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Avanço das Escolas Cívico-Militares em SC

O trabalho analisa o avanço das escolas cívico-militares em Santa Catarina, focando na implementação do Programa das Escolas Cívico-Militares (PECIM) e sua persistência mesmo após a revogação do decreto federal. A pesquisa, fundamentada em autores relevantes, revela que 21 escolas aderiram ao programa, evidenciando um processo de militarização da educação que se alinha a uma agenda conservadora. Os resultados indicam a continuidade da militarização, com implicações significativas para o currículo escolar e a vida dos estudantes.
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Avanço das Escolas Cívico-Militares em SC

O trabalho analisa o avanço das escolas cívico-militares em Santa Catarina, focando na implementação do Programa das Escolas Cívico-Militares (PECIM) e sua persistência mesmo após a revogação do decreto federal. A pesquisa, fundamentada em autores relevantes, revela que 21 escolas aderiram ao programa, evidenciando um processo de militarização da educação que se alinha a uma agenda conservadora. Os resultados indicam a continuidade da militarização, com implicações significativas para o currículo escolar e a vida dos estudantes.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO - CED


DEPARTAMENTO DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS EM EDUCAÇÃO - EED
CURSO CIÊNCIAS BIOLÓGICAS

Thomas Antonio Campos Correia

O avanço das escolas cívico-militares em SC

Florianópolis
2024
Thomas Antonio Campos Correia

O avanço das escolas cívico-militares em SC

Trabalho de Conclusão de Curso submetido ao


curso de Ciências Biológicas do Centro ou
Campus Ciências Biológicas da Universidade
Federal de Santa Catarina como requisito parcial
para a obtenção do título de Grau Licenciado em
Ciências Biológicas .

Orientador(a): Prof.(a) Graziella Souza dos Santos

Florianópolis
2024
Thomas Antonio Campos Correia

O processo de militarização da educação em Santa Catarina

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado para obtenção do título de
Licenciado e aprovado em sua forma final pelo Curso Ciências Biológicas

Local: Auditório do CCB, 16 de Julho de 2024.

___________________________
Prof.ᵃ Dra. Daniela Cristina de Ton
Coordenadora do Curso
Banca examinadora

____________________________
Prof.ᵃ Dra Graziella Souza dos Santos
Orientadora
Universidade Federal de Santa Catarina

Prof.ᵃ Dr.Jéferson Silveira Dantas


Universidade Federal de Santa Catarina

[Link] Souza Neto


Universidade Federal de Santa Catarina

Florianópolis , 2024.
AGRADECIMENTOS

No decorrer do desenvolvimento deste trabalho de conclusão de curso, contei


com a ajuda de diversas pessoas. Gostaria de agradecer aos meus pais, Ilva
Aparecida Campos e Gilberto da Silva Correia, por terem sido meu apoio desde o
início dos meus sonhos, sempre acreditando em mim, me apoiando e me
incentivando. Foram de suporte fundamental; tenho muito orgulho de chamá-los de
meus pais. Graças a isso, tive a oportunidade de ter uma formação gratuita e de
qualidade em uma das melhores instituições do país.
Agradeço principalmente à minha orientadora, a professora Dra. Graziella,
que me auxiliou em todo o meu percurso de escrita e projeto de TCC, sendo uma
orientadora presente. Graças à sua dedicação, ajudei a superar diversas barreiras e
dificuldades. Sua paciência foi fundamental, e você se tornou minha maior referência
como pesquisadora e orientadora. Agradeço também ao meu grupo de trabalho de
pesquisa sobre o currículo, em conjunto com a professora Graziella, e ao Iago, que
me ajudou diversas vezes no caminho e sempre se mostrou uma pessoa presente.
A todas as pessoas que contribuíram para o meu trabalho, sou grato por todas as
orientações e suporte.
Agradeço também a todos os meus amigos e à minha família RepChull.
Mesmo brigando e se matando, sempre nos amando na alegria, na tristeza, nos
lutos, nas festas e nos trabalhos, no final do dia a gente sempre sabia que iríamos
nos resolver: Ana Júlia, Eneli, João, Luísa, Pet, Marco, Victoria Renata, Gaba, Julia
(Penso), Thiago e Maré. Estiveram ao meu lado durante esses seis anos de
graduação, me apoiando, me amando e ajudando-me a crescer e evoluir, tanto como
pessoa quanto como profissional. Vocês me fizeram uma pessoa melhor. Amo muito
vocês. Vocês fizeram a minha graduação ser mais leve e feliz. Pertencer a um grupo
de pessoas tão maravilhosas e amigas como vocês é uma sorte para poucos.
Obrigado por terem sido meu primeiro grupo de amigos e por me ensinarem tanto.
Vou levar vocês para sempre no meu coração.
Queria agradecer à importância de ter feito o PIBIC durante a minha trajetória
de pesquisador na UFSC. Se não fosse por ele, não teria tido a chance de conhecer
a professora Graziella e o meu grupo de pesquisa.
Por fim, agradeço a existência do ensino público. Mesmo com baixos
recursos e enfrentando diversos ataques e processos de sucateamento,
proporcionou-me um ensino de qualidade. E, claro, a todos os meus professores que
tive durante a minha graduação, que incentivaram e ensinaram com tanto amor e
carinho, mesmo com recursos limitados.
RESUMO

Neste trabalho, analisamos o avanço das escolas cívico-militares em SC,com foco


na implementação do Programa das Escolas Cívico-Militares (PECIM). Examinamos
a ideologia subjacente à militarização da educação e analisamos a persistência
desse modelo, mesmo após a revogação do decreto federal que extinguiu o
programa das escolas PECIM. Nosso embasamento teórico inclui autores como
Salomão Barros Ximenes, Miriam Fábia Alves e Catarina de Almeida Santos para
compreender a militarização, enquanto Juarez da Silva Thiessen, Michael W. Apple,
Antonio Flávio Barbosa Moreira e Tomaz Tadeu da Silva contribuem para analisar
seu impacto direto no currículo escolar. Nosso objetivo primordial é analisar como
vem avançando o projeto de militarização da educação em SC, especialmente, a
partir do PECIM (PECIM) no contexto educacional de Santa Catarina. Como
objetivos específicos, buscamos identificar processos e a quantidade de escolas que
aderiram ao programa, bem como a influência do currículo nessas escolas a partir
do documento norteador "Diretrizes das Escolas Cívico-Militares". Buscamos
compreender as razões, influências e decisões que conduziram à manutenção
desse programa, bem como seu impacto na educação. Adotamos uma abordagem
metodológica qualitativa, envolvendo análise de documentos e questionário com
uma gestora do sistema educacional estadual. Nossos resultados apontaram para
um avanço no processo de militarização, mesmo após a revogação do PECIM,
evidenciando a continuidade do processo de militarização O projeto de militarização
teve uma crescente após o início do programa, expandindo-se por grande parte do
território catarinense. Na consulta do nosso trabalho, identificamos a adesão ao
programa por parte de 21 escolas, sendo 9 estaduais e 12 municipais. Devido à
limitação de tempo, focamos nas escolas da rede estadual, sobre as quais
obtivemos informações por meio da Secretaria Estadual de Educação de SC, e
analisamos a partir de portais de notícias para verificar se as informações eram
consistentes. Identificamos que os documentos orientadores do programa
claramente se propõem a disputar o currículo escolar, tanto o currículo oficial, ou
prescrito, e especialmente o currículo oculto. Essas disposições ficam explicitadas
na indicação da proposição de projetos educativos a serem incorporados pelas
escolas, que objetivam a transmissão de conhecimentos, princípios e valores
relacionados ao militarismo, que, em nossa análise, atendem a um projeto
conservador de sociedade . Os dados obtidos indicam claramente que Santa
Catarina está comprometida com a continuação das ECIMs, mantendo-as com
recursos financeiros próprios. Infelizmente, o formato militarizado possui raízes
profundas principalmente associado a uma agenda conservadora. Resta seguirmos
investigando as possíveis consequências deste modelo de escola na vida dos
nossos estudantes e buscarmos formas de interromper este avanço.

PALAVRAS CHAVES : Militarização Educação, Pecim, Currículo Escolar, Escolas


cívico-militares.
ABSTRACT

In this study, we analyze the progress of the militarization process in public schools in
Santa Catarina, focusing on the implementation of the Civic-Military Schools Program
(PECIM). We examine the ideology underlying the militarization of education and
analyze the persistence of this model even after the federal decree that extinguished
the PECIM program was revoked. Our theoretical framework includes authors such
as Salomão Barros Ximenes, Miriam Fábia Alves, and Catarina de Almeida Santos
to understand militarization, while Juarez da Silva Thiessen, Michael W. Apple,
Antonio Flávio Barbosa Moreira, and Tomaz Tadeu da Silva contribute to analyzing
its direct impact on the school curriculum. Our primary objective is to analyze the
advancement of the militarization project in Santa Catarina's education system,
particularly through PECIM. Specific objectives include identifying the processes and
number of schools that joined the program, as well as the influence of the curriculum
in these schools based on the guiding document "Guidelines for Civic-Military
Schools". We seek to understand the reasons, influences, and decisions that led to
the maintenance of this program and its impact on education. We adopt a qualitative
methodological approach, involving document analysis and a questionnaire with an
educational system manager. Our results indicate an advance in the militarization
process, even after PECIM was revoked, highlighting the continuity of this process.
The militarization project expanded significantly after the program's inception,
spreading across much of Santa Catarina. Our research found that 21 schools
adhered to the program, with 9 being state schools and 12 municipal. Due to time
constraints, we focused on state schools, obtaining information through the Santa
Catarina State Department of Education and news portals to verify the consistency of
the information. We identified that the program's guiding documents clearly aim to
influence the school curriculum, both the official, prescribed curriculum, and
especially the hidden curriculum. These provisions are explicit in the proposed
educational projects to be incorporated by schools, aiming at transmitting knowledge,
principles, and values related to militarism, which, in our analysis, align with a
conservative societal project. The data clearly indicate that Santa Catarina is
committed to continuing the civic-military schools, maintaining them with its own
financial resources. Unfortunately, the militarized format has deep roots, primarily
associated with a conservative agenda. Further investigation is needed to
understand the potential consequences of this school model on our students' lives
and to find ways to interrupt this advancement.

keywords: Militarization of Education, PECIM, School Curriculum, Civic-Military


Schools
LISTA DE FIGURAS

Figura 01 - Remuneração mensal dos militares atuam no PECIM.......................................... 42


Figura 02 - Orçamento Anual PECIM...................................................................................... 42
Figura 03 - Organograma de funcionamento das Escolas Cívico-Militares............................. 55
LISTA DE TABELAS

Tabela 01 - Trabalhos selecionados para revisão literária........................................................17


Tabela 02 - Escolas Cívico-Militares (PECIM) EM Santa Catarina.......................................48
Tabela 03 - Escolas Estaduais aderiram ao Pecim................................................................... 50
Tabela 04 - Análise das Alterações no Currículo prescrito e Oculto na análise do documento
“'Diretrizes das Escolas Cívico-Militares 2ª ed”...................................................................... 66
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BNCC - Base Nacional Comum Curricular
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do
Ministério da Educação
CREAD - Curso Regular de Educação a Distância
DEPA - Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial
ECIM - Escolas Cívico-Militares
ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio
IDEB - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
IGPM - Inspetoria Geral das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros
LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
MEC - Ministério da Educação
PECIM - Programa Escolas Cívico-Militares
PM - Polícia Militar
PMSC - Polícia Militar de Santa Catarina
PPP - Proposta Político Pedagógica
SC - Santa Catarina
SEB - Secretaria de Educação Básica
SEED/SED - Secretaria de Estado da Educação
UDESC - Universidade Estadual de Santa Catarina
UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina
UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina
UNIVALI - Universidade do Vale do Itajaí
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................12
2 REVISÃO DE LITERATURA............................................................................................15
3 METODOLOGIA.................................................................................................................. 20
4 REFERENCIAL TEÓRICO..............................................................................................22
4.1 CORRELAÇÃO ENTRE CONSERVADORISMO E MILITARIZAÇÃO DA
EDUCAÇÃO............................................................................................................................ 22
4.2 MILITARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO............................................................................... 24
4.3 O CURRÍCULO OFICIAL E OCULTO EM DISPUTA NOS PROJETOS DE
MILITARIZAÇÃO................................................................................................................... 31
5 OS DIVERSOS FORMATOS DA MILITARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL:
COLÉGIOS MILITARES, MILITARIZADOS E PECIM.................................................36
5.1 COLÉGIOS MILITARES: O QUE SÃO ?.........................................................................37
5.2 ESCOLAS MILITARIZADAS: O QUE SÃO ?................................................................38
5.3 O PROGRAMA DAS ESCOLAS CÍVICO-MILITARES: O PECIM.............................. 40
5.3.2 NOVOS RUMOS NO GOVERNO LULA......................................................................44
6 ANÁLISE DOS DADOS......................................................................................................47
6.1 O AVANÇO DA MILITARIZAÇÃO EM SC....................................................................48
6.2 CURRÍCULO......................................................................................................................61
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. 67
REFERÊNCIAS...................................................................................................................... 70
APÊNDICES............................................................................................................................77
12

1 INTRODUÇÃO

Com o avanço do movimento neoconservador no cenário político brasileiro


nos últimos anos, houve um grande crescimento no processo de militarização das
escolas públicas no Brasil (Souza, 2021). O processo de militarização atingiu nesse
contexto outro patamar durante o governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro,
que instituiu como uma de suas principais políticas educacionais o Programa das
Escolas Cívico-Militares (PECIM).
Durante as alterações do Ministério da Educação (MEC) no início do
governo de Jair Messias Bolsonaro em 2019, uma mudança significativa foi a
criação de uma secretaria específica para tratar da militarização da educação. Tal
alteração se deu por meio do decreto Nº 9.465, de 2 de janeiro de 2019, que
estabeleceu:
Promover, fomentar, acompanhar e avaliar, por meio de parcerias, a adoção
por adesão do modelo de escolas cívico-militares nos sistemas de ensino
municipais, estaduais e distrital tendo como base a gestão administrativa,
educacional e didático-pedagógica adotada por colégios militares do
Exército, Polícias e Bombeiros Militares (Brasil, 2019).

