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Qualidade de Vídeos sobre Câncer de Mama

A dissertação de Larissa Silveira Carvalho Villa avalia a qualidade dos vídeos sobre câncer de mama no YouTube, destacando sua relevância para a promoção da saúde da mulher. A pesquisa analisou 158 vídeos, revelando que a maioria não apresenta informações corretas sobre a doença, com 53% dos vídeos classificados como ruins ou péssimos. A conclusão aponta para a necessidade de maior atuação dos órgãos públicos na produção de conteúdos informativos de qualidade.

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Qualidade de Vídeos sobre Câncer de Mama

A dissertação de Larissa Silveira Carvalho Villa avalia a qualidade dos vídeos sobre câncer de mama no YouTube, destacando sua relevância para a promoção da saúde da mulher. A pesquisa analisou 158 vídeos, revelando que a maioria não apresenta informações corretas sobre a doença, com 53% dos vídeos classificados como ruins ou péssimos. A conclusão aponta para a necessidade de maior atuação dos órgãos públicos na produção de conteúdos informativos de qualidade.

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UNICESUMAR – UNIVERSIDADE CESUMAR

PROGRAMA DE MESTRADO EM PROMOÇÃO DA SAÚDE

LARISSA SILVEIRA CARVALHO VILLA

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DOS VÍDEOS SOBRE


CÂNCER DE MAMA NO YOUTUBE: RELEVÂNCIA PARA
PROMOÇÃO DA SAÚDE DA MULHER

DISSERTAÇÃO

MARINGÁ
2021
LARISSA SILVEIRA CARVALHO VILLA

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DOS VÍDEOS SOBRE


CÂNCER DE MAMA NO YOUTUBE: RELEVÂNCIA PARA
PROMOÇÃO DA SAÚDE DA MULHER

Projeto de dissertação apresentado


Universidade Cesumar (UNICESUMAR),
como requisito à obtenção do título de Mestre
em Promoção da Saúde.

Linha de pesquisa: Educação e Tecnologias na


Promoção da Saúde

Orientador: Prof. Dr. Marcelo Picinin Bernuci

Coorientador: Profa. Dra. Tânia Maria Gomes


da Silva

MARINGÁ
2021
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

V712a Villa, Larissa Silveira Carvalho.


Avaliação da qualidade dos vídeos sobre câncer de mama no Youtube:
relevância para a promoção da saúde da mulher / Larissa Silveira Carvalho
Villa. – Maringá-PR: UNICESUMAR, 2021.

63 f. : il. ; 30 cm.

Orientador: Prof. Dr. Marcelo Picinin Bernuci.


Coorientadora: Profa. Dra. Tânia Maria Gomes da Silva .
Dissertação (mestrado) – Universidade Cesumar - UNICESUMAR, Programa
de Pós-Graduação em Promoção da Saúde , Maringá, 2021.

1. Redes sociais online. 2. Educação em saúde. 3. Promoção da saúde. I.


Título.

CDD – 616.9940082

Roseni Soares – Bibliotecária – CRB 9/1796 Biblioteca Central


UniCesumar

Ficha catalográfica elaborada de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).


LARISSA SILVEIRA CARVALHO VILLA

Avaliação da qualidade dos vídeos sobre câncer de mama no YouTube:


relevância para promoção da saúde da mulher

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde, da


Universidade Cesumar, como requisito para obtenção do título de Mestre em Promoção da
Saúde, pela comissão composta pelos membros:

COMISSÃO JULGADORA

_________________________________________________
Prof. Dr. Marcelo Picinin Bernuci
Universidade Cesumar- Unicesumar (Presidente)

_____________________________________________________
Profª. Dra. Mirian Ueda Yamaguchi
Universidade Cesumar - Unicesumar (Membro Interno)

______________________________________________________
Prof. Dr. Fábio Marcon Alfieri
Centro Universitário Adventista de São Paulo - Unasp (Membro Externo)

Aprovado em:
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho a todos aqueles que contribuíram


para sua realização.
AGRADECIMENTOS

A Deus e ao seu filho Jesus Cristo, por me mostrar o caminho e por me sustentar em
todos os momentos de angústia, pois em inúmeras vezes me senti perdida;
Ao meu esposo, Fernando Villa, que foi o meu maior incentivador para que eu realizasse
esse sonho;
Aos meus filhos, Pedro e Artur, por terem me auxiliado nas situações difíceis do saber
tecnológico e por saberem lidar com a minha ausência;
Ao Centro Universitário de Maringá, por ter-me possibilitado desenvolver este trabalho;
Ao meu orientador, o Professor Dr. Marcelo Picinin Bernuci, agradeço por todo
aprendizado, pela dedicação, paciência e cuidado, principalmente diante da minha
inexperiência científica;
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde/ Unicesumar,
pelos valiosos ensinamentos;
Ao Professor Me. José Gonçalves Vicente, que participou da construção estatística do
meu trabalho, por toda atenção, cuidados, ensinamentos valiosos e colaboração brilhante que
prestou.;
Ao aluno de iniciação científica da Unicesumar, Alex Del Cerro Mello, por participar e
contribuir na análise dos vídeos, por toda a dedicação, seriedade, competência e apoio durante
o desenvolvimento da pesquisa;
A colega, Sônia Eliane de Deus, por toda atenção e disponibilidade, em todos os
momentos que precisei;
Aos colegas do Mestrado em Promoção da Saúde, pela amizade, apoio e demonstração
de companheirismo;
A UNIFASIPE Sinop e toda a sua direção, por permitir minha ausência nos dias de aula
em Cuiabá e proporcionar essa oportunidade de ampliar o conhecimento; e
A todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho.
Avaliação da qualidade dos vídeos sobre câncer de mama no youtube:
relevância para promoção da saúde da mulher

RESUMO

O câncer de mama é uma das principais enfermidades que acomete a saúde das mulheres no
mundo. Embora seja uma doença com alto potencial de mortalidade, as chances de sobrevida
aumentam consideravelmente quando o diagnóstico é realizado de forma precoce. Assim,
estratégias destinadas à melhoria do acesso das mulheres às informações sobre prevenção, são
fundamentais para o controle deste tipo de câncer. Como a plataforma de vídeos online YouTube
tem sido amplamente acessada pela população, para busca de informações sobre saúde, o
objetivo da presente dissertação foi avaliar a qualidade dos vídeos relacionados ao tema do
câncer de mama. O download dos vídeos ocorreu entre os dias 11 de outubro a 14 de novembro
de 2020, a partir da palavra-chave "câncer de mama". Foi extraído para análise os 200 primeiros
vídeos mais vistos. Foram excluídos os vídeos com duração superior a 15 minutos (N = 36);
inferior a um minuto (N = 03); e aqueles que não abordavam conteúdo pertinente ao tema (N =
03), restando 158 vídeos para análise. Os dados referentes às informações de cunho técnico
foram obtidos por meio da análise das informações contidas na descrição dos vídeos e a análise
do conteúdo realizada por meio da comparação das informações contidas nos vídeos com
aquelas descritas nos manuais de controle do câncer de mama do Ministério da Saúde do Brasil.
Dos vídeos analisados (72%) são curtos, com menos de seis minutos de duração e disponíveis
na plataforma a pelo menos cinco anos. São vídeos amplamente visualizados, onde (73%)
apresenta até 18 mil visualizações e (68%) postados por contas autodeclaradas como de
profissionais da saúde. Dentre os vídeos criados (73%) foram com intuito de divulgar conteúdo
informativo ao leigo, muito embora mais de 90% deles não tenham apresentado uma definição
do que é o câncer de mama, fatores de risco (87%), sinais e sintomas (85%), prevenção primária
(85%), e prevenção terciária (64%). O foco da atenção foi a prevenção secundária, sendo
apresentada em 71,5% dos vídeos, no entanto, menos de 2% deles com informações corretas.
De forma geral, 53% dos vídeos foram avaliados como ruins ou péssimos, 40% como regular e
(7%) como bom ou ótimo. Conclui-se, que o YouTube se apresenta como uma ferramenta
coadjuvante no processo de educação de mulheres quanto ao controle do câncer de mama, no
entanto, as evidências de limitações do conteúdo dos vídeos, gera a necessidade de maior
atuação dos órgãos públicos na produção e divulgação de informações de qualidade para a
população.

Palavras chaves: Redes Sociais Online; Educação em Saúde; Promoção da Saúde.


Evaluation of the quality of videos about breast cancer on youtube:
relevance for women's health promotion

ABSTRACT

Breast cancer is one of the main diseases that affect the health of women in the world. Although
it is a disease with a high potential for mortality, the chances of survival increase considerably
when the diagnosis is made early. Thus, strategies aimed at improving women's access to
information on prevention are essential for the control of this type of cancer. As the online video
platform “YouTube” has been widely accessed by the population to search for health
information, the objective of this dissertation was to evaluate the quality of videos related to
the topic of breast cancer. The videos were downloaded from October 11 to November 14, 2020
using the keyword "breast cancer". The first 200 most viewed videos were extracted for
analysis. Videos longer than 15 minutes were excluded (N = 36); less than one minute (N =
03); and those that did not address content relevant to the topic (N = 03), leaving 158 videos
for analysis. The data referring to the technical information were obtained through the analysis
of the information contained in the description of the videos and the analysis of the content
carried out by comparing the information contained in the videos with that described in the
breast cancer control manuals of the Brazilian Ministry of Health. The majority (72%) of the
analyzed videos are short and less than six minutes long and available on the platform for at
least five years. These are widely viewed videos where the majority (73%) have up to 18,000
views and the majority (68%) are posted by self-reported accounts as health professionals. Most
of these videos (73%) were created to disseminate information content to the layperson,
although more than 90% of them did not present a definition of what breast cancer is, risk
factors (87%), signs and symptoms (85%), primary prevention (85%), and tertiary prevention
(64%). The focus of attention was secondary prevention being presented in 71.5% of the videos,
however, less than 2% of them with correct information. In general, 53% of the videos were
rated as bad or very bad, 40% as regular and only 7% as good or great. It is concluded that
YouTube presents itself as a supporting tool in the process of educating women regarding the
control of breast cancer, however, the evidence of limitations in the content of the videos,
generates the need for greater performance by public agencies in the production and
dissemination of quality information to the population.

Keywords: Online Social Networks; Health education; Health promotion.


