a formação de professores no Brasil,
publicada no site Porvir. A matéria apresenta vários índices significativos e descreve os
principais desafios envolvendo a formação dos docentes, a relação entre teoria e prática
e as metodologias de ensino.
Escute o episódio 12, do Podcast Prosa de Professor, falando sobre contextos de
aprendizagem envolvendo aspectos como organização das atividades, materiais e
tempo, considerando o trabalho do professor com crianças.
Bons estudos!
Referências Bibliográficas
LIBÂNEO, J. C. Pedagogia e pedagogos: inquietações e buscas. Educar em Revista,
n. 17, p. 153-176, 2001.
LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez Editora, 2017.
LIBÂNEO, J. C. Tendências pedagógicas na prática escolar. Revista da Associação
Nacional de Educação – ANDE, v. 3, p. 11-19, 1983.
LOPES, M. Desafios e caminhos para a formação de professores no Brasil. Porvir, São
Paulo, 15 out. 2015. Disponível em: [Link]
de-professores-brasil/. Acesso em: 23 dez. 2023.
PROSA DE PROFESSOR. Ep 12 – contextos de aprendizagem. Disponível em:
[Link] Acesso em: 23 dez.
2023.
SAVIANI, D. Instituições escolares: conceito, história, historiografia e práticas.
Cadernos de História da Educação, v. 4, 2005.
Aula 2
A Didática e a Relação Professor-aluno no Decorrer da História da Educação
Brasileira
A didática e a relação professor-aluno no período colonial
Nas perspectivas mais atuais da educação, sabe-se que a relação afetiva entre
professor e aluno é vital. Quando há confiança, interesse, emoção e respeito, o
aprendizado torna-se mais significativo. O professor atua como mediador, motivador,
enquanto o aluno, apoiado, sente-se estimulado a explorar seu potencial. Essa
interação não apenas enriquece a experiência pedagógica, mas também cria um
ambiente propício ao crescimento individual, coletivo e de aprendizagem ativa. A
relação professor-aluno é um componente central no contexto educacional,
caracterizando a interação entre o educador e o estudante durante o processo de
ensino-aprendizagem. Essa relação é multidimensional, envolvendo não apenas a
transmissão de conhecimentos, mas também os aspectos socioemocionais,
motivacionais e afetivos.
Apesar de importante, a relação professor-aluno-conhecimento, nem sempre foi vista da
maneira como concebemos hoje, pelo contrário, ela passou por diferentes concepções
e percepções ao longo da história em decorrência das demandas e conhecimentos de
cada época. Entender as nuances históricas e como essas relações foram se moldando
ao longo do tempo é fundamental para pensarmos criticamente os processos de ensino-
aprendizagem.
No período colonial (1500-1822), a educação brasileira foi marcada fortemente pela
educação jesuítica, organizada pela Companhia de Jesus, que contribuiu para o projeto
de colonização do país. Conforme os estudos de Shigunov Neto e Maciel (2008), a
Companhia de Jesus surgiu durante o movimento de reação da Igreja Católica contra a
Reforma Protestante. Seu propósito era conter o avanço protestante, empregando duas
estratégias: a educação dos indígenas e a ação missionária para converter os povos à
fé católica. Desse modo, o projeto educacional jesuítico era complexo e pretendia uma
transformação social baseada na educação e princípios cristãos. A atuação dos jesuítas
teve duas importantes fases: primeiramente, a adaptação e construção de seu trabalho
de catequese e, um segundo momento, de extensão do sistema educacional
implantado.
Nesse cenário, o método de ensino adotado foi baseado no Ratio Studiorum, tendo
como principal representante Inácio de Loyola. Tratava-se de um documento orientador,
um guia metodológico prático do que e como se deveria ensinar, conforme Shigunov
Neto e Maciel (2008, p.180):
O método educacional jesuítico foi fortemente influenciado pela orientação filosófica das
teorias de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, pelo Movimento da Renascença e por
extensão, pela cultura europeia. Apresentava como peculiaridades a centralização e o
autoritarismo da metodologia, a orientação universalista, a formação humanista e
literária e a utilização da música.
Por meio do Ratio Studiorum, os jesuítas estabeleceram o que podemos considerar
como “currículo” com áreas e sistematização de saberes. Inicialmente, os padres se
preocupavam principalmente com a catequização e conversão dos povos nativos à fé
católica. Entretanto, ao longo do tempo, passaram também a se dedicar ao ensino dos
filhos dos colonos e demais membros da Colônia, o que posteriormente causou
insatisfações políticas e conflitos de interesse que culminaram na expulsão dos jesuítas
em 1759. Em substituição ao sistema jesuítico de ensino, foram implementadas as
Aulas Régias.
De acordo com Fonseca (2023), a Reforma de Estudos de 1759, liderada pelo Marquês
de Pombal, introduziu mudanças, mas somente em 1760 ocorreu o primeiro concurso
para professores, resultando na efetiva implementação das primeiras aulas, em 1774,
com foco na Filosofia Racional e Moral. Em 1772, surgiu o Subsídio Literário, um
imposto sobre vinho e carne destinado à manutenção dessas aulas. Contudo, o sistema
das chamadas Aulas Régias teve pouco impacto na realidade educacional brasileira,
permanecendo restrito às elites locais. Cabe destacar que a criação e nomeação dos
professores eram de responsabilidade do rei, mas recebiam seus salários depois de
quase um ano, por isso eles próprios custeavam sua manutenção.
O que podemos destacar do período colonial, é que as escolas eram restritas a uma
pequena parcela da população, composta principalmente por filhos de colonos ricos,
membros da nobreza, que recebiam uma educação diferente daquela destinada aos
indígenas catequizados pelos missionários, com um caráter educacional
predominantemente religioso. Os professores, inicialmente, eram padres que
desempenhavam papéis duplos de educadores e também de missionários, buscando
converter os nativos ao cristianismo. Em termos da relação entre professor-aluno, era
centrada no professor, refletindo os padrões sociais da época e uma percepção mais
enciclopédica e tradicional de ensino-aprendizagem, e o estudante detinha um papel
mais passivo.
A didática e a relação professor-aluno na Escola Nova
Durante muitos anos, a percepção tradicional implementada ainda no período colonial
perdurou no sistema de ensino e nas práticas didáticas escolares no cenário brasileiro.
Foi somente a partir das primeiras décadas do século XX que se iniciou um movimento
de renovação e mudanças na educação vigente até então. Influenciado por ideias de
teóricos como John Dewey e Maria Montessori, esse movimento buscava reformular as
práticas pedagógicas tradicionais, propondo uma abordagem centrada no aluno, na
participação ativa e na integração de experiências de vida à educação formal, além da
defesa da escola gratuita e para todos. Esse movimento ficou conhecido como
Movimento da Escola Nova.
Conforme os estudos de Vidal (2013), como parte desse movimento, tivemos a
produção de um importante documento para divulgação social desses ideais. O
documento foi divulgado na imprensa brasileira, em 19 de março de 1932, com o nome
de Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. Entre alguns dos principais educadores
envolvidos nessa discussão, podemos citar: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo,
Cecília Meirelles e Afrânio Peixoto. Entre algumas das ideias que o documento
apresentava estava a modernização do sistema de ensino, laicidade, gratuidade e
responsabilidade do Estado sobre a escola. Desse modo, destacava-se a escola como
espaço democrático e de acesso para todos.
Havia uma crítica aos modelos tradicionais de ensino, trazendo uma preocupação maior
com aspectos afetivos, participação e interesse dos estudantes. O professor deixaria de
ser um detentor do conhecimento para se tornar um facilitador. As técnicas e os
métodos deveriam usar de variados recursos didáticos e serem orientados pelos
princípios da individualização, liberdade e espontaneidade.
Ao estabelecer princípios que visavam uma educação centrada no aluno, democrática e
comprometida com a realidade brasileira, o documento influenciou políticas e práticas
pedagógicas ao longo das décadas seguintes. Suas contribuições para a promoção da
educação pública, laica e inclusiva moldaram o panorama educacional brasileiro,
deixando um legado significativo. Trazendo uma mudança na percepção da relação
professor-aluno que passaria a ser mais centrada nas individualidades dos estudantes,
na diversidade de estratégias didáticas e práticas ancoradas no cotidiano para
promover uma aprendizagem mais ativa e significativa.
Siga em Frente...