Foi no contexto de criação dessa secretaria que foi instituído o Programa


das Escolas Cívico-Militares, o PECIM. O Programa Escola Cívico-Militares
(PECIM), criado por meio do Decreto Nº 10.004/2019, previa uma parceria do
Ministério da Educação com o Ministério da Defesa, para a transformação de
escolas públicas em escolas militarizadas. O objetivo, segundo o decreto, era criar
um novo modelo de gestão compartilhada das escolas com participação dos
militares na reserva. O argumento apresentado pelo programa é de que o mesmo
“[...] visa melhorar a educação básica pública brasileira, sob forte influência do alto
nível dos colégios militares do exército, das polícias e dos corpos dos bombeiros”
(Brasil, 2019).
No entanto, de acordo com seus proponentes, as escolas cívico-militares,
buscariam garantir uma escola com uma gestão participativa e democrática,
comparada às escolas militares, que têm uma abordagem mais rígida e autoritária
em sua gestão. De acordo com os documentos, o PECIM surge como uma iniciativa
que busca conciliar hierarquização militar com a participação democrática da
13

comunidade escolar, oferecendo um programa de gestão compartilhada,


incrementando um novo modelo de gestão.
É comum haver muitas dúvidas e confusões envolvendo a forma de
organização dessas escolas, uma vez que o programa federal surge em 2019 ao
mesmo tempo em que há outros formatos de militarização da educação já em curso
em diversos estados do Brasil. Além de compreendermos que existem diferentes
formatos de escolas militarizadas, outro esclarecimento importante a ser feito diz
respeito à distinção entre Colégios militares, PECIM e escolas militarizadas. Essas
diferenças serão abordadas nos próximos tópicos deste estudo, onde discutiremos
os diversos formatos dessas instituições.
O avanço da militarização da educação caminha lado a lado com o avanço
do conservadorismo em vários âmbitos, conforme diversos autores e autoras têm
apontado Santos (2020), Lima; Golbspan; Santos (2022), Martins (2019). Este
cenário é bastante preocupante, uma vez que o projeto conservador se contrapõe
aos princípios da gestão democrática, previstos tanto na Constituição Federal,
quanto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Os projetos de militarização
preveem um controle sobre os corpos e diversidades, centralizando a gestão, o que
é contrário à gestão democrática e ao ideal de uma escola diversa e plural para
todos e todas. É um risco muito grande para diversas formas de existência, para
autonomia das escolas e para a garantia do pluralismo de ideias, pressupostos
fundamentais à democracia. Assim, justifica-se a relevância de continuar
investigando o impacto deste projeto, sobretudo no âmbito dos estados e
municípios, uma vez que a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições não encerra o
avanço da militarização da educação e das pautas conservadoras.
É crucial mencionar que o PECIM foi extinto pelo Decreto nº 11.611, no ano
de 2023. Entretanto, os efeitos e as consequências persistem. É importante
destacar que a extinção do programa em nível federal, pelo governo Lula,
desencadeou uma corrida por parte dos estados e municípios para estabelecerem
programas próprios, visando manter ou expandir a militarização das escolas. Esse
fenômeno aponta para um profundo enraizamento dos princípios do programa,
justificando assim a continuidade dos estudos sobre essa temática
Santa Catarina está entre os estados que acolheram o projeto nacional
PECIM e, imediatamente após o anúncio de seu encerramento, começou a se
14

mobilizar para a construção de um programa estadual, previsto para ser lançado


ainda em 2024, conforme relatado pela gestora entrevistada nesta pesquisa. É
importante, portanto, acompanhar a continuidade dos estudos sobre essa temática,
observando como o processo de militarização nas escolas está se desenvolvendo e
quais são seus efeitos nos currículos escolares.
O objetivo geral desta análise é entender como está transcorrendo o processo
de militarização das escolas no estado de Santa Catarina a partir da inserção do
programa das Escolas Cívico-Militares (PECIM). Para alcançar esse objetivo,
busca-se mapear quantitativamente quantas escolas públicas aderiram ao PECIM e
a outras iniciativas locais de militarização, documentar como funcionam as escolas
que aderiram ao PECIM em Santa Catarina, investigar os critérios utilizados para
selecionar as escolas que aderem ao programa Escolas Cívico-Militares e como é
feita a implementação do programa, além de analisar, no âmbito dos documentos
orientadores do PECIM, as disputas e tensões que surgem em relação aos
currículos escolares.
15

2 REVISÃO DE LITERATURA

Nesta seção, abordaremos uma revisão de literatura de pesquisas


acadêmicas associadas e próximas à nossa temática de pesquisa. Buscamos
verificar quais pesquisas foram realizadas, os temas propostos e os principais
autores da área, com o objetivo principal de focar nas escolas militarizadas e
colégios cívico-militares (ECIM), investigando como esse processo está ocorrendo
no Brasil, na região sul e, por fim, em Santa Catarina. Estabelecemos, assim, uma
conexão com o nosso tema de pesquisa, utilizando essas fontes como base para
explorar novas áreas de interesse.
Iniciamos a nossa pesquisa de revisão de literatura utilizando três
plataformas de pesquisa em Português: Google Acadêmico, SciELO e Banco de
Teses e Dissertações da CAPES em nível nacional. Além disso, consultamos as
bibliotecas das principais faculdades do estado de Santa Catarina, incluindo UFSC,
UDESC, UNIVALI e UNISUL, no período de 10 a 15 de maio de 2023.
Ao utilizar as plataformas, catalogamos todos os trabalhos de pesquisa
acadêmica encontrados no período de 2019 1até maio de 2023, utilizando as
palavras-chave: "Militarização das Escolas Públicas" e "Santa Catarina",
"Militarização das Escolas Públicas" e "Currículo", "Militarização das Escolas
Públicas" e "Currículo Escolar", "PECIM" e "Santa Catarina", "PECIM" e "Currículo",
"PECIM" e "Currículo Escolar", "Colégios Militares" e "Santa Catarina", "Colégios
Militares" e "Currículo", "Colégios Militares" e "Currículo Escolar". Essas
palavras-chave foram utilizadas em conjunto com o termo booleano “AND”. Os
termos booleanos referem-se a siglas utilizadas para combinar ou refinar os
resultados da pesquisa bibliográfica, permitindo-nos realizar buscas mais precisas e
eficazes durante nossa revisão literária em bases de dados acadêmicas, sites e
bibliotecas. Os principais termos usados são "AND" (e), que combina
palavras-chave, retornando resultados que contenham as palavras-chave
especificadas, mencionando as palavras-chave utilizadas; "OR" (ou), usado para
ampliar a busca, buscando trabalhos que contenham pelo menos uma das
palavras-chave específicas relacionadas a uma das palavras; e "NOT" (não), usado

1
Início da vigência do PECIM.
16

para excluir termos indesejados dos resultados que contenham a palavra-chave


desejada e termos não desejados (Picalho; Lucas; Amorim, 2022).
A plataforma com maior abundância de trabalhos acadêmicos encontrados
foi o Google Acadêmico. Nela encontramos aproximadamente 38 trabalhos
acadêmicos relevantes para a nossa pesquisa. Dentre esses trabalhos, encontramos
27 artigos, 7 dissertações e 2 dossiês, o 1º com 22 artigos e o 2º com 12 artigos.
Já nas plataformas SciELO e Banco de Teses e Dissertações da CAPES,
encontramos pouco material ou quase nada relacionado às palavras-chave
utilizadas. Portanto, o Google Acadêmico se mostrou a fonte mais produtiva para
encontrar os estudos relevantes para a nossa revisão literária.
É importante ressaltar a utilização de um dossiê como base para esta
revisão de literatura, publicado pela Revista Brasileira de Política e Administração da
Educação, organizado por Catarina de Almeida Santos, Miriam Fábia Alves, Marcelo
Mocarzel e Sabrina Moehlecke. O dossiê possui o título "Militarização das escolas
públicas no Brasil: um debate necessário". Como mencionado, durante a revisão de
literatura foram encontrados 38 trabalhos relevantes, que após um segundo
refinamento e direcionamento para o tema principal do trabalho reduzimos a 16
trabalhos acadêmicos: sendo 10 artigos, 4 dissertações e 2 dossiês (um com 23 e o
outro com 12 artigos ), chegando em um total 7 de trabalhos selecionados.
O critério utilizado para selecionar os trabalhos da nossa área de interesse
foi: abordar a temática do currículo escolar e abordar como está transcorrendo o
processo de militarização em escolas públicas de diferentes regiões. Foram
descartados trabalhos que não possuíam relação com o objetivo desta pesquisa,
trabalhos anteriores ao período da busca e trabalhos indisponíveis na íntegra.
No entanto, é importante observar que nenhum desses trabalhos
encontrados discute especificamente o currículo desses colégios, ou seja, o
conteúdo selecionado e ensinado aos alunos, ou a influência que o processo de
militarização vem trazendo para o campo do currículo. Essa lacuna na pesquisa
indica que há uma falta de investigação sobre o currículo em si em colégios militares
e ECIMs. É fundamental reconhecer que o currículo é uma arena de disputa política,
onde ocorre um processo de tomada de decisões sobre o que será ensinado, como
será ensinado e quais são os interesses e dinâmicas de ensino envolvidos visando a
construção dos sujeitos e de uma dada sociedade. Autores como Apple (2006), por
17

exemplo, trabalham nessa perspectiva, analisando as questões políticas e


ideológicas. Por essa razão, é necessário um maior enfoque na investigação do
currículo desses colégios. Assim, essa relação entre militarização e currículo escolar
é uma área a ser explorada, a qual será um dos eixos da nossa pesquisa, além de
saber como está se dando o processo de militarização no estado de Santa Catarina.
Na tabela a seguir, apresentamos os trabalhos selecionados para revisão de
literatura e posteriormente uma breve síntese dos principais achados.

Tabela 01 - Trabalhos selecionados para revisão literária

nº Título Autor(a) Ano Tipo de Local de


Publicaçã Publicação
o

01 militarização da SANTOS, EDUARDO JUNIO 2022 artigo políticas


educação pública no FERREIRA; públicas,
brasil em 2019: análise avaliação e
do cenário nacional ALVES, MIRIAM FÁBIA ALVES gestão

02 militarização das OLIOSE, IVAN CARDOSO; 2023 artigo revista retratos


escolas públicas no OLIVEIRA, EDNA CASTRO DE da escola,
espírito santo brasília

03 a (des)continuidade das CAVALCANTI,SILVIA DIENER; 2023 artigo boletim de


escolas-cívico militares SCHLÜNZEN, ELISA TOMOE conjuntura
após as eleições de MORIYA; JUNIO, KLAUS (boca)
2022 SCHLÜNZEN

04 militarização escolar em SARAIVA,ANA MARIA; SILVA, 2023 artigo revista retratos


minas gerais: tensões e ANALISE DE JESUS DA da escola,
retrocessos na relação brasília
entre educação e
juventudes

05 o avanço da NASCIMENTO, MARIA 2021 artigo revistas uneb


militarização nas AMÉLIA SILVA; MOREIRA,
escolas públicas JAILMA DOS SANTOS
brasileiras PEDREIRA
autoritarismo e
silenciamento x
democracia e reflexão

06 militarização das REVISTA BRASILEIRA DE 2019 dossiê revista


escolas públicas no POLÍTICA E ADMINISTRAÇÃO brasileira de
brasil: um debate DA EDUCAÇÃO política e
necessário administração
da educação

07 militarização de escolas VEIGA, CARLOS HENRIQUE 2020 dissertaç universidade


públicas no contexto da AVELINO ão federal rural do
reforma gerencial do rio de janeiro
estado instituto de
18

nº Título Autor(a) Ano Tipo de Local de


Publicaçã Publicação
o

educação/
instituto
multidisciplinar
programa de
pós-graduação
em educação,
contextos
contemporâneo
s e demandas
populares
Fonte: Tabela feita pelo autor(2023).

A militarização das escolas no Brasil tem sido mais amplamente discutida,


abrangendo diferentes regiões e contextos a partir do ano de 2019 justamente
devido a inserção do PECIM em âmbito nacional. Após a leitura dos trabalhos
selecionados na revisão de literatura, destacamos algumas considerações
importantes.
Santos e Alves (2022) realizaram um levantamento das escolas militares e
militarizadas, fornecendo dados quantitativos sobre sua quantidade. Segundo o
levantamento realizado pelos autores até dezembro de 2019 o Brasil possuía 155
escolas estaduais militarizadas e 85 escolas municipais militarizadas, somando ao
total 240 escolas militarizadas.

Das 240 escolas públicas militarizadas, temos 79 (32,92%) na Bahia, 67


(27,92%) em Goiás, 18 (7,5%) em Roraima, 14 (5,83%) no Maranhão, 13
(5,42%) no Amazonas, 12 (5%) no Tocantins, 10 (4,17%) no Distrito Federal,
8 (3,33%) no Mato Grosso, 7 (2,92%) em Rondônia, 3 (1,25%) no Acre, 3
(1,25%) no Amapá, 3 (1,25%) no Paraná, 2 (0,83%) no Pará e uma (0,42%)
no Piauí. [...] dados de acordo com as cinco regiões geográficas, nota-se
que, do conjunto das escolas públicas militarizadas, 94 (39,17%) estão no
Nordeste, 85 (35,42%) no Centro- -Oeste, 58 (24,17%) no Norte e 3 (1,25%)
no Sul. Não registramos escolas públicas militarizadas em nenhum estado
da região Sudeste. No Sul, só encontramos escolas do tipo no Paraná.
(Santos; Alves, 2022).

Nascimento e Moreira (2021) refletiram sobre a militarização na educação


brasileira, especialmente nas Escolas Cívico-Militares (ECIM), e criticaram as
justificativas de redução da violência e melhoria do desempenho escolar,
argumentando que essas escolas moldam subjetividades de forma violenta e vão
contra uma educação democrática e emancipadora.
19

A pesquisa de Veiga (2020) explorou a relação entre a reforma


administrativa do Estado e a expansão da gestão compartilhada de escolas públicas
com as corporações militares. Ele identificou diferentes modelos de parcerias e
constatou um aumento da militarização das escolas nos últimos anos, enfatizando
que a qualidade dessas escolas está mais relacionada a investimentos em
infraestrutura do que à pedagogia militar em si. O autor também discute como a
reforma administrativa, em busca da manutenção da hegemonia burguesa, tem
permitido parcerias público-público e público-privadas através da militarização das
escolas públicas como estratégia de controle social sobre as populações mais
vulneráveis.
Outros estudos focaram em contextos específicos. Oliose e Oliveira (2023)
analisaram o processo de militarização nas escolas do estado do Espírito Santo,
destacando a importância de não confundir rigor com rigidez autoritária e
defendendo uma abordagem flexível na educação. Pesquisando a militarização da
escola pública em Minas Gerais, Saraiva e Silva (2023) abordaram a temática
ressaltando seu contexto social e político, analisando a negação das singularidades
das juventudes e a violação da gestão democrática da educação como
desdobramento da militarização das escolas estudadas.
Alguns pontos dos trabalhos acadêmicos lidos nos chamaram atenção. A
maioria dos trabalhos está focada na região do Centro-Oeste brasileira,
especificamente no estado de Goiânia, Distrito Federal e nas regiões Norte e
Nordeste. Possivelmente, uma das causas da região centro-oeste ter o maior
número de publicações sobre o tema é o fato de que o processo de militarização das
escolas públicas teve início ali, além do interesse político existente, e a grande
cultura militar. Além disso, nas universidades do centro-oeste estão concentrados
importantes grupos de pesquisa sobre esta temática como: GEPEJ - Grupo de
Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais e Juventude e Políticas Públicas e
Gestão Escolar: aspectos socioculturais e contemporaneidade
Em um dos estudos mais recentes a que tivemos acesso, Cavalcanti et al.
(2023) abordaram o Programa de Escolas Cívico-Militares (PECIM), destacando a
falta de posicionamento claro do governo em relação a esse programa. Eles também
criticaram as escolas militarizadas, enfatizando seus efeitos negativos e justificativas
questionáveis, em contraposição aos princípios de Paulo Freire.
20

3 METODOLOGIA

O presente estudo se configura como uma pesquisa qualitativa. Essa


abordagem revela uma significativa flexibilidade, independente de conhecimentos
específicos, sendo aplicável a diversos referenciais teóricos para a análise desses
elementos. A análise qualitativa é particularmente valiosa devido à sua habilidade
em lidar com uma variedade de caracteres, provenientes de diversas fontes,
permitindo a produção de análises embasadas tanto em dados concretos quanto em
teorias.
A abordagem qualitativa revela-se altamente pertinente, permitindo o estudo
de fenômenos humanos que não podem ser unicamente quantificados em números
e indicadores. Essa abordagem concentra-se na compreensão e elucidação das
dinâmicas sociais, conforme mencionado por Gerhardt e Silveira (2009). Dessa
maneira, a abordagem qualitativa proporciona uma compreensão mais profunda e
contextualizada dos fenômenos sociais, valorizando a subjetividade dos indivíduos
envolvidos e reconhecendo a complexidade das interações sociais.
Conforme argumentado por Kripka, Scheller e Bonotto (2015), um dos
principais instrumentos para o desenvolvimento desse tipo de pesquisa é o próprio
pesquisador, que desempenha um papel fundamental na coleta de informações,
tornando-se parte integrante do processo de pesquisa. A pesquisa é construída em
conjunto entre o pesquisador e o sujeito pesquisado, por meio de suas experiências
individuais. Nesse sentido, é crucial ressaltar que não há neutralidade por parte do
pesquisador, uma vez que ambos os lados influenciam e são influenciados pelo
objeto de pesquisa (Patias e Von Hohendorff, 2019).
Como instrumento para coleta de dados, recorremos à análise documental
como instrumento central, englobando a interpretação sistemática de documentos. O
termo "documentos" refere-se a qualquer material que contenha informações
registradas, como textos, imagens, áudio, vídeo, entre outros, destacando-se como
foco primordial em nossa metodologia. A condução da análise documental, enquanto
forma de pesquisa e coleta de dados, visa proporcionar uma compreensão mais
profunda sobre como o tema em questão está sendo caracterizado. Os documentos
analisados desempenham um papel fundamental, oferecendo insights valiosos para
enriquecer e fundamentar nossa pesquisa. Esta pesquisa se utilizou extensivamente
21

de fontes documentais, obtidas por meio de consultas a sites e ambientes virtuais


públicos.
Numa segunda etapa da pesquisa, foi aplicado um questionário junto à
Secretaria da Educação de Santa Catarina, respondido pela gestão responsável
pelas escolas militarizadas de SC. As perguntas foram baseadas e elaboradas a
partir dos documentos analisados.
O questionário é um instrumento estruturado de coleta de dados, contendo
questões formalmente elaboradas, seguindo uma sequência padronizada. Todas as
questões do questionário tiveram como finalidade responder a um ponto do eixo do
nosso trabalho, correlacionando o discutido nos documentos analisados para
compreender a adesão ao projeto PECIM em SC.
No desenvolvimento do questionário, adotamos uma estrutura progressiva,
de modo a construir uma narrativa coesa que se desdobra de forma significativa ao
longo das perguntas. Buscamos criar uma coesão , onde cada questão se
encaixasse harmoniosamente na sequência, contribuindo para a construção de uma
história que fizesse sentido para o trabalho em questão.
. Essa pesquisa tem como objetivo aprofundar o entendimento sobre o
processo de militarização das escolas no Estado de Santa Catarina, investigando
motivações, impactos e desdobramentos, a fim de contribuir para o debate
acadêmico e subsidiar reflexões sobre os rumos da educação no estado. Além
disso, por meio da análise dos documentos orientadores do PECIM, analisamos e
problematizamos possíveis s os impactos no âmbito dos currículos escolares para a
formação dos estudantes, considerando aspectos como valores, habilidades e
conhecimentos adquiridos.
Conforme destacado por Braun et al. (2009) e Clarke e Braun (2013), a
análise qualitativa exige uma abordagem cuidadosa e reflexiva sobre os dados,
assegurando que os temas emergentes estejam alinhados com a teoria subjacente
ao estudo.
A análise dos dados levou em conta a triangulação das informações obtidas
nas fontes documentais, questionários e pressupostos teóricos que orientam o
trabalho, além da construção analítica do pesquisador. Assim, a análise qualitativa
possibilita uma exploração aprofundada dos caracteres, revelando insights
significativos e contribuindo para o avanço do conhecimento
22

