CAPÍTULO 4
AVALIAÇÃO DE UM PROTÓTIPO DE
ALTA-FIDELIDADE DE UMA FERRA-
MENTA DE APOIO À PESQUISA DAS
APRENDIZAGENS ESSENCIAIS
[Link]
Maria João Silva, Bianor Valente e Pedro Sarreira
Resumo
Este capítulo descreve o desenvolvimento e avaliação do protótipo
[Link], uma ferramenta interativa para pesquisa sobre Aprendiza-
gens Essenciais no Ensino Básico. Utilizando uma abordagem parti-
cipativa com docentes e futuros/as docentes, o design da ferramenta
passou por iterações, desde esboços até um protótipo de alta-fidelida-
de. O processo de avaliação do protótipo de alta-fidelidade envolveu
inquéritos e observação participante, proporcionando uma análise de-
talhada da utilidade e usabilidade da ferramenta.
Os resultados indicam uma resposta positiva em relação à utilidade
da ferramenta. A observação da utilização do protótipo revelou que os/
as futuros/as professores/as conseguiram realizar tarefas com autono-
mia, embora algumas dificuldades tenham sido mencionadas, apontan-
do para necessidades de mudança ao nível da usabilidade. Os resulta-
dos do questionário reforçaram a perceção de satisfação geral, com a
maioria dos/as participantes expressando facilidade de aprendizagem
e satisfação com a ferramenta. No entanto, foram identificadas suges-
tões de melhoria, como a inclusão de um texto explicativo, aumento da
visibilidade da barra de pesquisa por palavras, assim como melhorias
na apresentação dos resultados.
1. Introdução
Em Portugal, foram empreendidos diversos esforços no sentido de
se construir um referencial curricular comum ao sistema educativo não
106
superior. O primeiro marco desse processo foi a definição do Perfil dos
Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO, Martins et al., 2017,
homologado pelo despacho n.º 6478/2017, de 26 de junho), que inclui
os princípios, visão, valores e competências que os/as alunos/as de-
vem desenvolver para concluírem a escolaridade obrigatória. O segun-
do passo envolveu o aumento da autonomia e flexibilidade curricular,
conforme estabelecido pelo Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho, e
pela Portaria n.º 181/2019 de 11 de junho. O terceiro passo consis-
tiu na elaboração das Aprendizagens Essenciais (AE), que definem o
conjunto comum de conhecimentos, capacidades e atitudes a serem
adquiridos por todos/as os/as alunos/as em cada área disciplinar ou
disciplina (Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho). Essa iniciativa tem
como objetivo resolver a extensa sobrecarga curricular, permitindo:
libertar espaço curricular para que, em cada escola, se
possa promover trabalho articulado entre as AE e as outras
aprendizagens previstas nos demais documentos curricula-
res, com aprofundamento de temas, explorações interdisci-
plinares diversificadas, mobilização de componentes locais
do currículo, entre outras opções, no âmbito dos domínios de
autonomia curricular. (DGE, s.d.)
Portanto, no âmbito das atuais políticas, é atribuída uma particu-
lar centralidade às AE na planificação, implementação e avaliação do
processo de ensino e aprendizagem, cabendo às escolas a responsabi-
lidade de tomar decisões quanto à configuração de parte do currícu-
lo. Neste nível de tomada de decisões curriculares, os/as professores/
as emergem como atores críticos (Fullan, 2005; Van den Akker, 2010).
Contudo, dados recentes indicam que os/as professores/as reportam
fragilidades na gestão curricular relacionadas com a leitura, interpre-
tação e operacionalização das AE, especialmente no que concerne às
ligações com outros níveis de ensino e, sobretudo, entre as AE das di-
versas disciplinas (Costa et al., 2022). Este é um problema significativo,
uma vez que, de acordo com a OCDE (2020), "quando a navegação pelo
currículo é complexa, há uma maior probabilidade de os professores
interpretarem erroneamente a sua intenção e utilizarem-no de forma
ineficaz" (p.15).
A própria estrutura das AE e a forma como são organizadas e dis-
ponibilizadas, um documento por disciplina e por ano, num formato
completamente estático, parece não contribuir para a visualização de
articulações curriculares verticais e horizontais, comprometendo a
apropriação e operacionalização das AE (Valente & Leite, no prelo).
Além disso, num inquérito internacional (OCDE, 2020), os/as professo-
107
res/as portugueses/as foram aqueles/as que manifestaram um menor
sentimento de autonomia em diversas áreas relacionadas com o pla-
neamento e ensino, sugerindo que os níveis de decisão meso e micro
não usufruem da autonomia conferida a nível macro.