A didática e a relação entre professor-aluno no período ditatorial e pós
redemocratização do Brasil
Entre 1950 e 1985, o Brasil experimentou um intenso processo de modernização,
alterando profundamente sua dinâmica social, econômica e política. Houve mudanças
estruturais notáveis em diversos setores e na relação entre campo e cidade, bem como
a integração ao cenário econômico global capitalista e a concentração de renda.
Conforme destacado por Assis (2012), a partir da segunda metade da década de 1950,
a introdução da indústria gerou uma quantidade considerável de novos empregos,
diversificando as oportunidades.
No entanto, a oferta de mais trabalho não se traduziu automaticamente em emprego, já
que a qualificação tornou-se uma exigência as atividades específicas de cada nível e
setor de ocupação. Nesse contexto, a educação emergiu como o principal caminho
viável para conquistar melhores posições nas empresas e indústrias, e a tendência
tecnicista de ensino expandiu-se no território nacional. Em termos políticos, as
demandas crescentes de industrialização impulsionaram diferentes projetos e ações
governamentais.
Em 1964, João Goulart, presidente do Brasil, buscando transformações, lançou as
Reformas de Base, que incluíam desapropriações de terras, nacionalização de
refinarias, e reforma eleitoral e universitária. As propostas do político geraram
insatisfação e, em 31 de março de 1964, ele foi deposto pelos militares. Para preencher
o vácuo do poder, uma junta militar tomou o controle do país. Em 9 de abril, foi
promulgado o Ato Institucional n.º 1, conferindo ao Congresso a autoridade para eleger
o novo presidente. O escolhido foi o general Humberto de Alencar Castelo Branco, ex-
chefe do Estado-Maior do Exército. A partir desse momento, no Brasil, passou a ter dois
partidos de destaque: a Aliança Renovada Nacional e o Movimento Democrático
Brasileiro. Esse movimento político caracterizou o início da ditadura militar no país. O
regime de caráter autoritário que perdurou de 1964 a 1985, estabeleceu a censura à
imprensa, restrição aos direitos políticos e perseguição policial aos opositores do
regime.
Durante o período da ditadura militar, a educação foi profundamente influenciada e
controlada pelo regime. O governo militar buscava consolidar sua ideologia e controlar a
disseminação de ideias consideradas subversivas. Nesse contexto, ocorreram diversas
intervenções na educação, resultando em mudanças significativas na relação professor-
aluno. O regime buscou impor uma visão mais conservadora e nacionalista nos
conteúdos educacionais, promovendo mudanças curriculares que visavam moldar a
mentalidade das novas gerações de estudantes conforme os valores e princípios
defendidos pelos militares. O ensino de história, por exemplo, era pautado por uma
perspectiva ideológica que destacava o papel do Estado na preservação da ordem e da
segurança nacional e valorização do patriotismo.
Além disso, a censura e repressão estavam presentes nas instituições de ensino.
Livros, materiais didáticos e atividades consideradas contrárias aos interesses do
regime eram proibidos. Professores e estudantes que expressavam posições críticas ou
participavam de movimentos de resistência eram perseguidos e, muitas vezes, punidos.
Em termos de políticas educacionais, temos a discussão e aprovação de dois marcos
legais importantes, conforme apresentado por De Assis (2012, p. 337):
A LDB de 1961 teve sua elaboração iniciada em 1948, mas só em 1961 foi aprovada no
Congresso Nacional. No entanto, não apresentou mudanças significativas para o ensino
primário e médio. Logo depois, por exigência do conteúdo da Constituição Brasileira de
1967, aprovou-se a Lei de 1971, com algumas mudanças significativas no ensino de 1º
e 2º graus, dentre elas destaca-se a obrigatoriedade do ensino, que passou de 4 para 8
anos, representando uma conquista significativa para a educação do povo brasileiro. No
entanto, as condições para que isso se concretizasse não foram ofertadas. Os índices
de analfabetismo e de evasão nas séries iniciais, embora tenham diminuído, ainda
eram muito altos.
O que podemos destacar do período ditatorial é que a relação entre professores e
alunos refletia esse contexto de repressão e controle. A liberdade acadêmica foi
limitada, resultando em um ambiente no qual os professores sentiam a pressão para
aderir às diretrizes impostas pelo governo. Muitos educadores enfrentaram dilemas
éticos ao se depararem com a imposição de uma educação que contrariava seus
princípios pedagógicos e valores democráticos. Por outro lado, alguns professores
resistiram de maneira silenciosa, buscando formas sutis de subverter o discurso oficial e
oferecer uma educação mais crítica e reflexiva, mesmo diante das restrições. A relação
professor-aluno, em muitos casos, tornou-se um campo de tensões, com a necessidade
de equilibrar as demandas do regime autoritário e o desejo de manter a integridade
intelectual e ética no ambiente educacional.
A partir da redemocratização do país, em 1985, quando ocorreu a transição do regime
autoritário para o democrático, houve um esforço para reconstruir o sistema educacional
de maneira mais plural e inclusiva. Uma das mudanças mais notáveis foi a elaboração
da Constituição de 1988, que garantiu princípios fundamentais para o sistema
educacional, como o direito à educação para todos e a gestão democrática das
instituições e a LDB n.º 9394/96, que trouxe novas orientações e finalidades para a
organização da educação nacional. Houve a descentralização das políticas
educacionais, com maior autonomia para estados e municípios. Essa descentralização
visava adequar as políticas educacionais às peculiaridades regionais, promovendo uma
educação mais contextualizada e efetiva.
Em suma, a redemocratização brasileira representou uma virada importante na
trajetória da educação, promovendo princípios democráticos e buscando superar as
limitações impostas durante o período autoritário, trazendo novas perspectivas para a
relação professor-aluno-conhecimento. No entanto, é necessário um contínuo esforço
para enfrentar os desafios remanescentes e assegurar uma educação de qualidade e
equitativa para todos os brasileiros.
Vamos Exercitar?
No início desta aula, apresentamos a situação-problema do professor de Língua
Portuguesa chamado Bastos e questionamos como pode ser promovida uma relação
mais colaborativa entre docente e alunos. Agora, vamos pensar em algumas ações.
Visando ajudar na mudança de abordagem didática do professor, podemos propor em
um primeiro momento alguns ajustes nas estratégias e abordagens pedagógicas, por
exemplo, incorporar atividades mais diversificadas e inclusivas, com diferentes gêneros
e suportes textuais, criando um ambiente que incentive a expressão individual. Além
disso, uma análise mais profunda da relação entre os alunos e a matéria pode trazer
informações sobre como abordar as resistências percebidas. Essa investigação pode
ser realizada por meio de avaliações formativas e diagnósticas, debates e autoavaliação
dos estudantes sobre seu aprendizado.
O professor também deve frequentemente refletir sobre sua prática e sua relação com o
conhecimento e com os estudantes. O professor, conforme vimos ao longo da aula, a
partir da perspectiva apresentada no movimento da Escola Nova, desempenha o papel
de facilitador e mediador que estimula os alunos na busca pelo entendimento, enquanto
estes, por sua vez, participam ativamente do processo, questionando, refletindo e
construindo significados a partir das experiências educativas.
Nossos estudos continuam, aguardo você em breve!
Saiba Mais
O processo de aprendizagem acontece por meio de diferentes estímulos e recursos, por
isso, buscar outras fontes além do material de leitura da disciplina é fundamental.
Seguem algumas indicações para aprofundar a discussão das temáticas abordadas
durante nossa aula.
Leia o texto O manifesto dos pioneiros da educação nova, publicado na Revista
Brasileira de Estudos Pedagógicos, em 1984, que traz um panorama completo do
manifesto e as ideias que seus idealizadores defendiam sobre a educação.
Leia o livro Pedagogia da Autonomia, escrito por Paulo Freire. A obra aborda diferentes
competências e ações necessárias por parte dos educadores no decorrer do processo
de ensino e aprendizagem, especialmente quando se trata de uma educação igualitária,
transformadora e inclusiva.
Bons estudos!
Referências Bibliográficas
DE ASSIS, R. M. A educação brasileira durante o período militar: a escolarização dos 7
aos 14 anos. Educação em Perspectiva, v. 3, n. 2, 2012.
FONSECA, M. S. Aulas régias: verbete. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 11 dez. 2023.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra, 1996.
SHIGUNOV NETO, A.; MACIEL, L. S. B. O ensino jesuítico no período colonial
brasileiro: algumas discussões. Educar em revista, v. 24, n. 31, p. 169-189, 2008.
