Causas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo
Causas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo
transtornos relacionados
A compreensão das classificações do transtorno obsessivo-compulsivo e dos transtornos relacionados
como uma psicopatologia dos transtornos mentais e o desenvolvimento para a saúde.
Prof. Diogo Bonioli Alves Pereira
1. Itens iniciais
Propósito
O conhecimento do transtorno obsessivo-compulsivo e dos transtornos relacionados tem se tornado cada vez
mais necessário dada a complexidade dos seus componentes e as perturbações clínicas nos processos
mentais, biológicos e do desenvolvimento humano.
Objetivos
• Analisar os conceitos básicos de compulsão e obsessão que baseiam o transtorno obsessivo-
compulsivo e os transtornos relacionados.
• Identificar as classificações e critérios diagnósticos pelos manuais de classificação para TDC,
tricotilomania e transtorno de escoriação.
• Identificar as diferenças entre o transtorno obsessivo-compulsivo e os transtornos relacionados
induzidos por substâncias, bem como daqueles devido à outra condição médica.
Introdução
Um transtorno mental é um conceito que difere do de doença por ser um conjunto de sintomas que trazem
perturbações para o aparelho cognitivo e para as emoções do paciente, de modo que a sensação de
sofrimento e as perturbações da vida social e profissional se tornam clinicamente reconhecíveis, porém
carecem de uma etiologia e de um tratamento específicos.
O Código Internacional das Doenças (CID) já traz outro detalhe sobre a inexatidão do termo “transtorno”. Este
deve ser utilizado para afastar e evitar tomar como “doença” ou “enfermidade” aquilo que é “um conjunto de
sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecível, associado a sofrimento e interferência nas funções
pessoais” (OMS, 1993, p. 5), buscando também, assim, combater o estigma muitas das vezes associado aos
problemas mentais.
Comentário
O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de acumulação são complexos na sua definição
por três motivos: eles são compostos de diversos elementos conceituais, têm uma larga amplitude de
comprometimento das funções mentais dos seus portadores e trazem repercussões psicológicas na vida
dos familiares e do seu círculo social mais íntimo.
Tanto o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) quanto o transtorno de acumulação são síndromes que
alteram o pensamento, a volatilidade e a psicomotricidade do sujeito, de modo que, para entender o grau de
sofrimento mental que os sintomas impõem e o seu grau de afetação, devemos conhecer como se formam as
bases necessárias para o diagnóstico diferencial e a conduta psicoterapêutica. Vamos rever como podem ser
essas alterações:
Obsessão
É uma alteração do pensamento que compromete o juízo e o raciocínio.
Ela é caracterizada pelo predomínio de ideias ou representações com
conteúdos considerados absurdos e que deveriam ser afugentados pelo
indivíduo. Para serem caracterizados como obsessivos, é necessário que
esses conteúdos sejam persistentes, incontroláveis e invasivos. Em
outras palavras, essas ideias são impostas à consciência de modo a
gerar uma espécie de luta mental constante para que elas não se
estabeleçam no foco da atenção e nem se tornem um comportamento
ritualístico para aliviar uma angústia. Por vezes, os pensamentos
obsessivos podem ser estruturados tal como um pensamento mágico
que responde à lógica de que se alguma repetição mental ou
comportamental for realizada de forma correta, ela teria o poder de evitar
algo muito ruim ou catastrófico, como também acarretar uma corrente de
sorte e traços otimistas para aquele dia (DALGALARRONDO, 2019).
Compulsão
É uma alteração no comportamento do sujeito, no qual a vontade é
alterada de modo a ocorrer uma ação motora simples ou complexa,
porém repetitiva e guiada por regras mentais rigorosas que visam evitar
consequências negativas associadas a uma ideia obsessiva. A compulsão
se diferencia da impulsividade porque existe uma tentativa do indivíduo
de impedir o comportamento, que é interpretado como indesejável e
inadequado. Portanto, enquanto não existe uma racionalização anterior
na impulsividade, é essencial que a compulsão carregue um conflito ou
uma luta para iniciar o comportamento estereotipado e ritualizado. Os
transtornos mentais predominantemente relacionados com atos
compulsivos são: transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno
dismórfico corporal, transtorno de acumulação, transtorno de
tricotilomania e o transtorno de escoriação (DALGALARRONDO, 2019).
Obsessão Compulsão
Quando não se consegue parar de pensar. Quando não se consegue parar de fazer.
