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A Importância do Brincar na Criança

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EDITORIAL

A Importância de Brincar
PERSPECTIVA

The Importance of Play


Sofia PIRES1, Sandra BORGES1, Teresa TEMUDO2
Acta Med Port 2024 May;37(5):320-322 ▪ [Link]

Palavras-chave: Brincadeiras e Brinquedos; Criança; Desenvolvimento da Criança


ARTIGO ORIGINAL

Keywords: Child; Child Development; Play and Playthings

INTRODUÇÃO
O acto de brincar, embutido na existência humana, rulhento ou contemplativo, livre ou estruturado. Engloba
reveste-se de simbolismo, aprendizagem, construções e qualquer atividade escolhida livremente, com motivação
representações dependentes da história, da cultura e de intrínseca, desde que realizada com diversão.4 É a base de
características individuais. É um apanágio da vida plena e toda a civilização.4
PROTOCOLOS

felicidade das crianças. Será também uma componente es-


sencial na saúde e na conceção de boas práticas médicas? AO LONGO DO DESENVOLVIMENTO
Consoante a exploração, a interação crescente com o
NA ATUALIDADE meio e as capacidades adquiridas, o brincar surge em di-
O brincar assume uma posição secundária, perante um ferentes formas, sendo importante adequar os desafios à
mundo centrado no sucesso académico. As escolas, pro- idade e etapa desenvolvimental.5 Esta evolução inicia-se
PUBLICAÇÕES CURTAS

fessores, pais e tecnologias tendem a reorientar as brin- pela exploração do mundo, dando lugar à funcionalidade e,
cadeiras, socorrendo-se de estratégias alternativas para finalmente, ao simbolismo, complexificando-se num brincar
conquistar objetivos académicos. Retira-se o lugar à ima- social com regras.5 Identificam-se diferentes tipos de brin-
ginação e criatividade, tornando o brincar um luxo quase car: brincar em sintonia (nos primeiros meses – interação
inacessível. Importa recordar a sua importância, integrada com olhar, trocas de sorrisos, sons e canções), brincar com
numa perspetiva de desenvolvimento saudável. corpo e movimento (desde o útero, através do desenvol-
A Convenção sobre os Direitos da Criança (revista em vimento muscular e planeamento motor, até ao controlo
ARTIGO DE REVISÃO

2019), dita que a criança tem “(...) direito ao repouso e aos da força, andar e correr), brincar com objetos (curiosidade
tempos livres, o direito de participar em jogos e atividades e exploração com mordedores e alimentos podem ser os
recreativas”.1 Neurobiologicamente, o brincar está direta- primeiros), brincar simbólico e faz-de-conta (representação
mente ligado ao desenvolvimento do córtex pré-frontal que do imaginário e da criatividade), brincar social (competên-
comanda os níveis mais complexos de pensamento e fun- cias sociais desde o ‘cucu’ mais simples), brincar narrativo
cionamento.2 Promove também criação de novas conexões e histórias (desenvolvimento da comunicação, compreen-
neuronais entre áreas previamente não relacionadas.2 são, socialização), para além de outros.6
CASO CLÍNICO

NA HISTÓRIA OS BENEFÍCIOS
Os grandes autores do desenvolvimento interpretam Através da brincadeira, as crianças desenvolvem com-
o brincar e sublinham a sua importância. Sigmund Freud petências ao variar, repetir e recombinar sequências de
(1856 - 1939) classificava-o como catártico, ajudando a comportamento fora do seu contexto primário.7 Desta for-
libertar sentimentos desagradáveis, substituindo-os por ma, este comportamento revela benefícios na esfera do de-
IMAGENS MÉDICAS

outros positivos.3 Jean Piaget (1896 - 1980) considerou-o senvolvimento e da aprendizagem aos níveis emocionais,
como a ferramenta mais importante no desenvolvimento comportamentais, sociais, cognitivos e físicos.8
mental da criança, numa perspetiva cognitiva.3 Erik Erik- Brincar é uma linguagem própria que transmite alegrias,
son (1902 - 1994) discutiu o brincar ao longo dos primeiros frustrações, conquistas, habilidades e dificuldades, expres-
anos de vida como parte integrante do processo evolutivo.3 sando-se no mundo, em contacto com a realidade inte-
O brincar surge de variadas formas, envolvendo objeto rior.2 Permite a experiência, treino comportamental e social
NORMAS ORIENTAÇÃO

ou objetivo, individual ou em grupo, em paralelo ou inte- em ambiente seguro, oportunidade para recriar situações
ração, pode ser passivo, ativo, energético, silencioso, ba- reais, conflitos, dificuldades e desenvolver um reportório

1. Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência. Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho. Vila Nova de Gaia. Portugal.
2. Serviço de Neuropediatria. Centro Hospitalar Universitário de Santo António. Porto. Portugal.
 Autor correspondente: Sofia Pires. [Link]@[Link]
Recebido/Received: 04/09/2023 - Aceite/Accepted: 19/12/2023 - Publicado/Published: 02/05/2024
Copyright © Ordem dos Médicos 2024
CARTAS

Revista Científica da Ordem dos Médicos 320 [Link]


EDITORIAL
Pires S, et al. A importância de brincar, Acta Med Port 2024 May;37(5):320-322

PERSPECTIVA
emocional diversificado, capacidade de regulação, negociar bui para um desenvolvimento biopsicossocial dotado de
com outros e gerar uma identidade.7 Constrói a confiança experiências sensoriais enriquecedoras, com todas as
no outro e a vinculação através da interação.7,8 Desenvolve sensações e emoções que o contacto com o mundo real
relações sociais, aumenta a empatia, cooperação, partilha, comporta (formas, texturas, cores, tamanhos, dinâmica da
cria oportunidade para tomar decisões.5 Promove a prática interação e dos fatores climáticos, experiências multimo-
de capacidades de comunicação, linguagem e memória, dais, multissensoriais). Salienta-se que níveis aumentados

ARTIGO ORIGINAL
facilita o desenvolvimento da resiliência, adaptabilidade e de atividade física e níveis baixos de tempo de ecrã são
a capacidade de raciocínio, contribuindo para a resolução favoráveis ao desenvolvimento.9 Atividades ao ar livre pro-
de problemas.8 É útil para processar nova informação (cog- movem oportunidade para hábitos fisicamente ativos, com-
nitiva e emocional), estimula a fantasia e promove pensa- batem a obesidade e criam oportunidade para o treino de
mento criativo.7,8 Potencia capacidades motoras, aumenta capacidades sociais.9 Não sendo possível eliminar o tempo
a amplitude de movimentos, coordenação, equilíbrio, flexi- de ecrã, é importante a existência de limites, oportunidade
bilidade, melhora o controlo e a força muscular.7,8 Brincar é à diversificação de atividades, à exploração e reflexão so-

PROTOCOLOS
também terapêutico: ajuda na diminuição da dor, redução bre o digital.5
de ansiedade e depressão, reduz risco de psicopatologia e
a fadiga associada às doenças crónicas.7 NA CLÍNICA
Convergindo agora ao contexto médico, torna-se, por
COMO BRINCAR? vezes, difícil avaliar uma criança a brincar. Experiências
Relativamente ao processo, pretende-se um brincar anteriores traumáticas, o ‘medo da bata branca’, ambientes

PUBLICAÇÕES CURTAS
saudável e com lugar para o prazer e espontaneidade. É hospitalares hostis e despidos do conforto colorido do brin-
importante a criança deixar-se guiar a um ritmo adequado; car podem comprometer a observação e podem dificultar a
deve-se evitar imposição de ideias, estruturar/manipular a identificação de sintomas. É do conhecimento da comuni-
brincadeira ou lutas de poder.6 Deve-se oferecer a opor- dade científica que o brincar é terapêutico na redução de
tunidade à criança para exercer controlo, e autonomia, o ansiedade, stress e dor relacionados com procedimentos
que por sua vez oferece, autoconfiança e segurança.4 Deve ou ambientes hospitalares, contribuindo para adaptação à
existir sempre lugar para o elogio, atenção, valorização de doença/tratamento, uma menor necessidade de adminis-

ARTIGO DE REVISÃO
conquistas e aquisição de competências, evitando a crítica tração de fármacos sedativos, maior adesão ao tratamento
e encorajando a resolução de problemas autonomamente.6 e evolução clínica com melhores resultados.10 No campo
No que concerne ao objeto (nunca excluindo a possibilida- da decisão terapêutica, promove o empoderamento e a
de de este existir apenas na esfera imaginária da criativida- confiança da criança, evitando situações de oposição e re-
de individual), os brinquedos adequados são aqueles que cusa.10 Na área comunicacional floresce como linguagem
permitem formas mutáveis e flexíveis de uso, aplicações e simbólica repleta de significado e transparência na expres-
simbolismo, permitindo que a criança use a imaginação e são emocional. Evita rótulos e palavras difíceis, medeia