LISTA DE FIGURAS

Figura 01 – Exemplos dos vídeos segundo tema abordado.............................................. 39


LISTA DE TABELAS

Tabela 01. Distribuição de frequências dos dados de tempo de duração dos vídeos ........ 34
Tabela 02. Distribuição de frequências dos dados sobre o intervalo entre a publicação
dos vídeos e o download para análise ............................................................................... 35
Tabela 03. Distribuição de frequências dos dados sobre o número de visualizações dos
vídeos .............................................................................................................................. 35
Tabela 04. Distribuição de frequências dos dados da identidade das contas que
postaram os vídeos ........................................................................................................... 36
Tabela 05. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de aprovações
(likes) dos vídeos ............................................................................................................. 36
Tabela 06. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de reprovações
(dislikes) dos vídeos ......................................................................................................... 37
Tabela 07. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de comentários
sobre os vídeos ................................................................................................................. 37
Tabela 08. Distribuição de frequências dos dados relativos ao objetivo dos vídeos ........ 38
Tabela 09. Distribuição de frequências dos dados relativos à acurácia dos vídeos
quanto as informações abordadas sobre os temas discutidos ............................................ 39
Tabela 10. Distribuição de frequências dos dados relativos ao do número de com
conteúdos assertivos sobre os tópicos relacionados ao câncer de mama .......................... 40
Tabela 11. Distribuição de frequências da qualidade dos vídeos baseada na acurácia
das informações sobre os tópicos relacionados ao câncer de mama ................................. 40
LISTA DE QUADROS

Quadro 01 - Representação esquemática dos estudos publicados sobre análise de


conteúdo dos vídeos do YouTube na área da saúde ..................................................... 26
Quadro 02 - Representação esquemática dos estudos publicados sobre análise de
conteúdo dos vídeos do YouTube sobre o câncer de mama. .............................................
27
Quadro 03 - Representação esquemática dos dados referentes a análise de Kappa
Ponderado para os diferentes tópicos avaliados na análise dos vídeos ....................... 33
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 13
1.1 Objetivo .................................................................................................................... 17
1.1.1 Objetivo Geral ........................................................................................................ 17
1.1.2 Objetivos específicos ............................................................................................. 17
2 REVISÃO DE LITERATURA ................................................................................. 18
2.1 Câncer de Mama ..................................................................................................... 18
2.2 Educação e Saúde .................................................................................................... 20
2.3 Redes sociais online ................................................................................................. 22
2.4 YouTube ................................................................................................................... 25
3 METODOLOGIA ...................................................................................................... 28
3.1 Delineamento experimental .................................................................................... 28
3.2 Obtenção dos vídeos ................................................................................................ 28
3.3 Seleção dos vídeos ................................................................................................... 28
3.4 Caracterização técnica dos vídeos .......................................................................... 29
3.5 Caracterização do conteúdo dos vídeos ................................................................ 29
3.6 Caracterização da qualidade do conteúdo dos vídeos ........................................... 31
3.7 Análise estatística .................................................................................................... 32
4. RESULTADOS ......................................................................................................... 34
4.1 Caracterização técnica dos vídeos ......................................................................... 34
4.2 Caracterização da qualidade do conteúdo dos vídeos ......................................... 38
5 DISCUSSÃO ............................................................................................................... 41
6 CONCLUSÃO ............................................................................................................ 45
REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 46
13

1 INTRODUÇÃO

O câncer tem se tornado, nos últimos tempos, um problema de saúde pública mundial,
que afeta especialmente os países subdesenvolvidos pelas dificuldades na implementação de
políticas públicas de prevenção e detecção precoce (OMS, 2013). No que tange a saúde da
mulher, o câncer de mama é um dos mais prevalentes, apenas no ano de 2018 mais de 2 milhões
de novos casos de câncer de mama foram detectados (GLOBOCAN, 2019). Em 2020, estimou-
se 2,3 milhões de novos casos de câncer de mama, representando 11,7% do total de câncer na
população mundial, configurando como uma das principais doenças que acomete a saúde das
mulheres no mundo (GLOBOCAN, 2020). No Brasil, o cenário ainda é pior, segundo dados do
Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de mama é o segundo tipo de câncer que mais
acomete as brasileiras (INCA, 2020) e a principal causa de morte desta população
(GLOBOCAN, 2020).
Embora as ações governamentais voltadas para o controle desta malignidade tenham
sido intensificadas desde 2010, até o momento, os avanços na redução das taxas de mortalidade
ainda são incipientes, devido, principalmente, a demora no diagnóstico (BRASIL, 2013). Nos
últimos anos, o governo brasileiro, especialmente através da campanha “Outubro Rosa”, tem
trabalhado diversas estratégias, na busca por conscientizar a população feminina quanto à
importância de se realizar precocemente o diagnóstico do câncer de mama, bem como por meio
de ações com gestores e profissionais de saúde sobre a importância do rápido encaminhamento
para a investigação de casos suspeitos e início do tratamento adequado, quando confirmado o
diagnóstico (BRASIL, 2011; MALTA et al., 2019). Evidências de que o diagnóstico tardio do
câncer de mama está relacionado com a baixa consciência e o desconhecimento sobre o
processo saúde-doença pelas mulheres (HERR et al., 2013; SILVA et al, 2018), aponta para
necessidade de subsidiar informações sobre a prevenção deste tipo de câncer para a população.
Mesmo que se reconheça os esforços governamentais em implementar estratégias de
educação em saúde, como a propagação de conteúdo informativo ao longo da campanha
“Outubro Rosa”, não se pode ignorar os efeitos negativos da propagação de notícias falsas e/ou
conteúdos informativos equivocados, por indivíduos, ou associações não especializados na área
14

da saúde, que se utilizam de diferentes veículos de comunicação para influenciar a população


(AMORIM et al., 2008; DEY, 2014; PINHEIRO et al., 2019; VIEIRA et al., 2019; CEZAR,
2019). Não se pode, também, descartar a influência de outros fatores classicamente descritos
como facilitadores de má gestão do autocuidado em saúde, como baixa literacia em saúde, falta
de possibilidades de acesso ao cuidado ou até mesmo pouca oportunidade de oferta de serviços
de saúde de qualidade, os quais mantêm estreita relação com educação, status social, sexo,
idade, área de habitação e outras condições de vida (TENGLAND, 2016). Neste sentido, as
estratégias de educação em saúde, especialmente àquelas ditas “empoderadoras”, que se
correlaciona ao processo de emancipação dos sujeitos (VALE, 2018), pode facilitar a quebra
das barreiras de desigualdade e impulsionar a busca pela diminuição das iniquidades,
favorecendo, portanto, a melhoria do autocuidado, que no caso do câncer de mama, se apresenta
na melhoria da adesão aos programas de prevenção.
De fato, o incentivo ao acesso de informações de qualidade pelas mulheres tem sido
cada vez mais recomendado pelos profissionais da área da saúde para facilitar o manejo das
ações de controle do câncer de mama. A Sociedade Brasileira de Mastologia tem reforçado que
a informação é um recurso fundamental para subsidiar melhorias nos índices de diagnóstico
precoce do câncer de mama, porém a credibilidade das informações para que o paciente tenha
segurança, devem ser analisadas criteriosamente em sua fundamentação teórica e evidências
científicas (FRASSON, 2019). Ademais, nas últimas décadas, a preocupação com a segurança
do paciente tornou-se assunto prioritário na área da saúde (WHO, 2010; FROTA et al., 2013;
SALVADOR, 2017), e embora ainda não haja uma regulamentação de controle das informações
divulgadas nos diferentes veículos de comunicação, espera-se que os profissionais da área da
saúde, associações governamentais ou não governamentais envolvidas com a saúde, ocupem
cada vez mais espaço nesse cenário, e passe atuar com mais solidez e comprometimento no
processo de capacitação em saúde, tanto no âmbito individual quanto coletivo.
Como a educação em saúde não se restringe à propagação de informações voltadas à
saúde, mas sim à promoção da motivação, habilidades e confiança necessárias para adotar
medidas para melhorar a saúde (OMS, 2014), as estratégias de promoção da saúde, baseadas no
“empoderamento”, se apresentam como uma nova alternativa para resolução de diversos
problemas de saúde pública (SADEGHI; HESHMATI, 2019), em especial, ao câncer de mama,
cuja sobrevida das mulheres aumenta significativamente quando o diagnóstico é realizado
precocemente. Entretanto, para haver de fato promoção da saúde e melhoria no
autogerenciamento da saúde, é necessário que se estabeleça a cultura da segurança e
confiabilidade dos conteúdos de educação em saúde em todos os âmbitos da sociedade. No
15

contexto atual, onde inúmeros recursos tecnológicos são utilizados para facilitar o processo de
ensino-aprendizagem, em especial, das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), se
exige cada vez mais do indivíduo habilidades e competências compatíveis com a análise crítica
do conteúdo disponibilizado (DULCAN et al., 2013; LANGER, 2017; MUŸLDER et al.,
2019). Tendo em vista o uso crescente de plataformas na web para interagir, gerar, acessar e
disseminar informações em saúde, a preocupação com a qualidade e, principalmente com a
veracidade das informações disponibilizadas têm assumido relevância ainda maior para a saúde
pública (ROSE, 2013; FROSSARD; DIAS, 2016; BENEDICTIS et al., 2019).
Inúmeros estudos têm sido desenvolvidos a fim de investigar as implicações desta nova
“forma” de educação no contexto da saúde, em especial sobre a disseminação das “fakenews”
por meio das redes sociais online (RSO). Até o momento, os dados gerados são contraditórios,
mesmo se reconhecendo os ganhos deste novo método na capacitação dos indivíduos sobre
diversos tópicos de saúde, os efeitos da disseminação de conteúdos equivocados, ou
tendenciosos, que normalmente perpetuam ideias de teorias conspirativas, contam a desfavor
de sua aplicabilidade na saúde pública (MORETZSOHN, 2017; KAKUTANI, 2018;
HENRIQUES et al., 2018; VIEIRA, et al., 2019; SILVA et al., 2019). Ademais, muita atenção
tem sido dada ao uso das RSO como ferramentas de geração e disseminação de informações de
saúde, tanto para facilitação da educação de estudantes (GEIB et al., 2012), profissionais da
saúde (FAZION; JUNQUEIRA, 2019) e, especialmente, pacientes (CURRAN et al., 2017;
CHO; LEE, 2017; BERNARDES, 2019; SOUSA; TURRINI, 2019), e muito embora pareça
promissora em primeira instância, o uso deliberado e não consciente das RSO como fonte de
informação em saúde pode trazer resultados negativos, o que reforça a necessidade da constante
avaliação dos diferentes sistemas de geração e propagação de informações em saúde.
Dentre estas RSO, destaca-se a plataforma de compartilhamento de vídeos, YouTube,
como uma das principais ferramentas utilizadas no processo de educação em saúde na
contemporaneidade (KELLY et al., 2016; CURRAN et al., 2017; PANDER et al., 2019;
FRANÇA et al., 2019). O YouTube é a maior plataforma de compartilhamento de vídeos do
mundo (KLEINA, 2018) e atualmente, há registros de que mais de 70% dos indivíduos adultos
utilizam essa plataforma para criar ou disseminar conteúdos informativos diversos
(LANGFORD & LOEB, 2019). Com mais de 100 milhões de vídeos em sua plataforma (CHOU
et al 2017), o YouTube pode se apresentar como uma valiosa ferramenta de educação em saúde,
desde que o conteúdo das informações seja de fato de qualidade. Como qualquer pessoa pode
publicar um vídeo sobre saúde no YouTube, independentemente de sua formação, qualificação
médica, profissão ou intenção, não é difícil reconhecer sua fragilidade como ferramenta de
16