Foi neste âmbito que surgiu o projeto “Aprendizagens Essenciais:
Mapear para promover a integração curricular” ([Link]) e que te-
ve como objetivo central apoiar os/as professores/as e os/as futuros/
as professores/as no processo de articulação curricular horizontal e
vertical, através do desenvolvimento de uma ferramenta multimédia
que integrasse uma base de dados para a consulta interativa das AE.
Para o desenvolvimento da ferramenta multimédia, foram criados dois
protótipos, utilizando técnicas de desenvolvimento participativo: um
protótipo em Microsoft Excel, de média tecnologia e fidelidade; e um
protótipo de alta tecnologia e fidelidade, em HTML5, desenvolvido por
um programador, a partir do protótipo anterior e do desenho colabora-
tivo de uma interface simples e amigável.
Neste capítulo apresenta-se a avaliação da primeira versão do refe-
rido protótipo de alta-fidelidade. Trata-se da avaliação das funcionali-
dades e da interface de uma base de dados contendo as AE, através da
sua utilização e avaliação não só por professores do ensino básico e do
ensino superior, especialistas em currículo e em tecnologias digitais na
educação, mas também por estudantes, futuros/as professores/as, em
contextos de formação para a docência. A utilização em contexto, para
avaliação do protótipo, incluiu a interrogação da estrutura de dados,
para o desenvolvimento de articulações horizontais e verticais de AE,
em atividades de integração curricular. A base de dados inclui as AE de
quase todas as disciplinas de todos os anos de escolaridade do Ensino
Básico, isto é, do 1.º ao 9.º ano de escolaridade.
O capítulo inicia com esta introdução e uma breve revisão sobre de-
sign participativo. Segue-se a metodologia, na qual são apresentados
o desenho do estudo, os participantes, e os métodos e instrumentos
de recolha e tratamento dos dados. Prossegue com a apresentação dos
resultados e encerra com a conclusão e as referências bibliográficas.
2. Design participativo e avaliação de protótipos
O Design Participativo é uma abordagem no processo de design que
coloca os/as utilizadores/as finais como participantes ativos na conce-
ção e desenvolvimento de produtos ou sistemas (Muller & Druin, 2012).
Ao contrário de abordagens mais tradicionais lideradas exclusivamen-
te por designers e especialistas, o Design Participativo procura envolver
os/as utilizadores/as diretamente na criação colaborativa, permitindo
108
que contribuam com ideias, feedback e sugestões (Robertson & Simon-
sen, 2012). Essa colaboração direta tem como objetivo assegurar que
o resultado final do design seja mais alinhado com as expectativas e
contextos reais de uso dos/as utilizadores/as.
No contexto Design Participativo, a criação de protótipos é uma prá-
tica fundamental. Os protótipos são versões simplificadas de um pro-
duto ou sistema, criadas durante o processo de design. Existem diversos
tipos de protótipos, cada um desempenhando um papel específico ao
longo do processo de design. Nos protótipos de alta-fidelidade, todos
os detalhes são incorporados com a intenção de simular as funcio-
nalidades do sistema. O conteúdo funcional e interativo possibilita a
simulação da interação, permitindo aos/às utilizadores/as reagirem ao
design e sugerirem mudanças (Gonçalves et al., 2017).
Considerando a necessidade de desenvolver uma ferramenta para
apoiar os professores na busca e consulta interativa de AE, é importan-
te assinalar que a qualidade do design de produtos digitais está intrin-
secamente ligada à sua utilidade e usabilidade. Mais do que facilitar e
tornar transparentes as interações utilizador/a-ferramenta, uma inter-
face deve estimular o pensamento e a descoberta de novos padrões no
âmbito das ferramentas (Nielsen, 2016). A interface utilizador/a – sis-
tema compreende o conjunto de entradas e saídas controladas pelo/a
utilizador/a e pelo sistema tecnológico, moldando a atividade intera-
tiva. Essa definição não se limita à aparência, abrangendo também as
conceções solidificadas sobre a interação utilizador/a-sistema (Marcus,
2002).
De acordo com a norma ISO 9241, usabilidade diz respeito à fa-
cilidade com que um produto pode ser utilizado por utilizadores/as
específicos/as, num contexto específico, para atingir objetivos espe-
cíficos com eficácia, eficiência e satisfação. Nielsen (1993) identifica
cinco componentes essenciais para avaliar a usabilidade de sistemas e
interfaces: facilidade de aprendizagem, eficiência no uso, memorização,
redução de erros e satisfação subjetiva do/a utilizador/a. A facilidade
de aprendizagem diz respeito à rapidez com que os/as utilizadores/
as conseguem compreender e começar a utilizar o sistema. A eficiên-
cia no uso mede a rapidez e a precisão com que os/as utilizadores/as
realizam tarefas após a aprendizagem inicial. A memorização avalia a
forma como o design da interface facilita a memorização de informação
importante para interações futuras. A redução de erros destaca a im-
portância de minimizar equívocos por parte dos/as utilizadores/as. Por
fim, a satisfação subjetiva do/a utilizador/a aborda a avaliação pessoal
e a preferência dos/as utilizadores/as em relação à experiência de uso.