CID-10
O Código Internacional das Doenças, o CID-10 (OMS, 1993), classifica o transtorno obsessivo-compulsivo sob
o código F42 e apresenta como aspecto essencial os pensamentos obsessivos e os atos compulsivos
recorrentes. As obsessões podem ser ideias, imagens ou impulsos que entram repentinamente e de modo
estereotipado na mente do indivíduo, que tenta resistir-lhes.
É importante destacar que há duas condições de diagnóstico diferencial: Não podem existir:
Igualmente importante para a classificação é a predominância dos sinais de obsessão e de compulsão, que
podem ser classificados da seguinte forma nas orientações do CID-10:
F42.0
F42.1
F42.2
F42.8
F42.9
DSM-5
O transtorno obsessivo-compulsivo só angariou um capítulo específico a partir desta quinta versão, e a
justificativa é o aumento das evidências desse transtorno e do desenvolvimento dos validadores diagnósticos
que o diferenciam do transtorno de ansiedade comum. No que se refere às características essenciais, o
DSM-5 apresenta estrita semelhança com a descrição do CID-10, exceto pela atenção ao detalhe de
pensamento suicida.
Atenção
Segundo o DSM, em pelo menos metade da população com TOC, observamos o registro de tentativa de
suicídio quando associado ao transtorno depressivo maior.
O DSM-5 (2014) classifica o TOC sob o código 300.3 e apresenta quatro critérios diagnósticos, conforme
descritos a seguir:
Transtorno de ansiedade
Transtornos alimentares
A diferença em relação ao TOC é que nesses transtornos o foco limita-se à preocupação com o peso
e com os alimentos.
A diferença em relação ao TOC é que o tique, sendo um movimento motor, não é acompanhado e
associado a um pensamento.
Transtornos psicóticos
A diferença em relação ao TOC é que o psicótico não possui insight e crenças sobre os objetos de
delírio.
Outros comportamentos compulsivos
A diferença em relação ao TOC é que, na prática compulsiva, os jogos, comportamentos sexuais e uso
de substâncias são vistos como fonte de prazer, mas no TOC, o prazer é resistir a algum prejuízo pelo
ritual e existe desprazer na repetição.
Ainda é importante ressaltar que pesquisas apontam para uma sobrecarga familiar e nas relações diretas com
indivíduos que sofrem com o transtorno obsessivo-compulsivo, podendo desenvolver transtornos psicológicos
naqueles com os quais eles convivem diariamente e nos cuidadores.
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Constatou-se ser mais frequente encontrar o TOC como comorbidade da depressão, de outros transtornos
ansiosos e com uso de substâncias, mas a natureza egodistônica do transtorno provoca o efeito de negação
ao tratamento de casos “puros”, embora apresente um alto indicador de incapacitação funcional (TORRES;
LIMA, 2005).
Egodistônica
Condição em que a atividade mental (pensamentos, impulsos, comportamentos, sentimentos etc.) não
está em conformidade com o ego ou com a imagem que alguém tem de si próprio (Fonte: Dicionário
Online de Português).
Vejamos duas sugestões de linha de tratamento para o TOC na técnica comportamental e psicanalítica. A
abordagem comportamental sugere aplicação das técnicas de dessensibilização sistemática para esse tipo de
transtorno.
Abordagem psicanalítica
Outros pontos importantes a serem considerados: tornar consciente as defesas narcísicas do mundo
especular do paciente por meio do ideal do ego do seu analista; perlaborar os espaços de privacidade e suas
angústias manifestadas por sintomas de paranoia; tornar consciente o fato de que a hipervigília ocupa o lugar
de um olhar obsessivo que prejudica o desempenho do paciente; possibilitar a percepção de que o excesso de
“lógica” ou discurso científico é uma técnica de defesa para deixar de analisar a si mesmo como sujeito; evitar
a defesa do emprego do “ou” que provoca a postergação ou procrastinação pela disjunção.
Durante a psicoterapia, o psicanalista deve tomar alguns cuidados essenciais. O primeiro é para que a vontade
do paciente não prevaleça durante a análise.
(...) um controle onipotente (tenta deixar o processo analítico estagnado), o deslocamento (para detalhes
que se tornam enfadonhos e podem provocar uma esterilizante contratransferência de tédio), a anulação
(com o emprego sistemático de um discurso do “é isto, mas também pode ser aquilo, ou não é nada
disso...”, a formação reativa (sempre gentil, educado e bem-comportado, o paciente não deixa irromper a
sua agressividade reprimida), o isolamento em narrativas desprovidas de emoções) etc.
Outro cuidado é com a possibilidade de falhas do terapeuta nas irretocáveis pontualidades e assiduidade do
sujeito que se esforça para ser “um bom paciente”. As interpretações precisam ser precisas no que o paciente
fala e faz, não cabendo perguntas para ampla reflexão.