educação em saúde. Evidências da heterogeneidade da qualidade dos conteúdos dos vídeos


disponíveis sobre tópicos de saúde no YouTube, desde conteúdo de alta qualidade a propaganda
de vendas ou golpes pseudo-científicos (LAU et al., 2011; CHOU et al., 2017; BACKINGER
et al., 2011; DAWSON et al, 2011; SYED-ABDUL et al., 2013), reforçam a necessidade de
cuidado da adoção dessa ferramenta como estratégia de educação em saúde.
Esforços têm sido realizados a fim de padronizar a publicação de vídeos com conteúdos
relacionados à saúde no YouTube, como exemplo, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças
(CDC) nos Estados Unidos, que desenvolveu uma diretriz específica para publicação no
YouTube e em outros sites de vídeo online. Mesmo com esses esforços, os estudos atuais
apontam sérias limitações na qualidade dos vídeos sobre questões de saúde no YouTube (SELVI
et al., 2019; BACKES et al., 2109; SOUZA et al., 2019; ALBARADO et al., 2019; LIMA et
al., 2019; MOTA et al., 2019), e reforçam a necessidade de mais iniciativas para tentar mitigar
os efeitos negativos dessa fonte disseminadora de conteúdo na web. No que tange ao tema do
câncer de mama, poucos estudos foram realizados com foco no conteúdo dos vídeos do
YouTube. Até o momento, os objetos de estudo foram vídeos específicos sobre mastectomia
(CLARKE et al., 2019), auto-exame (ESEN et al., 2019) e mamografia (BASCH et al., 2015),
sem um foco específico na relevância de conteúdos de cunho informativo sobre a prevenção do
câncer de mama.
Diante, portanto, da relevância da divulgação de informações de qualidade sobre a
prevenção do câncer de mama para a população; do aprimoramento das estratégias de educação
em saúde para atingir um dos objetivos da promoção da saúde; e, da ausência de estudos
dedicados a análise da qualidade das informações sobre o câncer de mama nos vídeos do
YouTube, foi investigado na presente Dissertação a potencialidade do uso do YouTube como
estratégias de educação em saúde a ser aplicado para população feminina no âmbito da
prevenção do câncer de mama.
Esta dissertação se ancora no Grupo de Pesquisa do CNPq intitulado “Promoção da
Saúde da Mulher”, liderado pelo Professor Doutor Marcelo Picinin Bernuci, do Programa de
Pós-Graduação em Promoção da Saúde da UniCesumar, na linha de pesquisa “Linha 2 –
Educação e Tecnologias na Promoção da Saúde” e no projeto “P3 – Tecnologias, Comunicação
e Educação na Promoção da Saúde”. Espera-se, com os dados aqui apresentados, implementar
fundamentações teóricas para a discussão da adoção das RSO nas estratégias de promoção da
saúde para sociedade contemporânea.
Diante do fato de que: 1) o câncer de mama é o principal responsável pela morte de
mulheres no mundo; 2) quando diagnosticado precocemente as chances de sobrevida aumentam
17

consideravelmente; 3) o comportamento de adesão aos programas de rastreio e diagnóstico


precoce está vinculado à educação em saúde; 4) os adultos acessam conteúdos em saúde via
vídeos do YouTube, justifica-se o desenvolvimento de um estudo que analise a qualidade das
informações contidas nos vídeos do YouTube sobre o câncer de mama.
Desse modo, o objetivo geral da presente dissertação é analisar as informações sobre o
câncer de mama nos vídeos publicados em língua portuguesa, do Brasil, no YouTube, e, para
tanto, responderemos aos seguintes objetivos específicos.

1.1 Objetivos
1.1.1 Objetivo Geral

Analisar as informações sobre o câncer de mama nos vídeos publicados em língua


portuguesa, do Brasil, no YouTube.

1.1.2 Objetivos Específicos

Ø Caracterizar os vídeos segundo aspectos técnicos: identidade de quem realizou


a postagem, objetivo do vídeo, número de visualizações, número de interações;
Ø Caracterizar os vídeos segundo tipo de conteúdo; e
Ø Caracterizar os vídeos segundo qualidade do conteúdo.
18

2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Câncer de Mama

O câncer de mama constitui-se na mais incidente neoplasia entre o público feminino e


supera todos os outros cânceres quanto à mortalidade (INCA, 2019), representado em cerca de
21% de todos os cânceres que atinge as mulheres (INCA, 2020). Caracteriza-se por ser um
câncer heterogêneo em relação à clínica e morfologia, envolvendo aspectos biológicos,
endócrinos, vida reprodutiva, comportamento e estilo de vida (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2012; INCA, 2015). Quando diagnosticado precocemente o câncer de
mama é considerado um tipo de câncer de bom prognóstico (BERNARDES et al, 2019;
SOUSA, 2020). Apenas no ano de 2015 o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)
registrou mais de 15.000 óbitos de mulheres por câncer de mama no Brasil (BRASIL, 2015).
Segundo a estimativa 2018, sobre a incidência de câncer no país, o número de casos incidentes
estimados de câncer de mama na população feminina no Brasil foi de 59.700. Nas capitais, esse
número corresponde a 19.920 casos novos a cada ano. A taxa bruta de incidência estimada foi
de 56,33 por 100 mil mulheres para todo o Brasil e 80,33 por 100 mil mulheres nas capitais
(INCA, 2017).
Dessa maneira, o problema ganhou espaço especial nas agendas políticas e técnicas de
saúde, possibilitando que as recomendações para identificação de novos casos e prevenção se
atualizem conforme a magnitude e o impacto da doença na população (BORGES et al., 2016).
Há evidências de que o câncer de mama tem significado um grande desafio para a
implementação de políticas públicas, exigindo o desenvolvimento de programas e ações
voltados à prevenção, tratamento e controle da doença (OHL et al., 2016). Assim, para o
controle da neoplasia no Brasil tem-se: promoção da saúde e prevenção dos fatores de risco
modificáveis (prevenção primária), detecção precoce e tratamento (prevenção secundária)
(INCA, 2014).
Segundo Porto, Teixeira e Silva (2013) as estratégias de prevenção secundária são as
únicas que promovem reduções nas taxas de mortalidade, sendo assim, são as que vêm
recebendo maior atenção dos sistemas nacionais de saúde, especialmente o rastreamento
mamográfico não havendo qualquer exame clínico ou tecnologia que lhe seja superior. Segundo
o Ministério da Saúde (2019), a detecção do câncer de mama pode ser realizada ainda nas fases
iniciais e, dessa forma, toda mulher, independentemente da idade, deve ser estimulada e
orientada a conhecer seu corpo para saber diferenciar o que é normal do que é disfuncional.
Recomenda-se a mamografia como exame de rastreamento (exame realizado quando não há
19

nem sintomas suspeitos) disponibilizado para mulheres entre 50 e 60 anos, a cada dois anos
(OMS, 2019).
O controle do câncer de mama vem sendo aperfeiçoado desde os anos 1980, ao ser
contemplado no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, que pleiteava o cuidado
mais amplo para além da atenção ao ciclo gravídico-puerperal, surgindo, dessa forma, o
Programa de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer/ Ministério da Saúde (1986), o
Programa Viva Mulher (1997-1998) e o Documento de Consenso (2004), culminando na
elaboração de diretrizes técnicas para o controle da doença no país, com o lançamento da
Política Nacional de Atenção Oncológica e do Plano de Ação para o Controle dos Cânceres de
Mama e Colo do Útero (2005-2007).
No intuito de reduzir as consequências sociais e econômicas provocadas pelo câncer,
assim como, possibilitar o aumento do acesso pelo sistema público ao diagnóstico precoce e
tratamento, foi instituída, em 2013, a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer
(PNPCC), que depois foi atualizada pela Portaria de 2 de setembro de 2017 (Portaria nº 2/2017).
A Política fundamenta-se em quatro princípios, sendo eles: 1) Estabelecimento de ações para a
prevenção da doença; 2) detecção precoce, possibilitando o aumento da probabilidade de cura;
3) consolidação e expansão dos serviços de assistência oncológica; e, 4) promoção do
desenvolvimento de recursos humanos, de pesquisas e outras ações indispensáveis à prevenção
e controle do câncer (INCA, 2002).
Verificamos que, para essa política consiguir alcançar os objetivos propostos e tenha
sucesso, é preciso que esteja amparada por três dimensões, sendo estas: 1) fornecimento de
recursos e infraestrutura pelo Estado; 2) gestão descentralizada eficiente para execução das
diretrizes estabelecidas e engajamento do público-alvo; e, 3) realização dos comportamentos
necessários e recomendados pela política.
O Estado é o principal provedor a infraestrutura necessária para possibilitar a
implementação da política, o que inclui desde a disseminação de informações sobre a doença,
como a oferta de recursos materiais e pessoais, para o acesso da população aos serviços de
diagnóstico, assim como de consultas especializadas e, quando necessário, de tratamento
(Portaria nº 2/2017), (FERREIRA, 2019). Entretanto, em concordância, o INCA e o Ministério
da Saúde têm trabalhado em ações de assessoria técnicas e parcerias, almejando a construção
de uma rede de educação na atenção oncológica, contribuindo com os gestores do SUS,
apoiando os profissionais da assistência em suas práticas clínicas, pesquisas e processos de
certificação e inovação, seguindo a metodologia da Medicina Baseada em Evidências e a
Atenção à Saúde (BRASIL, 2006) sendo publicado, como exemplo, as Diretrizes Nacionais
20

para a Detecção Precoce do Câncer de Mama (2015). Nessa Portaria, se torna pública a decisão
de não ampliar o uso da mamografia para o rastreamento do câncer de mama em mulheres que
não apresentem sintomas e com risco habitual fora da faixa etária atualmente recomendada (50
a 69 anos) no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS.
O Inca (2020) em parceria com o Ministério da Saúde (2020) unindo-se à campanha
Outubro Rosa com o verso “Cuidado com as mamas, carinho com seu corpo”, através de
cartazes, folders, cards para impressão e utilização da redes sociais para divulgação, utilizando
um avatar Outubro Rosa 2020 #SaúdeTododia, incentivado, dessa forma, a educação em saúde
para os sinais e sintomas, para prevenção primária e secundária e orientando sobre idade e
periodicidade para o exame de rastreamento como a mamografia, o exame clínico e o auto
exame das mamas.