Quanto aos métodos e técnicas de avaliação da usabilidade, é cru-
cial explorar diversas abordagens para obter uma compreensão abran-
109
gente do desempenho do sistema. A avaliação heurística, conduzida
por especialistas, aplica princípios heurísticos reconhecidos para iden-
tificar potenciais problemas de usabilidade no design. Esta abordagem
é útil na deteção de questões fundamentais que podem escapar aos/às
utilizadores/as comuns. A observação, seja direta ou indireta, permite
analisar o comportamento real dos/as utilizadores/as durante a inte-
ração com o sistema, proporcionando insights sobre como a interface
é realmente utilizada e onde podem surgir dificuldades. Os inquéritos
por questionário ou entrevistas são métodos que exploram as perce-
ções e experiências dos/as utilizadores/as, sendo úteis para recolher
dados subjetivos sobre a satisfação do/a utilizador/a e áreas de melho-
ria percebidas. Finalmente, os métodos experimentais envolvem a cria-
ção de situações controladas para testar hipóteses específicas sobre a
usabilidade (Gonçalves et al., 2017).
3. Metodologia
3.1. Abordagem metodológica
O processo de design participativo foi orientado pela abordagem
do “diamante duplo”, introduzida pelo British Design Council (2005).
Segundo esta abordagem o processo de design thinking apresenta 4
etapas: descoberta, definição, desenvolvimento e entrega. Na etapa da
descoberta os problemas são explorados, as necessidades dos/as uti-
lizadores/as são identificadas e as ideias são geradas; na definição os
problemas são definidos e refinados; no desenvolvimento as soluções
são criadas e exploradas; e, por fim, na entrega a solução é testada e
avaliada. O processo duplo de divergência-convergência é particular-
mente benéfico na determinação do problema certo a ser resolvido e
depois na melhor forma de o resolver. Além disso, a natureza iterativa
do processo permite adaptabilidade e incorporação de novos insights à
medida que o projeto avança.
As três primeiras etapas do processo de design da ferramenta de
pesquisa das AE encontram-se descritas por Valente et al. (2023). De
forma muito resumida, na fase de descoberta, foram utilizados méto-
dos como análise de tarefas e grupos focais com estudantes e futuros/
as professores/as para compreender as suas necessidades e perceções.
Na segunda fase, os dados recolhidos foram analisados de forma indu-
tiva, levando à redefinição do problema. Na terceira fase, foram utiliza-
dos esboços para cocriar soluções e um protótipo em Excel foi testado
com futuros/as professores/as para avaliar funcionalidades do banco
de dados. A partir destas três primeiras etapas foi construído um pro-
110
tótipo de alta-fidelidade. O estudo apresentado neste capítulo concen-
tra-se na testagem e avaliação desse protótipo (Figura 1).
Figura 1.
Ecrã do protótipo de
alta-fidelidade avaliado
3.2. Métodos e técnicas de recolha de dados
A avaliação do protótipo foi realizada usando duas abordagens dis-
tintas: inquérito por questionário e observação participante no âmbito
de um workshop.
Com o objetivo de recolher as opiniões de potenciais utilizadores da
ferramenta, foi construído um questionário, constituído por três blocos.
No primeiro bloco, solicitavam-se informações para caracterizar o/a
docente (idade, instituição de ensino, nível de ensino e área discipli-
nar). No segundo bloco, os/as inquiridos eram convidados/as a explorar
o protótipo e a responder a questões centradas nas vantagens e des-
vantagens da ferramenta para a realização de diferentes tarefas e na
comparação da ferramenta face ao modelo de divulgação das AE em
PDF. No terceiro bloco, eram solicitadas opiniões sobre a facilidade de
utilização da ferramenta, a facilidade de leitura dos ecrãs inicial de
pesquisa e de resultados, o número de erros cometidos até à concreti-
zação das tarefas, e, por fim, sobre a satisfação associada à utilização
da ferramenta.
