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Grafo do Desejo: Estrutura e Função

A aula aborda o grafo do desejo, uma ferramenta clínica que permite entender a constituição do sujeito e a função do fantasma na psicanálise. Lacan desenvolve essa ideia ao longo de seus seminários, enfatizando a relação entre o desejo e o significante, e como a linguagem molda a experiência do sujeito. O grafo serve para estruturar a experiência psicanalítica, revelando como as necessidades biológicas são mediadas pela linguagem e transformadas em demandas.
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Grafo do Desejo: Estrutura e Função

A aula aborda o grafo do desejo, uma ferramenta clínica que permite entender a constituição do sujeito e a função do fantasma na psicanálise. Lacan desenvolve essa ideia ao longo de seus seminários, enfatizando a relação entre o desejo e o significante, e como a linguagem molda a experiência do sujeito. O grafo serve para estruturar a experiência psicanalítica, revelando como as necessidades biológicas são mediadas pela linguagem e transformadas em demandas.
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Aula n° 2: O grafo do desejo

Neste ano, trabalharemos duas questões fundamentais da estrutura: o sujeito e o fantasma.


Para isso, tomaremos como referência principal o grafo do desejo. Existe uma clínica
inteiramente montada sobre esse grafo, e, ao construí-lo, é possível determinar a
constituição do sujeito, seu barramento como efeito do significante, bem como a
localização topológica do fantasma e sua função: o posicionamento do objeto a no
fantasma como suporte que o sujeito cria para responder à falta no Outro.

Para alcançar o 2° Piso do grafo, onde encontraremos o fantasma, vamos construí-lo piso
por piso, vetor por vetor e letra por letra.

Lacan inicia a elaboração desse grafo no Seminário V: As formações do inconsciente (1957-


1958), continua no Seminário VI: O desejo e sua interpretação (1958-1959) e apresenta sua
versão definitiva em um Escrito de setembro de 1960, intitulado Subversão do sujeito e
dialética do desejo no inconsciente freudiano.

Como Lacan define esse grafo em 1960:

"...elaboramos para nosso ensino durante este último lustro, ou seja, introduzimos certo grafo
sobre o qual avisamos que não garante senão o uso entre outros que lhe daremos, tendo sido
construído e aperfeiçoado em todas as direções para situar, em seu nivelamento, a estrutura
mais amplamente prática dos dados de nossa experiência."
(E, 2, p. 784; ed. cast.)

Para que serve o grafo?


O grafo serve para situar, em seu nível, a estrutura que entra em jogo em nossa experiência.
Ou seja, nossa experiência — a psicanálise — possui uma estrutura, e é apenas nessa
estrutura que se pode pensar os dados da experiência. Lacan prossegue:

"Servir-nos-ia aqui para apresentar onde se situa o desejo em relação a um sujeito definido
por sua articulação pelo significante."

Pensar a experiência a partir da estrutura permitirá situar o desejo em relação ao sujeito,


definido por sua relação com o significante.

Trata-se de uma topologia do sujeito. A topologia, ramo da geometria que estuda


espaços, estabelece funções, indica relações entre termos e delimita lugares. Teremos,
assim, na estrutura: funções, termos, lugares e as relações entre eles.

No Seminário V: As formações do inconsciente, Lacan inicia a construção do grafo (embora


não o nomeie assim na época; refere-se a ele como "esquema", conforme aparece na
edição em castelhano disponível). Esse esquema baseia-se na experiência do chiste e serve
para representar o que ocorre no nível da técnica do chiste, técnica que Lacan equipara à
técnica do significante.

A célula elementar
O que Lacan chamará em Subversão do sujeito... de célula elementar do grafo já está
prefigurado no Seminário V: As formações do inconsciente. Ainda que tomemos como eixo
principal as gráficas de Subversão do sujeito..., retomaremos alguns pontos dos Seminários
V e VI.
Nesse esquema, abordam-se as relações do sujeito com o significante: o que ocorre
quando o vivente é capturado pela estrutura da linguagem, quando é tomado pelo
significante, que lhe impõe sua estrutura. A captura do vivente na estrutura da linguagem é
condição para a existência do sujeito, e isso é o que se articula no grafo. Em outras
palavras, o que leremos no grafo são as condições de existência do sujeito.

(aqui segue imagem - esquema - do Grafo 1)

Nesta primeira gráfica, trata-se do cruzamento de duas linhas com sentidos inversos —
uma em direção oposta à outra. As duas linhas não representam o significante e o
significado, pois estamos inteiramente no plano do significante: são dois estados do
significante. A cadeia significante sustenta-se no vetor S → S'.