TEIXEIRA, A. O manifesto dos pioneiros da educação nova. Revista Brasileira de
Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 65, n. 150, p. 407-425, maio/ago. 1984. Disponível
em: [Link] Acesso em: 23 dez. 2023.
VIDAL, D. G. 80 anos do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova: questões para
debate. Educ. Pesquisa, p. 577-588, 2013.
Aula 3
A Didática na Atualidade
A didática no século XXI
Você já ouviu algo como “temos uma escola do século XIX, professores do século XX, e
alunos do século XXI”? Essa frase descreve o paradigma da educação atual e nos
mostra os desafios que contemplam o ensino no século XXI. O modelo escolar atual
advém dos finais do século XIX, da época industrial. Esse período foi marcado por uma
educação mais tradicional que valorizava a rotina, repetição e uniformidade didática.
Conforme os estudos de Xavier (2015), a escola de hoje está mais bonita, os nomes
mudaram, porém muitas das práticas da educação do século XIX ainda são presentes
em nosso contexto educacional.
Desse modo, o paradigma atual demanda uma ênfase na abordagem por descoberta,
criticidade e na promoção da criatividade, em que o professor é o mediador e
incentivador do processo de ensino, enquanto o estudante desempenha o papel de
protagonista na sala de aula. A prática educativa deve, portanto, ser considerada sob
uma perspectiva de resolução de problemas e alinhada com a realidade dos educandos
e demandas da sociedade contemporânea.
De acordo com Jacques Delors (2003), a educação no século XXI requer que todos
tenham a capacidade de reconsiderar as práticas pedagógicas em suas diversas
dimensões. Isso se deve ao fato de que não almejamos formar apenas trabalhadores,
intelectuais, administradores de empresas ou gestores públicos; buscamos, acima de
tudo, formar a humanidade para que ela possa atender aos seus próprios anseios. Para
isso, o autor propõe Pilares importantes para pensar a educação, com uma visão
abrangente da formação humana, indo além do mero conhecimento acadêmico e
enfatizando a importância do desenvolvimento integral dos indivíduos em um mundo em
constante transformação. Esses pilares para educação são:
Aprender a conhecer: desenvolver o pensamento crítico, capacidade de adquirir
conhecimento e compreensão, promover a aprendizagem ao longo de toda vida.
Aprender a fazer: adquirir habilidades práticas, capacidade de enfrentar desafios e
resolver problemas, promoção do trabalho em equipe e iniciativa.
Aprender a ser: desenvolver aspectos interpessoais, incluindo valores, ética,
autonomia e responsabilidade. Respeito às individualidades.
Aprender a conviver: compreender a interculturalidade, tolerância e respeito pelos
outros, bem como promover a cidadania global. Construir uma sociedade mais inclusiva
e pacífica.
A partir desses princípios, podemos inferir que, no século XXI, a didática e as
estratégias metodológicas de ensino devem ser abrangentes e ativas, buscando
contribuir para a formação de um ser humano integral. Em uma sociedade da
informação e da mediatização, como a nossa, temos uma redefinição do papel do
professor que, além de mediador, passa a ser um agente de transformação, orientando
os alunos em direção a um aprendizado significativo e preparando-os para os desafios
não apenas intelectuais, mas de um mundo em constante mudança. O professor do
século XXI é, assim, um “arquiteto do conhecimento” e um “curador”.
Aspectos como a ascensão da tecnologia na atualidade redefinem os métodos de
ensino, demandando uma abordagem didática adaptada à nova realidade digital. O
professor, agora, é desafiado a integrar recursos tecnológicos de forma eficaz,
proporcionando experiências de aprendizagem mais dinâmicas e interativas. No século
XXI, reconhece-se a diversidade de estilos de aprendizagem. A didática contemporânea
busca a personalização do ensino e estratégias diversas que aproximem o conteúdo
ensinado da realidade vivida pelos estudantes, de modo a possibilitar o
desenvolvimento de competências, como pensamento crítico, criatividade, colaboração
e comunicação. O professor é um guia/mediador na formação dessas habilidades,
preparando os alunos para enfrentar os desafios complexos da sociedade
contemporânea. A tradicional transmissão passiva de conhecimento, nesse contexto,
deve ceder espaço para métodos mais ativos e participativos.
Mas o que significa ser um professor mediador? Como fazer o processo de transmissão
de saberes possibilitando envolvimento ativo dos estudantes? Essas questões são
recorrentes e importantes para pensarmos o processo didático de ensino. Podemos
destacar nesse aspecto as contribuições da teoria da Transposição Didática, conforme
destacado por Freitas (2020), que se trata de um processo no qual um conhecimento
selecionado para o ensino passa por uma série de transformações adaptativas. Essas
adaptações buscam integrar esse conhecimento aos diferentes contextos de ensino-
aprendizagem. Esse esforço de converter um objeto de conhecimento (saber sábio) a
ser ensinado (saber ensinar) em um objeto já ensinado (saber ensinado) é identificado
como Transposição Didática. Nesse sentido, para que esse processo possa colaborar
para o ensino-aprendizagem em sala de aula, é necessário que o professor consiga
transformar os saberes científicos em objeto de ensino, ou seja, em conhecimentos
possíveis de serem ensinados e compreendidos pelo aluno, permitindo dominar os
aspectos didáticos que envolvem a transmissão e assimilação de determinado
conhecimento.
Saber Apresentados pela ciência e cientistas.
Saber técnico que o professor adquire durante sua
sábio formação inicial sobre determinadas disciplinas e conteúdo.
Saber Saber adaptado em uma linguagem diferente para
informar determinados temas; exemplos: materiais didáticos que o
ensinar professor utiliza em sala de aula.
Saber As adaptações e intervenções que o professor faz em sala de
aula ao trabalhar com os saberes sábios e o processo de ensino.
ensinado
Quadro 1 | Saberes relacionados na Transposição Didática. Fonte: elaborado pela
autora.
Polidoro e Stigar (2010, p. 3) nos ajudam a compreender um pouco mais desse
processo de transposição:
Esse processo de transformação do conhecimento se dá porque os funcionamentos
didático e científico do conhecimento não são os mesmos. Eles se inter-relacionam,
mas não se sobrepõem. Assim, para que um determinado conhecimento seja ensinado,
em situação acadêmico-científica ou escolar, necessita passar por transformação, uma
vez que não foi criado com o objetivo primeiro de ser ensinado. A cada transformação
sofrida pelo conhecimento corresponde, então, o processo de Transposição Didática.
O professor como mediador do conhecimento desempenha um papel vital na formação
de indivíduos críticos, curiosos e autônomos e é responsável por esse processo de
Transposição Didática. Ao cultivar um ambiente de aprendizagem interativo e
participativo, o professor não apenas transmite conhecimento, mas também estimula o
crescimento intelectual e emocional dos alunos. Nessa jornada, o professor como
mediador é um incentivador para que os estudantes possam aprender novos
conhecimentos de forma autônoma e coletiva.
A didática e a identidade docente nos tempos atuais
Além de pensarmos na ação docente e na Transposição Didática, é necessário
olharmos também para o próprio profissional da educação e suas possibilidades de
formação a partir do todo que envolve a educação no contexto institucional. Pensar a
educação básica implica olhar para seus agentes, ou seja, o educando, suas famílias,
comunidade, Estado e, especialmente, o profissional que operacionaliza e planeja o
processo: o educador. Para isso, torna-se fundamental compreendermos os aspectos
que envolvem a identidade docente. A identidade pode ser compreendida como um
processo de formação social de um indivíduo, ou seja, tem relação com os aspectos
sociais e históricos nos quais o sujeito está inserido. No que se refere à concepção de
identidade profissional, ela emerge a partir dos significados atribuídos à profissão, suas
tradições e, igualmente, da evolução histórica de suas contradições.
Conforme os estudos de Iza et al. (2014), pode-se afirmar que se tornar professor é
uma construção adquirida ao longo de um extenso processo, uma vez que demanda
tempo para assimilar a formação, aprender a agir, tomar decisões e, acima de tudo,
reconhecer-se como um educador que contribui para a formação das futuras gerações.
Desse modo, podemos inferir que um professor estará sempre em constante
aperfeiçoamento e reflexão sobre sua formação, sua atuação e sua profissão.
Além da identidade, é relevante, neste momento, enfatizar alguns conceitos presentes
na obra de Tardif sobre os saberes dos professores, pois eles estabelecem uma relação
direta com as concepções de educação. Conforme Tardif (2014), os saberes dos
educadores podem ser categorizados em quatro grupos:
1. Saberes profissionais: são conhecimentos transmitidos pelas instituições que formam
os educadores.