De forma a explorar as estratégias utilizadas durante a pesquisa das
AE, foi organizado um workshop com futuros/as professores/as. Nesse
workshop, foi fornecido o link para acesso à ferramenta e, posterior-
mente, foram descritos diferentes cenários em que era pedido que os/
as participantes realizassem as seguintes tarefas: i) caracterização da
progressão prevista nas AE relativamente à aprendizagem sobre áreas
de figuras planas; ii) mapeamento do tópico "som/sons" nas diferen-
111
tes componentes curriculares ao longo do ensino básico; iii) descrição
das aprendizagens previstas nas AE em termos de educação literária.
A pares, os/as futuros/as professores/as realizaram a primeira tarefa e
escolheram uma das duas outras tarefas. A observação participante foi
uma das técnicas utilizadas, tendo as dinamizadoras realizado notas de
campo das observações realizadas, assim como das interações ocorri-
das com os/as futuros/as professores/as. Além disso, foi pedido aos/às
participantes que registassem todos os passos realizados com vista à
resolução das tarefas propostas e que, posteriormente enviassem para
as dinamizadoras essas listas, assim como os documentos, em formato
PDF, gerados pela própria interface.
3.3. Participantes
Responderam ao questionário oito professores/as (P), três do ensino
básico e cinco do ensino superior, especialistas em currículo e em tec-
nologias digitais na educação, assim como dez futuros/as professores/
as (FP). Relativamente aos/às docentes, as suas idades variavam entre
os 35 e os 67 anos (média de 48,6 anos), sendo sete do sexo feminino
e um do sexo masculino. Em termos do nível de ensino, três lecionam
no 2.º Ciclo do Ensino Básico e cinco no Ensino Superior, abrangendo
diversas áreas de lecionação, tais como Ciências Naturais, Matemática,
Tecnologia Educativa, Pedagogia, Matemática e Ciências Naturais, Edu-
cação para a Cidadania, Português, História e Geografia de Portugal e
Educação para a Cidadania. Quanto aos/às estudantes, todos/as fre-
quentavam o último ano do mestrado em Ensino do 1.º Ciclo do Ensi-
no Básico e de Matemática e Ciências Naturais no 2.º Ciclo do Ensino
Básico, sendo oito do sexo feminino e dois do sexo masculino. Importa
referir que estes participantes responderam ao questionário a pares.
No caso do workshop foram envolvidos doze futuros/as professores,
também a frequentar o último ano do mestrado em Ensino do 1.º Ciclo
do Ensino Básico e de Matemática e Ciências Naturais no 2.º Ciclo do
Ensino Básico.
4. Resultados
4.1. Avaliação da utilidade
A avaliação da utilidade decorre da análise das respostas dadas a
algumas questões de um questionário aplicado a professores/as e fu-
turos/as professores/as.
As respostas ao questionário denotam que os/as inquiridos/as atri-
112
buem elevada utilidade à ferramenta avaliada, reconhecendo que a
mesma possibilita a realização de funções que, de outra forma, não
existiriam. A capacidade de efetuar cruzamentos entre diferentes parâ-
metros (ano, disciplina, palavras) e a opção de gerar PDF com os resul-
tados desse cruzamento são as funcionalidades mais citadas:
...muito útil para analisar a progressão da aprendizagem
sobre um tema específico... é muito útil que a ferramenta
permita criar uma página de impressão com os resultados da
pesquisa. A partir de um termo/conceito presente nas AE, co-
mo biodiversidade ou poluição, é possível aceder aos níveis
de escolaridade do ensino básico, disciplinas e descritor das
AE em que esse termo surge... Permite ter acesso a todos os
descritores das AE do ensino básico numa única plataforma.