2.2 Educação em Saúde

Em 1986, na 1ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde, promovida pela


Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde do Canadá, houve um marco
de referência para a evolução da promoção da saúde com a elaboração da Carta de Ottawa,
assinada no final da Conferência. O conteúdo da Carta enfatiza especialmente a dimensão social
da saúde e define cinco estratégias fundamentais, a saber: 1) política pública; 2) ambiente
saudável; 3) reforço da ação comunitária; 4) criação de habilidades pessoais; e, 5) reorientação
do serviço de saúde (WHO; 1986; HEIDEMANN ITSB et al 2012.). Durante os últimos 25
anos, a Carta de Ottawa influenciou de modo significativo a formulação de objetivos na área da
saúde pública. Pela pertinência da sua visão, dos seus princípios e das suas propostas
estratégicas, esse documento ganhou um estatuto próprio, integrando, hoje, o corpo teórico de
referência da saúde pública (NUNES, 2011).
Segundo Buss e Carvalho (2009), a promoção da saúde vem se constituindo, nas últimas
décadas, como um dos mais importantes campos que visa às práticas voltadas à saúde em geral.
Assim, ela tem se tornado uma das principais estratégias da saúde coletiva no Brasil. A cada
dia seu conceito vem se ampliando e, hoje, abrange um conjunto de valores essenciais ao bem-
estar e a qualidade de vida dos indivíduos, os quais são: solidariedade, democracia, vida,
equidade, saúde, cidadania, participação, desenvolvimento, entre outros. Também se relaciona
a uma combinação de estratégias, objetivando a uma responsabilização mútua pela saúde, tais
como ações do Estado (como as políticas públicas saudáveis), ações da comunidade (aumento
da participação popular) e parcerias de vários setores. Ainda, de acordo com Buss e Carvalho
21

(2009), a importância dos conhecimentos populares e da participação social está́ na base


conceitual da promoção da saúde.
Dessa forma, pode-se perceber, a partir da Carta de Ottawa, que a ideia de saúde, outrora
utilizada nas práticas da promoção da saúde, vinculada à ausência de doenças, atualmente é
percebida através de uma perspectiva mais abrangente e ampliada, centrando-se no
comportamento dos indivíduos e seus estilos de vida, passando-se a considerar, inclusive,
fatores gerais e influentes, tais como condições sociais, ambientais e emocionais (HAESER;
BÜCHELE; BRZOZOWSKI; 2012). A essência da promoção da saúde configura-se, portanto,
como “escolha”, o que significa que os promotores da saúde devem informar o público quanto
aos méritos e deméritos das várias opções de recursos disponíveis de forma a realmente
possibilitar a opção escolhida (WHO, 1994; OLIVEIRA, 2005).
Neste sentido, a Carta de Ottawa (OMS, 1986) destaca a necessidade de uma educação
em saúde centrada nas necessidades globais e ao mesmo tempo individuais, para a necessidade
de capacitar os indivíduos para uma aprendizagem ao longo da vida, incluindo uma maior
participação no controle desse processo. Essa perspectiva passou a ser construída pelo cuidado
de cada um consigo mesmo e com os outros, pela capacidade de tomar decisões e de ter controle
sobre as situações da própria vida e por todos os membros da sociedade(MARTINEZ;
CARRERAS; HARO, 2000), o que pressupõe, tal como preconizado desde Alma-Ata (OMS,
1978), uma visão positiva da saúde.
Segundo França et. al. (2015), a educação em saúde possibilita a construção de
conhecimento por meio de diálogo entre o saber científico e aquele de senso comum
(GAZZINELLI et al., 2013), para o câncer de mama a educação em saúde e o rastreamento
mamográfico são as estratégias ideais para a detecção precoce. Portanto, é imperiosa a
necessidade de ampliar a disseminação de informações sobre o assunto, permitindo a
participação mais ativa da comunidade, de modo a contribuir com a adesão de hábitos de vida
saudáveis (OMOBINI et al., 2011; BUSHATSKY et al., 2015).
A educação voltada para a promoção da saúde vem contribuindo para a saúde da
população. Essas medidas possibilitam a formulação de estratégias que visam promover e
melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, por meio da adoção de hábitos saudáveis, visando
à prevenção, o controle, evitando agravos maiores na saúde. Através dessas ações, faz parte
também, a divulgação de informações que dizem respeito à saúde, sendo possível atender
grandes demandas, incluindo os mais diversos públicos, suprindo as necessidades, colaborando
com suas especificidades, sempre levando em consideração os determinantes inclusos no
processo saúde-doença (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
22

Atualmente, o Ministério da Saúde vem desenvolvendo várias estratégias com vistas a


possibilitar o fornecimento de informações, levando em consideração os conhecimentos em
saúde. Vale ressaltar que os recursos tecnológicos têm se mostrado muito úteis e eficientes
nesse processo. Sendo que a Internet tem sido um dos mais utilizados, contendo um grande
acervo de informações disponíveis, oferecendo fácil acesso e baixo custo (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2014). Neste contexto, no Brasil, políticas de educação e de saúde têm sido
implementadas e reformuladas. Dentre elas, vale ressaltar que o Ministério da Saúde, por
intermédio da portaria nº 589, de 20 de maio de 2015, instituiu a Política Nacional de
Informações e Informática em Saúde (PNIIS) (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2015). No meio as
diretrizes dessa política, destaca-se o estímulo ao uso das Tecnologias da Informação e
Comunicação (TIC) para melhorar o acesso da população aos serviços de saúde (MOREIRA;
PINHEIRO, 2015). Essa informação dá embasamento e força para que as estratégias de
promoção da saúde pautadas no empoderamento individual e coletivo sejam ampliadas para
todos os setores da sociedade, especialmente no contexto da saúde coletiva.
Devido ao aumento do acesso da população às mídias digitais, especialmente após o
surgimento das redes sociais online, estudos sobre estratégias de educação em saúde em meios
não formais (fora dos espaços escolares) têm sido cada vez mais frequentes (GABARRON et
al., 2018; HSU et al., 2018; LABARGE; BROOM, 2019). No Brasil, cerca de 62% da
população faz uso das redes sociais online (DINO, 2018), sugerindo o potencial da utilização
desta ferramenta como uma estratégia não formal de educação em saúde (YAMAGUCHI et al.,
2020). Em conjunto, essas evidências apontam modificações importantes na relação entre
educação em saúde e saúde coletiva, que devem ser consideradas nos projetos direcionados para
a promoção da qualidade de vida para toda a população, principalmente no que tange à saúde
da mulher, representada no presente Projeto de Dissertação, no tema do câncer de mama.

2.3 Redes Sociais online

As redes sociais online (RSO) têm sido utilizadas em diversos contextos como forma de
dinamizar o fluxo de dados e informações, contribuindo para a questão da produção do
conhecimento em redes e a ampliação dos canais de comunicação para acesso aos serviços de
saúde (PINTO; ROCHA, 2016; SILVA; REINA; ENSSLLIN et al., 2012; BUFREN et al, 2010;
BAPTISTA, 2019. O uso de novas tecnologias de informação e comunicação em saúde tem
crescido nas últimas décadas, com o advento do uso de e-mail e de mídias sociais, que
dinamizam o fluxo de dados e informações para a tomada de decisão de gerentes e gestores,
23

assim como contribuem para a questão da produção do conhecimento em redes e ampliação dos
canais de comunicação para acesso aos serviços de saúde (NORMAN; TESSER, 2015;
ATHERTON, 2013).
A Internet é a ferramenta onde milhares de pessoas, em todo o mundo, buscam por
diversos tipos de informações (RECUERO, 2009; JUNIOR; POCAHY; CARVALHO, 2019;
MOURA, 2019; PALMEIRA et al, 2019; RODRIGUES et al, 2019). Muitas informações estão
disponíveis também em ambientes virtuais coletivos, onde, muitas vezes, existe uma grande
troca de experiências, tanto entre pacientes, quanto entre profissionais e organizações que
prestam serviços de saúde (SILVA et al., 2008; MOREIRA; SOUSA; TURRINI, 2019;
MIRANDA et al, 2019).
Essas informações podem abranger desde a prevenção das doenças, bem como, a
maneira que se dá o diagnóstico e o tratamento destas. O interesse por esse tipo de informações
é cada vez mais crescente, justificando-se na medida em que aumentam as preocupações em
relação à saúde no mundo atual (GARBIN et al., 2008; HOLANDA; LAVOR FILHO;
ANTUNES, 2019). O acesso a essas informações vem em consequência a uma crescente
evolução tecnológica da Internet e suas ferramentas vêm se propagando em diferentes tipos de
dispositivos eletrônicos, passando pelos tradicionais computadores pessoais, smartphones e
smart TVs, contribuindo significativamente para o aumento e transformação do acesso a
conhecimento, a inclusão social por meio da alfabetização tecnológica e a interatividade
instantânea (SILVA FILHO et al., 2017).
O uso das redes sociais é um fenômeno relativamente recente e está sendo utilizado para
estudos em várias áreas do conhecimento (LIRA et al., 2017; CARMONA et al., 2018;
ARAUJO et al., 2019). Nessa perspectiva, a sua utilização em pesquisas científicas vem
aumentando em larga escala, sobretudo na área da saúde. Plataformas específicas têm sido
desenvolvidas para interação, coleta de dados e compartilhamento de informações entre
pesquisadores (CALLEJA-CASTILLO; GONZÁLEZ-CALDERÓN, 2018; SAHIN et al.,
2018). Segundo Ledford e Thomas (2018), cabe observar que as redes sociais têm se
apresentado como uma plataforma útil para discussões informais sobre cuidados de saúde, com
um grande potencial para pesquisa, dada a capacidade de conexão entre os usuários e o feedback
em tempo real.
Apesar do crescente interesse da comunidade acadêmica nas redes sociais como
ferramenta de comunicação científica, ainda há carência de pesquisas sobre o perfil dessa
utilização, e sobre como esses dados podem ser publicados em revistas de impacto científico
(CÓRDULA; ARAÚJO; SILVA, 2019; ODDONE; FRANÇA, 2019). Há tempos, existe uma
24