2. Saberes disciplinares: originam-se de diversas fontes dos conteúdos disciplinares e se
desdobram de tradições culturais.
3. Saberes curriculares: relacionam-se aos programas e currículos escolares.
4. Saberes experienciais: são derivados de nossa formação profissional, emergindo de
nossa prática profissional e sendo validados por ela.
Esses saberes estão em constante diálogo e atuação na prática docente. E a partir
desse cenário, podemos pensar o papel da didática especificamente. A didática
contemporânea reconhece os métodos tradicionais, mas procura explorar outras
perspectivas também, abraçando uma abordagem mais adaptativa e considerando
todas as formas de saberes mencionadas anteriormente. Professores se veem diante
da necessidade de incorporar métodos flexíveis, tecnologia educacional e estratégias
inovadoras para atender às demandas de um mundo em constante transformação.
A didática e a identidade docente atualmente são inseparáveis. O professor do século
XXI enfrenta desafios e oportunidades únicas, exigindo uma abordagem flexível e uma
identidade profissional que compreenda as constantes mudanças e nuances da
educação na contemporaneidade. Ao integrar a didática moderna, adaptar-se a novas
tecnologias e abraçar uma visão inclusiva, os educadores contemporâneos moldam não
apenas o aprendizado dos alunos, mas também redefinem o significado da identidade
docente na era da informação e da globalização.
Siga em Frente...
Os desafios da didática na prática educativa
Os desafios da didática, na prática, educacional refletem a natureza dinâmica e em
constante transformação da educação. Ao reconhecer e abordar esses desafios, os
educadores estarão mais preparados para criar experiências de aprendizagem mais
eficazes e impactantes. Nesse cenário desafiador, a reflexão contínua, o
desenvolvimento profissional e a colaboração entre educadores tornam-se ferramentas
essenciais para enfrentar e superar os desafios do ensino-aprendizagem.
Conforme Silva (2016), no cotidiano do professor emergem contratempos capazes de
interferir tanto na construção do conhecimento quanto no processo de ensino-
aprendizagem. Elementos, como o ambiente físico, o mobiliário, os recursos didáticos, a
disciplina dos alunos, a falta de planejamento e a ausência da participação familiar na
escola, são alguns dos exemplos de fatores presentes nos atuais ambientes escolares
que impõem desafios aos educadores.
Pensar possíveis soluções para esses desafios na atualidade, passa por repensarmos
as próprias concepções de educação, ensino, função da escola e formação docente.
Para Candau (2016), é crucial estar ciente de que os saberes docentes, incluindo
conhecimentos, habilidades, atitudes, entre outros, são construídos de forma plural,
contextualizada e dinâmica. A formação docente deve ocorrer em colaboração entre a
universidade e a escola básica, com ênfase na prática profissional como seu núcleo
central. Ou seja, é necessária uma mudança de perspectiva, no que e como ocorrem e
se efetivam os processos de ensino. Isso envolve desenvolver uma abordagem na qual
o reconhecimento das diferenças que temos, por exemplo, no contexto do Brasil, sejam
vistas como uma vantagem pedagógica, a curiosidade epistemológica, a criatividade, a
interdisciplinaridade, o exercício da cidadania e a construção coletiva se tornem
elementos essenciais, em que todos os cidadãos participem ativamente desse processo
de transformação e mudança educacional:
Não concebemos os professores e professoras como super-heróis ou heroínas,
salvadores da situação nacional, onipotentes, detentores de todos os conhecimentos de
sua área específica e pedagógica, nem como meros executores de currículos pré-
estabelecidos e/ou consumidores de produtos pedagógicos. Acredito em um/a
profissional inquieto/a, atento à realidade do mundo e de seus alunos/as, consciente de
seus limites, colaborativo e capaz de trabalhar em equipe. Em um/a profissional que
estimula a curiosidade epistemológica de seus alunos e alunas e a sua própria,
promove cidadania, amplia horizontes culturais e sociais, com parte saberes, valores e
horizontes de sentido orientados à construção de sociedades justas e
democráticas. (Candau, 2016, p. 19)
Nesse contexto, o papel da didática não é ser apenas um conjunto de técnicas, mas
uma abordagem dinâmica que se adapta às necessidades dos alunos e à evolução
constante da sociedade. A formação docente e a atualização contínua são essenciais
para garantir que os professores estejam preparados com conhecimentos específicos e
técnicos, e com as habilidades pedagógicas necessárias para enfrentar os desafios e
trabalhar em prol de um aprendizado mais significativo.
Em suma, ser professor na atualidade requer adaptabilidade e um compromisso
contínuo com a aprendizagem. A didática torna-se um campo importante do saber,
capacitando os educadores para lidar com esse cenário desafiador.
Vamos Exercitar?
Retomando nossa problematização inicial, uma certa escola enfrenta desafios com a
questão da tecnologia. A partir dos apontamentos levantados durante nossa aula, para
superar alguns dos desafios de aprendizagem na era digital, a referida instituição pode
adotar estratégias que integrem tecnologia e letramento digital nas práticas diárias
desenvolvidas no contexto pedagógico e nas aulas. Para isso, será necessária a
elaboração de um plano de ação, que poderá envolver algumas estratégias, como:
Avaliação de necessidades tecnológicas e dos conhecimentos dos estudantes:
realizar uma avaliação detalhada das necessidades tecnológicas dos alunos,
identificando aqueles que têm acesso limitado à internet e dispositivos adequados.
Avaliar como os professores e estudantes utilizam e entendem as tecnologias
educacionais.
Fornecimento de recursos tecnológicos: implementar iniciativas para garantir que
todos os alunos tenham acesso a dispositivos adequados e conexão à internet, seja por
meio de parcerias com empresas, programas governamentais ou doações.
Capacitação docente: oferecer programas, cursos ou treinamentos de formação
continuada para os professores, focados na utilização eficaz de ferramentas digitais,
mudando os métodos tradicionais para uma abordagem mais digital.
Desenvolvimento de conteúdo adaptativo: criar diferentes conteúdos digitais que
possam ser acessados de maneira flexível e personalizada, considerando o ritmo de
aprendizagem de cada aluno.
Suporte técnico e pedagógico: estabelecer um sistema de suporte técnico para lidar
com questões relacionadas à tecnologia, e também oferecer suporte pedagógico para
professores adaptarem suas práticas ao ambiente digital.
Avaliação contínua e feedback: implementar um sistema de avaliação contínua para
monitorar o progresso dos alunos e identificar áreas que necessitam de ajustes,
incorporando feedback tanto dos estudantes quanto dos professores em relação ao uso
da tecnologia educacional no contexto escolar.
Incentivo à colaboração entre alunos: estimular a colaboração entre os alunos por
meio de plataformas digitais, promovendo a troca de conhecimento e experiências,
diminuindo as discrepâncias no domínio das tecnologias.
Essas são sugestões de estratégias que poderão ser desenvolvidas, porém, é
importante a escola identificar sua realidade e possibilidades, envolvendo toda a
comunidade escolar na discussão sobre o uso das tecnologias educacionais, bem como
considerar o retorno dos professores e alunos sobre as práticas desenvolvidas.
Nossos estudos continuam, aguardo você em breve!
Saiba Mais
Hora de aprofundar e ampliar nosso repertório teórico-prático. Para isso, acesse e leia
as indicações a seguir:
Leia o livro Os sete saberes necessários à educação do futuro. Escrito por Edgar Morin.
Nessa obra, o filósofo destaca aspectos da sociedade atual e aborda como é possível
promover, no ambiente escolar, uma formação mais humanizada, considerando
aspectos humanos, éticos e do pensamento complexo. Sugerimos que você comece
pelos Capítulos III (Ensinar a condição humana) e VII (A ética do gênero humano).
Assista ao documentário A educação e os desafios do nosso tempo, disponibilizado
pela Unowebtv Unochapecó. A produção apresenta questões relacionadas ao constante
processo de transformação do mundo, da sociedade, da tecnologia e como isso afeta a
educação hoje e a afetará no futuro. São apresentados pontos de vista diversos que
contribuem para um debate acerca da educação que temos e da educação que
precisamos.
Bons estudos!
Referências Bibliográficas
CANDAU, V. M. F. Ensinar-aprender: desafios atuais da profissão docente. Revista
Cocar, n. 2, p. 298-318, 2016.
DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir – Relatório para a Unesco da
Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. Disponível em:
[Link]
%[Link]. Acesso em: 12 dez. 2023.
