Exmo(a). Sr(a).
Juiz(a) do Trabalho Presidente da MMª 17ª Junta de
Conciliação e Julgamento de Porto Alegre - RS.
Processo nº 01092.-17/95-0
STEMAC S/A GRUPOS GERADORES, por seus procuradores
firmatários, nos autos da RECLAMATÓRIA TRABALHISTA que lhe move
ISABEL DIAS MATTIVI, inconformado com a r. sentença de fls. 219, que
julgou procedente em parte a ação, vem da mesma recorrer, por via de
RECURSO ORDINÁRIO, na forma do artigo 895 da Consolidação das Leis
do Trabalho, requerendo se digne V. Exa. recebê-lo, com as razões anexas, e
determinar seu encaminhamento à instância "ad quem". Requer ainda a juntada
aos autos dos anexos comprovantes de recolhimento de custas e do competente
depósito recursal.
Nestes termos, pede deferimento.
Porto Alegre, 02 de dezembro de 1996.
André Bellio
OAB/RS nº 40.488
Gustavo Juchem
OAB/RS nº 34.421
RAZÕES DE RECURSO ORDINÁRIO
Recorrente : STEMAC S/A GRUPOS GERADORES
Recorrida : ISABEL DIAS MATTIVI
Egrégia Turma
A r. decisão de primeiro grau deve ser parcialmente reformada, uma vez
que foi proferida em desconformidade com as provas carreadas aos autos e
com diversos dispositivos legais, como será adiante sobejamente demonstrado.
I - DA CONDENAÇÃO AO PAGAMENTO DAS HORAS
EXCEDENTES À SEXTA COMO EXTRAORDINÁRIAS
Não pode ser mantida a condenação da recorrente a pagar à recorrida
como extraordinárias as horas excedentes à sexta diária. Isto porque, conforme
ficou demonstrado nos autos, a recorrida não laborou como telefonista, motivo
pelo qual sua jornada de trabalho podia estender-se além da sexta diária, não
enquadrando-se tal situação no disposto no artigo 227 da Consolidação das
Leis do Trabalho.
Ora, com todo o respeito que merece a decisão ora recorrida, parece ter
havido uma péssima interpretação das provas produzidas no presente feito, em
especial no que se refere a prova oral colhida durante a audiência realizada em
26 de agosto do corrente.
Nesse sentido, ao contrário do que afirma o Douto Julgador de Primeiro
Grau, toda a prova produzida naquela oportunidade leva a conclusão
diametralmente oposta a encontrada, ou seja, não era o trabalho realizado pela
recorrida sequer semelhante ao de uma telefonista, não sendo também sua
atividade preponderante ficar junto ao telefone.
Conforme aduzido pela única testemunha que trabalhou no mesmo setor
da recorrida, a mesma afirma que a média de contatos telefônicos mantidos
pelo auxiliar de tele-marketing é de 18; que a duração de cada ligação é no
máximo de 07 minutos.
Ora, em considerando-se o informado teríamos que em média a suplicada
estaria cerca de 126 minutos junto ao telefone durante sua jornada de trabalho,
ou seja, apenas duas horas e cinco minutos por dia.
Como se não bastasse a mesma testemunha, afirma que a reclamante só
ficaria junto ao telefone das 09:00 horas até às 11:00 horas, sendo que a tarde
as ligações eram realizadas das 14:00 até as 17:00 horas.
Da mesma forma, informa que nos demais períodos da jornada a
reclamante organizava a agenda, fazia a pesquisa de clientes potenciais,
utilizando-se de revistas e jornais.
Salienta ainda a depoente que entre uma ligação e outra a reclamante
deveria realizar a atualização dos dados dos clientes recém contatados e a
contatar, sendo inverossímel, portanto qualquer afirmação no sentido de que a
recorrida ficava durante todo o dia junto ao telefone.
Ainda nesse sentido, cabe salientar-se que totalmente equivocada a
sentença quando afirma que a testemunha da recorrente teria dito que a
recorrida permanecia o dia inteiro junto ao telefone, eis que tal informação foi
dada pela testemunha da apelada, que nem ao menos chegou a laborar no
mesmo setor.