4 REFERENCIAL TEÓRICO

4.1 CORRELAÇÃO ENTRE CONSERVADORISMO E MILITARIZAÇÃO DA


EDUCAÇÃO

A ascensão do conservadorismo no cenário econômico e político está


intrinsecamente relacionada à ampliação relativa de direitos sociais conquistados ao
longo dos anos. Durante esse período, houve um considerável avanço na obtenção
de direitos por grupos historicamente subalternizados, exemplificado, por exemplo,
pela introdução da obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira"
criada em 2008 (Lei Nº 11.645) e da implementação da lei de cotas criada em 2012
(Lei Nº 12.711 ). Grupos conservadores, que englobam segmentos religiosos,
ruralistas, empresários e militares, têm se fortalecido desde então, para
promoverem uma resposta contrária a esses avanços conquistados por grupos
subalternizados. Eles percebem que tais avanços ameaçam sua hegemonia na
hierarquia social. Este contexto é essencial para compreender a crescente
militarização das políticas educacionais (Lima et al., 2022). O movimento de
militarização da educação é uma expressão do avanço do conservadorismo em suas
políticas no Brasil (Santos, 2020). Através da análise proposta por Lima, et al.
(2022), evidencia-se que a militarização da educação configura uma ressurgência de
uma perspectiva idealizada do passado. Esta manifestação é notável pela sua
orientação ideológica conservadora, que engloba a valorização da tradição, a
promoção do militarismo, a defesa da estrutura familiar heteronormativa e a ênfase
na autoridade hierárquica. A contribuição desses autores proporciona uma
compreensão crítica da complexidade subjacente a esse fenômeno, destacando
suas ramificações na esfera educacional sob uma lente acadêmica cuidadosa.
A atuação de tais dinâmicas age especialmente no ajustamento dos
comportamentos e acaba por resgatar formas de ser homem e de ser
mulher, por meio do controle do trabalho das professoras e também por
meio da introdução dos jovens e das jovens em uma cultura militarizada, de
herança patriarcal, heteronormativa e policialesca, mantendo, assim, o
pensamento hegemônico sexista (Lima, et al., 2022, p. 16).
23

Nesse contexto, a educação se converte em um terreno propício para a


difusão dessas ideias, transformando-se, assim, em um espaço de interesse destes
grupos.
Assim, a influência do conservadorismo na educação transcende o processo
de militarização e também afeta diversas políticas, evidenciando claramente como o
conservadorismo está modelando o panorama educacional e ameaçando os
princípios fundamentais da educação como tratado por Lima et al. (2022).
Observamos esse movimento, por exemplo, na presença de conservadores na
elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como discutido no texto
"BNCC: Disputa pela Qualidade ou Submissão da Educação?" pelos autores Peroni
et al. (2019)

Na disputa pela BNCC entre os sujeitos que despontam estão os


neoconservadores, que defendem o regresso aos valores tradicionais, à
moralidade e à religião. Esses grupos baseiam suas posições na educação
através de visões fundamentadas na autoridade bíblica, moral cristã, as
questões de gênero e o papel da família[...]Grupos conservadores
ganharam centralidade na discussão da BNCC,incluindo a censura aos
livros didáticos. No caso do Brasil, os neoliberais e conservadores vêm-se
articulando a longa data. Embora com pautas diferentes, quando os
interesses são comuns, eles se unem, como foi o caso da BNCC em temas
ligados a gênero, sexualidade, família. (Peroni; Caetano; Arelaro, 2019 p.
47).

Nesse contexto, torna-se essencial compreender a relação intrínseca entre o


conservadorismo, a militarização da educação e os desafios que a educação
contemporânea enfrenta (Santos, 2020). A análise dessas interconexões é crucial
para o desenvolvimento de estratégias que preservem os princípios essenciais da
educação.

4.2 MILITARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Conforme apresentado, nosso trabalho aborda diversas vezes a ideologia


militar que é implementada nas escolas militarizadas e no próprio PECIM, afetando a
dinâmica escolar e se opondo ao que se espera de uma gestão democrática. Dessa
forma, consideramos ainda importante enfatizar que as bases políticas e ideológicas
que sustentam o processo de militarização encontra-se no militarismo. A partir de
Aliaga (2023), entendemos o militarismo como “ideias, práticas e movimentos
24

orientados pelos valores e concepções militares, presentes na cultura política


brasileira, incluindo, portanto, tanto elaborações intelectuais militares quanto civis(
(p. 1) uma precisamos desenvolver como essa ideologia militar é incorporada ao dia
a dia e à rotina das escolas que passaram pelo processo de militarização.
Dizemos que essa ideologia é caracterizada por um conjunto de crenças e
valores que orientam e conduzem a mentalidade dos militares ou forças armadas,
moldando sua atuação. Ela é carregada de uma forte expressão de nacionalismo,
uma estrutura hierárquica rigorosa e uma manutenção da ordem e segurança. .
A partir disso, o que caracteriza essa ideologia é o forte nacionalismo, que
enfatiza a soberania e a independência do Brasil contra influências externas, como o
anticomunismo, por exemplo, muito usado durante a ditadura militar . Outro ponto
fundamental dessa ideologia é a disciplina e a hierarquia. A partir de uma estrutura
rígida, são elementos centrais a obediência às ordens e o respeito à cadeia de
comando. O patriotismo, o amor pela pátria, exaltando o sacrifício pelo bem da
nação, a obediência à autoridade e a disciplina rigorosa são fundamentais. Mais
atualmente, tem -se observado o avanço desse movimento em suas expressões
mais antidemocráticas e intervencionistas em diversas esferas, incluindo a educação
(Aliaga, 2023)
A implementação do formato militarizado em escolas públicas têm um
impacto significativo na dinâmica escolar, muitas vezes contrariando os princípios da
gestão democrática. É crucial considerar os efeitos na perda de autonomia, na
participação democrática e na formação cidadã dos alunos.
Ao trabalharmos com os conceitos de "militarização da Educação", nos
deparamos com uma complexidade significativa de sentidos. Isso ocorre,
principalmente, devido ao fato de que a ideologia militar não se restringe a um único
modelo ou forma de militarização, mas sim a várias formas (Santos, et al., 2019).
Diversos distritos e localidades de escolas militarizadas apresentam uma variedade
de modelos em andamento, organizando-se de maneiras distintas e possuindo
dinâmicas próprias. Apesar dessa diversidade, é possível identificar pontos comuns
que caracterizam essa ideologia. Por essa razão, é importante brevemente
caracterizá-los.
São muitas as questões e problemáticas envolvidas diante desse cenário. E
antes de discutirmos as diferentes formas de organização de colégios militares e
25

militarizados, que serão desenvolvidas no próximo eixo deste trabalho, é importante


abordar alguns questionamentos centrais. Por que têm avançado a militarização do
ensino público? Quais são os principais argumentos que costumam ser mobilizados
na defesa desse projeto de educação?
Dentre as justificativas utilizadas por governadores e prefeitos para legitimar
o processo de militarização da educação estão os resultados positivos alcançados
pelos colégios militares em avaliações nacionais, como o IDEB e o ENEM.
Acredita-se e justifica-se que essas instituições apresentam um elevado nível de
qualidade educacional, o que serve como fundamentação para a escolha e
transferência da gestão escolar (Mendonça, 2019).
Como veremos, são muitos os interesses e disputas em torno desse projeto.
Grupos conservadores (religiosos, ruralistas, empresários e militares), por exemplo,
estão entre os maiores defensores do modelo. Para eles, as escolas militarizadas
são um modelo eficiente de educação e poderiam resolver todos os problemas da
educação pública no Brasil. Tais argumentos baseiam-se em crenças equivocadas,
de que a violência e falta disciplina são uma presença constante no ambiente
escolar, resultantes da ineficiência das escolas e seus docentes. Essa crença
mascara os verdadeiros problemas que as escolas públicas enfrentam, tais como
escassez de recursos financeiros, falta de professores e valorização da carreira
docente, carência de uma infraestrutura adequada, ausência de políticas efetivas,
entre outros desafios.
Esse processo de sucateamento, que vem se arrastando por anos, contribui
para uma total falta de valorização do ensino público. É evidente que essa falta de
valorização afeta negativamente a qualidade da educação oferecida, prejudicando
tanto os profissionais da área quanto os estudantes, acentuando ainda mais a
desvalorização do ensino público, promovendo a militarização como alternativa.
A militarização é um componente de um projeto hegemônico e conservador
que coloca em risco a permanência dos direitos fundamentais descritos
constitucionalmente, como o direito à educação (Ximenes, 2019),ferindo
principalmente Artigo 206 da Constituição Federal, que trata de como o ensino será
ministrado com base nos seguintes princípios :

I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;


26

II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a


arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de
instituições públicas e privadas de ensino;
IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma
da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso
público de provas e títulos, aos das redes públicas;
VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
VII - garantia de padrão de qualidade.
VIII - piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação
escolar pública, nos termos da lei federal. (Brasil, 1988).

Dentre as problemáticas que cercam o projeto de militarização, uma delas é


seu caráter altamente excludente. Importante salientar que o processo de ingresso
nas escolas militares, que são utilizadas como modelo para as escolas militarizadas,
se dá de formas diversas, incluindo uma seleção que muitas vezes não é justa,
excluindo alunos com deficiências ou condições financeiras desfavoráveis. Além
disso, os alunos selecionados são obrigados a adquirir o kit de uniforme, que
comumente é custeado pelas famílias, o que poderia ser um obstáculo financeiro
para algumas famílias. Em algumas escolas militares, há a cobrança de uma taxa
mensal - o que vai contra a ideia de ensino público - para que os alunos possam
permanecer nas escolas militares. Ademais, o próprio sistema e a cultura escolar
militarizada acabam por excluir diversos estudantes, que não “se enquadram” neste
modelo. Assim, nota-se, que o modelo dos colégios militares, que costuma ser
utilizado para ilustrar o que viriam a ser as escolas públicas militarizadas, não se
apresenta como uma alternativa viável para a escola pública, que atende
gratuitamente, sem quaisquer restrições, seleção ou cobrança a todos e todas.
Esse modelo de ensino pode segregar os alunos entre “bons e ruins”, ou
com dificuldades, e excluir a diversidade, já que os alunos devem se adaptar às
normas existentes nos quarteis, gerando violência em seus corpos e perda de
emancipação. Além disso, há uma perda de liberdade de discussão e pluralidade de
ideias em troca de uma submissão à hierarquia imposta pelos militares. Essas
práticas contribuem fortemente para a ideia de meritocracia.
A militarização da educação é caracterizada pela parceria ou entrega da
gestão escolar nas mãos de militares, que buscam replicar o modelo de colégios
militares,na expectativa de uma educação eficiente, tanto no que tange à
aprendizagem quanto à formação moral, realizada por meio de mecanismos de
27

controle: Uniformes escolares, Hierarquia e estrutura de comando e Regras estritas


de comportamento são alguns exemplos. O objetivo é trazer ordem, submissão e
disciplina aos alunos, na esperança de melhorar as atividades e o aprendizado dos
mesmos através do controle.
A seguir, apresentamos alguns argumentos que explicam como e porquê
essa lógica passa ser trazida para educação. De acordo com os estudos que
embasam este trabalho (Santos, et al, 2019, Mendonça, 2019, Ximenes et al, 2019,
Alves; Tioschi, 2019, Martins, 2019 ), a justificativa para introduzir a lógica militar nas
escolas tem se dado por três vias principais: pelo discurso do medo e do combate à
violência, pelo alegado desempenho superior das escolas militarizadas, e pela
disciplina que estes modelos trariam para escolas, uma vez que a falta de disciplina
é vista como um grande problema das escolas. A militarização da Educação surge
como uma resposta criada através de um processo baseado no medo, conforme
abordado por Cunha e Lopes (2022) em seus trabalhos. As violências existentes
tanto dentro como fora das escolas também levam muitas famílias a apoiarem a
interferência dos militares no ambiente escolar. No entanto, é importante ressaltar
que a escola reflete a sociedade em que vivemos. Se a sociedade é marcada pela
violência, isso resulta em uma escola violenta (Medonça, 2019).
A violência gera um grande temor nas famílias, o que limita uma análise
abrangente do fenômeno de forma mais ampla. A violência é um fenômeno social
que não se restringe ao âmbito escolar. Destacamos que a violência não é produzida
nas escolas, mas sim refletida por elas. No entanto, o medo do perigo e violência
resulta em um contexto no qual se busca respostas rápidas e eficazes, e é a partir
desse ponto que surge a proposta de militarização como uma possível solução. Os
importantes acontecimentos de abril de 20232, que incluíram ataques recentes a
escolas e creches, ilustram de maneira evidente essa realidade. A resposta mais
rápida encontrada diante dessas situações em muitos lugares, como Santa Catarina,
foi colocar segurança armada nas escolas. Trata-se de uma ação que de forma
controversa olha apenas para a consequência e não analisa devidamente os fatores
que têm provocado o aumento desses ataques.

2
[Link]
[Link]
28

O segundo ponto a ser abordado dentro do conceito de "militarização da


educação" é o potencial que as escolas públicas municipais e estaduais têm em
relação aos resultados em provas de avaliação a nível nacional. Esse potencial é
frequentemente utilizado como justificativa para a implementação de medidas de
militarização.

Partindo da premissa de que os colégios militares são mais eficientes e


possuem melhores indicadores de qualidade (especialmente o IDEB), e
considerando a necessidade de uniformização dos modelos existentes, o
MEC estuda a normatização do modelo e a certificação das escolas que o
aplicarem na sua integridade (Ximenes, et al., 2019).

Reforçando a ideia de que a gestão escolar pública e democrática é incapaz


de alcançar resultados educacionais satisfatórios, defensores das propostas de
militarização argumentam que as escolas públicas são frequentemente associadas a
um ambiente de desordem e falta de disciplina. Essa visão é compartilhada por
Mendonça (2019), que destaca a percepção de que as escolas públicas enfrentam
desafios no que diz respeito à qualidade educacional e ao ambiente propício para a
aprendizagem. Essa premissa é utilizada para desqualificar o ensino conduzido por
profissionais civis, especialmente nas escolas localizadas em áreas periféricas que,
muitas vezes, enfrentam a falta de investimentos adequados por parte dos órgãos
federais e estaduais de educação.

