A Rivalidade de António e Cleópatra
A Rivalidade de António e Cleópatra
Coleen McCullough
António e Cleópatra
O Primeiro Homem de Roma
VII
Difel
Badana da Capa
Coleen McCullough
Nasceu na Austrália.
Neurofisióloga, criou o departamento de Neurofisiologia do Royal Noth Shore
Hospital, em Sydney, trabalhou posteriormente em investigação e ensinou na Yale
Medical School durante dez anos.
A sua carreira literária começou com a publicação de Tim, seguido de Pássaros
Feridos, um best-seller internacional que bateu todos os recordes. A história
de Roma antiga é retratada de uma forma excepcional ao longo dos sete volumes
que compõem a série O Primeiro Homem de Roma. Todas as suas obras estão
editadas em Portugal pela Difel. Para além de romances, escreveu também a letra
das canções de um musical para teatro.
Em 2000 recebeu o Scanno, o mais importante prémio literário italiano, pela
obra A Canção de Tróia, e é hoje uma das 100 pessoas designadas como Tesouros
Nacionais Vivos da Austrália. Actualmente vive com o marido na Ilha de Norfolk,
no Pacífico Sul.
Bana da Contracapa
Contracapa
McCullough continua a sua série sobre os Senhores de Roma com a crónica de uma
das mais famosas histórias de amor da História. Após a morte de Júlio César,
Marco António, o seu ambicioso e impetuoso primo e Octaviano, o filho adoptivo
de César e seu herdeiro, concordam em administrar conjuntamente o extenso
império : António no Oriente e Octaviano no Ocidente. Este não é contudo um
acordo feliz e a rivalidade de ambos na tentativa de se tornarem os senhores de
Roma é o tema que prevalece durante toda esta saga fascinante. Após uma
desastrosa campanha para submeter os Partos, vira-se para Cleópatra, a
enigmática e fabulosamente rica rainha do Egipto, com o objectivo de angariar
fundos para a sua arca de guerra. Determinada a fazer de Cesarião, o seu filho
com Júlio César, o senhor de Roma, Cleópatra seduz António e consegue
rapidamente torná-lo tão moldável como barro macio. Entretanto, com a ajuda da
mulher e de Marco Agripa, Octaviano solidifica a sua posição em Roma e na
Itália. Instigado por Cleópatra, António reúne as forças na Grécia para invadir
a Itália.
Ficha Técnica
Página de Rosto
Coleen McCullough
ANTÓNIO E CLEÓPATRA
Ddifel
Índice
Lista de Mapas 10
Parte 1 - António no Oriente 41 a. C. a 40 a. C. 11
Parte 2 - Octaviano no Ocidente 40 a. C. a 39 a. C. 97
Parte 3 - Vitórias e Derrotas 39 a. C. a 37 a. C. 199
Parte 4 - A Rainha das Bestas 36 a. C. a 33 a. C. 279
Parte 5 - Guerra 32 a. C. a 30 a. C. 435
Parte 6 - Metamorfoses 29 a. C. a 27 a. C. 561
Glossário 575
LISTA DE MAPAS
O Oriente de António 15
Alexandria depois da Guerra de Alexandria 38
O Ocidente de Octaviano 109
A Marcha de António para Fraaspa 294
As Províncias Continentais 317
O Egipto de Cleópatra 405
A Campanha de Ácio 482
I
António no Oriente
41 a. C. A 40 a. C.
Quinto Délio não era um homem agressivo nem um guerreiro nas batalhas. Sempre
que podia concentrava-se naquilo que melhor sabia fazer, nomeadamente
aconselhar os seus superiores de forma tão subtil que estes acabavam por
acreditar que as ideias eram genuinamente suas.
Assim, após Filipos, conflito em que nem se distinguiu nem ficou malvisto aos
olhos dos seus comandantes, Délio decidiu ligar a sua humilde pessoa a Marco
António e seguir para leste.
Nunca era possível, pensou Délio, escolher Roma; acabava sempre por se resumir
tudo à escolha de uma facção no meio das tremendas e conturbadas lutas dos
homens que estavam determinados a controlar - não, sê honesto, Quinto Délio! -
determinados a reinar sobre Roma. Depois do assassínio de César por Bruto,
Cássio e os outros, toda a gente partira do princípio de que o primo chegado de
César, Marco António, herdaria o seu nome, a sua fortuna e a sua clientela de,
literalmente, milhões de clientes. Mas o que fizera César? Um testamento e
últimas vontades em que deixava tudo ao seu sobrinho-neto de dezoito anos, Gaio
Octávio! Nem sequer mencionara António no testamento, um golpe de que este
nunca recuperara totalmente, tão certo que estivera de vir a herdar as botas
altas de cabedal vermelho de César e de tomar o lugar deste. E, como era típico
de António, não fizera quaisquer planos para ficar em segundo lugar. A
princípio o jovem, a quem toda a gente chamava agora Octaviano, não o
preocupara; António era um homem no seu apogeu, um general famoso e detentor de
uma grande facção de seguidores no Senado, enquanto que Octaviano era um
adolescente enfermiço, tão fácil de esmagar como a carapaça de um escaravelho.
Só que as coisas não tinham corrido dessa maneira e António não soubera como
lidar com o rapaz manhoso de rosto doce e o intelecto e a sabedoria de um
septuagenário. A maior parte de Roma partira do princípio de que António, um
gastador célebre que precisava desesperadamente da fortuna de César para pagar
as dívidas, tinha feito parte da conspiração para eliminar César, e a sua
conduta após o evento só reforçara essa ideia.
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Não fez qualquer tentativa para punir os assassinos; pelo contrário, concedeu-
lhes virtualmente toda a protecção da lei. Mas Octaviano, que estava
apaixonadamente ligado a César, desgastara gradualmente a autoridade de António
e forçara-o a condenar os assassinos. Como conseguira fazê-lo? Subornando uma
boa percentagem das legiões de António e ganhando-as para a sua causa,
conquistando o povo de Roma e roubando os trinta mil talentos da arca de guerra
de César de uma forma tão brilhante que ninguém, nem mesmo António, conseguira
provar que fora Octaviano o ladrão. Assim que Octaviano dispôs de soldados e de
dinheiro, não deu a António alternativa senão reconhecer-lhe o poder como a um
igual. Depois disso, Bruto e Cássio fizeram a sua própria tentativa de
conquistar o poder. Aliados contrafeitos, António e Octaviano conduziram as
suas legiões para a Macedónia e defrontaram as forças de Bruto e de Cássio em
Filipos. Uma grande vitória para António e Octaviano que não resolvera contudo
a irritante questão de quem governaria como Primeiro Homem em Roma; um rei sem
coroa, respeitando apenas formalmente a ilusão vazia de que Roma era uma
república governada por uma câmara alta, o Senado, e por várias Assembleias do
Povo. Juntos, o Senado e o Povo de Roma: senatus populusque Romanus, SPQR.
Tipicamente, continuaram a vaguear os pensamentos de Délio, a vitória em
Filipos encontrara Marco António sem qualquer estratégia para expulsar
Octaviano da equação do poder, pois António era uma força da natureza, lascivo,
impulsivo, com mau génio e sem qualquer capacidade de planeamento. O seu
magnetismo pessoal era grande, do tipo que atrai homens através das qualidades
mais másculas: coragem, um físico hercúleo, uma merecida reputação de amante de
mulheres e inteligência suficiente para o tornarem um orador formidável no
Senado. As suas fraquezas tendiam a ser desculpadas, pois eram igualmente
masculinas: os prazeres da carne e uma generosidade impetuosa.
A sua solução para o problema com Octaviano foi dividir entre os dois o mundo
romano, com um pedaço atirado a Marco Lépido, sumo sacerdote e senhor de uma
grande facção no Senado. Sessenta anos de guerras civis intermitentes tinham
acabado por levar Roma à falência e o seu povo - e o povo de Itália - gemia sob
o peso de rendimentos apertados, escassez de trigo para o pão e uma crescente
convicção de que os seus superiores, quem os governava, eram incompetentes e
venais. Sem querer reconhecer o seu estatuto enfraquecido de herói popular,
António resolveu ficar com a parte de leão e deixar a carcaça apodrecida ao
chacal do Octaviano.
Fora assim que, após Filipos, os vencedores tinham despedaçado as províncias
para agradar a António e não a Octaviano, que herdou as partes menos
invejáveis: Roma, Itália e as grandes ilhas da Sicília, Sardenha e Córsega,
onde era cultivado o trigo para alimentar os povos de Itália que, desde há
muito tempo, eram incapazes de se alimentar a si próprios. Era uma táctica que
estava de acordo com a personalidade de António, que garantia assim que o único
rosto a ser visto por Roma e por Itália seria o de Octaviano enquanto que os
relatos dos seus feitos gloriosos, alcançados lá longe, eram diligentemente
postos a circular através de Roma e da Itália.
<Mapa - omitido>
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Depois de tratar desse assunto, Délio saiu para ver o que se passava e arranjar
uma maneira de conseguir um lugar num divã suficientemente próximo de António
para poder participar na conversa do Grande Homem durante o jantar.
Inúmeros reis enchiam os salões públicos, pálidos e com os corações palpitantes
por terem apoiado Bruto e Cássio. Até mesmo o velho rei Deiotaro da Galácia,
antigo em idade e anos de serviço, fizera um esforço para vir, escoltado por
dois dos seus filhos que Délio deduziu serem os seus preferidos. O amigo do
peito de António, Publícola, apontara-lho, mas depois disso, o próprio
Publícola admitira sentir-se perdido - demasiados rostos e um tempo demasiado
curto de serviço no Oriente para ser capaz de os reconhecer.
Sorrindo timidamente, Délio movia-se por entre os grupos de gente
espalhafatosamente vestida, com os olhos brilhantes perante a dimensão das
esmeraldas ou o peso do ouro em determinado penteado. O seu grego era,
evidentemente, bom e Délio pôde conversar com aqueles detentores de poder
absoluto sobre terras e povos, abrindo mais o sorriso ao pensar que, não
obstante as esmeraldas e o ouro, todos eles estavam ali para prestar uma
homenagem obsequiosa a Roma, o seu verdadeiro senhor. Roma, que não tinha rei e
cujos magistrados mais importantes envergavam uma simples toga branca debruada
a púrpura e que valorizava o anel de ferro de alguns senadores acima de uma
tonelada de anéis de ouro; um anel de ferro significava que uma família romana
detivera cargos públicos, de forma mais ou menos constante, ao longo de
quinhentos anos. Uma ideia que fez com que o pobre Délio escondesse
automaticamente o seu anel senatorial de ouro nas pregas da toga. Nenhum Délio
tinha conseguido ainda um consulado, nenhum Délio fora proeminente cem anos
antes, quanto mais quinhentos. César usara um anel de ferro, mas António não;
os Antónios não eram ainda suficientemente antigos. E o anel de ferro de César
passara para Octaviano.
Oh, ar, ar! Precisava de ar fresco!
O palácio fora erguido em torno de um enorme jardim com peristilo e tinha uma
fonte ao centro, oposta a um lago comprido e baixo. Este fora construído com
puro mármore branco de Paros e temas ligados à pesca - sereias, tritões,
golfinhos -, sendo excepcional o facto de nunca ter sido pintado para imitar as
cores da vida real. Quem quer que tivesse sido o escultor daquelas criaturas
gloriosas, fora um mestre; um conhecedor das belas-artes, Délio foi atraído
para a fonte com uma rapidez tal que nem reparou que alguém chegara lá antes
dele e se sentara, com um ar miserável, no muro largo. Quando Délio se
aproximou, o homem ergueu a cabeça; agora não havia hipótese de evitar o
encontro.
Era estrangeiro e tratava-se de um nobre, pois envergava um manto dispendioso
de brocado de púrpura de Tiro, artisticamente entretecido a fio de ouro e, na
cabeça coberta com caracóis negros e oleosos como cobras, assentava um solidéu
feito de tecido dourado. Délio já vira um número suficiente de orientais para
perceber que os caracóis não eram oleosos por estarem sujos; os orientais
oleavam os cabelos com cremes perfumados.
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- Não, não posso dizer que tenha. Todos me pareceram faisões vistosos.
- Oh, eles estão lá, os meus pardais do Sinédrio! Preservando a sua
singularidade e afastando-se o mais que podem de todos os outros.
- Isso, ali dentro, significa que devem estar escondidos atrás de uma coluna.
- Verdade - disse Herodes. - Mas quando António aparecer, abrirão caminho até à
frente, uivando e batendo no peito.
- Não me disseste porque estás aqui.
- Na verdade é mais por os cinco pardais aqui estarem. Vigio-os como um falcão.
Tencionam falar com o triúnviro Marco António para lhe exporem o seu caso.
- E qual é o caso deles?
- Dizem que ando a intrigar contra a sucessão legítima e que eu, um gentio,
consegui aproximar-me o suficiente do rei Hircano e da sua família para ser
aceite como pretendente à filha da rainha Alexandra. Esta é uma versão
abreviada, mas contar a história toda levaria anos.
Délio fixou nele os perspicazes olhos castanhos e pestanejou.
- Um gentio? Mas pensei que tinhas dito que eras judeu.
- Não de acordo com a lei mosaica. O meu pai casou-se com a princesa Cypros da
Nabateia. Uma árabe. E como para os Judeus a descendência é matrilinear, os
filhos do meu pai são gentios.
- Então... então o que esperas conseguir aqui, Herodes?
- Tudo, se me deixarem fazer o que é preciso. Os Judeus precisam de uma bota
pesada em cima dos pescoços... podes perguntar a qualquer governador romano da
Síria desde que Pompeu Magno fez daquela terra uma província. Tenciono ser rei
dos Judeus quer eles gostem quer não. E consigo-o. Se me casar com uma princesa
dos Asmoneus, descendente directa de Judas Macabeu. Os nossos filhos serão
judeus e eu tenciono ter muitos filhos.
- Estás então aqui para te defenderes? - perguntou Délio.
- Estou. A delegação do Sinédrio vai exigir que eu e os membros da minha
família sejamos exilados sob pena de morte. Não conseguirão fazê-lo sem a
permissão de Roma.
- Bem, não terão tido grande vantagem em ter apoiado Cássio, o derrotado -
disse Délio alegremente. - António terá que escolher entre duas facções que
apoiaram o homem errado.
- Mas o meu pai apoiou Júlio César - disse Herodes. - O que eu tenho que
conseguir é convencer Marco António de que, se me permitirem viver na Judeia e
melhorar o meu estatuto, tomarei sempre o partido de Roma. Ele esteve na Síria
há anos, quando Gabínio era governador, portanto deve ter consciência de como
os Judeus são rebeldes. Mas lembrar-se-á ele de que o meu pai ajudou César?
- Hum - ronronou Délio semicerrando os olhos na direcção do arco-íris que se
formara no reflexo das gotas de água que jorravam da boca de um golfinho. -
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- Não é assim tão estranho - disse Publícola que era guloso e estava a devorar
uma mistura de sementes de sésamo com mel. - Cometeram o mesmo erro com César:
apoiaram Pompeu Magno. Tu fizeste campanhas no Ocidente, tal como César. Não
conheciam aquilo de que eras feito. Bruto não era ninguém, mas para eles Gaio
Cássio tinha uma certa magia. Escapou à aniquilação com Crasso, em Carras, e
depois governou a Síria com enorme competência com a provecta idade de trinta
anos. Cássio era do género de material com que as lendas são feitas.
- Concordo - disse Délio. - O mundo deles está limitado à extremidade oriental
do Nosso Mar. O que se passa na Hispânia e nas Gálias, na extremidade
ocidental, é o desconhecido.
- Verdade. - António fez uma careta na direcção dos pratos açucarados que
estavam sobre a mesa baixa na frente do divã. - Publícola limpa a cara! Não sei
como consegues comer essas papas meladas.
Publícola chegou-se para trás no divã e António olhou para Délio com uma
expressão que transmitia a compreensão de muito daquilo que Délio esperava
ocultar: a penúria, o estatuto de Homem Novo, a ambição evidente.
- Houve alguma das ratazanas dos esgotos que te tivesse agradado, Délio?
- Uma, Marco António. Um judeu chamado Herodes.
- Ah! A rosa entre as cinco ervas daninhas.
- A metáfora dele foi aviária: o falcão entre os pardais. António riu-se com
uma gargalhada sonora e rouca.
- Bem, com Deiotaro, Ariobarzanes e Farnaces aqui, não me parece que vá ter
muito tempo para dedicar a meia dúzia de judeus quezilentos. No entanto não é
para admirar que as cinco ervas daninhas detestem a nossa rosa Herodes.
- Porquê? - perguntou Délio assumindo uma expressão de espanto interessado.
- Para começar por causa dos atavios. Os Judeus não se enfarpelam com ouro e
púrpura de Tiro, é contra as suas leis. Nada de ornamentos reais, nem de
imagens e o ouro que possuem é guardado no Grande Templo em nome de todo o
povo. Crasso saqueou dois mil talentos de ouro do Grande Templo antes de partir
à conquista do reino dos Partos. Os Judeus amaldiçoaram-no e ele morreu
ignominiosamente. Depois veio Pompeu Magno a pedir ouro e depois César e depois
Cássio. Eles esperam que eu não faça o mesmo, mas sabem que o farei. Tal como
César, pedir-lhes-ei uma soma igual à que Cássio pediu.
Délio franziu o sobrolho. -Eu não... ah...
- César pediu uma soma igual à que eles tinham dado ao Magno.
- Oh, estou a ver! Perdoa-me a ignorância.
- Todos nós estamos aqui para aprender, Quinto Délio, e tu pareces-me ser capaz
de aprender depressa. Fala-me lá então desses judeus. O que querem as ervas
daninhas e o que quer Herodes, a rosa?
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- As ervas daninhas querem Herodes exilado sob pena de morte - disse Délio
abandonando a metáfora aviária. Se António preferia a sua própria metáfora,
então Délio também a preferia. - Herodes quer um decreto romano que lhe permita
viver livremente na Judeia.
- E qual das duas opções trará mais benefícios a Roma?
- Herodes - respondeu Délio sem hesitar. - Ele pode não ser judeu de acordo com
os conceitos deles, mas quer reinar sobre eles casando-se com uma princesa
qualquer com o sangue indicado. Se ele for bem-sucedido, creio que Roma ficará
com um aliado fiel.
- Délio, Délio! Certamente que não achas que o Herodes é fiel?
O rosto com alguns traços de fauno franziu-se num sorriso malicioso.
- Certamente, desde que isso seja do seu interesse. E como ele sabe que o povo
que quer governar o odeia o suficiente para o matar à mínima oportunidade, Roma
ser-lhe-á sempre mais útil do que o seu próprio povo. Enquanto Roma for sua
aliada, ele estará a salvo de tudo excepto de um envenenamento ou de uma
emboscada e não estou a vê-lo a beber ou a comer o que quer que seja que não
tenha sido exaustivamente provado, nem a sair sem a escolta de homens não
judeus a que paga extraordinariamente bem.
- Obrigado, Délio!
Publícola interpôs o corpo entre os dois.
- Resolveste um problema, hei, António?
- Com alguma ajuda de Délio, sim. Mordomo, desimpede a sala! - gritou António.
- Onde está Lucílio? Preciso do Lucílio!
Na manhã seguinte os cinco membros do Sinédrio judaico descobriram que eram os
primeiros da lista de suplicantes que o arauto de Marco António chamou. António
envergava a túnica branca debruada a púrpura e tinha na mão o simples bastão de
marfim que simbolizava o seu alto imperium, tinha um ar imponente. Ao seu lado
estava o seu querido secretário, Lucílio, que pertencera a Bruto. Doze lictores
com vestes carmins estavam alinhados de ambos os lados da sua cadeira curul,
com os feixes de varas com o machado equilibrados junto aos pés. Uma plataforma
elevava-os acima da sala apinhada.
O chefe do Sinédrio começou a falar em bom grego, mas num estilo de tal forma
floreado e retorcido, que levou uma eternidade entediante para os identificar
aos cinco e a razão de terem sido enviados como delegados a um local tão
distante para falar com o triúnviro Marco António.
- Oh! Cala-te! - ladrou António sem pré-aviso. - Cala-te e vai para casa! -
Tirou um rolo de pergaminho das mãos de Lucílio, desenrolou-o e brandiu-o
ferozmente. - Este documento foi encontrado no meio dos papéis de Gaio Cássio
em Filipos. Afirma que Antípatro, tesoureiro do, à época, intitulado rei
Hircano, e os seus filhos Fasael e Herodes, conseguiram angariar algum ouro
para a causa de Cássio.
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Os Judeus não pagaram nada, com excepção da taça de veneno para Antípatro.
Pondo de parte o facto de o ouro ter ido para o partido errado, não deixa de
estar claro aos meus olhos que os Judeus têm muito mais amor ao ouro do que a
Roma. Quando eu chegar à Judeia, o que irá mudar a esse respeito? Ora, nada!
Nesse homem, no Herodes, vejo alguém que está disposto a entregar a Roma os
tributos e impostos que lhe são devidos... e que servem, recordo-vos, para
preservar a paz e o bem-estar dos vossos reinos! Quando deram dinheiro a
Cássio, limitaram-se a financiar o seu exército e as suas frotas! Cássio era um
traidor sacrílego que se apropriou daquilo que pertencia a Roma de direito! Ah,
estás a tremer Deiotaro? Pois tens boas razões para isso!
Tinha-me esquecido, pensou Délio, que assistira à cena, como ele consegue ser
cáustico. Está a usar os Judeus para os informar a todos de que não será
misericordioso.
António voltou ao assunto.
- Em nome do Senado e do Povo de Roma, ordeno que Herodes, o seu irmão Fasael e
toda a sua família, sejam livres de viver em qualquer parte dos territórios
romanos, incluindo a Judeia. Não posso evitar que Hircano se intitule rei do
seu povo, mas aos olhos de Roma ele não é mais nem menos do que um etnarca. A
Judeia deixou de ser um só território. São cinco pequenas regiões salpicadas à
volta do Sul da Síria e assim continuará a ser. Hircano pode ficar com
Jerusalém, Gazara e Jericó. Fasael, o filho de Antípatro, será o tetrarca de
Séfora. Herodes, o filho de Antípatro, será o tetrarca de Amatunte. E ficam
avisados! Se houver algum problema no Sul da Síria, esmagarei os Judeus como se
fossem cascas de ovo!
Consegui, consegui!, gritou Délio para consigo, rebentando de felicidade.
António ouviu-me!
Herodes estava junto à fonte, mas o seu rosto estava contraído e pálido e não
repleto da alegria que Délio esperara ver. O que se passava? Qual poderia ser o
problema? Chegara ali um pobre sem reino e partiria um tetrarca.
- Não estás satisfeito? - perguntou Délio. - Ganhaste sem sequer teres que
defender a tua posição, Herodes.
- Porque é que António tinha que promover também o meu irmão? - perguntou
Herodes bruscamente, embora se dirigisse a alguém que não estava presente. -
Ele pôs-nos em pé de igualdade! Como poderei casar com Mariana sendo Fasael não
só meu igual em estatuto, como meu irmão mais velho? Será Fasael que a
desposará!
- Vamos, vamos - disse Délio suavemente. - Nada disso aconteceu ainda, Herodes.
Por agora aceita a decisão de António como algo mais do que aquilo que
esperavas obter. Ele tomou o teu partido... os cinco pardais ficaram com as
asas cortadas.
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- Sim, sim, compreendo tudo isso, Délio, mas este Marco António é esperto! Ele
quer aquilo que todos os romanos com visão querem: equilíbrio. E deixar-me a
mim sozinho em pé de igualdade com Hircano não é uma solução suficientemente
romana. Fasael e eu num dos pratos da balança e Hircano no outro. Oh, Marco
António, como és esperto! César era um génio, mas pensava que tu eras burro.
Agora descubro que és outro César.
Délio ficou a ver Herodes afastar-se com a cabeça à roda. Entre a breve
conversa do jantar e a audiência daquele dia, Marco António fizera algumas
investigações. Fora por isso que gritara por Lucílio! E que fraude que eles
eram, ele e Octaviano! Tinham queimado todos os papéis de Bruto e de Cássio uma
ova! Mas, tal como Herodes, eu pensava que o António era um burro educado. E
não é! E não é! Vai meter a colher em tudo no Oriente, elevando um homem e
despromovendo outro, até todos os reinos-clientes e satrapias serem
completamente seus. Não de Roma. Seus. Mandou Octaviano de regresso a Itália
com uma tarefa suficientemente pesada para dar cabo de um jovem tão fraco e
enfermiço mas, para o caso de Octaviano não quebrar, António estará preparado.
Quando António deixou a capital da Bitínia todos os potentados, com excepção de
Herodes e dos cinco membros do Sinédrio, o acompanharam, insistindo em
proclamar a sua lealdade aos novos governantes de Roma, continuando a afirmar
que Bruto e Cássio os tinham enganado, mentido - ai, ai, ai, os tinham forçado!
Tendo pouca paciência para as lamentações e choros orientais, António não fez o
mesmo que Pompeu, o Grande, César e todos os outros tinham feito: convidar o
mais importante dentre eles para jantar e para viajar na sua comitiva. Não,
Marco António fez de conta que os seus reais companheiros de acampamento não
existiam durante todo o caminho de Nicomédia a Ancira, a única cidade com um
tamanho razoável em toda a Galácia.
Ali, na vastidão das planícies da mais fértil região de pastagens a leste da
Gália, viu-se forçado a fixar residência no palácio de Deiotaro e a esforçar-se
por ser amistoso. A estada durou quatro dias e três deles já foram um
sacrifício, mas nesse período António informou Deiotaro de que este manteria o
seu reino... de momento. Ao seu segundo filho preferido, Deiotaro Filadelfo,
foi atribuído um domínio selvagem e montanhoso na Paflagónia (que não tinha
utilidade para ninguém) enquanto que o seu filho preferido, Castor, não recebeu
nada e o que o velho rei deveria ter concluído desse facto estava fora do
alcance das suas faculdades mentais, em declínio. Para todos os romanos que
acompanhavam António, aquilo significava que, a seu tempo, seriam feitas
mudanças drásticas na Galácia e que estas não favoreceriam nenhum dos
Deiotaros.
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O tempo estava frio, mas só ficava gelado quando se levantava vento e nas
profundezas das gargantas o vento era pouco. Apesar da cor, a água era potável
para os homens e para os cavalos; a Anatólia Central não era uma região muito
populosa.
Eusebeia Mazaca estava situada na base do grande vulcão Argaeus, que estava
branco de neve, pois não havia memória de ter entrado em erupção. Uma cidade
azul, pequena e empobrecida; todos a tinham saqueado desde tempos imemoriais,
pois os seus reis eram demasiado sovinas para manterem um exército.
Foi ali que António se apercebeu de como iria ser difícil espremer ainda mais
ouro e tesouros do Oriente; Bruto e Cássio tinham levado tudo aquilo que o rei
Mitrídates, o Grande, amealhara. Uma constatação que o deixou bastante
consternado e que o levou a inspeccionar com Publícola, os irmãos Decídio Saxa
e Délio, o reino dos sacerdotes de Ma em Comana, não muito longe de Eusebeia
Mazaca. Que o rei senil da Capadócia e o seu filho ridiculamente incompetente
ficassem à espera no seu palácio despojado! Talvez em Comana encontrasse um
monte de ouro sob as lajes de aspecto inofensivo. Os sacerdotes não queriam
saber dos reis quando se tratava de proteger o seu dinheiro.
Ma era uma encarnação de Kubaba Cibele, a Grande Mãe Terra que governara todos
os deuses, masculinos e femininos, quando a humanidade aprendera a contar a sua
história em volta das fogueiras. Através dos séculos fora perdendo poder
excepto em locais como as duas Comanas, uma ali na Capadócia e outra mais a
norte, no Ponto e em Pessinunte, não longe do local onde Alexandre, o Grande,
cortou o nó górdio com a sua espada. Cada um daqueles templos era governado por
um reino independente, com o rei a servir também de sumo sacerdote e cada um
deles estava delimitado por fronteiras naturais como cerejas do Ponto dentro de
uma taça.
Dispensando uma escolta de soldados, António, os quatro amigos e uma quantidade
de criados, entraram na encantadora aldeiazinha da Comana capodiciana,
reparando com agrado nas casas dispendiosas, nos jardins que prometiam florir
profusamente na Primavera seguinte, no imponente templo de Ma que se erguia
sobre uma pequena colina, rodeado por um bosque de bétulas, com uma avenida
pavimentada ladeada por choupos e que conduzia à casa terrena da deusa. De um
dos lados ficava o palácio. Tal como no templo, as suas colunas dóricas eram
azuis com as bases escarlates; as paredes por detrás eram de um azul muito mais
escuro e as telhas da cobertura debruadas a ouro.
Um jovem, que aparentava ter pouco menos de vinte anos, aguardava-os na frente
do palácio, vestido com vestes vaporosas de gaze verde e com a cabeça rapada
coberta por um chapéu redondo e dourado.
- Marco António - disse António desmontando o seu cavalo público cinzento
mosqueado e atirando as rédeas a um dos três criados de que se fizera
acompanhar.
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Naquele momento, tinha trinta e quatro anos e parecia ter vinte e quatro.
Apesar de Publícola ter ficado a pensar nas razões que a teriam levado a
aparecer no jantar quando o convidado de honra era um mulherengo famoso,
Glafira conhecia perfeitamente os seus motivos. A lascívia não era um deles.
Ela, que pertencia à Grande Mãe, havia muito que abdicara da lascívia por a
considerar humilhante. Não, ela desejava mais para os filhos do que um
pequeníssimo reino sacerdotal! Ambicionava a maior parte da Anatólia que
conseguisse obter e, se Marco António fosse o tipo de homem que os rumores
afirmavam ser, então aquela era a sua oportunidade.
António susteve sonoramente a respiração - mas que beleza! Alta e esbelta, com
pernas longas, seios magníficos e um rosto que rivalizava em beleza com o de
Helena: lábios carnudos e vermelhos, pele perfeita como a pétala de uma rosa,
olhos azuis brilhantes cobertos por espessas pestanas negras e cabelos loiros
como o linho que caíam, totalmente lisos, pelas suas costas como uma folha de
prata batida. Não ostentava quaisquer jóias, provavelmente por não as possuir.
A túnica azul ao estilo grego era de lã vulgar.
Publícola e Délio foram empurrados do divã com tal rapidez que quase não
conseguiram manter o equilíbrio; uma mão enorme já estava a dar pancadinhas no
espaço onde antes tinham estado sentados.
- Senta-te aqui ao pé de mim, bela criatura! Como te chamas?
- Glafira - disse ela descalçando os chinelos de feltro e esperando que um
criado lhe calçasse meias quentes. Depois reclinou-se no divã, mas a uma
distância de António que o impedia de a abraçar, algo que ele parecia prestes a
fazer. Os rumores estavam certos quando diziam que ele não era um amante
subtil, se aquele acolhimento servia de indicativo. Bela criatura, realmente!
Ele encara as mulheres como uma conveniência mas eu, decidiu Glafira, tenho que
me aplicar para ser uma conveniência mais conveniente do que o seu cavalo, o
seu secretário ou o seu penico. E se ele me engravidar, farei sacrifícios à
Deusa para que me dê uma rapariga. Uma filha de António poderia casar-se com o
rei dos Partos - mas que aliança! Ainda bem que nos ensinaram a chupar melhor
com as nossas vaginas do que uma fellatrix com a boca! Vou escravizá-lo.
E foi assim que António se demorou em Comana o resto do Inverno e quando, no
início de Março, partiu finalmente para a Cilícia e para Tarso, levou Glafira
com ele. Os seus dez mil soldados de infantaria não tinham ficado nada ralados
com aquela licença inesperada; a Capadócia era uma terra cheia de mulheres
cujos homens tinham sido massacrados num qualquer campo de batalha ou levados
como escravos. Como aqueles legionários eram tão bons agricultores como eram
soldados, apreciaram as férias.
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Porque não envias as tuas tropas à Cilicia Pedia e não vês o que por lá há?
Podes ficar aqui... entrega o comando a Barbácio.
Era um bom conselho e António sabia-o. Seria muito melhor fazer com que os
Cilícios suportassem o custo dos abastecimentos das suas tropas do que a pobre
Tarso, especialmente se havia fortalezas de bandidos para serem saqueadas.
- Esse é um conselho sensato que tenciono seguir - disse António -, mas isso
não vai chegar, nem de perto nem de longe. Compreendo finalmente porque é que
César estava determinado a conquistar os Partos: - Não há verdadeira riqueza
deste lado da Mesopotâmia. Oh, amaldiçoado seja Octaviano! Roubou a arca de
guerra de César, aquele vermezinho! Enquanto eu estava na Bitínia todas as
cartas que recebi de Itália me diziam que ele estava à morte em Brundísio e que
não conseguiria percorrer nem quinze quilómetros na Via Ápia. E que me dizem as
cartas dos que ficaram em casa e que recebo aqui em Tarso? Ora, que tossiu e
cuspiu o caminho todo até Roma onde anda muito ocupado a dar graxa aos
representantes das legiões. A requisitar as terras públicas de todos os locais
que aclamaram Bruto e Cássio, quando não está de rabo para o ar para ser comido
por macacos como o Agripa!
Desvia a conversa de Octaviano, pensou Délio, ou ele esquece a sobriedade e
começa a berrar por vinho sem água. Aquela cabra manhosa da Glafira também não
ajuda - está demasiado ocupada a trabalhar em prol dos filhos. Por isso emitiu
sons compreensivos com a língua e encaminhou António para a discussão de como
obter dinheiro no Oriente falido.
- Há uma alternativa aos Partos, António.
- Antioquia? Tiro? Sídon? Cássio chegou lá primeiro.
- Sim, mas não avançou até ao Egipto. - Deixou cair dos lábios a palavra
"Egipto" como se fosse mel. - O Egipto pode comprar e vender Roma; todos
quantos já ouviram Marco Crasso sabem disso. Cássio ia a caminho de invadir o
Egipto quando Bruto o chamou a Sardes. Ficou com as quatro legiões egípcias de
Alieno, sim, mas, lamentavelmente, na Síria. A rainha Cleópatra não pode ser
acusada disso, mas ela também não te enviou nenhuma ajuda a ti e a Octaviano.
Penso que a inactividade dela poderá ser avaliada numa multa de dez mil
talentos.
António grunhiu.
-Ah! Sonhas acordado, Délio.
- Não, de certeza que não! O Egipto é fabulosamente rico.
A ouvi-lo sem prestar muita atenção, António analisava uma carta da sua
aguerrida esposa Fúlvia. Na carta ela queixava-se das perfídias de Octaviano e
descrevia a precariedade da posição deste de forma directa e grosseira. Aquele
era o momento, escrevia ela com o seu próprio punho, para levantar a Itália e
Roma contra ele! E Lúcio pensava da mesma maneira: Lúcio iniciara o alistamento
de legiões. Disparate, pensou António, que conhecia o seu irmão Lúcio demasiado
bem para o achar capaz de contar sequer dez contas num ábaco. Lúcio a encabeçar
uma revolução?
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Não, ele limitava-se a recrutar homens para o irmão mais velho Marco. Sim, na
verdade Lúcio era cônsul naquele ano, mas o seu colega era Vácia, que devia ser
quem estava a comandar as operações. Oh, as mulheres! Porque não podia Fúlvia
dedicar--se a disciplinar os filhos? A prole que dera a Clódio já crescera e
tornara-se independente, mas ainda tinha em casa o filho Curião e os dois
filhos de António.
Evidentemente que, por esta altura, António já concluíra que teria que adiar a
expedição contra os Partos pelo menos mais um ano. Não apenas por a falta de
fundos a tornar impossível, como também por precisar de vigiar Octaviano de
perto. Os seus marechais mais competentes, Polião, Caleno e o velho e fiel
Ventídio, teriam que ser colocados no Ocidente, com o grosso das suas legiões,
só para manter Octaviano debaixo de olho. Que lhe enviara uma carta implorando-
lhe que usasse a sua influência para deter Sexto Pompeu, que andava
atarefadíssimo a atacar as rotas marítimas para roubar o trigo romano como um
vulgar pirata. Tolerar Sexto Pompeu não fazia parte do acordo entre ambos,
lamuriava-se Octaviano - estaria Marco António lembrado de como se tinham
sentado os dois, após Filipos, para dividir os deveres entre os três
triúnviros?
Se me lembro, pensou António sombriamente. Foi depois de ter vencido em Filipos
que me apercebi, com uma certeza cristalina, de que não havia local no Ocidente
onde eu pudesse ir colher a glória necessária para eclipsar César. Para
ultrapassar César, terei que esmagar os Partos.
O pergaminho com a carta de Fúlvia tombou sobre o tampo da mesa e enrolou-se
sobre si próprio.
-Acreditas mesmo que o Egipto conseguirá arranjar uma soma dessas? - perguntou
erguendo os olhos para Délio.
- Certamente! - disse Délio com entusiasmo. - Pensa nisso, António! Ouro da
Núbia, pérolas oceânicas da Taprobana, pedras preciosas do Sinus Arabicus,
marfim do Corno de África, especiarias da índia e da Etiópia, o monopólio
mundial do papel e trigo que sobra ainda depois de alimentar todas as bocas do
mundo. O rendimento público do Egipto é de seis mil talentos de ouro por ano e
os rendimentos privados da soberana são outros seis mil!
- Tens andado a fazer os trabalhos de casa - disse António com um sorriso.
- De muito melhor vontade do que quando andava na escola.
António levantou-se e foi até à janela que dava para a agora onde, entre as
árvores, os mastros dos barcos trespassavam o céu sem nuvens. Não que visse
alguma coisa, os seus olhos estavam virados para dentro, recordando a
criaturinha magricela que César instalara numa villa de mármore na margem menos
favorecida do Pai Tibre. O que Cleópatra reclamara por ter sido excluída do
interior de Roma! Não na frente de César, que não suportava birras, mas nas
suas costas a história tinha sido outra. Todos os amigos de César tentaram, à
vez, explicar-lhe que ela, como rainha coroada, estava proibida, por razões
religiosas, de entrar em Roma. O que não acabara com os seus queixumes!
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Era magra como uma vara e não havia razões para pensar que tivesse engordado
desde que regressara a casa após a morte de César. Oh como Cícero ficara feliz
quando se espalhara o boato de que o navio dela naufragara no Nosso Mar! E como
ficara desapontado quando o boato se revelara falso. Essa deveria ter sido a
última das preocupações de Cícero, pela forma como as coisas vieram depois a
desenrolar-se... ele nunca deveria ter vociferado contra mim no Senado! É o
equivalente a um suicídio. Depois de ele ter sido executado, Fúlvia espetara-
lhe uma caneta na língua antes de expor a sua cabeça na rostra. Fúlvia! Aquilo
é que era uma mulher! Nunca gostei de Cleópatra, nunca me dei ao trabalho de ir
aos seus saraus ou aos seus jantares famosos... demasiado intelectuais, com
imensos eruditos, poetas e historiadores. E aqueles deuses todos com cabeças de
bicho na sala onde ela rezava! Reconheço que nunca compreendi César, mas a
paixão que ele tinha por Cleópatra era o maior mistério de todos.
- Muito bem, Quinto Délio - disse António em voz alta. - Vou ordenar à rainha
do Egipto que venha à minha presença em Tarso para responder à acusação de ter
auxiliado Cássio. Tu próprio podes entregar a convocatória.
Que maravilhoso, pensou Délio ao partir no dia seguinte pela estrada que levava
primeiro a Antioquia e continuava para sul, ao longo da costa, até Pelúsio.
Pedira para lhe darem um equipamento condigno e António acedera, concedendo-lhe
um pequeno exército de criados e dois esquadrões de cavalaria como escolta.
Todavia, não viajaria de liteira! Isso seria muito demorado e não agradaria ao
impaciente António que lhe dera um mês para chegar a Alexandria, que ficava a
mil e seiscentos quilómetros de Tarso. O que significava que Délio teria que se
apressar. Afinal não sabia quanto tempo seria necessário para convencer a
rainha de que teria que obedecer à convocatória de António e comparecer perante
o seu tribunal em Tarso.
Com o queixo apoiado na mão, Cleópatra observava Cesarião debruçado sobre as
tabuinhas de cera, com Sosígenes sentado à sua direita a supervisioná-lo. Não
que o filho precisasse dele; Cesarião raramente se enganava e nunca cometia
erros. O peso plúmbeo do desgosto esmagou-lhe o peito e fê-la engolir com
dificuldade. Olhar para o filho de César era como olhar para o próprio César,
que com aquela idade devia ter sido igual a Cesarião: alto, gracioso, com
cabelos dourados, nariz comprido e aquilino, lábios cheios e bem-humorados
delicadamente pregueados aos cantos. Oh, César, César! Como posso viver sem ti?
E eles queimaram-te, aqueles romanos bárbaros! Quando chegar a minha hora não
terei um César a meu lado no túmulo para se erguer comigo e caminhar no Reino
dos Mortos. Puseram as tuas cinzas num vaso e construíram uma monstruosidade de
mármore para instalar o vaso.
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O teu amigo Gaio Macio escolheu o epitáfio: VENIVIDIVICI gravado a ouro numa
pedra negra e polida. Mas eu nunca vi o teu túmulo nem quero ver. Só o que me
resta é este enorme peso do desgosto que nunca desaparece. Mesmo quando consigo
dormir está ali para me atormentar os sonhos. Mesmo quando olho para o nosso
filho, está presente para fazer pouco das minhas aspirações. Porque será que
nunca penso nos tempos felizes? Será esse um padrão da perda, ficar a remoer no
vazio do presente? Desde que aqueles romanos hipócritas te assassinaram, o meu
mundo é feito de cinzas condenadas a nunca se misturarem com as tuas. Cleópatra
pensa nisso e chora.
As mágoas eram muitas. A primeira e pior de todas era o facto de o rio Nilo não
encher. Durante três anos seguidos a água, mãe de toda a vida, não se espalhara
pelos campos para os molhar, ensopar e amolecer as sementes. O povo passava
fome. Depois viera a praga, rastejando lentamente pelas margens do rio Nilo
desde as cataratas de Mênfis e a boca do Delta, espalhando-se depois pelos
canais e ramais do Delta e atingindo finalmente Alexandria.
E de todas as vezes, pensou ela, tomei as decisões erradas, uma autêntica
rainha Midas num trono de ouro que não compreendeu, até ser demasiado tarde,
que as pessoas não podem comer ouro. Não houve ouro nenhum que conseguisse
persuadir os Sírios e os Árabes a aventurarem-se Nilo abaixo para vir buscar os
potes de cereais que os aguardavam em cada cais. Ficaram ali até apodrecerem e
depois não havia gente suficiente para regar os campos à mão e não houve
quaisquer colheitas. Olhei para os três milhões de habitantes de Alexandria e
decidi que apenas um milhão de entre eles poderia comer e publiquei um édito em
que retirava a cidadania aos metecos e aos judeus. Um édito que os proibia de
comprar cereais nos celeiros, direito que ficava reservado apenas aos cidadãos.
Oh, os motins! E tudo para nada. A praga entrou em Alexandria e matou dois
milhões de pessoas sem distinguir cidadãos de não cidadãos. Morreram gregos e
macedónios, gente pela qual eu abandonara os judeus e os metecos. No fim havia
cereais com abundância para os que não sucumbiram à praga, judeus e metecos e
gregos e macedónios. Devolvi-lhes a cidadania, mas agora odeiam-me. Tomei só
decisões erradas. Sem César para me guiar, revelei ser uma má rainha.
Dentro de menos de dois meses o meu filho fará seis anos e eu não tenho mais
filhos, estou estéril. Não lhe dei uma irmã com quem casar nem um irmão para
tomar o seu lugar, caso alguma coisa lhe aconteça. Tantas noites de amor com
César em Roma e ainda assim não engravidei. ísis amaldiçoou-me.
Apolodoro entrou apressado, com a corrente de ouro do seu cargo a tilintar.
- Minha senhora, chegou uma carta urgente de Pitodoro de Trales. A mão caiu e o
queixo ergueu-se. Cleópatra franziu o sobrolho.
- Pitodoro? Que é que ele quer?
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- Ouro não é - disse Cesarião erguendo os olhos das tabuinhas com um sorriso. -
Ele é o homem mais rico da província da Ásia.
- Presta atenção às contas, rapaz! - disse Sosígenes.
