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Extensão Universitária no Brasil: Desafios e Conceitos

O documento discute a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão nas universidades e institutos federais do Brasil, destacando sua importância para a formação humana e transformação social. A autora analisa conceitos e políticas relacionadas à extensão, enfatizando a necessidade de reflexão teórica para promover uma interação efetiva entre a academia e a sociedade. O texto também aborda as contradições e desafios enfrentados na prática da extensão universitária, propondo um diálogo sobre seu significado e implicações institucionais.

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Extensão Universitária no Brasil: Desafios e Conceitos

O documento discute a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão nas universidades e institutos federais do Brasil, destacando sua importância para a formação humana e transformação social. A autora analisa conceitos e políticas relacionadas à extensão, enfatizando a necessidade de reflexão teórica para promover uma interação efetiva entre a academia e a sociedade. O texto também aborda as contradições e desafios enfrentados na prática da extensão universitária, propondo um diálogo sobre seu significado e implicações institucionais.

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Extensão universitária no Brasil: conceitos, Comunicación en extensión universitaria /

políticas e contradições Perspectivas

Josiane Roberta Krebs


Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia do Rio Grande do Sul.
Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Brasil.
[Link]@[Link]
[Link]/0000-0003-2671-2244

RECEPCIÓN: 28/07/22 University extension in Brazil: concepts, poli- Extensión universitaria en Brasil: conceptos,
ACEPTACIÓN FINAL: 13/09/22 cies and contradictions políticas y contradicciones

Resumo Abstract Resumen


A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e The inseparability between teaching, research La indisociabilidad entre docencia, investigación
extensão é pressuposto fundante do processo and extension is a foundational presupposition y extensión, es una presuposición fundacional
formativo nas Universidades e Institutos of the formative process in Universities and del proceso formativo en las Universidades
Federais de Educação, Ciência e Tecnologia Federal Institutes of Education, Science and e Institutos Federales de Educación, Ciencia
(IFs), sendo central para formação humana Technology (IFs), being central to human y Tecnología (IFs), siendo central para la
e emancipatória dos estudantes e para a formation and emancipatory of students formación humana y emancipadora de los
transformação social. No entanto, compreender and to social transformation. However, estudiantes y para la transformación social.
a indissociabilidade e saber como praticá-la é understanding inseparability and knowing how Sin embargo, entender la indisociabilidad
um desafio tanto para os gestores como para to practice it is a challenge for both managers y saber practicarla es un reto tanto para
os professores e estudantes. Esse desafio se and teachers and students. This challenge is directivos como para profesores y alumnos.
dá especialmente pela dificuldade em entender especially due to the difficulty in understanding Este desafío se debe en particular a la
o que é extensão. Neste sentido, este texto what is extension. In this sense, this text aims dificultad para entender qué es la extensión.
tem por objetivo dialogar sobre o conceito to dialogue on the concept of Extension and En este sentido, el presente texto pretende
de Extensão e como este reflete nas políticas how it reflects on institutional policies and dialogar sobre el concepto de extensión y
e práticas institucionais. Como percurso practices. As a methodological path, concepts cómo se refleja en las políticas y prácticas
metodológico, foram analisados conceitos used by universities and IFs were analyzed, institucionales. Como camino metodológico,
utilizados pelas Universidades e IFs, os quais which are defined in normative documents, se analizan conceptos utilizados por
são definidos em documentos normativos, and theoretical concepts, especially from the universidades e IFs que se definen en
e conceitos teóricos, especialmente a partir studies of Paulo Freire. As results, we highlight documentos normativos, y conceptos teóricos,
dos estudos de Paulo Freire. Como resultados the importance of analysing concepts and especialmente de los estudios de Paulo Freire.
destaca-se a importância de atentar aos reflecting how they impact research, work Como resultados, se destaca la importancia
conceitos e refletir como estes impactam nas activities and the relationship with society itself. de analizar conceptos y reflejar cómo
pesquisas, atividades de trabalho e na própria impactan en la investigación, las actividades
relação com a sociedade. Keywords: university extension; dialogical laborales y la relación con la propia sociedad.
relationship; social transformation;
Palavras-chave: extensão universitária; student training. Palabras clave: extensión universitaria;
relação dialógica; transformação social; relación dialógica; transformación social;
formação do estudante. formación de estudiantes.