(aqui segue esquema)

Por um lado, a cadeia significante submete toda manifestação da linguagem a uma regra
de sucessão no tempo, isto é, a uma diacronia (retomaremos isso ao falar da frase). Por
outro, essa cadeia indica a existência de uma bateria significante constituída em uma
reunião sincrônica — simultânea —, como Freud a nomeia na Carta 52 a Fliess. Lembremos
que, ao escrever essa carta, Freud busca elaborar uma hipótese sobre a estratificação do
aparato psíquico, afirmando que há pelo menos três registros distintos de inscrições, cada
um ordenado por nexos diferentes:

(aqui segue esquema de Freud na carta a Fliess)

Nota do tradutor:

• Termos preservados: grafo, fantasma, objeto a, Outro, significante.

Tradução para o português (Parte 2/6):


[Freud situa a percepção em um extremo e a consciência no outro, e entre eles as três
transcrições. A primeira transcrição, a dos signos perceptivos (Ps), indica o que da
percepção se inscreve, já que não é homólogo ao que temos no nível da percepção (P).
Essa inscrição, Ps, ocorre segundo um nexo de simultaneidade. A ideia em questão é a
entrada no aparelho de toda a "bateria significante", do conjunto dos significantes. É
notável o que Freud já articula ali, pois, em seguida, na segunda transcrição — a do
inconsciente (Ic) —, há um X ausente, a falta de um significante na bateria que a incompleta
e constitui o inconsciente na repressão.]

Voltando ao vetor S-S', aqui os elementos significantes só se sustentam pelo princípio de


sua oposição a cada um dos outros elementos, discretos e diacríticos, tal como
caracterizamos em nosso encontro anterior.
Além disso, pelo exposto, a cadeia significante permanece permeável aos efeitos
propriamente significantes da metáfora e da metonímia. O que isso significa?

Quando falamos, constantemente, tomamos significantes da bateria e os combinamos


(diacronia), não apenas os tomamos, mas também podemos substituir (sincronia) um termo
por outro. Em vez de dizer "lentes", podemos dizer "óculos" ou "oculos". Contudo, embora
toda metáfora seja induzida por uma substituição, nem toda substituição é uma metáfora.
Por quê? Porque uma coisa é o que ocorre com o significante no processo primário, e
outra, no processo secundário. É no processo primário que, na psicanálise, falamos de
metáfora e metonímia, e nesse sentido dizemos que o inconsciente está estruturado
como uma linguagem.

“O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que, em algum lugar (em
outra cena, escreve ele), se repete e insiste...
Nesta fórmula — que só é nossa por se conformar tanto ao texto freudiano quanto à
experiência que ele inaugurou —, o termo decisivo é o significante...
...o fato de que os mecanismos descritos por Freud como próprios do processo primário, em
que o inconsciente encontra seu regime (...), concretamente a metáfora e a metonímia, ou
seja, os efeitos de substituição e combinação do significante nas dimensões respectivamente
sincrônica e diacrônica onde aparecem no discurso.
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 779; Ed. cast.)”

[O que discutimos aqui relaciona-se com este trecho: o inconsciente estruturado como
linguagem, a cadeia significante e suas leis de funcionamento, ou seja, metáfora e
metonímia. Então:

“Uma vez reconhecida no inconsciente a estrutura da linguagem, que tipo de sujeito podemos
conceber para ele?”

Lembrem-se de que, no encontro anterior, dissemos que a ideia de sujeito que formulamos
dependerá da ideia de estrutura que adotarmos. Temos o inconsciente estruturado como
linguagem, mas qual sujeito lhe atribuiremos?

A outra linha parte de Δ (delta), culminando no $ (sujeito barrado).

(Aqui, segue um esquema)

Em Δ, Lacan situa o sujeito mítico da necessidade, ou seja, o vivente. Refere-se à posição


primitiva não constituída do sujeito da necessidade, que sofre as condições impostas pelo
significante.
Notem que o sujeito, $, está no final do vetor, não em Δ. Por isso, fala-se ali, em Δ, de uma
posição primitiva e não constituída do sujeito. Chamamos esse sujeito não constituído
de sujeito mítico da necessidade. Lacan não afirma: “aqui está o sujeito”, mas sim uma
posição primitiva ainda não configurada como sujeito.

É nisso que reside o que se produz e está representado no esquema: como esse sujeito
mítico sofre as condições impostas pela cadeia significante.
Dizemos sujeito mítico da necessidade porque o ser humano, enquanto ser falante, não
pode acessar o objeto (da necessidade, por exemplo) sem tê-lo de pedir. E, desde que
precisa pedi-lo, as necessidades são forçadas a passar pelo desfiladeiro do significante. Ou
seja, a necessidade é capturada pela linguagem. O que isso significa? Um infans (aquele
que não fala) é aquele que não se sustenta por si mesmo e depende do outro. É
exatamente essa situação que Freud descreve no Projeto... quando comenta que, para
eliminar os estímulos internos do organismo — a urgência da vida —, é absolutamente
necessário um Outro que, alertado, possa realizar para o infans a ação específica (não
qualquer ação) que interrompa o desprazer (a tensão excessiva). A mãe — ou quem exerça
a função materna — é a primeira figura desse Outro que deve interpretar o choro da
criança: fome, sede, etc. Essa interpretação faz com que a necessidade passe pelo lugar do
Outro, pelo desfiladeiro do significante, transformando a necessidade biológica em algo
mediado pela linguagem.]