forma sociocultural que modifica os hábitos sociais, práticas de consumo cultural, ritmos de
fornecimento e distribuição de conhecimento, criando novas relações no trabalho e no lazer,
novas formas de sociabilidade e de comunicação social tem sido citada como “cibercultura” por
alguns autores (LEMOS; LÉVY, 2010; MAIA; BIOLCHINI, 2019; FRANÇA; RABELLO;
MAGNAGO, 2019).
Segundo Ferigato (2018), impactos específicos dessa “cibercultura” no campo da saúde
são múltiplos e profundos. É frequente que se aponte mudanças na relação com a informação e
o conhecimento, tanto de usuários, quanto de profissionais de saúde, seja na figura do paciente
que já chega na consulta sabendo tudo sobre a sua doença, seja na figura do trabalhador de um
setor de atividade conhecimento-intensiva que precisa recorrer à internet para estar
permanentemente atualizado.
Todavia, pode-se identificar impactos mais extensos, inclusive, pela forte incidência
dessas tecnologias de informação e comunicação nos processos de trabalho (Prontuário
eletrônico online, e-SUS, Telessaúde), lançando, cotidianamente, novos e complexos desafios
para as práticas de cuidado, como buscar sempre a fonte das informações, em casos de vídeos
informativos também ter o cuidado em saber a origem e a idoneidade moral do indivíduo que
está apresentando.
Por outro lado, não se pode ignorar que as informações compartilhadas chegam a
população de maneira acessível, fazendo com que ocorra a socialização de conhecimento de
maneira satisfatória em curto período de tempo (JUNIOR et al., 2018). Quanto ao acesso à
informação, dado divulgado pela Pew Internet & American Life Project (2006) mostra que os
“internautas da saúde” utilizam a Internet na mesma frequência que os usuários de sistemas de
“Internet banking” e leitores de blogs (ZILBER; MONKEN; QUEVEDO-SILVA, 2019).
Nesse contexto, segundo Gagnon e Sabus (2015), à medida que as redes sociais têm se
expandido, os provedores de saúde precisam adaptar seus meios de comunicação profissional
para atender a demanda dos consumidores, incluindo comunicação através de sites e redes
sociais. As redes sociais são consideradas tecnologias colaborativas que habilitam a
comunicação, colaboração e a cooperação que possibilita a inter-relação de grupos dispersos
(BÉLANGER; ALLPORT, 2008; GUPTA et al., 2009; LAPA; BARTOLOMÉ-PINA;
MENOU, 2019; FEROLLA; ARAÚJO, 2019) e devem, portanto, serem consideradas como
valiosas no processo de empoderamento em saúde da população.
Visto que o uso da Internet no domínio da saúde está se tornando uma tendência
mundial, milhares de pessoas acessam conteúdos, pesquisando informações de saúde on-line e
também publicando conteúdo sobre sua saúde, os pacientes estão se envolvendo uns com os
25

outros, sendo que isso pode ser possível em comunidades online, através de diferentes tipos de
mídias. As pessoas, de forma geral, ao receberem um diagnóstico, querem saber como é o
tratamento e quais são as possíveis chances de cura. Entretanto, tanto o Google quanto o
YouTube e o Facebook (‘doutores’ mais solicitados em consultas) não conseguem competir
com as “fakenews” que a cada dia mais vêm aumentando nesse meio (NAZARETH, 2019).
No entanto, na busca de combater as “fakenews” sobre saúde, o Ministério da Saúde
(2018) apresentou um programa institucional como estratégia biopolítica no combate às falsas
informações, onde a população poderá acessar gratuitamente, no celular, o WhatsApp do
Ministério da Saúde, o que servirá exclusivamente para verificar com profissionais da saúde
responsáveis nas áreas técnicas específicas se um texto, vídeo ou imagem que circula nas redes
sociais é verdadeiro com embasamento científico ou falso. É um canal criado exclusivamente
para denunciar as notícias falsas, certificando as verdadeiras (MINISTÉRIO DA SAÚDE,
2018).
Muitos estudos têm avaliado o impacto das diferentes redes sociais em estratégias de
educação em saúde, como exemplo podemos citar o uso do WhatsApp (PEREIRA, 2019;
SILVA et al., 2019); Facebook (PURIM; TIZZOT, 2019; CELESTINO, 2019); Instagram
(MOURA; MOURA; TEIXEIRA, 2019; BERNAL-MENESES; BERNAL-MENESES;
GABELAS-BARROSO; MARTA-LAZO, 2019); Twitter (FRANÇA et al., 2019; AMARAL,
2019); e YouTube (FERREIRA; PIAZZA; SOUZA, 2019; GAIO; ROCHA; SOUSA, 2019).
Todos eles discutem questões favoráveis ou não da utilização dessas tecnologias no
empoderamento individual e coletivo da população bem como suas implicações no contexto da
saúde coletiva.

2.4 YouTube

As evoluções da tecnologia ocorridas, principalmente, nos últimos dois séculos


trouxeram possibilidades extraordinárias para a sociedade moderna. Atualmente, o mundo se
encontra em uma era digital, onde inevitavelmente a tecnologia faz parte do cotidiano das
pessoas, tornando-se parte das tarefas diárias, bem como disponibilizando conhecimento de
maneira instantânea. Antes a tecnologia era mais restrita ao ambiente escolar, nas pesquisas e
saberes, mas hoje esse contingente está mais acessível, sendo apenas necessários os
equipamentos necessários para acessá-los, bem como para produzi-lo e divulgá-los
(OLIVEIRA, 2016). Assim, as mídias sociais, como plataformas de divulgação de vídeos, têm
26

se tornado, atualmente, um dos principais canais de disseminação de informações, pois a


maioria das pessoas, mundialmente, tem acesso a elas.
Dentre as Plataforma de vídeo online destaca-se o YouTube, fundado em 2005, por Chad
Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, ex-funcionários do site de comércio online PayPal
(ANDACHT, 2015). Lançada, oficialmente, sem muito alarde como um entre as várias outras
plataformas disponíveis aos usuários, foi criada no intuito de diminuir as barreiras técnicas,
possibilitando o compartilhamento de vídeos de forma bem mais prática na Internet, no ano
seguinte, o YouTube foi eleito como uma das melhores invenções da década (BURGESS;
GREEN, 2009). Através de canais criados dentro dessa plataforma os usuários podem ensinar
e aprender sobre os mais diversos temas, utilizando-a para o compartilhamento de vídeos
(JUNIOR, D. R. C.; POCAHY; DE CARVALHO, 2019). Destacadamente, o YouTube
apresenta-se, mundialmente, como um dos maiores sites de visualização de vídeos,
caracterizado por ser uma plataforma dinâmica, em que é possível “contar as visualizações”,
“curtir" os vídeos, postar comentários e criar um canal específico para cada usuário"
(KAMERS, 2013; ARANHA, 2019).
Atualmente, apenas uma breve busca na biblioteca virtual PUBMED utilizando o
descritor “YouTube” aponta para mais de 1280 artigos científicos. Dentre estes alguns merecem
destaque quanto aos resultados de análise da qualidade dos vídeos (Quadro 01).

Quadro 01 – Representação esquemática dos estudos publicados sobre análise de conteúdo dos
vídeos do YouTube na área da saúde.
1). GRAY et al. (2020) Analisou 523 vídeos sobre cirurgia plástica;
2). ARSLAN et al. Analisou 1688 vídeos, sobre a qualidade do conteúdo do vídeo do
(2019 YouTube relacionado à prostatectomia;
3). PASSOS et al. Analisou 57 vídeos sobre câncer de boca;
(2020)
4). GUO et al (2020) Analisou 600 vídeos relacionados à ortodontia;
5). CELIK et al (2019) Analisou 200 vídeos sobre reparo do manguito rotador;
6). RANADE et al Analisou 10.000 vídeos sobre informação para pé torto;
(2019
7). CHEN et al (2019) Analisou 100 vídeos sobre lobectomia pulmonar;
8). YAVUZ;BUYUK; Analisou 116 vídeos sobre ortodontia acelerada;;
GENC (2019)
9). GUZMAN et al Analisou 234 vídeos sobre recurso educacional para opções de
(2019) tratamento de condições dermatológicas comuns;
10). PONS-FUSTER et Analisou 97 vídeos sobre diabetes e saúde bucal;
al (2019)
FONTE: autores (2021)
27

Utilizando o descritor “YouTube AND breast câncer” no PUBMED encontra-se apenas


8 artigos, dos quais três avaliaram a qualidade das informações nos vídeos (Quadro 02).

Quadro 02- Representação esquemática dos estudos publicados sobre análise de


conteúdo dos vídeos do YouTube sobre o câncer de mama.

1- ESEN et al. (2019) Analisou 200 vídeos sobre autoexame das mamas;

2- BOTTORFF et al. Analisou 2 vídeos sobre câncer de mama e tabagismo;


(2014)

3- NAYYAR, et al. (2019) Foi recrutado 647 participantes do qual 18% avaliou a
plataforma de mídia social YouTube como melhor mecanismo
de entrega;

4- TAN et al. (2014) Analisou 100 vídeos sobre reconstrução mamária;

5- CLARKE et al. (2019) Analisou 100 vídeos sobre mastectomia;

6- BASCH et al. (2015) Analisou 173 vídeos sobre mamografia;

7- CRAFT et al. (2015) Analisou 22 vídeos sobre sobrevivência centrado no paciente


com câncer;

7- RAGETH; TAUSCH, Analisou 134 vídeos sobre cirurgias de reconstrução de retalho


(2009) intramamárico.