CASO CLÍNICO
crie a sua brincadeira.5 São apropriados quando ajustados confrontos e acesso ao mundo interior; constrói novas nar-
ao nível de desenvolvimento, quando não causam aborre- rativas, permite partilha e negoceia significados.10
cimento (por não permitirem desafio) ou frustração (quan- Neste enquadramento, o brincar oferece a oportunidade
do de nível superior); quando integram vários sentidos ou ideal para o envolvimento e relacionamento com as crian-
se desdobram em posições, interpretações, envolvem o ças, mas, também, como ponte na aproximação e intera-
uso das mãos ou promovem atividade física e movimento; ção em contexto de avaliação ou intervenção médica. Po-
IMAGENS MÉDICAS

idealmente laváveis e transportáveis para vários contex- dem ser utilizados brinquedos como reforço positivo, como
tos.5,8 forma de conseguir a atenção, a autorregulação, o interes-
se e, consequentemente, a colaboração. O clínico conse-
O MUNDO DIGITAL gue assim identificar sinais de alarme, comunicar, realizar
Adaptando à atualidade e não esquecendo a versão exame físico, observar dificuldades, e realizar leituras de
evolutiva do brincar, constata-se que a tecnologia moder- estados emocionais. O clínico é também responsável pela
NORMAS ORIENTAÇÃO

na potenciou profundas alterações nos comportamentos promoção e preservação de um ambiente de observação


de jogo. No entanto, nem toda a aprendizagem citada é clínica onde existam brinquedos apropriados às diversas
adquirida através do mundo digital. Apesar de proporcionar faixas etárias.
inegáveis vantagens, impulsionar momentos educativos, O brincar revela-se crucial na existência de qualquer
promover interação social e aquisição de competências ser humano, permitindo constituir adultos competentes
físicas, o digital atua em estreitos limites e capacidades em todas as áreas. É uma indicação de bem-estar mental
específicas nas escalas de desenvolvimento. Não contri- com potencial evidente no desenvolvimento físico, social,
CARTAS

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PERSPECTIVA

emocional e cognitivo individual. Apresenta claro benefício CONFLITOS DE INTERESSE


e utilidade em contexto médico como utensílio de observa- Os autores declaram não ter conflitos de interesse rela-
ção do desenvolvimento psicomotor da criança. cionados com o presente trabalho.

CONTRIBUTO DOS AUTORES FONTES DE FINANCIAMENTO


SP: Revisão da literatura e redação do manuscrito. Este trabalho não recebeu qualquer tipo de suporte fi-
ARTIGO ORIGINAL

SB, TT: Revisão crítica do manuscrito. nanceiro de nenhuma entidade no domínio público ou pri-
Todos os autores aprovaram a versão final a ser publi- vado.
cada.

REFERÊNCIAS
1. Fundo das Nações Unidas para a Infância. Convenção sobre os direitos 08]. Disponível em: [Link]
da criança e protocolos facultativos. 2019;1-80. [consultado 2023 7. Nijhof SL, Vinkers CH, van Geelen SM, Duijff SN, Achterberg EJ, van
nov 08]. Disponível em: [Link] der Net J, et al. Healthy play, better coping: the importance of play for
PROTOCOLOS

convencao_direitos_crianca2004.pdf. the development of children in health and disease. Neurosci Biobehav


2. Yogman M, Garner A, Hutchinson J, Hirsh-Pasek K, Golinkoff RM, Rev. 2018;95:421-9.
Committee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health, 8. Ginsburg KR, American Academy of Pediatrics Committee on
Council on Communications and Media. The power of play: a Communications, American Academy of Pediatrics Committee on
pediatric role in enhancing development in young children. Pediatrics. Psychosocial Aspects of Child and Family Health. The importance of
2018;142:e20182058. play in promoting healthy child development and maintaining strong
3. Burriss KG, Tsao LL. Review of research: how much do we know about parent-child bonds. Pediatrics. 2007;119:182-91.
the importance of play in child development? Child Educ. 2002;78:230- 9. Hinkley T, Brown H, Carson V, Teychenne M. Cross sectional associations
PUBLICAÇÕES CURTAS

3. of screen time and outdoor play with social skills in preschool children.
4. Hansen J, Macarini SM, Martins GD, Wanderlind FH, Vieira ML. O PLoS One. 2018;13:e0193700.
brincar e suas implicações para o desenvolvimento infantil a partir da 10. Perasso G, Camurati G, Morrin E, Dill C, Dolidze K, Clegg T, et al. Five
psicologia evolucionista. J Hum Growth Dev. 2007;17:133-43. reasons why pediatric settings should integrate the play specialist and
5. Kang S. The power of play. Am J Health Promot. 2020;34:573-5. five issues in practice. Front Psychol. 2021;12:687292.
6. National Institute for Play. Play: the basics. 2018. [consultado 2023 nov
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CASO CLÍNICO
IMAGENS MÉDICAS
NORMAS ORIENTAÇÃO
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