Notas para Consistência:

1. Termos técnicos preservados (como no original):


o $ (sujeito barrado), Δ (delta), S-S' (vetor significante).
o Infans (mantido em latim, conforme uso psicanalítico).
2. Glossário implícito:
o Bateria significante = Conjunto de significantes disponíveis.
o Desfiladeiro do significante = Mediação simbólica imposta pela linguagem.
3. Citações:
o Formatação com > para destacar trechos de Lacan/Freud.

Tradução para o português (Parte 3/6):


[Portanto, a necessidade biológica como tal se perde, perdida pela necessidade de passar
pelo lugar do Outro, do significante. A necessidade capturada pela linguagem fará com que
falemos de demanda, pois uma necessidade mediada pela linguagem deixa de ser uma
necessidade. Retomaremos isso mais adiante.
Essa seria uma das razões pelas quais Lacan, no esquema subsequente, parte do sujeito
barrado ($), já que, desde o início, sofre-se a estrutura da linguagem.
A cadeia significante, S - S', será cruzada em dois pontos, que indicam a maneira como o
sujeito entra no jogo da cadeia significante.

(Aqui, segue um esquema)

Um dos pontos de cruzamento é A, o Outro (a bateria significante e as leis de seu uso). O


outro ponto é s(A), o significado do Outro, o que Lacan, anteriormente (Seminário V),
anotava como M (mensagem). O significado do Outro é a mensagem que o sujeito recebe
de A.

“Um, conotado A, é o lugar do tesouro do significante, o que não significa do código, pois não
se trata de conservar nele a correspondência unívoca de um signo com algo, mas sim de que
o significante só se constitui de uma reunião sincrônica e numerável, onde nenhum se
sustenta senão pelo princípio de sua oposição a cada um dos outros. O outro, conotado s(A),
é o que pode chamar-se de pontuação onde a significação se constitui como produto
terminado.
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 785; Ed. cast.)”

Por que o lugar do Outro não se refere ao código?


O código é um termo da linguística que designa o conjunto de signos linguísticos, tal
como definido por Saussure. Por exemplo, um dicionário funcionaria como código,
contendo palavras e seus significados. Como discutido em nosso primeiro encontro, a
lógica do significante implica que o significado está perdido desde o início — uma
estrutura feita de não sentido — e, em todo caso, deve ser produzido. Portanto, não se trata
de um código, mas do Outro: o lugar do tesouro do significante.

Se alguém pretende dizer algo, deve tomar da bateria significante (o Outro, sincrônico) os
significantes e combiná-los seguindo as leis de seu uso, produzindo uma mensagem
em s(A).
A mensagem tem uma dimensão temporal (diacrônica), que se manifesta na frase, já que a
significação só se completa no último termo. Por exemplo:

• Uma.
• Uma menina.
• Uma menina correu.
• Uma menina correu para o tobogã.

Assim, é après coup (nachträglich, termo utilizado por Freud em alemão) — retroativamente
— que a mensagem se produz como produto final, a partir do significante que a precede.
Dependendo de onde se pontua a frase, a significação muda. Não é o mesmo pontuar
em "correu" ou em "tobogã".

Além disso, o circuito da significação não termina na mensagem: ele depende da sanção
do Outro. Os elementos discretos (separados) da bateria aparecem na frase como uma
unidade de sentido, com um significado.

(Aqui, segue um esquema)

O que vai da mensagem (s(A)) ao Outro (A) indica uma unidade de significação. A sanção
da mensagem é a linha que vai do Outro ao significado do Outro. A intenção de dizer algo
se constitui no que o interlocutor sanciona.
Por exemplo: alguém diz "tenho o corpo da minha mãe" — o que é problemático para o
sujeito que, ao falar de semelhanças familiares, pretende dizer a quem ela se parece.
Porém, o que é sancionado — "Que problema!" — é outra coisa além de sua intenção.

A submissão do sujeito ao significante ocorre no circuito que vai de s(A) (significado do


Outro) a A (Outro), retornando do Outro a s(A). A direção oposta dos vetores indica o
efeito retroativo (après coup). A máquina do inconsciente funciona nesse circuito.
Isso significa que, no campo do significante, a comunicação sempre falha: não há intenção
que evite o mal-entendido. Sempre se diz outra coisa além do que se pretende.

O Outro é um lugar, enquanto o significado do Outro é uma pontuação, uma escansão. O


Outro é o lugar de onde parte a mensagem, para onde ela se dirige e de onde é
sancionada.

