1.
Introdução
A contabilidade pública ocupa um papel central no âmbito do Direito Financeiro, pois
constitui um pilar para o planeamento, execução e controle rigoroso dos recursos públicos.
No cerne desta disciplina, encontra-se a necessidade de assegurar que cada metical
arrecadado e cada despesa realizada pelo Estado seja submetido a registos sistemáticos e
transparentes, orientando-se por princípios que reflitam a legalidade, eficiência,
economicidade e responsabilidade fiscal.
Em Moçambique, a importância da contabilidade pública ganhou grande ênfase a partir da
independência, quando o país herdou um sistema de gestão financeira fundamentado em
regulamentos coloniais essencialmente orçamentais e centralizados. Ao longo das décadas
seguintes, face às transformações socioeconómicas e às exigências de credibilidade junto de
parceiros internacionais, o país implementou reformas estruturantes. O ponto de viragem
ocorreu em 2002 com a introdução do SISTAFE (Lei n.º 9/2002), que integrou contabilidade
patrimonial e orçamentária por meio de partidas dobradas e da plataforma eletrónica
e-SISTAFE, modernizando o controlo financeiro e fornecendo informações em tempo real.
Posteriormente, com a promulgação da Lei n.º 14/2020, o SISTAFE foi atualizado, adotando
um regime misto de escrituração (receitas pelo regime de caixa e despesas pelo regime de
competência) e reforçando o alinhamento com normas internacionais de contabilidade
pública. Estas mudanças permitiram maior transparência na prestação de contas e maior
capacidade de fiscalização pelos órgãos competentes, como o Tribunal Administrativo e a
Inspeção-Geral das Finanças.
Este trabalho pretende aprofundar o conceito de contabilidade pública, identificar e discutir
os seus objetivos, traçar a evolução histórica do sistema moçambicano, analisar os princípios
fundamentais que o regem, apresentar os principais instrumentos de controlo e prestação de
contas, examinar a legislação aplicável e destacar os atores nacionais e internacionais que
influenciam ou intervêm no processo. Será ainda dedicado um olhar crítico aos desafios
atuais e às tendências futuras, apontando recomendações para o fortalecimento da
transparência e da eficiência na gestão dos recursos públicos.
2. Definição e Objectivos da Contabilidade Pública
A Contabilidade Pública emerge como um sistema integrado de registos e controlo das
transacções financeiras do Estado. Fundamenta-se em dois grandes componentes: a
contabilidade orçamental, que se ocupa do planeamento e execução do orçamento público, e
a contabilidade patrimonial, que monitora os bens, direitos e obrigações do sector público.
2.1. Contabilidade Orçamental
Esta vertente concentra-se na elaboração do Orçamento do Estado e no seu acompanhamento.
Envolve:
Programação orçamental: definição de previsões de receitas e fixação de despesas
conforme prioridades governamentais e metas fiscais.
Emprêgos (empenhos): autorização prévia de despesas, assegurando a existência de
dotação orçamental.
Liquidação e pagamento: confirmação da prestação de serviços ou fornecimento de
bens, seguido da ordenação do pagamento.
Comparação entre previsto e realizado: relatórios periódicos que evidenciam desvios e
permitem ajustes.
2.2. Contabilidade Patrimonial
Registra os bens, direitos e obrigações do Estado, fornecendo visão global do património
público. Inclui:
Registo de activos: bens imóveis, equipamentos, investimentos financeiros.
Registo de passivos: dívidas, financiamentos e compromissos futuros.
Avaliação: mensuração dos valores de aquisição ou de mercado, conforme normas
vigentes.
Reavaliações e depreciações: ajustamentos periódicos para refletir desgaste ou
variações de valor.
1. Evolução Histórica da Contabilidade Pública em Moçambique
A contabilidade pública em Moçambique evoluiu de um modelo tradicional e fortemente
centralizado para um sistema modernizado, com foco na transparência, responsabilização e
gestão orientada para resultados. Após a independência nacional em 1975, o Estado
moçambicano herdou um sistema contabilístico colonial rudimentar e pouco adequado à
realidade de um Estado soberano em processo de construção institucional.