A própria testemunha da recorrida não merece nenhum tipo de crédito eis
que nada soube informar sobre o trabalho da mesma, tendo conhecimento do
que se passava no setor da suplicada apenas através de visitas esporádicas ao
setor de tele-marketing da recorrente. Não trabalhava, pois, no mesmo setor,
acreditando, apenas, permanecer a suplicada todo o dia no telefone.
Efetivamente, fica a dúvida: como poderia a depoente saber o que se
passava no setor em que trabalhava a recorrida, se ela mesma não se lembra
porque se deslocava do seu setor para o setor de telemarketing? Ainda, como
poderia saber o que se passava em tal setor indo ao mesmo apenas uma vez por
semana e apenas por poucos minutos?
Mesmo que levássemos em conta o única e exclusivamente os
depoimentos das partes, ainda assim teríamos que não laborava a demandante a
maior parte do dia junto ao telefone, como entendeu errôneamente o Juiz de
primeiro grau.
Em considerando-se o depoimento da reclamada temos que a recorrida
realizava cerca de 14 a 20 ligações por dia e que as mesmas teriam duração de
10 a 15 minutos, o que equivaleria a dizer que a recorrida permaneceria, na pior
das hipóteses cerca de cinco horas junto ao telefone, o que só venho a
confirmar o depoimento da única testemunha da reclamada.
Importante salientar que ao afirmar isto a preposta não quis dizer que a
recorrida permanecia de forma inninterrupta junto ao telefone, eis que conforme
anteriormente aduzido pela testemunha Fabiana existiam tarefas que eram
desempenhadas entre os telefonemas realizados, de forma que o tempo efetivo
junto ao telefone, considerando-se um dia de grande movimento não chegaria a
2,5 horas.
Mas mesmo que assim não fosse, ainda assim não estaria a recorrida
enquadrada na exceção do artigo 227, ainda que permanecesse a maior parte do
tempo junto a um aparelho telefônico.
Isto porque o artigo 227 da CLT, prevê que só terá direito a jornada
reduzida de seis horas
koritjtrjrtjrtjojrjitjrtjortjoertjioterjjortjotrjrtjitrjtjrtjtrjjijrtjirjeritjerojtorjterjtjtertje
rjtjrtjrtjreeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
hipótese de cargo de confiança, específica para o bancário, de aplicação ampla,
em comparação com a hipótese genérica do cargo de confiança. Neste sentido a
jurisprudência é uniforme, encontrando-se fixada através do Enunciado de nº
204 do Tribunal Superior do Trabalho, assim redigido:
"Bancário. Cargo de confiança. Caracterização. As circunstâncias que
caracterizam o bancário como exercente de função de confiança são previstas
no art. 224, § 2º, da CLT, não exigindo amplos poderes de mando,
representação e substituição do empregador, de que cogita o art. 62, alínea "b",
consolidado".
Sendo de aplicação ampla o conceito de cargo de confiança no caso do
bancário, não há que se descartar a aplicação de tal dispositivo no presente
caso, em que todos os elementos caracterizadores do cargo de confiança
encontram-se presentes.
A recorrida percebia salário que a distinguia dos demais colegas,
gratificação de função superior a um terço de sua remuneração e possuía
poderes de representação - com efeito, ficou comprovado que representava o
banco recorrente em visitas a clientes e que contratava com eles operações de
crédito. Tinha poderes para obrigar o banco, sendo irrelevante que tal somente
ocorrese em conjunto com outro colega, eis que, conforme se pode verificar da
carta de preposição de fl. 125 e da procuração de fl. 126, no recorrente a
prática é no sentido de que os documentos sejam assinados por, pelo menos,
dois diretores ou gerentes.
As testemunhas, notadamente Antônio Malta Neves, consideram a
recorrida como Gerente Executiva, não podendo restar dúvidas, pois, quanto ao
cargo de confiança ocupado pela mesma.