“O Outro, como sede prévia do puro sujeito do significante, ocupa ali a posição mestra,
mesmo antes de vir à existência (...). Pois o que se omite na tagarelice da moderna teoria da
informação é que não se pode falar de código senão como código do Outro, mas certamente
trata-se de outra coisa na mensagem, já que é por ela que o sujeito se constitui, e é do Outro
que o sujeito recebe até a mensagem que emite.
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 786; Ed. cast.)”
Notas para Consistência:

1. Termos técnicos preservados:


o A (Outro), s(A) (significado do Outro), après coup/nachträglich (termos
técnicos em itálico).
o Código (mantido como no original, diferenciado do "tesouro do
significante").
2. Glossário implícito:
o Après coup = Efeito retroativo de significação.
o Escansão = Divisão rítmica ou pontuação que define sentido.
3. Citações:
o Formatação com > para trechos de Lacan, mantendo coerência com partes
anteriores.

Tradução para o português (Parte 4/6):


[Novamente, neste trecho, temos o Outro como sede da linguagem, preexistindo a um
sujeito que será efeito do significante e ocupando uma posição mestra por ser constitutivo
do inconsciente. Anos mais tarde, quando Lacan formalizará a estrutura dos discursos,
posicionará o discurso do Amo (ou Mestre) — que constitui o inconsciente — a partir do
ato de fazer-se representar um sujeito por um significante.]

O que a teoria da informação omite é que os significantes com os quais se fala vêm
do Outro, estão no Outro. Portanto, fala-se com os significantes do Outro, não se sabe o
que se diz, e a única forma de entender o que se diz é pela sanção do Outro. Isso se
escreve como

∗∗(sujeitobarrado),adivisa~o(∗Spaltung∗,emalema~o),queosujeitosofreporsoˊexi
stircomosujeitonamedidaemquefala.∗∗∗∗(sujeitobarrado),adivisa~o(∗Spaltun
g∗,emalema~o),queosujeitosofreporsoˊexistircomosujeitonamedidaemquef
ala.∗∗ significa que o sujeito mítico da necessidade (o vivente) foi capturado pela
estrutura da linguagem. Ou seja, sua intencionalidade foi anulada pelo poder de sanção do
Outro.

No Seminário VI: O desejo e sua interpretação, Lacan dirá que este primeiro grafo trata
do infans — aquele que, mesmo sem falar, já recebe e sofre a estrutura da linguagem, já
passou pelo desfiladeiro do significante.
Isso implica que o sujeito já está barrado
()∗∗antesdefalar,[Link],o∗∗sujeitomıˊt
icodanecessidade∗∗soˊpodesersupostoretroativamente.Eˊporissoque,nosgraˊfico
sseguintes,Lacanpartede∗∗)∗∗antesdefalar,simplesmenteporquealinguagem
[Link],o∗∗sujeitomıˊticodanecessidade∗∗soˊpodesersupostoretroa
tivamente.Eˊporissoque,nosgraˊficosseguintes,Lacanpartede∗∗.

Há outra dimensão destacada por Lacan nesta célula elementar: o Outro como
testemunha da verdade.

“Observemos, entre parênteses, que esse Outro distinguido como lugar da Palavra não se
impõe menos como testemunha da Verdade.
...Mas é claro que a Palavra só começa com a passagem da ficção à ordem do significante, e
que o significante exige outro lugar — o lugar do Outro, o Outro como testemunha, a
testemunha Outra que qualquer participante — para que a Palavra que sustenta possa
mentir, ou seja, apresentar-se como Verdade.
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 786/787; Ed. cast.)”

Como a Verdade não pode ser dita por inteiro, ela fala por ficções e formações do
inconsciente. A palavra começa com a passagem da ficção à ordem do significante, e essa
lógica exige o Outro para sancionar a Verdade em jogo nessa mentira.

Famillonário

No início de nosso encontro hoje, mencionei que Lacan constrói o esquema no Seminário
V: As formações do inconsciente para representar o que ocorre no que Freud chama
de técnica do chiste, que Lacan homologa à técnica do significante.

ESQUEMA
(Aqui, segue um esquema)

Primeira aplicação:

• Circuito δ e A δ' = Cadeia do significante.


• Circuito Aββ'γ = Círculo do discurso.
• γ = Mensagem (lugar da metáfora).
• A = Outro (código).
• β' = Objeto metonímico.
• β = Eu do discurso.

Neste esquema, há dois pontos de cruzamento: a mensagem (γ) e o Outro (A), chamado
de "código" neste Seminário. Há também um vetor ββ', que indica um curto-
circuito (abordaremos isso no próximo encontro, pois aparece no Grafo 2 de Subversão do
sujeito...).

É entre a mensagem e o código, e no retorno do código à mensagem, que se joga a


dimensão do chiste. Para Freud, o problema do chiste está na técnica do significante,
operando no nível do inconsciente. Em O chiste..., Freud analisa técnicas verbais que Lacan
chama de técnica do significante, mostrando como o inconsciente estrutura-se como
linguagem.