No DSM-5 (2014), o TA também está sob o código 300.3, e tem como característica essencial a dificuldade
persistente de desfazer-se de pertences, quer seja para descarte, venda, doação ou reciclagem, pois existe
um medo desproporcional de perder informações importantes, ao mesmo tempo que manifesta um grande
apego pelos pertences, independentemente do valor real do objeto.
Atenção
Diferentemente do TOC, o transtorno de acumulação não tem a presença das ideias invasivas e nem de
comportamentos estereotipados, tampouco pode ser comparado com o hábito de colecionar coisas. No
comportamento do colecionador se espera o prazer, a atribuição de valor e a organização, enquanto o
acumulador não necessariamente cuida bem das suas posses e o senso valorativo de utilidade e emoção
estão ausentes.
Para o diagnóstico do TA, precisa-se preencher os seis critérios diagnósticos para avaliação descritos a
seguir:
Embora não se trate de um critério para o diagnóstico, é uma especificidade comum que aproximadamente
85% dos acumuladores apresentem um comportamento de aquisição excessiva, que não necessariamente é
compra (embora este seja o fator mais comum), seguido de acumular itens gratuitos e, raramente,
provenientes de furto.
A diferença em relação ao TA é que nesse caso as lesões cerebrais, infecção do sistema nervoso
central, síndrome Prader-Willi e danos no lobo pré-frontal apresentam comportamento de
acumulação, mas não demonstram dificuldades em descartar e não apresentavam esses sintomas
antes das condições médicas.
Transtorno do neurodesenvolvimento
A diferença em relação ao TA é que, nesse caso, o motivo da acumulação é por um espectro autista
ou por deficiência intelectual. No primeiro, a dificuldade de descartar um objeto pode ser causado por
uma associação de um objeto transicional com o mundo; no segundo, o sujeito não tem capacidade
cognitiva de atribuir utilidade e valor.
Transtorno do espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos
Transtorno obsessivo-compulsivo
Transtornos neurocognitivos
Por fim, precisamos destacar que o transtorno de acumulação pode ter sua base de início para suprir uma
necessidade emocional que se disfarça como se fosse o começo de uma coleção.
Resumindo
Podemos demarcar o início do transtorno quando fica claro que o apego não se dirige mais aos objetos
“colecionados”, mas quando o acúmulo se torna o seu próprio objeto de desejo.
1. Apoiar os acumuladores, reafirmando constantemente que a angústia de se desfazer irá passar e que
“está tudo bem”;
2. Ouvir as frustrações da pessoa com TA e ter empatia com as suas justificativas irracionais;
3. Incentivar a busca de ajuda profissional, enfatizando os benefícios do tratamento e a qualidade de vida
que teria no final;
4. Oferecer ajuda e apoio nos momentos de limpeza dos cômodos, reforçando o quão importantes são as
pequenas vitórias e mudanças, demonstrando a própria resiliência e esperança no processo.
Analisar os esquemas iniciais desadaptativos (EID) de desconexão e rejeição, hipervigilância e orientação para
o outro, visto serem comuns as crenças de autossacrifício, privação emocional e inibição emocional nesses
casos (SCHMIDT; DELLA MÉA, 2017).
A psicoterapia em grupo tem outra importância para o paciente com transtorno de acumulação. A utilidade
desse processo está em evitar e/ou diminuir o isolamento social a que o acumulador comumente se submete
para se manter acumulando sem a adversidade dos seus pares. Dessa forma, esse tipo de terapia se torna útil
para diminuir os estigmas, uma vez que o paciente conhecerá outras pessoas com questões semelhantes, o
que, consequentemente, reduzirá sua solidão. Outra utilidade é a construção de motivações e o aumento dos
cuidados no alívio dos sintomas.
Por fim, o trabalho em grupo também serve para reconhecer comportamentos semelhantes e criar habilidades
mediante experiências em situações de evidente sucesso, o que diminui a angústia e torna as tomadas de
decisões mais eficazes.
Obsessão e compulsão
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Verificando o aprendizado
Questão 1
No transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), o pensamento e a vontade do sujeito estão afetados de modo tão
singular que eles servirão de base para o psicodiagnóstico. Como se estabelece a alteração específica desse
transtorno?
A
Com pensamentos persistentes, invasivos e incontroláveis e ações motoras estereotipadas e causadas por
regras que devem ser seguidas para se evitar uma consequência trágica.