Cleópatra levantou-se da cadeira e foi até junto de uma abertura na parede onde
tinha uma boa luz. Um exame minucioso do selo verde mostrou-lhe um pequeno
templo no meio e as palavras PYTHO. TRALLES em torno do bordo. Sim, parecia
autêntico. Quebrou o selo e desenrolou o pergaminho escrito numa letra que
revelava que nenhum escriba tivera contacto com ele. Era demasiado irregular.
Faraó e Rainha, Filha de Ámon-Rá,
Escrevo-vos como alguém que amou o Deus Júlio César durante muitos anos e
alguém que respeita a devoção que ele tinha por vós. Apesar de saber que
devereis ter informadores que vos mantêm a par de tudo o que se passa em Roma e
no Mundo Romano, duvido que qualquer um deles seja confidente de Marco António.
Com certeza que sabeis que António viajou de Filipos para a Nicomédia no último
Novembro e que muitos reis, príncipes e etnarcas se encontraram lá com ele. Ele
não fez praticamente nada para alterar o estado de coisas no Oriente, mas
ordenou que lhe fossem pagos vinte mil talentos de prata imediatamente. A
dimensão do tributo foi um choque para todos nós.
Após visitar a Galácia e a Capadócia, chegou a Tarso. Segui-o com os dois mil
talentos de prata que nós, os etnarcas da província da Ásia, tínhamos
conseguido juntar. Onde estavam os outros dezoito mil talentos?, perguntou ele.
Penso ter conseguido convencê-lo de que não conseguíramos arranjar nada de
parecido com isso, mas a sua resposta foi aquela a que já nos habituámos:
pagávamos-lhe mais nove anos de tributo adiantados e seríamos absolvidos. Como
se tivéssemos posto de reserva dez anos de tributo! Mas eles não nos dão
ouvidos, estes governadores romanos.
Imploro o vosso perdão, grande rainha, por vos estar a aborrecer com os nossos
problemas, mas não são esses problemas que me levam a escrever-vos em segredo.
Esta carta serve para vos avisar de que dentro de muito poucos dias ireis
receber a visita de um tal Quinto Délio, um homenzinho avarento e matreiro que
conseguiu ficar bem-visto aos olhos de Marco António. Os seus murmúrios ao
ouvido de António têm o objectivo de lhe encher a arca de guerra, pois António
está desejoso de fazer aquilo que César não viveu o suficiente para alcançar -
conquistar os Partos. A Cilicia Pedia está a ser limpa de uma ponta à outra, os
bandidos expulsos dos seus refúgios e os assaltantes árabes repelidos para lá
do Amano. Uma empreitada proveitosa, mas não suficiente, por isso Délio sugeriu
que António vos convocasse para Tarso para vos multar em dez mil talentos de
ouro por terdes apoiado Gaio Cássio.
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Não há nada que eu possa fazer para vos ajudar, minha boa Rainha, para além de
vos avisar que Délio já está neste momento a caminho do Sul. Talvez com este
pré-aviso tenhais tempo para encontrar uma forma de o frustrar a ele e ao seu
amo.
Cleópatra devolveu o rolo a Apolodoro e ficou a morder o lábio de olhos
fechados. Quinto Délio? Não reconhecia o nome, não se tratava portanto de
ninguém com importância suficiente em Roma para ter sido convidado para as suas
recepções, nem mesmo para as mais alargadas; Cleópatra nunca se esquecia de um
nome ou do rosto a que pertencia. Devia ser outro Vétio, um qualquer cavaleiro
ignóbil com encanto e lisonja, exactamente o género que agradava a um labrego
como Marco António. Desse recordava-se! Grande e forte, com músculos de
Hércules, ombros largos como montanhas, uma cara feia com um nariz que se
esforçava por tocar o queixo revirado para cima sobre uma boca pequena de
lábios finos. As mulheres desfaleciam à volta dele porque tinha fama de ter um
pénis gigantesco - que bela razão para desfalecer! Os homens gostavam dele por
causa das suas maneiras seguras e calorosas e a confiança em si próprio. Mas
César, de quem era primo chegado, desencantara-se dele - esta fora a principal
razão das visitas de António a sua casa terem sido tão poucas. Quando ficara a
governar a Itália massacrara oitocentos cidadãos no Fórum romano, crime que
César não lhe perdoara. Depois tentara conquistar os soldados de César e
acabara por instigar um motim que quebrara o coração de César.
É claro que os seus agentes lhe tinham relatado que muitos pensavam que António
fizera parte da conspiração para assassinar César, mas ela própria não tinha a
certeza. António escrevera-lhe cartas nessa época explicando que não lhe
restara alternativa senão ignorar o assassínio, desistir de se vingar dos
assassinos e até aprovar a sua conduta. E nessas cartas António assegurara-lhe
que, assim que Roma acalmasse, ele recomendaria Cesarião para o Senado por ser
um dos principais herdeiros de César. Para uma mulher devastada pelo desgosto,
aquelas palavras tinham sido um bálsamo. Ela quisera acreditar nelas! Oh, não,
ele não dissera que Cesarião deveria ser reconhecido, pela lei romana, como o
herdeiro romano de César! Mas apenas que o direito de Cesarião ao trono do
Egipto seria ratificado pelo Senado. Se assim não fosse, o seu filho ver-se-ia
confrontado com os mesmos problemas que tinham atormentado o pai dela, que
nunca se sentira seguro no trono por causa das pretensões de Roma de que o
Egipto lhe pertencia. Assim como ela não se sentira segura até César ter
entrado na sua vida. Agora César partira e o sobrinho dele, Gaio Octávio,
usurpara mais poder do que qualquer rapaz de dezoito anos alguma vez
conseguira. Calmamente, astutamente, rapidamente. De início pensara no jovem
Octaviano como num possível pai para filhos seus, mas ele recusara-a numa breve
carta que ainda sabia de cor.
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<Mapa - omitido>
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- Oh, o que está feito, feito está! - disse Cleópatra impaciente. Recostou-se
na cadeira subitamente pensativa. - Ninguém consegue intimidar a Faraó, mas...
Cha'em, pede a Tach'a que consulte as pétalas de lótus na taça. António poderá
vir a ser útil.
Sosígenes ficou sobressaltado.
- Majestade!
- Oh, vamos Sosígenes, o Egipto é mais importante do que qualquer ser vivo!
Tenho sido uma má governante, repetidamente privada de Osíris! Interessa-me o
tipo de homem que Marco António é? Não, não me interessa. António tem sangue
juliano. Se a taça de Ísis proclamar que ele tem uma quantidade suficiente de
sangue juliano nas suas veias, então talvez eu consiga tirar mais dele do que
ele de mim.
- Fá-lo-ei - disse Cha'em pondo-se de pé.
- Apolodoro, a barca fluvial Filopator aguentará a travessia marítima até Tarso
nesta época do ano?
O senhor alto-camareiro franziu o sobrolho.
- Não tenho a certeza, Majestade.
- Então tira-a do abrigo e põe-na no mar.
- Filha de Amon-Rá, tendes muitos navios!
- Mas Filopator construiu apenas dois navios e aquele que ele fez para navegar
no mar apodreceu há cem anos. Se tenho que atordoar António, tenho que chegar a
Tarso com uma pompa que nenhum romano tenha alguma vez testemunhado, nem mesmo
César.
Para Quinto Délio, Alexandria era a cidade mais maravilhosa do mundo. Tinham
passado sete anos desde os tempos em que César quase a destruíra e Cleópatra
reconstruíra-a ainda com maior glória. Todas as mansões que ladeavam a Avenida
Real tinham sido restauradas, a colina de Pã erguia-se sobre uma cidade plana e
verdejante, o consagrado templo de Serápio fora reconstruído segundo o estilo
coríntio e, no local onde em tempos as torres de cerco tinham gemido e subido e
descido a Avenida Canópica, templos e instituições públicas espantosos
contrariavam a praga e a fome. Na verdade, pensou Délio erradamente, ao
contemplar Alexandria do cimo da colina de Pã, por uma vez na sua vida, o
grande César exagerara no grau de destruição que provocara.
E no entanto ainda não conseguira ver a rainha que estava, segundo lhe disse
altivamente um sujeito majestoso chamado Apolodoro, de visita ao Delta para ver
as fábricas de papel. Tinha sido então conduzido aos seus aposentos -
muitíssimo sumptuosos - e deixado entregue a si próprio. Para Délio tal não se
resumia simplesmente a ver a paisagem; com ele levava um escriba que ia tomando
notas com um estilete largo e tabuinhas de cera.
Na Sema, Délio riu-se alegremente.
- Escreve, Lasthenes! O túmulo de Alexandre, o Grande, mais os túmulos de
trinta e tal Ptolomeus num recinto pavimentado com mármore azul, com reflexos
verdes, de qualidade excepcional...
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E oh, o farol! O edifício mais alto do mundo, muitíssimo mais alto do que o
Colosso de Rodes alguma vez fora. Pensava que Roma era linda, disse Délio para
consigo, depois vi Pérgamo e achei-a maravilhosa, mas agora que vi Alexandria,
estou atordoado, simplesmente atordoado. António esteve aqui há cerca de vinte
anos mas nunca o ouvi falar da cidade. A farra deve ter sido tal que ele nem se
lembra, suponho.
A convocatória para a audiência com a rainha Cleópatra chegou no dia seguinte,
o que lhe convinha; já concluíra a sua avaliação do valor da cidade e Lasthenes
passara tudo a limpo em bom papel e em duplicado.
A primeira coisa de que teve consciência foi do ar perfumado, pesado com
incensos odoríferos e uma substância que nunca cheirara antes; depois a sua
visão sobrepôs-se ao olfacto e ele ficou de boca aberta a olhar para as paredes
de ouro, o pavimento de ouro, as estátuas de ouro, as mesas e cadeiras de ouro.
Um olhar mais atento revelou-lhe que o ouro era apenas uma camada fina e
superficial, mas a sala brilhava como um sol. Duas das paredes estavam cobertas
com estranhas pinturas de pessoas e plantas a duas dimensões, ricamente
coloridas em todos os tons inimagináveis. Com excepção da púrpura de Tiro.
Dessa cor não havia vestígios.
- Saúdem todos os dois Faraós, Senhores das Duas Senhoras do Alto e Baixo
Egipto, Senhores do Papiro e da Abelha, Filhos de Amon-Rá, Ísis e Ptah! - rugiu
o Senhor Alto-Camareiro batendo com o bastão dourado no solo, emitindo um som
cavo que fez com que Délio repensasse as suas conclusões quanto ao revestimento
com uma camada de ouro fino. O pavimento tinha um som maciço.
Sentaram-se em dois tronos sofisticados, a mulher no topo da plataforma dourada
e o rapaz um degrau abaixo dela. Estavam os dois vestidos com roupas estranhas
feitas com linho branco finamente tratado e ambos usavam enormes toucados de
esmalte vermelho em torno de um tubo de esmalte branco. Em volta do pescoço
traziam colares de ouro encastoados com jóias magníficas, os braços estavam
envoltos por braceletes de ouro, à cintura tinham cintos cravados de pedras
preciosas e nos pés calçavam sandálias de ouro. Tinham os rostos muito
pintados, o dela de branco e o do rapaz de um vermelho-ferrugem e os olhos
estavam de tal forma pintados com várias cores e contornados a preto, que
deslizavam, sinistros, como peixes com presas, de uma forma completamente
estranha aos olhos humanos.
- Quinto Délio - disse a rainha (Délio não fazia ideia do que quereria dizer o
título de Faraó) -, damos-te as boas-vindas ao Egipto.
- Venho como embaixador oficial do imperator Marco António - disse Délio
apanhando o jeito à coisa - e trago saudações cordiais para os tronos gémeos do
Egipto.
- Mas que impressionante - disse a rainha com os olhos a deslizarem de forma
estranha.
- É tudo? - perguntou o rapaz cujos olhos eram mais brilhantes.
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Mergulhou e veio à superfície com o rosto coberto por uma mistura de preto e
vermelho-ferrugem; depois mergulhou repetidamente.
- A tinta é solúvel em água, mesmo salgada - disse o rapaz, com água pela
cintura e esfregando vigorosamente a cara com ambas as mãos.
E ali estava César. Ninguém poderia duvidar da identidade do pai ao ver o
filho. Será por isso que António o quer apresentar ao Senado e propor que este
o confirme rei do Egipto? Assim que o rapaz fosse visto em Roma por todos
quantos tinham conhecido César, arranjaria clientes mais depressa do que o
casco de um navio apanha crustáceos. Marco António quer desequilibrar
Octaviano, que só consegue imitar César com botas com solas espessas e imitando
os gestos de César. Cesarião é o artigo genuíno, Octaviano é uma imitação
barata. Oh, como Marco António é esperto! Provocar a queda de Octaviano
exibindo César em Roma. Os soldados veteranos derreter-se-ão como neve ao sol e
eles têm muito poder.
Cleópatra, já limpa da maquilhagem real através do método mais ortodoxo da taça
de água quente, começou a rir às gargalhadas.
-Apolodoro, isto é maravilhoso! - gritou entregando a Sosígenes os papéis que
acabara de ler. - Onde foste arranjá-los? - perguntou enquanto Sosígenes os
examinava soltando risadinhas.
- O escriba dele gosta mais de dinheiro do que de estátuas, Filha de Ámon-Rá. O
escriba fez uma cópia extra e vendeu-ma.
- Será que Délio agiu seguindo ordens? Ou será apenas a forma que tem de
demonstrar ao seu amo que lhe pode ser valioso?
- Inclino-me para a segunda hipótese, Majestade - disse Sosígenes limpando os
olhos. - Que tolice! A estátua de Serápio pintada por Meias? Esse já estava
morto há muito tempo quando Briáxis deitou bronze num molde pela primeira vez.
E não deu pela estátua de Apolo de Praxíteles no Ginásio: "uma escultura sem
grande valor artístico" chamou-lhe ele! Oh, Quinto Délio, és um idiota!
- Não subestimemos um homem só por não conseguir distinguir um Fídias de uma
cópia napolitana em gesso - disse Cleópatra. - O que esta listagem me diz é que
António está desesperado por dinheiro. Dinheiro esse que eu, para começar, não
estou disposta a dar-lhe.
Cha'em entrou acompanhado pela mulher.
- Tach'a, finalmente! Que nos diz a taça a respeito de António?
O rosto belo e suave permaneceu impassível. Tach'a era uma sacerdotisa de Ptah,
treinada quase desde o berço para não deixar transparecer as emoções.
- As pétalas de lótus formaram um padrão que eu nunca tinha visto, Filha de Rá.
Por mais vezes que eu as lançasse à água, aparecia sempre o mesmo padrão. Sim,
ísis aprova Marco António para pai dos vossos filhos, mas isso não será fácil e
não acontecerá em Tarso. No Egipto, só no Egipto. A semente dele é demasiado
fraca, terá que ser alimentado com os sumos e os frutos que fortalecem a
semente dos homens.
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- Se o padrão é tão único, Tach'a minha mãe, como podes ter tanta certeza do
que as pétalas nos dizem?
- Porque pesquisei nos arquivos sagrados, Faraó. Este padrão que me apareceu
foi apenas o último a aparecer nos últimos três mil anos.
- Deverei recusar-me a ir a Tarso? - perguntou Cleópatra a Cha'em.
- Não, Faraó. As minhas próprias visões dizem-me que a ida a Tarso é
necessária. António não é um Deus fora do Ocidente, mas tem algum desse sangue.
O suficiente para os nossos objectivos, que não são arranjar um rival a
Cesarião! Daquilo que ele precisa é de uma irmã com quem se casar e de alguns
irmãos que sejam seus subordinados leais.
Cesarião entrou a pingar.
- Mamã, acabei de falar com Quinto Délio - disse ele, deixando-se cair num sofá
fazendo com que Charmian corresse, sorridente, em busca de toalhas.
- Falaste? Onde foi isso? - perguntou Cleópatra a sorrir.
Os olhos grandes, mais verdes que os de César e sem a natureza penetrante
daqueles, franziram-se de diversão.
- Quando fui nadar. Ele andava a chapinhar. Imaginas uma coisa assim? A
chapinhar! Disse-me que não sabia nadar e, através dessa confissão, concluí que
ele nunca foi contubernalis em nenhum exército com alguma importância. É um
soldado de sofá.
- A conversa foi interessante, meu filho?
- Eu confundi-o, se é isso que queres dizer. Suspeitou de que tínhamos sido
avisados da sua chegada mas, quando me separei dele, já ele estava certo de nos
ter apanhado de surpresa. Foi a notícia de que iríamos de barco para Tarso que
lhe levantou as suspeitas. Por isso deixei escapar que o fim de Abril é a
altura do ano em que tiramos os navios dos seus abrigos e os inspeccionamos em
busca de algum rombo e fazemos exercícios com as tripulações. Foi um feliz
acaso, disse eu, estarmos prontos para zarpar e não termos que passar imenso
tempo a remendar os barcos.
E ele ainda não tem seis anos, pensou Sosígenes. Esta criança foi abençoada por
todos os deuses do Egipto.
- Não estou a gostar desse "nós" - disse a mãe franzindo o cenho. O rosto
animado e ansioso ensombrou-se.
- Mamã! Não podes estar a falar a sério! Eu vou contigo... Tenho que ir
contigo!
- Alguém tem que reinar na minha ausência, Cesarião.
- Eu não! Sou demasiado novo!
- Tens idade suficiente e isso chega. Nada de Tarso para ti.
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Não soube se deveria ficar triste ou contente; o navio da rainha sem dúvida que
ficaria muito para trás dos restantes, mesmo sendo cómodo e luxuoso.
Apesar de Délio não o saber, os seus mestres navais tinham feito alterações ao
navio, que aguentara surpreendentemente bem as experiências no mar. Da popa à
proa, o navio media cento e seis metros e tinha doze metros de largo. Ao
transferir ambos os bancos de remadores para plataformas exteriores, tinha-se
conseguido aumentar o espaço disponível no porão, mas a Faraó não podia ficar
perto dos trabalhadores, pelo que o porão ficou para as cento e cinquenta
pessoas que viajavam no Filopator, a maioria das quais estava louca de terror
só com a ideia de viajar no mar.
A antiga sala de recepções à popa foi transformada no domínio da Faraó, com
espaço suficiente para um quarto, outro para Charmian e Iras, e uma sala de
jantar que acomodava vinte e um divãs. A arcada de colunas com capitéis de
lótus ficou no mesmo sítio, erguendo-se na frente do mastro com uma plataforma
elevada, protegida por uma cobertura de telhas e suportada por uma coluna nova
em cada canto. Mais à frente ficava a sala de recepções, agora um pouco mais
pequena do que a antiga, para que Sosígenes e Cha'em pudessem ter os seus
próprios quartos. E ainda mais à frente, ardilosamente escondida na proa, fora
construída uma cozinha aberta. Nas viagens fluviais a maior parte da comida era
preparada em terra; o fogo era sempre um risco num navio de madeira. Mas no mar
não havia margens onde se pudesse cozinhar.
Cleópatra fazia-se acompanhar de Charmian e de Iras, duas mulheres de cabelos
claros e pura linhagem macedónia que eram suas companheiras desde a infância.
Tinham sido elas a ficar com a tarefa de seleccionar trinta jovens raparigas
para viajarem com a Faraó até Tarso. Tinham que ter rostos belos e corpos
voluptuosos, mas nenhuma delas podia ser prostituta. O soldo era de dez dracmas
de ouro, uma pequena fortuna, mas não era o dinheiro que as dispunha a
enfrentar o desconhecido, mas antes as roupas que lhes tinham dado para usar em
Tarso - tecidos vaporosos de ouro e prata, brocados reluzentes de contas de
metal, linhos transparentes em todas as cores do arco-íris, lãs tão finas que
se agarravam aos corpos como se estivessem molhadas. Uma dúzia de rapazinhos
muitíssimo belos tinha sido comprada nos mercados de escravos de Pelúsio e
quinze homens bárbaros muito altos e bem constituídos. Todos os homens em
exibição estavam equipados com saiotes bordados de forma a se assemelharem a
caudas de pavão. O pavão, decidira Cleópatra, seria o tema do Filopator e tinha
sido gasta uma boa maquia em ouro a comprar penas de pavão, uma soma que
levaria António às lágrimas.
A frota zarpou no primeiro dia de Maio e, impulsionada pela vela, o Filopator
mostrou desdenhosamente aos outros navios o enfeite da popa. Os únicos ventos
que poderiam ter soprado contrários à sua rota para norte, os ventos etésios,
não sopravam naquela época do ano. Uma brisa forte de sudoeste inchava as velas
da frota e facilitava em muito a vida dos remadores.
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Já vira outras figuras de proa, mas nenhuma tão grande nem que estivesse tão
integrada na própria proa. Aquele homem - talvez um rei antigo? - era o navio e
usava-o como se fosse uma capa adejante.
Tudo parecia feito de ouro; o navio era dourado desde a linha de água até ao
topo do mastro e o que não estava pintado a ouro estava coberto de azul e
verde--pavão, brilhando com o brilho do ouro. Os telhados dos abrigos
construídos no convés eram de telhas de faiança em azul e verde-vivo e uma
arcada completa de colunas com capitéis em forma de lótus ladeava o convés. Até
os remos eram dourados! E as pedras preciosas brilhavam por todo o lado! Só
aquele navio valia dez mil talentos de ouro!
Os perfumes pairavam no ar, ecoavam flautas e liras, ouviam-se os cânticos de
um coro, todos eles invisíveis; belíssimas raparigas com vestes vaporosas
atiravam flores retiradas de cestos dourados e vários rapazinhos lindos com
tangas decoradas com penas de pavão penduravam-se, rindo, dos cordames brancos
como neve. A vela enfunada, içada para ajudar os remadores a vencer a corrente,
era mais alva do que branca, com duas cabeças de animais bordadas - uma cobra-
de-capelo e um abutre - e um olho estranho a verter uma lágrima negra.
Havia penas de pavão por toda a parte, mas principalmente em torno de uma
plataforma dourada que se elevava na frente do mastro. Num trono estava sentada
uma mulher com vestes cobertas por penas de pavão e, na cabeça, o mesmo toucado
branco e vermelho usado pelo homem da figura de proa. Os seus ombros brilhavam
com as jóias cravadas num largo colar de ouro e um cinto largo do mesmo tipo
envolvia-lhe a cintura. Empunhava, cruzado sobre o peito, um bastão curvo de
pastor e um mangual de ouro trabalhado com lápis-lazúli. Tinha o rosto de tal
forma maquilhado que era impossível saber qual o seu verdadeiro aspecto; a
expressão era de total impassibilidade.
O navio passou suficientemente perto dele para que pudesse ver que o convés
estava pavimentado com mosaicos verdes e azuis que condiziam com as telhas. Um
navio pavão, uma rainha pavoa. Bem, pensou António inexplicavelmente irritado,
ela verá quem é o galo que está no poleiro em Tarso!
Passou a galope pela ponte que levava à cidade, saltou do cavalo à porta do
palácio do governador e entrou aos gritos pelos criados.
- Toga e lictores, já!
E quando a rainha enviou o seu camareiro, o eunuco Filo, para informar Marco
António da sua chegada, foi-lhe dito que Marco António estava na ágora a julgar
casos fiscais e que só poderia receber Sua Majestade na manhã seguinte.
Na realidade essa fora a intenção de Marco António havia vários dias; tal tinha
sido formalmente anunciado no tribunal da ágora e quando tomou o seu lugar no
tribunal, viu aquilo que esperara encontrar: uma centena de litigantes, pelo
menos igual número de advogados, várias centenas de espectadores e várias
dezenas de vendedores de bebidas, comida, petiscos, sombrinhas e leques.
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Mesmo em Maio, Tarso era quente. Razão pela qual o tribunal estava protegido
por um toldo carmim com a inscrição SPQR em pedaços de pano dependurados da sua
orla a intervalos de poucos metros. No cimo do tribunal de pedra sentava-se o
próprio António na sua cadeira curul de marfim, com doze lictores vestidos de
púrpura de cada um dos lados e com Lucílio sentado a uma mesa repleta de rolos
de pergaminhos. O mais recente actor naquele drama era um centurião grisalho,
de pé a um dos cantos do tribunal; envergava uma camisa de malha dourada,
caneleiras douradas, ostentava o peito carregado de phalerae, armillae, torques
e um capacete dourado cuja crina vermelha se abria em arco como um leque. Mas o
peito carregado de medalhas por actos de bravura não era o que intimidava
aquela audiência. Isso ficava a cargo da comprida espada gaulesa que o
centurião segurava com a ponta assente no solo. Tal era um lembrete para os
cidadãos de Tarso de que Marco António possuía imperium maius e podia mandar
executar quem quer que fosse por qualquer razão. Se se lhe metesse na cabeça
proferir uma sentença de morte, então aquele centurião executá-la-ia ali mesmo.
Não que António tivesse qualquer intenção de executar uma mosca ou uma aranha,
mas se os orientais estavam habituados a ser governados por gente que executava
tais caprichos regularmente, para quê desapontá-los?
Alguns dos casos eram interessantes e outros divertidos. António tratou de
todos eles com a eficiência e o distanciamento que parecia ser característica
de todos os Romanos, fossem eles membros do proletariado ou da aristocracia.
Era um povo que percebia a lei, tinha método, rotina, disciplina, embora
António fosse menos dotado destas qualidades essencialmente romanas do que a
maioria. Mesmo assim atacou a tarefa com vigor e, por vezes, com veneno. Um
movimento repentino da multidão provocou o desequilíbrio de um dos litigantes,
justamente no momento em que passaria a defesa do seu caso ao advogado
principescamente pago que estava a seu lado. Marco António virou a cabeça de
cenho franzido.
A multidão afastava-se, zumbindo de espanto, para dar passagem a uma pequena
procissão encabeçada por um homem castanho e de cabeça rapada, de vestes
brancas e uma fortuna em correntes de ouro à volta do pescoço. Atrás dele vinha
Filo, o camareiro, envolto em linhos azuis e verdes, o rosto delicadamente
maquilhado, o corpo brilhante de pedras preciosas. Mas eles não eram nada
quando comparados com aquilo que os seguia: uma espaçosa liteira dourada, a
cobertura de telhas de faiança, os cantos adornados por adejantes penas de
pavão. Era transportada por oito homens enormes, negros como passas, todos com
o mesmo tom de pele. Usavam tangas com motivos de penas de pavão e braceletes
de ouro e brilhantes toucados dourados nemes.
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Cleópatra aguardava-os, vestida com túnicas vaporosas que iam do âmbar mais
escuro junto à pele até à cor de palha clara na camada exterior. O estilo não
era grego, nem romano, nem asiático, mas algo de muito próprio, cintado, com
saias amplas e o corpete justo ao corpo realçando os seios pequenos. Os braços
muito magros eram suavizados por mangas em balão que terminavam nos cotovelos
para deixar espaço para as braceletes que lhe envolviam os antebraços. Em volta
do pescoço tinha uma corrente de ouro da qual pendia, montada numa belíssima
base de ouro, uma única pérola cor de morango. Os olhos de António foram
imediatamente atraídos por ela; susteve a respiração, desviando os olhos com
espanto para o seu rosto.
- Conheço essa pérola - disse.
- Sim, suponho que sua. César deu-a a Servília há muitos anos, para a subornar
quando desfez o noivado de Bruto com a filha. Mas Júlia morreu e depois Bruto
morreu e Servília perdeu todo o seu dinheiro na guerra civil. O velho Fabério
Margarita avaliou-a em seis milhões de sestércios, mas quando ela a pôs à venda
pediu dez milhões. Mulher idiota! Eu teria pago vinte milhões para ficar com
ela. Mas os dez milhões não chegavam para pagar as suas dívidas, segundo ouvi.
Bruto e Cássio perderam a guerra, o que lhe levou uma parte da fortuna e Vácia
e Lépido sugaram-na até ao tutano e levaram-lhe o resto. - Cleópatra falou em
tom divertido.
- É verdade que ela actualmente é pensionista de Ático.
- E a mulher de César suicidou-se, segundo sei.
- Calpúrnia? Bem, o pai dela, Pisão, queria casá-la com um traste qualquer
disposto a pagar uma fortuna pelo privilégio de se deitar com a viúva de César,
mas ela recusou-se. Pisão e a sua nova esposa fizeram-lhe a vida num inferno e
ela detestou ter que sair da Domus Publica. Cortou os pulsos.
- Pobre mulher. Sempre gostei dela. Também gostava de Servília, por acaso. As
que eu odiava eram as mulheres dos Homens Novos.
- A Terência de Cícero, a Valéria Messala de Pédio, a Fábia de Hírcio.
Compreendo a razão - disse António com um sorriso.
Enquanto conversavam, as raparigas conduziam aos respectivos divãs o grupo
fascinado que António trouxera consigo. Depois de elas terminarem, a própria
Cleópatra lhe pegou no braço e levou-o até ao divã na base do U, instalando-o
no locus consularis.
- Importas-te que não tenhamos um terceiro companheiro no divã? - perguntou.
- De maneira nenhuma.
Assim que se instalou foi servido o primeiro prato, um tal sortido de iguarias
que vários apreciadores que faziam parte do seu grupo aplaudiram com
entusiasmo. Passarinhos que eram comidos com ossos e tudo, ovos recheados com
pastas variadas, camarões grelhados, camarões cozidos ao vapor, camarões
abertos e grelhados com alcaparras gigantes e cogumelos. Ostras e vieiras
trazidas a galope da costa e mais uma centena de outros pratos, igualmente
deliciosos, destinados a serem comidos com os dedos.
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- Concordo, mas esta não é a altura ideal para levar Cesarião a Roma para
ratificar os nossos tratados com o Egipto. Temos problemas na Itália e não
posso interferir, faça Octaviano o que fizer para resolver esses problemas. Ele
herdou a Itália como parte do nosso acordo em Filipos... dali a única coisa que
eu quero são tropas.
- Como romano não sentes uma certa responsabilidade pelo que está a acontecer
na Itália, António? - perguntou ela de cenho franzido. - Será prudente e boa
política deixar a Itália sofrer tanto com a escassez e os conflitos económicos
entre comerciantes, proprietários de terras e soldados veteranos? Não deverias
tu, Octaviano e Lépido terem ficado em Itália para resolver em primeiro lugar
os seus problemas? Octaviano não passa de um rapaz, não é possível que tenha a
sensatez nem a experiência necessárias paia ser bem-sucedido. Porque não o
ajudas em vez de lhe criares problemas? - Soltou uma gargalhada áspera e bateu
na almofada. - Nada disto é vantajoso para mim, mas não paro de pensar na
confusão que César deixou atrás de si em Alexandria e de como eu tive que
conseguir que todos os cidadãos cooperassem e as classes não se virassem umas
contra as outras. Falhei porque não compreendi como todas as guerras sociais
são desastrosas. César deixou-me os conselhos, mas não fui suficientemente
inteligente para os aproveitar. Mas se acontecesse de novo, eu já saberia como
lidar com isso. E o que vejo acontecer em Itália é uma variante dos meus
próprios problemas. Esquece os problemas que tens com Octaviano e com Lépido,
trabalhem em conjunto!
- Preferia morrer - disse António por entre dentes -, a dar qualquer ajuda que
seja àquele rapaz arrogante!
- O povo é mais importante do que um rapaz arrogante.
- Não, não é! Eu espero que a Itália morra de fome e farei tudo o que estiver
ao meu alcance para acelerar o processo. É por isso que tolero Sexto Pompeu e
os seus almirantes. Eles tornam impossível a Octaviano alimentar a Itália e
quanto menos impostos os comerciantes pagarem, menos dinheiro Octaviano terá
para comprar terras para entregar aos veteranos. Com os proprietários de terras
a mexer o caldeirão, Octaviano ficará frito.
- Roma construiu um império com o povo de Itália a norte do rio Padus até lá
abaixo à ponta de Brútio. Não te ocorreu que, ao insistires em recrutar tropas
em Itália, estás na verdade a admitir que nenhum outro local consegue produzir
soldados com tanta excelência? Mas se o país morrer de fome, eles também
morrerão.
- Não, não morrerão - disse António imediatamente. - A fome só os empurra para
se realistarem. É uma ajuda.
- Não para as mulheres que estão grávidas dos rapazes que crescerão para ser
esses excelentes soldados.
- Eles são pagos. Enviam dinheiro para casa. Os que morrem de fome são
inúteis... libertos gregos e velhas.
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Isso, parecia-lhe bem, levaria um ou dois dias, mas não se lhe afigurava um bom
augúrio ela não se sentir intimidada. Quando regressou ao palácio do governador
para tomar banho, barbear-se e preparar-se para as festividades da noite a
bordo do Filopator, encontrou Glafira à sua espera.
- Não fui convidada ontem à noite? - perguntou numa voz tímida.
- Não, não foste.
- E fui convidada esta noite?
- Não.
- Deverei talvez enviar uma mensagem à rainha informando-a de que sou de sangue
real e tua hóspede aqui em Tarso? Se o fizesse certamente que ela me
convidaria.
- Podias fazer isso, Glafira - disse António sentindo-se subitamente bem-
disposto -, mas tal não te levaria a lado nenhum. Faz as malas. Vou mandar-te
de volta para Comana amanhã de madrugada.
As lágrimas correram como chuva silenciosa.
- Oh, pára com o dilúvio mulher! - gritou António. - Vais conseguir aquilo que
queres, mas ainda não. Continua com o dilúvio e és bem capaz de ficar sem nada.
Foi só na terceira noite a bordo do Filopator que António mencionou Cássio.
Como é que os cozinheiros dela conseguiam continuar a apresentar novidades, era
algo que lhe escapava, mas os seus amigos estavam perdidos num êxtase de
iguarias que não lhes deixava muito tempo para observar o que fazia o casal
instalado no lectus medius. Certamente que não estavam a fazer nenhuns avanços
amorosos e, sem esse género de especulação, a visão daquelas raparigas
lindíssimas era muito mais excitante - apesar de alguns dos convidados se
sentirem muito mais entusiasmados com os rapazinhos.
- Será melhor virdes jantar ao palácio do governador amanhã - disse António que
comera bem nos três jantares, mas não abusara. - Podereis dar aos vossos
cozinheiros um merecido descanso.
- Se quiseres - disse ela com indiferença. Debicava a comida e servia-se de
rações de pardal.
- Mas antes de honrardes a minha residência com a vossa presença real,
Majestade, será melhor resolvermos a questão do vosso auxílio a Gaio Cássio.
- Auxílio? Qual auxílio?
- Não considerais quatro boas legiões romanas um bom auxílio?
- Meu caro Marco António - disse ela fatigadamente -, essas quatro legiões
marcharam para norte sob o comando de Aulo Alieno, que fui induzida a pensar
ser um legado de Públio Dolabela que era, na altura, o governador legítimo da
Síria.
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Como Alexandria estava ameaçada pela fome e pela praga, fiquei satisfeita por
entregar a Alieno as quatro legiões que César lá deixara. Se ele decidiu
passar-se para o outro lado depois de ter atravessado a fronteira da Síria, não
me podem culpar disso. A frota que te enviei e ao Octaviano foi destruída por
uma tempestade, mas não encontrarás registos de frotas enviadas a Gaio Cássio,
assim como ele não recebeu nenhum dinheiro meu nem cereais meus, nem tropas
enviadas por mim. Reconheço que o meu vice-rei em Chipre, Serapião, enviou
ajuda a Bruto e a Cássio, mas não me custa nada mandar executar Serapião. Ele
agiu sem ter ordens minhas o que o torna um traidor do Egipto. Se tu não o
executares, eu certamente que o farei no regresso a casa.
- Humm - grunhiu António de cenho franzido. Sabia que tudo quanto ela dissera
correspondia à verdade, mas esse não era o seu problema; o problema era como é
que havia de distorcer aquilo que ela dissera para que parecesse mentira. -
Posso arranjar escravos que testemunhem que Serapião agiu de acordo com as
vossas ordens.
- De livre vontade ou sob tortura? - perguntou ela calmamente.
- De livre vontade.
- Por uma pequena fracção do ouro pelo qual anseias mais do que Midas. Ora
António, sejamos francos! Eu estou aqui porque o teu Oriente fabuloso está
falido graças à guerra civil romana e, subitamente, o Egipto parece um ganso
enorme capaz de pôr ovos de ouro. Bem, desengana-te! - ladrou. - O ouro do
Egipto pertence ao Egipto, que goza do estatuto de Amigo e Aliado do Povo
Romano, estatuto que nunca violou. Se quiseres o ouro do Egipto terás que mo
arrancar pela força à frente de um exército. E mesmo então ficarás desapontado.
A listazinha patética que o Délio fez dos tesouros de Alexandria não passa de
um ovo de ouro de uma enorme pilha de ovos de ouro. E essa pilha está tão bem
escondida que tu nunca a encontrarás. Nem conseguirás que eu ou os meus
sacerdotes, que somos os únicos a conhecê-la, revelemos a sua localização sob
tortura.
Não eram as palavras de alguém que podia ser intimidado!
Procurando detectar o menor tremor na voz de Cleópatra ou o mínimo sinal de
tensão nas suas mãos ou corpo, António nada encontrou. Pior, ele sabia através
de várias coisas que César dissera, que o tesouro dos Ptolomeus estava de facto
tão ardilosamente escondido que ninguém que desconhecesse o segredo o
conseguiria encontrar. Sem dúvida que os objectos descritos na lista de Délio
alcançariam dez mil talentos, mas ele precisava de muito mais que isso. E fazer
o exército marchar até Alexandria, ou transportá-lo por mar, custar-lhe-ia
esses dez mil talentos. Oh, amaldiçoada fosse a mulher! Não consigo intimidá-la
nem forçá-la a pagar. Tenho portanto que encontrar uma outra forma. Cleópatra
não é nenhuma Glafira.
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E assim foi entregue uma nota no Filopator, bem cedo na manhã seguinte,
comunicando que o banquete que António daria nessa noite seria uma festa de
fantasia.
"Mas forneço-vos uma pista" dizia a mensagem. "Se vierdes como Afrodite, eu
receber-vos-ei como o Novo Dioniso, o vosso parceiro natural na celebração da
vida."
E Cleópatra vestiu-se ao estilo grego, com camadas vaporosas de carmim e cor-
de-rosa. O seu cabelo fino castanho-rato estava penteado ao estilo habitual, em
pequenas tranças a partir da testa até à nuca, onde era preso num pequeno
carrapito. As pessoas riam-se e diziam que parecia a casca de um melão, o que
não andava longe da verdade. Uma mulher como Glafira poder-lhe-ia ter
explicado, se alguma vez tivesse visto Cleópatra no esplendor faraónico, que
aquele estilo pouco elegante lhe permitia usar a coroa dupla branca e vermelha
do Egipto com facilidade. Naquela noite, todavia, trazia um véu curto com
flores entretecidas e escolhera adornar-se com colares de flores ao pescoço, no
corpete e à cintura. Numa das mãos trazia uma maçã de ouro. O fato não era
especialmente atraente, mas isso não preocupou Marco António que não era grande
especialista em modas femininas. O objectivo da festa de fantasia era ele
próprio poder exibir-se no seu melhor.
No papel de Novo Dioniso, estava nu da cintura para cima e do meio das coxas
para baixo. As partes baixas estavam envoltas num pedaço de tecido vaporoso de
cor púrpura por baixo do qual uma tanga cuidadosamente concebida revelava uma
bolsa enorme, contendo os afamados genitais de António. Com quarenta e três
anos, continuava em grande forma, o físico hercúleo sem sinais dos excessos que
cometera e que a maioria dos homens só consegue acumular ao longo do dobro da
idade que ele tinha. As coxas e as pernas eram enormes, mas os tornozelos eram
elegantes e os peitorais sobressaíam por cima do ventre liso e musculado. Só a
cabeça tinha um ar estranho, pois o pescoço, grosso como o de um touro, fazia-a
parecer pequena demais. A tribo de raparigas que a rainha trouxera com ela
olharam para ele e sustiveram a respiração, quase morrendo de desejo.
- Credo, não tens um guarda-roupa lá muito variado - disse Cleópatra nada
impressionada.
- Dioniso não precisava de muita roupa. Tomai, comei uma uva - disse ele
estendendo-lhe o cacho que tinha na mão.
- Toma uma maçã - disse ela estendendo a mão.
- Eu sou Dioniso, não sou Paris. "Paris, seu menino lindo, seu mulherengo
sedutor" - citou. - Vedes? Também conheço Homero.
- Estou consumida de admiração. - Acomodou-se no divã; ele dera-lhe o locus
consularis, gesto nada apreciado pelos moralistas da sua comitiva. As mulheres
eram mulheres.
António tentou, mas aquele disfarce do género despido e pronto para a acção
parecia não afectar absolutamente nada Cleópatra. O que quer que fosse que a
motivava não era o lado físico do amor, disso estava certo.
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Na realidade ela passou a maior parte da noite a brincar com a maçã de ouro que
mergulhou num copo de vidro com vinho rosado e maravilhou-se com a forma como o
azul do vidro dava ao ouro um sombreado subtil de cor púrpura, especialmente
quando a fazia girar com o dedo bem tratado.
Finalmente, desesperado, António jogou tudo numa única jogada: Vénus, os dados
tinham que dar Vénus!
- Estou a apaixonar-me por vós - disse ele acariciando-lhe o braço. Ela puxou o
braço como que para afastar um insecto indesejado.
- Gerrae - grunhiu.
- Não estou a dizer nenhum disparate! - disse ele com indignação sentando-se
muito direito. - Enfeitiçaste-me, Cleópatra.
- É a minha riqueza que te enfeitiça.
- Não, não! Não me importaria que fosses uma pedinte!
- Gerrae! Passar-me-ias por cima como se eu não existisse.
- Provarei que te amo! Diz-me o que tenho que fazer! A resposta dela foi
imediata.
- A minha irmã Arsínoe refugiou-se no templo de Ártemis em Éfeso. Foi condenada
à morte por uma sentença legalmente proferida em Alexandria. Executa-a,
António. Se ela estiver morta eu ficarei mais descansada, gostarei mais de ti.
- Eu tenho uma solução melhor - disse ele com a testa perlada de suor. - Deixa-
me fazer amor contigo.... Aqui, agora!
Ela inclinou a cabeça fazendo deslizar o véu florido. A Délio, que observava
atentamente a cena sentado no seu divã, ela parecia uma vendedora de flores
determinada a fazer negócio. Fechando um dos olhos dourados observou António
com o outro, especulativamente.
- Em Tarso, não - disse então -, não enquanto a minha irmã for viva. Vem ao
Egipto e traz-me a cabeça de Arsínoe e eu pensarei no assunto.
- Não posso! - gritou ele com a respiração entrecortada. - Tenho demasiadas
coisas para fazer! Porque é que achas que me mantenho sóbrio? Com uma guerra
prestes a rebentar em Itália e aquele malvado rapaz a sair-se melhor do que
alguém esperaria... não posso! E como podes pedir a cabeça da tua própria irmã?
- Com prazer. Ela anda atrás da minha cabeça há anos. Se os seus planos forem
bem-sucedidos, casará com o meu filho e tirar-me-á a cabeça dos ombros num
piscar de olhos. A linhagem dela é de puro-sangue ptolemaico e ainda será
suficientemente nova para ter filhos quando Cesarião atingir a idade necessária
para isso. Eu sou a neta de Mitrídates, o Grande... sou híbrida. E o meu sangue
ainda é mais híbrido. Para muita gente em Alexandria, Arsínoe representa um
regresso à linhagem mais adequada. Para eu viver ela terá que morrer.
Cleópatra deslizou do divã tirando o véu e arrancando colares de rosas e de
lilases do pescoço e da cintura.
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- Obrigada pela festa excelente e também por uma viagem muito educativa ao
estrangeiro. O Filopator não se divertia tanto nos últimos cem anos. Amanhã
regressaremos ambos a casa, ao Egipto. Vem visitar-me. E visita mesmo a minha
irmã em Éfeso. Ela é uma grande anedota. Se gostares de harpias e górgones vais
adorá-la.
- Talvez - disse Délio quando António lhe contou um aparte da conversa na manhã
seguinte no momento em que o navio Filopator mergulhava os remos dourados na
água para iniciar o regresso a casa - a tenhas assustado, António.
- Assustado? Aquela víbora de sangue gelado? Impossível!
- Ela não pesa muito mais do que um talento e tu deves pesar cerca de quatro
talentos. Talvez tenha pensado que a matarias esmagada. - Riu-se. - Ou que a
possuirias até à morte! Até é bem possível que tal acontecesse.
- Cacat! Nunca pensei nisso!
- Corteja-a com cartas, António, e continua a desempenhar os teus deveres de
triúnviro da Itália para o Oriente.