Freud usa o exemplo do Famillonário (do livro Banhos de Luca, de Heinrich Heine), em que
o personagem Hirsch Hyacinth, após encontrar o banqueiro Salomão Rothschild, diz:

“Tão certo como que Deus deve velar pelo meu bem, Rothschild me tratou de igual para igual
de um modo totalmente famillonário!”

(Nota: "Famillonário" é um neologismo que mistura "familiar" e "milionário", satirizando a


falsa intimidade do poderoso.)
Notas para Consistência:

1. Termos técnicos preservados:


o $ (sujeito barrado), Spaltung (cisão), infans (mantido em latim).
o Famillonário (termo específico mantido, com explicação contextual).
2. Glossário implícito:
o Discurso do Amo = Estrutura discursiva que institui o inconsciente.
o Técnica do significante = Mecanismos linguísticos que regem o
inconsciente.
3. Citações:
o Formatação com > para trechos de Lacan, conforme partes anteriores.

Tradução para o português (Parte 5/6):


[Lacan pergunta: O que é isso? Um neologismo? Um lapso? Por que não seria um lapso? Ele
quis dizer "familiarmente" e disse "famillonariamente" — ou é um chiste? Ele não hesita em
responder que se trata, de fato, de um chiste, e explica por quê. Seguindo a análise de
Freud sobre a formação desse chiste, reconhece-se o mecanismo da condensação no
material significante — uma espécie de "embutido" entre duas linhas de cadeias
significantes. Freud identifica duas proposições:

1. Rothschild me tratou como a um igual, muito familiarmente (Familiar).


2. Até o ponto em que isso é possível para um milionário (Milionário).

O resultado é:

“Rothschild me tratou como a um igual, muito famillonariamente!”

Como se formou isso? Freud questiona a gênese dessa condensação com formação
substitutiva (em alemão):

Copy
FAMILI AR
------ ---
_______________
F AM I LIONAR

Freud esquematiza o significante e destaca a repetição das sílabas MILI e AR, presentes nas
duas proposições, que se condensam para formar FAMILIONAR.

Lacan explica, no Seminário V, que esse processo envolve três tempos e duas cadeias:

1. Discurso comum: Parte do Outro (A) e retorna a ele, refletindo-se


em β (o eu implicado na situação). No exemplo, o personagem pretende dizer que
Rothschild o tratou "muito familiarmente".
2. Cortocircuito significante: A intenção desvia-se pelo vetor ββ', ligando-se
ao objeto metonímico (β') — o "milionário" que Hirsch Hyacinth deseja ser (ou
que o domina). A homofonia entre MILI e AR atrai o objeto metonímico, resultando
em FAMILIONAR no mensagem (γ).
3. Sanção pelo Outro: O neologismo "famillonário" dirige-se ao Outro (A) para ser
sancionado. A sanção ocorre pelo riso, o que o define como chiste (e não como
lapso). Como Freud afirma, (…). (Nota: Trecho final incompleto no original.)

Notas para Consistência:

1. Termos técnicos preservados:


oChiste (mantido em espanhol, conforme uso psicanalítico em português).
oCortocircuito (vetor ββ'), objeto metonímico (β'), δ' (delta prima).
2. Estrutura do neologismo:
o A decomposição silábica foi mantida visualmente, como no original.
3. Citações e referências:
o Seminário V e O chiste... em itálico, conforme padrão anterior.
4. Glossário implícito:
o Condensação = Mecanismo do inconsciente que funde significantes.
o Sanção pelo Outro = Validação social/simbólica do sentido.

Tradução para o português (Parte 6/6):

Bibliografia:

Freud, S.:

• Projeto de uma Psicologia para Neurologistas. Ponto 1. Ed. Biblioteca Nova.


• Fragmentos da Correspondência com Fliess. Carta 52. Ed. Amorrortu.
• O Chiste e sua Relação com o Inconsciente. Ed. Biblioteca Nova.

Lacan, J.:

• Seminário V: As Formações do Inconsciente. Aulas de 6/11/57 e 13/11/57. Inédito.


• Seminário VI: O Desejo e sua Interpretação. Aulas de 12/11/58 e 19/11/58. Inédito.
• Subversão do Sujeito.... In: Escritos 2. Ed. Século XXI.

Notas Finais:

1. Padronização de Títulos:
Mantidos os títulos originais em espanhol para obras ainda não traduzidas
o
oficialmente ao português (ex: Seminário V e VI).
o Ed. Siglo XXI traduzido como Ed. Século XXI para coerência com o mercado
editorial brasileiro.
2. Termos Técnicos:
o Inconsciente (sem hífen) e Chiste mantidos conforme convenção
psicanalítica em português.
3. Formatação:
o Itálico para obras completas (ex: O Chiste...).
o Negrito para autores, conforme estilo das partes anteriores.

Tradução Final (Partes 2/6 a 6/6) – Texto Contínuo e Coeso


(Nota: A Parte 1/6 não foi incluída, conforme informado. Para integração completa, insira-a
no início deste texto.)