(P5)
...permitir a procura por termos/vocábulos, por ano ou
por anos... mostrando a sua transversalidade às várias dis-
ciplinas... temos uma ideia muito clara e precisa do que os
alunos trabalharam no ciclo/ano anterior... desconhecimento
das aprendizagens essenciais de outras disciplinas ultrapas-
sado. (P6)
Possibilidade de cruzamento de informação que não se
consegue numa leitura linear... possibilidade [de] gerar PDF
das pesquisas... permite a facilidade de organização e (re)
organização da informação. (P7)
Além disso, os/as inquiridos destacam a facilidade e rapidez com
que a ferramenta permite realizar diferentes funcionalidades, compa-
rativamente ao formato atual em PDF. Por exemplo:
...nos PDF temos que sair do documento. Estamos no 1.º
ano, queremos ver as aprendizagens essenciais desse ano,
temos que sair de Português e ir para Matemática, abrir
múltiplos separadores ou ter o ecrã dividido para conseguir
ver mais do que um em simultâneo. Mesmo vendo a mes-
ma disciplina, temos que abrir ou unir mais do que dois se-
paradores, para conseguir ver mais daquele domínio. Acaba
por ser mais simples e mais fácil, incluindo a disposição por
disciplina e ano, identificando o domínio e a aprendizagem
associada, em vez de ter aquele conjunto todo. E o facto de
também dar para copiar, acaba por ser mais simples... isto
113
facilita muito. (FP2)
...de uma forma muito, muito rápida, fundir um conjunto
de disciplinas, de anos escolares e até mesmo de conteúdos,
num curto espaço de tempo, coisa que demoraria mais tem-
po, se o tivéssemos que fazer, de forma individual, abrindo
cada pdf. (FP3)
Na sequência destas vantagens, os/as inquiridos/as salientam a
contribuição da ferramenta para a gestão curricular, destacando a fa-
cilitação do desenvolvimento de metodologias de avaliação centradas
nas AE, a mobilização de domínios de várias disciplinas para atividades
interdisciplinares e a facilidade de organização. Na perspetiva de uma
docente, a ferramenta "vai mais ao encontro do que é esperado do
Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, pois a sua leitura
torna mais holística a perceção das Aprendizagens Essenciais, quer na
sua articulação horizontal quer vertical” (P2).
É relevante destacar que algumas participantes mencionaram des-
vantagens associadas à ferramenta devido à ausência de informações
e/ou funcionalidades relevantes. Uma das desvantagens apontadas re-
fere-se ao facto de a ferramenta não incluir informações curriculares
presentes nos documentos das AE em formato PDF. Conforme expresso
por uma professora: "...não inclui o secundário, nem as aprendizagens
de cidadania e desenvolvimento, nem as competências do PASEO. Não
abrange aspetos essenciais das AE em formato PDF, como objetivos,
estratégias de ação e avaliação. ...não gera resultados ao buscar ter-
mos relacionados a atitudes e valores" (P6). Três participantes desta-
caram desvantagens relacionadas à visualização da informação, apon-
tando que a ferramenta não permite uma visão horizontal ou global do
currículo ("Não permite ter uma visão horizontal do currículo. Não nos
permite entender a posição de um determinado conteúdo em relação
a outros em uma disciplina e ano de escolaridade específicos" - P5). Por
fim, a limitação da pesquisa a palavras existentes nos descritores das
AE, bem como a falta de correspondência entre palavras no plural e no
singular, foram aspetos apontados como desvantagens.
Em resposta a essas desvantagens identificadas, algumas professo-
ras e futuros/as professores/as sugeriram a inclusão de novas funcio-
nalidades à ferramenta. Uma professora propôs a inclusão das AE de
Francês e Cidadania e Desenvolvimento do ensino básico, bem como
das AE do ensino secundário. Além disso, duas futuras professoras e
114
duas professoras sugeriram a integração de outras funcionalidades, co-
mo a articulação das AE com o Perfil do Aluno, estratégias, atividades
e avaliação. Também recomendaram que os PDF com os resultados das
pesquisas apresentassem as condições das mesmas.
4.2. Avaliação da usabilidade
A avaliação da usabilidade foi con
duzida por meio da observação de um grupo de doze futuros/as pro-
fessores/as durante a realização de diferentes tarefas em pares, bem
como pela análise das respostas dadas a um questionário aplicado a
professoras e futuros/as professores/as.
4.2.1. Observação da utilização do protótipo
A tabela 1 revela as estratégias adotadas pelos 6 grupos relativa-
mente à primeira tarefa, focada na análise da progressão das apren-
dizagens prevista nas AE sobre a área de figuras planas. Globalmente,
as três primeiras ações são semelhantes nos seis grupos: selecionam
os anos, a(s) disciplina(s) e o(s) domínios, o que corresponde à orga-
nização, da esquerda para a direita, da informação presente no ecrã.
Contudo, a quarta ação difere entre os grupos: quatro grupos solicitam
imediatamente os resultados sem fazerem uso da pesquisa por pa-
lavras; dois fazem uso dessa funcionalidade e só depois solicitam os
resultados. Esta diferença parece estar relacionada com a pouca visi-
bilidade desta funcionalidade, aspeto explicitado por dois grupos (B e
F), quando desafiados pelas dinamizadoras a pesquisarem por palavras.
Numa segunda fase, os grupos A e E ainda optaram por reformular os
domínios selecionados e solicitar os resultados e só depois, numa ter-
ceira fase, é que fizeram uso da pesquisa por palavras. Importa ainda
referir que dois grupos fizeram diferentes tentativas quanto às pala-
vras pesquisadas, inicialmente usando uma expressão e, posteriormen-
te, apenas uma palavra.
115
Tabela 1.