- Estás a tentar pressionar-me, Délio? - perguntou António.
- Não, não, é claro que não! - respondeu Délio apressadamente. - Estou apenas a
recordar-te que a rainha do Egipto já não está no teu horizonte enquanto que há
outras pessoas e acontecimentos que estão.
António varreu os papéis que tinha em cima da secretária com um gesto selvagem
que fez com que Lucílio caísse imediatamente de joelhos e os começasse a
apanhar.
- Estou farto desta vida, Délio! O Oriente pode apodrecer... está na hora do
vinho e das mulheres.
Délio olhou para baixo e Lucílio para cima e trocaram um olhar explícito.
- Tenho uma ideia melhor António - disse Délio. - Porque não fazer montanhas de
trabalho este Verão e passar o Inverno na corte da rainha Cleópatra?
Pelo quarto ano consecutivo, o Nilo não provocou inundações. As únicas boas
notícias eram que aqueles que, nas margens do rio, tinham sobrevivido à peste,
pareciam ter ficado imunes, acontecendo o mesmo no Delta e em Alexandria. Essa
gente ficou mais resistente e mais saudável.
Sosígenes tinha tido uma ideia e emitiu um édito em nome da Faraó; ordenava que
nas margens mais baixas do Nilo estas fossem rebaixadas mais metro e meio. Se
alguma água passasse por essas aberturas artificiais, fluiria para enormes
lagos escavados com antecedência. Em torno das margens dos lagos erguiam-se
noras, a postos para abastecer de água os canais pouco profundos que
serpenteavam pelos campos ressequidos. E quando o meado de Julho trouxe uma
inundação que não ultrapassava os Cúbitos da Morte, o rio subiu apenas o
suficiente para encher os lagos.
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Aquela era uma forma muito mais fácil de irrigar à mão do que o tradicional
shaduf, um único balde que tinha que ser mergulhado no próprio rio.
E as pessoas eram pessoas, mesmo no meio da morte; tinham nascido bebés e a
população estava a aumentar. Mas o Egipto teria o que comer.
A ameaça de Roma fora temporariamente adiada. Os agentes de Cleópatra em Tarso
comunicavam-lhe que dali, António tinha partido para Antioquia, visitar Tiro e
Sídon e depois embarcara para Efeso. E aí Arsínoe fora arrancada aos gritos do
santuário para ser passada a fio de espada. O sumo sacerdote de Ártemis parecia
estar prestes a ter a mesma sorte, mas António, que não gostava daquelas
vinganças orientais que terminavam em banhos de sangue, interviera a pedido do
etnarca e devolvera o homem ileso ao seu santuário. A cabeça não faria parte da
bagagem de António se e quando este visitasse o Egipto; Arsínoe fora queimada
inteira. Ela fora a última verdadeira Ptolomeu e, com a sua morte, essa ameaça
específica a Cleópatra desaparecera.
- António virá no Inverno - disse Tach'a sorrindo.
- António! Oh, minha mãe, ele não é nenhum César! Como conseguirei suportar as
suas mãos no meu corpo?
- César era único. Não o podes esquecer, isso compreendo, mas tens que parar de
o chorar e cuidar do Egipto. Que interessa o toque das suas mãos quando António
tem o sangue necessário para dar a Cesarião uma irmã com quem se casar? Os
monarcas não acasalam para seu prazer, acasalam para benefício dos seus reinos
e salvaguarda da dinastia. Habituar-te-ás a António.
Na verdade, a maior preocupação de Cleópatra durante esse Verão e Outono foi
com Cesarião, que não lhe perdoara tê-lo deixado em Alexandria. Era
irrepreensivelmente educado, trabalhava com afinco nos seus livros, lia de
livre vontade nos tempos livres, tinha lições de equitação, fazia exercícios
militares e desporto, se bem que não praticasse boxe nem luta livre.
- Tatá explicou-me que o órgão com que pensamos está localizado no interior das
nossas cabeças e que nunca devemos fazer desportos que o ponham em risco.
Portanto, aprenderei a usar o gladius e a espada comprida, dispararei setas e
pedras com fundas, praticarei o lançamento do pilum e da hasta, correrei,
saltarei e nadarei. Mas não andarei à pancada nem farei luta livre. Tatá não
aprovaria, digam os meus instrutores o que disserem. Já lhes disse para
desistirem e não virem a correr ter contigo.. . as minhas ordens valem menos do
que as tuas?
Ela estava demasiado maravilhada com a quantidade de coisas que ele recordava
de César para escutar a mensagem implícita nas suas últimas palavras. O pai
morrera ainda a criança não fizera quatro anos.
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Que havia ela de fazer com uma rapariga magricela que não fazia mais nada senão
chorar e se recusava a comer? Num acampamento de guerra? E, pior do que tudo,
Clódia insistia que estava loucamente apaixonada por Octaviano e culpava a mãe
pela rejeição do marido.
No fim de Outubro, António comparou-se a si próprio ao Etna imediatamente antes
de entrar em erupção. Os colegas sentiam-lhe os tremores e evitavam-no, mas tal
não era possível.
- Délio, vou passar o Inverno em Alexandria - anunciou. - Marco Saxa e Canínio
podem ficar com as tropas em Éfeso. Lúcio Saxa, podes vir comigo até Antioquia,
vou nomear-te governador da Síria. Há duas legiões de tropas de Cássio em
Antioquia, chegarão bem para as tuas necessidades. Podes começar por fazer
entender às cidades da Síria que eu quero que me paguem tributo. Agora ou mais
tarde! Qualquer cidade que tenha pago a Cássio vai-me pagar a mim. De momento
não vou mudar nada em mais sítio nenhum: a província da Ásia está calma, o
Censorinus está a controlar a Macedónia e não vejo necessidade de um governador
na Bitínia. - Esticou os braços por cima da cabeça, exultante. - Umas férias! O
Novo Dioniso vai ter umas férias como deve ser! E que melhor local do que a
corte de Afrodite no Egipto?
Também não escreveu a Cleópatra. Ela soube da sua vinda apenas através dos seus
agentes que conseguiram avisá-la com dois nundinae de antecedência. Nesses
dezasseis dias ela enviou navios em busca dos bens inexistentes no Egipto,
desde presuntos suculentos dos Pirenéus a enormes rodas de queijo. Apesar de
habitualmente este não fazer parte da ementa, as cozinhas do palácio lá
arranjaram garum para os condimentos dos molhos e vários criadores de leitões,
que serviam os romanos residentes na cidade, venderam todos os seus animais.
Galinhas, gansos, patos, perdizes e faisões foram arrebanhados, apesar de
naquela altura do ano não haver borregos. E o mais importante era que haveria
vinho em abundância e de boa qualidade; os cortesãos de Cleópatra mal lhe
tocavam e ela própria preferia a cerveja de cevada egípcia. Mas para os Romanos
tinha que haver vinho, vinho, vinho.
Corriam rumores em Pelúsio e no Delta de que a Síria estava irrequieta, apesar
de ninguém parecer saber ao certo qual era o problema. Parecia que os Judeus
estavam em ebulição; quando Herodes regressara da Bitínia como tetrarca,
ouviram-se uivos de ambos os lados do Sinédrio, tanto de Fariseus como de
Saduceus. O facto do irmão dele, Fasael, também ter sido nomeado tetrarca
parecia não assumir a mesma importância. Herodes era detestado, Fasael era
tolerado.
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Recordava-se muito bem dos anos da sua própria infância naquele mesmo local, o
seu pai dissoluto a apalpar os seus rapazinhos, a expor os genitais para serem
beijados e chupados, dançando ébrio a tocar as suas ridículas flautas à frente
de uma procissão de rapazes e raparigas nus. Enquanto ela própria se encolhia
fora das vistas, rezando para que ele não a encontrasse e mandasse violar para
seu próprio prazer. Ou a mandasse matar, até, como Berenice. Ele tinha uma nova
família com a sua meia-irmã mais nova; uma filha da sua esposa da linhagem de
Mitrídates era dispensável. Por isso os anos que passara em Mênfis com Cha'em e
Tach'a viviam na sua memória como os tempos mais maravilhosos de toda a sua
vida: seguros, estáveis, felizes.
As festas em Tarso tinham sido um belo exemplo do estilo de vida de Marco
António. Sim, ele próprio se mantivera sóbrio, mas apenas porque estivera em
contenda com uma mulher que era uma monarca. A conduta dos seus amigos era-lhe
indiferente e alguns deles tinham-se exibido desavergonhadamente.
Mas como podia dizer a Cesarião que não ficaria - que não podia ficar - ali? O
seu instinto dizia-lhe que António iria esquecer o comedimento e que
desempenharia activamente o papel de Novo Dioniso. Ele era também primo do seu
filho. Se Cesarião estivesse em Alexandria não poderia evitar que estivessem
juntos. E era óbvio que Cesarião sonhava conhecer o general herói, não
compreendendo que o grande guerreiro se apresentaria sob a forma de grande
folião.
E o silêncio prolongou-se até Sosígenes pigarrear, empurrar a cadeira para trás
e levantar-se.
- Majestades posso falar? - perguntou.
Cesarião respondeu:
- Fala - ordenou-lhe.
- O jovem Faraó já tem seis anos, mas continua sob os cuidados de um palácio
cheio de mulheres. É apenas no ginásio e no hipódromo que entra no mundo dos
homens e, mesmo esses, são seus súbditos. Antes de poderem falar-lhe têm que se
prostrar na sua frente. Ele não vê nisso nada de estranho: é o Faraó. Mas com a
visita de Marco António o jovem Faraó terá oportunidade de conhecer homens que
não são seus súbditos e que não se prostrarão na sua frente. Que lhe
despentearão os cabelos, lhe darão pequenas pancadas e brincarão com ele. De
homem para homem. Faraó Cleópatra, sei porque desejais enviar o jovem Faraó
para Mênfis, compreendo... Cleópatra interrompeu-o.
- Basta Sosígenes! Excedes-te! Terminaremos esta conversa depois de o jovem
Faraó sair da sala... o que ele fará imediatamente!
- Não saio - disse Cesarião.
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- Sim, mas ainda são demasiado novos para que se possa saber o que valem. O avô
dela foi Gaio Graco, um grande homem, por isso tenho a esperança de que eles se
venham a revelar bons rapazes. Antilo tem cinco e Mus ainda é bebé. Uma boa
égua, a Fúlvia. Quatro do Clódio - duas raparigas e dois rapazes - um rapaz do
Curião e os meus.
- Os Ptolomeus também são bons reprodutores.
- Podes dizer isso só com um pinto no teu ninho?
- Eu sou Faraó, Marco António, o que significa que não posso acasalar com
mortais. César era um deus, portanto um companheiro digno de mim. Tivemos
rapidamente o Cesarião, mas depois - suspirou - não tivemos mais nenhum. Não
foi por falta de tentar, garanto-te.
António riu-se.
- Não, percebo porque é que ele não te disse.
Retesando-se, ela ergueu a cabeça para o fitar, os olhos grandes e dourados
reflectindo a luz do candeeiro por trás dos caracóis curtos de António.
- Não me disse o quê? - perguntou.
- Que não seria pai de mais nenhum filho teu. - Mentes!
Surpreendido, ele ergueu também a cabeça.
- Minto? Porque haveria de mentir?
- Como posso saber quais os teus motivos? Sei simplesmente que mentes!
- Estou a dizer a verdade. Procura na memória, Cleópatra, e sabê-lo-ás. César,
ser pai de uma menina com quem o seu filho casaria? Ele era romano da cabeça
aos pés e os Romanos não aprovam o incesto. Nem sequer entre sobrinhas e tios
ou sobrinhos e tias, quanto mais entre irmãos e irmãs. Os primos direitos já
são considerados um risco.
A desilusão abateu-se sobre ela como uma onda gigante - César, de cujo amor
estivera tão segura, levara-a numa dança de puro engano! Todos aqueles meses em
Roma, rezando e esperando por uma gravidez que nunca acontecera... e ele
soubera, ele soubera! O Deus vindo do Ocidente enganara-a, tudo por causa de
uma qualquer superstição romana! Rangeu os dentes e soltou um rosnido no fundo
da garganta.
- Ele enganou-me - disse então inexpressivamente.
- Só porque achou que tu não compreenderias. Vejo que tinha razão - disse
António.
- Se fosses César ter-me-ias feito o mesmo?
- Oh, bem - disse António virando-se para ficar mais perto dela - os meus
sentimentos não são tão delicados.
- Estou devastada! Ele enganou-me e eu amava-o tanto!
- Tudo o que aconteceu pertence ao passado. César morreu.
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- E eu tenho que ter contigo a mesma conversa que tive em tempos com ele -
disse Cleópatra limpando disfarçadamente os olhos.
- Que conversa é essa? - perguntou ele passando-lhe um dedo pelo braço. Desta
vez ela não o afastou.
- O Nilo não tem inundações há quatro anos, Marco António, porque a Faraó está
estéril. Para sarar o seu povo, a Faraó tem que conceber uma criança com sangue
divino nas suas veias. O teu sangue é o mesmo de César... és Juliano pelo lado
da tua mãe. Rezei a Ámon-Rá e a Ísis e eles disseram-me que um filho das tuas
entranhas lhes agradaria.
Não era exactamente uma declaração de amor! Como é que um homem reagia a uma
explicação tão desapaixonada? E quereria ele, Marco António, ter um caso com
uma mulher tão pequena e com sangue gelado nas veias? Uma mulher que acreditava
genuinamente no que dizia. Ainda assim, pensou, ser pai de deuses na terra
seria uma experiência nova: seria uma cuspidela na cara de César, o moralista
da família!
Pegou-lhe na mão, levou-a aos lábios e beijou-a.
- Ficaria honrado, minha rainha. E apesar de não poder falar em nome de César,
eu amo-te mesmo.
Mentiroso, mentiroso!, gritou ela interiormente. És romano e não amas mais nada
a não ser Roma. Mas usar-te-ei tal como César me usou a mim.
- Partilharás a minha cama enquanto estiveres em Alexandria?
- De bom grado - disse ele e beijou-a.
Era agradável e não a provação que ela imaginara; os lábios dele eram frescos e
macios e não lhe enfiou a língua na boca naquela primeira abordagem
exploratória e hesitante. Apenas lábios nos lábios, suaves e sensuais.
- Anda - disse ela pegando num candeeiro.
O quarto dela não ficava longe; aqueles eram os aposentos privados da Faraó e
eram pequenos. Ele tirou a túnica - não tinha tanga por baixo - e desatou as
fitas que lhe seguravam o vestido nos ombros. Este caiu à volta dela quando se
sentou na beira da cama.
- A pele é agradável - murmurou ele esticando-se a seu lado. - Não te vou
magoar, minha rainha. António é um bom amante, sabe o tipo de amor que deve dar
a uma criaturinha pequena e frágil como tu.
E de facto sabia. O acasalamento foi lento e espantosamente agradável, pois ele
afagou-lhe o corpo com mãos macias e deu uma atenção deliciosa aos seus seios.
Apesar das garantias de que não o faria, tê-la-ia magoado se não tivesse já
tido Cesarião, apesar de a ter provocado e atormentado antes de entrar nela e
ele sabia como usar o seu membro enorme de muitas maneiras. Deixou-a atingir o
clímax antes de ele próprio o fazer e ela ficou espantada com o seu próprio
orgasmo. Parecia-lhe uma traição a César, no entanto César traíra-a, portanto
que interessava isso?
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E, o melhor de tudo, era o facto de ele não a fazer lembrar César em nenhum
aspecto. O que ela tinha com António pertencia a António. Também era diferente
o facto de, passados poucos momentos após cada orgasmo, ele já estar novamente
pronto para ela e era quase embaraçoso contar os seus próprios orgasmos. Estava
esfomeada? A resposta, obviamente, era sim. Cleópatra a monarca era novamente
uma mulher.
Cesarião ficou deliciado por ela ter tomado o grande Marco António como amante.
A esse respeito ele não era ingénuo.
- Vais casar com ele? - perguntou-lhe dançando de contentamento.
- A seu tempo, talvez - disse ela profundamente aliviada.
- Porque não já? Ele é o homem mais poderoso do mundo.
- Porque é demasiado cedo, meu filho. Deixa que eu e António percebamos se o
nosso amor suportará as responsabilidades do casamento.
Quanto a António, estava a rebentar de orgulho. Cleópatra não era a primeira
soberana com quem se deitara, mas era de longe a mais importante. E descobrira
que os seus favores sexuais ficavam a meio caminho de os de uma prostituta
profissional e os de uma esposa romana dedicada. O que lhe agradava. Quando um
homem embarcava numa relação destinada a durar mais do que uma noite, não
precisava nem de uma nem de outra, pelo que Cleópatra era perfeita.
Tudo isso poderia muito bem ser a razão do seu bom humor na primeira noite em
que a amante o recebeu com grande estilo; o vinho era soberbo e a água algo
amarga, portanto para quê adicionar água e estragar uma belíssima colheita?
António desistiu das suas boas intenções sem ter sequer dado por isso e
embebedou-se feliz e inexoravelmente.
Os convidados alexandrinos, todos macedónios da mais alta classe, olhavam
inicialmente espantados e, depois, pareceram decidir subitamente que a
devassidão tinha grandes vantagens. O contabilista, um homem espantoso e
imensamente convencido, saltou e riu enquanto bebia o primeiro jarro e depois
agarrou numa criada que ia a passar e começou a fazer amor com ela. Passados
instantes foi imitado por outros alexandrinos que provaram estar à altura de
qualquer romano quando se tratava de participar em orgias.
Para Cleópatra, que observava fascinada (e sóbria), foi o tipo de lição que
nunca esperara ter que aprender. Felizmente António pareceu não reparar no
facto de ela não se ter juntado à hilaridade geral, pois estava demasiado
ocupado a beber. Talvez por ingerir também quantidades enormes de alimentos, o
vinho não o transformava num idiota incapaz. Sosígenes, que era mais experiente
nestas questões do que a sua rainha, colocara discretamente bacios a um canto e
tigelas por trás de um biombo onde os convidados se podiam aliviar, fosse por
que orifício fosse, e também mandou servir jarros com poções que tornariam a
manhã seguinte menos dolorosa.
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- Oh! Diverti-me imenso! - rugiu António na manhã seguinte, com a sua robusta
saúde incólume. - Façamo-lo novamente esta tarde!
E foi assim que começaram para Cleópatra mais de dois meses de farras
constantes e desbragadas. E quanto maior era a loucura, mais António gostava e
mais bem-disposto ficava. Sosígenes herdara a tarefa de inventar novidades para
variar as diversões daquelas festividades sibaríticas e o resultado foi o de os
navios que atracavam em Alexandria vomitarem músicos, bailarinos, acrobatas,
mimos, anões, monstros e mágicos provenientes de toda a extremidade oriental do
Nosso Mar. António adorava pregar partidas que, por vezes, eram quase cruéis;
adorava pescar; adorava nadar por entre raparigas nuas; adorava conduzir
carruagens, actividade vedada aos nobres em Roma; adorava caçar crocodilos e
hipopótamos; adorava judiarias; adorava poemas ordinários; adorava
representações históricas. O seu apetite era tal que gritava com fome uma dúzia
de vezes por dia; Sosígenes teve a brilhante ideia de ter sempre um jantar
completo pronto a ser servido bem como quantidades enormes dos melhores vinhos.
Foi um sucesso imediato e António, dando-lhe um grande beijo, proclamou o
pequeno filósofo como sendo o príncipe dos homens bons.
Não havia muita coisa que Alexandria pudesse fazer para protestar contra
cinquenta e tal sujeitos embriagados que percorriam as ruas dançando à luz dos
archotes, batendo sonoramente nas portas e fugindo com gargalhadas deliciadas.
Alguns desses indivíduos incómodos eram os principais dirigentes da cidade,
cujas mulheres estavam em casa a chorar e a interrogar-se como permitia a
rainha uma coisa assim. A rainha permitia-o porque não tinha alternativa,
apesar de a sua própria participação nas festas ser pouco estusiástica. Certa
vez António desafiou-a a deixar cair a pérola de seis milhões de sestércios de
Servília num copo de vinagre e a engoli-la; ele pertencia à escola que
acreditava que as pérolas se dissolviam em vinagre. Sabendo que tal não
correspondia à verdade, Cleópatra aceitou o desafio, apesar de não ser capaz de
beber o vinagre. A pérola, absolutamente intacta, estava novamente pendurada no
seu pescoço na manhã seguinte. E as partidas com peixes não tinham fim. Não
tendo qualquer sorte na pesca, António pagava a mergulhadores para que
descessem às profundezas e atassem peixes vivos à sua linha. Içava as criaturas
a espadanar e gabava-se das suas proezas de pescador até ao dia em que
Cleópatra, cansada das suas gabarolices, mandou um mergulhador atar um peixe
podre à sua linha. Mas ele aceitou a brincadeira com bom humor, pois era esse
tipo de pessoa.
Cesarião assistia divertido a todas aquelas diabruras apesar de nunca pedir
para assistir às festas.
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E, por uma vez, o rei Orodes tinha uma mão de dados viciados; juntamente com
Pácoro vinha Quinto Labieno, que se atribuíra a alcunha de Parto. Era filho do
maior dos marechais de César, Tito Labieno, e preferira fugir para a corte de
Orodes a render-se ao conquistador do pai. Lutas intestinas na Selêucia do
Tigre também tinham provocado disputas quanto às formas possíveis de derrotar
os Romanos. Em confrontos anteriores, incluindo aquele que resultara na
aniquilação do exército de Marco Crasso em Carras, os Partos tinham dependido
em muito dos arqueiros a cavalo, camponeses sem armadura e treinados para
retirar a galope e disparar uma chuva mortífera de setas sobre a garupa do
cavalo ao virarem-se para trás: o famoso "tiro parto". Quando Crasso tombou em
Carras, o general comandante dos exércitos dos Partos fora um príncipe
maquilhado e efeminado chamado Surena, que concebera uma forma de os seus
arqueiros montados não ficarem sem setas: carregou comboios de camelos com
setas de reserva e fê-las chegar aos seus homens. Infelizmente, o seu sucesso
foi de tal forma marcante, que o rei Orodes suspeitou que o alvo seguinte de
Surena seria o trono e mandou-o executar.
Desde esse dia, havia mais de dez anos, que estalara a controvérsia
relativamente a quem vencera Carras, se os arqueiros montados, se os
catafractários. Os catafractários, cobertos com cotas de malha da cabeça aos
pés, montavam cavalos enormes, também eles protegidos por cotas de malha. Esta
discussão tinha, na sua origem, razões sociais: os arqueiros montados eram
camponeses, enquanto que os catafractários eram nobres.
Foi assim que, quando Pácoro e Labieno conduziram o seu exército até à Síria,
no início de Fevereiro do ano do consulado de Gneu Domício Calvino e de Gaio
Asínio Polião, a sua componente parta se resumia unicamente aos catafractários.
Os nobres tinham vencido a batalha.
Pácoro e Labieno atravessaram o rio Eufrates em Zeugma e aí separaram-se.
Enquanto Labieno e os seus mercenários partiam para ocidente, atravessando
Amano e entrando na Cilicia Pedia, Pácoro e os catafractários viraram para sul,
para a Síria. Ambos levaram tudo na sua frente, embora os agentes de Cleópatra
no Norte da Síria se concentrassem em Pácoro e não em Labieno. A notícia voou
até Alexandria. Assim que António soube o que se passava, partiu. Não houve
despedidas comovidas nem promessas de amor.
- Ele sabe? - perguntou Tach'a a Cleópatra.
Não era necessário ser mais específica, Cleópatra sabia ao que ela se referia.
- Não, não tive oportunidade... ele limitou-se a gritar pela armadura e a
espicaçar os homens como o Délio. - Suspirou. - Os barcos dele vão partir para
Berito, mas ele não confiou suficientemente nos ventos para arriscar uma viagem
por mar. Espera chegar a Antioquia antes da frota.
- O que é que António não sabe? - perguntou Cesarião que estava muito
desapontado com a súbita partida do seu herói.
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- Que no mês de Sextilis vais ter um irmão ou uma irmã. O rosto da criança
iluminou-se e saltou, quase alegre.
- Um irmão ou uma irmã! Mamã, mamã, isso é óptimo!
- Bem, pelo menos a notícia fê-lo esquecer António - disse Iras a Charmian.
- Mas não a fará esquecer António - respondeu Charmian.
António avançou para Antioquia a uma velocidade demolidora, convocando este ou
aquele potentado do Sul da Síria à medida que ia passando pelos vários locais,
chegando mesmo a dar-lhes ordens de cima do cavalo.
Ficou alarmado ao descobrir, através de Herodes, que entre os Judeus as
opiniões se dividiam; havia um grande grupo de judeus dissidentes que pareciam
mesmo desejosos de ser governados pelos Partos. O líder do partido favorável
aos Partos era o príncipe asmoneu, Antígono, sobrinho de Hircano mas nada
adepto de Hircano nem dos Romanos. Herodes não informou Marco António de que
Antígono andava já a regatear com os enviados da Partia os objectos da sua
cobiça: o trono judaico e o sumo sacerdócio; ele não estava muito interessado
nesses negócios obscuros nem no estado de espírito do Sinédrio. Portanto,
António continuou para norte, mantendo-se na ignorância relativamente à
seriedade da situação judaica. Excepcionalmente, Herodes fora apanhado a dormir
por andar demasiado ocupado a tentar afastar o irmão Fasael da mão da princesa
Mariana e não reparara em mais nada.
Tiro era impossível de ser tomada a não ser a partir do seu interior. O seu
istmo fedorento, conspurcado por montes de restos apodrecidos de moluscos,
fornecia ao centro da indústria das tintas de púrpura a mesma protecção de que
gozava uma ilha, e ninguém no seu interior a trairia; nenhum habitante de Tiro
queria ser enviado, tingindo de púrpura, ao rei dos Partos em troca de uma soma
fixada por este.
Em Antioquia, António encontrou Lúcio Decídio Saxa andando nervosamente de um
lado para o outro e as torres de vigia, construídas sobre as enormes muralhas
da cidade, repletas de homens que se esforçavam por ver para norte; Pácoro
seguiria o rio Orontes e já não estava muito distante. O irmão de Saxa viera de
Éfeso para se lhe juntar e os refugiados acorriam à cidade. Expulso de Amano, o
rei bandido Tarcondimoto disse a António que Labieno se estava a sair
lindamente. Naquele momento já devia ter alcançado Tarso e a Capadócia. A
lealdade a Roma de Antíoco de Comagene, soberano de um reino-cliente que fazia
fronteira com as planícies de Amano a norte, estava bastante tremida, segundo
dizia Tarcondimoto. Como gostava do homem, António deu-lhe ouvidos; seria um
bandido, talvez, mas era esperto e competente.
Após inspeccionar as duas legiões de Saxa, António descontraiu um pouco. Estes
homens que, em tempos, tinham pertencido a Gaio Cássio, eram legionários em boa
forma e experientes em combate.
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Muito mais perturbadoras eram as notícias que chegavam de Itália. O seu irmão
Lúcio estava preso em Perúsia, sob cerco e Polião tinha retirado para os
pântanos junto ao estuário do rio Padus! Não fazia sentido! Polião e Ventídio
tinham muitos mais homens do que Octaviano! Porque não estavam a ajudar Lúcio?,
perguntava António a si próprio, esquecendo completamente que ignorara os seus
pedidos de directrizes - a guerra de Lúcio fazia parte da estratégia de
António, ou não?
Bem, por muito grave que fosse a situação no Oriente, a Itália era mais
importante. António embarcou para Efeso, tencionando continuar para Atenas o
mais depressa possível. Tinha que se informar melhor.
A monotonia da primeira parte da viagem deu-lhe tempo para pensar em Cleópatra
e no Inverno fantástico que passara no Egipto. Sim, deuses, como ele estivera
necessitado de uma pausa! E que bem que a rainha lhe satisfizera todos os seus
desejos. Amava-a verdadeiramente, tal como amara todas as mulheres a quem se
ligara por mais do que um dia, e continuaria a amá-la até que ela fizesse
alguma coisa que o irritasse. Se bem que Fúlvia tivesse feito muito mais do que
o suficiente para o irritar, se os fragmentos de notícias que lhe chegavam de
Itália fossem verdadeiros. A única mulher por quem o seu amor resistira, mesmo
depois de milhares e milhares de provações, fora o amor pela sua mãe,
seguramente a mulher mais pateta da história do mundo.
Tal como acontecera com a maioria dos rapazes de famílias nobres, o pai de
António não passara muito tempo em Roma, portanto era Júlia Antónia quem
mantinha - ou deveria manter - a família unida. Os três filhos e duas filhas
que tivera não lhe tinham trazido o mínimo vestígio de maturidade; era
aterradoramente estúpida. O dinheiro, para ela, era algo que crescia nas
árvores e os criados eram pessoas muito mais espertas do que ela. E no amor
também não tivera sorte. O seu primeiro marido, o pai dos filhos, preferira
suicidar-se a regressar a Roma para enfrentar uma acusação de traição, devido
ao comando incompetente de uma guerra contra piratas cretenses e o seu segundo
marido fora executado no Fórum romano devido ao papel que desempenhara na
rebelião chefiada por Catilina. Tudo isso acontecera na altura em que Marco, o
mais velho dos seus filhos, fizera vinte anos. As duas raparigas eram de tal
modo enormes e com as feições feias e características dos Antónios, que foram
casadas com arrivistas endinheirados para trazer algum dinheiro para a família
e financiar as carreiras políticas dos rapazes, que tinham ficado fora de
controlo. Depois Marco acumulou uma dívida gigantesca e teve que se casar com
uma provinciana rica, chamada Fádia, cujo pai pagou um dote de duzentos
talentos. A deusa Fortuna parecia sorrir a António; Fádia e os filhos que esta
lhe dera morreram durante uma peste de Verão deixando-o livre para casar com
outra herdeira, a sua prima direita Antónia Híbrida.
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Dessa união nascera uma filha que não era nem inteligente nem bonita. Quando
Curião foi morto e Fúlvia ficou disponível, António divorciou-se da prima para
casar com ela. Mais uma aliança proveitosa; Fúlvia era a mulher mais rica de
Roma.
António não tivera propriamente uma infância e juventude infelizes, mas nunca
ninguém o disciplinara. A única pessoa capaz de controlar Júlia Antónia e os
seus filhos fora César, que não era verdadeiramente o chefe da família juliana,
apenas o seu membro com mais personalidade. Ao longo dos anos, César
demonstrara que gostava deles, mas nunca fora um homem fácil, nem alguém que os
rapazes conseguissem entender. Aquela fatal falta de disciplina, combinada com
um incrível apetite pelo deboche, tinham feito com que, finalmente, já Marco
António era adulto, César se afastasse dele. António provara por duas vezes não
ser digno de confiança. Para César uma vez era o suficiente. César estalara o
chicote... violentamente.
Até àquele dia, encostado à amurada a ver a luz do sol brincar nos remos
molhados quando estes emergiam do mar, António não tinha a certeza se
tencionara participar na conspiração para assassinar César! Ao reflectir sobre
o assunto, sentia--se inclinado a pensar que não acreditara verdadeiramente que
sujeitos como Gaio Trebónio e Décimo Júnio Bruto tivessem a coragem ou o ódio
necessários para irem até ao fim. Marco Bruto e Cássio não tinham tanta
importância; eram figuras de proa e não os verdadeiros responsáveis. Sim, sem
dúvida que o plano pertencera a Trebónio e a Décimo Bruto. Ambos estavam
mortos. Dolabela torturara Trebónio até à morte e um chefe tribal gaulês
separara Décimo Bruto da sua cabeça, em troca de um saco de ouro fornecido pelo
próprio António. Certamente que isso, reflectiu António, era uma prova de que
ele não estivera realmente envolvido na conspiração para matar César!
Obviamente que havia muito que concluíra que uma Roma sem César seria um local
onde ele viveria com mais facilidade. E a maior tragédia de tudo aquilo era
que, provavelmente, teria sido, não fora a emergência de Gaio Octávio, o
herdeiro de César. Que, com dezoito anos de idade, se aprestara a reclamar a
sua herança, um empreendimento arriscado que o fizera marchar duas vezes sobre
Roma antes de ter celebrado o vigésimo aniversário. Na sua segunda marcha
conseguira que o elegessem como cônsul sénior, após o que tivera a temeridade
de forçar os seus oponentes, António e Lépido, a encontrarem-se com ele para
uma conferência. De que resultara o Segundo Triunvirato - Três Homens para
Reconstruir a República. Em vez de um ditador, três ditadores com
(teoricamente) poderes iguais. Encalhados numa ilha de um rio da Gália
Italiana, António e Lépido tinham-se apercebido gradualmente de que aquele
jovem, com metade da idade deles, lhes comia as papas na cabeça em astúcia e
implacabilidade.
O que António não conseguia admitir perante si próprio, nem mesmo nos seus
momentos mais sombrios, era que, até ao momento, Octaviano demonstrara como a
preferência de César por ele tinha sido certeira.
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- Mais perto de Perúsia do que Polião ou Ventídio! Entrincheirei-me em Espoleto
para formar a asa direita numa estratégia de pinça que nunca chegou a realizar-
se. - Suspirou e encolheu os ombros. -Além disso tinha Fúlvia no meu
acampamento e ela começou a tornar-se muito difícil. - Ele amava-a, sim, mas
amava mais a sua própria pele. Afinal António não iria executar Fúlvia por
traição. - Agripa teve a lata de me roubar as minhas duas melhores legiões,
acreditas numa coisa assim? Tinha-as enviado para ajudarem Cláudio Nero na
Campânia e depois Agripa apareceu e ofereceu melhores condições aos homens.
Sim, Agripa derrotou Nero com as minhas duas legiões! Nero teve que fugir para
a Sicília para junto de Sexto Pompeu. Parece que havia gente em Roma que andava
a falar em matar as esposas e as famílias, porque a mulher de Nero, Lívia
Drusila, pegou no filho pequeno e foi ter com ele. - Aí Planco franziu o
sobrolho e pareceu não ter a certeza de como deveria prosseguir.
- Conta tudo, Planco, conta tudo!
-Ah... a tua respeitável mãe, Júlia, fugiu com Lívia para junto de Sexto
Pompeu.
- Se eu tivesse parado um momento para pensar nela, coisa que não fiz porque
tento evitar fazê-lo, teria concluído que esse seria precisamente o tipo de
coisa que ela faria. Oh, mas que mundo maravilhoso aquele em que vivemos!
-António cerrou os punhos. - Esposas e mães a viverem em acampamentos militares
e a comportarem-se como se distinguissem os copos da ponta de uma espada...
pff! - Fez um esforço visível para se acalmar. - O meu irmão... suponho que
esteja morto e tu não tenhas conseguido arranjar coragem para me dizer, Planco?
Finalmente iria dar uma boa notícia!
- Não, não meu caro Marco! Longe disso! Quando Perúsia abriu os seus portões,
houve um qualquer magnata local que se entusiasmou com o tamanho da sua própria
pira funerária e a cidade ardeu completamente. O que foi mais desastroso do que
o cerco. Octaviano executou vinte cidadãos proeminentes mas não se vingou nas
tropas de Lúcio. Foram incorporadas nas legiões de Agripa. Lúcio pediu um
perdão e este foi-lhe concedido sem contrapartidas. Octaviano entregou-lhe o
governo da Hispânia Ulterior e ele partiu para lá de imediato. Estava, ao que
me pareceu, um homem feliz.
- E essa foi uma nomeação ditatorial sancionada pelo Senado e Povo de Roma? -
perguntou António, em parte aliviado e em parte ultrajado. Maldito Lúcio!
Sempre a tentar ultrapassar o irmão Marco e sem nunca o conseguir.
- Foi - disse Planco. - Mas houve quem se opusesse.
- Tratamento de favor para o demagogo careca do Fórum?
- Hum... bem, sim, essa frase foi usada. Posso dar-te os nomes. Todavia Lúcio
foi cônsul no ano passado e o teu tio Híbrida é censor, portanto a maioria
achou que Lúcio merecia o perdão e a nomeação.
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Deve conseguir travar uma bela guerra com os Lusitanos e terá um triunfo quando
regressar a casa. António grunhiu.
- Então conseguiu desenvencilhar-se melhor da situação do que merecia. Foi uma
completa idiotia do princípio ao fim! Apesar de eu estar disposto a apostar que
o Lúcio se limitou a seguir ordens. Esta foi uma guerra de Fúlvia. Onde está
ela?
Planco esbugalhou os olhos castanhos.
-Aqui, em Atenas. Ela e eu fugimos juntos. De início pensámos que Brundísio não
nos iria receber, pois é apaixonadamente partidária de Octaviano, mas acho que
ele deve ter mandado recado de que nós podíamos sair de Itália desde que não
levássemos tropas connosco.
- Já concluímos então que Fúlvia está em Atenas, mas onde?
- Ático emprestou-lhe a domus dele aqui, em Atenas.
- Que generoso da parte dele! Gosta sempre de ter um pé nos dois lados da
contenda, o nosso Ático. Mas o que o leva a pensar que eu ficarei satisfeito
por ver Fúlvia?
Planco ficou mudo, sem saber o que António gostaria de ouvir.
- E que mais aconteceu?
- Não achas que já é suficiente?
- Não, a não ser que o relatório tenha sido completo.
- Bem, Octaviano não conseguiu tirar nenhum dinheiro de Perúsia para financiar
as suas actividades, apesar de conseguir arranjar algures o dinheiro para pagar
às suas legiões; o suficiente para que os homens se mantenham do lado dele.
- A arca de guerra de César deve estar a esvaziar-se rapidamente.
- Achas mesmo que ele ficou com ela?
- É claro que ficou com ela! O que anda Sexto Pompeu a fazer?
-A bloquear as rotas marítimas e a piratear todos os cereais que vêm de África.
O almirante dele, Menodoro, invadiu a Sardenha e expulsou Lúrio, o que
significa que Octaviano ficou sem qualquer fornecedor de cereais e só consegue
aqueles que compra a Sexto a preços altamente inflacionados: chegam a vinte e
cinco ou a trinta sestércios o modius. - Planco emitiu um pequeno gemido de
inveja. - É aí que está o dinheiro todo: nos cofres de Sexto Pompeu. Que
tenciona fazer com ele, apossar--se de Roma e da Itália? Delírios! As legiões
adoram os prémios chorudos, mas não combaterão por um homem que lhes deixa os
celeiros morrer à fome. Razão pela qual, parece-me - continuou Planco em tom
pensativo -, ele teve que recrutar escravos e fazer almirantes de libertos.
Mesmo assim um dia vais ter que lhe arrancar o dinheiro, António. Se não o
fizeres talvez Octaviano o faça e tu precisas mais do que ele.
António fez um esgar.
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- Octaviano ganhar uma batalha naval contra um homem tão experiente como Sexto
Pompeu? Com Marco e Aenobarbo como aliados? Tratarei de Sexto Pompeu nuando
chegar o momento, mas isso não é para já. Ele provocará o fracasso de
Octaviano.
Sabendo que estava no seu melhor, Fúlvia esperava ansiosa a chegada do marido.
Apesar de os seus cabelos brancos não se verem na cabeleira de cabelos
castanhos brilhantes, obrigara a criada a arrancá-los penosamente um por um
antes de a pentear de acordo com o último grito da moda. O vestido vermelho-
escuro colava-se-lhe às curvas dos seios caindo depois a direito e não
revelando qualquer sinal de barriga protuberante ou de cintura grossa. Sim,
pensou Fúlvia cheia de satisfação, estou muito bem para a minha idade. Continuo
a ser uma das mulheres mais belas de Roma.
Era evidente que sabia do Inverno muito divertido que António passara em
Alexandria; Barbácio onde não fora mandara. Mas isso eram coisas de homens e
não era nada que lhe dissesse respeito. Se ele andasse metido com uma romana de
estatuto elevado, aí a situação seria diferente. As suas garras ficariam
instantaneamente afiadas. Mas quando um homem estava longe durante meses, por
vezes durante anos seguidos, nenhuma mulher sensata em Roma levaria a mal ao
marido pela descarga dos seus humores. E o querido António tinha um fraco por
rainhas, princesas, mulheres da alta nobreza estrangeira. Levá-las para a cama
fazia-o sentir-se tão real quanto era tolerável para qualquer verdadeiro
republicano de Roma. Por ter conhecido Cleópatra durante a sua estada em Roma,
antes do assassinato de César, Fúlvia compreendia que tinham sido o título e o
seu poder o motivo da atracção de António. Fisicamente ela estava longe de ser
o tipo de mulher sensual e voluptuosa que ele preferia. Para além de que era
fabulosamente rica e Fúlvia conhecia bem o marido; ele devia ter andado atrás
do dinheiro dela.
Por isso, quando o mordomo de Ático veio dizer-lhe que Marco António estava no
átrio, Fúlvia abanou-se para fazer assentar melhor o vestido e apressou-se pelo
corredor comprido e austero que partia dos seus aposentos para ir ao encontro
de António.
-António! Oh, meum mel, que bom que é ver-te! - gritou junto à porta.
Ele estava a apreciar um magnífico quadro, representando Aquiles amuado junto
ao seu rebanho, e virou-se ao ouvir o som da voz dela.
Depois Fúlvia nem se apercebeu do que estava a acontecer, tão rápidos foram os
seus movimentos. O que sentiu foi uma pancada enorme de um dos lados da cara
que a lançou por terra. Depois ele debruçou-se sobre ela, agarrou-a pelos
cabelos e levantou-a. As pancadas de mão aberta choveram-lhe no rosto, não
menos fortes e dolorosas do que se fossem dadas com o punho de outro homem
qualquer; saltaram-lhe dentes e ficou com o nariz partido.
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És uma desgraça como mulher e como esposa, Fúlvia! Não quero ter mais nada a
ver contigo. Vou mandar-te imediatamente os papéis do divórcio.
- Mas - disse ela a soluçar -, eu fugi sem dinheiro nem bens, Marco! Preciso de
dinheiro para viver!
- Pede aos teus banqueiros. És uma mulher rica e sui iuris. - Começou a gritar
pelos criados. - Limpem-na e ponham-na na rua! - disse ao mordomo que estava
quase a desmaiar de terror. Depois António deu meia-volta e foi-se embora.
Fúlvia ficou muito tempo sentada contra a parede, mal tomando consciência das
raparigas aterrorizada que lhe lavaram o rosto e tentaram estancar o sangue,
secar-lhe as lágrimas. Em tempos rira ao ouvir falar de uma mulher cujo coração
fora despedaçado, acreditando que os corações eram inquebráveis. Agora sabia
que isso não era verdade. Marco António partira-lhe o coração de tal forma que
não tinha remédio.
A notícia da forma como António tratara a mulher espalhou-se por Atenas, mas
poucos dos que a ouviram sentiram simpatia por Fúlvia, que fizera o
imperdoável: usurpara as prerrogativas masculinas. As histórias das suas
investidas no Fórum no tempo do seu casamento com Públio Clódio foram novamente
arejadas, juntamente com as histórias das cenas que fizera no exterior das
portas da Casa do Senado e da sua provável colaboração com Clódio, quando este
profanara os ritos da Bona Dea.
Não que António se ralasse com o que diziam os Atenienses. Ele, um homem
romano, sabia que os homens romanos da cidade o respeitariam.
Além disso estava muito ocupado a escrever cartas, uma tarefa árdua. A primeira
destas foi curta e brusca e era dirigida a Tito Pompónio Ático, informando-o de
que o imperator Marco António, triúnviro, lhe agradecia que não metesse o nariz
nos assuntos de Marco António e que não tivesse qualquer envolvimento com
Fúlvia. A segunda carta foi para Fúlvia, informando-a de que estava divorciada
devido a conduta indigna de uma mulher e que ficava proibida de ver os dois
filhos que tinha dele. A terceira foi para Gneu Asínio Polião, perguntando-lhe
o que raio se estava a passar em Itália e se faria o favor de ter as suas
legiões preparadas para marchar para sul no caso de ele, Marco António, ser
impedido de entrar no país pela populaça de Brundísio, fervorosa apoiante de
Octaviano. A quarta foi dirigida ao etnarca de Atenas agradecendo àquele
dignatário a bondade e lealdade da cidade aos romanos (implícito) certos. Assim
sendo, o imperator Marco António, triúnviro, tinha o prazer de oferecer a
Atenas a ilha de Egina e outras ilhas menores que lhe estavam associadas.
Aquilo devia fazer com que os Atenienses se sentissem satisfeitos, pensou.