Parte 2/6

Freud situa a percepção em um extremo e a consciência no outro, e entre eles as três


transcrições. A primeira transcrição, a dos signos perceptivos (Ps), indica o que da
percepção se inscreve, já que não é homólogo ao que temos no nível da percepção (P).
Essa inscrição, Ps, ocorre segundo um nexo de simultaneidade. A ideia em questão é a
entrada no aparelho de toda a "bateria significante", do conjunto dos significantes. É
notável o que Freud já articula ali, pois, em seguida, na segunda transcrição — a do
inconsciente (Ic) —, há um X ausente, a falta de um significante na bateria que a incompleta
e constitui o inconsciente na repressão.

Voltando ao vetor S-S', os elementos significantes só se sustentam pelo princípio de sua


oposição a cada um dos outros elementos, discretos e diacríticos, tal como caracterizamos
em nosso encontro anterior. Além disso, pelo exposto, a cadeia significante permanece
permeável aos efeitos propriamente significantes da metáfora e da metonímia. O que isso
significa?

Quando falamos, constantemente, tomamos significantes da bateria e os combinamos


(diacronia), não apenas os tomamos, mas também podemos substituir (sincronia) um termo
por outro. Em vez de dizer "lentes", podemos dizer "óculos" ou "oculos". Contudo, embora
toda metáfora seja induzida por uma substituição, nem toda substituição é uma metáfora.
Por quê? Porque uma coisa é o que ocorre com o significante no processo primário, e
outra, no processo secundário. É no processo primário que, na psicanálise, falamos de
metáfora e metonímia, e nesse sentido dizemos que o inconsciente está estruturado
como uma linguagem.

“O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que, em algum lugar (em
outra cena, escreve ele), se repete e insiste... Nesta fórmula — que só é nossa por se
conformar tanto ao texto freudiano quanto à experiência que ele inaugurou —, o termo
decisivo é o significante... o fato de que os mecanismos descritos por Freud como próprios do
processo primário, em que o inconsciente encontra seu regime (...), concretamente a metáfora
e a metonímia, ou seja, os efeitos de substituição e combinação do significante nas dimensões
respectivamente sincrônica e diacrônica onde aparecem no discurso”
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 779; Ed. cast.).

O que discutimos aqui relaciona-se com este trecho: o inconsciente estruturado como
linguagem, a cadeia significante e suas leis de funcionamento, ou seja, metáfora e
metonímia. Então: “Uma vez reconhecida no inconsciente a estrutura da linguagem, que tipo
de sujeito podemos conceber para ele?”.
Lembrem-se de que, no encontro anterior, dissemos que a ideia de sujeito que formulamos
dependerá da ideia de estrutura que adotarmos. Temos o inconsciente estruturado como
linguagem, mas qual sujeito lhe atribuiremos? A outra linha parte de Δ (delta), culminando
no $ (sujeito barrado).

Em Δ, Lacan situa o sujeito mítico da necessidade, ou seja, o vivente. Refere-se à posição


primitiva não constituída do sujeito da necessidade, que sofre as condições impostas pelo
significante. Notem que o sujeito, $, está no final do vetor, não em Δ. Por isso, fala-se ali,
em Δ, de uma posição primitiva e não constituída do sujeito. Chamamos esse sujeito não
constituído de sujeito mítico da necessidade. Lacan não afirma: “aqui está o sujeito”, mas
sim uma posição primitiva ainda não configurada como sujeito.

É nisso que reside o que se produz e está representado no esquema: como esse sujeito
mítico sofre as condições impostas pela cadeia significante. Dizemos sujeito mítico da
necessidade porque o ser humano, enquanto ser falante, não pode acessar o objeto (da
necessidade, por exemplo) sem tê-lo de pedir. E, desde que precisa pedi-lo, as
necessidades são forçadas a passar pelo desfiladeiro do significante. Ou seja, a
necessidade é capturada pela linguagem. O que isso significa? Um infans (aquele que
não fala) é aquele que não se sustenta por si mesmo e depende do outro. É exatamente
essa situação que Freud descreve no Projeto... quando comenta que, para eliminar os
estímulos internos do organismo — a urgência da vida —, é absolutamente necessário um
Outro que, alertado, possa realizar para o infans a ação específica (não qualquer ação) que
interrompa o desprazer (a tensão excessiva). A mãe — ou quem exerça a função materna —
é a primeira figura desse Outro que deve interpretar o choro da criança: fome, sede, etc.
Essa interpretação faz com que a necessidade passe pelo lugar do Outro, pelo desfiladeiro
do significante, transformando a necessidade biológica em algo mediado pela linguagem.

Parte 3/6

Portanto, a necessidade biológica como tal se perde, perdida pela necessidade de passar
pelo lugar do Outro, do significante. A necessidade capturada pela linguagem fará com que
falemos de demanda, pois uma necessidade mediada pela linguagem deixa de ser uma
necessidade. Retomaremos isso mais adiante. Essa seria uma das razões pelas quais Lacan,
no esquema subsequente, parte do sujeito barrado ($), já que, desde o início, sofre-se a
estrutura da linguagem.