O discurso fantasmático no apoio à militarização da gestão tem sido


abordado por meio da exposição de casos de violência nas escolas, bem
como em demonstrações de dados de resultados de desempenho
elevados das escolas militares.(Cunha; Lopes,. 2022).

Além de sugerir que os baixos resultados das escolas são consequências de


suposta ineficiência da gestão e dos docentes, outro ponto que costuma ser
levantado, é que tais questões estariam relacionadas à indisciplina dos estudantes.
Argumenta-se que os alunos de escolas públicas, localizadas em regiões periféricas
com altos índices de violência, apresentam baixos resultados em provas de nível
nacional devido à falta de disciplina e educação. Então, a solução proposta para
essa questão é a implementação de uma gestão militar, inspirada na metodologia
dos quartéis, caracterizada pela hierarquização e submissão, sem espaço para
questionamentos ou escolhas. Essa visão é defendida tanto por grupos políticos
quanto por alguns pais de estudantes.
29

A imposição de rígidas normas disciplinares e de conduta conduzidas por


policiais fardados e armados no interior da escola, em postos de gestão
escolar, levaria professores e estudantes que não se adaptam a serem
excluídos da escola. Até normas que regulamentam a aparência física são
impostas, como corte curto de cabelos para meninos e coque para meninas,
como o padrão militar; cabelos e barbas bem aparados para professores;
vedação de uso de acessórios considerados extravagantes para meninas e
professoras; blusa para dentro da calça para estudantes e jalecos até os
joelhos para professores e professoras (Mendonça, 2019).

Por um lado, com relação à população em geral, a falta de conhecimento


sobre a área de educação e pedagogia leva a uma crença equivocada de que a
aplicação da metodologia militar em escolas, baseada em poder hierárquico,
submissão e disciplina rígida em crianças e adolescentes, resultará em indivíduos
preparados para viver em uma sociedade disciplinada. Por outro lado, esses
argumentos são intencionalmente sustentados por grupos conservadores e
neoliberais que defendem a militarização da educação com o objetivo de exercer
controle sobre determinados grupos sociedade e de impor um modelo de educação
que atenda os princípios conservadores que lhes interessam, tais como: hierarquia,
padronização, controle, retomada de uma alegada tradição, obediência, apagamento
da diversidade, mérito, etc . Essa abordagem restringe a liberdade dos estudantes e
não promove uma sociedade emancipada, como defendido por renomados autores
na área da educação, como Paulo Freire, por exemplo. Autoras de referência no
tema, como Alves e Santos (2019), destacam de forma clara o impacto negativo
dessa ideologia nas escolas.

normas de disciplina calcadas apenas na obediência heterônoma, que


pouco ou nenhum resultado pedagógico alcança a não ser o adestramento
a comportamentos padronizados, inclusive de aparência, de falta, de
cumprimento; não parece fazer bem a crianças e adolescentes negar-lhes o
direito à diversidade e à própria individualidade obrigando-os a manter
determinado corte de cabelo ou proibindo-as de usar certos tipos de
adereços próprios da idade em que o vínculo a grupos e tribos é
característico. cabelos masculinos e obrigatoriedade de coque para as
meninas é retroceder quanto aos avanços pedagógicos conquistados ao
longo de séculos. é a ilusão de que as escolas militarizadas terão
obrigatoriamente resultados escolares superiores às demais escolas (
Santos, el al.,2019).

Todos esses pontos comuns encontrados em diversos trabalhos e autores,


utilizados como referência para a produção deste capítulo, ressaltam a ideia de que
30

os principais eixos que sustentam e justificam a militarização da educação nas


escolas são:

I) Medo da violência nas escolas : A presença de altos índices de


violência, tanto dentro como fora das escolas, é frequentemente mencionada como
um fator que impulsiona a busca pela militarização como uma forma de controle e
segurança. (Alves; Toschi, 2019; Rêses; Paulo, 2019; Ribeiro; Rubini, 2019).

II) Comparação dos resultados entre escolas públicas e escolas


militarizadas: Há uma análise comparativa dos resultados acadêmicos e
desempenho em avaliações nacionais entre escolas públicas convencionais e
escolas militarizadas, utilizada para justificar a adoção desse modelo. (Mendonça,
2019; Lace; Santos; Nogueira, 2019; Pinheiro; Pereira; Sabino, 2019; Ribeiro;
Rubini, 2019).

III) Disciplina, submissão e aplicação da metodologia militar dos quartéis


em crianças e adolescentes: A ênfase na disciplina rígida, hierarquia e submissão é
um dos pilares da militarização da educação, buscando moldar comportamentos e
criar um ambiente de ordem e controle.(Ribeiro; Rubini, 2019; Rêses; Paulo, 2019;
Santos; Vieira, 2019).

IV) Desqualificação da escola pública: Uma visão desqualificadora do


ensino e gestão escolar conduzidos por profissionais civis é frequentemente
presente na defesa da militarização, argumentando que a abordagem militar é mais
eficiente e necessária para enfrentar os desafios educacionais. (Sauer; Saraiva,
2019; Alves;Toschi, 2019; Ximenes; Stuchi; Moreira, 2019).

Esses conceitos são recorrentes na literatura e debates sobre a militarização


da educação e contribuem para a compreensão e análise crítica desse fenômeno.
Nesse sentido, os projetos de militarização se contrapõem à perspectiva da
Gestão Democrática, princípio estruturante da escola pública brasileira previsto na
Constituição Federal e na LDBEN. De acordo com Santos (2020), o processo de
militarização representa uma ameaça à ainda frágil construção de uma escola
31

pública democrática, que seja acessível a todos, um espaço de diálogo, diversidade,


multiculturalismo e experiências coletivas enriquecedoras. Essa militarização
compromete a construção de um modo de vida democrático e livre.

4.3 O CURRÍCULO OFICIAL E OCULTO EM DISPUTA NOS PROJETOS DE


MILITARIZAÇÃO

O conceito de currículo na língua portuguesa, apresenta dois sentidos


distintos. O primeiro relaciona-se à trajetória profissional, trazendo a ideia de como a
experiência é construída. O segundo sentido refere-se à construção de uma carreira
como estudante, mais concretamente, aborda os conteúdos que o aluno irá aprender
durante seu percurso, a organização desse aprendizado, a forma como o aluno deve
superar desafios e a maneira de estruturá-lo (Sacristán, 2013).
O currículo desempenha um papel decisivo como organizador e regulador
no processo de ensino. Ele se torna, assim, um elemento crucial na seleção e
ordenação dos conteúdos, regulando o ensino de acordo com as exigências e níveis
de acesso aos diferentes graus de conhecimento (Sacristán, 2013). Dessa forma, o
currículo é distribuído ao longo do tempo escolar, associando os conteúdos aos
grupos etários dos estudantes e o grau de aprendizagem. Em suma, o currículo é
regulado e distribuído por períodos específicos para ensinar e aprender, inserindo
conteúdos de maneira organizada e coerente.
De maneira crítica e problematizadora , não devemos rotular o currículo
apenas como um organizador de conteúdo, mas como um artefato cultural que
contém valores e ideologias que serão transmitidos. Assim, o currículo atua como
uma forte ferramenta através da qual a cultura dominante perpetua suas normas e
expectativas, moldando como os estudantes entendem o mundo e a si mesmos. Em
seu trabalho "Documentos da Identidade: Uma Introdução às Teorias do Currículo"
de 1999, Silva nos apresenta como o currículo contribui para a formação da
identidade dos alunos, influenciando sua percepção de gênero, etnia, classe e
demais marcadores sociais. O currículo reflete e reforça as identidades
hegemônicas, marginalizando as vozes e experiências de grupos minoritários.
32

O currículo é um campo onde o poder é exercido através da organização do


conhecimento, e a decisão de excluir ou incluir é profundamente política, refletindo
as estruturas de poder da sociedade e o grupo que está no controle naquele
momento. As narrativas valorizadas por esses grupos moldam a compreensão dos
estudantes sobre o mundo, resultando em uma visão não neutra, mas carregada de
significados que promovem certas perspectivas enquanto silenciam ou apagam
outras (Silva, 1999). Assim, entendemos que o currículo está profundamente
relacionado à lutas por ideologia e hegemonia, e por essa razão, é dispositivo
central para a reprodução das desigualdades sociais.
Assim, neste trabalho entendemos que o currículo não é um simples
documento de organização, mas um artefato cultural que tem o poder de moldar,
excluir ou incluir determinados conhecimentos, histórias e culturas. Por essa razão,
ele promove diferentes visões de mundo e reflete ideologias dominantes. Isso pode
ser utilizado para manter a hegemonia cultural e social, mas também para exercer
práticas inclusivas e democráticas que promovam a justiça social através da
desmarginalização de saberes locais e inclusão de grupos minoritários que sofreram
apagamento histórico devido à visão ideológica dominante(Silva, 1999).
Desta maneira currículo pode ser analisado e distinguido em dois tipos
distintos: o currículo oficial, prescrito e documentado formalmente, e o currículo
oculto, que opera nas entrelinhas e nas lacunas deixadas pelo currículo oficial,
moldando e influenciando de maneira simbólica. Assim, compreender a interação
entre o currículo oficial e o currículo oculto é fundamental para uma visão
abrangente do processo educacional, pois ambos desempenham papeis cruciais na
formação integral dos alunos (Silva, 1999).
O currículo prescrito diz respeito, conforme Sacristán (2000), a um conjunto
de documentos oficiais reguladores, que podem ser produzidos, no caso do Brasil,
em âmbito nacional, estadual e municipal. Além disso, também podemos
compreender que definições oficiais acerca do conhecimento escolar a ser ensinado
na escola presentes em leis, normas, diretrizes, livros didáticos e propostas
curriculares também compõem o currículo prescrito. Ele é, posteriormente, ainda é
traduzido e atualizado por meio de planos de ensino e planos de aula elaborados
pelos professores. Dessa forma, o currículo é registrado e documentado,
constituindo-se como uma referência estruturada que orienta o processo educativo
33

(Araújo, 2018). Essa documentação serve como base para a organização do


ensino, assegurando uma abordagem consistente e alinhada com os objetivos
educacionais estabelecidos nos níveis oficiais. Neste rol de documentos que
costumam compor o currículo prescrito,estão contemplados a listagem de conteúdos
a serem ensinados nas escolas, as experiências a serem vividas, organizadas em
função de propósitos educativos e saberes, incluindo atitudes, crenças e valores.
Essa estrutura curricular abrange não apenas o conhecimento teórico a ser
transmitido, mas também as habilidades a serem desenvolvidas, as atitudes
desejadas e os valores que se espera que os estudantes adquiram ao longo de sua
formação (Araújo, 2018).
O currículo oculto se configura como uma entidade oposta ao currículo
prescrito oficial. Ele é constituído por todos os aspectos do ambiente escolar que
não fazem parte do currículo explícito e oficial, contribuindo de maneira implícita
para o processo de aprendizagem dos alunos. O que é assimilado por meio do
currículo oculto são, fundamentalmente, comportamentos, atitudes, valores e
orientações, possibilitando que crianças e jovens se ajustem de forma mais
conveniente às estruturas e normas de funcionamento (Silva, 1999).
Este componente não formal do currículo está presente nas interações
diárias, nas relações interpessoais, nas normas não escritas e na cultura escolar
como um todo. Ao contrário do currículo prescrito, o currículo oculto opera de
maneira submersa, moldando a percepção do ambiente escolar e influenciando o
desenvolvimento social e emocional dos estudantes (Silva, 1999).
É importante reconhecer que, embora não seja explicitamente delineado, o
currículo oculto exerce um papel significativo na formação dos alunos, contribuindo
para a construção de identidades, valores e habilidades sociais que transcendem o
conhecimento formal transmitido no currículo oficial.
A discussão sobre o currículo prescrito e o oculto pode nos revelar uma
profunda interconexão com a problemática da militarização da educação. Ao
reconhecermos e entendermos que o currículo tem a capacidade de influenciar e
moldar a formação dos alunos e até mesmo a sociedade, não podemos ignorar
como certos valores e ideologias, muitas vezes associados a agendas
conservadoras, podem ser incutidos no ambiente escolar por meio do currículo.
34

Para Thiesen e Gomes (2016) é visível a intensificação da atuação de


grupos conservadores que buscam ganhar espaço em diversas áreas da vida social
e expressivamente na educação.
Todas essas iniciativas se conectam de diversas formas com a agenda
neoconservadora, especialmente no que diz respeito ao apreço pela padronização,
disciplinarização e aumento do controle sobre os alunos, sobre os professores e
sobre o currículo.
O currículo, enquanto construção social e cultural, é moldado e influenciado
por uma multiplicidade de elementos, como valores, interesses e relações de poder
que permeiam a sociedade (Silva 1999). O currículo é uma construção social que é
moldada de acordo com os interesses das classes dominantes no poder,
representando uma projeção do futuro modelo de sociedade, baseado nos próprios
interesses de conhecimento.
Fundamentalmente, Althusser argumentava que a educação constituiria um
dos principais dispositivos através do qual a classe dominante transmitia
suas idéias sobre o mundo social, garantindo assim a reprodução da
estrutura social existente [...] De forma geral, essa transmissão da ideologia
estaria centralmente a cargo daquelas matérias escolares mais propícias ao
''ensino' dê idéias sociais e políticas: História, Educação Moral, Estudos
Sociais, mas estariam presentes, também, embora de forma mais sutil, em
matérias aparentemente menos sujeitas à contaminação ideológica, como
Matemática e Ciências. ( Moreira; Tadeu, 2013. p, 21-22).

Por outro lado, o currículo também é um terreno em disputa, que pode


colaborar para a transformação das relações de poder. Por essa razão, o currículo
escolar é sempre alvo preferencial de reformas e projetos educacionais
O currículo está estreitamente relacionado às estruturas econômicas e
sociais mais amplas. O currículo não é um corpo neutro, inocente e
desinteressado de conhecimentos [...].A seleção que constitui o currículo é o
resultado de um processo que reflete os interesses particulares das classes
e grupos dominantes. (Silva,1999. p, 46).

O currículo enquanto dispositivo central das funções da escola também


costuma ser alvo dessas iniciativas da ideologia de militarização da educação. No
escopo do projeto de militarização da educação são previstas a inserção de
disciplinas e práticas alusivas às práticas militares. Há ainda a vigilância que
naturalmente aumenta em relação ao currículo escolar e ao trabalho docente.
De acordo com Santos (2020), algumas análises preliminares dos
documentos do PECIM evidenciam que o programa se inscreve na construção do
35

discurso conservador de crise da escola e forja, como saída para tal, a necessidade
de uma mudança na forma de gestão das escolas, da restauração da moral e da
disciplina hierárquica. .
O documento intitulado Diretrizes para as Escolas Cívico militares (Brasil,
2021) traz uma seção específica para tratar de mudanças no âmbito do currículo
dessas escolas. Tais mudanças abarcam várias questões que dizem respeito ao
currículo oficial e oculto, como podemos identificar no trecho a seguir:

É recomendado que o desenvolvimento de valores e atitudes, bem como


atividades cívicas e de cidadania, façam parte da matriz curricular das Ecim,
com uma hora-aula semanal de cada turma, que serão conduzidas pelo
Corpo de Monitores e pelo Corpo Docente sob orientação da Supervisão
Escolar (Coordenação Pedagógica).(MEC, 2021, p. 44)

De acordo com Santos (2020) a proposta apresentada, em meio a um


contexto de avanço conservador, busca submeter a escola, o currículo, os
indivíduos, suas rotinas, seus corpos e suas culturas a um sistema de controle,
padronização e disciplina coercitiva. Nesse sentido, trata-se de um projeto de poder
e domínio que tem como objetivo reduzir a diversidade, o multiculturalismo e a
resistência que se manifestam nas instituições educacionais
Dessa forma, o currículo, inserido no contexto da ideologia de militarização
da educação, desempenha um papel fundamental ao contribuir para a manutenção
do controle exercido pelos grupos dominantes sobre as demais classes subjugadas.
Nesse sentido, o currículo assume uma expressão desse poder hegemônico. Aqui, o
conceito de currículo oculto é bastante importante:

Um desses conceitos é o de currículo oculto. Esse conceito, criado para se


referir àqueles aspectos da experiência educacional não explicitados no
currículo oficial, formal, tem sido central na teorização curricular crítica.
Apesar de certa banalização decorrente de sua utilização frequente e fácil,
ele continua importante na tarefa de compreender o papel do currículo na
produção de determinados tipos de personalidade. Entretanto, ao atribuir a
força e o centro desse processo àquelas experiências e àqueles ''objetivos"
não-explícitos, o conceito também contribuiu para, de certa forma,
''absolver" o currículo oficial e formal de sua responsabilidade na formação
de sujeitos sociais. (Moreira; Tadeu, 2013 p, 31)

Através do currículo oficial e do currículo oculto, que se manifesta por meio


de práticas não formalmente incorporadas ao currículo oficial, ocorre a aplicação de
36

ideologias militares, como o hasteamento da bandeira, presença de militares na sala


de aula, por exemplo demonstrado no documento "Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares - 2ª Edição 2021”.

resgatar o amor pelos símbolos nacionais; – proporcionar ao aluno uma


formação integral, baseada em valores;desenvolver o hábito de cantar os
hinos cívicos; – melhorar o ambiente escolar, desenvolvendo atitudes de
respeito com a coletividade; e incentivar a participação da comunidade nos
eventos cívicos realizados pela escola.(MEC, 2021, p. 189)

Essas práticas, aparentemente simbólicas, são utilizadas como instrumentos


para reforçar a hierarquia, a disciplina e a submissão. Esses elementos do currículo
oculto acabam desempenhando um papel significativo na perpetuação e na
legitimação do poder exercido pelos grupos dominantes.
Assim, a noção de currículo e currículo oculto são pressupostos fundamentais
deste trabalho.

