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Aids: Comparativo Brasil e Uganda

O Brasil alega ter reduzido pela metade as mortes por AIDS, mas isso se deve ao uso de medicamentos caros e à glamurização da homossexualidade, enquanto Uganda, com um modelo mais eficaz e de baixo custo, conseguiu reduzir a infecção de 18% para 5% da população. Apesar do sucesso de Uganda, a ONU e a mídia internacional elogiam o modelo brasileiro, ignorando a eficácia da abordagem ugandense que promove abstinência e fidelidade. O autor critica a hipocrisia da ONU e a rejeição de Uganda às diretrizes ocidentais, destacando a diferença entre os dois países na luta contra a AIDS.

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Aids: Comparativo Brasil e Uganda

O Brasil alega ter reduzido pela metade as mortes por AIDS, mas isso se deve ao uso de medicamentos caros e à glamurização da homossexualidade, enquanto Uganda, com um modelo mais eficaz e de baixo custo, conseguiu reduzir a infecção de 18% para 5% da população. Apesar do sucesso de Uganda, a ONU e a mídia internacional elogiam o modelo brasileiro, ignorando a eficácia da abordagem ugandense que promove abstinência e fidelidade. O autor critica a hipocrisia da ONU e a rejeição de Uganda às diretrizes ocidentais, destacando a diferença entre os dois países na luta contra a AIDS.

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Aids, Brasil e Uganda

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio, 17 de outubro de 2005

O Brasil, como a propaganda governamental não cessa de alardear, conseguiu reduzir pela
metade o número de mortes de aidéticos no país. Esse resultado foi obtido por meio da
doação maciça de remédios pirateados, que custam aos cofres públicos 300 milhões de dólares
por ano. O número de aidéticos em tratamento e portanto a verba para sustentar o programa
tendem a aumentar indefinidamente, porque, como qualquer pessoa com QI superior a 12
poderia prever, a distribuição sem fim de camisinhas estatais e a glamurização da
homossexidade por meio de anúncios tocantes não reduziram em nada o número de
infectados. O Brasil tinha 60 por cento dos casos de Aids da América Latina, e continua tendo.
Para completar, o modelo brasileiro não pode ser exportado, porque seu custo ultrapassa tudo
o que as nações da África, as mais vitimadas pela doença, jamais ousariam sonhar.

Por ironia, uma dessas nações, a pobrezinha Uganda, conseguiu, com despesa
incomparavelmente menor, reduzir a quota de infectados de dezoito para cinco por cento da
população. Uma vitória espetacular. Nenhum outro país do mundo alcançou resultados tão
efetivos.

Dito isso, dou agora um teste para o leitor avaliar se sabe em que mundo está vivendo: dos
dois programas de combate à Aids, qual é aplaudido pela ONU e pela mídia internacional como
um sucesso e um modelo digno de ser copiado? Respondeu “o ugandense”? Errou. É o
brasileiro. O ugandense, ao contrário, é condenado como um perigo para a população e uma
ofensa intolerável aos direitos humanos. O enviado especial da ONU para assuntos de AIDS no
continente africano, Stephen Lewis, tem dado entrevistas para denunciar o abuso, e a ONG
Human Rights Watch acaba de publicar um relatório de 81 páginas contra o maldoso
presidente de Uganda, Yoweri Museveni, responsável pela coisa toda.