Não se exigindo que tais poderes sejam amplos, perfeitamente adequada
a situação da recorrida ao conceito de cargo de confiança específico para o
bancário.
Irrelevante é o fato de não ter a recorrida atribuições de admitir ou
demitir empregados, eis que tal atividade, numa empresa moderna, cumpre ao
departamento de pessoal ou setores administrativos, e não a gerente que atua
no plano operacional. A atuação da recorrida na área operacional do recorrente
é confirmada pela perita à fl. 172.
O fato de atuar a recorrida em tal área não afasta a possibilidade de
ocupar cargo de confiança, eis que restou claro que a mesma ocupava cargo em
nível de gerência com poderes para obrigar o recorrente.
Neste sentido, os acórdãos cujas ementas se transcreve, e que servem
para comprovar a procedência das alegações do recorrente:
"Bancário. O cargo de confiança não se caracteriza necessariamente pela
existência de subordinados a seu comando ou em razão de assinatura
autorizada, mas em razão do desempenho da função exercida por aquele
empregado que é de fidúcia". Ac. TRT 2a. Reg. 7a. T (proc. 25039/90-5), Rel.
Juiz Gualdo Amaury Formica, DO/SP 03/12/92, Ementário de Jurisprudência
Trabalhista do TRT da 2a. Rg., Ano XXXVIII, nº 05/93, in Dicionário de
Decisões Trabalhistas, B. Calheiros Bomfim e Silvério dos Santos, 24a.
Edição, Edições Trabalhistas, p. 116, v. 805.
"Cargo de confiança. A menção de funções e cargos prevista no art. 224,
§2º da CLT não envolve o pleno poder de representação do empregador,
mesmo porque nos estabelecimentos bancários não há gerência plena,
substituindo praticamente o empregador. O excesso de horário somente é
computado e pago em separado após a oitava hora diária. Ac. TRT 2a. Reg. 7a.
T - Proc. 26118/90-4, Rel Juíza Lucy Mary Marx Gonçalves da Cunha, DO/SP
01/10/92, Ementário de Jurisprudência Trabalhista do TRT da 2a. Reg., Ano
XXVIII, nº 01/93, in Dicionário de Decisões Trabalhistas, B. Calheiros
Bomfim e Silvério dos Santos, 24a. Edição, Edições Trabalhistas, p. 116, v.
809..
"O §2º do art. 224 da CLT não se aplica apenas aos ocupantes de cargos
de direção, gerência, fiscalização, chefia e equivalentes, mas também aos que
desempenham outros cargos de confiança, independentemente de terem ou não
subordinados, desde que o valor da gratificação não seja inferior a um terço do
salário do cargo efetivo". TRT - 2a. Reg. - 7a. T - Ac. nº 02930011836 - Rel.
Gualdo Amaury Formica, DJSP 3.9.93, pag. 74, in "Bancários - Jurisprudência
Trabalhista Atualizada, Irany Ferrari e Melchíades Rodrigues Martins, Ed. Ltr,
São Paulo, 1994, p. 31.
"A confiança especial para o exercício de determinadas funções advém
de fatores estritamente subjetivos, reconditamente delineados no foro íntimo do
empregador e ali confinados em virtude de liberdade que a lei lhe assegura, sob
a forma de autêntico poder discricionário, ao Judiciário não sendo dado
devassar-lhe a intimidade, especialmente para ditar uma confiança ou
desconfiança de que só ele, empregador, é juiz. (...)" (TRT 3a. Reg., 1a. T., RO
109/86; Rel. Juiz Manoel Mendes de Freitas; DJ-MG nº 94/86, in Rep. Jur.