Com ação motora invasiva, persistente e incontrolável, além de pensamentos estereotipados com ecos que
devem ser evitados para a prevenção de crimes.
Com delírios de infestação e contaminação que obrigam o paciente a ter que lavar as mãos constantemente.
Com pensamentos deprimidos e comportamentos de desistência de cuidados de si, dos outros e das coisas.
Questão 2
II. Os objetos dos quais não consegue se desfazer dificultam a locomoção em casa.
Espectro esquizofrênico.
B
Depressão.
Transtorno obsessivo-compulsivo.
Transtorno acumulativo.
Atenção
Um cuidado que o profissional deve ter ao manipular os critérios diagnósticos é redobrar a atenção para
as possíveis sobreposições dos sinais, já que, por suas relações íntimas, a ordem do surgimento do
sintoma e os detalhes de manifestações comportamentais serão determinantes.
Em linhas gerais, esses transtornos que se relacionam com o TOC apresentam uma diferença na preocupação
dos rituais, no surgimento na etapa do desenvolvimento, na presença de sintomas subclínicos, no nível de
sofrimento do indivíduo e no prejuízo funcional decorrente. Ao mesmo tempo, esse grupo de transtornos têm
em comum seu foco no corpo, mas apresentam divergência nas bases da obsessão e da compulsão. Enquanto
o transtorno dismórfico corporal é caracterizado pela prevalência dos sinais de obsessão, o transtorno de
tricotilomana (TT) e o transtorno de escoriação (TE) são predominantemente compulsivos.
Vamos analisar cada um deles, seus critérios e diferentes abordagens entre o DSM-5 e o CID-10:
Dismorfofobia já foi uma antiga classificação para o transtorno dismórfico corporal (TDC). Ele é caraterizado
pela prevalência dos sintomas cognitivos relacionados à percepção de defeitos, falhas ou assimetria na
aparência física que não são observáveis por outras pessoas, ou que, sendo leves, são hipervalorizadas pelo
paciente.
Em geral, as obsessões se manifestam durante cerca de três a oito horas por dia.
Em tempo, é necessário destacar a presença de uma dismorfia bastante específica que merece um nome
especial: a dismorfia muscular. Esse transtorno é caracterizado pela ideia de que a estrutura corporal é
percebida como pouco musculosa ou pequena para o sujeito.
No DSM-5, o transtorno dismórfico corporal é classificado pelo código de número 300.7 e tem quatro critérios
diagnósticos que precisam ser preenchidos:
1. Existe preocupação desproporcional com uma falha ou defeito na aparência física que estão ausentes
ou entendidos como leves para os outros.
2. Existe presença de comportamentos compulsivos ou atos obsessivos associados à aparência
reclamada.
3. Existe sofrimento psicológico ou prejuízo funcional da vida do paciente.
4. Existe preocupação que não está associada à gordura ou peso corporal que possam indicar transtorno
alimentar.
Depois de preenchidos os critérios, o TDC precisa ser especificado em duas etapas: (1) se está associado com
dismorfia muscular; e (2) a intensidade de insight sobre a verdade da aparência e a relação com a sua
percepção. Esse insight é especificado conforme os tipos a seguir:
Como toda obsessão e compulsão, os comportamentos não geram prazer e podem colaborar para o aumento
de ansiedade e disforia, o aumento da carga de exercício físico e a busca ostensiva por procedimentos
estéticos ou autolesões para aliviar o que é entendido como defeito. Existem características associadas a
esse transtorno que auxiliam no diagnóstico:
• Característica do delírio de referência (ideia prevalente de que outras pessoas prestam atenção ou
caçoam do paciente);
• Característica da ansiedade social;
• Característica da esquiva social;
• Característica do humor deprimido;
• Característica do perfeccionismo;
• Característica da baixa autoestima;
• Característica da interpretação das expressões faciais ou cenários sociais de forma negativa e/ou
ameaçadoras.
Esse transtorno costuma ter início na adolescência e por meio de traços subclínicos, tais como a busca de
inúmeras cirurgias e correções estéticas desnecessárias, geralmente na face. Com o passar dos anos, os
critérios se tornam ainda mais claros e distintos.
Saiba mais
O TDC tem incidência equivalente entre os dois gêneros no que diz respeito à prevalência do transtorno
e é responsável por tentativas de suicídio.
CID-10
No CID-10, esse distúrbio é caracterizado como um transtorno somatoforme, ou seja, os sintomas surgem sem
que exista uma condição médica que explique sua origem. O CID chama a atenção para uma característica
importante desse transtorno: ele é crônico e flutuante.
