AULA 4
BIOMECÂNICA DA LOCOMOÇÃO
Prof. Jordan de Moura
TEMA 1 – AVALIAÇÃO TRIDIMENSIONAL DO MOVIMENTO
Neste módulo quatro, faremos uma abordagem sobre a avaliação
tridimensional do movimento humano. Você aprenderá sobre os princípios para a
realização de uma boa avaliação, os modelos biomecânicos, a avaliação
observacional da marcha e, por fim, aprender sobre o método de dinâmica inversa.
1.1 Cinemetria
A cinemetria consiste na captura de imagens e as reconstruções com
auxílio de pontos marcados conforme um modelo anatômico, que estima a
localização dos eixos articulares dos sujeitos, onde se fixam estas marcas. No
próximo tópico abordaremos melhor sobre essas marcações. As imagens são
registradas por câmeras e auxílio de softwares. A aplicação de modelos do corpo
humano, como por exemplo os modelos de Hatze (1980), Zatsiorsky (1983), para
a determinação das massas e suas propriedades geométricas e inércias de cada
segmento e de Hanavan (1964) para a determinação da localização do centro de
gravidade do corpo todo. Portanto, as variáveis antropométricas atuam como
auxiliares para a determinação de variáveis cinemáticas do centro de gravidade
do corpo, por exemplo, como sua velocidade.
Para aplicações em cinemetria recomendam-se procedimentos e sistemas
em que possam ser utilizadas câmeras de vídeo, que propiciam a reconstrução
tridimensional de pontos corporais em deslocamento. Recomenda-se, ainda, a
utilização de câmeras digitais. A frequência do registro da imagem deve estar em
acordo com a frequência natural do movimento a ser analisado. A resolução
espacial e temporal do registro deve ser, portanto, compatível com a acurácia
mínima aceitável para a descrição do movimento, recomendando-se ainda que a
disseminação do erro de medida esteja abaixo de 5%.
Para a calibragem das câmeras e posterior reconstrução das coordenadas
de pontos de interesse recomenda-se a utilização do método DLT (Direct Linear
Transformation), (Abdel-Aziz; Karara, 1971), por tratar-se de procedimento
padronizado e amplamente utilizado pela comunidade científica. Para a correção
de erros de digitalização em função da resolução ótica do sistema e da precisão
da percepção do avaliador, existem diferentes métodos, como filtros digitais
(Winter, 1990).
Os sistemas mais utilizados atualmente são aqueles que se baseiam no
processamento da imagem digital, que consiste na transferência da imagem do
vídeo para o ambiente do computador. Além destes, existem outros sistemas
óticos eletrônicos que funcionam com utilização de marcadores ativos, permitindo
a reconstrução “online” da imagem, ou marcadores que são processados em alta
frequência e resolução. Outros sistemas da determinação de variáveis
cinemáticas são os goniômetros, velocímetros e acelerômetros. A vantagem da
aplicação desses métodos em relação ao registro da imagem é a disponibilidade
quase simultânea e direta dos resultados de medição.
Figura 1 – Registro de Sistema Ótico
Fonte: Jordan de Moura.
TEMA 2 – PRINCÍPIOS PARA REALIZAÇÃO DA AVALIAÇÃO
Quando o tema é realização de uma avaliação, devemos sempre nos
atentar a todos os detalhes e alterações no sujeito avaliado, desde as alterações
funcionais às alterações estruturais - cabe aqui salientar que as alterações
estruturais dizem respeito às posturas, proeminências ósseas bem visíveis nos
pacientes, indivíduos fora do padrão anatômico que já nos foi apresentado, são
definidas como alterações estruturais. E, no que tange às alterações funcionais,
são as apresentadas no momento em que o indivíduo realiza qualquer
determinado movimento, seja ele de locomoção ou não.
Visto isso, devemos seguir um pequeno roteiro para a avaliação. A
avaliação da locomoção já acontece no momento em que o indivíduo chega até o
local de avaliação, neste momento ocorre a observação do indivíduo em postura
estática, a facilidade em entender o movimento possibilita que você possa fazer
comparações, determinar se a marcha está com alteração e de onde vem esta
alteração.
O próximo passo a ser seguido é observar a vestimenta do indivíduo, o que
será delineado no tópico seguinte.
Em seguida, devemos iniciar o processo da avaliação dinâmica. Vale
relembrar que em uma clínica com grande volume de pacientes, não conseguimos
realizar uma avaliação adequada. O local para avaliação deve ser reservado
somente para avaliação. Devemos utilizar equipamentos adequados e a filmagem
deve acontecer sempre em dois planos, se possível com 5 a 7 metros de distância
e sempre sistematizando o vídeo.
Figura 2 – Cenário de Avaliação Irregular
Créditos: Michael/Adobe Stock.
Figura 3 – Cenário de Avaliação Regular
Créditos: Mikkel Bigandt/Adobe Stock.