Durante os anos subsequentes, a contabilidade pública esteve orientada para o controlo dos
fluxos financeiros de forma burocrática e pouco eficaz. No entanto, com a implementação de
reformas estruturais e com o apoio de instituições internacionais, como o Fundo Monetário
Internacional (FMI), o Banco Mundial e a União Europeia, Moçambique deu início a um
processo profundo de modernização da sua gestão financeira pública.
O ponto de viragem deu-se com a aprovação da Lei n.º 9/2002, de 12 de Fevereiro, que
instituiu o Sistema de Administração Financeira do Estado (SISTAFE). Este sistema
introduziu mudanças significativas na forma como os recursos públicos são orçamentados,
executados, contabilizados e controlados, instituindo princípios modernos de contabilidade e
gestão financeira.
A introdução do e-SISTAFE, um sistema electrónico de gestão das finanças públicas,
permitiu um maior controlo em tempo real das operações financeiras do Estado. Este sistema
contribuiu para a transparência e a fiabilidade dos dados financeiros, permitindo também que
Moçambique caminhasse no sentido da adopção gradual das Normas Internacionais de
Contabilidade do Setor Público (IPSAS).
Assim, a evolução histórica da contabilidade pública em Moçambique reflecte uma transição
progressiva de um modelo meramente administrativo para um modelo gerencial, alinhado às
melhores práticas internacionais e ajustado às exigências de boa governação e prestação de
contas.
2. Princípios Fundamentais da Contabilidade Pública
A contabilidade pública, como parte integrante do Direito Financeiro, está assente em
princípios orientadores que asseguram a legalidade, eficiência, eficácia e transparência na
gestão dos recursos públicos. Em Moçambique, estes princípios encontram-se consagrados na
Lei do SISTAFE e são reforçados por normas internacionais, como as IPSAS.
a) Princípio da Legalidade
Todos os actos de gestão orçamental e financeira devem estar conformes à legislação em
vigor. O gestor público só pode actuar dentro dos limites da lei, o que implica que todas as
despesas e receitas devem estar previamente autorizadas.
b) Princípio da Unidade de Tesouraria
Prevê a centralização das disponibilidades financeiras do Estado numa única conta,
geralmente no Banco de Moçambique, para garantir melhor controlo e gestão dos fundos
públicos.
c) Princípio da Especificação
As receitas e despesas devem ser discriminadas de forma clara, permitindo a identificação da
natureza económica de cada operação. Este princípio assegura uma adequada análise e
fiscalização da actividade financeira.
d) Princípio da Transparência
A gestão financeira do Estado deve ser clara e compreensível para os cidadãos. Isto implica a
publicação regular de relatórios e demonstrações financeiras, bem como a adopção de normas
contabilísticas reconhecidas internacionalmente.
e) Princípio da Prestação de Contas
Todo gestor público é obrigado a justificar a forma como utilizou os recursos sob sua
responsabilidade. Este princípio está directamente ligado à responsabilização administrativa,
civil e até criminal.
f) Princípio da Anualidade
O orçamento e a execução orçamental têm como base um exercício financeiro anual,
geralmente coincidente com o ano civil, permitindo assim o controlo periódico da actividade
financeira do Estado.
g) Princípio da Universalidade
Todas as receitas e despesas públicas devem ser incluídas no orçamento, sem omissões ou
compensações, garantindo uma visão completa da actividade financeira do Estado.
3. Mecanismos de Controlo da Contabilidade Pública
O controlo da contabilidade pública é essencial para garantir a integridade e a legalidade na
gestão dos recursos públicos. Em Moçambique, este controlo é realizado por diferentes
entidades, a níveis distintos, e pode ser classificado em interno e externo.
1. Controlo Interno
É exercido dentro das próprias instituições públicas e tem como objectivo prevenir erros,
irregularidades e garantir o cumprimento das normas. Inclui auditorias internas,
procedimentos de verificação, segregação de funções e controlo de acessos aos sistemas de
informação financeira. O Ministério da Economia e Finanças, por meio da Direcção Nacional
do Tesouro, desempenha um papel central na supervisão interna do SISTAFE.
2. Controlo Externo
É realizado por entidades independentes, destacando-se o Tribunal Administrativo, que tem
competência para fiscalizar a legalidade e a regularidade da execução orçamental e
financeira. O controlo externo pode ainda ser exercido por parceiros internacionais através de
auditorias e avaliações independentes.