Dessa forma, o delírio, as ideias obsessivas e a compulsão estão sempre presentes, mas oscilando em sua
manifestação clínica, na incapacitação funcional e na intensidade de sofrimento. Para um diagnóstico
definitivo o CID-10 estabelece, além das características do DSM-5, dois critérios a mais:
1 2
A ideia de que uma doença foi adquirida ou A recusa constante de aceitar informações da
agravada pela suposta deformidade. ausência da anormalidade ou doença.
Diagnóstico diferencial
Para concluir um diagnóstico diferencial o CID-10 apresenta, de forma mais sucinta que o DSM-5, que esse
transtorno exclui ou é anterior ao:
Tricotilomania
Esse é o transtorno que possui maior diferença epistemológica entre o CID-10 e o DSM-5. Enquanto o CID
considera que o transtorno de tricotilomania (F63.3) está classificado como um transtorno de hábito e
impulso, o DSM-5 insiste na associação dele como decorrente do transtornos obsessivo-compulsivo (312.39).
Relembrando
A impulsividade é um ato involuntário, portanto, não invasivo e sem um pensamento, reflexão,
ponderação ou decisão prévia que oriente essa ação. Sua característica principal é a incapacidade de
interromper o início da ação, embora possa ser controlada quando está em andamento. As pessoas
impulsivas são do tipo instantâneas e explosivas, tendem a perceber seu comportamento como
incontrolável, mas não têm a ideia de que são indesejadas.
DSM-5
A tricotilomania é o transtorno que consiste no comportamento de arrancar os próprios cabelos de qualquer
parte do corpo, de forma recorrente, tendo como consequência a perda significativa de uma região e
incontáveis tentativas fracassadas para reduzir ou interromper a ação.
Os locais onde incide o sintoma podem variar conforme o tempo ou a degradação, porém, os mais
comuns são o couro cabeludo, as sobrancelhas e os cílios; e os menos comuns são as axilas, a face,
o púbis e a região perirretal.
A dificuldade de perceber esse transtorno na fase inicial está no fato de ele ser distribuído em breves
episódios ao longo do dia, variando na intensidade e na continuidade. Para um diagnóstico se faz necessário
preencher cinco critérios, conforme descrevemos a seguir:
1. Critério de arrancar recorrentemente o próprio cabelo de modo que resulte em perda significativa.
2. Critério das tentativas de reduzir ou parar o comportamento de extração dos pelos.
3. Critério da presença de sofrimento mental ou prejuízo na funcionalidade do indivíduo.
4. Critério do comportamento não pode estar associado a condições médicas e causas dermatológicas.
5. Critério que exclui a possibilidade de espectro esquizofrênico, ideias delirantes e transtorno dismórfico
corporal.
O ato de arrancar o cabelo pode estar associado a rituais, tais como a busca por certos tipos de pelos
diferenciados por sua textura ou cor, e até mesmo pela técnica de extração ou manipulação oral do cabelo
depois de arrancado, podendo ser engolido ou não.
Também podem aparecer sentimentos de ansiedade ou tédio, de modo que o comportamento alivie a tensão
por meio de uma “coceira” ou formigamento no couro cabeludo.
O início desse transtorno é mais comum no começo da puberdade. Ele é crônico e tende a se
manifestar mais agressivamente no sexo feminino, principalmente nos períodos de alterações
hormonais.
CID-10
Segundo o CID-10, a tricotilomania é caracterizada por um fracasso recorrente de resistir a impulsos de
arrancar os próprios cabelos:
Transtorno de escoriação
O transtorno de escoriação ou skin picking “é caracterizado por beliscar a própria pele de forma recorrente,
resultando em lesões cutâneas, e tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de beliscá-la”
(APA, 2014, p. 236).
Tal como a tricotilomania, esse transtorno não é desencadeado por obsessões, mas sim por estados
emocionais, sendo o mais comum a ansiedade. Os pacientes com esse transtorno não têm consciência do
quanto praticam esse comportamento nem da sua variação.
Os locais que mais frequentemente sofrem com
a ocorrência desse transtorno são o rosto, os
braços e as mãos, sendo possível atacar várias
partes do corpo ao mesmo tempo e incluir os
comportamentos de esfregar, espremer ou
morder. Esse transtorno só pode ser
caracterizado se o comportamento for a causa
de lesões cutâneas ou outros danos
significativos ao tecido e que resultem em
cicatrizes.
Transtorno de escoriação.