5 OS DIVERSOS FORMATOS DA MILITARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL:


COLÉGIOS MILITARES, MILITARIZADOS E PECIM

Necessário realizar uma distinção a ser feita entre os três modelos de


escolas de cunho militar: Escolas militares, escolas militarizadas e escolas
cívico-militares (ECIM).
O objetivo central dos colégios militares, é formar futuros membros das
forças armadas, e são mantidas com recurso e responsabilidade pela secretaria de
Defesa.
As escolas militarizadas tratam-se de escolas públicas, das redes estaduais
ou municipais, vinculadas às secretarias de educação que, por meio de
conveniamento com as polícias militares e corpo de bombeiros, passam a
compartilhar a gestão das mesmas com esses quadros militares e a contar com a
presença de militares no cotidiano escolar. Apesar da parceria com as secretarias de
segurança, as escolas militarizadas não passam a pertencer a essas corporações, e
tampouco recebem financiamentos oriundos dessas pastas.
37

Por fim, escolas Cívico-militares (ECIM), são escolas públicas que


aderiram ao programa: Escolas Cívico-militares, criada pelo governo em 2019.

5.1 COLÉGIOS MILITARES: O QUE SÃO ?

De acordo com o sistema de colégios militares do Brasil o DEPA (Diretoria


de Educação Preparatória e Assistencial) apontam que a criação do primeiro
colégio militar data do Decreto nº 10.202, de 9 de março de 1889, Art. 1º, fundado no
Rio de Janeiro sob criação do conselheiro Tomás Coelho, ex-ministro da Agricultura,
Comércio e Indústria. No ano de 1912, houve o registro de duas novas escolas
militares criadas nas cidades de Porto Alegre e Barbacena. Em 1919, sob a Lei nº
3674, de 7 de janeiro de 1919, Art. 65, o governo decidiu criar um novo colégio
militar no estado do Ceará. Em 1925, por fins políticos, houve a extinção do Colégio
Militar de Barbacena e, em 1938, após um novo golpe, os colégios militares de Porto
Alegre e Ceará foram extintos, restando apenas o Colégio Militar do Rio de Janeiro.
Passando alguns anos, houve uma tentativa, através do Ministro de Guerra General
Henrique Teixeira Lott, de criar o Colégio Militar de Belo Horizonte (1955). Em 1957,
era criado o Colégio Militar de Salvador, idealizado pelo Ministro Ciro do Espírito
Santo Cardoso. Dando continuidade em seu trabalho de criação de escolas
militares, o Ministro Lott fundou o Colégio Militar de Curitiba em 1958 e, concluindo o
ciclo, surgiu o Colégio Militar de Recife em 1959.
Os antigos colégios de Porto Alegre e Barbacena, extintos em 1912, foram
transformados em escolas preparatórias e só voltaram a funcionar como colégios
militares em 1962. Na década de 70, foram criados o Colégio Militar de Manaus em
1971 e o de Brasília em 1978 - este último já havia sido deliberado pelo
ex-presidente Juscelino Kubitschek em 1959. Em 1988, o Colégio Militar de Belo
Horizonte, o Colégio Militar de Salvador, o Colégio Militar de Curitiba e o Colégio
Militar do Recife foram fechados. Somente no ano de 1993, esses colégios foram
reativados quando o General Zenildo de Lucena assumiu a pasta do Exército. No
mesmo ano, foram criados os colégios de Juiz de Fora e Campo Grande, e em 1994
o de Santa Maria.
38

Em 2001, foi criado o Curso Regular de Educação a Distância (CREAD),


coordenado pelo Colégio Militar de Manaus, como forma de apoio à educação
básica na modalidade a distância, para alunos do 6º ao 9º ano do Ensino
Fundamental e do 1º ao 3º ano do Ensino Médio, para filhos dependentes de
militares com idade regular. Em agosto de 2015, após visita do Comando Maior no
estado do Pará, o Comando do Exército decidiu criar o Colégio Militar de Belém, nas
atuais instalações da escola do Governo do estado do Pará, sob a Portaria N
1.034-Cmt Ex, de 6 de agosto de 2015. Por fim, em 2018, o Comandante do
Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, com o objetivo de ampliar a criação de
mais Colégios Militares por todo o território brasileiro, assinou uma portaria
decretando a criação de novas escolas militares no estado de São Paulo, criando
assim o 14º Colégio Militar do Brasil ( Brasil, 2023)

5.2 ESCOLAS MILITARIZADAS: O QUE SÃO ?

A Reforma Administrativa do Estado, implementada na década de 1990,


durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, que liderou fortemente o
avanço da agenda neoliberal no Brasil (Peroni, 2003), abriu a possibilidade de
transferência da gestão de instituições públicas para outras organizações sociais.
Nessa perspectiva, o compartilhamento da gestão das escolas públicas com os
militares (Lima, et al., 2022) pode ser entendido como uma forma de conveniamento
entre o público e outras organizações sociais, além de ser visto como uma tentativa
de introduzir uma abordagem mais disciplinada e conservadora no ambiente
educacional.
As escolas militarizadas além de possuírem uma gestão compartilhada
adotam práticas e rituais semelhantes às encontradas nas intuições militares,
incorporando rotinas do cotidiano militar na vida escolar dos estudantes como:
hasteamento da bandeira, forte presença do patriotismo e hierarquia são algumas
das rotinas impostas pelos militares aos estudantes como demonstrado nas
Diretrizes das Escolas Cívico-Militares - 2ª Edição 2021 .

Em ocasiões específicas, poderão ser abordados fatos históricos,


considerando as diversas formas possíveis para sua comemoração: reflexão
39

sobre o significado no passado, qual seu significado ainda no presente,


como poderá repercutir no futuro, entre outras. Ao fim do ano letivo, os
Momentos Cívicos deverão ter proporcionado aos alunos:

1. conhecer os símbolos nacionais, conforme previsto na Constituição


Federal;
2. cantar os Hinos Nacional, da Independência e da Bandeira, destacando
suas histórias e explicando suas letras;
3. conduzir a cerimônia de hasteamento e arreamento das Bandeiras
Nacional, Estadual, Municipal, segundo as Leis nº 5700/71 e nº 8421/92;
4. conhecer os principais fatos históricos oficiais do Brasil, do estado e do
município em que reside, explicando o significado e a história de cada
evento;
5. ter capacidade de demonstrar conhecer a história, o conteúdo e a
importância da Constituição Da República Federativa do Brasil para a
sociedade brasileira, bem como os símbolos nacionais,seus significados e a
importância de cada um;
6. conhecer os três poderes governamentais existentes no Brasil, sua
história, suas estruturas e atribuições;
7. visitar um dos órgãos de representação de um dos três poderes
governamentais das esferas federal, estadual ou municipal e apresentar um
relatório com registros em texto;
8. entrevistar um representante dos três poderes governamentais do Brasil,
do estado/Distrito Federal ou do município, abordando as ações da
instituição em que atua e sua participação pessoal no desenvolvimento do
país;
9. conhecer o sistema eleitoral brasileiro e a estrutura política do Brasil; e
10. ter participado de um desfile cívico comemorativo à uma data oficial do
Brasil, do seu município, estado ou do Distrito Federal. (MEC, 2021, p. 190)

Além disso, essas escolas contam com a presença de “monitores”, que são
militares encarregados de verificar se tudo está de acordo com as leis e normas,
orientando e supervisionando professores e alunos.

Os monitores escolares exercerão o papel de tutoria que muitos alunos não


tiveram em seus ambientes familiares, proporcionando acolhimento, diálogo,
dando o exemplo e servindo de referência, aspectos esses tão necessários
ao desenvolvimento do aluno como pessoa.[...] (MEC, 2021, p. 83)

Os alunos são submetidos a uma hierarquia rígida e devem seguir essa


cadeia de comando, uma prática comum no meio militar. Destaca-se também que os
alunos são orientados a seguir regras rigorosas de comportamento, penteado e
traje, e qualquer violação dessas orientações resulta em penalidades para os
estudantes.
A criação de disciplinas ou projetos relacionados à moral e valores é comum
nas escolas militarizadas. Essas disciplinas têm como objetivo abordar temas como
ética, cidadania, patriotismo e respeito às tradições. É importante ressaltar que a
40

abordagem dessas disciplinas pode variar de acordo com cada escola militarizada,
sendo que em geral elas tendem a promover perspectivas mais tradicionais e
conservadoras em relação a questões sociais e morais.
De acordo com Lima et al. (2022), a despeito das primeiras iniciativas de
escolas militarizadas terem sido registradas por volta dos anos 2000, em Goiás, é
apenas mais recentemente que o campo de estudos sobre o processo de
militarização vem se delineando como tal, especialmente impulsionado por uma
propagação desse projeto em diversos outros estados e com a criação do PECIM
em âmbito federal.
O fato é que este modelo tem se ampliado significativamente em todos os
estados, ganhando ainda mais adeptos sobretudo num contexto de aumento da
onda de violências e ataques às escolas, como presenciado devido aos últimos
acontecimentos de ataques à escolas.

5.3 O PROGRAMA DAS ESCOLAS CÍVICO-MILITARES: O PECIM

O Programa das Escolas Cívico-Militares (PECIM), criado por meio do


Decreto nº 10.004/2019, estabelecia uma parceria entre o Ministério da Educação e
o Ministério da Defesa com o propósito de transformar escolas públicas em
instituições de ensino militarizadas. O objetivo do programa, de acordo com o
mencionado decreto, é implementar um novo modelo de gestão compartilhada, com
a participação de militares da reserva. Os documentos destacam que o programa
buscava aprimorar a qualidade da educação básica pública no Brasil, sendo
inspirado pela excelência observada nos colégios militares do Exército, nas polícias
e nos corpos de bombeiros.
Em síntese, as escolas militarizadas são escolas públicas que passam a
contar com a presença e a atuação de militares (ou policiais e bombeiros) da reserva
na gestão e no cotidiano da escola. Esses militares compartilham a gestão
administrativa da escola e atuam, sobretudo, no âmbito do controle, da disciplina, do
cotidiano escolar, tanto por meio da sua presença, como uma figura claramente
associada ao controle, quando por meio da promoção de práticas alusivas às rotinas
militares.
41

Os critérios definidos para seleção das escolas para integrarem ao projeto


indicam que trata-se de uma proposta voltada para a educação das camadas mais
vulneráveis, a saber: estar em região de vulnerabilidade social.
A adesão utilizada para escolha das escolas que adotaram o programa
PECIM é a aceitação da comunidade escolar, que deve manifestar seu interesse por
meio de uma votação. Essa medida, através de uma votação, garantiria que
processo de adesão ocorra de forma democrática e participativa, uma decisão
tomada por toda sua comunidade ( pais, professores, alunos e gestão escolar).
Além disso, a escola deve apresentar alguns critérios: estar em região de
vulnerabilidade social e apresentar um baixo índice de desenvolvimento da
educação básica (IDEB); Estar localizada em capital ou região metropolitana ;
oferecer ensino fundamental II e ensino médio atenda entre 500 a 1000 alunos nos
dois turnos.
Assim, conforme Lima et al. (2022), o projeto destina-se para uma
população bastante específica: pobre e que se encontra em regiões de grande
vulnerabilidade social.
No dia 14/12/22, o então diretor de Políticas para Escolas Cívico-Militares da
Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação, Gilson Passos de
Oliveira, apresentou os resultados da avaliação do programa PECIM, incluindo
dados sobre o panorama das escolas antes e depois de sua efetivação. Durante a
apresentação, Gilson abordou assuntos relacionados à gestão, afirmando: "A nossa
realidade hoje é essa: somos 202 escolas atendendo a cerca de 120 mil alunos.
Podemos dizer que, de fato, o programa é nacional e está presente em todas as
unidades da federação".
De acordo com o site oficial do PECIM, em 2022, o programa possuía 39
unidades na região Norte, 37 escolas no Nordeste e 46 escolas no Sudeste. No
entanto, destaca-se que há inconsistências das notícias sobre o PECIM, pois há
divergências entre os números apresentados na própria reportagem que ora informa
26 escolas na região Sul, ora informa que essa região possui 54 escolas.
Conforme dados revelados pelo Ministério da Educação, em 2023, os
militares da reserva que atuavam no programa federal recebiam mensalmente
valores que variavam de R$2.657,00 reais (terceiro sargento) a R$9.152,00 reais
(coronel), de acordo com suas patentes, além de seus benefícios de aposentadoria.
42

Ao longo dos três anos de existência do programa, o orçamento disponibilizado


aproximou-se de 98,3 milhões de reais (Brasil, 2023).

Figura 01 - Remuneração mensal dos militares que atuam no PECIM

Fonte : Secretaria de comunicação social :NOTA TÉCNICA Nº 60/2023/DPDI/SEB/SEB: remuneração


mensal de militares providos pela Secretaria de comunicação social. (Brasil, 2023)
43

Figura 02 - Orçamento Anual PECIM para remuneração de militares reformados

Fonte: Secretaria de comunicação social: NOTA TÉCNICA Nº 60/2023/DPDI/SEB/SEB: Orçamento


anual do PECIM providos pela Secretaria de comunicação social (Brasil, 2023).

As tabelas chamam atenção para os valores financeiros significativos


aportados no projeto, nos quais uma parte considerável desses investimentos é
destinada ao pagamento dos militares, profissionais das Forças Armadas que não
possuem adequação para atuar na educação. Essa mesma nota técnica, por
ocasião do decreto para extinção do PECIM, justificava que, além disso, não havia,
até o presente momento, dados oficiais e efetivos que apontassem com clareza que
as escolas tivessem trazido alguma melhoria de aprendizagem.
O alto valor destinado ao pagamento dos militares envolvidos no Programa
PECIM levanta várias questões quanto à priorização dos recursos. Ao invés de
direcionar os investimentos diretamente para melhorias efetivas nas escolas, a maior
parte desse orçamento era destinada à remuneração desses profissionais, os quais
muitas vezes não possuíam formação na área da educação. Essa alocação de
recursos públicos resulta em um investimento em pessoal militar que se sobrepõe ao
investimento em profissionais da área, os quais certamente possuem uma formação
mais adequada para atuarem em busca de possivelmente uma educação de
qualidade, atendendo às demandas dos estudantes e da sociedade como um todo.
44

5.3.2 NOVOS RUMOS NO GOVERNO LULA

No dia 10 de julho de 2023, o presidente Lula iniciou o processo progressivo


de extinção do Programa federal das escolas cívico-militares (PECIM). O Ministério
da Educação (MEC) enviou um ofício às secretarias das escolas, solicitando que
iniciassem o processo de transição desse modelo e a retirada dos militares das
escolas. O ofício estabelece que:

2. A partir desta definição, iniciar-se-á um processo de desmobilização do


pessoal das Forças Armadas envolvidos em sua implementação e lotado
nas unidades educacionais vinculadas ao Programa, bem como a adoção
gradual de medidas que possibilitem o encerramento do ano letivo dentro da
normalidade necessária aos trabalhos e atividades educativas. (Brasil, 2023,
p. 1).