Mas, afinal, qual a diferença entre o modo brasileiro e o ugandense de combater a Aids?
Uganda não distribui remédios? Distribui. Não recomenda o uso de camisinhas? Recomenda.
Não as distribui à população? Distribui. A diferença é que acrescenta a esses fatores uma
campanha pela abstinência sexual antes do casamento e pela fidelidade conjugal depois. Tal é
o motivo da sua eficácia, mas também o da profunda indignação da ONU. Essa nobre
instituição (que recentemente tirou os EUA e colocou o Sudão na sua Comissão de Direitos
Humanos depois de comprovado que a ditadura sudanesa só matou quatrocentos mil
dissidentes e não dois milhões como diziam as más línguas) ficou ainda mais chocada porque,
embora o governo de Uganda distribua mais camisinhas à sua população do que qualquer
outro governo africano, o presidente Museveni e sua esposa Janet chegaram a sugerir
repetidamente – em público!, vejam vocês, em público! – que esses artefatos só deveriam ser
usados como segunda opção, se falhasse a abstinência dos solteiros e a fidelidade dos casados.
Segundo o sr. Lewis, essa insinuação maligna, além de disseminar um preconceito fascista
contra o adultério e o sexo pré-conjugal, ainda arrisca desestimular o uso das camisinhas,
disseminando a prática do sexo inseguro e matando virtualmente de Aids milhões de
ugandenses. Um verdadeiro genocídio. Se o leitor tem alguma dificuldade de entender o
raciocínio do digno porta-voz da ONU, pode recorrer à técnica da análise lógica das conclusões
para desenterrar a premissa implícita que o fundamenta. Essa premissa é, com toda a
evidência, a de que os ugandenses, uma vez persuadidos a tentar a abstinência antes da
camisinha, podem eventualmente sentir-se incentivados a continuar prescindindo da
camisinha quando desistirem da abstinência. A verdadeira preocupação do sr. Lewis, portanto,
deriva do seu temor humanitário de que o quociente de inteligência do povo ugandense seja
igual ao dele. A ONU, nesses momentos, chega a ser comovente.

É verdade que, na luta contra a Aids, Uganda é a única nação vencedora (o tão louvado Brasil
mal se equilibra num deficitário empate técnico). É verdade também que, em todo o restante
do continente africano, onde ninguém prega abstinência nenhuma e todas as campanhas
contra a Aids mantêm estrita fidelidade ao dogma da salvação pelas camisinhas tal como
formulado ex cathedra pela ONU, as taxas de infecção pelo HiV continuam inalteradas ou
crescentes, chegando, em alguns lugares, a trinta por cento da população. O sr. Lewis, por isso,
fala com conhecimento de causa. Nada como o fracasso completo para dar a um sujeito (ou a
uma instituição) a autoridade de criticar o sucesso alheio. Além disso, ponham a mão na
consciência: vocês acham mesmo que alguns milhões de vidas ugandenses salvas valem o
sacrifício de não sei quantos minutos de prazer cruelmente negados aos adúlteros e aos
homossexuais? É, como se diz, uma questão de princípio: antes sucumbir à Aids do que abdicar
do direito ao gozo ilimitado. Eis a alternativa moral que a ONU oferece à humanidade: ou ser
salva pela camisinha, ou morrer com dignidade. Ceder à proposta indecente de Yoweri e Janet
Museveni, jamais. O jornal inglês Guardian adverte aliás que a proposta tem uma origem das
mais suspeitas. Yoweri e Janet Museveni, por inverossímil que isto pareça numa época
esclarecida como a nossa, são… cristãos. Parece até mesmo que eles encontraram a idéia na
Bíblia.