A cadeia significante, S - S', será cruzada em dois pontos, que indicam a maneira como o
sujeito entra no jogo da cadeia significante. Um dos pontos de cruzamento é A, o Outro (a
bateria significante e as leis de seu uso). O outro ponto é s(A), o significado do Outro, o que
Lacan, anteriormente (Seminário V), anotava como M (mensagem). O significado do Outro
é a mensagem que o sujeito recebe de A.

“Um, conotado A, é o lugar do tesouro do significante, o que não significa do código, pois não
se trata de conservar nele a correspondência unívoca de um signo com algo, mas sim de que
o significante só se constitui de uma reunião sincrônica e numerável, onde nenhum se
sustenta senão pelo princípio de sua oposição a cada um dos outros. O outro, conotado s(A),
é o que pode chamar-se de pontuação onde a significação se constitui como produto
terminado”
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 785; Ed. cast.).

Por que o lugar do Outro não se refere ao código?


O código é um termo da linguística que designa o conjunto de signos linguísticos, tal
como definido por Saussure. Por exemplo, um dicionário funcionaria como código,
contendo palavras e seus significados. Como discutido em nosso primeiro encontro, a
lógica do significante implica que o significado está perdido desde o início — uma
estrutura feita de não sentido — e, em todo caso, deve ser produzido. Portanto, não se trata
de um código, mas do Outro: o lugar do tesouro do significante.

Se alguém pretende dizer algo, deve tomar da bateria significante (o Outro, sincrônico) os
significantes e combiná-los seguindo as leis de seu uso, produzindo uma mensagem
em s(A). A mensagem tem uma dimensão temporal (diacrônica), que se manifesta na frase,
já que a significação só se completa no último termo. Por exemplo:

• Uma.
• Uma menina.
• Uma menina correu.
• Uma menina correu para o tobogã.

Assim, é après coup (nachträglich, termo utilizado por Freud em alemão) — retroativamente
— que a mensagem se produz como produto final, a partir do significante que a precede.
Dependendo de onde se pontua a frase, a significação muda. Não é o mesmo pontuar
em "correu" ou em "tobogã".

Além disso, o circuito da significação não termina na mensagem: ele depende da sanção
do Outro. Os elementos discretos (separados) da bateria aparecem na frase como uma
unidade de sentido, com um significado. O que vai da mensagem (s(A)) ao Outro (A) indica
uma unidade de significação. A sanção da mensagem é a linha que vai do Outro ao
significado do Outro. A intenção de dizer algo se constitui no que o interlocutor sanciona.

Por exemplo: alguém diz "tenho o corpo da minha mãe" — o que é problemático para o
sujeito que, ao falar de semelhanças familiares, pretende dizer a quem ela se parece.
Porém, o que é sancionado — "Que problema!" — é outra coisa além de sua intenção. A
submissão do sujeito ao significante ocorre no circuito que vai de s(A) (significado do
Outro) a A (Outro), retornando do Outro a s(A). A direção oposta dos vetores indica o
efeito retroativo (après coup). A máquina do inconsciente funciona nesse circuito.

Isso significa que, no campo do significante, a comunicação sempre falha: não há intenção
que evite o mal-entendido. Sempre se diz outra coisa além do que se pretende.
O Outro é um lugar, enquanto o significado do Outro é uma pontuação, uma escansão. O
Outro é o lugar de onde parte a mensagem, para onde ela se dirige e de onde é
sancionada.

“O Outro, como sede prévia do puro sujeito do significante, ocupa ali a posição mestra,
mesmo antes de vir à existência (...). Pois o que se omite na tagarelice da moderna teoria da
informação é que não se pode falar de código senão como código do Outro, mas certamente
trata-se de outra coisa na mensagem, já que é por ela que o sujeito se constitui, e é do Outro
que o sujeito recebe até a mensagem que emite”
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 786; Ed. cast.).

Parte 4/6

Novamente, neste trecho, temos o Outro como sede da linguagem, preexistindo a um


sujeito que será efeito do significante e ocupando uma posição mestra por ser constitutivo
do inconsciente. Anos mais tarde, quando Lacan formalizará a estrutura dos discursos,
posicionará o discurso do Amo (ou Mestre) — que constitui o inconsciente — a partir do
ato de fazer-se representar um sujeito por um significante.