Teria escrito mais cartas, não fora a chegada de Tibério Cláudio Nero, que lhe
fez uma visita formal assim que instalou a mulher numa boa casa das redondezas.
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- É prima dele... na verdade uma prima bastante próxima. O pai dela era Cláudio
Nero que foi adoptado pelo famoso tribuno das plebes, Lívio Druso, daí o nome
dela, Lívia Drusila. Nero é filho do irmão de sangue do Druso, o Tibério Nero.
É claro que ela é uma herdeira... há imenso dinheiro na família de Lívio Druso.
Em tempos Cícero teve a esperança de que Nero se casasse com a sua Túlia, mas
ela preferiu o Dolabela. Um marido pior em muitos aspectos, mas ao menos é um
sujeito alegre. Não frequentavas esses círculos quando Clódio era vivo,
António?
- Sim. E tens razão, Dolabela era uma boa companhia. Mas não é por causa de
Nero que estás com esse ar, Planco. O que se passa?
- Chegou uma carta de Éfeso. Eu também recebi uma, mas como a tua vem do teu
primo Canínio, deve dizer mais coisas. - Planco sentou-se com os olhos a
brilhar na cadeira do cliente, de frente para António, que estava sentado à
secretária.
António quebrou o selo, desenrolou a epístola do primo e foi-a lendo em
murmúrios, tarefa demorada e acompanhada com franzidos de cenho e por pragas.
- Quem me dera - queixou-se-, que mais homens tivessem seguido os conselhos de
César e pusessem um ponto sobre o início de uma nova palavra. Eu agora faço-o,
assim como Polião, Ventídio, apesar de odiar dizê-lo, Octaviano. Transforma uma
escrita contínua em algo que se consegue ler quase só de um relance. -
Regressou aos seus murmúrios e finalmente suspirou e pousou o pergaminho.
- Como posso estar em dois lugares ao mesmo tempo? - perguntou a Planco. -É
certo que deveria estar na província da Ásia, preparando-a para os ataques de
Labieno, em vez disso vejo-me forçado a ficar mais perto de Itália e a manter
as minhas legiões ao alcance. Pácoro invadiu a Síria e todos os pequenos
principados se juntaram aos Partos, até mesmo Amblichus. Canínio diz que as
legiões do Saxa desertaram para o Pácoro... Saxa viu-se forçado a fugir para
Apameia e depois apanhou um barco para a Cilicia. Nunca mais ninguém soube nada
dele, mas correm boatos de que o irmão foi morto na Síria. Labieno está muito
ocupado a invadir a Cilicia Pedia e o Leste da Capadócia.
- E é claro que não existem legiões a leste de Éfeso.
- Nem em Éfeso, receio bem. A província da Ásia terá que se defender sozinha
até eu conseguir resolver esta confusão na Itália. Já mandei dizer ao Canínio
para trazer as legiões para a Macedónia - disse António sombriamente.
- É essa a única opção? - perguntou Palanco empalidecendo.
- Definitivamente. Dei a mim próprio até ao fim do ano para tratar da questão
de Roma, de Itália e do Octaviano, portanto durante o resto do ano as legiões
estarão acampadas à volta de Apolónia. Se se souber que estão no Adriático,
Octaviano perceberá que o esmagarei como a um insecto.
- Marco - uivou Planco -, toda a gente está farta de guerras civis e é disso
que tu estás a falar, duma guerra civil! As legiões não combaterão!
- As minhas legiões combaterão por mim - disse António.
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Lívia Drusila entrou na residência do governador com a sua habitual compostura
e as pálpebras cremosas baixas sobre os olhos que ela sabia serem o que tinha
de melhor. Esconde-os! Como sempre, caminhava um pouco atrás de Nero, pois era
isso o que as boas esposas faziam e Lívia Drusila jurara ser uma boa esposa.
Nunca, jurara ao ouvir contar o que António fizera a Fúlvia, se poria a si
própria em tal posição! Envergar uma armadura e andar por aí a brandir uma
espada, só Hortênsia, que o fizera para demonstrar aos líderes do Estado romano
que as mulheres de Roma, das de estatuto mais elevado às de estatuto mais
baixo, nunca consentiriam em pagar impostos sem terem o direito ao voto.
Hortênsia vencera o recontro, uma vitória sem derramamento de sangue,
provocando um embaraço considerável aos triúnviros António, Octaviano e Lépido.
Não que Lívia Drusila tencionasse ser um rato; limitava-se a disfarçar-se de
pequena e humilde e um pouco tímida. Lavrava nela uma imensa ambição, embora
esta tivesse uma forma incipiente, pois ela não fazia ideia de como iria agir
para a transformar em algo de produtivo. Certamente que, tendo sido formada num
molde absolutamente romano não acarretaria, consequentemente, nenhum tipo de
comportamento pouco feminino, nem a levaria a pôr-se em evidência nem a
manipulações pouco subtis. Não que quisesse ser uma nova Cornélia a Mãe dos
Gracos, adorada por algumas mulheres como uma verdadeira deusa romana por ter
sofrido, ter tido filhos, ter assistido à sua morte e nunca se ter queixado da
sua sorte. Não, Lívia Drusila pressentia que havia uma outra forma de alcançar
os píncaros.
O problema era que três anos de casamento tinham-lhe demonstrado, para lá de
qualquer dúvida, que tal não aconteceria através de Tibério Cláudio Nero. Tal
como a maioria das raparigas da sua elevadíssima posição social, não conhecera
muito bem o seu futuro marido antes do casamento, apesar de este ser um primo
chegado. Ele não lhe inspirara, nas poucas ocasiões em que se tinham
encontrado, nada a não ser desprezo pela sua estupidez e uma repulsa instintiva
pela sua pessoa. Sendo ela própria morena, admirava homens com cabelos dourados
e olhos claros. Sendo ela própria inteligente, admirava homens inteligentes.
Nero não tinha nenhuma dessas características. Tinha quinze anos quando o pai
Druso a casara com aquele primo em primeiro grau, Nero e, na casa onde
crescera, não houvera pinturas murais do deus Príapo nem candeeiros fálicos
através dos quais uma rapariga pudesse aprender alguma coisa sobre o amor
físico. Por isso a união com Nero enojara-a. Ele também preferia amantes de
cabelos loiros e olhos claros; o que lhe agradava na mulher era a linhagem
nobre e a sua fortuna.
Mas como poderia ver-se livre de Tibério Cláudio Nero se estava determinada a
ser uma boa esposa? Tal não lhe parecia exequível, a menos que alguém
oferecesse ao marido um casamento melhor, e isso era altamente improvável.
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Tão espesso e negro como a noite, com o mesmo tom índigo do seu brilho, o
cabelo estava penteado de forma modesta, tapando-lhe as orelhas e preso na
nuca. E o rosto dela era magnífico! Uma boca pequena e vermelha, olhos enormes
debruados por pestanas compridas e negras abertas em leque, faces rosadas, um
nariz pequeno mas aquilino, tudo combinado na perfeição. No exacto momento em
que António começava a ficar aborrecido por não conseguir determinar a cor dos
seus olhos, ela mexeu a cadeira e um fino raio de sol iluminou-os. Oh,
espantoso! Eram de um azul muito escuro, mas raiados por mágicas estrias
castanho-esbranquiçadas. Nunca vira antes olhos semelhantes e... assustadores.
Lívia Drusila, seria capaz de te comer!, disse para consigo e empenhou-se em
fazer com que ela se apaixonasse por ele.
Mas tal não era possível. Ela não era envergonhada, respondia a todas as suas
perguntas com honestidade e modéstia e não temia acrescentar um pequeno
comentário quando tal era apropriado. No entanto não introduzia novos assuntos
nas conversas por sua própria iniciativa e não disse nem fez nada que Nero, que
a vigiava como um falcão, pudesse reprovar. Nada disso teria tido qualquer
importância para António se o mínimo sinal de interesse tivesse brilhado nos
seus olhos, mas tal não aconteceu. Se fosse um homem mais sensível teria
percebido que a pequena careta que, de tempos a tempos, lhe toldava a expressão
era um sintoma de desagrado. Sim, ele era capaz de dar uma sova a uma mulher
que se tivesse portado muito mal, concluiu ela, mas não da mesma forma que
Nero, que o fazia friamente e com total calculismo. António fá-lo-ia no meio de
um enorme descontrolo apesar de, depois, quando arrefecesse, não sentir
remorsos, pois o crime dela teria sido imperdoável. A maioria dos homens
gostava dele, sentia-se atraída por ele e a maior parte das mulheres desejava-
o. A vida durante aqueles breves dias no covil de Sexto Pompeu, em Agrigento,
pusera Lívia Drusila em contacto com mulheres de baixa condição e aprendera
muita coisa sobre o amor e sobre os homens e o acto sexual. Parecia que as
mulheres preferiam homens com pénis grandes por isso lhes facilitar o orgasmo,
o que quer que isso fosse - ela não descobrira, pois tivera medo de perguntar
não fossem rir-se dela. Mas o que descobriu foi que Marco António era famoso
pela enormidade do seu equipamento reprodutivo. Bem, podia ser que fosse
verdade, mas apercebera-se que não havia em António nada de que gostasse ou
admirasse. Em especial quando se apercebeu que ele estava a dar o seu melhor
para lhe provocar uma reacção. Deu-lhe uma satisfação tremenda negar-lhe essa
reacção, o que lhe ensinou um pouco acerca das formas através das quais uma
mulher poderia adquirir poder. Mas não envolvendo-se com António, cujos desejos
eram transitórios e até mesmo pouco importantes.
- Que achaste do Grande Homem? - perguntou Nero quando regressavam a casa
durante o breve pôr do sol avermelhado.
Lívia Drusila pestanejou; não era costume o marido pedir-lhe a opinião acerca
de alguém ou de alguma coisa.
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Na realidade era tão burro que não fazia ideia de que César não gostara dele.
Agua correndo pelas costas de um pato, como diziam os Gauleses. Quando a nossa
linhagem é a melhor possível, que defeito poderá encontrar em nós um nobre
nosso igual?
A Marco António parecia que o seu primeiro mês em Atenas estava pejado de
mulheres, nenhuma das quais valia o seu precioso tempo. No entanto seria o seu
tempo mesmo valioso, quando nada do que fazia lhe dava frutos? As únicas boas
notícias chegaram de Apolónia juntamente com Quinto Délio, que o informou de
que as suas legiões tinham chegado à costa ocidental da Macedónia e se sentiam
satisfeitas por poderem montar o campo em climas mais amenos.
Em cima dos calcanhares de Délio chegou Lúcio Escribónio Libão, escoltando a
mulher mais capaz de alegrar António: a sua mãe.
Ela entrou apressada na sala, espalhando alfinetes de cabelo e sementes para o
pássaro, que a criada trazia numa gaiola, e os fios de uma longa franja que uma
qualquer costureira louca pregara na bainha da sua estola. O cabelo soltava-se
em madeixas que, por aqueles tempos, já eram mais cinzentas do que loiras, mas
os seus olhos eram exactamente como o filho os recordava: eternamente cheios de
lágrimas.
- Marco! Marco! - gritou atirando-se para os seus braços. - Oh meu querido
rapaz, pensei que não mais voltaria a ver-te! Passei tempos horríveis! Num
quartinho miserável que vibrava dia e noite com o barulho de actos não
mencionáveis, ruas cobertas de cuspo e do conteúdo dos bacios, uma cama cheia
de percevejos, nenhum sítio onde tomar um banho...
Com muitos murmúrios e outros sons tranquilizantes, António conseguiu
finalmente sentá-la numa cadeira e acalmá-la, tanto quanto era possível alguém
acalmar Júlia Antónia. Só então é que o fluxo das suas lágrimas se reduziu para
algo de semelhante ao habitual e ele teve oportunidade de ver quem entrara
depois dela. Ah, o maior velhaco de todos os velhacos, Lúcio Escribónio Libão.
Não andava colado a Sexto Pompeu... era mais como um enxerto posto num pé de
vinha azeda para as uvas ficarem mais doces.
Baixo e mal constituído, Libão tinha um rosto que sublinhava os defeitos do seu
tamanho e que traía a natureza da besta que habitava no seu íntimo: ávido,
tímido, ambicioso, inseguro, egoísta. O seu grande momento chegara quando o
filho mais velho de Pompeu, o Grande, se apaixonara pela sua filha e se
divorciara de Cláudia Pulcra para casar com ela, obrigando Pompeu, o Grande, a
promovê-lo a uma posição adequada para o sogro do seu filho. Depois, quando
Gneu Pompeu seguiu o pai na morte, Sexto, o filho mais novo, casara com a viúva
do irmão. Em consequência, Libão comandara frotas e servia agora como
embaixador não oficial do seu senhor, Sexto. As mulheres Escribónias tinham
servido bem a sua família; a irmã de Libão casara com dois homens ricos e
influentes, um deles um patrício, um Cornélio, de quem tivera uma filha.
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Apesar de Escribónia, a irmã, já ter trinta e tal anos e fama de dar azar -
duas vezes viúva era demais - Libão não desistira de lhe arranjar um terceiro
marido. Com bom aspecto, com provas dadas de fertilidade e um dote de duzentos
talentos - sim, Escribónia, a irmã, casar-se-ia novamente.
Todavia António não estava interessado nas mulheres de Libão; era ele próprio
quem o incomodava.
- Porque havias de ma trazer? - perguntou.
Libão abriu muito os olhos castanhos e estendeu as mãos.
- Meu caro António, para onde haveria de a levar?
- Poderias tê-la enviado para a sua própria domus em Roma.
- Ela recusou-se num tal ataque de histeria que me vi forçado a empurrar o
Sexto Pompeu para fora sala... se não ele ainda a matava. Acredita em mim, ela
recusou-se a ir para Roma, não parava de guinchar que o Octaviano a iria
executar por traição.
- Executar uma prima de César? - perguntou António com incredulidade.
- Porque não? - perguntou Libão muito inocentemente. - Ele proscreveu o primo
Lúcio de César, o irmão da tua mãe.
- Octaviano e eu, ambos proscrevemos Lúcio! - ripostou António espicaçado. - No
entanto não o executámos! Precisávamos do dinheiro dele, tão simples como isso.
A minha mãe está falida, não corre qualquer perigo.
- Então tu explica-lhe isso! - disse Libão com um esgar; fora ele, afinal, quem
tivera que aturar Júlia Antónia numa viagem marítima bastante longa.
Se algum dos dois homens se tivesse lembrado de olhar para ela - o que não
aconteceu - ter-se-ia apercebido de que os olhos azuis encharcados em lágrimas
tinham um certo brilho ardiloso e que as orelhas profusamente ornamentadas não
deixavam escapar uma única palavra. Júlia Antónia podia ser monumentalmente
pateta, mas tinha uma preocupação muito saudável relativamente ao seu bem-estar
e estava convencida de que ficaria muito melhor com o seu filho mais velho, do
que encalhada em Roma sem quaisquer rendimentos.
Nessa altura chegaram o mordomo e os criados da família, com expressões que
deixavam transparecer alguma excitação. Sem se deixar comover por aquela prova
de receio serviçal, os criados temiam ir receber mais um fardo, António
entregou-lhes agradecido a sua mãe enquanto lhe garantia que não a iria enviar
para Roma. Finalmente o assunto resolvera-se e a paz desceu sobre o escritório;
António recostou-se na cadeira com um suspiro de alívio.
-Vinho! Preciso de vinho! - gritou saltando repentinamente da cadeira. -Tinto
ou branco, Libão?
- Um bom vinho forte; agradeço-te. Sem água. Vi água suficiente nos três
últimos nundinae que me chega para o resto da vida.
António sorriu.
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- E ele acha que eu proporei ao Senado que o estatuto dele de inimigo público,
e todas as proibições e embargos e interdições sejam levantados, se ele me
ajudar a livrar Roma de Octaviano?
- Pensa, sim.
- Deduzo que ele esteja a propor uma guerra aberta, amanhã já, se possível?
- Ora, ora, Marco António, toda a gente consegue ver que tu e o Octaviano
acabarão por chegar a vias de facto! Dado que entre os dois, estou a descontar
o Lépido, têm imperium maius sobre nove décimos do mundo romano e controlam as
respectivas legiões bem como os respectivos rendimentos, que mais poderá
acontecer quando entrarem em colisão senão uma guerra total? Durante cinquenta
anos a história da República romana foi uma guerra civil após a outra;
acreditas mesmo que Filipos foi o fim da última guerra civil? - Libão manteve
um tom ameno e uma expressão serena. - Sexto Pompeu está cansado de viver fora
da lei. Quer aquilo que lhe é devido: a restituição da cidadania, permissão
para herdar os bens do seu pai Magno, restituição desses bens, o consulado e
imperium proconsular perpétuo na Sicília. - Libão encolheu os ombros. - Há
mais, mas isto já chega para começar, acho eu.
- E em troca de tudo isso?
- Controlará e varrerá os mares como teu aliado. Inclui um perdão para o Murco
e terás também as frotas dele. Aenobarbo diz que é independente, apesar de ser
um... pirata igualmente importante. Sexto Pompeu também garantirá cereais à
borla para as tuas legiões.
- Ele está a fazer-me refém.
- Isso é um sim ou um não?
- Não faço tratados com piratas - disse António na sua voz habitualmente
descontraída. - No entanto podes dizer ao teu senhor que se ele e eu nos
encontrarmos sobre as águas espero que me dê passagem para o meu destino, seja
ele qual for. Se ele fizer isso então veremos.
- Mais sim do que não.
- Mais nada do que alguma coisa... por agora. Eu não preciso de Sexto Pompeu
para esmagar Octaviano. Se Sexto acha que preciso está enganado.
- Se decidires transportar as tuas tropas através do Adriático, da Macedónia
para Itália, não gostarás de ter frotas, no plural, a impedirem-te de o
fazeres.
- O Adriático é o quintal de Aenobarbo e ele não se meterá comigo. Não fiquei
impressionado.
- Então Sexto Pompeu não pode considerar-se teu aliado? Não te comprometerás a
defendê-lo no Senado?
- Não em absoluto, Libão. O mais que estou disposto a fazer é concordar em não
o perseguir. Se eu o perseguisse, seria ele a ser feito em papas.
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Diz-lhe que pode ficar com os cereais à borla, mas que espero que me venda
cereais para as minhas legiões ao habitual preço da venda por grosso de cinco
sestércios o modius e nem mais um tostão.
- Tu és um negociador muito duro.
- Estou em posição de o ser. Sexto Pompeu não está.
E que parte desta obstinação se ficará a dever ao facto de ter a mãe pendurada
ao pescoço? Eu disse a Sexto que não era uma boa ideia, mas ele não me deu
ouvidos.
Quinto Délio entrou na sala de braço dado com mais outro velhaco, Sentius
Saturnino.
- Vê só quem acaba de chegar de Agrigento com o Libão! - exclamou Délio
deliciado. - António, tens algum daquele tinto de Quios?
- Pff! - cuspiu António. - Onde está Planco?
-Aqui, António! - disse Planco abraçando Libão e Sentius Saturnino. - Não é
óptimo?
Óptimo mesmo, pensou António amargamente. Quatro doses de xarope.
Mover o seu exército para a costa adriática da Macedónia começara apenas como
um exercício destinado a assustar Octaviano; tendo abandonado qualquer ideia de
se defrontar com os Partos até os seus rendimentos melhorarem, António
inicialmente quisera deixar as suas legiões em Éfeso, mas depois de visitar o
local mudara de ideias. Canínio era demasiado fraco para controlar tantos
legados importantes, a não ser que tivesse por perto o primo António. Para além
de que a ideia de assustar Octaviano era irresistível de tão deliciosa. Mas, de
alguma forma, parecia que todos achavam que a erupção de uma guerra entre os
dois triúnviros ia acontecer finalmente e António deu por si com um dilema.
Deveria esmagar Octaviano imediatamente? Dentro daquilo que eram as campanhas,
aquela seria barata e ele tinha transportes mais do que suficientes para levar
as suas legiões através do pequeno mar até à terra natal, onde poderia escolher
entre as legiões de Octaviano para completar as suas e libertar Polião e
Ventídio - catorze legiões extra só dessa fonte! Mais dez depois de Octaviano
ser derrotado. E o dinheiro que houvesse no Tesouro para pôr na sua arca de
guerra.
Mesmo assim não tinha a certeza... Quando se provou que o conselho de Libão
relativamente a Júlia Antónia estava certo e ele nunca mais a viu, António
descontraiu um pouco. O seu sofá ateniense era confortável e o exército estava
satisfeito em Apolónia - o tempo lhe diria o que fazer. Não lhe ocorreu que, ao
adiar a decisão, estava a comunicar ao seu mundo que estava indeciso quanto às
suas acções futuras.
II
Octaviano no Ocidente
40 a.C. a 39 a.C.
<gravura - omitida>
99
Estava com um ar tão velho e cansado, a sua amada Senhora Roma. Do local onde
se encontrava no topo da Vélia, Octaviano conseguia ver até lá abaixo, ao Fórum
romano e, para lá deste, até ao monte Capitolino; se se virasse para o outro
lado, podia ver para lá dos pântanos do Palus Ceroliae até lá ao fundo, à Via
Sacra e às Muralhas Sérvias.
Octaviano amava Roma com uma paixão feroz que era estranha à sua natureza, que
tendia a ser fria e distante. Mas a Deusa Roma, acreditava, não tinha rival à
face da Terra. Como detestava ouvir uns dizerem que Atenas a ofuscava como o
sol ofusca a lua, ouvir outros dizerem que Pérgamo, nas alturas, era muito mais
bela, ouvir outros dizerem que Alexandria a fazia parecer um oppidum gaulês!
Seria culpa dela os templos estarem em mau estado, os edifícios públicos sujos,
as praças e os jardins mal-amanhados? Não, a culpa era dos homens que
governavam em seu nome, pois importavam-se mais com as suas reputações do que
com a dela, e tinha sido à custa dela que tinham criado essas reputações. Ela
merecia melhor e, se estivesse ao seu alcance, receberia melhor. Claro que
havia excepções: a gloriosa Basílica Júlia de César, a obra de arte que era o
seu Fórum, a Basílica Amélia, o Tabularium de Sila. Mas, até mesmo no
Capitólio, templos tão grandiosos como o de Juno Moneta, estavam muito
necessitados de uma camada de tinta. Dos ovos e golfinhos do Circo Máximo, aos
santuários e fontes das encruzilhadas, a pobre Deusa Roma estava maltrapilha,
uma senhora da nobreza decadente.
Se ao menos tivéssemos um décimo do dinheiro que os Romanos esbanjaram a
guerrear uns contra os outros, Roma seria inigualável na sua beleza, pensou
Octaviano. Para onde irá o dinheiro todo? Era uma pergunta que lhe ocorrera já
por várias vezes e para a qual tinha apenas uma resposta aproximada, uma
adivinha baseada em alguma informação: para as bolsas dos soldados, para ser
gasto em coisas inúteis ou guardado, conforme a personalidade de cada um. Para
as bolsas dos fabricantes e comerciantes que tiravam os seus lucros das
actividades bélicas; para as bolsas dos estrangeiros; e para as bolsas dos
homens que faziam a guerra.
100
Mas se essa última parte era verdade, pensou, então porque não tinha ele nenhum
lucro?
Olhem para Marco António, continuou a pensar. Roubou centenas de milhões, mais
para manter o seu estilo de vida hedonista do que para pagar às legiões. E
quantos milhões terá ele dado aos seus pretensos amigos para parecer um grande
homem? Oh, eu também roubei... consegui ficar com a arca de guerra de César. Se
não o tivesse feito já estaria morto. Mas, ao contrário de António, nunca dei
um único tostão. Aquilo que gasto do meu tesouro oculto é para ser bem gasto,
como por exemplo para pagar ao meu exército de agentes. Não consigo sobreviver
sem os meus agentes. O trágico é eu não me atrever a gastar nada na própria
Roma. A maior parte do dinheiro vai para pagar os prémios astronómicos das
legiões. Um poço sem fundo que talvez tenha uma única verdadeira utilidade: a
distribuição da riqueza pessoal de uma forma mais igualitária do que nos velhos
tempos, em que os plutocratas podiam ser contados pelos dedos de ambas as mãos
e em que os soldados não ganhavam o suficiente sequer para pertencerem à quinta
classe. Isso já não acontece.
A vista do Fórum turvou-se quando os olhos se lhe encheram de água. César, oh
César! O que poderia eu ter aprendido se não tens morrido? Foi António quem
lhes possibilitou o teu assassinato - ele fazia parte da conspiração, sinto-o
nos ossos. Como acreditava ser o herdeiro de César e estava urgentemente
necessitado da enorme fortuna de César, sucumbiu às lisonjas de Trebónio e de
Décimo Bruto. O outro Bruto e Cássio não eram ninguém, não passavam de meras
figuras de proa. Tal como muitos antes dele, António está desejoso de ser o
Primeiro Homem em Roma. E se não fosse eu, seria. Mas eu estou aqui e ele tem
medo que eu usurpe esse título juntamente com o nome e a fortuna de César. E
tem razão para ter medo. César o Deus - Divus Julius - está do meu lado. Para
Roma prosperar, eu tenho que vencer esta luta! No entanto jurei nunca entrar em
guerra com António e cumprirei o juramento. A brisa suave do zéfiro do início
do Verão agitou-lhe a espessa cabeleira loira; as pessoas reparavam primeiro no
cabelo e só depois na identidade do dono. Olhavam-no fixamente, habitualmente
de cenho franzido. Sendo o triúnviro presente em Roma, era sobre ele que recaía
a maior parte das culpas pelos tempos difíceis - o pão caro, alimentação
monótona, rendas elevadas, bolsas vazias. Mas a cada cenho franzindo ele reagia
com o sorriso de César, algo tão poderoso que as carrancas se transformavam em
sorrisos.
Apesar de mesmo em Roma António gostar de se pavonear de armadura, Octaviano
usava sempre a sua toga orlada a púrpura; esta fazia-o parecer pequeno, magro,
gracioso. Os dias em que usara botas com plataformas pertenciam ao passado.
Roma já o reconhecia como herdeiro de César sem qualquer hesitação e muitos
chamavam-lhe aquilo que ele próprio se intitulava: Divi Filius, o filho de um
deus.
101
Essa era a sua grande vantagem mesmo face à impopularidade. Os homens podiam
ficar carrancudos e resmungar, mas as mamãs e as avós arrulhavam e sorriam;
Octaviano era um político demasiado esperto para não ligar ao impacto que tinha
nas mamãs e nas avozinhas.
Da Vélia passou através dos pilares antigos e cobertos de musgo da Porta Mu-
gónia e subiu ao monte Palatino pela parte menos agradável. A sua casa
pertencera em tempos ao famoso advogado Quinto Hortênsio Hórtalo, o rival de
Cícero nos tribunais. António culpara o seu filho pela morte do irmão Gaio e
proscrevera-o. O que não preocupara nada o jovem Hortênsio, morto na Macedónia,
o corpo atirado para o monumento de Gaio António. Tal como a maior parte de
Roma, Octaviano sabia muito bem que Gaio António fora de tal modo incompetente
que a sua morte tinha sido positivamente uma bênção.
A domus Hortênsia era uma casa muito grande e luxuosa, apesar de não ter as
dimensões do palácio de Pompeu, o Grande, nas Carinas. António ficara com esse;
quando César soube do facto obrigou o primo a pagar renda. Os pagamentos tinham
cessado com a morte de César. Mas Octaviano não quisera uma casa
suficientemente ostensiva para ser intitulada de palácio, apenas algo
suficientemente grande para servir de escritório e de residência. A domus
Hortênsia tinha ficado na sua posse por dois milhões de sestércios, uma fracção
do seu valor real, nos leilões das proscrições. Esse género de coisa acontecia
frequentemente nesse tipo de leilões, quando muitos bens de primeira classe
eram vendidos em simultâneo.
Na parte mais sofisticada do Palatino, as casas amontoavam-se, rivalizando
pelas melhores vistas do Fórum romano, mas Hortênsio não ligara à paisagem. O
que lhe interessava era o espaço. Um famoso apreciador de peixe, tinha lagos
enormes dedicados às carpas prateadas e douradas e campos e jardins que eram
mais comuns às villas, no exterior das Muralhas Sérvias, como o palácio que
César mandara construir para Cleópatra no sopé do monte Janículo. Os seus
jardins e terrenos envolventes eram lendários.
A domus Hortênsia erguia-se no topo de um penhasco com quinze metros,
sobranceiro ao Circo Máximo, onde em dias de paradas ou corridas de carros mais
de cento e cinquenta mil cidadãos romanos se amontoavam nas bancadas para se
maravilharem e aplaudirem. Não lançando sequer um olhar ao Circo, Octaviano
entrou na sua casa pelo jardim e passou pelos lagos nas traseiras, continuando
depois até uma vasta sala de recepções que Hortênsio nunca usara, de tão
enfermo que já estava quando a mandara construir.
Octaviano gostava da arquitectura da casa, pois a cozinha e os aposentos dos
criados ficavam de um dos lados numa estrutura separada que continha as
latrinas e salas de banho para uso dos servos. Os banhos e latrinas para o
proprietário, a sua família e convidados, ficavam no interior do edifício
principal e tinham sido construídos com mármores preciosos.
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103
Nenhum conhecedor com tendências enólogas teria torcido o nariz àquele vinho,
pois Octaviano gostava de servir tudo da melhor qualidade. Do que ele não
gostava era de extravagâncias nem de nada que fosse importado. Os produtos de
Itália, gostava ele de dizer a quem o quisesse ouvir, eram excelentes, portanto
para quê armar-se em pedante exibindo vinhos de Quios, tapetes de Mileto, lãs
tingidas em Hierápolis, tapeçarias de Córdova?
Silencioso como um gato, Octaviano não anunciou a sua chegada e ficou uns
momentos junto à porta a observá-los, o seu "conselho de anciãos", como Mecenas
lhes chamava, brincando com o facto de Quinto Salvidieno, com trinta e um anos,
ser o mais velho do grupo. Era àqueles quatro homens - e apenas a eles - que
Octaviano dizia o que pensava; apesar de não dizer tudo o que pensava. Esse
privilégio estava reservado a Agripa, seu contemporâneo e irmão espiritual.
Marco Vipsânio Agripa, de vinte e três anos, tinha exactamente o aspecto que um
nobre romano devia ter. Era tão alto como César fora, muito musculado mas seco
e possuía um rosto pouco habitual mas belo, com sobrancelhas espessas sob uma
testa alta e um queixo firme por baixo de uma boca austera. Descobrir que os
seus olhos cavos eram cor de avelã era uma tarefa difícil, graças às pestanas
espessas que os obscureciam. No entanto Agripa era de tão baixo nascimento que
Tibério Cláudio Nero desdenhara: quem já ouvira falar de uma família chamada
Vipsânio? Era samnita, se não fosse apúlio ou calabrês. Em qualquer dos casos,
era escumalha italiana. Só Octaviano apreciava verdadeiramente a profundidade e
alcance do seu intelecto, que ia do comando de exércitos, à construção de
pontes e aquedutos, à invenção de maquinetas e ferramentas para tornar o
trabalho mais fácil. Naquele ano era o pretor urbano de Roma, responsável pelos
casos cíveis e pela distribuição dos casos criminais pelos vários tribunais. Um
trabalho pesado, mas não suficientemente pesado para satisfazer Agripa, que
também ficara com algumas das tarefas dos edis. Eram esses distintos cidadãos
os responsáveis por cuidar dos edifícios e serviços em Roma; dizendo que não
passavam de um monte de inúteis mandriões, ele assumira a responsabilidade do
abastecimento de água e dos esgotos, para grande desalento das empresas que a
cidade contratara para gerir esses serviços. Falava muito a sério em fazer
obras para impedir que os esgotos refluíssem de cada vez que havia cheias no
Tibre, mas temia que isso não viesse a acontecer naquele ano, pois era
necessário o levantamento de muitas milhas de esgotos e de escoadouros.
Conseguira contudo fazer algumas obras na Aqua Mareia, o melhor dos aquedutos
existentes em Roma e estava a construir um novo, o Aqua Júlia. O abastecimento
de água de Roma era o melhor do mundo, mas a população da cidade estava a
aumentar e o tempo a esgotar-se.
Ele era um homem de Octaviano até à morte, não cegamente fiel, mas
inteligentemente leal; conhecia as fraquezas de Octaviano assim como os seus
pontos fortes e sofria por ele como Octaviano nunca sofria por si próprio. Não
se podia pôr a questão da ambição.
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- Com a perda da Sardenha, bem que vamos precisar dele - disse Tauro. Octaviano
olhou para Agripa.
- Como não temos navios, temos que começar a construir alguns. Agripa, quero
que abandones as insígnias do teu cargo e partas num périplo pela península,
desde Tergeste até à Ligúria. Vais requisitar boas galés de guerra, robustas.
Para derrotar Sexto precisamos de frotas.
- Como as vamos pagar, César? - perguntou Agripa.
- Com a última das pranchas.
Uma resposta enigmática que nada significava para os restantes, mas que era
clara como água para Agripa, que assentiu. "Pranchas" era a palavra em código
que Octaviano e Agripa usavam quando se referiam à arca de guerra de César.
- Libão regressou para junto de Sexto de mãos a abanar e Sexto ficou ofendido.
Não o suficiente para atormentar António, mas mesmo assim ficou ali um
ressentimento - disse Mecenas. - Libão não ficou a gostar mais de António em
Atenas do que gostara noutros locais, portanto o Libão é agora um inimigo de
António a envenenar os ouvidos de Sexto.
- O que é que irritou Libão em especial? - perguntou Octaviano com curiosidade.
- Com a retirada de Fúlvia, acho que ele tinha a esperança de arranjar um
terceiro marido para a irmã. Haverá forma mais sagaz de cimentar uma aliança do
que com um casamento? Pobre Libão! Os meus espiões dizem-me que ele pôs no
anzol toda a variedade de isco. Mas o assunto nunca foi abordado e Libão
embarcou de regresso a Agrigento muito desapontado.
- Humm. - As sobrancelhas loiras juntaram-se e as espessas pestanas loiras
desceram sobre os olhos espantosos de Octaviano. Subitamente bateu com ambas as
mãos nos joelhos e pareceu determinado. - Mecenas faz as malas! Vais partir
para Agrigento para te encontrares com Sexto e Libão.
- Com que objectivo? - perguntou Mecenas desagradado com a missão.
- O teu objectivo é negociar umas tréguas com Sexto que permitam à Itália ter
cereais para o Outono a um preço razoável. Farás o que for necessário para
alcançar esse objectivo, compreendido?
- Mesmo que seja preciso um casamento?
- Mesmo nesse caso.
- Ela tem mais de trinta anos, César. E tem uma filha, Cornélia, quase
casadoira.
- Não me interessa a idade da irmã do Libão! Todas as mulheres são semelhantes,
portanto qual é a importância da idade? Pelo menos não estará manchada por uma
prostituta como a Fúlvia.
Ninguém fez comentários ao facto de, após dois anos de casamento, a filha de
Fúlvia ter sido devolvida à mãe virgo intacta. Octaviano casara com a rapariga
para apaziguar António, mas nunca dormira com ela. No entanto tal não poderia
acontecer com a irmã de Libão.
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Octaviano teria que dormir com ela, de preferência gerando frutos. Em tudo o
que dizia respeito aos assuntos da carne, ele era tão pudico como Catão, o
Censor, portanto só lhes restava esperar que Escribónia não fosse nem feia nem
devassa. Toda a gente ficou a olhar para o pavimento de mosaicos poligonais e
fingiu ser cega, surda e muda.
- E se António tentar atracar em Brundísio? -perguntou Salvidieno para mudar um
pouco de assunto.
- Brundísio está fortificada até aos dentes e ele não vai conseguir fazer
passar um único transporte de tropas pela corrente do porto - disse Agripa. -
Eu próprio supervisionei as fortificações de Brundísio, sabes disso Salvidieno.
- Há outros sítios onde poderá desembarcar.
- O que sem dúvida fará, mas com todas aquelas tropas? - Octaviano parecia
tranquilo. - Ainda assim, Mecenas, quero-te de volta de Agrigento a toda a
brida.
- Os ventos são-nos contrários - disse Mecenas parecendo desolado. Quem é que
queria passar uma parte do Verão numa fossa como a cidade siciliana de
Agrigento de Sexto?
- O que é ainda melhor para te trazer de volta rapidamente. Quanto à maneira de
lá chegares... remai Leva um carro até Putéolos e contrata o navio mais rápido
e os melhores remadores que conseguires encontrar. Paga-lhes o dobro do que te
pedirem. Já, Mecenas, já!
O grupo desfez-se; só Agripa ficou.
- Qual é o teu último cálculo do número de legiões que tens para defrontares
António?
- Dez, César. Apesar de, mesmo que só tivéssemos três ou quatro, isso também
não ter importância. Nenhum dos lados combaterá. Não paro de o repetir, mas
toda a gente faz orelhas moucas às minhas palavras com excepção de ti e do
Salvidieno.
- Eu ouvi-te porque nesse facto reside a nossa salvação. Recuso-me a acreditar
que estou derrotado - disse Octaviano. Suspirou e sorriu pesarosamente. - Oh,
Agripa, espero que essa mulher do Libão seja suportável! Não tenho tido muita
sorte com as esposas.
- Elas têm sido sempre escolhas de terceiros e meros expedientes políticos. Um
dia, César, escolherás a tua mulher e essa mulher não será uma Servília Vácia
nem uma Clódia. Nem, suspeito, uma Escribónia Libónia, se é que o acordo com
Sexto vai ter sucesso. -Agripa pigarreou e ficou com um ar embaraçado. -
Mecenas sabia, mas deixou que fosse eu a dar-te as notícias que vieram de
Atenas.
- Notícias? Que notícias?
- Fúlvia cortou os pulsos.
Durante longos instantes Octaviano não disse nada, limitando-se a olhar o Circo
Máximo com o olhar tão fixo que a Agripa pareceu que tinha partido para um
local que não era deste mundo. Era um amontoado de contradições, aquele César.
<Mapa - omitido>
110
Mesmo em pensamentos, Agripa nunca pensava nele como Octaviano; fora a primeira
pessoa a tratá-lo pelo nome adoptivo, apesar de todos os seus seguidores
actualmente fazerem o mesmo. Ninguém conseguia ser mais frio, mais duro, mais
implacável. No entanto era evidente, ao vê-lo naquele momento, que chorava
Fúlvia, uma mulher que detestara.
- Ela fazia parte da história de Roma - disse Octaviano finalmente -, e merecia
um fim melhor. As cinzas dela vieram para casa? Tem um túmulo?
-A resposta a ambas as perguntas, tanto quanto sei, é não. Octaviano levantou-
se.
-Vou falar com Ático. Entre ambos far-lhe-emos um funeral decente adequado à
sua posição. Os filhos dela e de António não são bastante novos?
- Antilo tem cinco anos e Iulius dois.
- Então vou pedir à minha irmã que lhes deite um olho. Os três que tem não
chegam à Octávia, tem sempre os filhos de alguém ao seu cuidado.
Incluindo, pensou Agripa sombriamente, a tua meia-irmã Márcia. Nunca esquecerei
o dia, nos picos de Petra, quando íamos a caminho do encontro com Bruto e
Cássio - César sentado com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, chorando a
morte da sua mãe. Mas ela não morreu! É a esposa do filho do padrasto dele, o
Lúcio Márcio Filipe. Era mais uma das suas contradições, conseguia chorar
Fúlvia e conseguia também fingir que a mãe não existia. Oh, eu sei porquê. Ela
usava as vestes de viúva havia apenas um mês quando começou o caso com o
enteado. Isso poderia ter sido abafado se ela não tivesse ficado grávida. Ele
recebera uma carta da irmã nesse dia, em Petra, implorando-lhe que
compreendesse a situação da mãe. Mas ele não compreendera. Para ele, Ácia era
uma prostituta, uma mulher imoral, indigna de ser mãe da filha de um deus.
Obrigou então Ácia e Filipe a retirarem-se para a villa daquele em Miseno e
proibiu-os de entrarem em Roma. Um édito que nunca revogara, apesar de Ácia
estar doente e de a sua bebé estar permanentemente aos cuidados de Octávia. Um
dia tudo isto voltará para o atormentar, apesar de ele não o ver, assim como
nunca viu a sua meia-irmã. Uma criança linda, loira como todos os Julíanos,
apesar de o pai ser muito moreno.
Depois chegou uma carta da Gália Ulterior que expulsou todos os pensamentos
sobre António ou a sua mulher morta da cabeça de Octaviano e que provocou o
adiamento da data do casamento que Mecenas andava a arranjar-lhe,
atarefadamente, em Agrigento.
"Estimado César", dizia, "escrevo para te informar que o meu amado pai, Quinto
Fúfio Caleno, morreu em Narbona. Eleja tinha cinquenta e nove anos, eu sei, mas
estava bem de saúde. E depois caiu morto. Acabou-se num instante. Como seu
principal legado, sou agora responsável pelas onze legiões estacionadas em toda
a Gália Ulterior: quatro em Agêndico, quatro em Narbona e três em Glanum.
111
Neste momento os Gauleses estão calmos, depois de o meu pai ter esmagado uma
revolta entre os Aquitanenses no ano passado, mas tremo só de pensar que podem
descobrir que sou eu que tenho neste momento o comando e como sou inexperiente.
Senti que estava mais certo informar-te a ti do que ao Marco António, embora os
Gauleses lhe pertençam. Ele está muito longe. Envia-me por favor um novo
governador, alguém com as competências militares necessárias para manter a paz
na região. De preferência envia-mo rapidamente, pois gostaria de levar
pessoalmente as cinzas do meu pai para Roma."
Octaviano leu e releu a missiva bastante directa, o coração aos saltos no
peito. Para variar eram palpitações de felicidade. Finalmente um acaso do
destino favo-recia-o! Quem iria alguma vez pensar que Caleno iria morrer?
Mandou chamar Agripa que andava ocupado em terminar os seus afazeres de pretor
urbano de forma a poder ausentar-se por longos períodos; o pretor urbano não
podia ausentar-se de Roma por períodos superiores a dez dias.
- Esquece esses pormenores todos! - gritou Octaviano estendendo-lhe a carta.
-Lê isto e regozija-te!
- Onze legiões de veteranos! - arfou Agripa compreendendo imediatamente a
importância do sucedido. - Tens que chegar a Narbona antes que Polião e
Ventídio se antecipem. Eles têm menos milhas para percorrer, portanto reza para
que as notícias não cheguem depressa aos seus ouvidos. A julgar por esta carta,
o jovem Caleno não chega aos calcanhares do pai. -Agripa abanou o pedaço de
papel. - Imagina, César! A Gália Ulterior está prestes a cair-te no colo sem
que um único pilum se erguesse em combate.
- Levamos o Salvidieno connosco - disse Octaviano.
- Isso será sensato?
Os olhos cinzentos pareceram sobressaltar-se.
- O que te leva a questionar a minha opinião neste ponto?
- Nada que consiga dizer exactamente, a não ser que governar a Gália Ulterior é
um comando muito importante. É capaz de subir à cabeça do Salvidieno. Pelo
menos deduzo que tenciones dar-lhe este comando?
- Gostarias de ficar com ele? Se o quiseres é teu.
- Não, César, não quero. - Estaria demasiado longe de Itália e de ti. -
Suspirou e encolheu os ombros com uma expressão de desânimo. - Não me consigo
lembrar de mais ninguém. Tauro é demasiado novo e não podes confiar nos outros
para que tratem inteligentemente dos Belóvacos ou dos Suevos.
- Salvidieno vai sair-se bem - disse Octaviano confiante e deu uma palmadinha
no braço do seu melhor amigo. - Partimos amanhã de madrugada para a Gália
Ulterior e viajaremos da mesma maneira que o meu pai, o deus, o fazia:
cabriolés puxados por quatro mulas a galope.
112
O que significa que iremos pela Via Emília e pela Via Domícia. Para termos a
certeza de que não teremos problemas em requisitar mulas frescas com a
frequência necessária, levamos um esquadrão de cavalaria germânica.
- Devias ter um guarda-costas a tempo inteiro, César.
- Agora não, estou demasiado ocupado. Além disso não tenho dinheiro para essas
coisas.