Trab., Lima Teixeira, vol. V, verb. 886)
"O legislador, ao excepcionar da regra geral, no § 2º do art. 224 da CLT,
aqueles bancários que exercem funções de gestão, fez inserir também hipótese
alternativa ao referir-se ao desempenho de outros cargos de confiança, desde
que o valor da gratificação não seja inferior a um terço do salário do cargo
efetivo. A menção é exemplificativa, portanto, e tem conotação objetiva, ou
seja, o desempenho de função de confiança, com o percebimento de
gratificação de 1/3. Desnecessário perquirir-se de amplos poderes de mando e
gestão. Nesse sentido direcionou-se a jurisprudência, cristalizada no Enunciado
204 desta Corte. Revista conhecida e provida". TST - 3a. T - Ac. nº 2081/90.1
- Rel. Juíza Heloísa P. Marques, DJU 5.8.91, pag. 10.105.
"A respeitável decisão regional deu provimento parcial ao recurso do
reclamante, determinando o pagamento de todas as horas extras trabalhadas a
partir da sexta hora diária, por descaracterizado o cargo de confiança. Sem
necessidade de reexame do quadro probatório, tão-somente à vista dos
elementos fáticos deduzidos no respeitável acórdão recorrido, concluem-se,
indubitavelmente, do incorreto enquadramento jurídico dado pelo respeitável
julgado. Demonstrado, nos autos, que o bancário exercia função de confiança e
percebia gratificação de função superior a 1/3, não faz jus ao pagamento da
sétima e oitava horas como extras - Exegese dos Enunciados ns. 204 e 238 da
Súmula desta Casa, e §2º do art. 224 da CLT. Revista conhecida e provida".
TST-RR-10357/90.6 - Ac. 2a. T. 1327/91 - Rel. Desg.
Impende seja aplicado à hipótese dos autos o entendimento consagrado
nos Enunciados de números 204 e 232 da Súmula de Jurisprudência Uniforme
do Colendo Tribunal Superior do Trabalho.
Mesmo que a recorrida não se distinguisse de seus colegas por sua
responsabilidade e atribuições, o que se admite apenas ad argumentandum, a
percepção da gratificação bastaria para que restasse configurado o exercício de
cargo de confiança. O elemento objetivo, qual seja, o pagamento da
gratificação devida, é o decisivo na caracterização do cargo de confiança do
bancário.
O elemento subjetivo, ou seja, a avaliação de qual empregado
efetivamente goza da confiança de seu empregador, é elemento não decisivo
para que seja validamente enquadrado o empregado nas disposições do artigo
224, § 2º. Em tal subjetividade, não deve haver ingerência do judiciário, posto
que corresponde às partes, dentro de sua autonomia de vontade, estipular que
funcionário gozará de confiança especial de seu empregador.
Na verdade, fica a critério do banco decidir internamente quais são os
empregados que ocupam cargo de confiança e quais não, desde que cumpra
com o requisito legal, qual seja, o pagamento da referida gratificação.
A matéria encontra-se cristalizada, o que se verifica quando se leva em
conta que o Tribunal Superior do Trabalho, através dos Enunciados de nºs 233,
234 e 238 considerou ocupantes de cargo de confiança os bancários Chefes,
Subchefes e Subgerentes - obviamente, não podem restar dúvidas quanto à
fidúcia inerente ao cargo de Gerente, quer no plano administrativo, quer no
plano operacional.
Importante referir a lição do mestre Mozart Victor Russomano, em seus
Comentários à CLT":
"Há dois equívocos correntemente praticados. Pelo Primeiro, só se
enquadra naquela norma o bancário que tenha poderes de gestão e comando
disciplinar na Empresa. Esse engano resulta de se confundir os cargos
enumerados, a título exemplificativo, no parágrafo segundo do artigo 224,
consoante definição do artigo 62.
O Segundo equívoco é - abandonando a tese anterior - vincular a
aplicação do art. 224, parágrafo segundo, ao art. 499, considerando os cargos
indicados de confiança estrita do empregador, mesmo sem poderes de mando e
gestão. Na verdade, isso não acontece. Como se considerar - sem sério prejuízo
para o trabalhador - como cargo de confiança estrita o simples chefe de secção
ou de serviço, a que alude, de modo taxativo, o citado parágrafo segundo?