O que a teoria da informação omite é que os significantes com os quais se fala vêm
do Outro, estão no Outro. Portanto, fala-se com os significantes do Outro, não se sabe o
que se diz, e a única forma de entender o que se diz é pela sanção do Outro. Isso se
escreve
como ∗∗(sujeitobarrado),adivisa~o(∗Spaltung∗,emalema~o),queosujeitosofrepor
soˊexistircomosujeitonamedidaemquefala.∗∗∗∗(sujeitobarrado),adivisa~o(∗Sp
altung∗,emalema~o),queosujeitosofreporsoˊexistircomosujeitonamedidae
mquefala.∗∗ significa que o sujeito mítico da necessidade (o vivente) foi capturado pela
estrutura da linguagem. Ou seja, sua intencionalidade foi anulada pelo poder de sanção do
Outro.

No Seminário VI: O desejo e sua interpretação, Lacan dirá que este primeiro grafo trata
do infans — aquele que, mesmo sem falar, já recebe e sofre a estrutura da linguagem, já
passou pelo desfiladeiro do significante. Isso implica que o sujeito já está barrado
()∗∗antesdefalar,[Link],o∗∗sujeitomıˊt
icodanecessidade∗∗soˊpodesersupostoretroativamente.Eˊporissoque,nosgraˊfico
sseguintes,Lacanpartede∗∗)∗∗antesdefalar,simplesmenteporquealinguagem
[Link],o∗∗sujeitomıˊticodanecessidade∗∗soˊpodesersupostoretroa
tivamente.Eˊporissoque,nosgraˊficosseguintes,Lacanpartede∗∗.

Há outra dimensão destacada por Lacan nesta célula elementar: o Outro como
testemunha da verdade.

“Observemos, entre parênteses, que esse Outro distinguido como lugar da Palavra não se
impõe menos como testemunha da Verdade. (...) Mas é claro que a Palavra só começa com a
passagem da ficção à ordem do significante, e que o significante exige outro lugar — o lugar
do Outro, o Outro como testemunha, a testemunha Outra que qualquer participante — para
que a Palavra que sustenta possa mentir, ou seja, apresentar-se como Verdade”
(Subversão do sujeito... • E. 2, p. 786/787; Ed. cast.).

Como a Verdade não pode ser dita por inteiro, ela fala por ficções e formações do
inconsciente. A palavra começa com a passagem da ficção à ordem do significante, e essa
lógica exige o Outro para sancionar a Verdade em jogo nessa mentira.

Parte 5/6
No início de nosso encontro hoje, mencionei que Lacan constrói o esquema no Seminário
V: As formações do inconsciente para representar o que ocorre no que Freud chama
de técnica do chiste, que Lacan homologa à técnica do significante.

ESQUEMA
(Aqui, segue um esquema)

Primeira aplicação:

• Circuito δ e A δ' = Cadeia do significante.


• Circuito Aββ'γ = Círculo do discurso.
• γ = Mensagem (lugar da metáfora).
• A = Outro (código).
• β' = Objeto metonímico.
• β = Eu do discurso.

Neste esquema, há dois pontos de cruzamento: a mensagem (γ) e o Outro (A), chamado
de "código" neste Seminário. Há também um vetor ββ', que indica um curto-
circuito (abordaremos isso no próximo encontro, pois aparece no Grafo 2 de Subversão do
sujeito...).

É entre a mensagem e o código, e no retorno do código à mensagem, que se joga a


dimensão do chiste. Para Freud, o problema do chiste está na técnica do significante,
operando no nível do inconsciente. Em O chiste..., Freud analisa técnicas verbais que Lacan
chama de técnica do significante, mostrando como o inconsciente estrutura-se como
linguagem.

Freud usa o exemplo do Famillonário (do livro Banhos de Luca, de Heinrich Heine), em que
o personagem Hirsch Hyacinth, após encontrar o banqueiro Salomão Rothschild, diz:

“Tão certo como que Deus deve velar pelo meu bem, Rothschild me tratou de igual para igual
de um modo totalmente famillonário!”

(Nota: "Famillonário" é um neologismo que mistura "familiar" e "milionário", satirizando a


falsa intimidade do poderoso.)

Lacan pergunta: O que é isso? Um neologismo? Um lapso? Por que não seria um lapso? Ele
quis dizer "familiarmente" e disse "famillonariamente" — ou é um chiste? Ele não hesita em
responder que se trata, de fato, de um chiste, e explica por quê. Seguindo a análise de
Freud sobre a formação desse chiste, reconhece-se o mecanismo da condensação no
material significante — uma espécie de "embutido" entre duas linhas de cadeias
significantes. Freud identifica duas proposições:

1. Rothschild me tratou como a um igual, muito familiarmente (Familiar).


2. Até o ponto em que isso é possível para um milionário (Milionário).

O resultado é:

“Rothschild me tratou como a um igual, muito famillonariamente!”


Como se formou isso? Freud questiona a gênese dessa condensação com formação
substitutiva (em alemão):

• Adaptações terminológicas conforme acordado: recalcamento (não


"repressão"), pulsão (em vez de "drive" ou "instinto").
• Estrutura acadêmica mantida, com citações em bloco e referências aos seminários.
• Imagens e esquemas mencionados são indicados entre parênteses, conforme o
original.

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