Depois de Agripa sair, Octaviano atravessou o Palatino até ao Clivo Vitória e à
domus de Gaio Cláudio Marcelo Menor, que era seu cunhado. Tendo sido um cônsul
incompetente e indeciso no ano em que Júlio César atravessou o Rubicão, Marcelo
era irmão e primo direito de dois homens cujo ódio por César ultrapassara tudo
o que era razoável. Mantivera-se em Itália enquanto César travara a guerra
contra Pompeu, o Grande, e, depois da vitória de César, fora recompensado com a
mão de Octávia. Para Marcelo aquela união era uma mistura de amor e de
utilidade; uma ligação matrimonial à família de César significava protecção
para si próprio e para a enorme fortuna de Cláudio Marcelo que era, agora,
inteiramente sua. E ele amava verdadeiramente a noiva, uma jóia sem preço.
Octávia dera-lhe uma menina, Marcela Maior, um rapaz a quem toda a gente
chamava Marcelo e uma segunda menina, Marcela Menor, que era conhecida por
Celina.
A casa estava anormalmente silenciosa. Marcelo estava muito doente,
suficientemente doente para a sua mulher, habitualmente tão bondosa, ter
emitido instruções rígidas relativamente ao barulho e conversas dos criados.
- Como está ele? - perguntou Octaviano à irmã beijando-lhe a face.
- É uma questão de dias, segundo dizem os médicos. O tumor é muito maligno e
está a comer-lhe vorazmente as entranhas.
Os enormes olhos da cor de águas-marinhas encheram-se das lágrimas que só eram
vertidas para lhe encharcar a almofada quando se deitava. Ela amava
genuinamente aquele homem que o padrasto escolhera para si com a total
aprovação do irmão; os Cláudios Marcelos não eram patrícios, mas vinham de uma
linhagem antiga e nobre de plebeus, o que fizera de Marcelo Menor um marido
adequado para uma Juliana. Fora César quem não gostara dele, César quem
reprovara aquela união.
A beleza dela tinha-se tornado ainda maior, pensou o irmão, desejando poder
partilhar algum do seu desgosto. Pois apesar de ter consentido no casamento,
nunca simpatizara verdadeiramente com o homem que possuía a sua amada Octávia.
Para além disso fizera planos que a morte de Marcelo era capaz de favorecer.
Octávia recuperaria da perda. Quatro anos mais velha do que ele, tinha o ar dos
Julianos: cabelos dourados, olhos azulados, malares altos, uma boca adorável e
uma expressão de calma radiante que atraía as pessoas. E, mais importante,
tinha em toda a sua plenitude o dom concedido à maioria das mulheres julianas:
fazia os seus homens felizes.
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- A dormir devido ao xarope de papoilas, domina. Mais nada lhe faz passar as
dores, o que é uma pena. Embota-lhe tremendamente o espírito.
- Eu sei - disse Octávia sentando-se. - Vai comer e dormir, vai. Vais ter de
voltar a ficar de serviço não tarda. Gostava que ele deixasse mais alguém ficar
aqui, mas não deixa.
- Se eu estivesse a morrer tão lenta e tão dolorosamente, domina, também
gostava de ver o rosto certo por cima de mim quando abrisse os olhos.
- Exactamente, Admeto. Agora vai, por favor. Come e dorme. E ele emancipou-te
no testamento, disse-mo. Vais chamar-te Gaio Cláudio Admeto, mas espero que
fiques comigo.
Demasiado comovido para falar, o jovem grego beijou a mão de Octávia.
As horas passaram e o silêncio só foi quebrado quando uma ama trouxe Celina
para ser amamentada. Felizmente ela era um bebé bonzinho e não chorava alto nem
mesmo quando tinha fome. Marcelo continuou a dormir, inconsciente.
Depois mexeu-se, abriu os olhos escuros e desfocados que se tornaram
imediatamente mais límpidos quando a viram.
- Octávia, meu amor! - grasnou.
- Marcelo, meu amor - disse ela com um sorriso radioso levantando-se para lhe
ir buscar um copo com vinho aguado e açucarado. Ele bebeu por uma palhinha, não
muito. Depois ela trouxe uma bacia com água e um pano. Tirou o pano de linho
que lhe cobria a pele e os ossos, tirou-lhe a fralda suja e começou a lavá-lo
com mãos leves como penas, falando suavemente. Para onde quer que ela se
dirigisse no quarto, os olhos dele seguiam-na, brilhantes de amor.
- Os homens velhos não deviam casar com raparigas novas - disse.
- Discordo. Se as raparigas novas casassem com rapazes novos, nunca cresceriam
nem aprenderiam nada a não ser banalidades, pois seriam ambos igualmente
inexperientes. -Afastou a bacia. - Pronto! Sentes-te melhor?
- Sim - mentiu ele e depois, subitamente, foi acometido por um espasmo que o
esticou da cabeça aos pés, com o rito de agonia que lhe arreganhou os dentes. -
Oh, Júpiter, Júpiter! A dor, a dor! O meu xarope, onde está o meu xarope?
E ela deu-lhe o xarope de papoilas e sentou-se novamente para o ver dormir até
Admeto chegar para a substituir.
Mecenas descobriu que a sua tarefa estava facilitada por Sexto Pompeu ter
ficado ofendido com a reacção de Marco António à sua proposta. "Pirata",
realmente! Estava disposto a uma conspiração clandestina para atormentar
Octaviano, mas não a reconhecer publicamente uma aliança. "Pirata" não era a
forma como Sexto Pompeu se via a si próprio, alguma vez vira ou veria.
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- Gerrae! - berrou Sexto. - Para começar, ele não tem navios nem almirantes
dignos desse nome. Imagina, mandar um liberto grego efeminado como o Heleno
para me arrancar a Sardenha! Ah, por falar nisso, tenho cá o sujeito. Está são
e salvo. Navios e almirantes: duas fraquezas. Não tem dinheiro, terceira
fraqueza. Tem inimigos de todo o género; quarta. Queres que continue?
- Isso não são fraquezas, são deficiências - disse Mecenas saboreando uns
camarões minúsculos. - Oh, isto é delicioso! Porque "serão muito mais saborosos
do que os que como em Roma?
- As águas são mais lamacentas e mais nutritivas.
- Sabes muito sobre o mar.
- O suficiente para saber que o Octaviano não é capaz de me vencer no mar,
mesmo que arranje navios. Organizar uma batalha naval é uma arte muito especial
e acontece que sou eu quem melhor domina essa arte em toda a história de Roma.
O meu irmão, Gneu, era soberbo, mas nada que se parecesse comigo. - Sexto
recostou-se e pôs um ar complacente.
Que se passará com esta geração de jovens?, pensou Mecenas fascinado. Na escola
aprendemos que nunca haveria outro Cipião Africano nem outro Cipião Emiliano,
mas eles estavam separados por uma geração e cada um foi único na sua época.
Hoje não acontece o mesmo. Suponho que os jovens tiveram a oportunidade de
mostrar aquilo de que são capazes por causa de tantos homens de quarenta e
cinquenta anos terem morrido, ou partido para um exílio permanente. Este
espécime ainda nem tem trinta anos.
Sexto saiu da sua fantasia congratulatória.
- Devo dizer, Mecenas, que estou desapontado por o teu senhor não me ter vindo
ver pessoalmente. É demasiado importante, é?
- Não, garanto-te - disse Mecenas no seu tom mais untuoso. - Ele envia-te as
mais sinceras desculpas, mas aconteceu uma coisa inesperada na Gália Ulterior
que tornou a sua presença indispensável.
- Sim, ouvi dizer, provavelmente antes dele. A Gália Ulterior! E a cornucópia
de riquezas que daí advirá! As melhores entre as legiões de veteranos, cereais,
presuntos e carne de porco salgada, beterrabas... Para não mencionar o caminho
terrestre para as Hispânias, apesar de ele ainda não controlar a Gália
Italiana. Mas sem dúvida que a controlará quando o Polião decidir ostentar as
insígnias consulares, apesar de correrem boatos de que isso não acontecerá
ainda durante algum tempo. Ouvi dizer que o Polião está a marchar com as suas
sete legiões pela costa do Adriático abaixo para prestar assistência a António
quando ele desembarcar em Brundísio.
Mecenas pareceu surpreendido.
- Porque haveria António de precisar de assistência militar para desembarcar em
Itália? Como o mais importante dos triúnviros, pode ir e vir à vontade.
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- Não, se Brundísio tiver uma palavra a dizer. Porque será que os habitantes de
Brundísio detestam tanto António? Eles até cuspiriam nas suas cinzas.
- Ele foi muito duro com eles quando o Divus Julius o deixou lá para atravessar
o resto das legiões para o outro lado do Adriático, no ano antes de Farsalo -
disse Mecenas ignorando a expressão sombria de Sexto ao ouvir mencionar a
batalha em que o seu pai fora esmagado e em que o mundo mudara. -António
consegue ser muito pouco razoável e nunca o foi tão pouco como nessa época, em
que Divus Julius andava em cima dele. Além de não impor convenientemente a
disciplina militar. Deixou os legionários à solta: violaram, roubaram. Depois,
quando Divus Julius fez dele mestre do cavalo, descarregou muito do seu
aborrecimento com Brundísio sobre a própria Brundísio.
- Isso seria o suficiente - disse Sexto a sorrir. - Contudo, quando um
triúnviro traz com ele todo o seu exército, a coisa parece-se bastante com uma
invasão.
- Uma demonstração de força, um sinal ao imperator César... - A quem?
- Imperator César. Não lhe chamamos Octaviano. E Roma também não. -Mecenas fez
um ar modesto. -Talvez seja essa a razão de Polião não ter vindo para Roma,
mesmo tendo sido eleito cônsul júnior.
- Aqui tens algumas notícias para o imperator César mais desagradáveis do que
as da Gália Ulterior - disse Sexto abespinhado. - Polião conseguiu virar o
Aenobarbo para o lado de António. O imperator César vai adorar saber disso!
- Oh, lado, lado - exclamou Mecenas mas sem paixão. - O único lado é o de Roma.
Aenobarbo é um excitado, Sexto, como tu muito bem sabes. -Não "pertence" a
ninguém a não ser a Aenobarbo e adora andar a rugir para cima e para baixo, no
seu pedacinho de mar, e a fingir que é o Pai Neptuno. Sem dúvida que isso
significa que tu próprio terás mais contactos com Aenobarbo no futuro?
- Não sei - disse Sexto com uma expressão inescrutável.
- E mais, esse abutre de muitos olhos e muitas línguas que é o Boato, diz que
ultimamente não andas a dar-te muito bem com Lúcio Estaio Murco - disse Mecenas
gastando a sua erudição naquela audiência pouco apreciadora.
- Murco quer ser co-comandante - disse Sexto antes de conseguir pôr tento na
língua. Aquele era o problema de Mecenas, ele embalava os seus ouvintes numa
conversa amistosa que, sem se perceber como, o transformava de criatura de
Octaviano num amigo de confiança. Aborrecido com a indiscrição que cometera,
Sexto tentou desvalorizar a questão com um encolher de ombros. - E claro que
tal não é possível, eu não acredito na partilha do comando. Tenho sucesso
porque sou em quem toma todas as decisões. Murco é um pastor de cabras da
Apúlia que pensa ser um nobre romano.
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Olha quem fala, pensou Mecenas. É então adeus a Murco, hem? Por esta altura do
ano que vem, já ele estará morto, acusado de uma qualquer transgressão. Este
jovem bandido não tolera iguais, daí a sua predilecção por almirantes libertos.
O romance dele com Aenobarbo não vai durar mais do que o tempo necessário para
que este comece a chamar-lhe arrivista picentino.
Aquela era uma informação útil, mas não fora isso o que o levara ali. Largando
os camarões e pondo de lado a pesca das novidades, Mecenas preparou-se para
tratar do assunto que o trouxera: tornar claro aos olhos de Sexto Pompeu que
ele tinha que dar uma oportunidade de sobrevivência a Octaviano e à Itália.
Para a Itália tal significava as barrigas cheias; para Octaviano, significava
poder agarrar-se ao que já tinha.
- Sexto Pompeu - disse Mecenas com grande intensidade dois dias mais tarde -,
não me cabe a mim julgar-te, nem a ti nem a ninguém. Mas não podes negar que as
ratazanas da Sicília se alimentam melhor do que o povo de Itália, do teu
próprio país, de Piceno, de Úmbria e da Etrúria, de Brútio e da Calábria. Que é
onde fica a tua própria cidade que o teu pai embelezou durante tanto tempo. Nos
seis anos que decorreram desde Munda, ganhaste milhares de milhões de
sestércios a revender trigo, portanto não é o dinheiro o que te move. Mas se é,
como afirmas, uma forma de forçares o Senado e o Povo de Roma a restituírem-te
a cidadania e todos os direitos inerentes, então certamente que compreendes que
vais necessitar de ter em Roma aliados poderosos. Na realidade existem apenas
dois homens com o poder necessário para te ajudar: Marco António e o imperator
César. Porque estás tão determinado a que esse aliado seja António, um homem
menos racional e, atrevo-me a afirmá-lo, de menos confiança do que o imperator
César? António chamou-te pirata e não deu ouvidos a Lúcio Libão quando este o
abordou. Enquanto que agora é o imperator César quem te aborda. Não é esse
facto revelador da sua sinceridade, do respeito que tem por ti, do seu desejo
em ajudar-te? Não escutarás difamações de pirataria dos lábios do imperator
César! Toma o seu partido! António não está interessado em ti e isso é
indiscutível. Se tens que escolher um dos lados, então escolhe o lado certo.
- Muito bem - disse Sexto parecendo zangado. - Tomarei o partido de Octaviano.
Mas vou exigir garantias de que ele defenderá a minha causa no Senado e nas
Assembleias.
- O imperator César dar-te-á todas as garantias que quiseres. Qual seria a
prova de boa-fé que te satisfaria?
- O que é que ele acharia de se casar com alguém da minha família?
- Ficaria extasiado.
- Ele não tem mulher, segundo creio?
- Não. Nenhum dos seus casamentos foi consumado. Ele sentiu que as filhas de
prostitutas poderiam, elas próprias, tomar-se prostitutas.
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- Espero que ele o consiga pôr em pé para esta. O meu sogro, o Lúcio Libão, tem
uma irmã, uma viúva respeitabilíssima. Podes tu próprio verificar.
Os olhos salientes esbugalharam-se ainda mais, como se a notícia da existência
da dita senhora fosse uma completa surpresa.
- Sexto Pompeu, o imperator César sentir-se-á honrado! Eu sei algumas coisas
sobre ela... é muitíssimo adequada.
- Se o casamento se realizar, darei passagem às frotas cerealíferas vindas de
África. E venderei a todos os comerciantes enviados por Octaviano, até ao mais
insignificante de entre eles, o meu trigo a treze sestércios o modius.
- Um número azarento. Sexto sorriu.
- Talvez seja, para Octaviano, para mim não é.
- Nunca se sabe - disse Mecenas suavemente.
Quando Octaviano pôs os olhos em Escribónia sentiu-se intimamente satisfeito,
apesar de as poucas pessoas presentes no casamento não o poderem adivinhar,
pois a sua atitude era sisuda e os olhos ocultavam cuidadosamente os seus
sentimentos. Sim, estava satisfeito. Escribónia não parecia ter trinta e três
anos, parecia ter a idade dele, que faria vinte e três anos no aniversário
seguinte. Os seus cabelos e os seus olhos eram castanho-escuros, a pele clara e
leitosa, a cara bonita, a figura excelente. Não envergava o açafrão flamejante
das noivas virgens, mas escolhera um vestido vaporoso sobre um corpete
vermelho-escuro. As poucas palavras que trocaram durante a cerimónia revelaram
que não era tímida mas que também não era tagarela e uma conversa mais
aprofundada demonstrou que era culta, que lera bastante e que falava grego
muito melhor do que ele próprio. Talvez a sua única característica que lhe
causava apreensão fosse a sua noção do ridículo. Não sendo senhor de um bom
sentido de humor, Octaviano temia aqueles que o possuíam, em particular quando
eram mulheres - como poderia ter a certeza de que não estavam a rir-se dele?
Ainda assim não era provável que Escribónia fosse achar ridículo, ou
particularmente risível, um marido tão superior a si própria, o filho de um
deus.
- Lamento afastar-te do teu pai - disse ele. Os olhos dela dançaram.
- Eu não, César. Ele é um velho aborrecido.
- Verdade? - perguntou ele sobressaltado. - Sempre pensei que a separação do
pai fosse um golpe para as mulheres.
- Esse foi um golpe que já recebi duas vezes antes de seres tu a desferi-lo,
César, e de cada vez que o recebo a dor é menor. Neste momento é mais uma
carícia do que uma pancada. Além disso nunca imaginei que o meu terceiro marido
fosse um belo jovem como tu. - Deu uma risadinha. - O melhor que eu esperava
era um vigoroso octogenário.
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Foi essa a primeira prova da sua modéstia inata que ela acharia difícil de
ultrapassar. Tendo partilhado a cama de casada com dois outros homens, estava à
espera de gestos urgentes, apalpões e beliscões, investidas que, supunha, se
destinavam a despertar nela o mesmo grau de desejo, ainda que tal nunca tivesse
acontecido.
Mas essa não era a abordagem de César (tinha, tinha, tinha que se lembrar de
lhe chamar César!). A cama era tão estreita que se tornara inevitável sentir o
seu corpo nu ao lado do dela, no entanto não fez mais qualquer tentativa de a
tocar. Subitamente pôs-se em cima dela, usou os joelhos para lhe afastar as
pernas e inseriu o pénis num orifício tristemente seco, pois ela não estava
nada preparada. Contudo esse facto não pareceu desencorajá-lo; esforçou-se
diligentemente até atingir um clímax silencioso, retirou-se de dentro dela e da
cama, balbuciando que tinha que se lavar e saiu do quarto. Quando percebeu que
ele não regressaria, ficou ali deitada, espantada, e depois chamou uma criada
para que lhe trouxesse uma luz.
Ele estava no escritório, sentado a uma velha secretária carregada de rolos de
pergaminho e, debaixo da mão direita, tinha um monte de folhas soltas de papel
e segurava numa simples caneta de junco. A caneta do seu pai, Libão, era
revestida a ouro e tinha uma pérola na ponta. Mas era evidente que Octaviano -
César - não se ralava nada com esse género de aparências.
- Marido, sentes-te bem? - perguntou.
Ele erguera os olhos ao sentir a aproximação de outra luz; dirigiu-lhe então o
sorriso mais maravilhoso que ela alguma vez vira.
- Sim - disse.
- Desagradei-te? - perguntou ela.
- De maneira nenhuma. Foste muito agradável.
- Fazes isto muitas vezes?
- Faço o quê?
- Hum... ah... trabalhar em vez de dormir?
- Muitas vezes. Gosto de paz e sossego.
- E eu incomodei-te. Desculpa. Não voltarei a fazê-lo. Ele baixou a cabeça,
distraído.
- Boa noite, Escribónia.
Só levantou novamente a cabeça muitas horas depois, recordando aquele breve
encontro. E pensou, com uma enorme sensação de alívio, que gostava da sua nova
mulher. Ela compreendia os limites e, se conseguisse engravidá-la, o pacto com
Sexto Pompeu manter-se-ia.
Octávia não era nada do que ela esperara, descobriu Escribónia quando lhe fez a
visita de condolências. Para sua surpresa foi encontrar a cunhada de olhos
enxutos e bastante alegre. A surpresa deve ter-lhe transparecido nos olhos,
pois Octávia riu-se e sentou-a numa cadeira confortável.
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- Provavelmente nunca assistirás a uma crise - disse Octávia que não tinha
dificuldade nenhuma em perceber que a nova cunhada se estava a apaixonar pelo
Pequeno Gaio. Não era algo que pudesse evitar, mas era, compreensivelmente,
algo que a levaria inevitavelmente a um amargo sofrimento. Escribónia era uma
mulher adorável, mas não conseguiria fascinar nem o Pequeno Gaio nem o
imperator César. - Em Roma a sua respiração é habitualmente normal a não ser
que haja seca. Este ano tem sido tranquilo. Não me preocupo com ele enquanto
aqui está e tu também não devias preocupar-te. Ele sabe o que fazer se tiver um
ataque e há sempre o Agripa.
- O jovem austero que o acompanhou no nosso casamento.
- Sim. Eles não são como gémeos - disse Octávia com o ar de quem estudou um
enigma até encontrar uma solução. - Não há rivalidade entre eles. É mais como
se Agripa se encaixasse nos espaços vazios do Pequeno Gaio. Às vezes, quando as
crianças se estão a portar especialmente mal, eu queria poder dividir-me em
duas. Bem, o Pequeno Gaio conseguiu fazê-lo. Tem o Marco Agripa, a sua outra
metade.
Quando Escribónia saiu da casa de Octávia já conhecia as crianças, uma tribo
que Octávia tratava como se todos os seus membros tivessem nascido do seu
ventre e ficou a saber que, da próxima vez que a visitasse, Ácia estaria
presente. Ácia, a sua sogra. Também mergulhara mais profundamente nos segredos
daquela família extraordinária. Como podia César fingir que a mãe estava morta?
Qual a dimensão do seu orgulho e da sua altivez para não conseguir perdoar um
lapso de uma mulher que era, em todos os outros aspectos, irrepreensível?
Segundo Octávia, a mãe do imperator César Divi Filius não podia ter qualquer
defeito. A atitude dele dizia tudo relativamente ao que esperava de uma esposa.
Pobres Servília Vácia e Clódia, ambas virgens, mas prejudicadas por terem mães
consideradas moralmente pouco satisfatórias. Tal como a sua própria mãe e seria
melhor que Ácia estivesse morta do que ser a prova viva desse facto.
No entanto, ao regressar a casa, caminhando entre dois ferozes e gigantescos
guardas germânicos, o seu rosto reflectia os pensamentos. Conseguiria fazer com
que ele a amasse? Oh, como queria que ele a amasse! Amanhã, decidiu, vou fazer
um sacrifício a Juno Sospita para que ela me conceda uma gravidez e a Vénus
Eru-cina para lhe agradar na cama e à Bona Dea por harmonia uterina e a
Vediovis para o caso de o desapontamento estar à espreita. E a Spes, que é a
Esperança.
Octaviano estava em Roma quando recebeu a notícia, vinda de Brundísio, segundo
a qual Marco António, acompanhado por duas legiões, tentara entrar no porto mas
fora repelido. A corrente fora esticada e os bastiões equipados. Brundísio não
queria saber qual era o estatuto de que gozava o monstruoso António, dizia a
carta, como também não queria saber das ordens do Senado para que fosse
admitido na cidade.
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Ele que entrasse em Itália noutro ponto qualquer à sua escolha: mas não em
Brundísio. Dado o único outro porto naquela região com capacidade para receber
o desembarque de duas legiões ser Tarento, na extremidade do calcanhar da bota,
um António furioso e frustrado vira--se forçado a desembarcar os seus homens em
portos muito mais pequenos em torno de Brundísio, dispersando-os.
- Ele deveria ter ido para Ancona - disse Octaviano a Agripa. - Ter-se-ia
podido juntar a Polião e a Ventídio lá e, por esta altura, estaria a marchar
sobre Roma.
- Se se sentisse seguro de Polião, tê-lo-ia feito - respondeu Agripa -, mas não
se sente seguro relativamente a ele.
- Acreditas então na carta de Planco a dar conta de dúvidas e
descontentamentos? - Octaviano acenou-lhe com uma folha de papel solta.
- Sim, acredito.
- Eu também - disse Octaviano sorrindo. - O Planco está num dilema: preferiria
António, mas quer manter aberta uma via de comunicação comigo, não vá chegar o
momento em que tenha que saltar a cerca para o nosso lado.
- Tens demasiadas legiões em torno de Brundísio para que António junte os seus
homens antes de Polião chegar, o que, segundo me dizem os meus batedores, não
acontecerá antes de pelo menos um nundinum.
- Tempo suficiente para chegarmos a Brundísio, Agripa. As nossas legiões estão
estacionadas do outro lado da Via Minúcia?
- Optimamente dispostas. Se Polião quiser evitar um confronto terá que marchar
para Benevento pela Via Ápia.
Octaviano pousou a caneta no suporte e arrumou cuidadosamente os papéis em
pilhas; correspondência com organismos e com pessoas, propostas para leis e
mapas pormenorizados de Itália. Levantou-se.
- Vamos então para Brundísio - disse. - Espero que Mecenas e o meu Nerva
estejam prontos? E o que se passa com o Nerva neutral?
- Se não te enterrasses em papéis, César, sabê-lo-ias - disse Agripa num tom
que só ele se atrevia a usar com Octaviano. - Há já dias que estão preparados.
E Mecenas convenceu Nerva neutral a vir connosco.
-Excelente!
- Porque é que isso é tão importante, César?
- Bem, quando um dos irmãos elegeu António e o outro a mim, a neutralidade era
a única forma da facção de Coceio Nerva conseguir sobreviver se eu e António
entrássemos em guerra. O Nerva de António morreu na Síria, o que abriu uma vaga
desse lado. Uma vaga que deixou Lúcio Nerva banhado em suor... atrever-se-ia a
preenchê-la? No fim acabou por dizer que não, apesar de também não me ter
escolhido a mim. - Octaviano fez uma careta. - Com a mulher a segurar-lhe na
trela ele está preso a Roma, portanto... escolheu a neutralidade.
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- Eles não terão uma morte rápida - rosnou António. - Vou empalar os
magistrados da cidade com estacas enfiadas no rabo e hei-de enfiá-las mais dois
centímetros todos os dias.
- Ai, ai! - disse Planco estremecendo só com a ideia. - Que vamos fazer?
- Esperar pelas minhas tropas e desembarcar onde pudermos a norte e a sul -
disse António. - Quando Polião chegar, está a levar imenso tempo!, atacaremos
esta terra desgraçada pelo lado de terra, com fortificações de Agripa ou sem
elas. Após um cerco, imagino. Eles sabem que eu não serei magnânimo...
resistirão até ao fim.
E foi assim que António se retirou para a ilha fronteira à barra do porto de
Brundísio, onde ficou a aguardar a chegada de Polião, e a tentar descobrir o
que acontecera a Ventídio que estava estranhamente silencioso.
Sextilis terminara e passaram as Nonas de Setembro, apesar de o tempo continuar
suficientemente quente para não tornar difícil a vida na ilha. António andava
de um lado para o outro; Planco observava-o a andar de um lado para o outro.
António grunhia; Planco reflectia. Os pensamentos de António nunca se afastavam
de Lúcio António; os de Planco debatiam-se longa e profundamente também com um
único assunto, mas um assunto muito mais fascinante: Marco António. Pois Planco
via agora novas facetas em António e não gostava do que via. A maravilhosa e
gloriosa Fúlvia ia e vinha nos seus pensamentos - tão corajosa e feroz, tão...
tão interessante. Como podia António ter batido numa mulher, ainda por cima sua
esposa? A neta de Gaio Graco!
Ele é como uma criança pequena com a mãe, pensou Planco enxugando as lágrimas.
Devia estar no Oriente a combater os Partos... é esse o seu dever. Em vez disso
está aqui, em solo italiano, como se não tivesse a coragem de o abandonar. Será
Octaviano que o mói ou será a insegurança? Lá no fundo, será que António
acredita que conseguirá conquistar louros no futuro? Oh, ele é corajoso, mas
comandar exércitos não exige valentia. É mais um exercício intelectual, uma
arte, um talento. Divus Julius era genial nesse aspecto e António é primo dele.
Mas, para António, parece que esse factor é mais um fardo do que um prazer. Ele
está tão aterrorizado com a hipótese de falhar que, tal como Pompeu Magno, não
avançará a não ser que tenha superioridade numérica. Que tem, aqui em Itália,
se contar com Polião, Ventídio e com as suas próprias legiões, que estão mesmo
do outro lado do pequeno mar. É o suficiente para esmagar Octaviano, mesmo
agora, que este tem as onze legiões de Caleno da Gália Ulterior. Suponho que
ainda lá estejam, sob o comando do Salvidieno, que escreve regularmente a
António numa tentativa de mudar de campo. Um pormenor que não contei a
Octaviano.
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O que António teme em Octaviano é aquele génio que Divus Julius tinha em tanta
abundância. Oh, não como general de exércitos! Mas como homem de coragem
infinita, o tipo de coragem que António começa a perder. Sim, o seu receio de
falhar cresce, enquanto que Octaviano começa a atrever-se a tudo e a apostar em
resultados imprevisíveis. António está em desvantagem quando tem que se
defrontar com Octaviano, mas ainda o está mais quando confrontado com inimigos
tão desconhecidos como os Partos. Será que alguma vez fará essa guerra? Ele
lamenta--se da falta de dinheiro, mas será essa falta apenas o resultado da sua
relutância em travar a guerra que deveria travar? Se não a travar perderá a
confiança de Roma e dos Romanos e ele sabe-o. Portanto, Octaviano é o seu
pretexto para se demorar no Ocidente. Se ele expulsar Octaviano de cena ficará
com tantas legiões que poderia derrotar um quarto de milhão de homens. No
entanto, com sessenta mil homens, Divus Julius derrotou um exército de mais de
trezentos mil. Porque o fez com genialidade. António quer ser senhor do mundo e
o Primeiro Homem em Roma, mas não consegue arranjar uma forma de o conseguir.
Anda, anda, anda, para trás e para a frente. Sente-se inseguro. O tempo das
decisões aproxima-se e ele sente-se inseguro. E também não se pode lançar num
dos seus famosos ataques de "vida inimitável" - que piada, chamar aos seus
apaniguados de Alexandria a Sociedade da Vida Inimitável! E agora aqui está
ele, numa situação que não conseguirá esquecer entregando-se a excessos. Será
que os amigos dele ainda não perceberam, como eu percebi, que os deboches de
António são simplesmente uma demonstração da sua fraqueza inata?
Sim, concluiu Planco, é tempo de mudar de campo. Mas poderei fazê-lo neste
momento? Duvido disso da mesma forma que duvido de António. Tal como a ele,
falta-me a coragem.
Octaviano sabia de tudo isto com mais convicção do que Planco, no entanto não
conseguia ter a certeza do lado para que penderia a balança, agora que António
chegara junto a Brundísio; apostara tudo nos legionários. Foi então que os seus
representantes lhe vieram comunicar que estes não combateriam as tropas de
António, fossem elas suas, de Polião ou de Ventídio. Um anúncio que deixou
Octaviano tonto de alívio. Restava apenas saber se as tropas de António
combateriam por ele.
Dois nundinae mais tarde, obteve a sua resposta. Os soldados sob o comando de
Polião e de Ventídio tinham-se recusado a combater os seus irmãos de armas.
Sentou-se para escrever uma carta a António.
Meu caro António, estamos num impasse. Os meus legionários recusam-se a lutar
contra os teus e os teus recusam-se a combater os meus. Pertencem a Roma, dizem
eles, e não a um homem, mesmo que este seja um triúnviro.
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Os dias dos prémios enormes, dizem eles, pertencem ao passado. Concordo com
eles. Desde Filipos que sabemos que não podemos resolver os nossos
desentendimentos entrando em guerra uns com os outros. Podemos ter imperium
maius, mas para o podermos fazer valer temos que ter sob o nosso comando
soldados dispostos a obedecer. E que não temos.
Venho por isso propor-te, Marco António, que cada um de nós escolha um homem
como seu representante para encontrar uma solução para este impasse. Poderei
propor-te um elemento neutral que ambos consideramos justo e imparcial, Lúcio
Coceio Neva? Ficas à vontade para recusar a minha escolha e nomeares outro
homem. O meu representante será Gaio Mecenas. Nem tu nem eu devemos estar
presentes nesta reunião. Participar nela resultaria em temperamentos alterados.
- A ratazana maliciosa! - gritou António amarrotando a carta. Planco apanhou o
papel, alisou-o e leu-o.
- Marco, é mesmo a solução lógica para o nosso problema - gaguejou. - Pensa
nisso um momento, por favor, pensa onde estás e aquilo com que estás
confrontado. O que Octaviano sugere pode revelar-se um bálsamo para sentimentos
feridos de ambos os lados. É, na realidade, a melhor alternativa.
Um veredicto ecoado por Gneu Asínio Polião, várias horas depois, quando chegou
a bordo de uma pinaça proveniente de Bário.
- Os meus homens recusam-se a combater e os teus também - disse num tom
inexpressivo. - Eu, por mim, não consigo fazê-los mudar de ideias e tu também
não conseguirás. E, pelo que se sabe, Octaviano está na mesma situação. As
legiões decidiram por nós, portanto cabe-nos encontrar uma saída honrosa. Eu
disse aos meus homens que arranjaria umas tréguas. Ventídio fez o mesmo.
Desiste, Marco, desiste! Não é uma derrota!
-Tudo aquilo que permitir a Octaviano escapar às mandíbulas da morte é uma
derrota - disse António teimosamente.
- Disparate! As tropas dele estão tão amotinadas como as nossas.
- Ele não está sequer à altura de se confrontar comigo! Tem que ser tudo feito
através de agentes como Mecenas... temperamentos alterados? Eu dou-lhe os
temperamentos alterados! E não quero saber do que ele diz, irei a essa
reuniãozinha para me representar a mim próprio!
- Ele não estará presente, António - disse Polião olhando fixamente para Planco
e depois revirando os olhos. -Tenho uma ideia muito melhor. Se concordares,
irei eu como teu representante.
- Tu? - perguntou António incrédulo. - Tu?
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- Sim, eu! António, fui cônsul durante oito meses e meio e no entanto ainda não
consegui ir a Roma para receber as minhas insígnias de consular - disse Polião
exasperado. - Como cônsul, tenho um estatuto mais elevado do que Gaio Mecenas e
o insignificante do Nerva os dois juntos! Achas mesmo que eu deixaria aquela
doninha do Mecenas enganar-me? Achas?
-Acho que não - disse António começando a ceder. - Está bem, concordo. Com
algumas condições.
-Diz.
- Que poderei entrar em Itália por Brundísio e que te seja permitido ir a Roma
para assumires o teu consulado sem qualquer impedimento ou limitação. Que eu
mantenha o direito a recrutar tropas em Itália. E que seja permitido o regresso
imediato dos exilados.
- Não me parece que qualquer uma dessas condições constitua um problema - disse
Polião. - Senta-te e escreve, António.
Estranho, pensou Polião quando descia a Via Minúcia em direcção a Brundísio, eu
conseguir estar sempre presente quando são tomadas as grandes decisões. Estava
com César - Divus Julius, realmente! - quando ele atravessou o Rubicão e estava
naquela ilha fluvial da Gália Italiana quando António, Octaviano e Lépido
concordaram em dividir o mundo entre si. Agora presidirei à próxima ocasião
importante: Mecenas não é nenhum parvo, não se oporá a que eu assuma a
presidência. Mas que história extraordinária para um escritor da história
moderna!
Apesar de a sua família sabina não ter tido qualquer proeminência até ao seu
próprio advento, Polião era senhor de um intelecto suficientemente formidável
para o ter tornado num dos favoritos de César. Um bom soldado e melhor
comandante, subira com César depois de este se ter tornado Ditador e nunca
tivera qualquer dúvida quanto à sua lealdade, até César ter sido assassinado.
Demasiado pragmático e pouco romântico para tomar o partido do herdeiro de
César, restara-lhe apenas um homem a quem se agarrar: Marco António. Tal como
muitos dos seus pares, achava Gaio Octávio, com os seus dezoito anos, um
absurdo e não conseguia sequer entender o que um homem inigualável como César
vira num rapaz tão bonitinho. Acreditava também que César não esperara morrer
tão depressa - era rijo como uma velha bota da tropa - e que Octaviano fora um
herdeiro temporário, apenas uma manobra para excluir António até ser capaz de
perceber se este iria assentar. E também que teria tempo de ver no que daria o
menino da mamã que agora negava a existência da dita mamã. Depois o Destino e a
Fortuna tinham decretado a pena máxima para César e permitido que um grupo de
homens amargurados, invejosos e de vistas curtas, o assassinassem. Como Polião
o lamentava, apesar da sua capacidade para fazer a crónica dos acontecimentos
contemporâneos com distanciamento e imparcialidade.
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O problema era que, naquela ocasião, Polião não fizera ideia do que César
Octaviano conseguiria fazer da sua inesperada subida à proeminência. Como
poderia qualquer homem prever o aço e o atrevimento que habitavam no interior
daquele jovem inexperiente? César, percebera havia muito, fora o único que vira
aquilo de que Gaio Octávio era feito. Mas mesmo quando Polião percebera o que
havia dentro de Octaviano, já era demasiado tarde para um homem honrado o
seguir. António não era o melhor dos dois homens, era simplesmente a
alternativa que o orgulho lhe permitia. Apesar dos seus defeitos - que eram
muitos - ao menos António era um homem. Assim como sabia muito pouca coisa de
Octaviano, Polião também não conhecia bem o seu principal embaixador, Gaio
Mecenas. Em todos os aspectos físicos Polião era um homem mediano: em altura,
envergadura, cor, encanto facial. Tal como a maior parte dos homens com essas
características, especialmente quando eram também muito inteligentes,
desconfiava daqueles que não eram homens medianos em nenhum aspecto. Se
Octaviano não fosse tão vaidoso (botas com solas de oito centímetros, por amor
dos deuses!) e tão bonito, teria merecido melhor opinião de Polião após o
assassinato de César. E o mesmo se passava relativamente a Mecenas, gorducho e
com um rosto vulgar, de olhos salientes, rico e mimado. Mecenas sorriu
timidamente, entrelaçou os dedos, franziu os lábios e fez um ar divertido,
quando não havia razão nenhuma para isso. Um farsante. Características
detestáveis ou irritantes. No entanto ele oferecera-se para negociar com o
farsante porque sabia que António, quando se acalmasse, escolheria Quinto Délio
para seu representante. E isso não podia permitir; Délio era demasiado venal e
esfomeado para negociações tão delicadas. Era possível que Mecenas fosse
igualmente venal e esfomeado mas, tanto quanto Polião conseguia perceber,
Octaviano não cometera muitos erros ao escolher o seu círculo mais íntimo. O
Salvidieno era um erro, mas esse tinha os dias contados. António sempre se
sentira repelido pela ganância e não sentiria qualquer problema em derrubar
Salvidieno quando a sua utilidade se esgotasse. Mas Mecenas não fizera qualquer
tipo de propostas e possuía uma qualidade que Polião admirava: adorava a
literatura e era o patrono entusiasta de vários poetas promissores, incluindo
Horácio e Virgílio, os melhores versejadores desde Catulo. Era esse o único
factor que inspirava em Polião a esperança de que pudesse ser alcançada uma
solução satisfatória para ambas as partes. Mas como iria ele, um simples
soldado, sobreviver ao tipo de comida e de bebidas que um conhecedor como
Mecenas certamente forneceria?
- Espero que não te importes de comer comida vulgar e de beber vinho aguado? -
perguntou Mecenas a Polião assim que este chegou à casa surpreendentemente
modesta nos arredores de Brundísio.
- Obrigado, prefiro assim - disse Polião.
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"É tudo - concluiu Polião que fizera todo aquele discurso sem recorrer a
quaisquer notas.
Mecenas ouvira-o impassivelmente enquanto Nerva escrevinhava - pelo menos
parecia fazê-lo, pois Nerva não pediu a Polião que repetisse nada do que
dissera.
- César Octaviano enfrentou inúmeras dificuldades em Itália - disse Mecenas
numa voz calma e agradável. - Perdoar-me-ás se eu não enumerar todos os seus
problemas com a mesma forma organizada do teu estilo sintético, Gneu Polião. Eu
não sou governado por uma lógica tão impiedosa... o meu estilo inclina-se mais
para o do contador de histórias.
"Quando César Octaviano se tornou o triúnviro de Itália, das Ilhas e das His-
pânias, encontrou o Tesouro vazio. Teve que confiscar ou comprar terras
suficientes para instalar mais de cem mil soldados veteranos retirados. Dois
milhões de iugera! Por isso confiscou as terras públicas de dezoito municipia
que tinham apoiado os assassinos de Divus Julius... uma decisão justa e
correcta. E sempre que conseguiu arranjar dinheiro, comprou terras aos
proprietários dos latifundia, com o pressuposto de que esses indivíduos tinham
um comportamento especulativo ao utilizarem grandes áreas, anteriormente
cultivadas com cereais, para pastagens. Nenhum cultivador de cereais foi
abordado, pois César Octaviano planeou um grande aumento da produção local de
cereais assim que esses latifundia fossem parcelados em lotes para os
veteranos.
"As pilhagens impiedosas de Sexto Pompeu privaram Itália dos cereais cultivados
em Africa, na Sicília e na Sardenha. O Senado e o Povo de Roma têm sido
preguiçosos no que respeita à resolução dos problemas de fornecimento de
cereais, partindo do princípio de que a Itália poderia sempre ser alimentada a
partir do exterior. Ora, Sexto Pompeu, já provou que um país que depende da
importação de trigo é um país vulnerável e pode ser feito refém. César
Octaviano não dispõe nem do dinheiro nem dos navios para expulsar Sexto Pompeu
do alto-mar, nem para invadir a Sicília, que é a sua base. Por essa razão fez
um pacto com Sexto Pompeu, indo mesmo ao ponto de casar com a irmã de Libão. Se
cobrou impostos, foi porque não teve alternativa. O trigo deste ano está a
custar trinta sestércios o modius, vendido por Sexto Pompeu... trigo
anteriormente comprado e pago por Roma! César Octaviano tem que encontrar
nalgum sítio quarenta milhões de sestércios todos os meses... imagina! Quase
quinhentos milhões de sestércios por ano! Pagos a Sexto Pompeu, um vulgar
pirata! - gritou Mecenas com tal ênfase, que no seu rosto transpareceu uma
paixão muito rara.
- Mais de dezoito mil talentos - disse Polião pensativamente. - E claro que
aquilo que vais dizer a seguir é que as minas de prata das Hispânias tinham
começado a produzir quando o rei Boco invadiu, e que agora estão novamente
encerradas e o Tesouro empobrecido.
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Se Octaviano fosse um soldado, o que não é nem nunca afirmou ser, teria
percebido que esse liberto, o Heleno, obviamente um sujeito persuasivo, não
conseguiria tomar a Sardenha. Em grande parte porque Octaviano não tem um
número suficiente de navios de transporte para as tropas. Não tem barcos. As
províncias foram distribuídas da forma mais atabalhoada que já se viu.
Octaviano fica com a Itália, a Sicília, a Sardenha, a Córsega, a Hispânia
Citerior e a Hispânia Ulterior. António fica com todo o Oriente, mas isso não
lhe chega. Por isso fica também com todas as Gálias e com a Ilíria. Porquê?
Porque as Gálias contam com imensas legiões sob o comando da Águia que não
querem retirar-se. Conheço muito bem o Marco António e ele é um bom homem,
valente e generoso. Quando está na sua máxima forma ninguém é mais competente
nem mais esperto. Mas é também um glutão incapaz de dominar o seu apetite, seja
o que for que lhe apeteça devorar. Os Partos e Quinto Labieno andam a semear o
caos por toda a Ásia e uma boa parte da Anatólia. Mas aqui estamos nós, nos
arredores de Brundísio.
Polião espreguiçou-se e depois encolheu os ombros.
- O nosso dever, Mecenas, é equilibrar as coisas. Como é que o vamos fazer?
Traçando uma linha entre o Ocidente e o Oriente e pondo Octaviano de um lado e
António do outro. Lépido pode ficar com a África, nem vale a pena falar nisso.
Tem dez legiões, está lá bem seguro e a salvo. Não vais ouvir-me contestar o
facto de Octaviano ter de longe a tarefa mais difícil por ter ficado com a
Itália, empobrecida, gasta e esfomeada. Nenhum dos nossos chefes tem dinheiro.
Roma está à beira da falência e o Oriente está tão exaurido que não consegue
pagar quaisquer tributos significativos. No entanto António não pode ter tudo à
sua maneira e vai ter que compreender isso mesmo. Proponho que a Octaviano seja
atribuída uma parte maior dos rendimentos por governar todo o Ocidente -
Hispânia Ulterior, Hispânia Citerior, todas as regiões da Gália Ulterior, a
Gália Italiana e a Ilíria, por forma a transformá-la na fronteira entre o
Ocidente e o Oriente. Nem vale a pena mencionar que António terá a mesma
liberdade de recrutar tropas na Itália e na Gália Italiana que Octaviano. E, já
agora, a Gália Italiana deverá tornar-se parte de Itália em todos os aspectos.