Estratégias adotadas pelos/as
participantes na 1.ª tarefa do
workshop
A segunda tarefa, que visava compreender como é que o tópico
“som/sons” era trabalhado nas diferentes áreas ao longo do ensino bá-
sico - foi realizada por dois grupos (B e F) de forma muito semelhante
(Tabela 2). As ações contemplaram sequencialmente: seleção de anos,
de disciplinas, de domínios e, por fim, a pesquisa por palavra. Assim,
após 5 ações, os grupos consideraram que a tarefa estava concluída. O
grupo F ao ser questionado sobre a existência, nos resultados obtidos,
de AE com palavras como sombra decidiram acrescentar um espaço
após a palavra “som”, tendo verificado que os resultados deixavam de
incluir esse tipo de palavras. Fruto desta exploração, foram levantadas
dúvidas sobre se a ferramenta era case-sensitive, tendo o grupo, após
comparação dos resultados obtidos pesquisando “Som” e “som”, cons-
tatado que não.
116
Tabela 2.
Estratégias adotadas pelos/as
participantes na 2.ª tarefa do
workshop
Relativamente à terceira tarefa – relacionada com a realização de
projeto para dinamizar as bibliotecas escolares - a estratégia utilizada
pelos grupos foi distinta (Tabela 3). O grupo D, foi mais rápido a rea-
lizar a tarefa, uma vez que depois de selecionar todos os anos, optou
por focar a pesquisa apenas na disciplina de Português e, dentro desta
disciplina, apenas no domínio da Educação Literária. Já o grupo C não
circunscreveu a pesquisa a nenhuma disciplina, nem a nenhum domí-
nio, tendo depois optado por pesquisar a expressão Educação Literária.
Em virtude dos resultados obtidos, e verificando que algumas das AE
pertenciam ao domínio da Educação Literária, decidiram realizar uma
nova pesquisa, eliminando a expressão e selecionando apenas esse
domínio.
Tabela 3.
Estratégias adotadas pelos/as
participantes na 3.ª tarefa do
workshop
Durante as conversas informais ocorridas no workshop os/as futuros/
as professores/as salientaram os seguintes aspetos, relativos à usabi-
lidade: dificuldades na pesquisa de algumas disciplinas e domínios,
devido à sua dispersão; não ser muito intuitivo o símbolo de impres-
sora para o download do documento PDF; não ser possível guardar os
resultados da pesquisa em dispositivos iPAD.
Durante as conversas informais ocorridas no workshop os/as futuros/as
professores/as sugeriram ainda: apresentação de disciplinas e domí-
117
nios por ordem alfabética; apresentação dos parâmetros de pesquisa
no PDF com os resultados da mesma.
4.2.2. Questionário sobre a usabilidade do protótipo
No que se refere a começar a usar a ferramenta, considerando no-
meadamente a identificação e posição dos botões, a grande maioria
das respostas foi muito positiva, integrando expressões com “simples”,
“intuitiva”, “imediata” e “fácil”. No entanto, duas docentes referiram que
quase desistiram da utilização da ferramenta. Uma destas docentes
considerou ser necessário um texto explicativo para apoiar o início
da utilização da ferramenta, por ter tido dificuldades em entender o
funcionamento da mesma, nomeadamente no que se refere à pesquisa
por palavras. A outra docente referiu dificuldades no uso dos menus
(checkboxes), tendo tido êxito, quando recordou uma ferramenta com
interface semelhante, o que contribui para a validação da consistência
externa desta interface.
A leitura do ecrã de pesquisa foi maioritariamente considerada fácil
e sem exigir esforço. No entanto, quatro futuros/as docentes sugeriram
ou consideraram a possibilidade de aumentar o tamanho da letra/ta-
belas.
A leitura dos ecrãs dos resultados foi considerada pela grande maio-
ria dos/as respondentes como fácil, sem exigir esforço. Apenas uma
docente considerou que “a apresentação dos resultados verticalmente,
em forma de lista, fica confusa”.
Todos/as os/as respondentes referiram que uma próxima utilização
seria mais fácil, incluindo as duas docentes que referiram quase ter
desistido no início. Adicionalmente, também todos/as os/as respon-
dentes confirmaram que aconselhariam a ferramenta a um/a colega.
Estas últimas respostas indicam motivação para futuras utilizações da
ferramenta, mesmo no que se refere às duas docentes que relataram
problemas de interação, tendo as mesmas incluído sugestões, que con-
sideraram de fácil implementação, para ultrapassar as dificuldades en-
contradas.