FREITAS, F. M. Transposição didática e o ensino de ciências. Anais... Congresso
Nacional de Educação, Maceió, out. 2020. Disponível em:
[Link]
6_ID3655_01092020134710.pdf. Acesso em: 12 dez. 2023.
IZA, D. F. V. et al. Identidade docente: as várias faces da constituição do ser professor.
Revista Eletrônica de Educação, v. 8, n. 2, p. 273-292, 2014.
MORIN, E. Os setes saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez
Editora, 2014.
POLIDORO, L. de F.; STIGAR, R. A transposição didática: a passagem do saber
científico para o saber escolar. Ciber Teologia Revista de Teologia e Cultura, São
Paulo, Ano VI, n. 27, p. 153-159, 2010.
SILVA, M. J. N. Os desafios da prática docente na atualidade. 2016. 29f. Trabalho de
Conclusão de Curso (Bacharelado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
Natal, 2016. Disponível em: [Link] Acesso em: 1 nov. 2024.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. São Paulo: Vozes, 2014.
XAVIER, L. G. Para além da didática: desafios da escola e do professor do século XXI.
Exedra: Revista Científica, n. 1, p. 36-36, 2015.
Aula 4
Propostas Pedagógicas na Contemporaneidade
Teorias da aprendizagem
A partir dos nossos estudos, podemos perceber que a didática se preocupa com o
ensino e seus desdobramentos. O processo de ensino, por sua vez, visa desenvolver a
aprendizagem, mas o que seria essa aprendizagem? Como aprendemos algo? Refletir
sobre esses aspectos é fundamental para prática docente, uma vez que ensino-
aprendizagem caminham juntos. Ao longo da história, temos diferentes concepções
relacionadas ao processo de aprendizagem e ensino. O ensino, enquanto meio de
transmitir os saberes histórico e socialmente acumulados pela humanidade, apresenta
diferentes dimensões. Nas considerações de Martins (1990), são elementos
constituintes do processo educativo dos sujeitos:
A dimensão histórica, uma vez que ocorre em contextos específicos, em sociedades
que compartilham uma mesma temporalidade.
A dimensão humana, pois centraliza-se na formação integral do indivíduo,
configurando-se como um ser que participa ativamente e se autodetermina socialmente.
A dimensão sociocultural, visto que seu processo educativo, vinculado à socialização,
o integra como membro de uma comunidade e lhe permite assimilar, transmitir e
contribuir para a produção cultural.
O ensino é um processo que mobiliza uma série de capacidades cognitivas, afetivas e
culturais que geram aprendizagem. Aqui, entenderemos aprendizagem como um
processo de alteração de comportamento resultante da experiência, influenciada por
fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais.
Ao incorporar teorias e estudos na didática, os professores conseguem desenvolver
estratégias mais alinhadas aos princípios fundamentais de aprendizagem. A
compreensão de que cada aluno é único e responde de maneira diferente aos
estímulos e desafios permite uma personalização do ensino e experiências mais
significativas. Além disso, as teorias da aprendizagem oferecem fundamentos sólidos
para a concepção de atividades pedagógicas, métodos de avaliação e planejamento de
aulas. O conhecimento das etapas do desenvolvimento cognitivo, por exemplo, pode
orientar o professor na escolha de estratégias que estejam em sintonia com as
capacidades e necessidades específicas de cada fase. No quadro a seguir, vemos
algumas das principais teorias da aprendizagem, seus representantes e a concepção de
aprendizagem.
Teoria Autor Concepção de aprendizagem
A aprendizagem ocorre por meio de
associações entre estímulos e respostas, e
Burrhus
o ambiente externo desempenha um papel
Behaviorismo Frederic Skinner crucial na formação do comportamento.
“Ensino programado”. Temas são exposto
(1904-1990)
um de cada vez, em uma sequência que
impede que o aluno passe a uma etapa
posterior sem ter aprendido a anterior.
E Epistemologia Jean Piaget A aprendizagem é resultado dos processos
cognitivos de assimilação, acomodação e
genética (1886-1986)
equilibração. Os processos pedagógicos
mudam conforme o estágio de
desenvolvimento cognitivo da criança.
Teoria Lev O sujeito é um ser social, e a aprendizagem
SocioculturalS Semenovich decorre dos conhecimentos adquiridos por
Vygotsky meio das trocas do sujeito com o seu meio
( (1896-1917) e por meio da mediação com um sujeito
mais experiente. Linguagem e pensamento
são essenciais para a aprendizagem.
Aprendizagem Jerome O foco do ensino-aprendizagem está no
estudante. O professor apresenta todas as
por Seymour
ferramentas necessárias para que o aluno
descoberta Bruner descubra por si o que deseja aprender.
Valoriza-se a disposição para aprender e a
(1915-1937)
f forma como os conhecimentos se estruturam
(sequência, premiações, punições, etc.).
A aprendizagem envolve a "expansão"
d da estrutura cognitiva, incorporando novas
i ideias. A natureza do relacionamento entre
Aprendizagem David Paul as ideias já presentes na estrutura e
s Significativa a as novas, que estão sendo internalizadas,
Ausubel
d determina o tipo de aprendizado, que pode
(1918-2008) variar de mecânico a significativo. Não é
suficiente ter um material ou uma
aula potencialmente significativa se o
aprendiz não dispõe de ideias específicas
que sirvam como âncora para a assimilação do novo
conteúdo (de acordo com a estratégia
d dos organizadores prévios). Além disso, se o
aprendiz não demonstra um interesse
g genuíno em aprender de forma significativa,
há o risco de que a aprendizagem
ocorra de maneira mecânica.
CCarç Quando A aprendizagem é centrada no desenvolvimento
do do indivíduo e suas potencialidades, é mais
Carl Rogers
eficaz eficaz quando é experiencial, autodirigida e
Teoria (1902-1987)relaci relacionada ao crescimento pessoal.
Humanista Os seres humanos têm uma potencialidade
natural para aprender. Envolve mudanças na
do eu e organização do eu e na percepção de si.
In No processo de ensino, é crucial identificar
a as inteligências mais proeminentes em cada
a luno aluno e buscar explorá-las para alcançar o objetivo
Inteligências Howard Gardner éa final que é a aprendizagem de um conteúdo
múltiplas (1943-atualidade)e específico. As inteligências destacadas pelo
teórico teórico seriam: a lógico matemática, linguística,
es espacial, físico-cinestésica, interpessoal,
Intr intrapessoal, musical, naturalista e existencialista.
Quadro 1 | Síntese das teorias de aprendizagem. Fonte: adaptado de Prass (2012).
As teorias da aprendizagem trazem considerações importantes para pensar os
processos educacionais e podem subsidiar de maneira significativa a prática
desenvolvida pelo professor. Além disso, ao longo da história e desenvolvimento
técnico-científico, podemos observar o surgimento de novas teorias. Um exemplo são
os estudos da neurociência que, desde a década de 1990, têm ampliado o
entendimento sobre o cérebro e os aspectos neurológicos envolvidos no processo de
aprendizagem, como memória, atenção, sensação, percepção, etc.
Desenvolvimento do currículo e planejamento das aulas
Tendo clareza da identidade docente, dos desafios que envolvem ser professor na
atualidade e das teorias de aprendizagem, podemos pensar nas atividades didáticas
que envolvem o trabalho de ensinar, que passa pela apropriação do currículo até o
planejamento das aulas. O currículo, conforme os estudos de Sacristán (2013), foi
inicialmente concebido como os conteúdos regrados que o professor deveria ensinar:
O currículo determina que conteúdos serão abordados e, ao estabelecer níveis e tipos
de exigências para os graus sucessivos, ordena o tempo escolar, proporcionando os
elementos daquilo que entenderemos como desenvolvimento escolar e daquilo em que
consiste o progresso dos sujeitos durante a escolaridade. (Sacristán, 2013, p. 18)
O currículo não é neutro, mas permeado por diferentes perspectivas e concepções de
educação, ensino e sujeito. Desse modo, podemos destacar três tipos de currículo: o
currículo prescrito, o currículo real e o currículo oculto. O currículo prescrito é aquele
indicado por meio de diversas diretrizes curriculares (nacionais, estaduais, de educação
especial, etc.) e consiste em um conjunto de conhecimentos considerados essenciais
pela escola e pelo sistema de ensino para os estudantes em uma disciplina específica
ou em determinado ano escolar.