Como sublinhamos nos comentários ao artigo 62, é preciso distinguir
quatro graus de "confiança", no sistema da lei trabalhista brasileira:
a) confiança geral, em que repousa qualquer contrato de trabalho;
b) confiança especial do parágrafo segundo do art. 224, que resulta da
natureza da atividade bancária e do comissionamento do trabalhador;
c) confiança estrita do art. 499;
d) confiança excepcional, do art. 62 (gerentes). É nesses termos que se
deve entender o art. 224."
Muito diferente a hipótese de cargo de confiança prevista no artigo 62,
alínea "c", da CLT, daquela prevista no artigo 224, parágrafo segundo, do
mesmo Diploma Consolidado. O artigo 62 prevê hipótese de tal confiança que
inexistiria a necessidade do controle de horário. Já o artigo 224, parágrafo
segundo, prevê a possibilidade de aumento para oito horas da jornada legal do
bancário que exerce cargo de confiança.
Como se vê, trata-se de dois dispositivos aplicáveis em situações
diferentes. Caso assim não fosse, a norma do artigo 224, §2º, seria supérflua,
posto que encontrar-se-ia englobada no que dispõe o artigo 62. Não se limitaria
a oito horas diárias a jornada daquele que está isento de cumprir horário.
A fidúcia do bancário, prevista no parágrafo segundo do artigo 224,
poderá ser de menor grau com relação à do artigo 62, "c". Poderá, até mesmo,
confundir-se com a fidúcia inerente a qualquer relação de emprego, desde que
haja o correto pagamento da gratificação.
Agindo de tal forma, não estará o banco burlando a lei para deixar de
pagar a sétima e a oitava horas, posto que a gratificação de um terço do salário
efetivo remunera justamente tais horas de trabalho. Duas horas (a sétima e a
oitava) correspondem a um terço da jornada legal do bancário.
Assim, não se pode cogitar de qualquer prejuízo para a recorrida em
razão de sua maior jornada de trabalho, sendo que a comissão percebida
equivale ao pagamento das duas horas excedentes à sexta.
Deve, pois, ser reformada a sentença, para que seja considerado
existente o cargo de confiança e para que, via de conseqüência, seja excluído
da condenação o pagamento como extraordinárias das horas excedentes à sexta
diária laboradas e eventuais horas extraordinárias sejam calculadas com base
no divisor 220 (duzentos e vinte).
Caso assim não seja entendido, o que por mera cautela se admite, deverá
ser determinada a compensação dos valores devidos, ou seja, dos valores
referentes ao pagamento como extras da sétima e da oitava horas diárias, com
os valores já pagos a título de comissão de cargo. Isto porque, desaparecendo a
causa para o pagamento da comissão de cargo, ou seja, o exercício de cargo de
confiança, não pode ser considerado devido o pagamento de tal comissão, não
podendo o pagamento da mesma ser cumulado com o de horas extraordinárias.
Caso contrário, estaria a recorrida percebendo quantia a que não faz jus,
o que constituiria enriquecimento sem causa. Isto violaria o princípio que veda
o locupletamento ilícito, cristalizado no artigo 954 do Código Civil.
Ao conceder-se tal vantagem à recorrida, estar-se-ia a fomentar seu
locupletamento ilícito, posto que esta teria acréscimo em seu patrimônio sem
que tal correspondesse a qualquer causa.
II - DA CONDENAÇÃO AO PAGAMENTO DE UMA HORA
EXTRAORDINÁRIA DIÁRIA
A MMª Junta condenou o recorrente ao pagamento de três horas
extraordinárias diárias, que teriam sido laboradas após a sexta hora diária. O
pagamento como extraordinárias da sétima e da oitava horas indiscutivelmente
laboradas em todos os dias úteis pela recorrida foi abordado no item I acima. A
condenação do recorrente ao pagamento como extraordinária de uma terceira
hora diária supostamente trabalhada será a seguir examinada.
A prova oral colhida não autoriza a conclusão adotada pelos MM.
Julgadores "a quo" de que a recorrida teria laborado durante a vigência do
pacto laboral em média nove horas por dia de segundas a sextas-feiras.