Esses povos atrasados são mesmo uns jumentos. Nós, brasileiros, um povo iluminado, jamais
cairíamos numa esparrela dessas. Nosso negócio é ciência. Já em 2003, pouco antes de passar
o cargo a Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tem entre seus inumeráveis
méritos não só a criação do programa de trezentos milhões de dólares mas também a virtude
de saber fazer-se de gostosão com muito mais naturalidade do que seu antecessor e xará
Fernando Collor, nos ensinou com notável antecedência que essas campanhas de castidade
juvenil e fidelidade conjugal não estão com nada. Falando numa conferência em Paris – ele fica
tão bem em Paris, vocês não acham? –, ele disse que essas campanhas “só servem para
confundir as pessoas”. Como exemplo dessa confusão, ele citou o caso das esposas brasileiras,
fielmente monogâmicas, que vão para a cama com seus maridos e contraem Aids. “Elas não
usaram camisinhas, porque tinham um parceiro só, e pegaram a doença.” O próprio sr. Lewis
não alcançaria a profundidade desse argumento, segundo o qual a fonte do perigo não está
nos maridos que traem, mas nas esposas traídas; não está no contaminador, mas na
contaminada. O pensamento do grande intelectual uspiano chega, aí, às raias do sublime. Com
poucas e fulminantes palavras o autor de Dependência e Desenvolvimento na América Latina –
o único livro que se tornou clássico por meio do esquecimento geral – reduz a pó a tese de seu
amigo Alain Peyrefitte, de que as sociedades progridem na medida em que nelas imperam os
laços de lealdade e confiança. Sociedade normal, sociedade progressista, na doutrina FHC, é
aquela na qual a deslealdade está tão generalizada que mesmo as esposas não podem confiar
nos maridos. Quando a lealdade falha, como é justo e normal, não se deve portanto fazer uma
campanha para restaurá-la, mas, ao contrário, oficializar a deslealdade tornando a camisinha,
em vez da fidelidade, uma obrigação moral dos cônjuges. Da minha parte, acreditando
piamente que o nosso ex-presidente não seria hipócrita ao ponto de desejar uma moral para as
famílias brasileiras em geral e outra para a dele próprio, admito que Dona Rute não deve
mesmo, em hipótese alguma, permitir que seu marido venha com coisa para cima dela sem
uma camisinha. Talvez até duas. Se ele já veio para cima de nós todos sem nenhuma, é tarde
para pensar nisso. Relax and enjoy .
Para quem absorveu os ensinamentos de Stephen Lewis e Fernando Henrique, a
inconveniência absoluta de sugerir fidelidade e abstinência salta aos olhos. É de uma clareza
lógica formidável, não é mesmo? Só aquela besta do Museveni é que não entende. Ele e a
mulher dele. Também, que se pode esperar de uma idiota que acredita no marido? Além de
preta, a cretina é cristã. Só falta agora quererem que a gente leve a sério Nossa Senhora
Aparecida e a Condoleezza Rice.

Já o relatório da Human Rights Watch enfatiza outro aspecto ainda mais repugnante da
campanha ugandense: ela é feita — oh, horror! — com verbas doadas pelo governo americano.
É verdade que, no planeta inteiro, os EUA contribuem mais para o combate à Aids do que todos
os demais países somados. É verdade, portanto, que a maioria das campanhas anti-Aids em
todo o mundo são feitas com dinheiro americano. Até as verbas distribuídas pela própria ONU
para esse fim vêm quase todas da mesmíssima fonte. Mas ninguém precisa se rebaixar ao
ponto de aceitar, junto com os dólares de Washington, a sugestão maldosa daquele outro casal
de carolas, George W. e Laura Bush, de que camisinhas às vezes furam e de que em vez de
apostar exclusivamente nelas a vida e a morte, talvez valesse a pena controlar um pouco o
desejo sexual.

Uganda, cedendo a essas insinuações, refocilou na lama. Países altivos, briosos, dotados de
amor próprio, pegam a grana e mandam George W. Bush enfiar sua religião naquele lugar –
com camisinha, é claro. Ou então fazem logo como o Brasil, que rejeita o dinheiro. Se vocês
não se lembram, a USAID, pouco tempo atrás, ofereceu 48 milhões de dólares para ajudar o
nosso país a comprar remédios para os aidéticos, mas impôs uma condição: que do texto do
convênio não constassem palavras que parecessem legitimar a prática da prostituição. O
governo petista, que tem dignidade para dar e vender — sobretudo para vender –, não se
curvou à imposição degradante. Ser contra a prostituição? Jamais. A reverência ante as
marafonas é, entre os políticos brasileiros, arraigada como o amor filial, chegando, em muitos
deles, a confundir-se com esse sentimento. Em outros é, como a camisinha do sr. Lewis, uma
questão de princípio. Quarenta e oito milhões de dólares é um bocado de remédio para
aidético, mas para que fazer uma concessão aviltante à moral burguesa — sobretudo
americana, éeeeca! –, quando se pode facilmente subsidiar a honra dos puteiros pátrios com
equivalente quantia em moeda nacional extraída aos contribuintes? Vocês todos, leitores e não
leitores, pagaram 48 milhões de dólares para o governo nacional não melindrar as – como
direi? — prestadoras de serviços eróticos. Tudo pelo direito zumano, né mermo?

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