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Crônicas do Amor e da Alegria

A crônica explora a natureza do amor, afirmando que ele não se baseia em qualidades racionais, mas em empatia e magnetismo. O autor reflete sobre a complexidade do amor, que transcende características superficiais e se manifesta em sentimentos inexplicáveis. Em seguida, Rubem Braga expressa seu desejo de escrever uma história que traga alegria e risos a pessoas em situações difíceis, destacando o poder transformador da narrativa.
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Crônicas do Amor e da Alegria

A crônica explora a natureza do amor, afirmando que ele não se baseia em qualidades racionais, mas em empatia e magnetismo. O autor reflete sobre a complexidade do amor, que transcende características superficiais e se manifesta em sentimentos inexplicáveis. Em seguida, Rubem Braga expressa seu desejo de escrever uma história que traga alegria e risos a pessoas em situações difíceis, destacando o poder transformador da narrativa.
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Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário

os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes

batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro

amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do

Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo

tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela

fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não

respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia

a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês

combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela

é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar

com você. Isso tem nome.


Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro

trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos

empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor

vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue

despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca

gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este

cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta

dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa

comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e

seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom

saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e

seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um

currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas

uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.


Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se

justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas

e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso.

Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem

precisa.

CRÔNICA: MEU IDEAL SERIA ESCREVER...


RUBEM BRAGA

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está
naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que
chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então
a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a
história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente
espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol,
irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de
casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada
ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é
mesmo muito engraçada!”
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante
aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal
também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que
aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade,
tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo
sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do
outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria
perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história
chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que
todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário (autoridade
policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa,
judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles
bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse –
“por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que
assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus
semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil
maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na
Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um
japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura,
a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China,
um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história
assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até
hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi
com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia,
e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se
filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”
E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa
história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de
um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a
contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a
minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está
doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena
casa cinzenta de meu bairro.
Rubem Braga

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