Para citación de este artículo: Krebs, J. R. (2022). Extensão universitária no Brasil: conceitos, políticas e contradições. +E: Revista de Extensión
Universitaria, 12(17), e0017. doi: 10.14409/[Link]-Dic.e0017

Revista +E 12 (17), julio-diciembre | 2022 | pp. 1-8 1


Introdução
Extensão, palavra utilizada de forma recorrente nos espaços acadêmicos, tanto em políticas
e documentos institucionais, como nas atividades de trabalho e rodas de conversa. Normal-
mente, acompanhada dos termos ensino e pesquisa, carregando a famosa expressão “indis-
sociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”, tripé que sustenta o processo educativo
nas Universidades e também nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia
(IFs), conforme definido desde a Constituição Federal de 1988, que em seu artigo 207 nos
diz que “as universidades (...) obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão” e que embasa a Lei 11.892/2008 que cria os IFs, estabelecendo, no
parágrafo primeiro do artigo segundo, que para efeito de regulação, avaliação e supervisão
os IFs se equiparam às universidades federais.
Além de ser princípio norteador nas Universidades e nos IFs, refletindo nas políticas
institucionais e na atividade docente, um fator tem deixado a Extensão em evidência: sua
curricularização, estabelecida pela Meta 12.7 do Plano Nacional de Educação (2014-2024)
aprovado pela Lei N° 13.005/2014, que nos diz que deve ser assegurado “no mínimo, 10 %
(dez por cento) do total de créditos curriculares exigidos para a graduação em programas e
projetos de extensão universitária”.
Assim, em meio a este contexto, surge a indagação: afinal, o que é a Extensão? Partici-
pando em avaliações de projetos de Extensão, submetidos a editais de fomento, nos de-
paramos com inúmeras interpretações, desde a tradução literal, no sentido da dimensão do
projeto, até simplesmente descrever que a ação é aberta para participação da comunidade
externa, sem refletir se basta simplesmente levar ou difundir o conhecimento produzido pela
academia. E assim, cada pessoa utiliza um conjunto de palavras e exemplos para explicar o
que esse termo representa para si, ou seja, para conceituar.
Isso evidencia a relevância de refletirmos sobre conceitos, e assim, chegamos à essência
desse texto que tem por objetivo problematizar sobre o conceito de Extensão e como este
conceito reflete nas políticas e ações institucionais.
Antes de iniciar as discussões conceituais, faz-se oportuno relatar que as reflexões pro-
postas neste texto partem das experiências de trabalho da autora, que é professora no Insti-
tuto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), que foi Diretora
de Extensão desta instituição, participando da elaboração da Política de Extensão do IFRS
e é avaliadora ad hoc de projetos de extensão, tanto em Universidades como em IFs. Assim,
na realização de suas atividades de trabalho, se depara com a necessidade constante de
compreender a extensão universitária no Brasil, bem como seus conceitos, políticas e con-
tradições. Nesse sentido, inicialmente, se faz necessário definirmos a expressão “conceito”,
o que fazemos a partir dos estudos de Barros (2016):
O conceito pode ser entendido, de modo mais geral, como a bem-delineada ideia que
é evocada a partir de uma palavra ou expressão verbal que passa, desde então, a ser
operacionalizada sistematicamente no interior de certo campo de saber ou de práticas
específicas. (p. 26).

A partir dessa citação podemos pensar na relevância de conhecer os conceitos de “Ex-


tensão” e de institucionalmente fazer escolhas, pois estas escolhas irão conduzir a prática
extensionista e consequentemente definir o papel da Universidade e dos IFs, bem como,

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o que essas instituições de ensino representam para seus territórios e estudantes. Barros
(2016) contribui com esta reflexão quando nos diz que:
Os conceitos que circulam nos diversos campos de saber sempre implicam discussões
entre os seus praticantes, comportando escolhas derivadas de demandas específicas.
Eles movimentam ou possibilitam perspectivas teóricas, e reaparecem com frequência
nos trabalhos produzidos pelos pesquisadores e pensadores do campo passando a inte-
grar certo repertório conceitual. Os conceitos são pontos de apoio sistemáticos para um
tipo de conhecimento a ser produzido no interior de um campo específico de reflexões.
(pp. 26-27)