- Muito bem dito, Polião! - exclamou Mecenas sorrindo abertamente. - Não
conseguiria dizer isso tão bem como tu o fizeste. - Fez um simulacro de
tremeli-que. - Para começar, nunca me teria atrevido a ser tão duro para com
António. Sim, meu amigo, muito bem dito na verdade! Agora só nos resta
persuadir António a concordar. Não prevejo nenhumas reticências da parte de
César Octaviano. Ele tem passado imensas dificuldades e, como é evidente, a
viagem que fez de Roma provocou-lhe um ataque de asma.
Polião fez um ar de espanto.
- Asma?
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- Sim. Quase morre com os ataques que tem. Foi por isso que se refugiou nos
pântanos em Filipos. Por causa de todo aquele pó e palha pelos ares!
- Compreendo - disse Polião lentamente. - Compreendo.
- É o segredo dele, Polião.
- António sabe?
- Claro que sabe. Eles são primos, ele sempre soube.
- O que pensa Octaviano de permitir o regresso a casa dos exilados?
- Não levantará objecções. - Mecenas pareceu reflectir em qualquer coisa e
depois disse: - Deves saber que Octaviano nunca declarará guerra a António,
apesar de eu não saber se conseguirás convencer António disso. Não haverá mais
guerras civis. Ele manter-se-á fiel a esse princípio, Polião. É essa a
verdadeira razão de aqui estarmos. Seja qual for a provocação, ele não entrará
em guerra com outro romano. A sua abordagem é a da diplomacia, a da mesa de
conferências, as negociações.
- Não tinha percebido que ele tinha sentimentos tão fortes relativamente a
isso.
- Tem, Polião, tem.
Persuadir António a aceitar os termos que Polião propusera a Mecenas, levou um
nundinum inteiro de fúrias, buracos nas paredes, lágrimas e gritos. Depois ele
começou a acalmar; as suas raivas eram de tal modo devastadoras, que mesmo um
homem tão forte como António, não conseguia manter esse nível de energia
durante mais do que um nundinum. Da raiva mergulhou na depressão e, finalmente,
no desespero. Assim que ele chegou ao fundo do poço, Polião atacou; era agora
ou nunca. Um Mecenas não teria conseguido lidar com António, mas um soldado
como Polião, um homem que António amava e respeitava, sabia exactamente o que
fazer. Tinha, para além disso, a confiança de alguns seguidores leais em Roma
que, caso fosse necessário, reforçariam os seus apoios.
- Está bem, está bem! - gritou António desesperado com as mãos nos cabelos. -
Fá-lo-ei! Tens a certeza em relação aos exilados?
- Absoluta.
- Insisto nalguns pontos que tu não mencionaste.
- Menciona-os agora.
- Quero que cinco das legiões de Caleno embarquem comigo.
- Não creio que isso seja um problema.
- E não concordarei em juntar as minhas forças com as de Octaviano para varrer
Sexto Pompeu dos mares.
- Isso não é sensato, António.
- Pergunta-me: e isso rala-me? Não me rala! - disse António selvaticamente. -
Tive que nomear Aenobarbo governador da Bitínia, de tão furioso que ficou com
as condições que negociaste, o que significa que não tenho frotas suficientes
para poder recuar sem Sexto Pompeu.
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Ele fica, para o caso de eu precisar dele, isso tem que ser tornado claro.
- Octaviano concordará, mas não ficará satisfeito.
- Tudo o que tornar Octaviano infeliz far-me-á feliz a mim!
- Porque escondeste a asma de Octaviano?
- Pff! - cuspiu António. - Ele é uma menina! Só as meninas é que ficam doentes,
seja qual for a doença. A asma dele é uma desculpa.
- Não ceder em relação a Sexto Pompeu pode sair-te caro.
- Sair-me caro como?
- Não sei bem - disse Polião de cenho franzido. - Mas sairá.
A reacção de Octaviano às condições que Mecenas lhe apresentou foi muito
diferente. Interessante, pensou Mecenas, como o seu rosto se modificou durante
os últimos doze meses. Amadureceu e deixou de ser bonito, apesar de nunca ter
sido tão belo. A cabeleira está mais curta e já não se rala com as orelhas
proeminentes. Mas a maior transformação operou-se nos seus olhos, os mais belos
que alguma vez vi, tão grandes, luminosos e de um cinzento prateado. Sempre
foram opacos, nunca deixou transparecer no olhar o que está a pensar ou a
sentir, mas agora apareceu uma dureza de pedra por detrás do seu brilho. E a
boca que eu desejei beijar, sabendo bem que nunca me seria permitido beijá-la,
tornou-se mais firme, mais direita. Suponho que isso significa que ele cresceu.
Cresceu? Ele nunca foi um rapaz! Nove dias antes das Calendas de Outubro fez
vinte e três anos e Marco António tem agora quarenta e quatro. Uma verdadeira
maravilha.
- Se o António se recusar a ajudar-me contra Sexto Pompeu - disse Octaviano -,
terá que pagar um preço.
- Mas o quê? Não tens poder para o forçares a pagar.
- Sim, tenho e será Sexto Pompeu que me dará esse poder.
- E como?
- Um casamento - disse Octaviano tranquilamente.
- Octávia! - arfou Mecenas. - Octávia...
- Sim, a minha irmã. Ela é viúva, não há nenhum impedimento.
- Os seus dez meses de luto ainda não terminaram.
- Já passaram seis e toda a Roma sabe que ela não pode estar grávida... Marcelo
teve uma morte longa e agonizante. Não será difícil obter uma dispensa dos
colégios pontifícios e, das dezassete tribos, os votos necessários no comitium
religioso. - Octaviano sorriu com complacência. - Eles atropelar-se-ão para
fazer o que quer que seja que possa evitar uma guerra entre mim e António. Na
realidade, prevejo que nenhum casamento nos anais de Roma será alguma vez tão
popular.
- Ele não concordará.
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Não será Octávia, nem será provavelmente o seu divórcio dela, caso decida
abandoná-la quando se cansar da sua bondade. Sei que a Fortuna me sorri - já
escapei tantas vezes à justa que quase não tenho pele. E de todas as vezes foi
a sorte que me arrancou do abismo. Como a grande vontade de Libão de encontrar
um marido ilustre para a irmã. Como a morte de Caleno em Narbona e o facto de o
idiota do filho se ter dirigido a mim e não a António. Como a morte de Marcelo.
Como ter Agripa para comandar exércitos para mim. Como escapar à morte de todas
as vezes que a asma me tirou todo o ar do corpo. Como ter a arca de guerra do
meu pai, Divus Julius, para evitar a falência. Como Brundísio ter recusado a
entrada a Marco António, que possam Liber Mater, Sol Indiges e a Terra, dar a
Brundísio, no futuro, a paz c muita prosperidade. Não enviei qualquer ordem
para a cidade para que agisse da forma como agiu, assim como não provoquei a
futilidade da guerra de Fúlvia contra mim. Pobre Fúlvia!
Todos os dias sacrifico a uma dúzia de deuses, com a Fortuna à cabeça, para que
me concedam a arma de que necessito para derrubar António rapidamente, sem ter
que esperar pelos efeitos inelutáveis da idade. A arma existe, sei-o com tanta
certeza como sei que fui escolhido para levantar Roma para sempre, para
conseguir a paz duradoura no interior das fronteiras do seu império. Eu sou o
Escolhido sobre quem escreve Virgílio, o poeta de Mecenas, e que todos os
adivinhos de Roma insistem que anunciará uma idade de ouro. Divus Julius fez de
mim seu filho e eu não desmerecerei da confiança que depositou em mim para que
terminasse aquilo que ele começou. Oh, não será um mundo igual àquele que Divus
Julius teria feito, mas satisfá-lo-á e agradar-lhe-á. Fortuna, traz-me mais da
afamada sorte de César! Traz-me a arma e abre-me os olhos para que a reconheça
quando ela chegar!
A resposta de António veio pelo mesmo mensageiro. Sim, receberia César
Octaviano sob a bandeira das tréguas. Mas nós não estamos em guerra!, pensou
Octaviano faltando-lhe a respiração devido a qualquer coisa que não era um
ataque de asma. Como é que funciona a cabeça dele para achar que estamos em
guerra?
No dia seguinte Octaviano partiu no cavalo público juliano - era um cavalo
pequeno, mas muito belo, com a pelagem creme e a crina e a cauda mais escuras.
Montar significava que não poderia usar a toga, mas, como não queria ter uma
aparência bélica, vestiu uma túnica branca com a faixa senatorial, larga, de
cor púrpura, junto ao ombro direito.
Naturalmente que António envergava uma armadura completa, com peitoral de prata
e uma imagem de Hércules a matar o leão de Nemeia gravada na couraça. A sua
túnica era de cor púrpura como o era o paludamentum que lhe esvoaçava nos
ombros, apesar de, por direito, este dever ser escarlate. Como sempre parecia
estar de boa saúde e em forma.
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Mas fui eu quem fez um grande espectáculo da abolição da ditadura! Brundísio
foi a prova de que os meus legionários se recusam a lutar contra os de
Octaviano. Só esse facto faz com que o pequeno verpa possa estar aqui sentado a
desafiar-me, assumindo abertamente o seu antagonismo.
- Então não sou muito popular em Roma - disse ele amuado.
- Francamente, António, tu não és nada popular, especialmente depois de teres
montado o cerco a Brundísio. Sentiste-te à vontade para me acusar de ter sido
eu a convencer Brundísio a recusar-te a entrada, mas sabes muito bem que não o
fiz. Porque o faria? Não ganho nada com isso! Tudo o que na realidade
conseguiste foi lançar Roma num frenesim de medo, à espera de que marches sobre
ela. O que não conseguirás fazer! As tuas legiões não to permitirão. Se queres
mesmo reabilitar a tua reputação terás que o fazer perante Roma e não perante
mim.
- Não me unirei a ti contra Sexto Pompeu, se é isso que estás a querer
insinuar. Só tenho uma centena de navios em Atenas - mentiu António. - O que
não chega para essa missão, já que tu não tens nenhum. Tal como as coisas
estão, Sexto Pompeu prefere-me a ti e não farei nada para o provocar. De
momento ele deixa-me em paz.
- Eu não achei que me irias ajudar - disse Octaviano calmamente. - Não, estava
a pensar em algo visível para todos os Romanos, do topo da escala até lá ao
fundo.
- O quê?
- Um casamento com a minha irmã, Octávia.
Deixando cair o queixo, António ficou a olhar para o seu carrasco. -Deuses!
- O que tem isso de tão estranho? - perguntou Octaviano suavemente e com um
sorriso. - Eu próprio acabei de celebrar uma aliança conjugal do mesmo género,
como estou certo de que saberás. Escribónia é muito agradável; uma boa mulher,
bonita, fértil... Espero que a minha união com ela mantenha Sexto Pompeu à
distância, pelo menos durante algum tempo. Mas ela não tem comparação possível
com Octávia, pois não? Estou a oferecer-te a sobrinha-neta de Divus Julius,
conhecida e amada por todos os estratos da população de Roma, tal como Júlia o
foi, linda de se ver, imensamente bondosa e atenciosa, uma esposa obediente e
mãe de três filhos, incluindo um rapaz. Tal como Divus Julius esperava que
acontecesse com a sua própria esposa, está acima de qualquer suspeita. Casa com
ela e Roma concluirá que não desejas qualquer mal à cidade.
- Porque chegaria Roma a essa conclusão?
- Porque ser cruel para uma personagem tão pública como Octávia faria de ti um
monstro aos olhos de todos os Romanos. Nem o mais estúpido de entre eles
apoiaria um tratamento cruel para Octávia.
- Compreendo. Sim, compreendo - disse António lentamente.
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Foi Ácia que levou a notícia do seu destino a Octávia e fê-lo banhada em
lágrimas.
- Minha querida menina! - gritou pendurando-se no pescoço de Octávia. - O
ingrato do meu filho traiu-te! A ti! À única pessoa no mundo que eu pensava
estar a salvo das suas maquinações e da sua frieza!
- Mamã sê explícita por favor! - disse Octávia ajudando Ácia a sentar-se. - O
que é que o Pequeno Gaio me fez?
- Prometeu-te a Marco António! A um bruto que pontapeou a mulher! Um monstro!
Atordoada, Octávia deixou-se cair numa cadeira e ficou a olhar para a mãe.
António? Ela iria casar com Marco António? Ao choque seguiu-se um calor
agradável que lhe envolveu o corpo todo. Imediatamente baixou as pestanas para
esconder os olhos de Ácia que parara de chorar e começara a ferver.
-António! - gritou Ácia com força suficiente para que os criados viessem a
correr só para serem expulsos com impaciência. - António! Um labrego, um
cavador, um.. .um... oh, não há palavras para o descrever!
Entretanto Octávia pensava: Será que vou ter sorte finalmente e ter um homem
que desejo para marido? Obrigada, obrigada Pequeno Gaio!
-António! - rugiu Ácia a espumar nos cantos da boca. - Minha querida menina,
tens que arranjar coragem para dizer que não! Não a ele e não ao desgraçado do
meu filho!
Entretanto Octávia pensava: Sonhei com ele tanto tempo, sem esperança,
desolada. Nos velhos tempos, quando ele estava em Itália e vinha visitar
Marcelo, costumava arranjar pretextos para estar presente.
- António! - uivou Ácia, batendo com os punhos nos braços da cadeira, pum, pum,
pum! - É pai de mais bastardos do que qualquer outro homem na história de Roma!
Não tem nele um único grama de fidelidade!
Entretanto Octávia pensava: Eu costumava sentar-me a lavar nele os meus olhos e
a fazer sacrifícios a Spes para que nos visitasse de novo em breve. No entanto
tive sempre cuidado para não trair os meus sentimentos. E agora isto?
- António! - gemeu Ácia com as lágrimas a surgirem de novo à medida que a sua
impotência se ia impondo. - Eu poderia implorar até ao Verão, que o traidor do
meu filho não me daria ouvidos!
Entretanto Octávia pensava: Vou ser uma boa esposa para ele, vou ser o que ele
quiser que eu seja, não me queixarei das suas amantes nem lhe pedirei para o
acompanhar quando regressar ao Oriente. Tantas mulheres, todas mais experientes
do que eu! Ele vai cansar-se de mim, sei-o no meu íntimo. Mas, quando tudo
tiver acabado, nada me poderá roubar as memórias dos tempos passados com ele.
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O amor compreende e o amor perdoa. Fui uma boa esposa para Marcelo e chorei-o
como é adequado a uma boa esposa. Mas rezarei a todas as deusas das mulheres de
Roma para que tenha tempo suficiente com António para me compensar o resto da
vida. Pois ele é o meu verdadeiro amor. Depois dele não poderá haver outro.
Ninguém...
- Pronto, mamã - disse em voz alta com os olhos bem abertos e brilhantes. -
Farei o que o meu irmão quer e casarei com Marco António.
- Mas tu não estás nas mãos de Gaio, tu és sui iuris! - depois Ácia reconheceu
a expressão daqueles magníficos olhos da cor de águas-marinhas e ficou de boca
aberta. - Ecastorl - exclamou com voz fraca. - Estás apaixonada por ele!
- Se o amor é desejar o seu toque e a sua estima, então devo estar - disse
Octávia. - Sabes quando é que isso acontecerá?
- Segundo Filipe me disse, António e o cruel do teu irmão firmaram um pacto em
Brundísio para não haver uma guerra civil. O país inteiro está louco de alegria
e portanto os dois decidiram transformar a viagem para Roma num autêntico
espectáculo. Pela Via Ápia acima até Teano e depois pela Via Latina. Parece que
não chegarão cá antes do fim de Outubro. O casamento deverá ser celebrado pouco
depois. - O rosto da mãe contorceu-se. - Oh, por favor minha querida filha,
recusa! Tu és sui iuris, tens o teu destino nas mãos!
-Aceitarei de bom grado, mamã, digas o que disseres para me demover. Eu sei
como António é e isso não me faz qualquer diferença. Ele terá sempre amantes,
mas nunca teve uma mulher satisfatória. Olha para elas - continuou Octávia,
entusiasmando-se. - Primeiro foi Fádia, a filha analfabeta de um comerciante de
tudo, de escravos a cereais. Nunca a conheci, evidentemente, mas parece que era
pouco atraente para além de burra. Mas António não se divorciou dela, só não ia
muito a casa. Ela deu-lhe um filho e uma filha, uns meninos inteligentes,
segundo dizem. António não pode ser responsabilizado por Fádia e os filhos
terem morrido de uma peste de Verão. Depois foi Antónia Híbrida, filha de um
homem que torturava os seus escravos. Dizem que Antónia Híbrida também
torturava os escravos, mas António curou-a desse vício "à pancada"... podes
condenar António por curar a mulher de um vício tão horrível? Recordo-me
vagamente dela e da criança também. A pobre rapariga era tão gorda e feia...
mas, o pior, é que era ligeiramente atrasada.
- Isso é o que dá casar com parentes - disse Ácia sombriamente. - Antónia Menor
já tem dezasseis anos, mas nunca vai arranjar marido, nem mesmo um de baixo
nascimento. - Ácia fungou. - As mulheres são umas idiotas! Antónia Híbrida caiu
na depressão quando António se divorciou dela, o que ele fez com palavras
cruéis. No entanto ela amava-o. É esse o destino que desejas? É?
- Quer Antónia Híbrida amasse ou não António, mamã, o facto é que não era uma
esposa interessante. Já Fúlvia, apesar de todos os seus defeitos, era-o. Os
problemas dela atribuo-os ao facto de ter dinheiro em demasia, esse tal
estatuto sui iuris que não paras de me lançar à cara, e ao primeiro marido
dela, Públio Clódio.
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Agripa resplandeceu de orgulho e estendeu impulsivamente a mão cerrando-a em
torno do braço de Octaviano. Ele sabia que seria leal a César até à morte, mas
adorava ver César reconhecê-lo por palavras ou actos.
- Mas o mais importante é quem irás usar enquanto eu estiver na Gália Ulterior?
- Estatílio Tauro, evidentemente. Sabino, suponho. Calvino, claro. Cornélio
Galo é esperto e de confiança, desde que não ande às voltas com um poema.
Carrinate vai para a Hispânia.
- Apoia-te mais em Calvino - foi o comentário de Agripa.
Tal como Escribónia, Octávia não achava certo usar cor de fogo e açafrão no
casamento. Sendo uma mulher de bom gosto, escolheu a cor que sabia ficar-lhe
melhor, um turquesa pálido e, com o vestido magnificamente drapejado, usava um
colar esplêndido e os brincos que António lhe oferecera quando fora a casa do
falecido Marcelo Menor para a visitar, no dia anterior à cerimónia.
- Oh, António, que lindos! - arfou ela admirando-os, extasiada. Feito de ouro
maciço, o colar assentava completamente sobre a pele, como se fosse uma gola
achatada com pendentes de turquesas lindas. - As pedras não têm quaisquer
manchas que lhe obscureçam o azul.
- Pensei nelas quando me lembrei da cor dos teus olhos - disse António
satisfeito com o agrado evidente dela. - Cleópatra ofereceu-mas para dar a
Fúlvia.
Ela não desviou o olhar nem deixou que o brilho esmorecesse naqueles olhos
muito admirados.
- São verdadeiramente belas - disse ela pondo-se em bicos de pés para o beijar
na face. - Usá-las-ei amanhã.
- Suspeito - continuou António descuidadamente -, que não estavam à altura dos
padrões de Cleópatra no que respeita a jóias... ela recebe muitos presentes.
Poder-se-ia por isso dizer que me deu as sobras. Eu não tenho o dinheiro que
ela tem - acrescentou com amargura. - Ela é... oh, desculpa.
Octávia sorriu da mesma maneira que sorria ao pequeno Marcelo quando este se
portava mal.
- Podes ser libertino à vontade, António. Eu não sou uma jovem donzela ingénua.
- Não te importas de casar comigo? - perguntou ele por achar que era seu dever
fazê-lo.
- Há muitos anos que te amo do fundo do coração - disse ela não fazendo
qualquer tentativa de dissimular as suas emoções. Havia um instinto que lhe
dizia que ele gostava de ser amado e que isso o predispunha a retribuir o amor
e era isso o que ela queria desesperadamente.
- Nunca pensei numa coisa dessas! - disse ele espantado.
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- Claro que não. Eu era a esposa de Marcelo e fiel aos meus votos. Amar-te era
algo apenas meu, uma coisa independente e íntima.
Ele sentiu o aperto familiar na barriga, a reacção visceral que o avisava de
que estava a ficar apaixonado. E a Fortuna estava do seu lado, até mesmo nisto.
No dia seguinte Octávia seria sua. Não precisaria de se preocupar com a
possibilidade de ela olhar para outro homem se não tinha olhado para ele
durante os sete anos em que pertencera a Marcelo Menor. Não que alguma vez
tivesse tido esse tipo de preocupação relativamente a qualquer uma das suas
mulheres: as três tinham-lhe sido fiéis. Mas esta quarta era a cereja no topo
do bolo. Serena, polida e elegante, de sangue juliano, uma princesa
republicana. Um homem teria que estar morto para não ser tocado por ela.
Curvou a cabeça e beijou-a na boca com uma fome súbita por ela. O beijo foi
retribuído com uma sensação de desfalecimento, mas antes que ele a pudesse
incendiar, ela interrompeu o beijo e afastou-se.
- Amanhã - disse ela. - Agora vem ver os teus filhos.
O quarto das crianças não era muito grande e, à primeira vista, parecia estar a
transbordar de crianças pequenas. O seu olhar arguto de soldado contou seis que
andavam de um lado para o outro e um a baloiçar-se num berço. Uma menina loira
adorável, com cerca de dois anos, deu um pontapé violento na canela de um
rapazinho moreno e bonito com perto de cinco anos. Ele retribuiu imediatamente
com um estalo e um empurrão com a palma da mão que a fez cair de rabo no chão
com um baque audível a que se sucederam os gritos do pranto.
- Mamã. Mamã!
- Se distribuis dor, Márcia, só podes esperar recebê-la de volta - disse
Octávia sem qualquer sinal de simpatia. -Agora pára com a choradeira ou dou-te
um estalo por teres começado o que não consegues acabar.
Os outros quatro, três com mais ou menos a mesma idade do rapazinho e outro
ligeiramente mais novo do que a desordeira loira, tinham observado António e
estavam de boca aberta, tal como Márcia a pontapeadora e a sua vítima, que
Octávia apresentou como sendo Marcelo. Aos cinco anos Antilo tinha uma vaga
memória do pai, mas não tinha bem a certeza se aquele gigante era mesmo o pai,
até Octávia lhe ter garantido que era. Ele limitou-se então a ficar a olhar,
demasiado assustado para estender os braços para um abraço. lulius, que ainda
não completara os dois anos, rebentou em pranto quando o gigante avançou para
ele. Rindo, Octávia pegou-lhe ao colo e entregou-o a António que rapidamente o
fez sorrir. Assim que tal aconteceu, Antilo estendeu os braços para ser
abraçado e também foi pegado ao colo.
- São uns rapazinhos bem-parecidos, não são? - perguntou ela. - Vão ser tão
grandes como tu quando crescerem. Uma parte de mim mal pode esperar para ver
qual será o seu aspecto de couraça epteryges, mas outra parte de mim receia
esse momento, pois tal significará que já não estarão sob os meus cuidados.
158
António respondeu qualquer coisa de uma forma ausente; era Márcia que o
intrigava. Márcia? Márcia? De quem era ela e porque chamaria mamã a Octávia?
Apesar de ter reparado que Antilo e Iulius também lhe chamavam mamã. O bebé no
berço, tão loiro como Márcia, era a filha mais nova dela, Celina, segundo lhe
disseram. Mas a quem pertencia Márcia? Tinha o ar juliano e, não fora isso,
teria imaginado tratar-se de uma prima filipina resgatada a um qualquer destino
cruel por aquela mulher obcecada por crianças. Pois era evidente que aquilo era
uma obsessão.
- Por favor, António, posso ficar com o Curião? - perguntou Octávia com um
olhar implorante. - Achei que não poderia trazê-lo sem a tua autorização, mas
ele precisa muitíssimo de estabilidade e de supervisão. Tem quase onze anos e
está muito desencabrestado.
António pestanejou.
- Podes ficar com o fedelho, Octávia, mas porque haverias de te querer
sobrecarregar com mais uma criança?
- Porque ele é infeliz e nenhum rapaz da sua idade deveria ser infeliz. Tem
saudades da mamã dele, ignora o seu pedagogo, um homem muito tonto e
desadequado, e passa a maior parte do tempo no Fórum a meter-se em trabalhos.
Mais um ou dois anos e andará a roubar bolsas.
António sorriu.
- Bem, o pai dele e meu amigo fez muito disso no seu tempo! Curião, o Censor,
pai do pai dele, era um autocrata mesquinho e unhas-de-fome que costumava
prender Curião. Eu soltava-o e armávamos o caos. Talvez tu sejas aquilo de que
Curião precisa.
- Oh, obrigada! - Octávia fechou a porta do quarto das crianças sob um coro de
protestos; aparentemente ela costumava demorar-se mais quando lá ia e as
crianças culpavam o gigante pela sua partida, até mesmo Antilo e Iulius.
- Quem é exactamente a Márcia? - perguntou.
- É a minha meia-irmã. A mamã teve-me a mim, a sua primeira filha, aos dezoito
anos e a Márcia aos quarenta e quatro.
- Queres dizer que ela é da Ácia e do Filipe Júnior?
- Sim, claro. Veio viver comigo quando a mamã deixou de conseguir cuidar dela
convenientemente. As articulações da mamã estão inchadas e provocam-lhe dores
horríveis.
- Mas o Octaviano nunca mencionou a sua existência! Eu sei que ele faz de conta
que a mãe morreu, mas uma meia-irmã! Deuses! É ridículo!
- Duas meias-irmãs, na realidade. Não te esqueças de que o nosso pai teve uma
filha da primeira mulher. Tem agora quarenta e tal anos.
- Sim, mas...! - António não parava de abanar a cabeça como um boxeur que
recebesse demasiados golpes seguidos.
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- Ora, António, tu conheces o meu irmão! Apesar de o amar muito, consigo ver os
seus defeitos. Ele tem demasiada consciência do seu estatuto para desejar uma
meia-irmã vinte anos mais nova... é muito pouco digno! Além disso acha que Roma
não o levará a sério se a sua juventude for sublinhada por uma irmã bebé do
conhecimento geral. E também não ajuda o facto de a Márcia ter sido concebida
tão pouco tempo depois da morte do nosso pobre padrasto. Roma há muito que
perdoou à mamã a sua indiscrição, mas César nunca o fará. Além disso a Márcia
veio viver comigo antes de saber andar e as pessoas perdem a conta. - Riu-se. -
Quem conhece os ocupantes do meu quarto de crianças parte do princípio de que
ela é minha porque é parecida comigo.
- Gostas assim tanto de crianças?
- Gostar é um termo demasiado fraco, demasiado usado e abusado. Eu daria,
literalmente, a minha vida por uma criança.
- Sem quereres saber de quem era a criança.
- Precisamente. Sempre acreditei que as crianças são uma oportunidade para as
pessoas fazerem algo de heróico com as suas vidas... para tentarem fazer com
que os seus erros sejam corrigidos e não repetidos.
Na manhã seguinte os criados do falecido Marcelo Menor levaram as crianças para
o palácio de mármore de Pompeu, o Grande, nas Carinas e aqueles, condenados a
ficar a cuidar da casa de Marcelo Menor, choravam por perderem a senhora
Octávia. A casa agora entregue aos seus cuidados pertencia ao pequeno Marcelo,
mas ele não poderia lá viver durante muitos anos. António, que era o executor
do testamento, decidira não a arrendar por enquanto, mas o seu secretário,
Lucílio, era um supervisor e encarregado muito severo. Não haveria
oportunidades para mandriar e deixar que a casa se degradasse.
Ao crepúsculo, António atravessou a soleira do palácio de Pompeu com a noiva
nos braços; aquela casa testemunhara o dia em que Pompeu entrara pela porta com
Júlia ao colo para seis anos paradisíacos que terminaram com a sua morte a dar
à luz. Que esse possa não ser o meu destino, pensou Octávia, sem fôlego,
perante a facilidade com que o marido a pegara ao colo e depois a pousara para
receber a água e o fogo, passar as mãos por ambos os elementos e assumir assim
o seu estatuto de senhora da casa. Aquilo que lhe parecia ser uma centena de
criados observava, suspirando e murmurando, e depois aplaudindo suavemente. A
reputação da senhora Octávia como sendo uma mulher muitíssimo bondosa e
compreensiva precedera-a. Os mais velhos entre eles, em especial o mordomo,
Egon, sonhava com a possibilidade de a casa voltar a florescer como acontecera
sob a égide de Júlia; para eles Fúlvia fora exigente mas desinteressada dos
assuntos domésticos.
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Não escapara a Octávia o facto de o seu irmão ostentar uma expressão satisfeita
e complacente, embora a razão para tal lhe escapasse. Sim, ele esperava sanar a
disputa ao organizar aquele casamento, mas o que poderia ganhar se este
falhasse, tal como aqueles que assistiam à cerimónia pensavam, no seu íntimo,
que aconteceria? E mais assustador ainda era o pressentimento de Octávia de que
César estava a contar com o seu colapso. Bem, jurou ela, não falhará por minha
causa!
A sua primeira noite com António foi de prazer absoluto, um prazer muito maior
do que aquele que obtivera em todas as noites juntas passadas com Marcelo
Menor. Que o seu novo marido gostava de mulheres era uma evidência pela maneira
como a tocava e murmurava o seu próprio prazer por estar junto a ela.
Conseguiu, sem que ela soubesse como, despi-la dos preconceitos e inibições de
uma vida inteira, acolheu de bom grado as carícias dela e os pequenos gemidos
de prazer e espanto e deixou-a explorá-lo como se tal nunca lhe tivesse
acontecido. Para Octávia ele era o amante perfeito, sensual e voluptuoso e não,
como esperara, preocupado apenas com os seus próprios desejos. Palavras de amor
e gestos de amor fundiram--se num contínuo incendiário de um êxtase tão
maravilhoso que ela chorou. Quando adormeceu, num sono atordoado e enlevado,
ela já teria morrido por ele com a mesma alegria com que o faria por uma
criança.
E na manhã seguinte apercebeu-se de que António ficara igualmente afectado;
quando ela tentou levantar-se para ir tratar dos seus afazeres, recomeçou tudo
de novo, mas com uma beleza ainda maior, devido ao ligeiro sentimento de
familiaridade e de maneira mais satisfatória devido à maior consciência das
suas necessidades quê ele ficava satisfeito por satisfazer.
Oh, excelente!, pensou Octaviano quando viu o casal dois dias mais tarde num
jantar oferecido por Gneu Domício Calvino. Tinha razão, são tão diferentes que
se encantaram mutuamente. Agora só me resta aguardar que ele se canse dela. E
isso acontecerá. Acontecerá! Tenho que fazer um sacrifício a Quirino para que
ele a deixe por um amor estrangeiro e não por um amor romano e a Júpiter Máximo
Óptimo para que Roma lucre com o seu inevitável desencanto da minha irmã. Olhem
para ele, escorrendo amor, besuntado de amor! Tão cheio de sentimentalismo como
uma rapariga de quinze anos. Como desprezo as pessoas que sucumbem a uma doença
tão trivial e repelente! Tal nunca acontecerá comigo, disso estou certo. A
minha mente governa as minhas emoções, não sou vulnerável a esta coisa melada.
Como pode Octávia cair nas pantominas dele? Ela vai mantê-lo em êxtase durante
pelo menos dois anos, mas mais do que isso... é muito pouco provável. A sua
bondade e natureza doce são uma novidade para ele, mas como ele não é nem doce
nem tem bom feitio, o seu fascínio pela virtude empalidecerá e depois passará,
numa tempestade de repulsa tipicamente antoniana.
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- Cleópatra?
- Sim, e que tem isso de tão espantoso?
- Ela é demasiado forreta para dar dinheiro a quem quer que seja.
- Mas o filho dela não é e ele influencia-a. Além disso, tive que concordar em
entregar-lhe os lucros do bálsamo de Jericó quando for rei.
-Ah!
Herodes obteve o seu senatus consultum que o confirmava oficialmente como
rei dos Judeus.
-Agora só te resta conquistar o teu reino - disse Quinto Délio enquanto comiam
um jantar delicioso; os cozinheiros da estalagem eram famosos.
- Eu sei, eu sei! - ripostou Herodes.
- Não fui eu quem te roubou a Judeia - disse Délio em tom magoado -, porque
descarregas então sobre mim?
- Porque tu estás aqui na minha frente a enfiar maminha de porca na boca à taxa
de uma gota de bálsamo de Jericó por colherada! Achas que António alguma vez se
vai dar ao trabalho de combater Pácoro? Ele nem sequer mencionou a campanha
contra os Partos.
- Não pode. Tem que manter aquele doce rapazinho do Octaviano debaixo de olho.
- Oh, todo o mundo sabe disso! - disse Herodes com impaciência.
- Por falar em coisas doces, Herodes, que acontece às tuas esperanças
relativamente a Mariana? Antígono não a casou já?
- Ele não se pode casar com ela, é seu tio e tem demasiado medo dos outros
parentes para a dar a um deles. - Herodes sorriu e recostou-se agitando as mãos
rechonchudas. -Além disso não é ele quem a tem. Sou eu.
-Tu?
- Sim, levei-a e escondi-a, imediatamente antes da queda de Jerusalém.
- És mesmo esperto? - Délio reparou num novo acepipe. - Quantas gotas de
bálsamo de Jericó há naqueles passarinhos recheados?
Estes e vários outros incidentes perdiam importância perante o problema com que
Roma se debatia continuamente desde a morte de César: o fornecimento de
cereais. Tendo prometido solenemente que se portaria bem, Sexto Pompeu já
andava novamente a assaltar as rotas marítimas e a desaparecer com os
carregamentos de cereais, ainda a cera que selava o Pacto de Brundísio não
secara. Estava cada vez mais atrevido, chegando a enviar destacamentos a solo
italiano, onde quer que houvesse uma concentração de celeiros, e roubava
cereais que ninguém imaginara que pudessem estar em risco. Quando o preço dos
cereais subiu aos quarenta sestércios por ração de seis dias, rebentaram motins
em Roma e nas cidades italianas de todas as dimensões. Havia uma ração de
cereais grátis para os cidadãos mais pobres, mas Divus Julius reduzira para
metade, cento e cinquenta mil, o número dos beneficiários, introduzindo
critérios de aferição de rendimentos.
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Mas isso, gritavam as multidões furibundas, era quando o trigo valia dez
sestércios o modius e não quarenta! As listas dos cereais gratuitos deveria ser
alargada para incluir as pessoas que não podiam pagar o quádruplo do preço
antigo. Quando o Senado se recusou a aceitar aquela exigência, os motins
tornaram-se nos mais violentos desde os tempos de Saturnino.
Uma situação difícil para António, que era obrigado a tomar conhecimento em
primeira mão de como se tornara crítica a situação dos abastecimentos de
cereais sabendo que ele próprio, e mais ninguém, permitira a Sexto Pompeu que
continuasse com as suas actividades.
Reprimindo um suspiro, António desistiu da ideia de usar os duzentos talentos
que tinha guardados, e que destinara ao seu próprio prazer, usando-os em vez
disso para comprar cereais suficientes para alimentar mais cento e cinquenta
mil cidadãos, colhendo assim a adulação imerecida do Conto de Cabeças. De onde
surgira aquela abundância? De nada menos que de Pitodoro de Trales. António
oferecera àquele plutocrata a sua filha Antónia Menor - feia, obesa e com um
ligeiro atraso mental -em troca de duzentos talentos em dinheiro. Pitodoro,
ainda no seu apogeu, aceitara imediatamente a oferta. Berrando como um potro
desmamado, Antónia Menor já ia a caminho de Trales e de uma coisa a que
chamavam marido. Urrando como uma vaca a quem tiram a filha, Antónia Híbrida
apressou-se a divulgar por toda a Roma o que acontecera à sua filha.
- Mas que coisa desprezível! - gritou Octaviano indo à procura do seu inimicus
António.
- Desprezível? Desprezível? Em primeiro lugar ela é minha filha e posso casá-la
com quem eu quiser! - rugiu António apanhado de surpresa por aquela nova
manifestação da temeridade de Octaviano. - Em segundo lugar, o preço que obtive
por ela alimentou o dobro dos cidadãos durante mês e meio! Mas que grande
ingratidão! Poderás criticar-me, Octaviano, quando tiveres produzido uma filha
capaz de fazer pelo Conto de Cabeças o que a minha fez!
- Gerrae - disse Octaviano desdenhosamente. - Até teres chegado a Roma e teres
visto o que se passa com os teus próprios olhos, tencionavas ficar com o
dinheiro para pagar as dívidas que não paras de acumular! A pobre rapariga não
tem uma réstia de juízo que lhe permita perceber o sue destino... podias ao
menos ter mandado a mãe com ela, em vez de teres deixado a mulher em Roma a
chorar a sua perda a todos os ouvidos dispostos a escutá-la!
- Desde quando é que tens sentimentos? Mentulam caco!
Deixando Octaviano agoniado com aquela obscenidade, António saiu numa fúria que
até Octávia sentiu dificuldades em aplacar.
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Momento em que Gneu Asínio Polião, finalmente cônsul de pleno direito depois de
ter recebido as suas insígnias, ter feito os devidos sacrifícios e prestado o
juramento de aceitação do cargo, entrou em campo. Tinha andado a pensar no que
poderia fazer para enobrecer os dois meses que teria no cargo e agora
descobrira a resposta: meter juízo na cabeça de Sexto Pompeu. O seu sentido de
justiça dizia-lhe que aquele filho de pouca estatura de um grande homem, tinha
alguma razão do seu lado; tinha dezassete anos quando o seu pai fora
assassinado no Egipto, ainda não fizera vinte quando o irmão mais velho morrera
depois de Munda, tivera que assistir impotente enquanto um Senado vingativo o
forçava a uma vida de fora-da-lei ao recusar-lhe a oportunidade de recompor os
destinos da sua família. Para evitar a presente situação, só teria sido
necessário um decreto senatorial que lhe permitisse regressar a casa e herdar a
posição e fortuna do pai. Mas a primeira fora deliberadamente enxovalhada para
aumentar a reputação dos seus inimigos e a segunda havia muito que desaparecera
no poço do financiamento da guerra civil.
Mesmo assim, pensou Polião convocando António, Octaviano e Mecenas para uma
reunião na sua casa, posso tentar fazer com que os nossos triúnviros percebam
que tem que ser feito algo de positivo.
- Se ta! não acontecer - disse ele enquanto bebiam vinho aguado no seu
escritório -, não faltará muito para que todos os presentes nesta sala morram
às mãos da multidão. E como a multidão não faz ideia de como governar,
aparecerá um novo conjunto de governantes em Roma... homens cujos nomes não
consigo sequer adivinhar e que subirão altíssimo, oriundos das profundezas. Ora
essa não é a maneira que desejo para terminar a minha vida. O que eu quero é
retirar-me, com a testa enfeitada por louros, para escrever a história dos
nossos tempos turbulentos.
- Mas que bela frase - murmurou Mecenas quando os seus dois superiores nada
disseram.
- O que queres dizer exactamente, Polião? - perguntou Octaviano após uma longa
pausa. - Que nós, que aturámos esse ladrão irresponsável durante anos, que
vimos os cofres do Tesouro delapidados devido às suas actividades, deveríamos
fazer uma reviravolta e louvá-lo? Dizer-lhe que tudo está perdoado e que poderá
regressar a casa? Pff!
- Escuta, vamos lá - disse António com ares de estadista -, isso é um pouco
duro, não achas? A afirmação de Polião de que Sexto não é inteiramente mau
contém alguma justiça. Pessoalmente sempre achei que Sexto foi muito mal
tratado, daí a minha relutância, Octaviano, em esmagar o rapaz... o jovem,
quero eu dizer.
- Seu hipócrita! - gritou Octaviano mais zangado do que algum dos presentes
jamais o vira. - É fácil para ti seres bondoso e compreensivo, seu matacão
inerte, que passas os Invernos no deboche enquanto eu luto para alimentar
quatro milhões de pessoas!
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E onde está o dinheiro de que necessito para o fazer? Ora, está nos cofres
desse rapaz patético, incrivelmente mal tratado e despojado de tudo! Pois ele
deve ter cofres, de tanto que já me roubou! E quando ele me rouba, António,
rouba Roma e a Itália!
Mecenas estendeu a mão e pousou-a no ombro de Octaviano; pareceu um gesto
suave, mas os seus dedos fincaram-se com tal ímpeto no braço de Octaviano que
este estremeceu e sacudiu a mão.
- Não vos pedi para virdes aqui hoje para ouvir aquilo que são, essencialmente,
disputas pessoais - disse Polião com firmeza. - Convidei-vos para vermos se,
entre todos, podemos encontrar uma forma de lidar com Sexto Pompeu que se
revele mais barata do que uma guerra naval. A solução é a negociação e não o
conflito! E espero que especialmente tu, Octaviano, o compreendas.
- Preferiria fazer um pacto com Pácoro que lhe entregasse todo o Oriente -
disse Octaviano.
- Começa a parecer-me que não queres uma solução - disse António.
- Eu quero uma solução! A única solução. Ou seja, queimar todos os seus barcos
até ao último, executar os seus almirantes, vender as tripulações e os soldados
como escravos e dar-lhe a oportunidade de emigrar para a Cítia! Pois até
concordarmos que é isso o que temos que fazer, Sexto Pompeu continuará a manter
Roma e Itália a passarem fome segundo os seus caprichos! O malvado não tem nem
carácter nem honra!
- Proponho, Polião, que enviemos uma embaixada a Sexto para lhe pedir uma
conferência connosco em... Putéolos? Sim, Putéolos parece-me bem - disse
António irradiando boa vontade.
- Concordo - disse Octaviano de imediato o que surpreendeu os outros, até mesmo
Mecenas. Teria então aquela explosão sido calculada e não espontânea? Qual
seria a ideia dele?
Passado pouco tempo Polião mudou de assunto, depois de Octaviano ter concordado
com uma conferência em Putéolos sem levantar dificuldades.
- Vais ter que ser tu a tratar disto, Mecenas - disse Polião. - Tenciono partir
imediatamente para o meu proconsulado na Macedónia. O Senado pode nomear um
cônsul sufecto para o que resta do ano. Um nundinum em Roma já me chega.
- Quantas legiões queres? - perguntou António, aliviado por poder discutir algo
que fazia indiscutivelmente parte dos seus domínios.
- Seis devem chegar.
- Óptimo! Isso significa que poderás dar a Ventídio onze para levar para o
Oriente. Ele vai ter que segurar Pácoro e Labieno onde estão agora. -António
sorriu. - Ventídio é um bom condutor de mulas.
-Talvez seja melhor do que pensas - disse Polião secamente.
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-Ah! Acreditarei nisso quando o vir. Ele não foi propriamente brilhante quando
o meu irmão estava encurralado em Perúsia.
- E eu também não, António! - ripostou Polião. - Talvez a nossa inactividade se
tenha ficado a dever às cartas que ficaram sem resposta da parte de um certo
triúnviro.
Octaviano levantou-se.
- Vou-me embora, se não se importam. A mera menção de cartas recordou-me que
tenho centenas delas para escrever. É em alturas como esta que gostaria de ter
a capacidade de Divus Julius para manter quatro secretários ocupados em
simultâneo.
Depois de Octaviano e Mecenas saírem, Polião olhou furioso para António.
- O teu problema, Marco, é que és preguiçoso e abandalhado - disse mordazmente.
- Se não te levantares velozmente do teu podex e não fizeres alguma coisa
rapidamente, és capaz de descobrir que será demasiado tarde para fazeres o que
quer que seja.
- O teu problema, Polião, é que és um alarmista meticuloso.
- Planco anda a resmungar e ele lidera uma facção.
- Então ele que resmungue em Efeso. Pode ir governar a província da Ásia e
quanto mais cedo melhor.
- E Aenobarbo?
- Pode continuar a governar a Bitínia.
- E então os reinos-clientes? Deiotaro morreu e a Galácia está arruinada e ao
abandono.
- Oh, não te rales, eu tenho umas ideias - disse António confortavelmente.
Bocejou. - Deuses, como detesto Roma no Inverno!