FONTE: autores (2021)

De forma geral, esses achados apontam que o Youtube pode se tornar uma ferramenta
importante para ser adotado em estratégias de promoção da saúde, pautadas em empoderamento
individual e coletivo e com implicações relevantes no contexto da saúde coletiva. No entanto,
a qualidade do conteúdo dos vídeos ainda representa uma importante limitação dessa alternativa
e merece ser discutida e constantemente avaliada com rigor científico.
28

3. METODOLOGIA
3.1 Delineamento experimental

Trata-se de um estudo descritivo de análise de conteúdo de vídeos da plataforma


YouTube sobre o câncer de mama, coletados entre os meses de outubro a novembro de 2020. O
estudo não foi registrado nem avaliado pelo sistema CEP/Conep conforme Inciso III, Parágrafo
Único, do Artigo 1º da Resolução 512 de 2016 do Conselho Nacional de Saúde, pois utilizou
informações de acesso público, como prescrito nos termos da Lei nº 12.527, de 18 de novembro
de 2011. Todas as informações apresentadas tiveram suas identificações ocultas, de forma a
garantir o anonimato das publicações. Todo o delineamento experimental, coleta e análise dos
dados foi desenvolvido seguindo métodos semelhantes a estudos anteriores que avaliaram
vídeos do YouTube (ESEN et al., 2019; GUL e DIRI, 2019; SELVI e BAYDILLI, 2021).

3.2 Obtenção dos vídeos

A seleção dos vídeos no YouTube ([Link] ocorreu a partir da


utilização da ferramenta de busca, utilizando a palavra-chave "câncer de mama". Como
normalmente as pessoas costumam clicar nas primeiras páginas dos resultados da pesquisa, para
selecionar os vídeos mais vistos e que cada página contém aproximadamente 20 vídeos, foram
extraídos para análise os 200 primeiros vídeos mais vistos, determinados por classificações de
contagem de visualizações, segundo o filtro da própria plataforma. Esses vídeos foram salvos
em uma lista de reprodução para facilitar a revisão, uma vez que os resultados da pesquisa no
YouTube podem mudar diariamente. O download dos vídeos foi realizado com auxílio do
software ATube Catcher para análise off-line, entre os dias 11 de outubro a 14 de novembro de
2020.

3.3 Seleção dos vídeos

Todos os vídeos (N = 200) foram analisados por dois avaliadores independentes. Ambos
desconheciam a avaliação um do outro e no caso de falta de consenso, a decisão final foi tomada
29

por um terceiro. A fim de avaliar apenas os vídeos com potencial de uso para educação em
saúde, foram excluídos aqueles com: duração superior a 15 minutos (N = 36); inferior a um
minuto (N = 03); e, aqueles que não abordavam conteúdo pertinente ao tema do câncer de mama
(N = 03). Desse modo, 158 vídeos foram incluídos no estudo.

3.4 Caracterização técnica dos vídeos

Todos os vídeos selecionados (N = 158) foram assistidos pelos dois avaliadores


independentes e transcritos integralmente, considerando suas características técnicas e de
conteúdo. Os dados referentes às informações de cunho técnico foram obtidos por meio da
análise das informações contidas na descrição dada pelo YouTube para cada vídeo. As
características técnicas analisadas foram: duração; números de visualizações diárias; número
de curtidas e não curtidas; quantidade de comentários; a identidade da conta que publicou o
vídeo e objetivo do vídeo.
Quanto a identidade da conta que publicou o vídeo, os mesmos foram categorizados
segundo auto declaração do perfil de conta, seguindo: a) vídeos postados por profissionais da
saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e acadêmicos de cursos em
saúde); b) profissionais de outras áreas (mídia-propaganda, canal de notícias, programa de
entrevistas); mistura entre ambos os profissionais (saúde e outra área); d) pessoa comum
(paciente e demais pessoas que não são da área da saúde; e, e) vídeos postados por sociedades
públicas (INCA, OMS, PAM, OPAS, sociedade de cuidado com a saúde).
Quanto ao objetivo do conteúdo da postagem, os vídeos foram categorizados em: a)
educação profissional; b) informação ao leigo; c) experiência pessoal; d) terapias alternativas;
e, e) outros (vídeos sem objetivo definido).

3.5 Caracterização do conteúdo dos vídeos

A análise das informações contidas no conteúdo dos vídeos, como ferramenta de


educação em saúde direcionada ao controle do câncer de mama, foi realizada a partir da
categorização dos vídeos, segundo abordagens definidas pelo MS no controle dessa
malignidade (Ministério da Saúde, 2020; MIGOWSKI et al, 2018). As abordagens analisadas
foram:
30

a) Definição do câncer de mama:

Doença amplamente prevenida; uma das principais causas de morte por câncer nas
mulheres; causada pela multiplicação desordenada de células da mama. Esse processo gera
células anormais que se multiplicam, formando um tumor.

b) Epidemiologia:

O Câncer de mama é o tipo mais comum entre as mulheres, no mundo e no Brasil, e a


sua maior incidência ocorre após os 35 anos, sendo ainda mais frequente após os 50 anos. São
1,38 milhões de novos casos e 458 mil mortes pela doença por ano.

c) Fatores de risco:

O câncer de mama não tem uma causa única. Diversos fatores estão relacionados ao
aumento do risco de desenvolver a doença, tais como: idade, fatores endócrinos/história
reprodutiva, fatores comportamentais/ambientais e fatores genéticos/hereditários.

d) Sinais e sintomas:

O câncer de mama pode ser percebido em fases iniciais, na maioria dos casos, por meio
dos seguintes sinais e sintomas: nódulo (caroço), fixo e geralmente indolor, é a principal
manifestação da doença, estando presente em cerca de 90% dos casos quando o câncer é
percebido pela própria mulher; pele da mama avermelhada, retraída ou parecida com casca de
laranja; alterações no bico do peito (mamilo); pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço; e,
saída espontânea de líquido anormal pelos mamilos.

e) Prevenção primária:

A prevenção primária do câncer de mama está relacionada ao controle dos fatores de


risco conhecidos e à promoção de práticas e comportamentos considerados protetores. Os
fatores hereditários e os associados ao ciclo reprodutivo da mulher não são, em sua maioria,
31

modificáveis; porém, fatores como excesso de peso corporal, inatividade física, consumo de
álcool e terapia de reposição hormonal, são, em princípio, passíveis de mudança.
f) Prevenção secundária:

As estratégias para a detecção precoce do câncer de mama são o diagnóstico precoce


(abordagem de pessoas com sinais e/ou sintomas iniciais da doença) e o rastreamento (aplicação
de teste ou exame numa população sem sinais e sintomas sugestivos de câncer de mama, com
o objetivo de identificar alterações sugestivas de câncer e, a partir disso, encaminhar as
mulheres com resultados anormais para investigação diagnóstica).

g) Prevenção terciária:

Tratamento local: cirurgia e radioterapia (além de reconstrução mamária); tratamento


sistêmico: quimioterapia, hormonioterapia e terapia biológica.

3.6 Caracterização da qualidade do conteúdo dos vídeos

A avaliação da qualidade do conteúdo dos vídeos foi realizada por meio da análise de
acurácia. Segundo Eysenbach et. al. (2002), a acurácia como um critério de avaliação da
qualidade da informação na Web é definida pelo grau de concordância entre a informação
oferecida e a melhor evidência geralmente aceita pela prática médica. Dessa forma, foi realizada
a comparação entre o conteúdo das informações contidas nos vídeos com aquelas publicadas
pelo MS (2020).
Para esta análise foi construído um instrumento de análise baseado nas recomendações
do MS (2020). Os dados foram preenchidos pelos avaliadores, por meio de um formulário
online (google forms). Nesse formulário, sete tópicos foram avaliados quanto ao grau de
concordância com o proposto pelo MS. Os tópicos avaliados foram: 1) definição do câncer de
mama; 2) epidemiologia; 3) fatores de risco; 4) sinais e sintomas; 5) prevenção primária; 6)
prevenção secundária; e, 7) prevenção terciária. Cada avaliador utilizou uma escala tipo Likert
(1 a 5) para avaliar cada abordagem, seguindo a correspondência:

1 – As informações presentes no vídeo são totalmente erradas;


2 – As informações presentes no vídeo são parcialmente erradas;
3 – O vídeo não abrange nenhum dos tópicos selecionados;
32

4 – As informações presentes no vídeo são concordantes e parcialmente abrangentes; e


5 – As informações presentes no vídeo são totalmente concordantes e totalmente
abrangentes;
Desse modo, todo vídeo avaliado recebeu uma qualificação quanto à acurácia das
informações contidas, como: totalmente erradas, parcialmente erradas, não abrange os tópicos,
parcialmente certas.
Para avaliar a qualidade dos vídeos, baseado na acurácia das informações, foi utilizada
a correspondência entre as notas obtidas na escala de Likert e a denominação de qualidade,
como: péssimo, ruim, regular, bom, ótimo.
A classificação seguiu, portanto, a seguinte ordem:
• Nota 01: Péssimo;
• Nota 02: Ruim;
• Nota 03: Regular;
• Nota 04: Bom; e
• Nota 05: Ótimo.
Desse modo, todo vídeo avaliado recebeu um escore, o qual foi utilizado para
qualificá-lo como péssimo, ruim, regular, bom ou ótimo.

3.7 Análise estatística

Os dados são apresentados como média aritmética aparada, desvio padrão e mediana
para dados numéricos, bem como frequências absoluta e relativa para dados categóricos. O teste
de normalidade Shapiro-Wilk foi utilizado para a análise da distribuição de normalidade, onde
se foi constatado normalidade dos dados, sendo, portanto, aplicado o método de Sturges
corrigida para o número de classes (Sturges: k = 1 +3,22logN) para as análises.
A coerência das análises realizadas pelos dois avaliadores foi determinada por meio da
análise de Kappa Ponderado. Como os resultados de todas as avaliações apresentaram valores
de Kappa do tipo moderado (p < 0,05), considerou-se pouca divergência entre os avaliadores,
e os dados considerados no estudo se referem, portanto, a análise de um único avaliador, como
demonstrado no Quadro 03. Todas as análises foram realizadas utilizando o programa
estatístico IBM-SPSS V.27.
33

Quadro 03 - Representação esquemática dos dados referentes a análise de Kappa, Ponderado


para os diferentes tópicos avaliados na análise dos vídeos.

Fonte: os autores (2021)


34

4. RESULTADOS
4.1 Caracterização técnica dos vídeos

No total, 158 vídeos foram analisados, com média aritmética aparada de duração igual
a 4,58 ± 3,28 minutos, com mediana de 3,66 minutos. A maioria dos vídeos (72,2%) teve
duração inferior a 6 minutos, e apenas 27,8% com duração superior a isso (Tabela 01).