Nesse sentido, não podemos desconsiderar que as Universidades e os IFs são espaços
de produção e reprodução de conhecimento, logo, a falta de reflexão teórica sobre a Exten-
são pode conduzir a um conjunto de ações que não contribuam para a aproximação entre
a academia e a sociedade, comprometendo a função da indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão.
Para tanto, na sequência do texto, discutimos sobre o conceito de extensão e suas im-
plicações nas políticas e práticas institucionais a partir de duas perspectivas: da análise do-
cumental, considerando normativas brasileiras e políticas institucionais, e a partir da análise
teórica, tendo como referência a obra de Paulo Freire (1983) intitulada Extensão ou Comuni-
cação? e o texto Extensão Universitária: para quê?, de Moacir Gadotti (2017). Essas análises
nos conduzem às considerações sobre a importância do debate conceitual e político sobre
extensão universitária para construir instituições de ensino plurais, que sejam espaço de
circulação de saberes, comprometidas com a justiça e a positiva transformação social.

O conceito de extensão e suas implicações nas políticas e práticas institucionais


Antes de explorar os conceitos da Extensão e compreender como estes podem ser utiliza-
dos, cabe destacar que
“os conceitos são históricos. Eles surgem no interior de uma história e concomitantemen-
te não cessam de alterar a própria história, uma vez aflorados no campo de discussões
relacionados a uma disciplina ou também nos meios políticos e sociais no qual eles esta-
belecem uma praticidade”. (Barros, 2016, p. 52)

Assim sendo, como percurso metodológico, iniciamos a análise a partir dos conceitos
utilizados pelas Universidades e IFs, os quais são definidos em documentos como: 1. Po-
lítica Nacional de Extensão Universitária; 2. A Extensão Tecnológica para a Rede Federal
de Educação Profissional, Científica e Tecnológica; 3. Diretrizes para a Curricularização da
Extensão na Rede Federal; 4. Resolução CNE/CES 7/2018 que estabelece as Diretrizes para
a Extensão na Educação Superior Brasileira; e 5. Documento intitulado “Contribuições”, ela-
borado no XIII Encontro do Fórum de Pró-Reitores de Extensão da Rede Federal (Forproext)
e encaminhado ao Conselho Nacional de Instituições da Rede Federal de Educação Profis-
sional, Científica e Tecnológica (CONIF).
Em seguida, ampliamos a análise trazendo conceitos teóricos. Dividimos essa etapa em
dois momentos. Inicialmente apresentamos uma reflexão a partir da obra de Paulo Freire in-

Revista +E 12 (17) | 2022 | pp. 1-8 | Krebs, J. R. (2022) | Extensão universitária no Brasil: conceitos, políticas e contra... 3
titulada Extensão ou Comunicação? Após, apresentamos algumas problematizações trazidas
por Moacir Gadotti no texto Extensão Universitária: para quê?
Com a análise dos documentos podemos perceber algumas diferenças nos conceitos,
tanto com relação ao momento histórico em que estes documentos foram produzidos, como
também diferenças entre Universidades e IFs. Essas diferenças são sutis e podem ser identi-
ficadas na presença ou não de algumas palavras, conforme pode ser observado no Quadro 1.

Quadro 1. Relação de documentos e conceitos que norteiam a Extensão nas Universidades e nos IFs

Ano Documento Conceito

2012 Política Nacional de Extensão A Extensão Universitária, sob o princípio constitucional da


Universitária. indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, é um
processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e políti-
co que promove a interação transformadora entre Universida-
de e outros setores da sociedade.

2013 A Extensão Tecnológica para a Rede Processo educativo, cultural, social, científico e tecnológico
Federal de Educação Profissional, que promove a interação entre as instituições, os segmentos
Científica e Tecnológica. sociais e o mundo do trabalho com ênfase na produção,
desenvolvimento e difusão de conhecimentos científicos e
tecnológicos visando o desenvolvimento socioeconômico
sustentável local e regional.

2015 Documento elaborado no XIII Encon- A extensão é um processo educativo, cultural, político, social,
tro do Forproext. científico e tecnológico que promove a interação dialógica e
transformadora entre as instituições e a sociedade, levando
em consideração a territorialidade.