Afirmou a recorrida em seu depoimento que sua jornada de trabalho não
era fiscalizada e que desenvolvia atividades internas e externas, sem
preponderância de umas sobre as outras.
A recorrida não produziu prova sobre os horários supostamente
trabalhados, e se o fez foi relativamente a períodos ínfimos da contratualidade.
Com efeito, sua primeira testemunha, Elaine Bertotto Correa, laborou para o
recorrente durante apenas quatro meses (de abril a julho de 1991), e aduziu, em
seu depoimento, que sua jornada transcorria entre as 9h e as 18h, sendo que
quando chegava a recorrida já se encontrava trabalhando e, quando saía, a
mesma ainda estava em atividade. No entanto, por não estar presente quando
da entrada e saída da recorrida no serviço, não é pessoa idônea a precisar em
que horário tal ocorreria. Outrossim, ainda que seu depoimento tivesse algum
valor como prova da matéria em questão, é de salientar-se que somente poderia
ser considerado quanto ao período de aproximadamente quatro meses durante o
qual laborou para o recorrente, eis que não teria como conhecer os fatos
ocorridos no restante da contratualidade havida entre recorrida e recorrente.
No que respeita à segunda testemunha da recorrida ouvida, Denise
Soares Andretta, a mesma aduziu ter trabalhado para o recorrente entre
fevereiro e agosto de 1992. Tendo a recorrida sido despedida em março de
1992, somente foram colegas de trabalho durante um mês. Seu depoimento é
em sentido idêntico ao da primeira testemunha, eis que jamais presenciou a
recorrida ingressando ou saindo do trabalho.
A primeira testemunha do recorrente, Antônio Malta Neves, a qual
laborava juntamente com a recorrida, o que, ressalte-se, não ocorria com as
testemunhas desta, disse que os gerentes, dentre os quais o próprio depoente e
a recorrida, "não tinham horários de trabalho fixados pelo rdo."; esclareceu
ainda que "a duração das jornadas ficava na dependência da carga de trabalho
diária; que o depoente trabalha, em média, das 08:30 ou 09:00 às 18:30 ou
19:00 horas; que nos mesmos horários notava a presença da rte. na agência;
que o depoente tem intervalo de uma hora e meia ou duas horas, o mesmo que
era gozado pela rte.;".
A análise dos depoimentos da recorrida e de suas duas primeiras
testemunhas em conjunto com o depoimento da primeira testemunha do
recorrente evidencia que na realidade a recorrida em média não ultrapassava a
jornada contratada de oito horas. Seus horários não eram previamente fixados e
tampouco fiscalizados, de modo que assim como poderia eventualmente
ultrapassar em poucos minutos a jornada de oito horas, também poderia não
chegar a laborar oito horas diárias, o que efetivamente ocorria. Vale ressaltar
que a recorrida dispunha de liberdade para compensar o tempo que porventura
laborasse além da jornada contratada chegando mais tarde ou saindo mais cedo
em outros dias, bem como que poderia a recorrida realizar tarefas de seu
interesse ou resolver assuntos particulares durante o horário normal, não só
quando se encontrava na agência do recorrente mas principalmente quando
estava realizando atividades externas.
As provas carreadas aos autos não confortam pois a assertiva expendida
no item 3 da peça exordial no sentido de que a recorrida laboraria normalmente
mais do que oito horas diárias, motivo pelo qual se faz necessária a reforma da
decisão de primeiro grau para que seja o recorrente absolvido do pagamento de
uma hora extraordinária diária alegadamente trabalhada após a oitava hora.
III - DA EQUIPARAÇÃO SALARIAL
O MM. Juízo "a quo", ao deferir o pleito de equiparação salarial aos
parágonos Antônio Malta Neves e Mauro Domingues de Freitas, incorreu em
equívoco, uma vez que restou demonstrado nos autos não estarem presentes os
requisitos previstos no artigo 461, "caput" e § 1º, do Diploma Consolidado.