Já o currículo real trata das leituras e interpretações, percepções que a escola e
professores têm sobre o currículo prescrito. Por fim, o currículo oculto é aquele não
formalmente prescrito pelas diretrizes curriculares, como os conhecimentos adquiridos
fora do ambiente escolar, no convívio familiar e com amigos e experiências no próprio
espaço escolar, como interações nos corredores, a disposição das carteiras e
comportamentos perante professores e colegas, que influenciam o processo de
aprendizagem.
Conforme Veiga (2008), uma aula é mais do que transmitir e receber informações, trata-
se de um sistema complexo de significados e relações e trocas sociais visando a
aprendizagem na qual o professor é o organizador do processo didático. Essa
organização da aula passa pela colaboração, contextualização, coerência com o PPP
(Projeto Político Pedagógico), com o currículo, diversidade, flexibilidade, autonomia,
criatividade e criticidade:
A organização da aula é um projeto de ação imediata, articulado ao projeto pedagógico
do curso; contextualiza e orienta as atividades didáticas de professores e alunos da
disciplina. A organização da aula como projeto é uma antecipação do que se pretende
realizar. Toda organização envolve uma série de indagações que dão origem a seus
elementos estruturantes. Nesse sentido, o professor e seus alunos, para levar a bom
termo a tarefa colaborativa, devem começar por levantar uma série de perguntas, tais
como: Para quê? O quê? Como? Com quê? Como avaliar? Para quem? Quem?
Quando? Onde? (Veiga, 2008, p. 274)
O plano de aula é um documento pedagógico elaborado pelo docente antes da
realização de uma aula específica. Ele descreve de maneira organizada e detalhada os
objetivos da aula, os conteúdos a serem abordados, as estratégias de ensino a serem
utilizadas, os recursos didáticos, tempo, espaços necessários e as atividades
planejadas para promover a aprendizagem dos alunos.
O plano de aula serve como um guia para o professor durante o processo de ensino,
proporcionando uma estrutura clara para o desenvolvimento da aula e facilitando a
avaliação do aprendizado. A seguir, temos a descrição dos principais elementos de um
plano de aula.
Objetivos Intenções, guia para orientar a prática educativa, envolvem
aspectos: cognitivos, afetivos, psicomotores, que se
referem ao tipo de habilidades ou competências que
se espera que o aluno desenvolva.
Conteúdo Conjunto de saberes cuja assimilação e apropriação
pelos alunos é essencial para a formação integral do sujeito.
Métodos Caminho que será trilhado para alcançar os objetivos de
aprendizagem. Deve levar em consideração aspectos
psicológicos, lógicos e educativos e necessidades de
aprendizagem dos alunos.
Recursos didáticos Recursos que servem para enriquecer as atividades, motivar
e dar sentido ao conteúdo. Podem ser escolares
como bibliotecas ou didáticos como imagens,
materiais impressos e tecnológicos.
Avaliação A avaliação da aprendizagem engloba diversos aspectos.
Da prática ao objetivo e ao resultado, a avaliação escolar
desempenha o papel de diagnosticar a situação de
aprendizagem individual de cada aluno. Deve abranger
processos cognitivos e motivar os alunos na resolução de
problemas. Deve ser formativa e contínua.
Quadro 2 | Plano de aula. Fonte: adaptado de Veiga (2008).
Como demonstrado, o plano de aula é essencial na prática docente, sendo um
momento significativo no qual o professor irá elaborar seu processo didático e refletir
sobre como trabalhar determinadas temáticas em sala de aula, considerando as
diferentes abordagens, envolvendo a aprendizagem.
Se a relação professor-aluno-conhecimento deve ser uma relação pessoal, dialógica, e
cognitiva, no sentido de permitir e contribuir para o crescimento e sucesso do aluno
como ser humano, é imprescindível que o professor assuma sua posição como
orientador de seu desenvolvimento. (Veiga, 2008, p. 295)
Outros aspectos que podemos destacar ainda dentro do plano de aula seriam da
organização do tempo destinado às atividades pedagógicas e a própria organização
espacial da sala de aula. Todos esses fatores atuam direta e indiretamente na
aprendizagem dos estudantes e na relação professor-aluno-conhecimento.
Tecnologia na educação
A evolução constante das tecnologias da educação tem promovido transformações
significativas no cenário educacional, com o uso de ferramentas digitais, plataformas
online e recursos interativos. O papel do educador se expande para incorporar essas
inovações no processo de ensino. Ao olharmos para o próprio significado da palavra
tecnologia, veremos que a mesma tem uma multiplicidade de significados. Conforme os
estudos de Chaves (1999), existem diversas perspectivas para conceber a tecnologia.
Para alguns, ela resulta, por exemplo, do conhecimento científico especializado.
Contudo, é mais vantajoso entendê-la de maneira abrangente, considerando-a como
qualquer artefato, método ou técnica desenvolvida pelo ser humano para facilitar suas
tarefas, tornar a locomoção e comunicação mais acessíveis, ou simplesmente aprimorar
a qualidade de vida, tornando-a mais satisfatória, agradável e divertida.
Quando tratamos da tecnologia na educação, nos referimos às tecnologias criadas para
auxiliar o ser humano em suas tarefas que não necessariamente serviam para fins
educacionais, mas que podem ser recursos aliados da prática docente para
aprimoramento da aprendizagem:
A expressão "Tecnologia na Educação" deixa aberta a possibilidade de que tecnologias
que tenham sido inventadas para finalidades totalmente alheias à educação, como é o
caso do computador, possam, eventualmente, ficar tão ligadas a ela que se torna difícil
imaginar como a educação era possível sem elas. A fala humana (conceitual), a escrita,
e, mais recentemente, o livro impresso, também foram inventados, provavelmente, com
propósitos menos nobres do que a educação em vista. Hoje, porém, a educação é
quase inconcebível sem essas tecnologias. (Chaves, 1999, p. 5)
Desse modo, as tecnologias são recursos importantes para potencializar o processo de
aprendizagem e se justificam tanto por questões econômicas e sociais quanto pelo
aspecto pedagógico, em que as tecnologias podem aumentar e enriquecer a
aprendizagem por meio da versatilidade que apresentam.
[…] os processos de aprendizagem foram alvo de profundas alterações nos contextos
onde a tecnologia passou a estar presente colocando, por exemplo, o aluno como
criador de conhecimento através de uma maior autonomia no acesso à informação. As
escolas, os professores e os alunos passaram a ter novas formas de comunicar.
Atualmente, a tecnologia coloca a sala de aula nos mais variados ambientes virtuais e
possibilita que a “escola” possa assumir novas formas e novos espaços. Mas a
integração da tecnologia na educação só será uma realidade se os professores forem
reais atores da mudança e estiverem formados técnica e pedagogicamente. Aliás os
professores são um dos principais fatores de sucesso dos projetos de integração da
tecnologia. (Caetano, 2015, p. 306)
]É importante destacarmos que a tecnologia por si só, não consegue atingir a
aprendizagem plena dos estudantes, para isso, é necessária a mediação do professor.
O professor nesse processo é protagonista com aluno buscando compreender e
conhecer as diferentes tecnologias, promovendo o letramento digital e reconhecendo as
vantagens e desvantagens de cada recurso tecnológico. O uso da tecnologia
educacional deve ser planejado e fazer parte das ações didáticas do docente.
As TDIC (Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação), assim como TIC
(Tecnologias da Informação e Comunicação), estão muito presentes em nosso contexto
social e correspondem a diferentes formas de mídia. A seguir, veremos alguns exemplos
de TDIC aplicadas ao contexto de ensino-aprendizagem.
LMS Plataformas virtuais que podem gerenciar processos de
( (Sistemas de Gestão de aprendizagem online.
Aprendizagem)
Recursos Vídeos educativos, simulações interativas e apresentações
multimídias multimídia.
interativos
Aplicativos para Apresentam uma grande facilidade de acesso a conteúdo
celulares personalizado.
Realidade Virtual Experimentos virtuais, visitas virtuais a locais históricos ou
E Realidade utilização de elementos interativos.
aumentada
Gamificação Introduzir elementos de jogos no processo de
aprendizagem pode motivar os alunos.
Inteligência Sistemas de tutoria virtual e assistentes de aprendizado
Artificial baseados em IA podem oferecer suporte personalizado,
identificando áreas de dificuldade e fornecendo recursos
adicionais.
Quadro 3 | Exemplo de TDIC aplicadas ao contexto educativo. Fonte: elaborado pela
autora.