Tabela 01. Distribuição de frequências dos dados de tempo de duração dos vídeos.

Tempo (minutos) Frequência absoluta Frequência relativa


01,00 a 03,63 79 50,0%
03,64 a 06,25 35 22,2%
06,26 a 08,87 21 13,3%
08,88 a 11,49 14 08,9%
11,50 a 14,11 9 05,6%

Total 158 100%


Fonte: os autores (2021)

A Tabela 02 apresenta a distribuição de frequências dos dados sobre o intervalo de


tempo entre a publicação do vídeo e o download para análise. A média aritmética aparada do
tempo foi de 2,63 ± 2,11 anos com mediana de 2,15 anos. A maioria (89,2%) foi publicado a
menos de 5 anos da análise e 10,8% a mais do que este período.
35

Tabela 02. Distribuição de frequências dos dados sobre o intervalo entre a publicação dos
vídeos e o download para análise.

Tempo (anos) Frequência absoluta Frequência relativa


01,00 a 02,69 91 57,6%
02,70 a 05,19 50 31,6%
05,20 a 07,69 9 5,7%
07,70 a 10,19 7 4,5%
10,20 a 12,69 1 0,6%

Total 158 100,0


Fonte: os autores (2021)

O número total de visualizações dos vídeos foi de 4.494.343, com média aritmética
aparada de visualização de 15.715 ± 69.856 por vídeo e mediana de 6.677. A maioria dos vídeos
(73,4%) apresentou número de visualizações inferior a 18.000, e 26,6% superior a este
montante (Tabela 03).

Tabela 03. Distribuição de frequências dos dados sobre o número de visualizações dos
vídeos.

Número de visualizações Frequência absoluta Frequência relativa


0.000 a 2.000 40 25,3 %
2.001 a 6.000 37 23,4 %
6.001 a 18.000 39 24,7 %
18.001 a 50.000 22 13,9 %
>50.000 20 12,7 %

Total 158 100%


Fonte: os autores (2021)

Quanto à identidade da conta que postou o vídeo, a maioria (67,7%) foi de


profissionais da área de saúde, e o restante (32,3%) por profissionais de outra área ou a
36

combinação com profissionais da área da saúde bem como utilizadores declarados, como
independentes (pacientes, outros), conforme demonstrado na Tabela 04.

Tabela 04. Distribuição de frequências dos dados da identidade das contas que postaram os
vídeos.

Identidade da conta Frequência absoluta Frequência relativa


Profissional da área da saúde 107 67,7 %
Profissionais de outra área 12 7,6 %
Ambos os profissionais 18 11,4 %
Utilizador independente 21 13,3 %
Sociedades Públicas 0 0%

Total 158 100%


Fonte: os autores (2021)

Os dados da distribuição de frequências do número de aprovações (likes) dos vídeos


estão apresentados na Tabela 03. Observou-se, que 115.621 pessoas deram os “likes” nos
vídeos, com uma média aritmética aparada e desvio padrão de 732 ± 1.891 aprovações por
vídeo. A maioria dos vídeos (53,2%) recebeu menos de 200 aprovações.

Tabela 05. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de aprovações (likes)
dos vídeos.

Aprovações (likes) Frequência absoluta(vídeos) Frequência relativa


0 a 50 39 24,7 %
51 a 200 45 28,5 %
201 a 500 34 21,5 %
501 a 1.400 23 14,6 %
>1.400 17 10,7 %

Total 158 100,0


Fonte: os autores (2021)
37

A Tabela 06 apresenta os dados da distribuição de frequências do número de


reprovações (dislikes) dos vídeos. O total de reprovação foi de 2.454, resultando uma média
aritmética aparada de 7,93 ± 43,95 reprovações por vídeo e mediana de 3. A maioria dos vídeos
(59,5%) recebeu menos de 4 aprovações.

Tabela 06. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de reprovações (dislikes)
dos vídeos.

Reprovações (dislikes) Frequência absoluta Frequência relativa


0a1 60 38,0 %
2a3 34 21,5 %
4 a 12 30 19,0 %
13 a 40 19 12,0 %
>40 15 9,5 %

Total 158 100,0 %


Fonte: os autores (2021)

Os dados da distribuição de frequências do número de comentários sobre os vídeos


estão apresentados na Tabela 07. A média aritmética aparada do número de comentários foi de
16,51 ± 99,04 comentários por vídeo e mediana de 5. A maioria (61,4%) dos vídeos receberam
menos de 26 comentários.

Tabela 07. Distribuição de frequências dos dados relativos ao número de comentários sobre
os vídeos.

Comentários Frequência absoluta Frequência relativa


00 a 01 64 40,5%
02 a 09 10 06,3%
10 a 25 23 14,6 %
26 a 100 25 15,8%
>100 36 ,8 %

Total 158 100,0%


Fonte: os autores (2021)
38

A Tabela 08 apresenta a distribuição de frequências dos dados relativos ao objetivo dos


vídeos. A maioria dos vídeos (72,8%) tinha como objetivo apresentar conteúdo informativo
sobre algum aspecto do câncer de mama (seja para informar ao leigo ou ao profissional de
saúde). Informações oriundas de relatos pessoais também foram preponderantes (24,1%), por
meio de vídeos que objetivaram o compartilhamento de experiências.

Tabela 08. Distribuição de frequências dos dados relativos ao objetivo dos vídeos.

Objetivo Frequência absoluta Frequência relativa


Informação ao leigo 72 45,6%
Capacitação profissional 43 27,2%
Compartilhar experiências 38 24,1%
Discutir terapias alternativas 3 1,8%
Outros 2 1,3%

Total 158 100%


Fonte: os autores (2021)

4.2 Caracterização da qualidade do conteúdo dos vídeos

A Tabela 09 apresenta a distribuição de frequências dos dados relativos à acurácia dos


vídeos quanto as informações sobre os temas discutidos. A maioria dos vídeos (91,8%) não
apresentou a definição do que é o câncer de mama. Quanto às informações de cunho
epidemiológico, 10,4% dos vídeos debateram esse aspecto, e 1,6% continham informações
totalmente certas. Sobre fatores de risco, 13,5% dos vídeos informaram sobre o tópico, mas
apenas 4,1% com informações totalmente certas. Para sinais e sintomas, 15,4% abordaram o
tópico e 3,6% de forma totalmente certa. A maioria dos vídeos (85,4%) não abordou conteúdo
sobre prevenção primária e dos que abordaram apenas 2,2% continham informações totalmente
corretas. A prevenção secundária foi abordada pela maioria dos vídeos (71,5%), mas apenas
1,9% deles com informações totalmente corretas. Quanto à prevenção terciária, a maioria
(63,9%) não apresentou informações sobre o tópico, e dos que apresentaram apenas 3,8%
estavam corretos. A Figura 01 apresenta exemplos dos vídeos analisados segundo tema
abordado.
39

Tabela 09. Distribuição de frequências dos dados relativos à acurácia dos vídeos quanto as
informações abordadas sobre os temas discutidos.

Totalmente Parcialmente Não Parcialmente Totalmente


Tópico
errado errado abordou certa certa

Definição 01 (0,3%) 02 (0,6%) 290 (91,8%) 9 (2,8%) 14 (4,4%)


Epidemiologia 03 (0,6%) 05 (1,6%) 270 (85,4%) 33 (10,4%) 02 (1,6%)
Fatores de risco 01 (0,3%) 03 (0,9%) 273 (86,4%) 26 (8,2%) 13 (4,1%)
Sinais e sintomas 00 (0,0%) 01 (0,3%) 267 (84,5%) 34 (10,8%) 14 (3,6%)
Prevenção 1aria 00 (0,0%) 03 (0,9%) 270 (85,4%) 36 (11,4%) 07 (2,2%)
Prevenção 2aria 10 (3,2%) 37(11,7%) 226 (71,5%) 37 (11,7%) 06 (1,9%)
Prevenção 3aria 10 (3,2%) 16 (5,1%) 202 (63,9%) 76 (24,1%) 12 (3,8%)
Fonte: os autores (2021)

Figura 01. Exemplos dos vídeos segundo tema abordado.

Os dados da distribuição de frequências da acurácia das informações contidas nos


vídeos estão apresentados na Tabela 10. A quantidade de respostas sem abrangência nos tópicos
40

sobre câncer de mama foi 81,31% e somente 14,50% das respostas estavam certas ou
parcialmente certas.

Tabela 10. Distribuição de frequências dos dados relativos à acurácia das informações contidas
nos vídeos.

Acurácia das informações Frequência absoluta Frequência relativa


Totalmente erradas 25 1,14%
Parcialmente erradas 67 3,05%
Não abrange os tópicos 1789 81,31%
Parcialmente certas 251 11,41%
Totalmente certas 68 3,09%

Total 2200 100%


Fonte: os autores (2021)

A Tabela 11 apresenta os dados da distribuição de frequências da qualidade dos vídeos


baseada na acurácia das informações sobre os tópicos relacionados ao câncer de mama, oriundo
da pontuação obtida no instrumento de análise. Mais de 53% dos vídeos foram avaliados como
ruins ou péssimos e apenas 6,2% deles avaliados como bons ou ótimos.

Tabela 11. Distribuição de frequências da qualidade dos vídeos baseada na acurácia das
informações.