De acordo com o ofício, o MEC também solicita que as coordenadorias


regionais do programa se comprometam a realizar uma transição cuidadosa das
atividades, garantindo que o cotidiano escolar não seja comprometido e que as
conquistas de organização alcançadas pelo programa não sejam perdidas. Cada
rede de ensino será responsável por organizar e criar estratégias para reintegrar as
unidades educacionais à rede regular de ensino.

3. Aos Coordenadores Regionais do Programa e Pontos Focais das


Secretarias, em consonância com suas responsabilidades e atribuições,
compete zelar pela implementação das estratégias mais adequadas ao
cumprimento das diretrizes emanadas da Administração Superior, bem
como assegurar uma transição cuidadosa das atividades que não
comprometa o cotidiano das escolas e as conquistas de organização que
foram mobilizadas pelo Programa.(Brasil, 2023, p. 1).
45

4. As definições de estratégias específicas de reintegração das Unidades


Educacionais à rede regular de ensino será objeto de definição e
planejamento de cada Sistema.(Brasil, ,2023, p. 1).

O artigo 25 do Decreto 10.004/2019 estabelece que PECIM têm total


liberdade para estabelecer parcerias com diversas entidades públicas e privadas
para executar suas atividades. Essas parcerias podem ser firmadas com órgãos e
entidades da administração pública federal, estadual, municipal e distrital, bem como
com entidades privadas sem fins lucrativos. Este artigo, ao lado de outros fatores,
impulsionou a criação de escolas cívico-militares propostas e mantidas pelos
estados e municípios, para além do programa do governo federal. Diante disso, a
reação de estados e municípios foi imediata no sentido de assegurar a manutenção
de seus programas, indicando um significativo enraizamento do processo de
militarização da educação para além do PECIM.
Em resposta ao ofício que estabelece a extinção progressiva do PECIM
(Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares) pelo governo federal e a brecha
do criado do Art. 25 do Decreto 10.004/2019, o governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas (REPUBLICANOS), anunciou a criação de um programa estadual de
escolas cívico-militares. De acordo com o jornal Folha de São Paulo, além de
Tarcísio, outros governadores como Ratinho Júnior (PSD) do Paraná e Ibaneis
Rocha (MDB) do Distrito Federal e Claúdio Castro (PL) do Rio de Janeiro, já haviam
anunciado que manteriam seus programas. Esses quatro governadores mantinham
um alinhamento com o governo anterior de Jair Messias Bolsonaro.
Ao longo dos dias que seguiram a divulgação do ofício, realizamos análises
adicionais de documentos e consultamos portais de notícias para identificar quais
estados se posicionaram a favor ou contra o oficio federal. Segundo o portal de
notícias Carta Capital (2023), um levantamento realizado até o dia 14 de julho de
2023 revelou que pelo menos 19 estados têm a intenção de manter ou até ampliar
as Escolas Cívico-Militares (ECIM), contrariando a posição do governo federal.
A decisão mencionada na reportagem é vista como uma oportunidade para
ganhar o apoio dos eleitores de direita nas próximas eleições. A reportagem se
refere a um grupo de estados que inclui Acre, Pará, Mato Grosso, Maranhão,
Tocantins, Piauí, Bahia, Pernambuco, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de
46

Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Goiás. Vale destacar que, embora
muitos estados tenham manifestado apoio ao governo federal através de um ofício,
eles não suspenderam o programa em suas áreas, sendo esses estados o Distrito
Federal, Roraima, Ceará, Paraíba e Espírito Santo.
Nove dias após o presidente Luiz Inácio da Silva ter iniciado o processo de
extinção do programa cívico-militar, a partir do ofício, no dia 19 de julho de 2023, foi
publicado o Decreto nº 11.611, revogando, enfim é oficialmente, o Decreto nº 10.004
de 5 de setembro de 2019, que havia criado o programa das escolas cívico-militares.
Como já dito anteriormente, todavia, a extinção do projeto a nível federal não
encerra o processo de militarização da educação, que passa a ser fortalecido e
ampliado em muitos estados, como é o caso de Santa Catarina. Na próxima seção,
nos dedicamos justamente a abordar mais centralmente os dados obtidos na
pesquisa, que versa justamente sobre o avanço dessa proposta no estado
supracitado

6 ANÁLISE DOS DADOS

Ao longo do nosso trabalho, realizamos diversos levantamentos de dados e


documentos relacionados ao programa do PECIM. Nesta etapa, iremos realizar a
análise dos dados.
Nossas análises se dividem em dois eixos principais: o estado atual do
processo de militarização em SC e os desdobramentos sobre os currículos
escolares nesse projeto educacional.
Após a análise de documentos e o levantamento inicial, procedemos à
aplicação de um questionário3 junto à Secretaria da Educação, composto por um
total de 14 perguntas. Essa abordagem foi orientada pelo nosso interesse e objetivo
de pesquisa, que visa compreender o status atual do processo de adesão ao PECIM
em Santa Catarina, mesmo após seu encerramento.
É importante adiantar que, devido a limitações de tempo, não conseguimos
ter acesso aos currículos das escolas que aderiram ao PECIM em SC. Por isso,
utilizaremos o documento "Diretrizes das Escolas Cívico-Militares" como base e guia

3
Questionário está na seção de apêndices
47

para entendermos melhor como o modelo é implementado nessas escolas e seus


desdobramentos para o campo do currículo. Através desse documento, podemos
obter um maior entendimento de como o modelo funciona e é aplicado, incluindo os
projetos que influenciam e moldam o currículo dessas escolas. Nossa análise do
documento será embasada em autores de referência na área de currículo, como
Apple (2006),Silva (1999), Sacristán (2007) e Santos ( 2020) , o que nos permitirá
demonstrar como essas diretrizes se dispõem a impactar no currículo escolar das
instituições que aderiram ao programa.
Iniciamos este capítulo apresentando como o processo de militarização da
educação em SC vem ocorrendo.

6.1 O AVANÇO DA MILITARIZAÇÃO EM SC

Dada a característica e natureza das escolas, podemos dizer que a


militarização em SC se inicia com a criação dos colégios militares.
Santa Catarina apresenta uma rede de colégios militares pertencentes ou
chamados de "Colégios Policiais Feliciano Nunes Pires". Suas atividades tiveram
início em 15 de outubro de 1984, conforme a Portaria Nº 086/84/SSE, que autoriza o
funcionamento do ensino médio, e a Portaria Nº 103/84/SSE, que autoriza o
funcionamento do ensino fundamental. O nome da instituição é uma homenagem ao
presidente da província de Santa Catarina, que em 1893 criou a Força Pública,
atualmente conhecida como a Polícia Militar do estado.
A filosofia da rede de colégios militares policiais Feliciano Nunes Pires
baseia-se em pilares fundamentais: o culto à verdade, à justiça, à fraternidade e à
disciplina, que são as normas que regem a escola. Esses colégios seguem o padrão
dos colégios militares brasileiros, alinhando-se às diretrizes das disciplinas dos
policiais militares estaduais ou das Forças Armadas, sem modificar o programa das
disciplinas estabelecidas pela Secretaria de Estado da Educação. Além disso,
segundo o exposto no PPP disponível no site da escola, promovem a instrução geral
da Polícia Militar (IGPM), “exercitando o senso coletivo e preparando os estudantes
48

para a cidadania, incluindo conhecimentos de primeiros socorros, socorros, trânsito,


Código de Defesa do Consumidor, Código Penal, Constituição, Estatuto da Criança
e do Adolescente, além de canções e hinos”” (PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO
COLÉGIO POLICIAL MILITAR FELICIANO NUNES PIRES, 2018)
Na Proposta Pedagógica (PPP), fica evidente que a disciplina é um fator
necessário e deve ser constantemente reforçada pelos educadores, pois “sua
ausência pode ser prejudicial ao desenvolvimento pedagógico e ao sucesso escolar”
(PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO COLÉGIO POLICIAL MILITAR FELICIANO
NUNES PIRES, 2018). Essas instituições também atendem com prioridade os filhos
de militares estaduais de Santa Catarina, com preferência aos policiais militares
funcionários da PMSC e professores da rede de Colégios Militares Felicianos Nunes
Pires.
A organização escolar do colégio envolve toda a equipe de direção, sendo
que o cargo de diretor e subdiretor é reservado e privativo de oficial superior da PM.
Além disso, o serviço de monitoria é reservado aos oficiais da PM
(subtenentes/sargentos), que fiscalizam e acompanham as atividades dos alunos.
Os Colégios Policiais Feliciano Nunes Pires têm unidades em Florianópolis,
Lages, Joinville, Blumenau e Laguna.
Todavia, o processo de militarização em SC dá um salto significativo com a
inserção do PECIM, em 2019, que trouxe influências para todo o estado, expandindo
a rede de escolas cívico-militares, como será abordado a seguir.
Os dados obtidos apontam que, a partir de 2019, houve adesão ao
programa por parte de 21 escolas, sendo 9 escolas estaduais e 12 escolas
municipais.

Tabela 02 - Escolas Cívico-Militares (PECIM) EM Santa Catarina

Nome da escola Cidade Ano de adesão Rede

EEB Emérita Duarte Silva e Souza Biguaçu 2020 ESTADUAL


49

EEB Ângelo Cascaes Tancredo Palhoça 2020 ESTADUAL

EEB Prof. Irene Stonoga Chapecó 2020 ESTADUAL

EEB Prof. Jaldyr Bhering Faustino da São Miguel do 2020 ESTADUAL


Silva Oeste

EEB Cel Pedro Christiano Feddersen Blumenau 2020 ESTADUAL

EMEB Maria Linhares de Souza Itapema 2020 MUNICIPAL

Escola Básica Melvin Jones Itajaí 2020 MUNICIPAL

EEB Joaquim Ramos Criciúma 2021 ESTADUAL

EEB Henrique Fontes Tubarão 2021 ESTADUAL

Escola Municipal Presidente Castello Joinville 2021 MUNICIPAL


Branco

EEB Cora Batalha da Silveira Lages 2022 ESTADUAL

EEB Ildefonso Linhares Florianópolis 2022 ESTADUAL

Escola Municipal CAIC Irmã São Francisco do 2022 MUNICIPAL


Joaquina Busaretto sul

Escola Vereador Raimundo Veit Maravilha 2022 MUNICIPAL


50

Núcleo de Educacional João Porto União 2022 MUNICIPAL


Fernando Sobral

Centro Educacional Roberto Rio do sul 2022 MUNICIPAL


Machado -

EMEB Antônio Joaquim Henriques - Lages 2022 MUNICIPAL

EEB Jurema Hugem Palma São Joaquim 2022 MUNICIPAL

Escola de Ensino Fundamental Brusque 2022 MUNICIPAL


Paquetá

EMEB Prefeito Francisco Vito Alves Itapema 2022 MUNICIPAL

CEM Professor Antônio Lúcio Balneário 2022 MUNICIPAL


Camboriú

Fonte: Elaborado pelo autor(2024).

O questionário obtido junto à Secretaria Estadual de Educação de SC,


versa justamente sobre as escolas estaduais e será sobre este contingente de
escolas militarizadas de SC que apresentaremos dados mais aprofundados, uma
vez que não foi possível contatar cada uma das secretarias municipais envolvidas,
tendo em vista o limite de tempo deste estudo.

A seguir está a tabela que apresenta, então, 9 escolas estaduais que


aderiram ao programa PECIM no período de 2019 até 2023, conforme a SEd:

Tabela 03 - Escolas Estaduais aderiram ao Pecim

Nome da Escola Cidade Adesão

EEB Emérita Duarte Silva e Souza Biguaçu 2020


51

EEB Ângelo Cascaes Tancredo Palhoça 2020

EEB Prof. Irene Stonoga Chapecó 2020

EEB Prof. Jaldyr Bhering Faustino da São Miguel do Oeste 2020


Silva

EEB Cel Pedro Christiano Feddersen Blumenau 2020

EEB Joaquim Ramos Criciúma 2021

EEB Henrique Fontes Tubarão 2021

EEB Cora Batalha da Silveira Lages 2022

EEB Ildefonso Linhares Florianópolis 2022

Fonte: Feita pelo autor(2024).

De acordo com o questionário, “A Secretaria de Estado de Educação não possui


gerência sobre as escolas municipais e seus programas”. (Gestora Seed/SC))”.

O questionário forneceu informações valiosas sobre a implementação desse


formato educacional no estado. A resposta ao questionário, combinada com o que
foi reportado nos principais portais de notícias e reportagens de Santa Catarina,
permitiu um processo coeso de obtenção de dados.
A pesquisa evidenciou que a adesão ao PECIM em SC seguiu as normativas
do projeto, associado com critérios estabelecidos localmente.
No documento "O PROGRAMA NACIONAL DAS ESCOLAS CÍVICO-MILITARES: DA
CONCEPÇÃO DO MODELO AOS PRIMEIROS RESULTADOS" (BRASIL, 2019), é
apresentado o modelo do PECIM e para qual tipo de escola o programa se
destinava, conforme demonstrado pelo trecho a seguir:.

O programa proposto pelo MEC [...] propõe um modelo de gestão escolar de


excelência voltado para escolas que apresentem duas características: a)
Alunos em situação de vulnerabilidade social, onde normalmente se verifica
a ocorrência de altos índices de violência, influência do tráfico de drogas,
prostituição, baixos índices de saneamento urbano e precariedade de
condições habitáveis; b) Escolas com IDEB inferior à média municipal,
estadual ou nacional. (MEC,2022)
52

Entretanto, além dessas características pré-estabelecidas pelo programa


nacional, em SC para as escolas ingressarem ao projeto, de acordo com as
informações obtidas junto à Secretaria Estadual de Educação, se estabeleceu que
seria necessário a aprovação da comunidade. O trecho do questionário a seguir,
ilustra essa questão.

Em 2021 e 2022 foram indicadas escolas que manifestaram interesse no


programa e atendiam aos requisitos do MEC. Em seguida, houveram
assembleias com toda a comunidade escolar e votação sobre a adesão ou
não ao Programa. ( Gestora Seed/SC)).

No contato inicial feito junto à Secretaria e, a gestora informou que houve


uma amplo interesse no projeto por parte de diversas escolas estaduais e também
de municípios e que são frequentes as consultas à Secretaria para verificar a
viabilidade de adesão ao projeto. Como demonstrado em alguns trabalhos de
autores e autoras da área, o formato do ensino militarizado tem sido bem recebido
por diversas comunidades escolares, sobretudo, mais carentes. Essas
comunidades, justificam essa escolha devido à percepção de que o ensino
militarizado representaria uma espécie de "salvação". Ou seja, este modelo de
escola ofereceria, em tese, mais segurança para os e as estudantes e suas famílias.
Nessas escolas , geralmente, há forte presença de evasão escolar, problemas
relacionados à drogas e violências. Ao se depararem com esses desafios, e com a
ausência de outras alternativas efetivas de melhoria por parte do Estado, as
comunidades passam a perceber a militarização da escola como uma possibilidade
interessante de superação dessas problemáticas. Assim houve intensa
movimentação de diversas escolas para adoção desse modelo de ensino. Ademais,
a grande promessa de melhoria na qualidade de ensino e de maior organização e
disciplina também, tornam-se atrativos para que as comunidades tenham uma
percepção positiva do projeto, conforme argumenta Mendonça.

As supostas credibilidade e eficácia dessas escolas, aliadas ao rigoroso


controle disciplinar e ao respeito à hierarquia, além da valorização do
civismo seriam razões suficientes para entregar a gestão da escola pública
à corporação dos policiais militares ( Mendonça,2019).
53

Assim, podemos dizer que a militarização da educação em SC avançou


substancialmente em SC após a inserção do Pecim e mesmo após a extinção oficial
do programa, este projeto permanece firme e com vistas de ampliação.