Nesse caso, também existem as tentativas de
reduzir ou parar os atos. Para o DSM-5 (APA,
2014) o transtorno de escoriação está
classificado sob o código de número 698.4 e registra cinco critérios de diagnósticos:
1. Critério de esfregar, beliscar, espremer ou morder de forma recorrente a pele, resultando em lesões.
2. Critério da tentativa de reduzir ou cessar o comportamento patológico.
3. Critério da presença de sofrimento mental ou prejuízo funcional do sujeito.
4. Critério do comportamento não pode ser causado por efeitos de substâncias ou condição médica.
5. Critério do comportamento exclui a possibilidade de transtornos psicóticos, transtorno dismórfico
corporal, transtorno de movimento estereotipado e autolesão suicida.
O transtorno de escoriação pode incluir rituais que envolvem a pele ou cascas de feridas com fins de exames
sem efeitos técnicos, brincar ou colocar na boca (podendo engolir ou não). O comportamento pode ser
iniciado por estados emocionais e sentimento ansiosos, no qual a escoriação proporcionaria prazer ou um
alívio quando a pele fosse arrancada.
Segundo a APA (2014), a prevalência é três de quartos para o sexo feminino e tende a iniciar após uma
condição dermatológica, geralmente a acne. Estima-se que 15% da população mundial já tenha eliciado esse
tipo de transtorno. Para um diagnóstico diferencial eficaz é necessário excluir:
1. Os transtornos psicóticos;
2. Os transtornos obsessivo-compulsivo;
3. Os transtornos do neurodesenvolvimento como a síndrome de Prader-Willi ou Tourette;
4. Os transtornos somatoformes;
5. Os atos de ferir-se no desejo de ferir alguém;
6. Outras condições médicas;
7. Os transtornos induzidos por substâncias ou medicamentos.
Neste caso específico, esse transtorno não é classificado na seção de transtornos mentais e de
comportamento do CID-10, mas sob o código L98.1, que é reservado para as doenças da pele.
Psicoterapias
Retornemos às psicoterapias humanistas, comportamentais e psicanalítica para expor possíveis metodologias
de intervenção.
A psicoterapia cognitivo-comportamental
A literatura da psicoterapia cognitivo-comportamental adota diversas condutas para a intervenção e
estratégias de reversão de hábito e compromisso para intervir nos pensamentos de impulsividade,
perfeccionismo e planejamento.
As mais comuns são as que envolvem treino de consciência; treino de resposta concorrente; treino de
resposta concorrente com uso de controle de estímulos antecedentes e consequentes; treino de relaxamento;
treino de suporte social; treino de generalização (RICHARTZ; GON; ZAZULA, 2018). Em linhas gerais, todas as
formas de intervenções trabalham com etapas similares a esta que descrevemos a seguir:
A psicoterapia psicanalítica
Podem ser duas as hipóteses de trabalho da clínica psicanalítica: a melancolia e o masoquismo. Enquanto na
melancolia a autoestima está afetada e existe uma inibição em direção às atividades porque o ego se
empobreceu; no masoquismo, o ego se encontra dependente e sequioso de prazer, via pulsão de morte.
Sob o ponto de vista do masoquismo, Freud demonstrou como a pulsão de morte é aquilo que nos move para
a estabilização e estagnação. Para isso, tomou como exemplo o nirvana como pulsão de morte, uma vez que é
um fenômeno de equilibração no qual não existiriam mais as necessidades, razão de conflitos e signo de
imperfeição/limitação.
A psicoterapia humanista
A psicoterapia humanista identifica nesses transtornos o sentimento de inadequação que aponta para crenças
e emoções de desigualdade ou indiferença em relação a outras pessoas ou situações. A atenção do
psicoterapeuta se volta para a relação do sujeito e o seu contexto sociocultural para compreender o fenômeno
de se sentir inadequado e avaliar os possíveis desdobramentos desse sofrimento psíquico.
Comentário
É comum que pessoas com esse sofrimento descrevam seu sentimento de inadequação por meio do
autoquestionamento, do isolamento e da tentativa ostensiva de se modificar para se adequar às
exigências sociais ou do seu grupo e, com isso, mostrarem-se agressivos.
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Tricotilomania
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Tanto a tricotilomania quanto o transtorno de escoriação não são desencadeados por obsessões e isso torna
mais difícil a consciência da prática do comportamento e de suas variações. Dessa forma, segundo o DSM-5,
o que desencadeia o transtorno são:
A
Os pensamentos invasivos.
As compulsões.
As crises de identidade.
Questão 2
O CID-10 apresenta de forma mais sucinta o diagnóstico diferencial do transtorno dismórfico corporal. Analise
as afirmativas a seguir para identificar os critérios diferenciais:
Grupo daqueles que são relacionados por decorrência de outra condição médica.