Na primeira imagem vemos um lance de um jogo de futebol em que o
posicionamento da câmera está em um local irregular, impossibilitando a avaliação
correta, na imagem seguinte nós vemos o posicionamento da câmera em um local
correto, o que melhora a avaliação.
Seguindo este exemplo de colocação de câmeras, na filmagem lateral a
câmera deve acompanhar o andar ou permanecer fixa.
Figura 4 – Câmeras
Créditos: Ruslan Harutyunov/Shutterstock.
Na filmagem frontal, a câmera deve permanecer fixa, se possível em um
tripé para melhorar a qualidade do vídeo e poder avaliar o indivíduo como um todo
e não somente os membros inferiores.
Com o aumento da complexidade do paciente devemos nos atentar a dois
aspectos, a função da marcha e a função cardíaca.
Na função da marcha, devemos avaliar a função da marcha na sala de
exame, realizar a avaliação observacional da marcha e a análise 3D da marcha.
Na função cardíaca, devemos avaliar sempre a frequência de pulso, utilizar
um estetoscópio para avaliar possíveis alterações respiratórias ou cardíacas e se
possível, considerar o ecocardiograma.
TEMA 3 – MODELO BIOMECÂNICO
Quando se retrata sobre o modelo biomecânico, se fala de tudo o que diz
respeito ao indivíduo a ser avaliado e como ele deve se comportar e vestir durante
a avaliação.
Abaixo vemos uma imagem sobre um modelo biomecânico.
Figura 5 – Imagem sobre modelo biomecânico
Créditos: curto/Adobe Stock.
Na imagem acima, podemos ver a posição ortostática e como deve se estar
o avaliado no momento da avaliação - embora não devemos nos abster da
complexidade do indivíduo. É bom notar que essa imagem retrata uma pessoa
sem nenhuma alteração estrutural.
No momento da avaliação, é solicitado para que o indivíduo permaneça
com roupas leves e confortáveis, se possível é interessante que os homens
estejam de sunga e as mulheres de biquíni ou top, tal vestimenta deixa visível as
proeminências ósseas, ficando mais fácil adicionar os marcadores nos pontos
anatômicos.
Os marcadores anatômicos podem ser de material fluorescente ou bolinhas
de isopor, cortadas ao meio e coladas nos pontos anatômicos. Abaixo, vemos um
exemplo da aplicação dos marcadores anatômicos.
Figura 6 – Marcadores Anatômicos
Créditos: Kim Schneider/Adobe Stock.
Agora que vimos sobre os pontos anatômicos e sobre a vestimenta usada
na avaliação, vamos ver sobre como é feita a marcação dos pontos anatômicos
nos indivíduos.
Os marcadores anatômicos são adicionados nas proeminências ósseas
para realizar a avaliação. Os pontos mais utilizados para isso são os ombros, o
osso externo do joelho, os quadris, joelhos e tornozelos.
Na avaliação, no plano frontal anterior, a fixação nos ombros acontece no
acrômio (bilateralmente), na fúcula esternal, espinhas ilíacas, ânteros superiores
(bilateralmente), centro articular da patela (bilateralmente) e na tuberosidade da
tíbia (bilateralmente).
No plano sagital, são adicionados na região do tubérculo maior do úmero,
espinhas ilíacas, ântero superiores, côndilo lateral ou externo do joelho e no
maléolo medial.
Figura 7 - Marcadores para avaliação
Fonte: Jordan de Moura.
TEMA 4 – AVALIAÇÃO OBSERVACIONAL DA MARCHA
No tocante à avaliação da marcha, podemos realizá-la de duas maneiras,
a olho nu, fazendo a observação e anotando possíveis alterações, ou com a
utilização de softwares.
Antes do início de qualquer avaliação da locomoção é extremamente
necessário coletar dados da história clínica do paciente com aspectos relevantes
de cada caso, essa coleta pode ser por meio de questionários ou em diálogo com
o indivíduo. Outro aspecto importante de realizar, antes do início da avaliação, é
a inspeção física do avaliado, verificar o tipo da roupa, se possível pedir ao
avaliado que retire o calçado para verificar o tipo de pisada, verificar se há
discrepância de membros e até se a pessoa necessita da utilização de dispositivos
auxiliares da marcha (andador, muletas e bengalas).
Seguindo este roteiro, podemos iniciar a avaliação da marcha. Como dito
nos módulos anteriores, a marcha humana é uma sequência cíclica e constante
de movimentos. Além do contato dos pés com o solo, durante a locomoção se
necessita de um bom alinhamento corporal com gestos sincronizados de
membros superiores e inferiores. A flexão de cotovelo e os balanços dos braços
na caminhada dita o ritmo da cadência e ajuda no equilíbrio, este segmento exige
um cuidado muito especial no momento da avaliação.
Quando fazemos uma análise observacional da marcha, devemos nos
colocar a poucos metros de distância do paciente. O posicionamento do terapeuta
deve acontecer tanto com a visão lateral da marcha, quanto com a visão frontal.
Na visão lateral, devemos nos atentar com os movimentos de inclinação
pélvica e nas fases de apoio e fases de balanço da marcha.