2018 Resolução CNE/CES 7/2018. A Extensão na Educação Superior Brasileira é a atividade que
se integra à matriz curricular e à organização da pesquisa,
constituindo-se em processo interdisciplinar, político
educacional, cultural, científico, tecnológico, que promove
a interação transformadora entre as instituições de ensino
superior e os outros setores da sociedade, por meio da pro-
dução e da aplicação do conhecimento, em articulação per-
manente com o ensino e a pesquisa.

2020 Diretrizes para a Curricularização A extensão é um processo educativo, cultural, político, social,
da Extensão na Rede Federal. científico e tecnológico que promove a interação dialógica e
transformadora entre as instituições e a sociedade, levando
em consideração a territorialidade.
Fonte: elaborado pela autora (2022).

A partir da análise dos conceitos supramencionados trago algumas observações para


reflexão. Os primeiros documentos aos quais me refiro são a “Política Nacional de Extensão
Universitária (2012)” e “A Extensão Tecnológica para a Rede Federal de Educação Profis-
sional, Científica e Tecnológica (2013)”, onde a Extensão é respectivamente nomeada como
“Extensão Universitária” e “Extensão Tecnológica”, o que leva a pensar em uma diferencia-
ção entre a prática extensionista nas Universidades e nos IFs, podendo surgir discursos de
diferença de valor entre elas. Seguindo, podemos perceber que ambos se referem a intera-
ção com a sociedade, o primeiro de forma mais genérica e o segundo fazendo relação com
o desenvolvimento socioeconômico sustentável local e regional.

Revista +E 12 (17) | 2022 | pp. 1-8 | Krebs, J. R. (2022) | Extensão universitária no Brasil: conceitos, políticas e contra... 4
Em 2015 o Forproext encaminha ao Conif sugestão de alteração no conceito de Extensão
para a Rede Federal, incluindo a promoção da “interação dialógica e transformadora entre as
instituições e a sociedade, levando em consideração a territorialidade”. Esse mesmo concei-
to se reproduz no documento publicado em 2020 com as Diretrizes para a Curricularização da
Extensão na Rede Federal. Na observação dessa mudança, podemos perceber o movimento
entre a compreensão e a extensão dos conceitos, relembrando Barros (2016, p. 53) que afir-
ma que “as pressões exercidas no âmbito da “extensão” (campo de aplicação de um concei-
to) podem demandar alterações retroativas na sua “compreensão” (definição do conceito)”.
Nesse caso, essa alteração na compreensão é extremamente significativa, pois inclui,
além da territorialidade, a relação dialógica, fator fundamental para estabelecer uma relação
de construção conjunta de saberes e não apenas levar conhecimento para a comunidade.
Essa alteração conceitual é um marco importante na prática extensionista, que implica tam-
bém numa mudança na percepção do papel da educação e da formação profissional.
Ainda, não poderia deixar de observar a conceituação presente na Resolução do Conse-
lho Nacional de Educação que estabelece as diretrizes para a Extensão na Educação Supe-
rior Brasileira, que reproduz a Extensão como processo transformador, em interação com a
sociedade, mas que se refere apenas a produção e aplicação do conhecimento, sem deixar
claro qual a participação da sociedade nesse processo. Além disso, traz a Extensão como
parte integrante da organização da pesquisa, o que faz pensar se não seria a pesquisa parte
integrante da Extensão. Essa relação chama atenção especialmente porque na academia
existe um processo de reconhecimento da importância e valorização da Extensão, sendo
que em algumas instituições existe a alegação de que a Extensão é inferiorizada em relação
à Pesquisa. Se de fato isso acontece, a forma como o conceito se apresenta pode potencia-
lizar essa disputa entre as pautas.
Enfim, essa análise dos conceitos nos documentos é relevante considerando que “os con-
ceitos transformam a própria história; não são apenas um produto dela” (Barros, p. 64). Logo,
esses conceitos orientam as atividades de trabalho dos docentes e as políticas institucionais,
sendo que são uma forma de mobilizar para que de fato a academia se aproxime da socieda-
de, não numa relação de cima para baixo, mas de forma dialógica, identificando, reconhecen-
do e atendendo as demandas locais e contribuindo para o desenvolvimento dos territórios.
Dando sequência às análises, devemos considerar que os conceitos definidos nos docu-
mentos estão embasados também nas construções e discussões teóricas. Nesse sentido,
um autor que é referência para a Extensão, principalmente quando definimos a relação dialó-
gica como fundamental na compreensão do conceito, é Paulo Freire. Em sua obra Extensão
ou Comunicação? ele problematiza sobre o conceito de extensão e apresenta compreensões
similares ao que os documentos trazem para o termo “comunicação”. Assim,
Paulo Freire começa seu trabalho com uma análise do têrmo “extensão”, partindo de
pontos de vista diferentes: sentido lingüístico da palavra, crítica a partir da teoria filosófica
do conhecimento e estudo de suas relações com o conceito de “invasão cultural”. Pos-
teriormente discute a reforma agrária e a mudança, opondo os conceitos de “extensão” e
de “comunicação” como idéias profundamente antagônicas. Mostra como a ação educa-
dora do agrônomo, como a do professor em geral, deve ser a de comunicação, se quiser
chegar ao homem, não ao ser abstrato, mas ao ser concreto inserido em uma realidade
histórica. (Freire, 1983, p. 7)