3. Auditorias
As auditorias financeiras e de desempenho são instrumentos-chave de controlo. As primeiras
avaliam a conformidade das demonstrações financeiras com os princípios e normas
estabelecidos, enquanto as de desempenho analisam a eficiência, eficácia e economicidade na
utilização dos recursos.
4. Prestação de Contas
As entidades públicas são obrigadas a apresentar relatórios financeiros anuais, os quais
devem ser auditados e submetidos ao Tribunal Administrativo. A prestação de contas é um
acto de cidadania, transparência e boa governação.
5. Fiscalização Parlamentar
A Assembleia da República exerce também controlo sobre a gestão financeira do Estado,
através da apreciação da Conta Geral do Estado e do exercício da sua função de fiscalização
política.
6. Desafios Actuais da Contabilidade Pública em Moçambique
Apesar dos progressos significativos alcançados nos últimos anos, nomeadamente com a
introdução de reformas como o SISTAFE (Sistema de Administração Financeira do Estado), a
contabilidade pública em Moçambique continua a enfrentar inúmeros desafios estruturais,
operacionais e culturais que comprometem a eficácia e a credibilidade do sistema de gestão
financeira pública.
a) Capacitação Técnica Insuficiente
Um dos obstáculos mais evidentes está relacionado com a carência de quadros devidamente
capacitados nas áreas de contabilidade pública e gestão financeira moderna. Embora existam
programas de formação contínua promovidos pelo Estado e por parceiros internacionais,
muitos profissionais ainda não dominam conceitos fundamentais como contabilidade de
exercício, demonstrações financeiras segundo normas internacionais (IPSAS) e princípios de
responsabilização. Esta lacuna técnica reduz a eficiência dos serviços prestados e limita a
capacidade do Estado de tomar decisões financeiras com base em dados fiáveis.
b) Resistência à Mudança
A implementação de reformas estruturais, como o SISTAFE, que pretende introduzir uma
nova cultura de transparência, eficiência e responsabilização na gestão dos recursos públicos,
tem sido dificultada por resistências internas. Muitos funcionários e gestores públicos,
habituados a práticas tradicionais e, por vezes, informais, têm revelado relutância em adoptar
novas metodologias e tecnologias. Este fenómeno de resistência institucional e cultural
compromete a plena implementação das reformas e revela a necessidade de uma abordagem
mais participativa e formativa.
c) Fragilidades Tecnológicas
Embora Moçambique tenha registado avanços com a introdução do e-SISTAFE, existem
ainda grandes assimetrias no acesso e na qualidade da infraestrutura tecnológica entre as
províncias e distritos. Muitas unidades administrativas locais enfrentam dificuldades de
conectividade, avarias frequentes e falta de técnicos para garantir a manutenção dos sistemas.
Essas limitações dificultam o registo tempestivo, fiável e completo das operações financeiras,
reduzindo assim a eficiência do controlo orçamental e a transparência das contas públicas.
d) Corrupção e Má Gestão
Um dos desafios mais persistentes na contabilidade pública moçambicana é a prevalência de
práticas de corrupção, como desvio de fundos, sobre-orçamentações e má gestão dos recursos
financeiros. Diversos relatórios do Tribunal Administrativo e de auditorias externas apontam
para irregularidades recorrentes na execução orçamental. A corrupção não só compromete a
confiança dos cidadãos e dos parceiros de cooperação, como também enfraquece o sistema
contabilístico ao distorcer os dados financeiros.
e) Integração Incompleta das IPSAS
Apesar do compromisso do Estado moçambicano com a adopção das Normas Internacionais
de Contabilidade do Sector Público (IPSAS), o processo ainda se encontra em fase de
transição. Muitas entidades públicas ainda elaboram os seus relatórios segundo práticas
mistas, o que compromete a comparabilidade e a fiabilidade das demonstrações financeiras. A
não adopção plena das IPSAS limita também o alinhamento de Moçambique com as
melhores práticas internacionais e pode afectar o fluxo de financiamento externo.