Ao integrar essas tecnologias de maneira estratégica, os educadores podem criar
ambientes de aprendizado mais dinâmicos, envolventes e adaptados às necessidades
individuais dos alunos. Todavia, é fundamental estar atento a fatores desafiantes, como:
mal uso das tecnologias pelos estudantes (muitos usam e estão acostumados à
tecnologia como entretenimento e não propriamente meio educativo), a falta de
conhecimento sobre as tecnologias por parte dos professores e gestores pedagógicos,
segurança online, custo e aquisição de recursos.
As metodologias ativas, na atualidade, também são importantes e podem mesclar
diferentes recursos tecnológicos com métodos de ensino visando uma aprendizagem
mais criativa, crítica e conectada com a realidade dos estudantes. Aqui estão alguns
exemplos de metodologias ativas:
Aprendizagem baseada em problemas (ABP): os alunos trabalham em grupos para
resolver problemas do mundo real. O foco está na identificação e resolução de desafios,
promovendo a aplicação prática do conhecimento.
Sala de aula invertida: os alunos estudam o conteúdo em casa por meio de materiais
prévios, como vídeos ou leituras, e as aulas são dedicadas a atividades práticas,
discussões e esclarecimento de dúvidas.
Ensino híbrido: combinação de métodos de ensino presenciais e online, aproveitando
recursos digitais para apoiar o aprendizado. Pode incluir aulas presenciais intercaladas
com atividades online.
Design thinking na educação: abordagem que estimula a resolução criativa de
problemas, incentivando os alunos a pensar de maneira inovadora, colaborativa e
centrada no sujeito.
Estudo de caso: análise aprofundada de situações ou problemas específicos,
proporcionando aos alunos a oportunidade de aplicar conceitos teóricos a contextos
práticos.
Em conclusão, as tecnologias da educação são aliadas fundamentais na busca pela
excelência pedagógica. Ao integrar inovações digitais ao ambiente educacional, os
professores não apenas enriquecem suas práticas, mas também respondem às
demandas de uma sociedade em constante transformação. A relevância dessas
tecnologias transcende a mera introdução de ferramentas; trata-se de uma mudança na
didática, oferecendo oportunidades singulares para personalização do aprendizado,
colaboração, criatividade e inovação educacional.
Vamos Exercitar?
Pensando no caso apresentado inicialmente na nossa aula, enfrentar o desafio de
implementar um currículo escolar alinhado às teorias contemporâneas de aprendizagem
e práticas pedagógicas inovadoras passa por realizar uma análise profunda das teorias
como construtivismo, cognitivismo e abordagens socioculturais e da própria inovação
educacional. A diversidade de estilos de aprendizagem deve ser considerada
cuidadosamente, utilizando ferramentas de avaliação diagnósticas e formativas para
identificar as necessidades individuais dos alunos. Estratégias flexíveis e recursos
tecnológicos variados podem ser implementados para atender a essa diversidade,
proporcionando uma experiência educacional mais personalizada.
A capacitação dos professores desempenha um papel crucial na implementação bem-
sucedida de um novo currículo. Treinamento e cursos devem tratar das novas
abordagens pedagógicas e promover a colaboração entre os educadores. A
comunicação transparente e o envolvimento da comunidade são fundamentais.
Compartilhar regularmente os progressos, esclarecer dúvidas e obter apoio da
comunidade são passos essenciais para garantir o sucesso da implementação.
Aguardo você em breve!
Saiba Mais
Estudante, para aprofundar nossos estudos, preparamos algumas indicações:
Leia o artigo Por uma cultura reconstrutiva dos sentidos das tecnologias da educação.
O estudo discute os sentidos das tecnologias na educação a partir de uma perspectiva
mais crítica com o objetivo de compreender a relação entre educação e tecnologia e
seus entrelaçamentos pedagógicos.
Também leia a entrevista do educador José Pacheco sobre ressignificar a escola. Na
entrevista, ele trata das mudanças necessárias para criação de um novo contexto
educacional e a relação entre saberes e práticas.
Bons estudos!
Referências Bibliográficas
CAETANO, L. M. D. Tecnologia e Educação: quais os desafios? Educação UFSM, v.
40, n. 2, p. 295-309, 2015.
CHAVES, E. O. C. Tecnologia na educação. Encyclopaedia of Philosophy of
Education, edited by Paulo Ghirardelli, Jr, and Michal A. Peteres. Published eletronically
at, p. 14, 1999.
HABOWSKI, A. C.; CONTE, E.; TREVISAN, A. L. Por uma cultura reconstrutiva dos
sentidos das tecnologias na educação. Educação & Sociedade, v. 40, p. e0218349,
2019.
MATIAS, L; SALAS, P. José Pacheco: criador da Escola da Ponte reflete sobre como
ressignificar a escola. Nova Escola, São Paulo, 19 jan. 2023. Disponível em:
[Link]
reflete-sobre-como-ressignificar-a-escola. Acesso em: 23 dez. 2023.
PRAS, A. R. Teorias de Aprendizagem. Disponível em:
[Link] Acesso em: 12 dez.
2023.
SACRISTÁN, J. G. Saberes e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre: Penso
Editora, 2013.
VEIGA, I. P. A. Aula: gênese, dimensões, princípios e práticas. Campinas: Papirus
Editora, 2008.
Encerramento da Unidade
DIDÁTICA: TENDÊNCIAS E ABORDAGENS PEDAGÓGICAS
Para desenvolver a competência de caracterizar as teorias pedagógicas utilizadas e
discutidas ao longo da história da educação brasileira, relacionando-as com a prática
pedagógica e intencionalidade da ação docente, ao longo dos nossos estudos,
conversamos sobre os aspectos conceituais que envolvem ensinar e aprender,
principalmente no contexto formal de ensino, ou seja, na escola. A escola é o espaço
onde se concretiza o trabalho docente, onde ocorre a transmissão dos conhecimentos
acumulados historicamente e contribuem para a ciência e desenvolvimento humano.
Mas seu papel e função não se encerra por aí, conforme os estudos de Gadotti (2007,
p. 12):
A escola não é só um lugar para estudar, mas para se encontrar, conversar, confrontar-
se com o outro, discutir, fazer política. Deve gerar insatisfação com o já dito, o já
sabido, o já estabelecido. Só é harmoniosa a escola autoritária. A escola não é só um
espaço físico. É, acima de tudo, um modo de ser, de ver. Ela se define pelas relações
sociais que desenvolve. E, se quiser sobreviver como instituição, precisa buscar o que
é específico dela.
Desse modo, podemos conceber a escola como uma das instituições sociais, permeada
pela diversidade de ideias, culturas, etnias e saberes, que se constituiu histórica e
politicamente em resposta às demandas sociais que surgiram conforme as sociedades
foram se modernizando e se desenvolvendo.
A escola e os processos de ensino-aprendizagem são permeados pelos aspectos
sociais e culturais. É por causa dessa relação que, por exemplo, ao longo dos estudos
sobre educação e processos de ensino, vemos o surgimento de diferentes teorias,
concepções e tendências pedagógicas que surgem em determinados períodos, na
tentativa de examinar, analisar e explicar o fenômeno da educação. Com a
especialização dos saberes em diferentes áreas podemos ver o desenvolvimento da
Pedagogia e, por consequência, da didática, como um dos seus ramos de estudo.
A didática trata-se de uma área vital para o desenvolvimento da prática docente, pois
aborda, entre outros aspectos, as tarefas, saberes, técnicas e a relação professor-
aluno-conhecimento, considerando as marcas da realidade social. Conforme os estudos
de Gasparin (2020), o indicador atual da aprendizagem parte do domínio do conteúdo
em relação às demandas sociais, ou seja, o conhecimento teórico-prático. Essa nova
ênfase nos processos de ensino demanda um novo fazer pedagógico e
consequentemente um repensar da própria didática.
Ao tratar das técnicas de ensino, dos modos pelos quais se operacionaliza essa ação,
bem como das tarefas do professor, a didática nos auxilia a entender diferentes
conjuntos de saberes que os professores precisam deter, entre os quais podemos
destacar o conhecimento sobre o que é e qual é a importância do planejamento.
Identificar as diferentes dimensões do planejamento educacional e a atuação docente
no processo de ensino e de aprendizagem foi um dos outros aspectos que estudamos.