Revista +E 12 (17) | 2022 | pp. 1-8 | Krebs, J. R. (2022) | Extensão universitária no Brasil: conceitos, políticas e contra... 5
A crítica de Freire é que o termo extensão estaria diretamente relacionado com a trans-
missão do conhecimento, tratando as pessoas envolvidas como “coisas”, os negando como
seres de transformação do mundo (Freire, 1983). Já a comunicação é um processo edu-
cativo, para Freire (1983, p. 42) “a educação é comunicação, é diálogo, na medida em que
não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a
significação dos significados”.
Assim, ressalta-se novamente a relevância da relação dialógica. Paulo Freire nos ensi-
na que devemos partir de uma leitura do mundo, da leitura da realidade e dos problemas
concretos das comunidades. Essa é a essência da extensão. O diálogo se inicia na iden-
tificação do problema e na construção do projeto, e não apenas como metodologia na
realização das ações.
E assim, relacionando com outros conceitos, como o de relação dialógica, a extensão
vai ficando mais compreensível. Como dito por Barros (2016, p. 31) “os conceitos trazem
pontes para outros conceitos, além de abrigarem na sua estrutura interna componentes que
também são conceituais e que estabelecem relações específicas uns com os outros”.
O texto de Moacir Gadotti intitulado Extensão Universitária: para quê? contribui para am-
pliarmos a conceituação sobre Extensão, tendo como base também a perspectiva de Freire.
Gadotti (2017, p. 4) já no início nos diz que “ainda persiste uma enorme dispersão teórica
sobre o conceito de Extensão Universitária. Por isso, aclarar o que entendemos por exten-
são, é fundamental para caminhar nesse território decisivo para a necessária reforma da
universidade e para a radicalização da democracia”. O autor trabalha o conceito de extensão
universitária a partir da aproximação da educação popular e afirma que:
Um projeto de extensão nesta perspectiva supõe um conjunto de atividades inter-relacio-
nadas que se realizam num dado território para resolver determinadas problemáticas por
meio de estratégias explícitas. Por isso, partir da análise crítica das práticas de extensão
no território e mapear todas as articulações que a Universidade tem com a sociedade, é
fundamental. A extensão é também a universidade no território. O território deve ser en-
tendido aqui como um campo de estudo e de intervenção e, ao mesmo tempo, como um
espaço de diálogo da universidade com a sociedade. (Gadotti, 2017, p. 12)

O autor complementa que a Extensão Universitária pode tornar-se articuladora das políti-
cas territoriais, mas, para isso, precisa incorporar os “saberes de experiência feitos”. Acres-
centa, que “a Extensão Universitária na perspectiva da Educação Popular precisa começar
pela descolonização das mentes no interior das próprias universidades” (Gadotti, 2017, p. 12).
Logo, a importância de trabalhar os conceitos de Extensão, considerando que muitos do-
centes ingressam nas Universidades e IFs sem ter clareza do que é Extensão e reproduzem
as suas experiências acadêmicas, quando as tiveram.
Ainda, o autor cita Reinaldo Matias Fleuri, dizendo que como em qualquer espaço social,
a Extensão Universitária é também um lugar de contradições “onde se pode gestar um novo
projeto de universidade articulado com o processo de transformação social” (Fleuri, 1989,
p. 44 apud Gadotti, 2017, p. 6).
A partir dessa problematização evidenciamos como emerge a necessidade de explorar
outros conceitos, como, por exemplo, de território, educação, ensino superior, formação,