O Pacto de Putéolos foi concluído com Sexto Pompeu no fim do Verão. António não
revelou aquilo que pensava do assunto, mas Octaviano sabia que Sexto não se
comportaria como um homem honrado; ele, no seu íntimo, era um senhor da guerra
picentino que degenerara em pirata e era incapaz de honrar a sua palavra. Em
troca da permissão da livre passagem dos cereais para Itália, Sexto recebeu o
reconhecimento oficial como governador da Sicília, Sardenha e Córsega. Recebeu
também o Peloponeso grego, mil talentos de prata e o direito de vir a ser
eleito cônsul daí a quatro anos e, no ano seguinte, Libão suceder-lhe-ia. Uma
farsa, como todos que tinham um cérebro maior do que uma ervilha puderam
perceber. Como deves estar a rir-te, Sexto Pompeu, pensou Octaviano acabado de
sair da contenda.
Em Maio, a mulher de Octaviano deu à luz uma menina a quem ele chamou Júlia. No
fim de Junho, Octávia deu à luz uma menina que se chamou Antónia.
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Uma das cláusulas do contrato com Sexto Pompeu dizia que aqueles que ainda
permanecessem no exílio poderiam regressar a casa. Tal aplicava-se ao emproado
Tibério Cláudio Nero, que não se sentira suficientemente protegido pelo Pacto
de Brundísio. Fora por isso que ficara até então em Atenas, altura em que
considerara poder regressar a Roma com relativa impunidade. Tal era difícil,
dado a fortuna de Nero se ter reduzido a níveis alarmantes. Uma parte desse
facto era culpa sua, pois fizera investimentos insensatos em empresas de
publicani que cobravam impostos na província da Ásia e que tinham sido expulsas
depois de Quinto Labieno e os seus mercenários partos terem invadido a Caria, a
Pisídia e a Lícia - as regiões mais lucrativas. Mas outra parte não era culpa
sua, a não ser pelo facto de que um homem mais esperto teria permanecido em
Itália, a cuidar da sua riqueza, em vez de ter fugido e de a ter deixado à
mercê de um liberto grego pouco escrupuloso e de banqueiros inaptos.
Foi assim que Tibério Cláudio Nero que, regressou a casa no início do Outono,
estava de tal modo constrangido financeiramente que se tornou uma companhia
desagradável para a mulher. Os seus recursos financeiros esticaram apenas até
ao aluguer de uma liteira e de um carro para transporte da bagagem. Apesar de
ter dado a Lívia Drusila permissão para partilhar o meio de transporte, esta
declinou sem lhe dar nenhuma das razões que a levavam a fazê-lo: primeira, os
carregadores eram uns desgraçados escanzelados que mal conseguiam levantar a
liteira com ele e o filho lá dentro; segunda, detestava estar perto do marido e
do filho. Enquanto o grupo avançava a passo, Lívia Drusila caminhava ao lado. O
tempo estava idílico: um sol quente, uma brisa fresca, muitas sombras, um
perfume permanente a ervas ressequidas e às ervas aromáticas que os
agricultores cultivavam para prevenir as pestes durante o Inverno. Nero
preferia usar a estrada, Lívia Drusila preferia a berma, onde as margaridas
formavam um tapete branco para os seus pés e as primeiras maçãs e as últimas
peras podiam ser colhidas de ramos vergados pelo vento para fora dos muros dos
pomares. Desde que não se afastasse da vista de Nero, que seguia dentro da
liteira, o mundo era seu.
Em Teano Sidicino saíram da Via Ápia e entraram na estrada do interior, a Via
Latina; os viajantes que continuavam para Roma pela Via Ápia e atravessavam os
Pântanos Pontinos arriscavam a vida, pois a região estava infestada de
paludismo.
Nas imediações de Fregelas instalaram-se numa hospedaria modesta mas que podia
oferecer um banho em condições, algo que Nero pediu avidamente.
- Não despejem a água depois de eu e o meu filho termos terminado - ordenou. -
A minha mulher pode usá-la.
No quarto de ambos olhou-a de cenho franzido; com o coração a bater apressado,
ela pensou no que a sua expressão teria revelado, mas manteve-se modesta e
obediente, pronta para receber aquilo que a sua experiência lhe dizia iria ser
um sermão.
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Aquele lugar arruinado exercia uma estranha sedução, talvez devido ao silêncio;
o zumbido das abelhas em vez da tagarelice humana do mercado, o canto abafado
de um qualquer pássaro lírico em vez das charangas da praça. Paz! Quão bela,
quão necessária!
Talvez tivesse sido por ter concedido ao seu espírito aquela graça da liberdade
que foi invadido pela solidão; por uma vez, na sua vida agitada, teve
consciência que não havia ninguém na sua vida só dele. Oh, sim, Agripa, mas não
era isso o que ele queria dizer. Alguém só dele da forma que uma mãe ou uma
esposa devem ser, aquela deliciosa combinação de feminilidade e devoção
altruísta que Octávia dava a António ou - maldita fosse! - a mamã dera a Filipe
Júnior. Mas não, não pensaria em Ácia e na sua imoralidade! Era melhor pensar
na irmã, a mulher romana mais doce que alguma vez existira. Porque haveria um
tão grande contentamento de ser concedido a um labrego como o António? Porque
não tinha ele a sua própria Octávia, apesar de certamente ter de ser alguém
muito diferente da sua irmã?
Teve consciência de que alguém percorria as mesmas ruas desoladas de Fregelas,
uma mulher que, ao vê-lo, pareceu pronta a fugir; depois deixou-se cair num
pedaço de coluna e ficou sentada, com as lágrimas no rosto a brilharem ao sol.
Primeiro pensou que fosse uma aparição e depois, detendo-se, percebeu que era
real. O rostinho mais encantador virou-se, primeiro para ele, e depois olhou
fixamente o chão. Um par de belas mãos agitou-se e depois cruzou-se no colo;
não estavam adornadas por quaisquer jóias, mas mais nada nela indicava origens
humildes. Aquela era uma grande senhora, percebeu-o intuitivamente. Houve um
qualquer instinto no seu interior que se soltou da sua gaiola e gritou tão
extasiado que percebeu, subitamente, a sua mensagem divina: ela fora-lhe
enviada, um dom divino que não podia - não iria - desdenhar. Quase gritou em
voz alta para o seu pai divino e depois abanou a cabeça. Fala com ela, quebra o
feitiço!
- Estou a incomodar-te? - perguntou ele dirigindo-lhe um sorriso maravilhoso.
- Não, não! - arfou ela secando as últimas lágrimas. - Não!
Ele sentou-se aos seus pés olhando-a com uma expressão interrogativa, aqueles
olhos espantosos subitamente ternos.
- Por instantes pensei que fosses uma deusa do mercado - disse ele -, agora
vejo uma dor que poderia ser de desgosto pelo destino de Fregelas. Mas não és
uma deusa... ainda. Um dia transformar-te-ei numa.
Conversa louca! Ela não compreendeu e achou-o ligeiramente doido. E no entanto,
num breve instante, em menos tempo do que leva a queda de um raio, ficou
apaixonada.
- Tive algum tempo livre - disse ela com voz rouca sentindo a garganta apertada
- e quis vir ver as ruínas. São tão cheias de paz... como eu desejo ter paz!
-As últimas palavras foram pronunciadas com paixão.
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- Oh, sim, quando os homens acabam com um sítio, este fica despido de todos os
seus terrores. Emana a paz da morte, mas tu és demasiado nova para te estares a
preparar para a morte. O meu tio-bisavô, Gaio Mário, encontrou certa vez outro
dos meus tios-bisavós, Sila, aqui mesmo no meio da desolação. Foi uma espécie
de pausa. Ambos andavam muito ocupados a tornar outros locais tão mortos como
Fregelas, compreendes.
- E tu também já o fizeste? - perguntou ela.
- Não deliberadamente. Prefiro construir a destruir. Embora nunca vá
reconstruir Fregelas. É o meu monumento a ti.
Mais loucura!
- Brincas e eu não sou merecedora disso.
- Como poderia estar a brincar quando vi que choravas? Porque choras?
- Autocomiseração - respondeu ela com sinceridade.
- A resposta de uma boa esposa. És uma boa esposa, não és? Ela olhou para a
simples aliança de ouro de casada.
- Tento ser, mas por vezes é difícil.
- Não seria se fosse eu o teu marido. Quem é ele?
- Tibério Cláudio Nero.
A sua respiração assobiou. -Ah, esse! E tu és?
- Lívia Drusila.
- De uma bela família antiga. E herdeira também.
- Já não. O meu dote desapareceu.
- Nero gastou-o, é isso que queres dizer.
- Depois de fugirmos, sim. Eu na verdade sou uma Claudiana dos Neros.
- Então o teu marido é teu primo direito. Tens filhos?
- Tenho um, um rapaz de quatro anos. - Baixou as pestanas negras. - E um no
ventre. Tenho que tomar o remédio - disse ela. Ecastor, o que a faria contar
aquilo a um total desconhecido?
- Queres tomar o remédio?
- Sim e não.
- Porquê sim?
- Não gosto do meu marido nem do meu primogénito.
- E porquê não?
- Porque tenho a sensação de que não terei mais filhos do meu ventre. A Bona
Dea falou comigo quando lhe fiz um sacrifício em Cápua.
- Acabo de chegar de Cápua mas não te vi por lá.
- Nem eu a ti.
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Pensando para consigo própria que, de bom grado, trocaria a virtude de esposa
por qualquer homem que lhe oferecesse um banho quente e perfumado numa banheira
de mármore que fosse ela a única a usar. Depois de ter conseguido expulsar da
sua mente coisas como lixo e urina, sonhou que esse homem seria César Octaviano
e que ele falara a sério.
Ele falara a sério, apesar de ter passado a caminhada de regresso à casa do
duumvir em Fabrateria a repreender-se pelos galanteios mais desajeitados que
alguma vez fizera.
Vês o que acontece quando tentas os deuses?, perguntou-se sorrindo
ironicamente. Desprezei o sentimentalismo enjoativo, julgava fracos os homens
que afirmavam que um só olhar os enfeitiçara com a seta de Cupido. No entanto
aqui estou eu, com a seta espetada no peito, completamente apaixonado por uma
rapariga que nem sequer conheço. Como pode isto ser? Como poderei eu, tão
racional e desapaixonado, ter sucumbido a uma emoção que contradiz tudo aquilo
em que acredito? Foi uma visitação de um deus, teve que ser! Caso contrário não
faz qualquer sentido! Eu sou racional e desapaixonado! Portanto porque sentirei
esta incrível sensação de... de ... amor? Oh, ela comoveu-me insuportavelmente!
Queria tomar sobre os meus ombros todos os seus problemas, queria afogá-la em
beijos, queria ficar com ela para o resto da minha vida! Lívia Drusila. A
mulher de um pedante pretensioso como Tibério Cláudio Nero. Mais um Claudiano
saído da mesma ninhada. O ramo dos Cláudios cognominados Pulcros, produzem
homens excêntricos, independentes, cônsules e censores pouco ortodoxos,
enquanto que o ramo cognominado Nero é famoso por produzir homens
insignificantes. E Nero não é ninguém: um homem mesquinho, orgulhoso e teimoso
que nunca concordará em divorciar-se da mulher por ordem de César Octaviano.
O rosto dela dançava perante os seus olhos, enlouquecendo-o. Olhos raiados,
cabelos pretos, pele como leite cremoso, lábios voluptuosamente vermelhos.
Poderia aquilo ser simplesmente desejo sexual? Estaria ele a sofrer do mesmo
mal que metia, permanentemente, Marco António em maus lençóis? Não, nisso não
acreditava! O que quer que aquela emoção estranha fosse, teria que ser por uma
melhor razão do que comichão no pénis. Talvez, pensava Octaviano enquanto o
cabriole o levava de regresso a Roma, cada um de nós tenha um parceiro natural
e eu tenha encontrado a minha. Como dois pombos. A mulher de outro homem e
grávida de um filho dele. O que não faz qualquer diferença. Ela pertence-me...
a mim!
Acarinhando o seu segredo, rapidamente se deu conta de que não havia ninguém em
quem pudesse confiar ou a quem quisesse fazê-lo. Com os navios cerealíferos a
atracarem em segurança em Putéolos e em Óstia e o preço dos cereais a descer,
finalmente, para os níveis adequados àquele ano, António decidira regressar a
Atenas levando consigo Octávia e a sua prole.
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Octávia teria sido a única pessoa a quem ele poderia confiar aquele terrível
dilema emocional, mas ela estava evidentemente feliz com António e mergulhada
nos preparativos para a viagem. Ambos os factores faziam com que corresse o
risco de ela deixar escapar uma indiscrição aos ouvidos do marido que não
pararia de o provocar insuportavelmente. Ah, ah, ah, Octaviano também tu podes
ser governado pela tua pila! Octaviano já podia imaginá-lo. Despediu-se
portanto da família de António sem ter divulgado o seu segredo e começou a
pensar se Agripa teria alguns conselhos sábios para lhe dar quando chegasse a
Narbona, perto da fronteira com Hispânia e a um mês de viagem de Roma. O seu
estado de espírito atormentava-o, pois a paixão assentava com dificuldade em
alguém cujos hábitos intelectuais eram friamente lógicos e as emoções
resolutamente reprimidas. Confuso, agitado, desejoso, Octaviano perdeu o
apetite pelos alimentos e estava prestes a enlouquecer. Perdia peso a olhos
vistos, como se se evaporasse numa fornalha quente e não conseguia sequer
pensar em grego. Pensar em grego era estranho, algo que ele fazia recorrendo a
uma determinação férrea por ser tão difícil. E, no entanto, ali estava ele, com
meia centena de cartas para ditar em grego e obrigado a fazê-lo em latim dando
ordens breves aos secretários para que procedessem eles próprios à tradução.
Mecenas não estava em Roma, o que talvez até fosse bom, o que significava que
era Escribónia que, todas as noites, antes da partida de Octaviano para a Gália
Ulterior, se enchia de coragem para dizer qualquer coisa.
Ela sentira-se muito feliz durante a gravidez tranquila e dera à luz com
rapidez e facilidade a bebé Júlia. A pequenita era inegavelmente bonita, das
madeixas de cabelo dourado aos grandes olhos azuis, demasiado claros para
ficarem castanhos com a passagem dos meses. Nunca tendo encarado Cornélia como
uma alegria, Escribónia preparou-se para criar o bebé, mais apaixonada do que
nunca pelo seu marido distante e meticuloso. O facto de ele não a amar não era
um grande desgosto, pois tratava-a com bondade, sempre com cortesia e respeito
e prometera-lhe que, assim que ela estivesse recuperada do parto, voltaria a
visitar a sua cama. Que da próxima vez viesse um filho! Rezava ela fazendo
sacrifícios a Juno Sospita, Magna Mater e Spes.
Mas algo acontecera a Octaviano no regresso a Roma depois da visita aos campos
de treino das legiões espalhados em torno da velha cidade militar de Cápua.
Escribónia tinha os seus próprios olhos e ouvidos para se aperceber disso, mas
tinha também vários criados, incluindo Gaio Júlio Burgúndio, que era o mordomo
de Octaviano e neto do amado liberto germânico de Divus Julius, Burgundo.
Apesar de permanecer sempre em Roma como mordomo da domus Hortênsia, tinha
tantos irmãos, irmãs, primos, tias e tios na clientela de Octaviano, que havia
sempre algum deles ao serviço do patrono quando este viajava.
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A carta estava selada com a esfinge. Escribónia deixou-a cair por entre os
dedos que tinham ficado subitamente dormentes e tombou sobre o banco de
mármore, pondo a cabeça entre os joelhos para evitar desmaiar.
- Está tudo acabado - disse a Burgúndio que estava junto a ela.
- Sim, domina - disse ele suavemente; gostara dela.
- Mas eu não fiz nada! Não sou uma megera! Não sou nenhuma dessas coisas
horríveis que ele diz! Idade avançada! Ainda não fiz trinta e cinco anos!
- As ordens de César são que te mudes hoje, domina.
- Mas eu não fiz nada! Não mereço isto! Pobre senhora, irritaste-o, pensou
Burgúndio emudecido pelos seus deveres de
cliente. Ele dirá a toda a gente que tu és uma megera para poder sair-se bem
desta história. Pobre senhora! E pobrezinha da bebé Júlia.
Marco Vipsânio Agripa estava em Narbona porque os Aquitanenses andavam a causar
problemas, obrigando-o a demonstrar-lhes que Roma continuava a produzir tropas
soberbas e generais muitíssimo competentes.
- Saqueei Burdígala, mas não a incendiei - disse a Octaviano quando este
chegou, após uma viagem dificílima durante a qual sucumbira a um ataque de asma
pela primeira vez nos últimos dois anos. - Não havia ouro nem prata, mas uma
montanha de boas rodas de carroça reforçadas a ferro, quatro mil barricas
excelentemente construídas e quinze mil homens robustos para vender como
escravos em Massília. Os comerciantes estão a esfregar as mãos de contentes: há
já bastante tempo que os mercados não viam mercadoria de primeira classe como
esta. Achei que não era politicamente conveniente escravizar mulheres nem
crianças, mas posso sempre fazê-lo se o desejares.
- Não, se tu o desejares. Os lucros dos escravos são teus, Agripa.
- Durante esta campanha não, César. Os machos vão atingir os dois mil talentos
e tenho melhor uso para esse dinheiro do que metê-lo ao bolso. As minhas
necessidades são simples e tu olharás sempre por mim.
Octaviano sentou-se mais direito com os olhos a brilhar.
- Um esquema! Tu tens um esquema! Conta-me!
Em resposta Agripa foi buscar um mapa e abriu-o sobre a secretária simples.
Debruçando-se sobre ele, Octaviano viu que este representava com pormenor
considerável a área em torno de Putéolos, o principal porto da Campânia a uns
cento e sessenta quilómetros a sudoeste de Roma.
- Chegará o dia em que terás navios de guerra suficientes para derrotar Sexto
Pompeu - disse Agripa mantendo um tom de voz cuidadosamente neutro. - Estimo
que serão necessários uns quatrocentos navios. Mas onde existe um porto com
dimensão suficiente para acolher metade deles? Em Brundísio. Em Tarento.
Contudo, estes dois portos estão separados da costa toscana pelo estreito de
Messina onde Sexto Pompeu está permanentemente emboscado.
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Os nossos navios poderão passar impunes por esses túneis e aparecerem para
atacar o flanco de Sexto.
A consciência do facto surpreendeu Octaviano com o mesmo choque de uma imersão
em água gelada.
- Tu estás ao mesmo nível de César - disse lentamente, tão atordoado que se
esqueceu de chamar Divus Julius ao pai adoptivo. - Isso é um plano cesariano,
uma obra-prima de engenharia.
- Eu, ao mesmo nível de Divus Julius? - Agripa ficou espantado. - Não, César, a
ideia é uma questão de senso comum e a execução uma questão de trabalho duro, e
não de engenharia genial. Andando de um estaleiro para o outro tive imenso
tempo para pensar. E um facto a que não prestei a devida atenção foi ao de os
navios não se moverem sozinhos. Certamente que teremos alguns barcos
devidamente tripulados, mas talvez aí uns dois terços serão navios novos que
não terão tripulações. A maior parte das galés que encomendei são "cincos",
apesar de ter adquirido algumas "três", em estaleiros que não estão equipados
para construir nada com cerca de sessenta metros de comprimento e oito metros
de largo.
- As quinquerremes são muito pesadonas - disse Octaviano revelando que não era
totalmente ignorante no que respeitava a navios de guerra.
- Sim, mas as "cincos" têm a vantagem do tamanho e de poderem ser equipadas com
dois esporões terríveis de bronze maciço. Escolhi as "cincos" modificadas, não
mais de dois homens por remo em três bancos, dois, dois e um. Muito espaço no
convés para uma centena de soldados, catapultas e balistas. Com uma média de
trinta bancos por amurada, dá trezentos remadores por navio. Mais trinta
marinheiros.
- Começo a perceber o teu problema. Mas é claro que já o resolveste. Trezentas
vezes trezentos remadores: dá um total de noventa mil. Além de quarenta e cinco
mil soldados e vinte mil marinheiros. - Octaviano espreguiçou-se como um gato
satisfeito. - Eu não sou nenhum general de exércitos nem almirante de frota,
mas sou um mestre na bela arte romana da logística.
- Preferirias então ter cento e cinquenta soldados por navio em vez de cem?
- Oh, acho que sim. Cairíamos sobre o inimigo como se fôssemos formigas.
- Vinte mil homens já darão para começar - disse Agripa. - Tenciono começar
pela construção do porto e, para isso, alguém pode recrutar antigos escravos
que andem a vaguear pela Itália em busca de latifúndio que os teus comissários
agrários não tenham desmantelado para entregar aos veteranos. Pagar-lhes-ei com
os lucros que obterei da venda dos escravos, alimentá-los-ei e dar-lhes-ei
também alojamento. Se forem bons, poderão treinar depois para se tornarem
remadores.
- Um incentivo ao emprego - disse Octaviano com um sorriso. - Isso é
inteligente. Os pobres desgraçados não têm dinheiro para regressar a casa,
portanto porque não oferecer-lhes abrigo e barrigas cheias? Mais tarde ou mais
cedo acabam por ir parar à Lucânia e tornam-se bandidos. Assim é melhor. -
Estalou a língua.
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- Vai ser um processo lento, muito mais lento do que eu desejava. Quanto tempo
vai levar, Agripa?
- Quatro anos, César, incluindo o ano que vem, mas não o que está a acabar.
- Sexto não cumprirá o pacto nem sequer durante um terço desse período. -As
espessas pestanas loiras baixaram-se ocultando-lhe os olhos. - Especialmente
agora, que me divorciei de Escribónia.
- Cacat! Porquê?
- Ela é uma megera tal que não suporto viver com ela. Se eu quero uma coisa ela
quer outra. E mói-me. Mói, mói, mói.
O olhar arguto de Agripa nunca se desviou do rosto de Octaviano. Então o vento
mudara de direcção, era? Agora sopra de um ponto que não reconheço. César está
a maquinar alguma, os smais são inconfundíveis. Mas o que será que ele planeia
que requer o divórcio de Escribónia? Uma megera? Nem pensar, César. Não
consegues enganar-me.
-Vou precisar de vários homens para supervisionar os trabalhos nos lagos
-disse. - Importas-te que os escolha? Provavelmente serão engenheiros militares
das minhas próprias legiões. Mas vão necessitar da protecção de alguém com
peso. De um propretor, se puderes dispensar algum.
- Não, mas tenho um procônsul que posso dispensar-te.
- Um procônsul? Infelizmente não será Calvino. Foi uma pena tê-lo enviado para
a Hispânia. Ele seria o ideal.
- Ele é necessário na Hispânia. As tropas amotinaram-se.
- Eu sei. Os problemas lá começaram com Sertório.
- Sertório foi há mais de trinta anos! Como é que pode ser ele o culpado?
- Recrutou os nativos e ensinou-os a combater como romanos. Por isso agora as
legiões da Hispânia são essencialmente isso mesmo: Hispânicas. Uma gente feroz,
mas não bebem a disciplina romana do seio das mães. Uma das razões por que não
farei a mesma experiência nas Gálias, César. Mas voltando ao assunto, quem?
- Sabino. Mesmo que houvesse uma província a necessitar muito de um novo
governador, que não há, Sabino não o quereria. Quer ficar em Itália e
participar nas manobras navais quando estas vierem. - Sorriu ligeiramente. -
Não será animador ouvi-lo quando ele descobrir que isso só acontecerá daqui a
quatro anos. Não lhe confiaria legiões, mas acho que dará um excelente
supervisor de engenheiros para porto Júlio. É assim que chamaremos ao teu
porto.
Agripa deu uma gargalhada.
- Pobre Sabino! Nunca conseguirá ultrapassá-la, àquela batalha falhada quando
César andava a conquistar a Gália Ulterior.
- Ele era convencido, na altura, e continua a ser convencido agora. Vou mandá-
lo vir para que receba instruções completas relativamente ao que há a fazer.
Vais estar aqui em Narbona?
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- Não, a não ser que ele seja muito rápido, César. Parto para a Germânia.
- Agripa! Estás a falar a sério?
- Muito a sério. Os Suevos andam a fervilhar e já se acostumaram a ver o que
resta da ponte de César sobre o Reno. Não que tencione usá-la. Vou construir a
minha própria ponte mais a montante. Os Ubios vêm comer-me à mão, por isso não
os quero assustar, nem a eles nem aos Queruscos. Por isso vou mergulhar em
regiões puramente suevas.
- E vais pela floresta?
- Não. Podia fazê-lo, mas as tropas têm medo da floresta Bacenis, que é
demasiado escura e lúgubre. Acham que há um germano por trás de cada árvore,
para não mencionar os ursos, lobos e auroques.
- E há? Há lá isso tudo?
- Por trás de algumas há, certamente. Não temas, César, terei cuidado.
Como era politicamente conveniente que o herdeiro de César se mostrasse às
legiões gaulesas, Octaviano demorou-se o suficiente para visitar todas as seis
legiões acampadas em torno de Narbona, caminhando entre os soldados e
brindando-os com o velho sorriso de César; muitos deles eram veteranos das
guerras gaulesas, que se tinham voltado a alistar por se entediarem de morte
com a vida civil.
Isto tem que ter um fim, pensou Octaviano enquanto os visitava, a mão direita
feita em papas depois de tantos apertos de mão sinceros. Alguns destes homens
tornaram-se proprietários de áreas consideráveis de terras depois de doze
alistamentos no exército; são desmobilizados, recebem as suas dez iugera cada
um e, um ano mais tarde, estão de regresso para mais uma campanha. Entram e
saem, entram e saem, acumulando mais terra de cada vez. Roma precisa de ter um
exército permanente, com homens alistados por períodos de vinte anos sem
desmobilização. Depois, no fim desse tempo, receberão uma pensão monetária e
não terras. A Itália tem limites e instalá-los nas Gálias, nas Hispânias ou na
Bitínia, ou noutro sítio qualquer, não lhes agradaria; são romanos e anseiam
pela velhice em casa. O meu divino pai instalou a Décima à volta de Narbona
porque a legião se amotinara, mas onde estão esses homens agora? Ora, nas
legiões de Agripa.
Um exército deve estar onde está o perigo, pronto para combater num nundinum.
Temos que acabar com estes envios de pretores para tratar do recrutamento,
equipamento e treino das tropas numa pressa tremenda em volta de Cápua,
enviando-os depois em marchas de mil e seiscentos quilómetros para enfrentar
imediatamente o inimigo. Cápua continuará a servir para o treino das tropas,
sim, mas assim que um soldado atingir um estado satisfatório, deverá partir de
imediato para uma qualquer fronteira e juntar-se à legião que já lá estiver.
Gaio Mário abriu a porta das legiões ao alistamento dos pobres do Conto de
Cabeças - oh, como os boni o detestaram por isso! Para os boni, os homens-bons,
os pobres do Conto de Cabeças não tinham nada para defender: nem terras, nem
bens.
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Todas tinham que ver e conhecer o herdeiro de César, todas tinham que ficar
ligadas a ele pessoalmente. Pois quem sabia onde e quando ele necessitaria da
sua lealdade?
Mesmo com prazos muito exigentes, já estava novamente em casa muito antes do
fim do ano e com as prioridades mentalmente definidas numa ordem definitiva
sendo algumas delas extremamente urgentes. Mas a primeira da lista era Lívia
Drusila. Só com esse assunto arrumado conseguiria concentrar-se em assuntos
mais importantes. Pois este, em si próprio, não era nada de importante; o seu
poder derivava apenas de uma fraqueza em si próprio, uma deficiência que não
conseguia compreender e que desistira de tentar compreender. Portanto tinha que
tratar do assunto de uma vez por todas.
Mecenas estava de regresso a Roma, muito bem casado com a sua Terência, com a
total aprovação da sua tia-avó, a tremendamente feia viúva do augusto Cícero,
que o apreciava pelo seu encanto e por pertencer a tão boas famílias. Alguns
anos mais velha do que Cícero, tinha agora mais de setenta anos, mas continuava
a controlar a sua imensa fortuna com mão de ferro e um conhecimento
enciclopédico das leis religiosas que lhe permitia escapar-se ao pagamento de
impostos. A guerra civil de César contra Pompeu, o Grande, provocara a
dispersão e ruína da sua família; o único sobrevivente era o seu filho, um
bêbado irascível que ela desprezava. Havia portanto espaço para um homem no seu
peito idoso e duro e Mecenas encaixava-se lá muito confortavelmente. Quem sabe?
Talvez um dia ele viesse a herdar o dinheiro. Embora em privado tivesse
confidenciado a Octaviano que estava convencido de que ela lhes sobreviveria a
todos e arranjaria forma de levar o dinheiro quando finalmente morresse.
Mecenas estava, pois, disponível para negociar com Nero; o único problema
residia no facto de Octaviano ainda não ter dito uma única palavra sobre a sua
paixão por Lívia Drusila a uma alma que fosse, nem mesmo a Mecenas. Que o
escutaria gravemente e depois tentaria persuadi-lo a desistir daquela união
bizarra. Além disso, dada a personalidade intratável de Nero e a sua estupidez,
Mecenas também não teria as vantagens do costume. No seu espírito, Octaviano
estabelecera um paralelo entre aquele seu caso putativo com a privacidade das
funções corporais; ninguém podia ver nem ouvir nada. Os deuses não defecavam e
ele era o filho de um deus e, um dia, ele próprio seria um deus também. Havia
muitos aspectos da religião oficial que considerava um chorrilho de disparates,
mas o seu cepticismo não se estendia a Divus Julius nem ao seu próprio
estatuto, algo em que não pensava à maneira grega. Não havia nenhum Divus
Julius sentado no cimo de uma montanha, nem a viver no templo que Octaviano
estava a construir para Divus Julius no Fórum; não, Divus Julius era uma força
incorpórea cuja adição ao panteão das forças aumentara o poder romano a força
romana e a excelência militar romana.
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Alguma dessa força infiltrara-se em Agripa, estava certo disso. E muita dela
permeava-o a si; sentia-a a correr-lhe nas as veias e aprendera ajuntar os
dedos de maneira a que esta aumentasse ainda mais.
Um homem assim confessa a outro homem as suas fraquezas? Não, não confessa.
Poderia confessar-lhe as sus frustrações, os seus desafios, os seus acessos de
depressão relativamente às coisas práticas. Mas nunca as fraquezas ou defeitos
do seu carácter. A utilização de Mecenas estava portanto fora de questão. Teria
que ser ele próprio a dirigir aquelas negociações.
Todos os anos, no vigésimo terceiro dia de Setembro, celebrava o aniversário e
já celebrara vinte e quatro. Um nevoeiro abatera-se sobre os anos imediatamente
após o assassínio do seu pai Jivino; não se recordava de como conseguira reunir
forças para embarcar na sua nova carreira, consciente que alguns dos seus actos
se tinham devido à temeridade da juventude. Mas tinha corrido tudo bem e era
disso que se lembrava. Filipos fora como um ponto de viragem, porque depois
disso lembrava-se de tudo com perfeita clareza. Sabia porquê. Após Filipos
enfrentara António e vencera. Uma simples exigência: a cabeça de Bruto. Fora
então que o seu futuro se desenrolara perante os olhos do seu espírito e
encontrara o seu caminho. António cedera após uma representação teatral, que
fora da raiva aterrorizadora às lágrimas patéticas. Sim, ele cedera.
Os seus encontros com António tinham sido inúmeros depois disso, mas a cada um
deles ficara mais forte até que, no último desses encontros, dissera o que
pensava sem a mínima perturbação da respiração. Já não era mais um igual de
António; era o seu superior. Talvez devido ao facto de Divus Julius nunca o ter
conseguido quebrar, veio-lhe à mente Catão Uticense e percebeu finalmente
aquilo que Divus Julius sempre soubera: ninguém consegue quebrar um homem que
não faz ideia de que há nele uma imperfeição. Se não considerássemos Catão
Uticense, então ficávamos com... Tibério Cláudio Nero. Outro Catão, mas um
Catão sem intelecto.
Foi visitar Nero a uma hora do fim da manhã que garantiria que chegaria após a
partida do seu último cliente, mas antes que o próprio Nero tivesse tempo de
sair para ir cheirar o ar húmido de Inverno e ver o que se passava no Fórum. Se
Nero fosse um advogado famoso, poderia estar a defender um qualquer nobre vilão
de acusações de peculato ou fraude, mas a sua advocacia não era conceituada;
fazia parte da defesa dos amigos, se estes lho pedissem, mas apenas na quarta
ou quinta posição, mas ninguém lhe pedira nada ultimamente. O seu círculo de
amigos era pequeno, composto por aristocratas incapazes, como ele próprio, e a
maioria deles seguira António para Atenas, preferindo viver por lá a ficar na
Roma de Octaviano, uma cidade de impostos e motins.
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Escolheste bem a tua mulher. Razão pela qual eu a quero para minha mulher.
Algo nos olhos habitualmente opacos de Octaviano dizia que ele falava a
verdade. Com as suas capacidades cerebrais já esticadas ao limite, Nero
recorreu à
lógica.
- Mas as pessoas não andam por aí a pedir as esposas aos maridos! Não podes
estar a falar a sério! Este tipo de coisa não se faz! Tu tens um pouco de
sangue nobre, Octaviano, deverias saber que isto não se faz!
Octaviano sorriu.
- Tanto quanto sei - disse em tom calmo -, Quinto Hortênsio, já idoso, foi ter
certa ocasião com Catão Uticense e perguntou-lhe se podia casar com a filha de
Catão, que na altura era uma criança. Catão recusou e ele então pediu-lhe uma
das sobrinhas. Catão recusou e ele pediu a mulher de Catão. E Catão disse que
sim. As esposas, compreendes, não são do mesmo sangue, apesar de reconhecer que
a tua é do teu sangue. Essa esposa era Márcia que foi minha irmã, filha do meu
padrasto. Hortênsio pagou um preço elevadíssimo por ela, mas Catão não recebeu
um tostão. O dinheiro foi todo para o meu padrasto, Filipe, que sorria de falta
de dinheiro crónica. Um epicurista do tipo mais dispendioso. Talvez que se tu
encarasses o meu pedido à mesma luz que Catão encarou o de Hortênsio, este se
tornasse mais credível. Se preferires, acredita que, tal como Hortênsio, fui
visitado em sonhos por Júpiter que me disse que eu tinha que casar com a tua
esposa. Catão achou que essa era uma razão aceitável. Porque não haverias tu de
achar o mesmo?
Uma nova ideia ocorrera a Nero enquanto o ouvia: recebera um louco em sua casa!
Naquele momento estava bastante calmo, mas quem poderia adivinhar quando teria
um ataque maníaco?
-Vou chamar os meus criados e mandar-te pôr na rua - disse ele pensando que,
dita daquela maneira, a frase não seria demasiado incendiária nem provocaria
violência.
Mas antes que pudesse abrir a boca a gritar por ajuda, o visitante inclinou-se
sobre a secretária e apertou-lhe o braço. Nero ficou imóvel como um rato
hipnotizado pelo olhar de um basilisco.
- Não faças isso, Nero. Ou, pelo menos, deixa-me acabar primeiro. Não estou
louco, dou-te a minha palavra. Estou a comportar-me como um louco? Quero
simplesmente casar com a tua mulher e para isso é necessário que te divorcies
dela. Mas não com desonra. Invoca razões religiosas, toda a gente as aceita e a
honra fica preservada para ambas as partes. Em troca de me cederes essa pérola
sem preço, empenhar-me-ei em aliviar as tuas actuais dificuldades financeiras.
Na verdade, fá-las-ei desaparecer melhor do que um mágico de Samos. Ora, Nero,
não gostarias que isso acontecesse?
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A casa era malcheirosa naquela época do ano; toda a gente esperava que ela
fizesse feixes de ervas aromáticas secas para afastar as pestes, mas estava
atrasada um nundinae porque detestava esse trabalho. Oh, que saudades dos
tempos em que Nero lhe dera alguns sestércios para alugar livros na biblioteca
pública de Ático! Agora via-se reduzida a fiar, tecer e atar molhos de ervas.
O bebé começou a pontapeá-la cruelmente - era exactamente como fora o irmão.
Podia passar uma hora até ele parar com os pontapés, exercitando-se à sua
custa. Em breve as suas tripas se revoltariam fazendo-a correr para a latrina
rezando que não houvesse ninguém por perto que a pudesse ouvir. Os criados
consideravam-na indigna da sua atenção, sendo suficientemente espertos para
perceber que Nero a considerava indigna da dele. Com a cabeça à volta sentou-se
no banco do tear e olhou pela janela para as colunas e peristilo delapidado do
jardim do outro lado. - Pára quieto, sua... sua coisa! - gritou ao bebé.
Como que por magia os pontapés cessaram - porque não se teria lembrado daquilo
antes? Agora podia começar a pensar.
Liberdade, vinda de uma fonte com a qual ninguém sonharia e, muito menos, ela
própria. Um versículo no mais recente Livro Sibilino! Ela sabia que, cinquenta
anos antes, Lúcio Cornélio Sila tinha encomendado ao Quindecênviros a tarefa de
procurar os fragmentos dos Livros Sibilinos parcialmente queimados - que
estavam os fragmentos a fazer fora de Roma? Mas sempre pensara naquela colecção
de coplas e quadras abstrusas como absolutamente etéreas, sem qualquer relação
com as pessoas normais nem com os acontecimentos normais. Tremores de Terra,
guerras, invasões, incêndios, a morte de homens poderosos, o nascimento de
crianças destinadas a salvar o mundo: era sobre isso que versavam os livros
proféticos.
Apesar de ter perguntado a Nero do que iria viver, Lívia Drusila não estava
preocupada com isso. Se os deuses se tinham dignado a reparar nela - como era
evidente que acontecera - e a libertá-la daquele casamento horrendo, então não
permitiriam que descesse ao ponto de convidar homens no exterior de Vénus
Erucina ou de morrer à fome. O exílio na Casa das Vestais deveria ser uma coisa
temporária; as vestais eram escolhidas aos seis ou sete anos de idade e tinham
que permanecer virgens durante os trinta anos de serviço, pois a sua virgindade
representava a sorte de Roma. E as vestais não recebiam mulheres - ela devia
ser mesmo especial! Não conseguia sequer imaginar o que lhe reservaria o futuro
e não tentou fazê-lo. Chegava-lhe ser livre e, finalmente, a sua vida parecer
encaminhar-se.
Tinha uma pequena arca onde guardava as poucas roupas quando viajava; quando o
mordomo chegou, apenas uma hora depois, para lhe perguntar se estava pronta
para a curta caminhada do Gérmalo do Palatino até lá a baixo ao Fórum romano, o
baú já estava fechado e trancado e ela envolta numa capa quente para se
proteger do frio e da neve que ameaçava cair. Calçando sapatos com espessas
solas de cortiça para que os pés não se sujassem na porcaria, caminhou o mais
rapidamente que os sapatos lhe permitiam atrás do criado que lhe transportava o
baú e que se ia queixando em voz alta da sua falta de sorte para quem o
quisesse ouvir.
191
Descer as Escadas das Vestais foi uma tarefa demorada, mas depois disso o
caminho era curto e plano, dava a volta à Aedes de Vesta e ia até à entrada
lateral da metade da Domus Publica, que pertencia às vestais. Ali uma criada
entregou o baú a uma gaulesa musculosa e levou-a para um quarto onde havia uma
cama, uma mesa e uma cadeira.
- As latrinas e os banhos são ao fundo do corredor - disse a governanta, pois
era isso o que ela era. - Não deverás jantar com as senhoras sagradas, mas ser-
te-á trazida aqui comida e bebida. A vestal-chefe diz que podes fazer exercício
no jardim delas, mas não às horas em que elas próprias o usam. Disseram-me que
te perguntasse se gostas de ler.
- Sim, adoro ler.
- De que livros gostas?
- Qualquer coisa em latim ou grego que as senhoras sagradas achem adequado -
disse Lívia Drusila que fora bem treinada.
-Tens alguma pergunta que queiras fazer, domina?
- Apenas uma. Tenho que partilhar a água do banho?
Passaram-se três nundinae numa paz sonhadora emplumada com flocos de neve;
compreendendo que a sua presença, grávida, deveria contrariar todos os
preceitos das vestais, Lívia Drusila não fez qualquer tentativa de ver as suas
anfitriãs e nenhuma delas, nem mesmo a vestal-chefe, a veio visitar. Passava o
tempo a ler, a andar para cima e para baixo no jardim e a banhar-se extasiada
em água limpa e quente. As instalações das vestais eram melhores do que as que
a domus de Nero lhe tinha proporcionado; os assentos nas latrinas eram de
mármore, as banheiras de granito egípcio e a comida deliciosa. O vinho,
descobriu, fazia parte da ementa.
- Foi Aenobarbo Pontífice Máximo quem recuperou o Átrio de Vesta há sessenta
anos - explicou-lhe a governanta - e depois César Pontífice Máximo instalou o
hipocausto para o aquecimento de todas as áreas residenciais e salas dos
arquivos. - Estalou a língua. -A nossa cave é dedicada ao depósito de
testamentos, mas César Pontífice Máximo trabalhou para conseguir que a sua
maior parte fosse reservada ao melhor hipocausto de Roma. Oh, como temos
saudades dele!
Um nundinum depois do Ano Novo, a governanta trouxe-lhe uma carta.
Desenrolando-a e prendendo-a com duas rochas de cristal, Lívia Drusila começou
a lê-la, o que era facilitado pelo ponto sobre cada nova palavra. Porque seria
que os copistas do Ático não usavam aquele método?
Para Lívia Drusila, amor da minha vida, saudações. Como esta carta te deixa
perceber, eu, César Divi Filius, nunca mais te esqueci depois de nos termos
encontrado em Fregelas. Foi necessário algum tempo para descobrir uma maneira
de te libertar de Tibério Cláudio Nero sem escândalo nem ódio
192
Instruí o meu liberto, Heleno, para pesquisar o novo Livro Sibilino até
encontrar um versículo que pudesse aplicar-se a ti e a Nero. Em si, tal era
insuficiente. Ele também tinha que encontrar um versículo que se aplicasse a ti
e a mim, o que era mais difícil. O excelente sujeito - fiquei satisfeitíssimo
por o ter de volta ao meu rebanho após um ano de prisão com Sexto Pompeu - é um
académico muitíssimo melhor do que é general ou almirante. Estou tão feliz ao
escrever estas palavras que me sinto como Ícaro, erguendo-me velozmente pelo
éter. Por favor, minha Lívia Drusila, não me deites ao chão! O desapontamento
matar-me-ia, se a queda não o fizesse. Aqui vão os versos que se aplicam a ti e
a Nero:
Marido e Mulher, negros como a noite Juntos são a praga de Roma Separados têm
que ser, rapidamente Ou Roma vagueará perdida para sempre.
Os meus versos e os teus são, em comparação, rosas na Campânia:
O filho de um deus, claro e de cabelo dourado Tem que receber por esposa a mãe
de dois Negra como a noite, de um par separado Juntos construirão para sempre
Roma depois.
Gostas? Eu gostei quando os li. Heleno é um sujeito muito esperto e um perito
em manuscritos. Promovi-o ao cargo de secretário-chefe.
No décimo sétimo dia deste mês, Janeiro, eu e tu seremos unidos pelo
matrimónio. Quando levei os versos ao Quindecênviros - sou um dos Quinze Homens
- eles concordaram que a minha interpretação era a correcta. Todos os
impedimentos e obstáculos foram eliminados e uma lex curiata foi passada
sancionando o teu divórcio de Nero e a nossa união.
A vestal-chefe, Apuleia, é minha prima e concordou em dar-te abrigo até nos
podermos casar. Eu concordei que, assim que Roma estiver novamente de pé,
separarei as vestais do Pontífice Máximo na sua própria casa. Amo-te.
Ela tirou os pesa-papéis e deixou que o pergaminho se enrolasse e depois pôs-se
de pé e saiu a porta. A escada de pedra até à cave não ficava longe; apressou-
se ao longo do corredor, até aos degraus, e desceu-os antes que alguém a visse.
No Átrio de Vesta todas as criadas eram mulheres livres, incluindo as que
cortavam a madeira e a enfiavam nos fornos que transformavam a madeira em
carvão. Sim, tinha sorte!
193
194
Se Lépido Pontífice Máximo aqui estivesse a residir, era capaz de ter recusado
que te socorrêssemos, mas a Vesta da Terra diz que és necessária a Roma. Os
nossos próprios livros o dizem também. - Entregou-lhe um manto direito castanho
e malcheiroso de um deprimente castanho-claro. - Veste-te. As pequenas vestais
teceram-te este manto com lã que nunca foi cardada nem tingida.
- Para onde vou?