O planejamento desempenha um momento de preparação, análise e construção dos
objetivos, ou seja, no planejamento se materializa a intencionalidade pedagógica do
ensinar, trata-se de um guia para o trabalho que o professor, a escola ou uma nação
desenvolverá pensando na educação. Para Martins (2012, p. 54), quando se trata do
planejamento do professor para uma aula, deve-se levar em consideração os seguintes
aspectos:
A organização das formas e práticas de interação entre professores e alunos inclui o
planejamento cuidadoso da ação da ação docente, ato que envolve os seguintes
elementos didáticos: a definição de objetivos, a seleção e organização dos conteúdos, a
definição do método e a escolha das técnicas, bem como a escolha dos instrumentos e
dos critérios de avaliação.
O planejamento da aula é um dos instrumentos de referência para o professor
desenvolver suas atividades didáticas, mas não é o único. Ao pensar sua aula, o
professor deve levar em consideração o currículo escolar, o planejamento institucional,
as normatizações e orientações advindas das políticas educacionais.
Ao pensar no planejamento, é essencial pensar também na avaliação, pois são elas, no
contexto interno ou externo, que trazem apontamentos significativos para pensar e
avaliar como os objetivos traçados foram ou não atendidos e se precisam ser alterados
nesse processo. Essa avaliação não deve ser apenas pontual e somativa, mas
processual e contínua de modo a realimentar o processo educacional desenvolvido e
fornecer diferentes níveis de diagnóstico do desenvolvimento da aprendizagem dos
estudantes.
A prática da avaliação da aprendizagem, para manifestar-se como tal, deve apontar
para a busca do melhor de todos os educandos, por isso é diagnóstica, e não voltada
para a seleção de uns poucos, como se comportam os exames. Por si, a avaliação,
como dissemos, é inclusiva e, por isso mesmo, democrática e amorosa. Por ela, por
onde quer que se passe, não há exclusão, mas sim diagnóstico e construção. Não há
submissão, mas sim liberdade. Não há medo, mas sim espontaneidade e busca. Não
há chegada definitiva, mas sim travessia permanente, em busca do melhor. Sempre!
(Luckesi, 2000, p. 7)
No processo avaliativo contínuo e formativo, o erro, mais do que uma falha, é um indício
para o professor e o estudante do que pode ser melhorado e aperfeiçoado. Desse
modo, deve ser sempre considerado como parte do processo de aprender. Outro ponto
que merece destaque quando falamos da avaliação é a escolha adequada dos
instrumentos avaliativos, tendo clareza da concepção pedagógica, características e
função desses instrumentos.
Dentro de um processo de escolarização, é importante o professor variar as formas de
avaliação e os instrumentos, de modo a tornar esse processo avaliativo como parte da
prática docente e não apenas como o resultado final que gera uma nota específica ou
um indicador de aprovação ou reprovação.
Mas para que, de fato, exista uma mudança na prática pedagógica, no planejamento,
nas concepções de ensino, precisamos também olhar cuidadosamente para formação
do professor. Encontrar elementos comuns e distintos entre a formação inicial e
continuada dos docentes, considerando os desafios em relação à didática e práticas de
ensino é mais uma das competências que trabalhamos em nossas aulas. A formação
inicial refere-se àquela em que se adquire os conhecimentos teóricos e técnicos
relacionados a um campo do saber a ser ensinado, geralmente é ofertada pelas
instituições de Ensino Superior. Junto a ela, temos o papel da formação continuada, que
pode ocorrer tanto nos espaços formais, como instituições de ensino superior, quanto
na escola, em palestras, treinamento, cursos ou eventos variados.
A profissão de professor é marcada pelo conhecimento, em constante mutação e
transformação, por isso, a atualização e a aprendizagem para os docentes é algo que o
acompanhará durante toda a sua trajetória profissional. Conforme os estudos de Paulo
Freire (1991), ninguém nasce educador, forma-se como educador, diariamente, na
prática e na reflexão sobre ela. A responsabilidade por essa formação é do professor,
mas também das instituições, da sociedade e do governo. Trata-se de um trabalho
coletivo, em prol de uma educação de qualidade para todos.
O estudo da didática proporciona uma abordagem abrangente sobre a formação do
professor, destacando a relevância intrínseca de pilares fundamentais, como: formação
docente, processo ensino-aprendizagem e planejamento. Aprofundando-se nas
nuances da prática educacional, a unidade enfatizou a importância de um professor
bem preparado para lidar com os desafios contemporâneos da sala de aula.
Compreender os princípios da formação do professor tornou-se essencial para
promover ambientes de aprendizagem eficazes. O domínio do processo de ensino-
aprendizagem permite aos educadores uma visão integral das dinâmicas educacionais,
estimulando a implementação de estratégias pedagógicas mais eficazes. Por fim, o
planejamento pedagógico é uma ferramenta indispensável, capacitando os educadores
a organizarem suas práticas de maneira estruturada e adaptável. Nesse contexto,
nossos estudos reforçam o valor inestimável desses saberes na formação de um
professor competente e comprometido.
Encorajamos você a prosseguir em sua jornada acadêmica, consciente de que cada
conhecimento adquirido contribui não apenas para o crescimento individual, mas
também para a transformação positiva da sociedade.
Até breve!
Reflita
Considerando o papel essencial do planejamento educacional, como você, enquanto
professor, pode integrar diferentes estratégias didáticas em seu planejamento,
visando atender às necessidades de aprendizagem dos estudantes e promover uma
educação mais significativa no contexto contemporâneo? Quais as contribuições que o
estudo sistematizado da didática pode trazer para os docentes?
Quais são as técnicas, abordagens metodológicas, concepções de ensino que
a didática estuda e que podem servir de base para a prática
docente em sala de aula?
É Hora de Praticar!
Uma determinada escola criou um programa de formação continuada em inovação
educacional para seus professores e, por meio dos encontros do programa, a
coordenação pedagógica identificou a necessidade de aprimorar as estratégias
pedagógicas, buscando preparar melhor os educadores para o uso de novas
estratégias e abordagens didáticas que dialoguem com o contexto dos alunos. Durante
os encontros, os professores relataram que enfrentavam dificuldades em conectar teoria
e prática, e a falta de experiência com novas metodologias de ensino trazia insegurança
para a prática em sala de aula. Questionamentos surgiram ao final do programa e foram
registrados pela coordenação da escola para pensar em possíveis soluções: quais
estratégias utilizar? Como adequá-las ao tempo, estrutura e contexto que vivenciamos
aqui na escola? Como envolver mais os estudantes nesse processo?
Reflita
Como você responderia a esses questionamentos?
Resolução do estudo de caso
Diante do cenário apresentado anteriormente, uma das soluções possíveis seria a
reformulação do currículo, integrando novas abordagens didáticas gradativamente,
aplicando-as primeiramente no processo de formação de professores e, depois, na
aplicação em sala de aula.
Para essa aplicação, pode-se optar por um projeto interdisciplinar no qual algumas das
estratégias apreendidas pelos professores fossem utilizadas. Junto à implementação
dessas práticas, é essencial incorporar reflexões contínuas sobre as vantagens e
desvantagens, resultados e impacto no processo de ensino e aprendizagem e na
própria formação do docente. Após a implementação e avaliação dos resultados obtidos
com essa estratégia, pode-se tirar pequenas lições junto aos professores:
A didática na formação de professores vai além da teoria, requerendo a integração de
experiências práticas.
São importantes mentorias e supervisões durante a formação para orientar e apoiar os
professores em desenvolvimento.
A reflexão contínua sobre a prática pedagógica é fundamental para o crescimento
profissional.
Cabe destacar que essa é uma das estratégias, mas, pensando na realidade escolar
brasileira que é marcada pela diversidade, é importante uma análise cuidadosa da
realidade escolar e dos conhecimentos dos docentes. Este estudo de caso ressalta a
importância crucial da didática na formação de professores, evidenciando como a
integração de abordagens práticas e reflexivas pode preparar educadores mais
competentes e confiantes. A implementação dessas mudanças não apenas pode
enriquecer a formação dos professores, como também contribuir para o aprimoramento
da qualidade da educação.
Referências
FREIRE, P. A educação na cidade. São Paulo: Cortez, 1991.
GADOTTI, M. A escola e o professor: Paulo Freire e a paixão de ensinar. Maringá:
Publisher Brasil, 2007.
GASPARIN, J. L. Uma didática para a pedagogia histórico-crítica. Campinas:
Autores Associados, 2020.
LUCKESI, C. C. O que é mesmo o ato de avaliar a aprendizagem. Revista Pátio, v. 12,
p. 1-7, 2000. Disponível em:
[Link] Acesso em: 18 jan.
2024.
MARTINS, P. L. O. Didática. Curitiba: InterSaberes, 2012.