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saberes, experiências e atividade docente, o que retrata que os conceitos são:
Dialógicos por dentro —através de uma rede articulada de sentidos que interligam— e
dialógicos por fora, através de uma grande riqueza de possibilidades de articulações com
outros conceitos vizinhos ou distantes, os conceitos são os pontos móveis sobre os quais
se apoiam as linguagens científicas. (Barros, 2016, p. 31)

Assim, com esse recorte inicial utilizando a palavra “Extensão” buscamos problematizar
sobre a importância de atentar aos conceitos e refletir como estes impactam em nossos
estudos, atividades de trabalho e na própria relação com a sociedade. Perceber como eles
surgem e como refletem em documentos e políticas institucionais nos faz pensar como tam-
bém nos constituem como profissionais e como sujeitos. As nossas escolhas conceituais e a
forma como desenvolvemos os nossos estudos implicam em responsabilidades com relação
aos conhecimentos que produzimos e à transformação social que almejamos.

Considerações finais
Com este texto buscamos provocar uma reflexão sobre como a escolha dos conceitos im-
pactam nas políticas e práticas das Universidades e IFs, sendo norteadores das atividades
de trabalho dos professores, refletindo na formação dos estudantes e na possível transfor-
mação social. Nesse sentido, fazer estas escolhas e construir as políticas institucionais é um
desafio para a gestão educacional.
Isso se torna ainda mais desafiador ao falarmos sobre a Extensão, pois, quando nos
referimos a indissociabilidade, ensino e pesquisa se concretizam em nosso imaginário, no
entanto, a extensão muitas vezes é algo distante das nossas práticas, da nossa cultura.
Isso acontece especialmente quando nos referimos à extensão como processo dialógico, de
compartilhamento e construção coletiva de conhecimentos e não apenas como um espaço
de socialização do que é produzido no mundo acadêmico. Esse novo fazer institucional, que
acontece com as comunidades, no território, tiram a instituição e os atores que dela fazem
parte da zona de conforto.
Assim, os conceitos presentes nos documentos normativos sobre extensão são funda-
mentais para construir instituições de ensino plurais, comprometidas com a justiça e a trans-
formação social. Esses documentos devem ser inspirados em estudos teóricos, se cons-
tituindo como experiência de práxis crítica e Paulo Freire é uma grande inspiração para
consolidar a extensão como prática de comunicação, de diálogo e de transformação social.

Referências
Brasil (2018). Conselho Nacional de Educação. Resolução Nº 7 de 18 de dezembro de 2018. [Link]
[Link]/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/55877808
Barros, J. D. (2016). Os conceitos: seus usos nas ciências humanas. Vozes.
CONIF (Conselho Nacional das Instituições Federais de Educação profissional e Tecnológica) (2013). Extensão
Tecnológica. Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica/ Conselho Nacional das Institui-
ções Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. CONIF/IFMT.

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CONIF (Conselho Nacional das Instituições Federais de Educação profissional e Tecnológica) (2020). Diretrizes
para a Curricularização da Extensão na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. https://
[Link]/images/pdf/Diretrizes_para_Curricularizacao_da_Extensao_FDE_e_Forproext.pdf
Forproext (2012). Política Nacional de Extensão Universitária. UFRGS.
Forproext (2015). XIII Forproext – Contribuições. [Link]
forproext-contribuicoes-para-a-politica-de-extensao-da-rede-federal-de-educacao-profissional-cientifi-
[Link]
Freire, P. (1983). Extensão ou comunicação? 7ª ed. Paz e Terra.
Gadotti, M. (2017). Extensão Universitária: para quê? [Link]
Universit%C3%A1ria_Moacir_Gadotti_fevereiro_2017.pdf

Contribuição da autora (CRediT)


Conceptualização: Krebs, J. R. Administração do Projeto: Krebs, J. R.

Revista +E 12 (17) | 2022 | pp. 1-8 | Krebs, J. R. (2022) | Extensão universitária no Brasil: conceitos, políticas e contra... 8

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