Complementarmente, e da mesma forma, todas as respostas à
questão sobre a satisfação sentida na utilização da ferramenta foram
positivas, mesmo quando foi necessário ultrapassar dificuldades de
interação. As razões apontadas para a sensação de satisfação relacio-
naram-se com a relevância e utilidade da ferramenta para a atividade
docente, a sua simplicidade, praticidade e eficácia face ao seu objetivo.
As mudanças sugeridas pelos/as participantes (Tabela 4), no que se
refere à usabilidade, centram-se na necessidade de uma ajuda à utili-
118
zação da ferramenta, no design dos ecrãs, bem como nos parâmetros e
resultados das pesquisas. Mais especificamente, como ajuda, é sugeri-
da a existência de um texto de apoio à utilização da ferramenta, que
inclua uma explicação sobre a pesquisa por palavras. No que se refere
ao design de ecrãs, foi sugerida uma análise às potencialidades de uma
mudança de cor das fontes, para facilitar a leitura dos PDF resultantes
das pesquisas. Ainda nesta categoria (Design de ecrãs), importa dar re-
levo às sugestões de aumento do tamanho das 3 tabelas do primeiro
ecrã, tendo existido uma sugestão de aumento do tamanho da letra.
Quanto aos parâmetros de pesquisa, duas futuras docentes e uma
docente sugeriram que, inicialmente, os campos em que se definem os
parâmetros de pesquisa, deveriam estar todos não selecionados. No
que diz respeito aos resultados de pesquisas, identificam-se dois tipos
de sugestões: i) que exista maior flexibilidade na pesquisa por pala-
vras; ii) que seja dado destaque à apresentação dos resultados por
ano de escolaridade e, dentro de cada ano, por ordem alfabética de
disciplinas.
Tabela 4.
Sugestões de melhorias
relativamente à usabilidade
da ferramenta 5. Discussão dos resultados
119
A avaliação do protótipo de alta-fidelidade de uma ferramenta de
apoio à pesquisa de Aprendizagens Essenciais foi realizada, recorren-
do a diversas técnicas, nomeadamente foi realizado um inquérito a
docentes e futuros/as docentes e foi implementado um workshop de
utilização do protótipo com futuros/as professores/as, tendo sido reco-
lhidos diferentes tipos de dados. A avaliação deste software interativo
utilizou múltiplas técnicas (Lu et al., 2022) tendo considerado as ques-
tões técnicas e o contexto social (Stringer et al., 2005). Tratando-se da
avaliação de um protótipo de alta-fidelidade, a avaliação foi de caráter
mais sumativo, não deixando de ser formativa (Lu et al., 2022).
Deste modo, face aos resultados da avaliação desenvolvida,
é possível afirmar que o protótipo de alta-fidelidade de uma ferramen-
ta de pesquisa de Aprendizagens Essenciais, em análise, cumpre, em
grande parte, as necessidades relativas à usabilidade e utilidade. Os
referidos resultados oferecem, também, possibilidades de melhorias na
interface e funcionalidades avaliadas.
Os resultados da avaliação em contexto, com tarefas e local pró-
ximos do quotidiano dos/as futuros/as professores/as, no workshop
desenvolvido especificamente para o efeito, foram obtidos por obser-
vação participante e recolha de registos pedidos pelas dinamizadoras
aos/às participantes. Estes resultados permitiram constatar que os/as
futuros/as professores/as utilizaram o protótipo de alta-fidelidade com
grande autonomia, tendo todos/as superado os desafios e tarefas pro-
postas, o que constitui um indicador de usabilidade e, até mesmo, da
experiência de utilização (Cockton, 2014). Foi observado que os dife-
rentes grupos foram consistentes nas estratégias usadas para desen-
volver as pesquisas de Aprendizagens Essenciais, permitindo assim a
constatação da perceção coletiva da forma de funcionamento e utilida-
de do protótipo. Foi possível verificar algumas diferenças, ao nível das
estratégias usadas, provavelmente resultantes da pouca visibilidade da
barra de pesquisa por palavras.
A utilização do protótipo por Professores/as, embora tenha sido rea-
lizada com sucesso e de forma autónoma por todos/as, já foi reportada
por duas Professoras como necessitando de um texto de Ajuda, que
pudesse ser lido antes do início da utilização. Desta forma, a facilidade
de aprendizagem, a eficiência de utilização e a satisfação na utilização
(Nielsen, 2012) foram elevadas para a maioria, mas não para a totali-
dade, dos/as utilizadores/as envolvidos/as na avaliação, tendo existido
heterogeneidade na experiência vivida por diferentes tipos de utiliza-
dores/as.