Embora tanto a recorrida como os parâmetros ocupassem cargos de
gerente e atuassem na área de produção do recorrente, sempre desempenharam
funções distintas e apresentaram diferenças de produtividade e perfeição
técnica.
A recorrida ocupou no decorrer de todo o pacto laboral o cargo de
"Gerente de Financiamentos Júnior" e suas tarefas consistiram basicamente em
captar recursos mediante a obtenção de aplicações em "CDBs" e "RDBs".
O parâmetro Mauro Domingues de Freitas ocupou no período em que a
recorrida laborou para o recorrente o cargo de "Gerente de Financiamentos
Pleno", competindo-lhe, além de captar recursos para o recorrente, realizar
operações de crédito, concedendo empréstimos.
Por sua vez o paradigma Antônio Malta Neves ocupou no período em
que a recorrida laborou para o recorrente o cargo de "Gerente de
Financiamentos Sênior", realizando operações de câmbio (importação e
exportação) e de crédito (concessão de empréstimos).
Recorrida e paradigmas executavam portanto tarefas análogas, mas não
idênticas. Os três realizavam atividades-fim do recorrente, isto é, atuavam
todos na área de produção, mas suas atribuições eram distintas e envolviam
diferentes graus de complexidade e de responsabilidade, consoante restou
comprovado através dos depoimentos prestados pelas testemunhas
apresentadas por ambas as partes.
A terceira testemunha da recorrida, Fernando Brum Azeredo, por
exemplo, informou em seu depoimento que os serviços prestados pela recorrida
ao Banco Renner em nome do recorrente consistiram unicamente em prestar
informações a respeito de aplicações e que a recorrida jamais realizou
operações de crédito com dita empresa.
A primeira testemunha do recorrente, o parágono Antônio Malta Neves,
confirmou em seu depoimento que a recorrida trabalhava apenas na captação
de recursos. Afirmou dita testemunha "que a rte. era gerente executiva do
Banco, trabalhando na captação de recursos e em operações destinadas a gerar
financiamentos:". E, mais adiante, "que o depoente também era gerente de
operações; à época da contratação do depoente este trabalhava,
exclusivamente, na área de crédito, ao passo que a rte. apenas na área de
captação; com o passar do tempo, o Banco passou a exigir que os gerentes
trabalhassem em ambas as áreas, o que efetivamente aconteceu cerca de dois
anos após a admissão do depoente;".
Também a segunda testemunha do recorrente, o paradigma Mauro
Domingues de Freitas, afirmou que "à época da contratação do depoente a rte.
trabalhava só na área de captação de recursos, que após passou a autora a
trabalhar também, na atividade de crédito; que isso aconteceu uns seis meses
ou oito meses depois, mais ou menos;".
É indiscutível, ante a prova testemunhal, que a recorrida e os paradigmas
foram contratados para desempenhar atividades distintas e que de fato
realizaram atividades distintas. Se "uns seis meses ou oito meses depois", como
referido por Mauro Domingues de Freitas, ele e a recorrida passaram a atuar
também na área de crédito e em consequência a desempenhar mais ou menos as
mesmas funções; e se "com o passar do tempo, o Banco passou a exigir que os
gerentes trabalhassem em ambas as áreas, o que efetivamente aconteceu cerca
de dois anos após a admissão do depoente", como mencionado por Antônio
Malta Neves, tais circunstâncias por si sós não implicam direito da recorrida à
isonomia salarial postulada.
Não se pode ignorar o fato de que a recorrida, quando contratada pelo
recorrente, nenhuma experiência possuía como gerente de banco e sequer havia
anteriormente laborado em instituição bancária. Com efeito, como esclarecido
pela terceira testemunha da própria recorrida, a mesma havia anteriormente à
sua contratação pelo recorrido trabalhado na Renner Financiadora, tendo lá
ocupado o cargo de "Operadora de Valores".
O parágono Mauro Domingues de Freitas havia anteriormente exercido
as mesmas funções que exerce no recorrente no Banco Cidade e no Banco de
Boston, tendo ocupado o cargo de gerente em ambas as retro mencionadas
empresas. Possuía pois enorme experiência na área e, em decorrência, sempre
apresentou maior produtividade e perfeição técnica em relação à recorrida.