7. Tendências Futuras da Contabilidade Pública em Moçambique
Num cenário global cada vez mais exigente em termos de transparência, responsabilidade e
sustentabilidade, a contabilidade pública moçambicana tende a evoluir no sentido da
modernização tecnológica, do alinhamento normativo internacional e da maior participação
cidadã. As tendências futuras apontam para uma transformação profunda no modo como o
Estado gere, regista e presta contas sobre os seus recursos.
a) Adoção Plena das IPSAS
Prevê-se que Moçambique concretize, nos próximos anos, a implementação integral das
IPSAS, o que permitirá uma uniformização das práticas contabilísticas com os padrões
internacionais. Esta medida contribuirá para melhorar a qualidade da informação financeira, a
transparência na gestão dos recursos públicos e a confiança dos investidores e doadores.
b) Expansão do e-SISTAFE
A expansão do sistema electrónico de administração financeira para todos os níveis da
administração pública, incluindo autarquias e instituições descentralizadas, promete fortalecer
o controlo interno, reduzir os erros manuais e permitir uma gestão orçamental mais eficaz e
em tempo real. A digitalização do sistema contabilístico é essencial para a automatização de
processos, a geração de relatórios fiáveis e o reforço da prestação de contas.
c) Integração com Big Data e Inteligência Artificial
O futuro da contabilidade pública em Moçambique passará também pela integração de
tecnologias emergentes como o Big Data e a Inteligência Artificial (IA). Estas ferramentas
permitirão uma análise mais abrangente e preditiva dos dados financeiros, possibilitando a
detecção precoce de anomalias, o planeamento orçamental mais eficaz e a personalização das
auditorias internas.
d) Maior Participação Cidadã
A tendência é de um crescente envolvimento dos cidadãos no controlo das finanças públicas,
impulsionado por plataformas digitais de transparência orçamental, consultas públicas e
mecanismos de orçamento participativo. Esta nova abordagem democrática e interactiva visa
reforçar a responsabilização do Estado perante os seus cidadãos, promovendo uma cultura de
fiscalização e de co-gestão dos recursos públicos.
e) Desenvolvimento Sustentável e Orçamento Verde
Finalmente, o futuro da contabilidade pública em Moçambique deverá incorporar critérios
ambientais e sociais, adoptando práticas de orçamento verde. Esta abordagem visa alinhar a
gestão financeira do Estado com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da
Agenda 2030 das Nações Unidas, integrando indicadores de impacto ecológico e social nas
decisões orçamentais e contabilísticas
9. Conclusão
A Contabilidade Pública revela-se como um instrumento imprescindível para a boa
governação, transparência e responsabilização na gestão dos recursos públicos. Ao longo das
últimas décadas, Moçambique registou avanços significativos na modernização do seu
sistema contabilístico, especialmente com a introdução do SISTAFE e as subsequentes
reformas promovidas pela Lei n.º 14/2020. Estes desenvolvimentos permitiram maior
controlo orçamental, integração entre contabilidade patrimonial e orçamental, e maior
alinhamento com as normas internacionais de contabilidade pública.
Contudo, persistem desafios estruturais, como a limitada capacitação técnica de alguns
gestores públicos, atrasos na prestação de contas e a necessidade de maior harmonização
entre os diferentes níveis de governo. Além disso, a consolidação plena do regime misto de
escrituração e a transição total para as normas IPSAS requerem um esforço coordenado entre
os diversos actores institucionais e o reforço da vontade política.
Assim, a eficácia da Contabilidade Pública dependerá não apenas do quadro legal e técnico
existente, mas também do compromisso dos órgãos do Estado e da sociedade civil em
promover a cultura de integridade, fiscalização e uso racional dos recursos. Só com esse
empenho será possível garantir a sustentabilidade das finanças públicas e o desenvolvimento
socioeconómico do país.
8. Bibliografia
Lei n.º 9/2002, de 12 de Fevereiro (Lei do SISTAFE);
Decreto n.º 23/2004, Regulamento do SISTAFE;
Tribunal Administrativo (2022). Relatório e Parecer sobre a Conta Geral do Estado;
IFAC (International Federation of Accountants). IPSAS Handbook (várias edições);
Cossa, A. (2018). Finanças Públicas e Contabilidade Governamental. Maputo:
Universidade Eduardo Mondlane;
Banco Mundial. Public Financial Management Reforms in Mozambique (2021);
FMI (2022). Relatório sobre Transparência Fiscal em Moçambique.