Conforme relatado pela NSCtotal no dia 12 de julho de 2023 (SC VAI NA


CONTRAMÃO DO GOVERNO FEDERAL E QUER MANTER ESCOLAS
CÍVICO-MILITARES, 2023) em Santa Catarina, o estado pretende manter as escolas
cívico-militares estaduais, mesmo sem o apoio do governo nacional. A Secretaria de
Estado da Educação (SED) planeja sustentar as instituições com seus próprios
recursos financeiros. Isso indica que o estado está disposto a arcar com os custos e
manter as escolas funcionando, mesmo sem o suporte financeiro proveniente de
Brasília.
De acordo com entrevista concedida pela diretora de ensino de Santa
Catarina ao NSCtotal, Sonia Fachini, em 2023, o estado tem a intenção de continuar
com o programa das escolas cívico-militares utilizando seus próprios recursos. Ela
afirma: "Queremos dar continuidade às unidades escolares que atualmente estão
nesse modelo e, ao mesmo tempo, dar oportunidade a outras escolas de seguirem o
mesmo modelo" (SC VAI NA CONTRAMÃO DO GOVERNO FEDERAL E QUER
MANTER ESCOLAS CÍVICO-MILITARES, 2023). Isso demonstra o compromisso de
Santa Catarina em manter as escolas cívico-militares na rede estadual em
funcionamento e expandir esse modelo para outras instituições de ensino estaduais.
Conforme os dados obtidos, o programa das escolas cívico-militares em
Santa Catarina passará por uma mudança de nome, mantendo um formato
semelhante ao PECIM (Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares) e se
chamará Programa Estadual das Escolas Cívico-Militares. A principal diferença atual
do projeto será a ausência de apoio federal, com a participação dos militares sendo
exclusivamente relacionada ao governo estadual. Isso significa que o programa será
mantido com recursos e esforços próprios do governo de Santa Catarina,
aproveitando a brecha do artigo 25 do Decreto 10.004/2019, que estabelece
parcerias com diversas entidades públicas e privadas para executar as atividades.
Essas parcerias podem ser estabelecidas com órgãos e entidades da administração
pública federal, estadual, municipal e distrital, bem como com entidades privadas
sem fins lucrativos.
54

Quando questionamos como está o novo projeto ou quais seriam as novas


rupturas do projeto original, a gestora nos comunicou que de fato a vigência do
PECIM em Santa iria até o final de 2023, entretanto o novo programa estadual não
foi lançado “ O PECIM está em vigência até final de 2023 e Santa Catarina ainda
não lançou o Programa Estadual” (Gestora SEEd/SC). Segundo ponto a ser
questionado foi se existiria algum documento que seria norteador para esse novo
projeto, e se poderíamos ter acesso ao mesmo. A resposta que obtivemos foi de
que “ Não podemos divulgar ainda as informações do novo programa.”
Como mencionado nos parágrafos anteriores, à época da coleta de dados,
não tínhamos uma resposta da própria gestão sobre o novo projeto. na ocasião
fomos informados que inicialmente que o governo de Santa Catarina garantiria até o
final de 2023 a manutenção do PECIM nas escolas que já funcionavam com o
projeto e que atuaria com celeridade para aprovar o projeto estadual para 2024. De
fato, ao final de 2023, o governo cria o projeto estadual, publicado no Diário Oficial
do Estado de Santa Catarina, de 22 de dezembro de 2023. Em uma série de
decretos do governador Jorginho Mello, o Decreto Nº 426, de 22 de dezembro de
2023, institui o Programa Estadual das Escolas Cívico-Militares, cujo “objetivo
central é a melhoria do ensino público da rede estadual, com parceria entre a SED e
apoio da SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública), em colaboração com a
PMSC e o CBMSC (Corpo de Bombeiros)”. Nesse programa, os militares exerceram
a função oficial de gestão escolar e de monitores nas unidades que aderirem ao
programa (Diário Oficial do Estado de Santa Catarina, 2023).
O decreto estabelece que as escolas que têm a preferência são aquelas com
baixo índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Neste formato de educação,
inspirado no PECIM, os monitores - MILITARES - atuarão como responsáveis por
desenvolver e aplicar atividades que visam difundir valores humanos e cívicos.
Neste modelo, os militares que atuarem no ensino fundamental terão,
semanalmente, uma aula cujos temas serão transversais, ministrada por um militar
da reserva, com a presença de um professor que integra o projeto Valores, conforme
trabalhado nos artigos 13,14 e 15 do documento.
Art. 13. Os monitores, militares da reserva estadual, atuarão como
responsáveis por desenvolver e aplicar atividades com vistas a difundir
valores humanos e cívicos que estimulem o aluno a desenvolver bons
55

comportamentos e atuem em sua formação como cidadão, no ambiente


escolar e também fora dele
.Art. 14. No Ensino Fundamental, os estudantes terão semanalmente uma
aula, cujos temas serão transversais, ministrada por um militar da PMSC ou
do CBMSC, uniformizado, com a presença e o auxílio de professor
integrante do Projeto [Link].
15. No Ensino Médio, o professor do Projeto de Vida será responsável pela
abordagem dos temas com os estudantes, apoiado pelos monitores da
PMSC ou do CBMSC (Diário Oficial do Estado de Santa Catarina, 2021, p.
45).

Evidencia-se que o projeto estadual aprovado em 2023 e já vigente nas


mesmas escolas listadas, mantém a lógica, a organização, os objetivos e princípios
do PECIM, incluindo a previsão de incidências sobre o currículo escolar por meio de
projetos já mencionados no PECIM. Assim, fica claro que o avanço da militarização
da educação segue em SC, expressão do conservadorismo em nossa sociedade.

A Secretaria da Educação informou que as escolas que aderiram ao


programa atenderam aos critérios estabelecidos nas diretrizes legais e nos
documentos orientadores do PECIM. Questionamos sobre o funcionamento dessas
escolas e se seguiam alguma legislação/orientação específica. Segundo a
Secretaria,
Essas escolas são parte da rede estadual, estão em conformidade com
toda a legislação e orientações aplicáveis a todas as escolas da rede.
No entanto, estão implementando o Programa conforme o manual do
MEC de 2021. Em casos de conflito entre as diretrizes do Programa, a
legislação vigente, as orientações e o currículo da rede estadual,
prevalecem as normativas da rede estadual". (Gestora SEEd/SC).

A secretaria informou que as escolas estaduais acatam as diretrizes e que,


quando há alguma divergência, prevalecem as orientações estaduais. Embora não
tenha sido fornecida nenhuma exemplificação, a gestora afirmou que orienta-se que
as escolas sigam o currículo estadual e o calendário estadual. Fica subentendido
que o programa nacional foi implementado no estado de SC conforme os
documentos norteadores, sem profundas alterações ou adaptações.

A inclusão de militares no PECIM é um componente fundamental do


programa, no qual militares aposentados ou candidatos estão presentes no cotidiano
56

institucional, participando da rotina e da gestão escolar, como podemos observar


neste organograma disponibilizado nas Diretrizes do PECIM

Figura 03 - Organograma de funcionamento das Escolas Cívico-Militares

Fonte: Diretrizes das escolas cívico-militares-2ed, p 179.

Segundo o documento “DIRETRIZES DAS ESCOLAS CÍVICO-MILITARES”,


os militares, que são também denominados como“ Monitores”, exercem a seguinte
função:

Os monitores escolares exercerão o papel de tutora que muitos alunos não


tiveram em seus ambientes familiares, proporcionando acolhimento, diálogo,
dando o exemplo e servindo de referência, aspectos esses tão necessários
57

ao desenvolvimento do aluno como pessoa [...] objetivo dos monitores é


contribuir, especialmente, na formação ética, afetiva, social e simbólica, com
palestras, bate papos, relatos de experiências vividas, exigência do
cumprimento das normas escolares, orientações e retiradas de dúvidas dos
alunos sobre diferentes assuntos, motivação para a vida profissional e
desenvolvimento de valores como honestidade, responsabilidade, respeito
etc. (Diretrizes das Escolas Cívico-Militares,2021, p. 84-85)

Embora haja uma tentativa de inclusão de militares como "monitores" e


"tutores", o que poderia sugerir uma participação apenas com fins de organização e
controle da rotina escolar, o próprio documento indica que a atuação desses
profissionais ocupa a centralidade desse projeto educacional. Ademais, o objetivo da
presença dos militares é justamente a introdução do ambiente escolar a um
ambiente militarizado. Essa abordagem pode ser vista como uma estratégia, que
visa a difusão e legitimação de determinados valores e princípios . O trecho a seguir
evidencia claramente a centralidade e a relevância dos militares, ora chamados
como monitores, nas escolas militarizadas.

Os monitores cooperam nas ações pedagógicas e atuam nas dimensões


afetiva, social, ética e simbólica da gestão escolar.
§ 2º O Corpo de Monitores é o setor da escola composto pelo Oficial de
Gestão Educacional e pelos monitores da escola.
§ 3º A Gestão Educacional promove atividades, com vistas à difusão de
valores humanos e cívicos para estimular o desenvolvimento de bons
comportamentos e atitudes do aluno e a sua formação integral como
cidadão, em ambiente escolar externo à sala de aula (Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares,2021, p .13, grifos nossos)

Pretende-se, de acordo com os documentos, que esses militares “sirvam


como referência ou mecanismo de reeducação para os alunos que vivem em
ambientes disfuncionais”. Sugere-se, assim, que a escola e seu corpo docente têm
sido ineficazes no enfrentamento de diversas questões. Mais do que isso, o projeto
em si, parte do pressuposto que muitos desses alunos e alunas precisam ser
reeducados, corrigidos, controlados, colocando sobre os sujeitos exclusivamente a
responsabilidade pelas dificuldades escolares que sabemos, são de natureza ampla
e complexa. Surge a questão: seria realmente mais eficaz impor a presença de
58

militares para essa finalidade? Ou seria mais apropriado contar com uma equipe
pedagógica, composta por profissionais especializados, que possuem a formação e
as habilidades necessárias para lidar com essas questões. Esta equipe estaria mais
apta a compreender as dificuldades enfrentadas pelos alunos, proporcionando um
acolhimento e integração mais eficazes. A presença dos militares sugere muito mais
uma ênfase no controle do que na resolução dos problemas dos alunos.
Além disso, os documentos orientadores sugerem que os militares, além do
suposto acompanhamento da rotina, podem realizar atividades pedagógicas,
conforme trecho a seguir:
§ 3º A Gestão Educacional promove atividades, com vistas à difusão de
valores humanos e cívicos para estimular o desenvolvimento de bons
comportamentos e atitudes do aluno e a sua formação integral como
cidadão, em ambiente escolar externo à sala de aula (Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares,2021, p. 13).

Com relação a esse aspecto, em SC, a gestora afirma de forma evasiva que
as funções dos militares nas escolas estaduais são aquelas previstas nos
documentos. Segundo ela, 'São as funções descritas no manual do programa”. Além
disso, questionamos se os militares ministravam alguma disciplina ou projetos nas
escolas estaduais. A resposta obtida em nosso questionamento é de que “ Não
Ministram nenhuma disciplina”. Não foi possível confirmar esta informação junto às
escolas neste estudo, todavia, como já indicado, os próprios documentos do projeto
fornecem indicativos que a atuação dos militares alcança também a parte
pedagógica das escolas.
É importante lembrar que, para atuar em uma sala de aula, o profissional da
educação passa por uma formação específica na área em que deseja atuar. Além
disso, na própria Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, consta que:

Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em


nível superior, em curso de licenciatura plena, admitida, como formação
mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos cinco
primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na
modalidade normal. (Brasil,1996)
59

Possuir formação em nível superior, obtida em curso de licenciatura, é


necessário para atuar no ensino fundamental e médio, na área específica desejada,
como Matemática, Ciências, Biologia, Física, Química e Português. Em algumas
situações, como na Educação Infantil, a formação em Pedagogia é necessária. Logo,
a principal legislação educacional brasileira aponta para a necessidade de formação
específica para atuar nas escolas, o que se contrapõe ao proposto nas escolas
militarizadas, onde profissionais da área da segurança acabam sendo autorizados a
atuarem em funções pedagógicas, para as quais não possuem formação adequada.
Embora a gestora tenha informado que no caso de SC os militares não
ministrariam disciplinas específicas, fica subentendido, a partir do documento, que
os mesmos poderiam desenvolver projetos extracurriculares, uma vez que o
documento previa esta possibilidade. Nas diretrizes consta que os militares
poderiam atuar de forma conjunta com os professores na criação de projetos como “
projeto valores” e "momento cívico”. Voltaremos a essa questão no próximo eixo de
análise currículo e o impacto.
Os dados sugerem que os militares estão presentes nas escolas de SC como
figuras de autoridade e controle, que atuam na propagação de princípios
subjacentes a um ambiente e formação militar,como evidenciado no próprio
documento, no qual são apresentados os valores pelos quais os militares se pautam
[...]Conforme consta no Estatuto dos Militares (Lei nº 6.880/1980), são
manifestações essenciais do valor militar:
– o patriotismo;
– o civismo; – a fé na missão;
-o espírito de corpo;
– o amor à profissão das armas; e
– o aprimoramento técnico-profissional. (Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares,2021, p. 82-83).

Ao incorporar esses valores não apenas no ambiente escolar, mas também


nos alunos, de acordo com uma visão militar, a ausência de formação acadêmica
desses militares pode comprometer a eficácia da abordagem educacional, criando
um ambiente similar ao de um quartel. Como já sinalizado, um ambiente altamente
hierarquizado e policialesco se contrapõe frontalmente a um ambiente democrático.
60

A gestão democrática, de acordo com Veiga (2009), envolve a superação de


práticas administrativas tradicionais, trabalhando com a criação de um ambiente
escolar inclusivo, com a capacidade de enfrentar problemas de exclusão,
reprovação e evasão escolar. A gestão democrática ocorre pelo trabalho conjunto da
comunidade escolar, atendendo aos interesses de todos. Veiga (2004) fala que a
gestão democrática repensa o poder e a estrutura da escola para promover um
ambiente coletivo, pautado em valores como solidariedade, reciprocidade e
autonomia. Dessa forma, entendemos que a gestão democrática promove um
ambiente escolar transparente, inclusivo e livre, fundamentado no diálogo e em uma
gestão escolar coletiva e que esse modelo de gestão promove a autonomia e
empodera os alunos, trabalhando em conjunto com pais e professores, e criando um
ambiente inclusivo que oferece oportunidades a todos (Veiga, 2009). Claramente, os
pressupostos de uma escola democrática se contrapõem ao contexto de uma escola
militarizada.

6.2 CURRÍCULO

Neste eixo, realizamos uma análise da influência da militarização no currículo


das escolas a partir do documento norteador "Diretrizes das Escolas Cívico-Militares
2 ed.". Analisamos se houve alguma influência no currículo prescrito ou oculto, além
de investigarmos tentativas de inserção de projetos ou atividades no currículo
dessas escolas. Através desse documento, buscamos obter um maior entendimento
de como o modelo funciona e é aplicado, incluindo os projetos que influenciam e
moldam o currículo dessas instituições de ensino.
O currículo, é um dispositivo estruturante das funções da escola e por meio
dos conteúdos que intencionalmente seleciona, atua na construção dos sujeitos e da
própria sociedade. Ele é composto pelo currículo oficial, formalmente prescrito como
pode ser chamado, e também pelo currículo oculto, que influencia de forma
simbólica, preenchendo lacunas ou espaços deixados pelo currículo oficial. Não
necessariamente o currículo oculto precisa seguir o que os documentos e diretrizes
nacionais exigem, porém ambos desempenham um papel importante na formação
dos alunos. (Silva, 1999)
61

Para realizarmos a análise sobre os possíveis impactos no currículo escolar,


nesta pesquisa nos deteremos no documento que foi utilizado como guia para as
escolas estaduais, uma vez que não tivemos acesso às escolas.
Quando questionada, a Secretaria da Educação sobre se houve alguma
influência ou mudança no currículo, ou se houve influência de outros documentos
nas escolas que aderiram ao PECIM, obtivemos a resposta de que “Não houve
nenhuma adaptação ou alteração.” (Gestora Seed/SC) e que as escolas são
orientadas a utilizarem “O currículo do Território Catarinense e as legislações que
respaldam a Secretaria de Estado da Educação". De acordo com ela, ”não há
diferença [no que concerne ao currículo] em relação às demais escolas da rede.”
(Gestora Seed/SC).
Entretanto, o documento guia do PECIM intitulado 'DIRETRIZES DAS
ESCOLAS CÍVICO-MILITARES [Link]',estabelece que existem alguns projetos que
devem ser desenvolvidos nas escolas que aderiram ao programa. Em nossas
análises, entendemos que, do ponto de vista do que estamos denominando de
currículo prescrito, essas atividades descritas nas diretrizes do PECIM como
“projetos”, são a mais explícita tensão imposta aos currículos dessas escolas. É por
meio deles, que o documento disputa claramente “um lugar” no currículo para
formalizar aprendizagens relacionadas à lógica militar. Por exemplo, o projeto
'Valores'. O programa tem como objetivo principal incluir na grade horária dos alunos
pelo menos 1 hora semanal de aula, destinada à aprendizagem de “valores”
considerados fundamentais a essas escolas. No documento, há um capítulo próprio
para o 'Projeto de Valores', cujo objetivo principal, conforme descrito, é resgatar os “
valores éticos e cívicos”

Nesse sentido, o Projeto Valores será implementado, tendo em vista o


resgate desses valores éticos e cívicos primordiais, para a formação
humana e o desenvolvimento integral do aluno. (Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares, 2021, p. 73).