Grupo daqueles que apresentam razão específica e plausível para sustentar a obsessão e a
compulsão (esses recebem o nome de transtorno relacionado especificado.
Essas classes de transtornos possuem duas características em comum: preenchem os critérios para
transtorno obsessivo-compulsivo e possuem uma causa fisiológica que origine ou sustente os sintomas.
Atenção
Existe a possibilidade de os sintomas obsessivos e compulsivos serem induzidos por uso de substâncias
ou medicamentos. Nesse caso, esses sintomas, não têm origem psicológica, pois são de natureza
fisiopatológica, oriundos de intoxicação ou abstinência.
Embora o DSM-5 não apresente um código específico para esse transtorno, ele orienta seus usuários a
utilizarem a classificação de “transtornos relacionados a estimulantes” e aplicarem a numeração de acordo
com a substância utilizada para desencadear o transtorno, grau de comprometimento no aparelho cognitivo e
intensidade de uso.
Após referenciar o código – que pode ser 304, 305 e 202 –, utiliza-se nominalmente, após a informação da
substância, a presença do “transtorno relacionado por substância/medicamento” como nota clínica do
sintoma. Vamos exemplificar os procedimentos para registro do DSM-5 em dois casos diferentes:
CASO 1
CASO 2
Espera-se que o transtorno obsessivo-compulsivo, quando advindo com o uso da substância, melhore ou
cesse no intervalo de dias, semanas e até um mês mediante a suspensão da substância/medicamento que
insidiou o caso. Os critérios diagnósticos propostos pelo DSM-5 são (2014):
1. Critério de um ou vários dos sintomas: obsessões, compulsões, beliscar a pele, arrancar o cabelo,
outros comportamentos repetitivos focados no corpo ou outro sintoma característico do TOC.
2. Critério de evidências de que os sintomas obsessivos-compulsivos apenas surgiram após a intoxicação
ou abstinência por uma substância que, de fato, possa causar esses efeitos.
3. Critério que exclui a origem do TOC não induzido por substância e anteriores ao quadro analisado.
4. Critério do transtorno não ocorre exclusivamente no curso de delirium (desordem flutuante da
consciência que está associada a uma mudança na cognição ou perturbação perceptual e que pode
ser causada por qualquer condição médica geral. Fonte: [Link]) .
5. Critério de que existe um sofrimento mental e prejuízo psicossocial por causa do transtorno.
Se for oportuno e necessário, exames toxicológicos laboratoriais podem ser associados para apoiar o
diagnóstico.
De modo um pouco mais conservador, o CID-10 não apresenta classificação para transtornos relacionados
com o transtorno obsessivo-compulsivo. Isso quer dizer que além de caracterizar a substância utilizada, que
variam entre dez opções, os números seguidos da substância designariam condições clínicas
comportamentais decorrentes do uso químico. É comum a classificação de F1x.03 ( delirium), F1x.04 (com
distorções perceptuais), F1x.40 (estado de abstinência sem convulsões), F1x.61 (com transtorno psicótico
predominantemente delirante), F1x.71 (com transtorno psicótico residual e de início tardio com sintomas de
transtorno de personalidade e de comportamento) e F1x.74 (com transtorno psicótico residual e de início
tardio com outro comprometimento cognitivo persistente).
Exemplo
Observe: F1x.5. Esse F designa que se trata da área de transtornos mentais e do comportamento do
CID-10; o 1 representa a casa decimal que vai de F10 até F19, logo, este x pode ser substituído por
números que variam de 0 a 9, representando cada substância.
Uso de álcool.
1 (F11)
Uso de opioides.
2 (F12)
Uso de canabinoides.
3 (F13)
4 (F14)
Uso de cocaína.
5 (F15)
6 (F16)
Uso de alucinógenos.
7 (F17)
Uso do tabaco.
8 (F18)
9 (F19)
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Saiba mais
No CID-10, “as outras condições médicas” são relacionadas nos grupos F05 e F06, que reúnem
transtornos mentais cuja doença cerebral e transtornos endócrinos são primários. Nesse diagnóstico, as
disfunções cerebrais estão presentes, embora se assemelhem muito aos transtornos mentais.
(...) comunicar a razão específica pela qual a apresentação não satisfaz os critérios para qualquer
transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno relacionado específico.
Existem seis classificações específicas para designação mais detalhada desse transtorno:
Se caracteriza por preencher os critérios para o transtorno dismórfico corporal, exceto que os
defeitos ou imperfeições são claramente observáveis pelos outros, fazendo aumentar
significativamente o sofrimento mental do paciente.