Tipo de conteúdo Frequência absoluta Frequência relativa


Péssimo 49 31,0%
Ruim 36 22,8%
Regular 63 40,0%
Bom 7 4,4%
Ótimo 3 1,8%

Total 158 100%


Fonte: os autores (2021)
41

5 DISCUSSÃO

Diante das evidências de que a plataforma de vídeos online YouTube é frequentemente


utilizada pelas pessoas para acessar conteúdo informativo sobre saúde na Web (CARVALHO,
2019; MOURA, 2019; PALMEIRA et al, 2019; RODRIGUES et al, 2019) e de que muito dos
conteúdos postados apresentam baixa qualidade (CÓRDULA; ARAÚJO; SILVA, 2019;
ODDONE; FRANÇA, 2019), buscou-se, na presente Dissertação, compreender como o
YouTube disponibiliza conteúdo sobre o câncer de mama aos Brasileiros, bem como avaliar a
qualidade desse conteúdo. De modo geral, os dados aqui mostrados apontam que muitos dos
vídeos apresentam conteúdo de baixa qualidade, embora tenham sido postados por contas
autodeclaradas como profissionais da área da saúde, e mesmo com tantas limitações de
conteúdo, os mesmos foram amplamente assistidos e apreciados.
Esse achado é preocupante, visto que uma das principais barreiras para a adesão das
mulheres aos programas de controle é o conhecimento limitado sobre o processo saúde-doença
(LABARGE; BROOM, 2019; YAMAGUCHI et al., 2020). Como as chances de cura do câncer
de mama dependem muito da precocidade diagnóstica (INCA, 2020; MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2020; BERNARDES et al, 2019; SOUSA, 2020), qualquer fator que interfira no
gerenciamento do autocuidado da mulher pode ser decisivo para o desfecho de saúde e da
qualidade de vida. Os motivos que fazem, ou fizeram, as pessoas assistirem e compartilharem
os vídeos não foram aqui investigados, mas independentemente disso, o que chama a atenção é
a popularidade, tendo alguns deles atingindo mais de 50.000 visualizações. O público-alvo,
normalmente mulheres, reconhecidamente, é bastante ativo nas redes sociais, especialmente na
busca de informações sobre saúde (BRACHTENBACH et al.,2020; URE C, 2020).
Outro fator importante diz respeito a algumas características de edição dos vídeos, como
duração e objetivo do vídeo. Embora não se tenha avaliado a correlação desses fatores com a
popularidade, alguns estudos têm mostrado que os vídeos online de curta duração são os mais
vistos (O'REILLY, 2019; UKOHA, 2019) e aqueles cujo objetivo é esclarecimento de dúvidas
sobre saúde ou compartilhamento de experiências são os que mais têm atraído os internautas
(KLEINA, 2018; UKOHA, 2019). De fato, a maioria dos vídeos aqui analisados são curtos, em
sua maioria com menos de seis minutos, e direcionados especialmente para esclarecimentos ao
leigo e trocas de experiências.
Não se pode também descartar a influência da identidade da conta que postou o vídeo,
como a maioria deles são oriundos de contas que auto declararam ser de profissionais da área
42

da saúde, isso pode ter gerado sensação de confiança e amplificado o intuito de visualizar.
Estudos que avaliaram interatividade nas postagens do YouTube, sobre saúde, mostram que a
presença de um profissional da área da saúde no vídeo ou na própria identidade da conta é
determinante para a popularidade do vídeo (YURDAISIK I, 2020; ESEN, 2018).
Obviamente, uma limitação importante de nossos dados é a heterogeneidade no tempo
de exposição dos vídeos, a qual influencia a contabilização do número de visualizações. Como
essa questão não foi considerada na análise, não se pode descartar a influência desse efeito, no
entanto, como a média de visualizações foi cerca de 16.000 por vídeo, e a média de exposição
foi cerca de dois anos, pode-se concluir que uma grande parcela dos vídeos obteve, pelo menos,
8.000 visualizações por ano.
Independente do motivo, o que se mostra aqui é que há audiência para vídeos sobre o
câncer de mama no YouTube, e isso não pode ser ignorado pelos gestores de saúde pública. Por
outro lado, mesmo diante tamanha popularidade, as ações de interação social permitidas na
plataforma, como curtidas e comentários foram muito pouco exploradas pelas pessoas que
visualizaram os vídeos. A maioria dos vídeos receberam menos de 200 ações do tipo like e
apenas quatro do tipo dislike, e o número de comentários não passou a marca dos 40. Essa
indiferença interativa sugere um comportamento apático dos internautas, que enxergam a
plataforma apenas como uma fonte fácil e rápida de conteúdo informativo, sem aproveitar seu
potencial de rede de sociabilização.
Esse fato gera certa preocupação, pois um dos pilares do processo de aprendizado em
rede é a troca de ideias, exposição de dúvidas e questionamentos (VAN DER VAART &
DROSSAERT, 2017). E o que tem feito das RSO tão importantes para o aprendizado em saúde
é exatamente o uso do seu potencial interativo, de construção conjunta de ideias, fundamental
para o aprendizado. Vários estudos têm mostrado quão benéfico é o uso das RSO para
construção do conhecimento em saúde, tanto individual, quanto coletivo (BASCH, 2015).
Outro ponto importante aqui apresentado é sobre o conteúdo dos vídeos. Como
mostrado, mais de 90% deles não se ocupou em fazer uma definição sobre o que é o câncer de
mama. Pensando na contribuição do conhecimento sobre o processo saúde-doença-cuidado para
o controle do câncer de mama (FERREIRA; PIAZZA; SOUZA, 2019), a ausência de uma
definição clara sobre a doença pode limitar a compreensão subsequente de outros tópicos mais
específicos do processo, como a discussão de sinais e sintomas, bem como dos fatores de risco,
por exemplo. Menos de 15% dos vídeos abordaram informações sobre os sinais e sintomas, e
quando o fizeram, a grande parte das informações foram equivocadas.
43

Cenário parecido ocorreu para os fatores de risco, menos de 14% dos vídeos abordou
este tema, e apenas 4% do total dos vídeos o fizeram de forma correta. Em termos de saúde
pública, a compreensão da mulher quanto aos principais sinais e sintomas do câncer de mama
é fundamental para o sucesso das ações de rastreio e diagnóstico precoce desta malignidade
(KOLA et al, 2017). Embora o autoexame das mamas não seja completamente indicado para as
mulheres como um método diagnóstico (INCA, 2020; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020;
HUSNA, 2019), a identificação de qualquer sinal sugestivo de malignidade é propulsionadora
de um movimento de procura do serviço de saúde (MIGOWSKI, Arn et al, 2018), e isso facilita
com que a mulher adentre no sistema de saúde e acesse os serviços de diagnóstico precoce.
A compreensão correta dos fatores de risco para o câncer de mama é decisiva para o
desenvolvimento e a propagação de comportamentos protetivos a esse tipo de câncer
(MIGOWSKI, Arn et al, 2018) e fundamental para o controle populacional desse tipo de câncer,
especialmente em um país tão desigual quanto o Brasil, em termos de oferta de serviços de
qualidade de saúde, onde os dados epidemiológicos para esse tipo de câncer têm apontado
diferenças regionais importantes (FERREIRA, 2019). Não apenas a omissão de informações
sobre esses aspectos do câncer de mama, mas a propagação de informações incorretas sobre o
tema se configura em um grande desserviço ao sistema de saúde pública, e coloca em risco a
viabilidade do uso do YouTube como ferramenta coadjuvante no processo de educação em
saúde da população.
Conteúdos informativos mais pragmáticos de controle do câncer de mama, como
àqueles referentes à prevenção primária, secundária e terciária, também foram objeto temático
dos vídeos no YouTube. Infelizmente, como o esperado, já que não há uma tendência, ou
preferência, dos youtubers, em produzir e postar vídeos sobre fatores de risco e de proteção, o
tema da prevenção primária foi explorado em apenas 15% dos vídeos, onde apenas 3% deles o
expuseram de forma correta. Esse achado é alarmante, pois em termos de gerenciamento das
ações de controle do câncer de mama, especialmente em países em desenvolvimento, como o
Brasil, as ações de prevenção primária são decisivas para o controle da malignidade (INCA,
2020; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020).
A ausência de conhecimento sobre o tema, ou ainda pior, a construção de um
conhecimento equivocado sobre o tema, pode fazer com que muitas mulheres desenvolvam e
propaguem ideias distorcidas sobre como se prevenir do câncer de mama. Mais uma vez, diante
das grandes desigualdades regionais no controle do câncer no Brasil (OHL et al., 2016), a
adesão da população às estratégias preventivas pode ser decisiva para o desfecho de saúde. Por
outro lado, a maioria dos vídeos, mais de 70%, procurou vincular conteúdos sobre prevenção
44

secundária em seus vídeos. Esse fato é relevante, no sentido de que qualquer iniciativa de
melhorar a adesão das mulheres aos programas de rastreio e detecção precoce tem um valor
imensurável, em termos de saúde pública, especialmente quando as taxas de sobrevida
aumentam consideravelmente quando o diagnóstico é precoce, como é o caso do câncer de
mama (BERNARDES et al, 2019; SOUSA, 2020).
Muitos estudos têm mostrado que a limitação de conhecimento sobre a prevenção
secundária configura como uma forte barreira para adesão das mulheres ao rastreio diagnóstico
do câncer de mama (HERR et al., 2013; SILVA et al, 2018), e, por esse motivo, o grande
volume de vídeos sobre o tema tende a contribuir com esse aspecto frágil do sistema de controle
desse tipo de câncer. No entanto, o que se foi aqui constatado é que menos de 2% dos vídeos
analisados continham informações sobre prevenção secundária de forma correta. Mais uma vez,
isso reforça a ideia de que, até o momento, os vídeos disponibilizados no Youtube, para as
mulheres brasileiras, pouco contribuem, em termos de educação em saúde, para a melhoria do
controle desse tipo de câncer.
A ausência de vídeos com conteúdo informativo sobre prevenção terciária, ignora,
também, os internautas que porventura buscam informações para si próprio ou para um
conhecido com diagnóstico de câncer de mama, prejudicando, também, a construção de um
conhecimento mais amplo sobre todos os aspectos da doença. De forma geral, como aqui
apresentado, a maioria dos vídeos foram avaliados como ruins, em termos de qualidade do
conteúdo, o que aponta a necessidade imediata de maiores discussões sobre o papel das RSO
no contexto da saúde pública, em especial da plataforma de vídeos YouTube.
45

6 CONCLUSÃO

A partir do exposto até aqui, conclui-se que a plataforma de vídeos “YouTube” pode ser
utilizada como ferramenta coadjuvante nas estratégias de educação em saúde baseadas no uso
das RSO para o controle do câncer de mama, haja visto que os vídeos são amplamente assistidos
pelos internautas.
Para doenças cujo potencial de cura depende da precocidade diagnóstica, como no caso
do câncer de mama o acesso a conteúdos imprecisos ou de difícil compreensão, pode influenciar
negativamente aos comportamentos compatíveis para essa finalidade. Quando isso ocorre, ao
invés de contribuir informações corretas acaba prestando um desserviço para a sociedade. É
preciso haver um controle de qualidade destes conteúdos, principalmente quando o assunto
envolve saúde para que, desta maneira, possa beneficiar a população com dados fidedignos
No entanto, a baixa qualidade do conteúdo das informações e o direcionamento dos
temas abordados, desvinculado do proposto pelos órgãos regulamentadores de saúde pública,
evidenciam a necessidade de maior apropriação desse espaço “virtual” de aprendizado por
instituições/associações mais comprometidas com a qualidade das informações sobre saúde
disponíveis para a população.
46

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