Figura 8 – Avaliação da marcha
Créditos: Elias Aleixo.
Na visão frontal, a observação deve acontecer nos balanços sagitais dos
membros superiores e nas alterações dos membros inferiores, quadril, joelho e
tornozelo.
Figura 9 – Visão Frontal
Crédito: Smile Ilustras.
O crescimento da fotografia, da metade até o final do século XIX, permitiu
a observação sistemática dos movimentos distintos de cada articulação durante a
atividade complexa da locomoção normal. Para realizar a avaliação instrumental,
é preciso utilizar câmeras de boa qualidade para fazer as filmagens, num primeiro
momento, o avaliador precisa adicionar os marcadores anatômicos no avaliado e,
em seguida, é realizado um teste para verificar se está tudo certo com os
aparelhos.
Além da qualidade da câmera, é imprescindível que haja mais de um
aparelho para coletar as imagens. O dispositivo pode fazer a filmagem para avaliar
a cinemática do movimento humano, ou pode tirar fotos e encaminhar para
programas especializados, que façam a análise e defina gráficos com as possíveis
alterações.
Feito a coleta, os dados devem ser guardados caso a pessoa realize algum
tipo de tratamento, para que possam ser reavaliados e comparados futuramente.
Para aqueles que não dispõem de um laboratório com câmeras específicas
para a análise da marcha, podem utilizar o próprio aparelho celular para gravar -
diante disso, se indica a utilização de aplicativos.
Abaixo, listamos os principais softwares para avaliação:
Figura 10 – Coach Now, Shotzoom Software
Fonte: Jordan de Moura.
Figura 11 – Onform: Video Analysis App, OnForm, Inc.
Fonte: Jordan de Moura.
Figura 12 – myDartfish Express, Dartfish
Fonte: Jordan de Moura.
TEMA 5 – MÉTODO DA DINÂMICA INVERSA
O cálculo das forças internas geradas no corpo humano durante atividades
de caminhar, correr ou saltar é um grande desafio para pesquisadores da
biomecânica. Geralmente, os pesquisadores necessitam recorrer de métodos
invasivos, implantando dispositivos dentro das articulações. Por conta desta
situação, tem sido cada vez mais desenvolvidos métodos e técnicas não invasivas
na avaliação das sobrecargas impostas nas atividades.
Pela segunda lei de Newton, se você conhece a força (causa), pode
calcular a aceleração (efeito) – a esse processo, chamamos de dinâmica direta.
Já na dinâmica inversa, conhecendo o efeito (aceleração), estima-se a causa
(força).
A partir do conhecimento de parâmetros externos, como a aceleração
medida em um marcador de cinemetria, ou acelerômetro, ou mesmo da força
mensurada em uma plataforma de força ou célula de carga, pode-se, por exemplo,
estimar a carga interna articular ao realizar um movimento, como do tornozelo, ou
do joelho ao caminhar, correr, saltar, etc. Dependendo da abordagem aplicada,
pode-se ainda inferir a prevalência dos esforços sobre estruturas articulares
específicas, como cartilagens e ligamentos, mesmo em movimentos de cadeia
cinética aberta (Loss et al., 2006).
O método direto usado para medir as forças internas é extremamente
invasivo, e na maioria das vezes impróprio para a rotina de pesquisa com seres
humanos, enquanto a dinâmica inversa, como método indireto, é mais indicada
quando o objetivo é estudar o controle neuromuscular do sistema músculo-
esquelético, e seu modelamento exige uma precisão maior nos dados anatômicos,
o que não está totalmente disponível na literatura especializada. O
desenvolvimento de um modelo mecânico para a estrutura biológica do corpo
humano, ou de seus segmentos, com o objetivo de determinar parâmetros
internos desta estrutura - forças musculares por exemplo, em situação dinâmica
ou estática - é altamente complexo, face à intrincada natureza do fenômeno a ser
modelado. Então, o modelo utilizado para a descrição deste fenômeno, que seria
por demais complexo, é simplificado, podendo desta forma, reduzir a exatidão ou
resolução de parâmetros físicos (Amadio, 1999).
A aplicação técnica da dinâmica inversa necessita da determinação de um
modelo biomecânico e o conhecimento das variáveis cinéticas, cinemáticas
(lineares e angulares) e antropométricas dos segmentos envolvidos. A solução
inversa do problema parte da determinação experimental da posição dos
segmentos e da diferenciação numérica para obtenção das variáveis cinemáticas
(velocidade e aceleração), bem como da mensuração das forças externas e
determinação dos parâmetros antropométricos (Loss et al., 2006).
O método da dinâmica inversa é amplamente utilizado, pois calcula as
forças internas articulares e musculares, por meio de dados externos aplicados
ao corpo ou à aceleração do movimento realizado. Esses dados são obtidos
através de softwares, células de cargas, dinamometria ou plataformas de forças,
que são depurados e processados para então definir a sobrecarga imposta em
determinada articulação ou músculo.
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