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Elementos e Conflitos no Conto "Maria"

O documento aborda o gênero textual conto, destacando suas características como concisão, linearidade e foco em um conflito central. Apresenta os elementos essenciais de um conto, como personagens, enredo, narrador, tempo e espaço, além de discutir a estrutura narrativa e a importância do clímax. Também inclui uma análise do conto 'Maria', explorando sua situação inicial, conflito e foco narrativo.
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Elementos e Conflitos no Conto "Maria"

O documento aborda o gênero textual conto, destacando suas características como concisão, linearidade e foco em um conflito central. Apresenta os elementos essenciais de um conto, como personagens, enredo, narrador, tempo e espaço, além de discutir a estrutura narrativa e a importância do clímax. Também inclui uma análise do conto 'Maria', explorando sua situação inicial, conflito e foco narrativo.
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Professora Renata Costa

Disciplina: Redação
Gênero textual: conto
• Narrativa curta que apresenta os mesmos elementos do
romance: narrador, personagens, enredo, espaço e
tempo.
• Diferencia-se por sua concisão, linearidade e unidade: o
conto deve construir uma história focada em um conflito
básico e apresentar o desenvolvimento e a resolução
desse conflito. Também é característica do conto poucas
personagens

• Há vários tipos de contos, como contos fantásticos,


policiais, eróticos ou de ficção científica.
Os elementos de um conto são:

PENTE
• P-personagens
• E-enredo
• N-narrador
• T-tempo
• E-espaço
Contexto de circulação
• Contos costumam ser escritos para publicação
em livros. Em alguns casos, também circulam
em revistas.
Elementos do conto
• Foco narrativo: narrador-protagonista,
narrador-testemunha, narrador-onisciente;
narrador-observador;
• Enredo (apresenta um conflito que pode
culminar num clímax);
• Personagens;
• Tempo;
• Espaço: lugar em que transcorre a ação;
Um pouco mais sobre o conflito
• O conto deve apresentar uma determinada ordem, que
será desequilibrada pelo surgimento de um conflito. A
resolução desse conflito promoverá a restauração da
ordem.
• O objetivo do contista, portanto, é apresentar ao leitor
uma situação ficcional em que a estabilidade é
desestruturada por um conflito cujo desenvolvimento
e solução serão o foco da história contada.

• No momento ápice do conflito, a narrativa atinge o


clímax, isto é, o momento de maior tensão e
expectativa da história.
O tempo
• O tempo de uma narrativa é caracterizado
pela duração da ação apresentada. Há
diferentes “tempos”:

1. Tempo cronológico: quando os fatos são narrados de


acordo com a ordem em que acontecem.
2. Tempo psicológico: quando a rememoração do
passado desencadeia a narrativa.
3. Tempo histórico: referente ao momento histórico em
que se situam os fatos narrados.
O enredo
• É o que acontece na história, ou seja, a sequência de
ações que faz com que a narrativa exista e tenha uma
estrutura: um começo, um meio e um fim.
• O enredo de uma narrativa seja ela um conto ou
outro gênero é o conjunto de fatos encadeados por
um nexo de causa e efeito.
• Ele se organiza em torno de um conflito, isto é, de
uma oposição de interesses
Estrutura do conto
• Introdução (ou apresentação/equilíbrio
inicial): é o início da narrativa. Nela, podemos
descobrir o contexto da narrativa: quem são as
personagens, qual é o espaço e o tempo nos
quais a história vai ser narrada e quais são os
primeiros acontecimentos.
• Desenvolvimento (ou complicação/surgimento
do conflito): apresenta as ações que modificam o
estado inicial da narrativa. Vemos o conflito
(situação-problema) que fará as personagens
agirem para resolvê-lo.
• Clímax: é o momento de maior tensão,
quando o problema está no auge e as
ações tomadas definirão o rumo da
história.

• Conclusão (ou desfecho): como o nome já


diz, é o final da história. Pode mostrar que
o problema foi solucionado ou não,
dependendo muito mais do tipo de conto
que se lê.
Maria
Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava
cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se
acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do
cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa
da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham
enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava
feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores
estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir
o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e
havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam
de melão? A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio,
enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina,
Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que
estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não
estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar
um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar,
um homem levantou lá de trás, do último banco,
fazendo um sinal para o trocador. Passou em
silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela
reconheceu o homem. Quanto tempo, que
saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele.
Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se
ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do
homem deitado com ela. Da vida dos dois no
barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme
que todos diziam gêmeos, e da alegria dele.
Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se
tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do
seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o
olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém.
Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de
outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino,
Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe
que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito,
tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis
mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A
mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela
teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também!
Homens também. Eles haveriam de ter outra vida. Com
eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci!
Tá tudo aqui no buraco do peito.
O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo
no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem,
entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o
homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de
alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do
buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele
cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem
ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um
beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou
rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era
um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos
assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três
filhos. O mais velho, com onze anos, era filho
daquele homem que estava ali na frente com uma
arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo.
O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de
todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia
pedindo aos passageiros que entregassem tudo
rapidamente. O medo da vida em Maria ia
aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus
filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no
ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa
de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada.
Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar
uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma
gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no
braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas
mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com
faca-laser que parecia cortar até a vida.
Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e
desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou
a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela negra
safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não
conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro
filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela
ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver
que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do
fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela
estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém
argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar.
Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser
assaltada. Mentira, eu não fui e não sei por quê. Maria
olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho
negro e magro, com feições de menino e que relembrava
vagamente o seu filho.
A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: aquela
negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou
em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que droga! Não conhecia
assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é
atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou:
Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em
direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a
passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de
vista. Todos os dias, mais ou
menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta
para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela
boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas
rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão? Tudo foi tão rápido,
tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo
isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no
filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos
armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou,
quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo
pisoteado.
Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço,
um beijo, um carinho.

EVARISTO, C. Maria. In: ____________, Olhos D’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2011. (Olhos d’água, p. 39-42).
Adaptado
Hora de ler mais um conto
Exercício
1. Com relação ao conto Maria, transcreva a parte que é
a situação inicial.
2. Qual é o conflito do conto “Maria”?
3. Marque a alternativa que expressa o clímax do conto.
a) A conversa entre o Maria e seu ex-homem.
b) O anúncio do assalto.
c) Os passageiros começam a linchar Maria, acusando-a
de comparsa dos assaltantes.
d) A chegada da polícia.
4. Qual é o foco narrativo do conto Maria?
Justifique sua resposta com um trecho do conto.
5. No conto Maria, há marcas tanto do tempo
cronológico quanto do tempo psicológico, no
entanto, há predominância de um deles.
Identifique-o e justifique sua resposta.
6. Sobre as personagens do conto Maria, julgue
as afirmações a seguir escrevendo nos
parênteses V ou F conforme as afirmações
sejam verdadeiras ou falsas.
Referências
• SEIXAS, Heloisa. Contos mínimos de Heloisa
Seixas. Rio de Janeiro, Record, 2001.
• SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São
Paulo: Global, 2001.
• [Link]

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