O parâmetro Antônio Malta Neves havia anteriormente exercido as
mesmas funções que exerce no recorrente no Credibanco e no Unibanco, tendo
ocupado o cargo de gerente em ambas as antes indicadas empresas. Além
disso, é bacharel em ciências econômicas. Possuía pois grande experiência na
área e maior qualificação para exercer as funções para as quais foi contratado
do que a recorrida e também do que Mauro Domingues de Freitas. Como
consequência lógica, sempre apresentou maior produtividade e perfeição
técnica em relação à recorrida e igualmente em relação a Mauro Domingues de
Freitas. Importa destacar que Antônio Malta Neves realizou operações de
crédito desde sua contratação, o que não aconteceu com a recorrida e com
Mauro Domingues de Freitas, e, como esclareceu o próprio Antônio Malta
Neves em seu depoimento, normalmente a área de crédito apresenta maior
complexidade e como resultado exige empregados mais qualificados do que a
área de captação.
Convém salientar que o recorrente não desconhece e por óbvio não
desconhecia quando da contratação da recorrida e dos paradigmas, ocorrida na
mesma época, a regra inserida no artigo 461 do Diploma Consolidado. Assim,
se ao contratar a recorrida, Mauro Domingues de Freitas e Antônio Malta
Neves, o que ocorreu nos meses de fevereiro e março de 1990, ou seja, quase
que simultaneamente, o recorrente os qualificou respectivamente de "Gerente
de Financiamentos Júnior", "Gerente de Financiamentos Pleno" e "Gerente de
Financiamentos Sênior" (o que evidencia a ocupação de posições distintas na
hierarquia do recorrente e graus de reponsabilidade diversos) e desde logo
ajustou com os mesmos salários distintos (a recorrida percebia salário inferior
àquele pago a Mauro
Domingues de Freitas, que por sua vez recebia salário inferior ao pago a
Antônio Malta Neves, conforme esclarecimentos prestados pela perita
contadora à fl. 280), o fez porque a capacidade e experiência desses três
empregados e as responsabilidades aos mesmos atribuídas eram notoriamente
inigualáveis.
A análise da prova colhida realizada pela Digníssima Junta, "data venia",
foi demasiadamente superficial. O exame acurado das provas carreadas aos
autos conduz inevitavelmente à conclusão de que é inviável o acolhimento do
pleito de isonomia salarial, uma vez que recorrida e paradigmas não
desempenharam as mesmas funções e, se em algum momento o fizeram, é certo
que não apresentaram igual produtividade e a mesma perfeição técnica.
Impõe-se por conseguinte a reforma da peça sentencial para que seja o
recorrente absolvido da condenação ao pagamento de diferenças salariais por
equiparação a Mauro Domingues de Freitas e Antônio Malta Neves.
Caso assim não seja entendido, o que se admite "ad argumentandum
tantum", deverá então ser modificada a decisão "a quo" para que seja deferido
o pedido apenas em relação ao paradigma Mauro Domingues de Freitas e
limitado ao período compreendido entre o oitavo mês subseqüente à sua
contratação, isto é, setembro de 1990, e a despedida da recorrida, uma vez que
o parágono Antônio Malta Neves atestou que os gerentes somente passaram a
trabalhar em ambas as áreas (de captação e de crédito) cerca de dois anos após
sua admissão, ou seja, em março de 1992, quando a recorrida não mais
laborava para o recorrente, posto que foi despedida em 04 de março de 1992.
IV - CONCLUSÃO
Ante o exposto, espera e confia em que seja dado provimento ao
presente recurso ordinário, para que seja reformada a r. decisão de primeiro
grau, nos itens supra abordados, por ser de justiça!
Porto Alegre, 02 de dezembro de 1996.
André Bellio
OAB/RS n.º 40.488
Gustavo Juchem
OAB/RS n.º 34.421