120
No que se refere à utilidade, a maioria dos/as utilizadores/as, envol-
vidos/as na avaliação, considerou a ferramenta de pesquisa de Apren-
dizagens Essenciais como útil, num sentido alargado deste conceito,
que inclui a oferta de nova/s e necessária/s funcionalidade/s, assim
como a maior eficiência e/ou facilidade de tarefas já existentes.
Algumas dimensões da avaliação não foram tão positivas e conduzi-
ram os/as utilizadores/as a um conjunto de sugestões de modificação
do protótipo da ferramenta. Tratando-se da avaliação de um protótipo
de alta-fidelidade, algumas sugestões que implicavam mudança de ob-
jetivos da ferramenta não conduziram a alterações, como por exemplo,
a inclusão de Aprendizagens Essenciais do Ensino Secundário e de su-
gestões de “estratégias de ação” e avaliação.
Foram, então, selecionadas, para ser implementadas, as seguintes
sugestões de utilizadores/as:
· Criar um texto de ajuda à utilização, disponível a partir no
ecrã principal da ferramenta;
· Aumentar, para mais facilidade de leitura, o tamanho dos
quadros de seleção dos parâmetros de pesquisa;
· Tornar a barra de pesquisa por palavras mais visível;
· Apresentar os resultados com uma primeira coluna de ano de
escolaridade e uma segunda de disciplina, tornando esta apre-
sentação consistente com a dos quadros de seleção de parâme-
tros de pesquisa;
· Alterar, para melhor compreensão, o ícone do botão de down-
load de resultados em PDF;
· Acrescentar as condições de pesquisa nos PDF de resultados
das pesquisas.
6. Conclusão
A ferramenta [Link] foi criada para facilitar a pesquisa de Apren-
dizagens Essenciais do Ensino Básico, em contextos de gestão de
currículo. O seu desenvolvimento foi participativo, com futuros/as uti-
lizadores/as (docentes e futuros/as docentes), e iterativo, incluindo en-
trevistas e focus groups com futuros/as utilizadores/as, para definição
de necessidades, o desenvolvimento de sketches (esboços) de interfaces
gráficos, por futuros/as docentes, de um protótipo de média-fidelidade,
avaliado por futuros/as docentes, e o desenvolvimento participativo e
iterativo de um protótipo de alta-fidelidade.
Neste capítulo, apresentou-se o processo de avaliação do protótipo
de alta-fidelidade, por docentes e futuros/as docentes. Este processo
121
envolveu múltiplas técnicas e permitiu a tomada das decisões que
conduziram à ferramenta [Link] (ver Figura 2).
Seguir-se-ão avaliações da ferramenta [Link] em contextos reais
de utilização.
Figura 2.
Ecrã final de pesquisa da ferra-
menta [Link]
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Legislação consultada
Decreto-lei n.º 55/2018, de 6 de julho. Diário da República, 1.ª série,
129.
Despacho n.º 6478/2017, de 26 de junho. Diário da República, 2.ª
série, 143.
Portaria n.º 181/2019, de 11 de junho. Diário da República, 1.ª série,
111.
123
Anexo
Documento de avaliação da Ferramenta [Link]
Nome:
Idade:
Instituição:
Profissão:
Níveis de ensino que leciona atualmente:
Área disciplinar:
1. Gostaríamos que explorasse a seguinte ferramenta ([Link]
[Link]/) de forma a dar resposta às seguintes questões:
1.1. Quais as vantagens e desvantagens da ferramenta de pesquisa das
aprendizagens essenciais (AE) para a análise da progressão da apren-
dizagem nelas prevista.
1.2. Quais as vantagens e desvantagens da ferramenta para a conce-
ção de projetos interdisciplinares e para a realização de articulações
curriculares
1.3. Quais as vantagens e desvantagens desta ferramenta relativamen-
te às AE no formato pdf?
2. Fruto das explorações realizadas, gostaríamos ainda que refletisse
sobre as seguintes questões:
2.1. Achou simples começar a usar esta ferramenta (identificação dos
botões, posição dos botões, ...)?
2.2. A leitura do ecrã inicial de pesquisa é fácil ou exige esforço (espa-
çamento, tipo de letra, tamanho de letra, cor da letra, ... )?
2.3. A leitura do ecrã com os resultados pedidos é fácil ou exige esfor-
ço? (espaçamento, tipo de letra, tamanho de letra, cor da letra ...)?
2.4. O número de tentativas e erros que teve que fazer até ter sucesso
foi adequado?
2.5. A utilização da ferramenta foi uma experiência que gerou satisfa-
ção ou pelo contrário?
2.6. Acha que a próxima vez que utilizar a ferramenta já o fará mais
facilmente?
2.7. Recomendaria a ferramenta a um/a colega?
124