Além desses diversos valores, o projeto deverá ser ministrado pela


coordenação pedagógica e pelo corpo de monitores. O documento não especifica,
no entanto, o modo como devem ocorrer essas atividades.
62

O segundo projeto a ser desenvolvido e incorporado ao currículo das escolas


ECIMS, conforme as Diretrizes, é o "Projeto Momento Cívico", voltado para os
alunos do ensino fundamental e médio. Seu principal objetivo é “resgatar o amor
pelos símbolos nacionais e oferecer uma formação integral embasada em valores
sólidos”, como vemos a seguir. O Projeto Momento Cívico visa

resgatar o amor pelos símbolos nacionais; – proporcionar ao aluno uma


formação integral, baseada em valores;desenvolver o hábito de cantar os
hinos cívicos; – melhorar o ambiente escolar, desenvolvendo atitudes de
respeito com a coletividade; e incentivar a participação da comunidade nos
eventos cívicos realizados pela escola (Diretrizes das Escolas
Cívico-Militares, 2021, p. 189).

Ao analisar os objetivos do ”Projeto valores” e do “Projeto Momento


Cívico”, destacamos a relevância que o mesmo propõe à importância do resgate do
patriotismo e do culto aos símbolos nacionais, bem como a introdução do hábito de
cantar hinos cívicos, rituais comuns no contexto militar realizados nos quarteis.
Essas atividades visam priorizar a promoção do comportamento cívico e o respeito
aos emblemas e atividades militares. Claramente, há um movimento intencional de
propagação de princípios do militarismo, o que podemos entender também como
componente estruturante do currículo prescrito e oculto desse projeto (Lima, et al,.
2022).
Na ótica do projeto conservador, podemos dizer que esse resgate dos valores
cívicos e nacionais, como o patriotismo, tem sido percebido como perdido nas
escolas públicas, sendo visto como indisciplina e perda de valores. Para os
conservadores, a retomada desse projeto de valorização do civismo é essencial para
restaurar a ordem e a eficácia do ensino público (Santos, et al,. 2021).
Essa ideologia atua principalmente a partir do currículo oculto. Expressa-se
através de rituais, regras, gestos e práticas corporais e organizacionais. Assim,
aprende-se essa ideologia através de práticas sistemáticas cotidianas, contribuindo
para uma aprendizagem implícita. Uma das fontes de constituição do currículo oculto
ocorre por meio das relações sociais na escola, incluindo a relação entre alunos e
professores, ou entre quem ministra os projetos, os quais são responsáveis por
transmitir e ensinar esses comportamentos e valores (Silva,1999).
63

Assim, é evidente que o projeto apresenta inúmeros efeitos para o campo do


currículo, uma vez que os alunos e alunas são imersos em um ambiente perpassado
por uma lógica militarizada.
Além desse processo de imposição das práticas dos quarteis, há também a
regulamentação da aparência física, que é imposta como padrão militar, afetando
tanto alunos quanto professores (Mendonça, 2019). Essas discussões, são
encontradas em outros trabalhos de referência e entendemos que também são
elementos que influenciam no campo do currículo, especialmente o oculto, e suas
disposições para atuar na formação dos sujeitos e suas subjetividades.
De acordo com Santos e Vieira (2019) o controle da linguagem corporal não
se limita à postura, movimentos, gestos e ações do corpo; ele também inclui um
aspecto visual, relacionado à aparência, permitindo-nos falar de um “ corpo padrão” .
As normas estabelecem critérios para vestimentas, calçados, acessórios, cortes de
cabelo e penteados, maquiagem, e cor e tamanho das unhas. Por meio de
permissões e proibições, promovem a padronização e uniformização dos corpos. Na
prática, isso resulta em uma estética da aparência cujo objetivo é comunicar e
identificar os corpos, moldá-los para criar uniformidade e eliminar diferenças
(Santos; Vieira, 2019).
Desse modo, Santos e Vieira (2019) falam que o ensino cívico-militar, como
já mencionado, exerce controle sobre a linguagem corporal e também molda o
comportamento, visando à formação de um padrão específico de conduta. Trata-se
de uma educação cujo objetivo é formar indivíduos cujas ações, caráter, moral e
hábitos se alinhem com os padrões normativos estabelecidos.
Dessa forma, através da regulamentação das condutas estudantis, a
liberdade é monitorada para prevenir desvios comportamentais, e qualquer
comportamento indesejado deve ser sancionado, incluindo, entre as possíveis
punições, a exclusão da escola(Brito; Rezende, 2019).
É sabido que, na modernidade, a escola se estabeleceu como um espaço
central para a aplicação do poder disciplinar, tornando-se essencial para a formação
de corpos dóceis e úteis ao sistema capitalista, além de ser um local de resistência a
esses processos (Brito; Rezende, 2019). No trabalho de Rêses e Paulo (2019), a
militarização de escolas estaduais visa a promoção de uma "cura" social, banindo
qualquer tipo de comportamento que vá contra os valores e a ordem, criminalizando
64

o aluno e tratando-o como um potencial agente do caos, necessitando, assim, de


uma intervenção e salvação. Nesse ponto, entram os militares com a "cura" social
para tornar o aluno "socialmente aceito".
Os autores Ximenes, et al., (2019) defendem uma gestão democrática, que
preza pela participação nas definições do Projeto Político Pedagógico (PPP), o qual
deve ser definido de forma plural por todos e pela própria comunidade escolar. Os
princípios da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a
arte, o saber e o pluralismo de ideias são essenciais. Em um ambiente de controle,
não há espaço para o desenvolvimento do pluralismo de ideias (Ximenes, et al.,
2019). Assim, existe uma disputa de concepções pedagógicas: de um lado, uma
dimensão de qualidade que dialoga com o pluralismo de ideias, pensamento, arte e
saber; de outro, um regime de controle e padronização, onde há falta de expressão
e silenciamento. Nesse ponto, é inconcebível que uma educação livre e de
qualidade fique impedida de existir, pois não haverá liberdade de expressão e de
práticas pedagógicas (Ximenes, et al., 2019).
A Militarização, assim, é vista como uma alternativa eficaz para restabelecer a
tradição, a moral, a autoridade e o patriotismo, que, na visão conservadora, foram
perdidos no caos da escola pública devido à sua abertura para a diversidade e à
suposta ineficiência e falta de controle dos professores, através de dispositivos
disciplinares e do próprio currículo ( Santos, et al., 2022).
Por fim, reiteramos que embora a gestora negue alterações no âmbito do
currículo oficial, o documento orientador do programa prevê a criação de projetos e a
destinação de carga horária ampliada, para a garantia de atividades atinentes aos
princípios militares. O que claramente evidencia um tensionamento no currículo
escolar.
Esse tensionamento no currículo escolar faz parte de uma agenda
conservadora cujo objetivo central é o resgate de valores tradicionais. Sua
manifestação é notável pela orientação ideológica conservadora, que engloba a
valorização da tradição, a promoção do militarismo, a defesa da estrutura familiar
heteronormativa e a ênfase na autoridade hierárquica como encontrado diversos
trabalhos de autores como discutem área de curriculo e avanço do conservadorismo
como Apple (2006) e Silva (1999). Como trabalhado por Silva (1999), o currículo é
um artefato cultural, e muitos grupos sociais dominantes o utilizam para manter sua
65

hegemonia cultural e social, moldando a visão de mundo dos alunos a partir de


narrativas e valores valorizados por esses grupos dominantes. Isso influencia a
percepção de classe, gênero, e moldam a concepção do mundo e dos estudantes.
Esse processo de militarização também afeta diversas políticas, evidenciando
claramente como o conservadorismo está moldando o panorama educacional e
ameaçando os princípios fundamentais da educação, como tratado por Lima et al.
(2021).
Conforme abordado, a militarização do currículo escolar não apenas reforça
uma agenda conservadora, mas se manifesta de forma concreta nas alterações do
currículo prescrito e ocultas nas escolas cívico-militares. Estas mudanças não são
apenas teóricas, mas impactam diretamente na formação dos alunos a partir de uma
disciplina rígida e obediência estrita aos valores tradicionais. Visto que o processo
de militarização não é uma questão apenas da estrutura escolar, mas reflete uma
estratégia mais ampla de perpetuação de uma visão de mundo conservadora, que
busca moldar de acordo com esses valores, conforme sintetizado na tabela abaixo.
66

Tabela 04 - Análise das Alterações no Currículo prescrito e Oculto na análise do documento


“'Diretrizes das Escolas Cívico-Militares 2ª ed”
Currículo Prescrito Currículo Oculto
Introdução de projetos como o 'Projeto Valores' Propagação de princípios do militarismo por
e o 'Projeto Momento Cívico', que formalizam meio de rituais, regras, e normas
aprendizagens de lógica militar. Atividades comportamentais que moldam atitudes e
formais que passam a integrar a carga horária
valores.
de formação dos estudantes de forma oficial e
explícita com, ao menos, 1h semanal.

Trata-se de uma modificação explícita no Ênfase na disciplina, padronização de


currículo com previsão de aprendizagens, comportamentos, no controle corporal
objetivos e habilidades que atendam a
perspectiva do militarismo.

Inclusão de aulas e conhecimentos sobre Controle sobre a linguagem corporal e


valores éticos e cívicos, resgate do aparência dos alunos, impondo um padrão
patriotismo e símbolos nacionais. militar de conduta.

Formalização de práticas como cantar hinos Formação de indivíduos com ações, caráter e
cívicos e participação em eventos cívicos. moral alinhados com padrões normativos
conservadores e militares.

Promoção de uma formação baseada em Aprendizagem implícita de ideologias


valores considerados fundamentais no contexto conservadoras e militaristas, através de
militar. práticas cotidianas e relações sociais na
escola.

Criação de um ambiente de controle que pode


limitar a liberdade de expressão e o
pluralismo de ideias.

Fonte: Feita pelo autor(2024).


67

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho, discorremos como está o processo de militarização da


educação em Santa Catarina, especialmente após a revogação do Decreto Nº
10.004/2019 pelo Decreto Nº 11.611, que revogou o PECIM. Durante nossa análise,
identificamos que o processo de militarização em SC continua em andamento,
mesmo após a revogação, já que tanto o estado quanto os municípios demonstram
interesse em prosseguir com o projeto utilizando recursos próprios.
O processo de militarização da educação em Santa Catarina teve início com a
criação dos Colégios Policiais Feliciano Nunes Pires em 1984, mas avançou
significativamente com a implementação do Programa Nacional das Escolas
Cívico-Militares (PECIM) em 2019. Desde então, houve uma adesão considerável
por parte das escolas municipais e estaduais em Santa Catarina, refletindo um
interesse considerável neste modelo educacional. Durante os anos de
funcionamento do projeto, um total de 21 escolas aderiram ao programa, sendo 9
escolas estaduais e 12 escolas municipais.
As escolas que aderiram ao PECIM, especialmente as escolas estaduais,
seguiram as diretrizes estabelecidas pelo programa nacional, com a adesão da
comunidade escolar e implementação das práticas militares, conforme foi listado nos
documentos orientadores. Apesar da extinção do programa, o estado de Santa
Catarina demonstrou um forte interesse em manter e expandir este modelo de
escola em todo seu território, utilizando recursos próprios e possivelmente
estabelecendo parcerias com entidades públicas e privadas.
Os militares que participam do programa têm um papel fundamental nas
PECIMs, atuando como monitores e tutores, além de promoverem valores como
patriotismo, civismo e disciplina, valores trabalhados nos quarteis e exaltados nas
diretrizes do programa. Por mais que haja uma ilusão do público leigo em vantagens
de ter militares dentro das escolas, como maior segurança e disciplina, a realidade é
que estes militares não têm preparo nem abordagem pedagógica para atuar como
educadores. Desta maneira, a presença dos militares funciona mais como uma
figura de controle, disciplina e medo do que segurança.
Além disso,vimos que o programa exerce uma influência substancial,
conforme descrito nas diretrizes, no currículo escolar, ao propor a introdução de
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projetos como "Valores" e "Momento Cívico", promovendo uma abordagem centrada


em práticas e valores militares. O documento orientador enfatiza a implementação
de projetos como "Valores" e o "Projeto Momento Cívico", como estratégias para
resgatar valores éticos, cívicos e patrióticos. Essa ênfase sugere uma disputa
significativa da cultura militar no currículo escolar. O resgate do patriotismo, civismo
e dos símbolos nacionais é percebido como uma tentativa de restaurar a ordem e a
eficácia do ensino público, refletindo, assim, uma ideologia conservadora. Além
disso, o currículo oculto, composto por práticas e rituais cotidianos, contribui para a
transmissão implícita desses valores e é o mais afetado e que sofre mais impacto.
Dessa forma, a imersão em um ambiente militarizado pode moldar a percepção dos
alunos em relação aos valores e práticas do militarismo, podendo alterar tanto sua
visão de mundo quanto sua participação na sociedade.
As consequências e riscos do projeto são diversos. Dentre eles, destacam-se
os efeitos do controle e padronização sobre corpos, já que existe uma grande
imposição de normas rígidas em relação à aparência física dos alunos e
professores, visando promover uma estética corporal uniforme, como encontrada
nos quarteis, ameaçando a diversidade de alunos e professores.
Diversos trabalhos por pesquisadores de diferentes regiões do Brasil trazem
dados de que o modelo militarizado das escolas públicas busca moldar o
comportamento dos alunos, formando cidadãos obedientes em vez de
questionadores ou com ideais próprios. Eles não questionam e aceitam, ausência de
pluralidade de ideais e perda do poder de questionar, o que deslegitima suas
referências sociais e culturais, substituindo por uma cultura de controle e disciplina.
Além do apagamento do pluralismo de ideias e da liberdade de expressão, a partir
do resgate de "valores perdidos", dá espaço para um ambiente de controle e
padronização, no qual as práticas pedagógicas diversas são restritas. Na visão de
grupos conservadores, o processo de militarização da educação pública é uma
alternativa para restabelecer tradições, moralidade, autoridade e patriotismo
perdidos, e a única maneira de recuperá-los é através do controle, medo e
submissão.
Por fim, infelizmente, este modelo de ensino e privatização do ensino público
entregue nas mãos de militares ou em parcerias como o caso do PECIM, se arraigou
em nosso sistema de ensino público. Mesmo após o processo de extinção do
69

programa PECIM, muitos estados e cidades brasileiras optaram por manter este
modelo nas redes, seja com recursos próprios ou em parcerias com empresas
privadas que compartilham do mesmo ideal e interesse. Infelizmente, quem acaba
pagando a conta desse trabalho são alunos, alunas, professores e professoras que
sofrem com violência emocional, física e intelectual com esse formato.
Devido às limitações de tempo e de trabalho, não tivemos a oportunidade de
visitar as escolas e acompanhar mais profundamente as influências significativas do
PECIM no currículo dessas escolas individualmente e o impacto na vida dos alunos.
Essas disposições ficam explicitadas na indicação da proposição de
projetos educativos a serem incorporados pelas escolas, que objetivam a
transmissão de conhecimentos, princípios e valores relacionados ao militarismo,
que, em nossa análise, atendem a um projeto conservador de sociedade.

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APÊNDICES

APÊNDICE A - Questionário Aplicado a Secretaria da Educação de Santa


Catarina
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79

A
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81

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