Se caracteriza por preencher os critérios para o transtorno dismórfico corporal, exceto pelo fato de o
paciente não apresentar preocupações com a aparência em arrumação excessiva.
Se caracteriza por outros comportamentos repetitivos focados no corpo que não atendem às
especificidades dos outros transtornos obsessivos-compulsivos. Incluem roer as unhas, morder os
lábios e mastigar a bochecha.
Ciúme obsessivo
Se caracteriza pela preocupação não delirante com a infidelidade do parceiro, que leva a
pensamentos invasivos e comportamentos repetitivos de vigilância. Exclui: transtorno delirante – tipo
ciumento ou transtorno de personalidade paranoide.
Shubo-kyofu
Se caracteriza pelo medo excessivo de ter uma deformidade corporal e que leva aos sintomas
obsessivos-compulsivos relacionados.
Koro
Se caracteriza pelo medo excessivo, abrupto e intenso de que os órgãos sexuais (pênis, vulva ou
mamilos) recuem para dentro do corpo podendo levar ao óbito.
Jikoshu-kyofu
É caracterizado pelo medo de ter um odor corporal desagradável, também conhecido como síndrome
de referência olfativa.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Questão 2
(B) Shubo-kyofu
(C) Koro
(D) Jikoshu-kyofu
A–D–C–B
B
A–B–C–D
A–C–B–D
D–B–C–A
D–C–B–A
Considerações finais
As perturbações mentais e comportamentais podem ser consideradas como entidades. Dessa forma, dentro
do significado clínico elas se originam de alterações na capacidade cognitiva, no humor (emoções) e podem
provocar comportamentos que impedem ou dificultam o desempenho das funções pessoais e sociais do
indivíduo, de forma sustentada ou recorrente. Como vimos, o transtorno mental se difere do conceito de
doença. A definição nos leva a um entendimento de um conjunto de sintomas que trazem perturbações e
carecem de uma etiologia e de um tratamento específicos.
Realmente, o aumento das evidências clínicas dos TOCs e dos transtornos relacionados aumentam a atenção
dada para sua classificação e diagnóstico. Ainda assim, os diagnósticos diferenciais fazem com que não
tenhamos dúvida sobre a opção de remanejar esse transtorno, retirando-o das classificações dos transtornos
de ansiedade e colocando-os à parte para melhor identificar e definir as condutas psicoterápicas.
Sendo assim, vimos como os transtornos obsessivos-compulsivos e transtornos relacionados são fonte de
diversas demandas ao psicólogo. Todos os temas e conceitos abordados são importantes para que qualquer
profissional em Psicologia possa adquirir conhecimento para lidar com esse tema, um campo imprescindível
na formação clínica. Com esse conhecimento, podemos, sim, gerir novas demandas e estratégias de
intervenções em pesquisas, mais atuais que daquelas recomendadas.
Podcast
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Explore +
Existem vários filmes que pretendem descrever como é a mente de uma pessoa com transtorno obsessivo-
compulsivo. Pesquise nas suas plataformas de streaming e tente encontrar as características diagnósticas no
DSM-5. São eles:
III. A menina no País das Maravilhas (Phoebe in Wonderland) – Daniel Barnz, 2009.
VII. Toc Toc: uma comédia obsessivamente divertida – Vicente Villanueva, 2020.
Não deixe de assistir ao vídeo Acumuladores, com Christian Dunker, no canal Falando nIsso 353, no YouTube.
Nesse vídeo, esse famoso autor da Psicanálise demonstra a psicodinâmica dos transtornos de acumulação e
como o paciente se torna o “rei do lixo”. Os conceitos de repetição e o manejo do sintoma são explicados
como formas de compreender os isolamentos, as solidões e o trabalho da escuta para reposicionar o sujeito
diante do sintoma.
Leia o livro da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Mentes e manias – TOC: transtorno obsessivo-compulsivo.
Considerado um best-seller com mais de 2 milhões de cópias, a autora percorre de modo didático e com uma
linguagem acessível os conceitos, os comportamentos característicos e vários exemplos da diversidade
dentro desse transtorno.
Referências
APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Tradução: Maria Inês Corrêa
Nascimento. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
FREUD, S. O problema econômico do masoquismo [1924]. In: Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIX (1923-1925).
RICHARTZ, M.; GON, M. C. C.; ZAZULA, R. Intervenções comportamentais para o transtorno de escoriação:
revisão de artigos publicados em periódicos de saúde. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, v. 13,
n. 2, 6 jul. 2018. Publicado em: 6 jul. 2018.