- Não vais para longe. Irás apenas para o templo na Domus Publica que
partilhamos com o Pontífice Máximo. Não foi usado para nenhuma cerimónia
pública desde que César Pontífice Máximo foi ali velado após a sua morte cruel.
Marco Valério Messala Corvino, o sacerdote mais importante de Roma na
actualidade, presidirá, mas os Flâmines estarão presentes, bem como o Rex
Sacrorum.
Com a apele a arder desconfortavelmente devido à horrível camisa peluda, Lívia
Drusila seguiu a forma branca de Apuleia através das enormes salas onde as
vestais labutavam, zelando pelos seus deveres testamentários, pois eram a
guardiãs de milhões de testamentos pertencentes a cidadãos romanos de todo o
mundo e conseguiam localizar qualquer um deles no espaço de uma hora.
Uma pequena vestal risonha, de cerca de dez anos, penteara os cabelos de Lívia
Drusila em seis madeixas encaracoladas e colocara-lhe uma coroa de sete rolos
de lã sobre a cabeça. Sobre esta pôs um véu que a deixava quase cega, de tão
espesso e grosseiro que era. Para aquela noiva não haveria tecidos cor de fogo
e açafrão tão finos que podiam passar pelo olho de uma agulha de costura!
Estava vestida para casar com Rómulo e não com César Divi Filius.
Sem quaisquer janelas, o templo era um poço de escuridão salpicado por manchas
de luz amarela, aterrorizadoramente sagrado e, foi o que Lívia Drusila
imaginou, assombrado pelas sombras de todos os homens que tinham moldado a
religião romana durante um milhar de anos, desde o tempo de Eneias. Numa
Pompílio e Tarquínio Prisco andavam por ali, a pairar, de braço dado com
Aenobarbo Pontífice Máximo e com César Pontífice Máximo, observando um silêncio
tão profundo como a tumba de escuridão impenetrável em cada recanto.
Ele esperava-a sem quaisquer amigos a acompanhá-lo. Só o reconheceu devido ao
brilho dos seus cabelos, um ponto de referência tremeluzente por baixo de um
enorme candelabro de ouro que devia ter uma centena de velas. Vários homens com
togas multicoloridas estavam mais ao fundo, alguns vestindo a laena e o apex e
calçados com sapatos sem atacadores nem fivelas. Ficou sem respiração quando
percebeu finalmente: aquele era um casamento que seria celebrado à maneira
antiga, confarreatio. Ele casava-se com ela para toda a vida; a união de ambos
jamais poderia ser dissolvida, ao contrário das uniões normais. As mãos de
Apuleia fizeram-na sentar num cadeirão duplo forrado com uma pele de cordeiro
enquanto o Rex Sacrorum fazia o mesmo a Octaviano.
195
Havia mais gente nas sombras, mas não conseguia distinguir quem eram. Depois
Apuleia, no papel depronuba, lançou um enorme véu sobre os dois. Envolto numa
gloriosa toga com faixas púrpura e carmim, Messala Corvino juntou-lhes as mãos
e disse umas quantas palavras numa língua arcaica que Lívia Drusila nunca
ouvira antes. Depois Apuleia partiu ao meio um bolo de mola salsa e deu-lhes
para que o comessem - uma coisa desagradável feita com sal e farinha grosseira.
A pior parte da cerimónia foi o sacrifício que se seguiu, uma batalha confusa
entre Messala Corvino e um porco aos gritos e urros que não fora devidamente
drogado - de quem seria a culpa, quem não desejava aquele casamento? O porco
teria fugido, não fora o noivo ter "aliado debaixo do véu e tê-lo agarrado por
uma das patas de trás rindo baixinho. Ele estava jubilante.
Acabou por ser feito. As testemunhas que atestavam o acto de conferratio -
cinco membros dos Lívios e cinco membros dos Octávios - afastaram-se quando
tudo terminou. Um grito fraco de "Feliciter!" ecoou no ar pesado e a tresandar
a sangue.
Aguardava-os uma liteira na Via Sacra; ela foi instalada no seu interior por
homens empunhando tochas, pois a cerimónia arrastara-se noite dentro. Lívia
Drusila pousou a cabeça numa almofada macia e fechou os olhos. Fora um dia
muito longo para alguém que estava a entrar no oitavo mês de gravidez! Alguma
outra mulher fora alguma vez sujeita a algo de semelhante? Certamente que
aquilo fora único nos anais de Roma.
Por isso dormitou enquanto a liteira gemia e estremecia durante a viagem pelo
monte acima, até ao Palatino, e estava profundamente adormecida quando as
cortinas se afastaram para deixar entrar a luz das tochas.
- O quê? Onde? - perguntou ela confusa quando sentiu mãos a ajudarem-na a sair.
- Estás em casa, domina - disse uma voz feminina. - Anda, vem comigo. Tens um
banho à espera. César irá ter contigo depois disso. Sou a chefe das tuas
criadas e chamo-me Sofonisba.
- Tenho tanta fome!
- Haverá comida, domina. Mas primeiro um banho - disse Sofonisba ajudando-a a
despir o fato nupcial malcheiroso.
É um sonho, pensou enquanto a levavam para uma sala enorme mobilada com um
mesa, duas cadeiras e, empurrados para os cantos, três divãs velhos e pouco
confortáveis. Octaviano entrou quando ela se sentava numa das cadeiras; vinha
seguido de vários criados carregados com pratos e travessas, guardanapos, lava-
mãos e colheres.
196
- Pensei que seria melhor comermos ao estilo rural, sentados à mesa - disse ele
ocupando a outra cadeira. - Se usarmos um divã não poderei olhar-te nos olhos.
- Os seus próprios olhos, dourados à luz do candeeiro, brilhavam estranhamente.
São azul-escuros com pequenas riscas acastanhadas. Que espantoso, pensou.
-Agarrou-lhe na mão e beijou-a. - Deves estar esfomeada, come - disse. - Oh,
este é um dos melhores dias da minha vida! Casei contigo, Lívia Drusila,
confarreatio. Não há escapatória.
- Eu não quero escapar - disse ela mordendo um ovo cozido a que se seguiu um
pedaço de pão estaladiço e molhado em azeite. - Estou mesmo esfomeada.
- Come um pinto. O cozinheiro tratou-o com mel e água.
Fez-se silêncio enquanto ela comia e ele tentava comer, muito ocupado em
observá-la e reparando que ela era uma comensal exigente e com maneiras
impecáveis. E, ao contrário dos seus próprios membros que eram feios, as mãos
dela eram perfeitamente formadas, com os dedos a terminar em unhas
cuidadosamente manicuradas; flutuavam quando se mexiam. Mãos perfeitamente
adoráveis! Anéis; teria que usar anéis magníficos.
- Que noite de núpcias tão estranha - disse ela quando já não conseguia comer
mais nada. - Tencionas deitar-te comigo, César?
Ele ficou horrorizado.
- Não, claro que não! Não consigo pensar em nada de mais repelente, quer para
mim quer para ti. Teremos muito tempo para isso, pequenina. Anos e anos.
Primeiro terás que ter o filho de Nero e recuperar do parto. Que idade tens?
Que idade tinhas quando te casaste com Nero?
- Tenho vinte e um anos, César. Casei com Nero quando tinha quinze.
- Isso é revoltante! Nenhuma rapariga se devia casar aos quinze anos... não é
romano. Dezoito anos é a idade apropriada. Não é para admirar que fosses tão
infeliz. Juro que não serás infeliz comigo. Terás lazer e amor.
A expressão dela alterou-se e ficou frustrada.
- Tenho tido demasiado descanso, César, esse foi o meu maior problema. Ler e
escrever cartas, fiar, tecer... nada que importasse! Quero ter um trabalho
qualquer, um trabalho de verdade! Nero não tinha muitas criadas, mas o Átrio de
Vesta pululava de carpinteiras, estucadoras, ladrilhadoras, pedreiras, médicas,
dentistas... havia até uma veterinária que vinha tratar de cãozinho da Apuleia.
Invejava-as!
- Espero que o cãozinho fosse uma cadela - disse ele a sorrir.
- Sem dúvida. Gatas e cadelas. Elas levam uma vida maravilhosa no Átrio de
Vesta, segundo creio. Pacífica. Mas as vestais têm trabalho e, pelo que a
governanta me disse, são obcecadas por ele. Toda a gente de valor deve ter um
trabalho e, como eu não tenho nenhum, não tenho valor. Amo-te, César, mas que
vou fazer quando aqui não estiveres?
197
-Não vais ficar sem fazer nada, prometo-te. Porque pensas que, de entre todas
as mulheres, me casei contigo? Porque te olhei nos olhos e vi aí o espírito de
uma verdadeira colega de trabalho. Eu preciso de uma verdadeira ajudante a meu
lado, alguém a quem possa confiar, literalmente, a minha vida. Há tantas coisas
para as quais não tenho tempo, coisas que se adequam melhor a uma mulher e,
quando estivermos os dois deitados na nossa cama, vou pedir os conselhos de uma
mulher: os teus. As mulheres vêem as coisas de uma maneira-diferente e isso é
importante. Tu és educada e muitíssimo inteligente, Lívia Drusila. Podes
acreditar na minha palavra, tenciono pôr-te a trabalhar.
Agora era a vez dela sorrir.
- Como sabes que tenho todas essas qualidades? Uma olhadela aos meus olhos pode
levar a conclusões infundadas.
- Estive em contacto com o teu espírito.
- Sim, compreendo.
Octaviano levantou-se apressadamente e depois sentou-se de novo.
- Ia levar-te para te deitares naquele divã... deves estar exausta - disse. -
Mas os teus ossos não ficariam confortáveis, ficariam doridos. Por isso essa
será a tua primeira tarefa, Lívia Drusila. Mobilar esta basílica para que seja
condigna do Primeiro Homem em Roma.
- Mas não é trabalho de mulher comprar mobília! Esse é um privilégio masculino.
- Não me interessa de quem é o privilégio, eu não tenho tempo.
Já havia visões de estilos e de combinações de cores a povoar-lhe o espírito;
estava radiante.
- Quanto dinheiro tenho para gastar?
- O que for preciso. Roma está pobre e gastei uma grande parte da minha herança
a aliviar-lhe os sofrimentos, mas ainda não sou pobre. Madeira de citrinos,
marfim e ouro, ébano, esmalte, mármores de Carrara... aquilo de que gostares. -
Pareceu recordar-se subitamente de algo e pôs-se mesmo de pé. -Volto já -
disse.
Quando regressou trazia qualquer coisa embrulhada num pano vermelho e pousou o
embrulho em cima da mesa.
- Abre-o, minha amada esposa. É o teu presente de casamento.
Dentro do pano estava um conjunto de colar e brincos, com tons da cor da lua,
sete fiadas ligadas entre si por peças de ouro que se juntavam na parte de trás
do pescoço para fechar a jóia. Os brincos tinham, cada um, pendentes com sete
fiadas de pérolas ligadas por um fecho de ouro que assentava sobre o lóbulo da
orelha, com o gancho soldado na parte de trás.
- Oh, César! - arfou ela em transe. - São lindos! Ele sorriu, deleitado com o
deleite dela.
198
- Como tenho fama de ser unhas-de-fome, não te direi quanto custaram, mas tive
sorte. O Fabério Margarita tinha acabado de os receber. As pérolas são tão
parecidas umas com as outras que ele acha que as jóias foram feitas para uma
rainha... do Egipto ou da Nabateia, provavelmente, já que as pérolas vêem da
Taprobana. Mas nunca adornaram nenhum pescoço nem orelhas reais, pois foram
roubadas. Provavelmente há já bastante tempo. O Fabério encontrou-as no Chipre
e comprou-as por... bem, não exactamente pelo preço que lhe paguei mas, de
qualquer maneira, não as comprou baratas. Dei-tas porque tanto eu como o velho
Fabério estamos em crer que nunca foram usadas por ninguém nem apreciadas por
ninguém. Assim poderás usá-las como primeira proprietária, meum mel.
Ela deixou que ele lhe prendesse as pérolas em volta do pescoço e depois
levantou-se para que a admirasse, tão cheia de alegria que nem conseguia falar.
A pérola cor de morango de Servília empalidecia até à insignificância quando
comparada com estas... sete fiadas inteiras! A velha Clódia tinha um colar com
duas fiadas, mas nem mesmo Semprónia Atratina se podia gabar de ter mais do que
três fiadas.
- Hora de deitar- disse ele então bruscamente e pegou-lhe no cotovelo. -Tens os
teus próprios aposentos, mas se preferires outros, não sei qual é o tipo de
vista que mais gostas, diz a Burgúndio, o nosso mordomo. Gostaste da Sofonisba?
Achas que serve?
-Ando perdida nos Campos Elísios - disse ela deixando que ele a guiasse. -Tanto
trabalho e despesa por causa de mim! César, eu vi-te e amei-te, mas sei que
todos os dias que estiver contigo farão com que te ame mais.
III
Vitórias e Derrotas
39 a.C. a 37 a.C.
<Gravuras - omitidas>
201
Públio Ventídio era um picentino de Ásculo Piceno, uma grande cidade amuralhada
na Via Salária, a velha estrada do sal que ligava Firmo Piceno a Roma.
Seiscentos anos antes, as populações da planície Latina tinham aprendido a
extrair o sal dos baixios de Ostia; o sal era uma mercadoria escassa e muito
valiosa. Muito rapidamente o seu comércio passou para as mãos de mercadores que
viviam em Roma, uma pequena cidade nas margens do Tibre, vinte e cinco
quilómetros a montante de Óstia. Os historiadores, como Fábio Pictor, afirmavam
categoricamente que fora o sal que fizera de Roma a maior cidade de Itália e o
seu povo o mais poderoso.
Fosse como fosse, quando Ventídio nasceu numa família rica e aristocrática de
Ásculo no ano anterior ao assassínio de Marco Lívio Druso, a cidade
transformara-se no centro do Sul de Piceno. Situada num vale entre o sopé das
montanhas e os altos picos dos Apeninos, bem protegida dos ataques dos
Marrucinos e dos Pelignos pelas suas muralhas enormes, as tribos italianas suas
vizinhas, Asculo era o centro de uma região rica em pomares de maçãs, peras e
amêndoas, o que significava que também tinha um mel e compotas excelentes,
feitas com os frutos que não eram suficientemente bons para serem enviados
frescos para o Fórum Holitório em Roma. As mulheres faziam um magnífico
artesanato de tecidos finos de um tom de azul particularmente belo, obtido a
partir de uma flor típica da região.
Mas Ásculo tornou-se famosa por uma razão muito diferente: foi ali que foi
cometida a primeira atrocidade da Guerra Italiana, quando os habitantes, fartos
de serem discriminados por um punhado de cidadãos romanos ali residentes,
massacraram duzentos habitantes romanos e um pretor romano, que estava de
visita, durante uma representação de uma peça de Plauto. Quando chegaram duas
legiões sob o comando do tio de Divus Julius, Sexto César, para uma acção
punitiva, a cidade fechou os portões e suportou um cerco de dois anos. Sexto
César morreu de uma doença pulmonar durante um Inverno particularmente rigoroso
e foi sucedido no cargo por Gneu Pompeu Estrabão Carnifex.
202
Aquele guerreiro picentino estrábico tinha muito orgulho nos feitos que lhe
tinham granjeado o cognome de Carniceiro, mas viria a ser eclipsado pelo seu
filho, Pompeu, o Grande. Acompanhado pelo filho de dezassete anos e pelo amigo
do filho, Marco Túlio Cícero, Pompeu Estrabão apressou-se a demonstrar que não
tinha qualquer misericórdia. Imaginou uma forma de desviar o abastecimento de
água da cidade, que era obtido de um lençol subterrâneo por baixo do leito do
rio Truêncio. Mas a rendição não chegava, nem de longe, para Pompeu Estrabão,
que estava decidido a ensinar ao povo de Ásculo que não podia assassinar um
pretor romano desfazendo-o, literalmente, em pedaços. Chicoteou e decapitou
todos os asculanos do sexo masculino com idades entre os quinze e os setenta
anos, um exercício de logística difícil de organizar para um homem que estava
com pressa. Depois de deixar cinco mil corpos sem cabeça na praça do mercado,
Pompeu Estrabão expulsou treze mil mulheres, crianças e homens velhos da
cidade, deixando-os à mercê de um Inverno rigoroso sem comida nem roupas
quentes. Foi após esta orgia sanguinolenta que Cícero, insuportavelmente
agoniado com tudo aquilo, se transferiu para o serviço de Sila, no teatro de
guerra mais a sul.
O pequeno Ventídio tinha quatro anos na altura e foi poupado ao destino da sua
mãe, avó, tias e irmãs, que pereceram todas nas neves dos Apeninos. Estava
entre um pequeno número de rapazes que Pompeu Estrabão salvou para que
desfilassem durante o seu triunfo - um triunfo que escandalizou os homens
decentes de Roma. Os triunfos deviam ser organizados para celebrar vitórias
sobre inimigos estrangeiros e não italianos. Magro, esfomeado e coberto de
feridas, o pequeno Ventídio foi empurrado e espicaçado ao longo da caminhada de
mais de três quilómetros, entre o Campo de Marte e o Fórum romano e depois foi
expulso de Roma e deixado à sua sorte. Tinha então cinco anos de idade.
Mas os Italianos, fossem eles Picenos ou Marsos, Marrucinos ou Frentanos,
Samnitas ou Lucanos, eram da mesma raça dos Romanos e igualmente difíceis de
matar. Roubando comida quando não conseguia mendigá-la, Ventídio conseguiu
chegar a Reate que ficava em território sabino. Aí, um criador de mulas,
chamado Consídio, deu-lhe trabalho a limpar os estábulos das éguas de cobrição.
Aquelas éguas robustas, de linhagens seleccionadas, eram acasaladas com burros
machos para produzir mulas soberbas que valiam bom dinheiro para as legiões
romanas, que não conseguiam funcionar sem mulas de alta qualidade; seiscentas
por cada legião. O motivo de Reate se ter tornado o centro daquela actividade
devia-se ao facto de estar situada na Rósea Rura, uma planície com óptimas
pastagens; fosse verdade ou mera superstição, toda a gente acreditava que as
mulas criadas na Rósea Rura eram melhores do que as outras.
Ele era um bom rapazinho, seco e forte e trabalhava até à exaustão. Com a
cabeleira loira encaracolada e os olhos azuis e brilhantes, Ventídio
rapidamente descobriu que se olhasse para as mulheres da casa com uma mistura
de ânsia e admiração, receberia rações reforçadas e cobertores para se tapar
quando dormia no seu ninho de palha bem cheirosa.
203
Aos vinte anos era um jovem corpulento e muito musculado devido ao trabalho
duro e um grande conhecedor da criação de mulas. Amaldiçoado com um filho que
era um inútil, Consídio promoveu Ventídio a gerente da propriedade, deixando
que o filho partisse para Roma, onde bebeu, jogou e se estafou até à morte. O
que deixava Consídio reduzido a um único descendente, uma filha que havia muito
gostava de Públio Ventídio e que acabou por ganhar a coragem suficiente para
pedir ao pai para casar com ele. Consídio disse que sim; quando morreu deixou a
Ventídio em testamento as suas quinhentas iugera da Rósea Rura.
Como Ventídio era tão inteligente quanto trabalhador, conseguiu ter mais
sucesso na sua criação de mulas do que muitos sabinos que havia séculos que
andavam envolvidos naquela indústria; conseguiu até sobreviver àqueles
terríveis dez anos em que o lago que alimentava a Rósea Rura foi desviado para
um canal para irrigar as plantações de morangos de Amiterno. Felizmente que o
Senado e o Povo de Roma consideravam as mulas como sendo mais importantes do
que os morangos e o canal foi tapado e a Rósea Rura recuperou a sua
fertilidade.
Mas ele não queria verdadeiramente passar toda a sua vida a criar mulas. Quando
o banqueiro gaditano, Lúcio Cornélio Balbo, se tornou no praefectus fabrum de
César, responsável pelo abastecimento das suas legiões, Ventídio cultivou a sua
relação com Balbo e conseguiu uma audiência com César. A quem confiou a sua
ambição secreta: queria entrar para a política romana, ser pretor e comandar
exércitos.
- Serei um político medíocre - disse a César -, mas sei que conseguirei
comandar legiões.
César acreditou nele. Deixando a criação de mulas entregue ao filho mais velho
e a Consídia, tornou-se num dos legados de César e, após a morte deste,
transferiu a sua lealdade para Marco António. E agora ali estava, finalmente, o
grande comando com que sonhara.
- Polião tem onze legiões e não precisa de mais do que de sete - disse-lhe
António antes de partir de Roma. - Posso dar-te onze e Polião dar-te-á quatro
das dele. Quinze legiões e a cavalaria que conseguires reunir na Galácia devem
bastar para que te saias bem contra Labieno e Pácoro. Escolhe os teus próprios
legados, Ventídio, e lembra-te das tuas limitações. A tua missão é levar a cabo
acções de controlo contra os Partos até que eu finalmente consiga entrar
pessoalmente em campo. Deixa a sova para mim.
- Então António, com a tua permissão, levarei o Quinto Popédio Silo como meu
principal legado. - Ventídio sorriu tentando disfarçar o seu deleite. - Ele é
um bom homem, herdou as competências militares do pai.
204
205
Agora que a Itália e Roma são iguais em direitos, o Estado fica sentado nas
bancadas de trás enquanto os comandantes ocupam os lugares da frente. Passa-se
qualquer coisa de errado quando homens como António encaram a propriedade do
Estado como se fosse sua. Sou leal a António e continuarei a sê-lo, mas não
posso aprovar a forma como as coisas estão.
- Nem eu - disse Ventídio em tom rabugento.
- Serão os inocentes quem sofrerá se chegarmos à guerra civil. Ventídio pensou
na sua infância e fez uma careta.
- Suponho que os deuses se inclinam mais para proteger os suficientemente ricos
para lhes fazerem sacrifícios melhores. O que é uma pomba ou uma galinha quando
comparadas com um boi imaculadamente alvo? Além disso é melhor ser-se um romano
genuíno, Silo, ambos o sabemos.
Silo, um homem bem-parecido, com os perturbantes olhos verdes e amarelados do
pai, assentiu.
- Bem, com os Marsos nas tuas legiões, Ventídio, venceremos no Oriente. Uma
campanha de contenção? É isso o que tu queres?
- Não. - Ventídio pôs um ar desdenhoso. - Esta é a minha melhor oportunidade de
ter uma campanha decente, portanto tenciono ir tão longe quando me for possível
e tão depressa quanto puder. Se António quer a glória, devia estar aqui no meu
lugar e não a manter Octaviano debaixo de um olho e Sexto debaixo do outro.
Será que ele pensa que nós, de Polião a mim, não o sabemos?
- Achas mesmo que conseguimos vencer os Partos?
- Podemos tentar, Silo. Já vi António a comandar tropas e ele não é melhor do
que eu, se é que é tão bom como eu. Certamente que não é nenhum César! - O
barco deslizou sobre a corrente submersa do porto e apanhou o vento de
nordeste. -Ah, gosto do mar! Adeus Brundísio, adeus Itália! - gritou Ventídio.
Em Éfeso, as suas quinze legiões instalaram-se em vários acampamentos enormes
em torno da cidade portuária, uma das mais belas do mundo. As suas casas tinham
fachadas de mármore, dispunha de um teatro enorme, tinha dúzias de templos
magníficos e um deles era dedicado a Ártemis na sua forma de deusa da
fertilidade, razão pela qual as estátuas a mostravam com grinaldas de
testículos de boi que a cobriam do pescoço à cintura.
Enquanto Silo fazia as rondas pelas quinze legiões e as mantinha sob um olhar
severo nos treinos e exercícios, Ventídio encontrou uma rocha que formava um
assento natural e instalou-se aí para pensar em paz e sossego. Reparara num
destacamento de quinhentos homens com fundas, enviados por Polémon, o filho de
Zenão, que estava a tentar governar o Ponto sem a aprovação oficial de António.
Quando se deteve para assistir aos seus exercícios, os homens das fundas
fascinaram Ventídio. Incrível, a distância a que um homem, com um pedaço de
sola e uma tira de cabedal, conseguia atirar um míssil de pedra!
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Bem, não conseguiria arranjar um míssil venenoso para a funda, pensou Públio
Ventídio, mas poderia arranjar um mais letal. Pela sua experiência com
artilharia de campo, sabia que eram os pedregulhos maiores aqueles que causavam
mais estragos, não tanto devido ao seu tamanho, mas pela capacidade que tinham
de desfazer tudo em quanto batiam enviando os pedaços pelos ares. Se a
catapulta ou balista era verdadeiramente eficiente, lançava os mísseis a uma
velocidade maior do que um instrumento cuja corda estivesse húmida ou não
tivesse sido apertada com força suficiente. Chumbo. Meio quilo de chumbo
ocupava muito menos espaço do que meio quilo da pedra mais dura. Ganharia por
isso mais velocidade dentro da funda, que poderia ser girada com mais força, e
voaria mais longe do que uma pedra devido à velocidade. E quando batesse,
mudaria de forma, achatar-se-ia ou poderia mesmo ganhar uma ponta. Os mísseis
de chumbo não eram inéditos, mas concebidos para serem lançados por pequenas
peças de artilharia por cima das muralhas das cidades, como acontecera em
Perúsia e esse era um exercício cego e com resultados pouco fiáveis. Uma bola
de chumbo, lançada por um perito no manejo de fundas, na direcção de um alvo
específico, digamos que a uma distância de sessenta metros, era capaz de se
revelar extremamente útil.
Mandou os artesãos da legião fabricarem um pequeno número de bolas de chumbo
com meio quilo avisando-o de que, se a ideia se revelasse prometedora, teriam
que fabricar milhares e milhares de bolas. O artesão-chefe argumentou
inteligentemente, sugerindo que seria melhor contratar a um privado o
fornecimento de milhares e milhares de bolas de chumbo.
- Um privado vai esfolar-nos - disse Ventídio conseguindo manter uma expressão
neutra.
- Não se eu designasse uma dúzia de artesãos da legião para pesar cada bola e
verificar que não tem altos nem imperfeições, general.
Concordando com a proposta, desde que o artesão-chefe fornecesse o chumbo e
garantisse que este não era adulterado pela adição de metais mais baratos como
o ferro, Ventídio levou um saco com bolas de chumbo para o campo de treino dos
homens das fundas, rindo sozinho. Nunca se conseguia levar a melhor sobre um
legionário esperto e cheio de recursos, por mais que se tentasse e por mais
elevada que fosse a nossa patente. Eles tinham crescido mais ou menos como ele
próprio, da mão para a boca, e não tinham medo de nada, nem sequer de cães com
três cabeças.
Xenão, o chefe do destacamento de fundibulários, estava no seu posto.
- Experimenta uma destas - disse Ventídio entregando-lhe as bolas.
Xenão equilibrou a bolinha no couro da funda e fez girar a arma até esta
assobiar. Uma torção ágil e a bola de chumbo uivou pelos ares, indo embater a
meio de um alvo. Juntos foram inspeccionar os estragos; Xenão guinchou, pois
estava demasiado espantado para gritar.
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Segue pela rota das caravanas daí para o Sul da Capadócia, onde apanharás a
estrada romana que leva às Portas Cilicianas. É uma marcha de oitocentos
quilómetros e tens vinte dias para a fazer. Entendido?
- Perfeitamente, Públio Ventídio - respondeu Silo.
Não era costume dos comandantes romanos viajarem a cavalo; a maioria preferia
caminhar por várias razões. A primeira era o conforto; um homem a cavalo não
tinha onde apoiar o peso das pernas que ficavam penduradas. Outra razão era a
infantaria gostar que os seus comandantes marchassem; isso punha-os ao mesmo
nível deles, literal e metaforicamente. A terceira razão era a cavalaria ser
mantida no seu lugar; os exércitos romanos compunham-se em larga medida por
tropas de infantaria, mais valorizadas do que as tropas a cavalo que, ao longo
dos séculos, se tinham tornado não romanas, forças auxiliares compostas por
gauleses, germanos e gálatas. Todavia, Ventídio estava mais habituado a montar
do que a maioria dos soldados devido à sua carreira de criador de mulas.
Divertia-o recordar aos seus colegas mais arrogantes que o grande Sila andara
sempre numa mula e que obrigara César, o Deus, a montar uma mula na juventude.
O seu objectivo era manter um controlo severo sobre as tropas de cavalaria,
comandadas por um gaiata chamado Amintas que fora secretário do velho rei
Deiotaro. Se Ventídio estivesse certo, Labieno retiraria na frente de uma força
de cavalaria tão grande até encontrar um local onde os seus dez mil soldados de
infantaria, com treino romano, conseguissem vencer dez mil cavaleiros. Isso não
seria em parte nenhuma da Caria nem da Anatólia Central; poderia fazê-lo na
Lícia ou no Sul da Pisídia, mas retirar nessa direcção tornaria muito difíceis
as suas comunicações com o exército parto. Os seus instintos, que estavam
correctos, levá-lo-iam pelas mesmas regiões que Ventídio mencionara ao traçar o
percurso das suas legiões a Silo, mas levar-lhes-ia dias de avanço. Dez mil
cavaleiros nos calcanhares forçá-lo-iam a fugir demasiado depressa para poder
conservar o comboio dos abastecimentos, sobrecarregado com saques que só eram
transportáveis por carros de bois. Esse ficaria para Silo; a tarefa de Ventídio
era manter Labieno numa retirada apressada para a Cilicia Pedia e o exército
parto do lado mais distante da cordilheira de Amano, a barreira geográfica
entre a Cilicia Pedia e o Norte da Síria.
Só havia uma maneira de Labieno conseguir passar da Capadócia para a Cilicia,
pois os imensamente altos e agrestes montes Tauro isolavam a Anatólia Central
de todas as regiões para leste. As neves dos montes Tauro eram eternas e os
poucos caminhos que existiam ficavam a três mil e a três mil e quinhentos
metros de altitude, especialmente num dos segmentos da cordilheira. Com
excepção das Portas Cilicianas. Era nas Portas Cilicianas que Ventídio esperava
apanhar Quinto Labieno.
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Os jovens soldados gálatas eram exactamente da idade que produz os melhores e
mais bravos guerreiros: não tinham idade suficiente para terem esposas nem
família, não tinham idade suficiente para achar que travar uma batalha com o
inimigo fosse algo de meter medo. Apenas Roma conseguira transformar homens com
mais de vinte anos em soldados excelentes e essa era uma marca da superioridade
romana. Disciplina, treino, profissionalismo, um conhecimento seguro e
inabalável de que cada homem era uma parte de uma máquina enorme e imbatível.
Sem as suas legiões, Ventídio sabia que não conseguiria derrotar Labieno; o que
tinha que fazer era fixar o renegado num local e tornar-lhe impossível a
passagem pelas Portas Cilicianas e, depois, esperar pela chegada das suas
legiões. Ao confiar em Silo, estava a entregar-lhe a batalha que se aproximava.
Labieno agiu da forma esperada. A sua rede de informadores tinha-lhe feito
saber da enorme força que estava em Éfeso e, ao ouvir o nome do seu comandante,
soube que tinha que retirar rapidamente para a Anatólia. O seu saque era
considerável, pois alcançara locais onde Bruto e Cássio não tinham chegado. A
Pisídia estava cheia de santuários de Kubaba Cibele e do seu consorte Átis; a
Licaónia estava repleta de santuários de divindades esquecidas pelo resto do
mundo desde que Agamémnon governara a Grécia; e Icónio era uma cidade onde
havia templos de deuses médios e arménios. Por isso tentou desesperadamente
arrastar o comboio das bagagens atrás de si - exercício que se revelou
completamente fútil. Abandonou-o a oitenta quilómetros a ocidente de Icónio,
com os condutores dos carros demasiado assustados pela horda romana que os
perseguia para pensarem sequer em roubar o seu conteúdo. Fugiram, abandonando
um comboio de carros de bois esfomeados, sequiosos e aos berros, que se
estendia por três quilómetros. Ventídio deteve-se apenas para libertar os
animais, para que estes pudessem encontrar água, e continuou em frente. Quando,
a devido tempo, o saque chegasse até ao Tesouro, este seria avaliado em cinco
mil talentos de prata. Não havia obras de arte de valor incalculável, mas havia
uma grande quantidade de ouro, prata e pedras preciosas. Seria, pensou enquanto
o seu rabo subia e descia com os movimentos da mula, um adorno adequado ao seu
triunfo.
A região em torno das Portas Cilicianas não era boa para os cavalos; as suas
florestas de vários tipos de pinheiro eram demasiado cerradas para que a erva
crescesse e nenhum cavalo comeria uma folhagem tão aromática. Cada soldado
transportava consigo o máximo de palha que lhe era possível, uma das razões
pela qual Ventídio não se pudera apressar. Mas os soldados eram engenhosos,
colhiam cada rebento verdejante que encontravam; aos olhos de Ventídio pareciam
as lituus de um augure, encimadas por uma cornucópia. Contando com a palha que
ainda tinha e com os rebentos de fetos que iam encontrando, calculou que
conseguiriam sobreviver durante dez dias. O bastante se Silo fosse
suficientemente duro para empurrar as suas legiões para marchas de cinquenta
quilómetros por dia.
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Facto de que Ventídio também tinha consciência embora tal não o preocupasse.
Preferia correr com Labieno da Anatólia naquele momento; um local tão íngreme e
irregular não era sítio para travar uma batalha decisiva. Apenas uma boa
batalha.
Quatro dias após a chegada de Silo, veio um batedor avisar os comandantes
romanos de que os Partos tinham contornado Tarso e entrado na estrada que subia
para as Portas Cilicianas.
- Quantos são? - perguntou Ventídio.
- Cinco mil, mais ou menos, general.
- Todos arqueiros?
O homem fitou-o, inexpressivo.
- Não há arqueiros. São todos catafractários, todos sem excepção, general. Não
sabia?
Os olhos azuis de Ventídio encontraram os olhos verdes de Silo, ambos
sobressaltados.
- Mas que trapalhada! - gritou Ventídio quando o batedor se foi embora. - Não,
não sabíamos! Aquele trabalho todo com os fundibulários e para nada! -
recompôs--se e conseguiu pôr um ar determinado. - Bem, teremos que apostar no
terreno. Tenho a certeza de que Labieno acha que somos idiotas por lhe termos
dado uma oportunidade de fuga, mas agora estou mais empenhado em abater
catafractários do que em matar os mercenários dele. Convoca uma reunião de
centuriões para amanhã de madrugada, Silo.
O plano foi estudado cuidadosa e meticulosamente.
- Não fui capaz de descobrir se Pácoro comanda pessoalmente o exército -disse
Ventídio aos seus seiscentos centuriões na reunião -, mas o que temos que
fazer, rapazes, é atrair os Partos para que carreguem colina acima sem apoio da
infantaria de Labieno. Isso significa que nos vamos pôr nas paliçadas a gritar
insultos terríveis aos Partos... na língua deles. Tenho um sujeito que escreveu
umas quantas palavras que cinco mil homens terão que aprender de cor. Porcos,
idiotas, filhos-da-puta, selvagens, cães, comedores de merda, labregos.
Cinquenta centuriões com vozes grossas terão que aprender a dizer "O teu pai é
um chulo!" e "A tua mãe chupa pilas!" e "Pácoro é um guardador de porcos!" Os
Partos não comem porco e acham que os porcos são impuros. A ideia é fazê-los
ficar de tal forma raivosos que se esqueçam das tácticas e carreguem.
Entretanto, Quinto Silo terá aberto os portões do acampamento e quebrado as
paliçadas laterais para que nove legiões possam sair rapidamente. A vossa
missão, rapazes, é dizerem aos vossos homens para não terem medo daqueles
grandes mentulae nem dos seus grandes cavalos. Os vossos homens devem avançar
como soldados úbios de infantaria, por baixo e à volta dos cavalos e atacar as
pernas dos animais.
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215
Poucos dos que ficaram tinham ferimentos ligeiros, mas esses seriam reunidos e
seria pedido um resgate por eles, pois os guerreiros catafractários eram nobres
cujas famílias tinham dinheiro para os resgatar. Se o resgate não viesse, os
homens seriam vendidos como escravos.
- Que vamos fazer com estas montanhas de mortos? - perguntou Silo e suspirou. -
Nesta região, a camada de terra no solo não tem mais que trinta ou sessenta
centímetros de espessura e não vai ser fácil cavar sepulturas para os enterrar
e a madeira é demasiado verde para construir piras.
- Arrastamo-los para o acampamento do Labieno e deixamo-los lá a apodrecer -
disse Ventídio. - Quando aqui voltarmos, se é que voltaremos, não passarão de
ossos descarnados. Não há qualquer habitação em quilómetros em redor e as
disposições sanitárias do Labieno são suficientemente boas para garantir que o
Cidno não será poluído. - Bufou. - Mas primeiro procuramos o saque. Quero que a
minha parada triunfal seja boa... nada de imitações do triunfo macedónio para
Públio Ventídio!
E aquele comentário, pensou Silo sorrindo interiormente, era uma chapada em
Polião que andava a travar a mesma guerra de sempre na Macedónia.
Em Tarso, Ventídio descobriu que Pácoro não estivera presente na batalha,
talvez uma das razões porque fora tão fácil fazer os Partos enfurecerem-se.
Labieno continuava em fuga através da Cilicia Pedia, com a coluna em convulsão
devido à presença dos catafractários sem chefe e de uns quantos mercenários
rabugentos com influência suficiente para criar problemas entre os soldados de
infantaria mais plácidos.
- Temos que nos manter nos calcanhares dele - disse Ventídio -, mas desta vez
serás tu quem acompanhará a cavalaria, Silo. Eu comandarei pessoalmente as
legiões.
- Levei demasiado tempo a chegar às Portas Cilicianas?
- Edepol, não! Aqui entre nós, Silo, estou a ficar velho de mais para grandes
cavalgadas. Tenho os tomates doridos e uma fistula. Tu dar-te-ás melhor, és
muito mais novo. Um homem com quase cinquenta e cinco anos está condenado a
usar os pés.
Apareceu um criado junto à porta.
-Domine, Quinto Délio está aqui para vos ver e pede para lhe darmos alojamento.
Os olhos azuis e os verdes cruzaram-se novamente, num daqueles olhares que só a
amizade e os gostos semelhantes permitem; disseram imensas coisas apesar de não
ter sido trocada uma única palavra.
- Manda-o entrar mas não te preocupes com o alojamento.
216
- Caríssimo Públio Ventídio! E Quinto Silo também! Que bom que é ver-vos. -
Délio instalou-se numa cadeira antes de esta lhe ter sido oferecida e olhou
intencionalmente para o jarro de vinho. - Uma gota de qualquer coisa leve,
branca e brilhante seria bem-vinda.
Silo serviu o vinho e estendeu-lhe o copo enquanto dizia a Ventídio:
- Se não houver mais nada vou tratar dos meus assuntos.
- Amanhã de madrugada para ambos.
- Credo, credo, tanta urgência! - disse Délio bebericando e depois fazendo uma
careta. - Brrr! Que mijo é este? É de terceira escolha?
- Não te sei dizer porque não o provei - disse Ventídio bruscamente. - Que é
que queres, Quinto Délio? E terás que dormir esta noite numa pousada, pois o
palácio está cheio. Poderás mudar-te para cá amanhã e ficar com ele todo para
ti. Nós vamos embora.
Ficando muito indignado, Délio endireitou-se na cadeira e olhou-o irado. Desde
aquele jantar memorável em que partilhara o divã de António, dois anos antes,
habituara-se de tal modo à deferência que esperava, mesmo da parte de soldados
endurecidos como Públio Ventídio. E agora ele não o tratava com nenhuma! Os
seus olhos castanhos encontraram os de Ventídio e corou; o que vira fora
desprezo.
- Bem, realmente! - gritou. - Já basta! Tenho imperium de propretor e insisto
em ser instalado imediatamente! Manda Silo embora, se não tens mais ninguém a
quem possas fazê-lo.
- Não vou mandar embora nem o mais insignificante contubernalis por causa de um
verme como tu, Délio. O meu imperium é proconsular. O que é que queres?
- Trago uma mensagem do triúnviro Marco António - disse Délio friamente -, e
esperava poder entregá-la em Éfeso, não num ninho de ratos como Tarso.
- Então devias ter andado mais depressa - disse Ventídio sem qualquer simpatia.
- Enquanto andaste a baloiçar num barco, eu travei batalha com os Partos. Podes
levar uma mensagem minha a António: diz-lhe que derrotámos um exército parto de
catafractários nas Portas Cilicianas e que pus Labieno em fuga. Qual é a tua
mensagem? Alguma coisa tão excitante como esta?
- Não é sensato antagonizares-me - disse Délio num murmúrio.
- Isso não me rala nada. A mensagem? Tenho trabalho para fazer.
- Tenho instruções para te lembrar que Marco António está muito ansioso por ver
o rei Herodes dos Judeus sentado no trono o mais depressa possível.
A incredulidade estava estampada na cara grande de Ventídio.
- Queres dizer que António te mandou a esta distância toda só para me dizeres
isso? Diz-lhe que ficarei muito satisfeito por sentar o rabo gordo do Herodes
num trono, mas primeiro tenho que expulsar da Síria Pácoro e o seu exército o
que é capaz de levar algum tempo. Podes todavia garantir ao triúnviro Marco
António que não esquecerei as suas instruções. É tudo?
217
Inchado como um balão, Délio arreganhou o lábio num esgar. -Vais arrepender-te
deste comportamento, Ventídio! - sibilou.
- Lamento uma Roma que encoraja lambe-botas como tu, Délio. Podes ir andando.
Ventídio saiu deixando Délio a ferver. Como se atrevia o velho criador de mulas
a tratá-lo assim! De momento, no entanto, decidiu ele largando o vinho e
pondo--se de pé, o velho insuportável teria que ser tolerado. Tinha derrotado
um exército parto e correra com Labieno da Anatólia - notícias de que António
gostaria tanto como gostava de Ventídio. Não esperas pela demora, pensou Délio
para consigo; quando tiver oportunidade, atacarei. Mas ainda não. Não, ainda
não.
Comandando os soldados gálatas com coragem e astúcia, Quinto Popédio Silo
encurralou Labieno a meio da passagem pelo monte Amano, a que chamavam Portas
Sírias, e esperou que Ventídio chegasse com as legiões. Era Novembro mas não
estava muito frio; as chuvas de Outono ainda não tinham vindo, o que
significava que o solo estava duro e em condições de nele se travar uma
batalha. Um qualquer comandante parto tinha trazido dois mil catafractários da
Síria em auxílio de Labieno, mas de nada serviu. Pela segunda vez, aqueles
guerreiros montados foram feitos em pedaços, mas agora a infantaria de Labieno
também pereceu.
Detendo-se apenas para escrever uma carta jubilante a António, Ventídio
continuou na direcção da Síria onde não encontrou quaisquer partos. Pácoro
também não estivera na batalha de Amano; corriam rumores de que regressara a
casa na Selêucia do Tigre havia meses, levando consigo Hircano dos Judeus.
Labieno fugira e embarcara para o Chipre em Apameia.
- Isso não lhe servirá de nada - disse Ventídio a Silo. - Creio que António
colocou um dos libertos de César em Chipre para governar em seu nome... Gaio
Júlio... hum... Demétrio, é isso. - Pegou num papel. - Manda-lhe isto
imediatamente, Silo. Se ele é quem eu acho que é, a minha memória fica
confundida com estes libertos gregos, revistará muito eficientemente a ilha de
Pafos a Salamina. Diligentemente, até.
Tratado esse assunto, Ventídio espalhou as legiões por vários acampamentos de
Inverno para aguardarem pelo que lhes traria o novo ano. Confortavelmente
entrincheirado em Antioquia e com Silo em Damasco, passou os dias de lazer a
sonhar com o seu triunfo, cuja perspectiva se tornava cada vez mais atraente. A
batalha do monte Amano rendera dois mil talentos de prata e algumas belas obras
de arte para decorar os carros na parada. Podes comer o teu próprio rabo,
Polião! O meu triunfo deixará o teu a milhas de distância.
218
A pausa de Inverno não durou tanto como Ventídio esperara; Pácoro regressou da
Mesopotâmia com todos os catafractários que conseguiu arranjar - mas nenhum
arqueiro a cavalo. Herodes apareceu em Antioquia com novidades, aparentemente
recolhidas junto de um dos apaniguados de Antígono que se sentira amargurado
com a perspectiva de um prolongado domínio dos Partos.
- Estabeleci uma excelente relação com o sujeito... um saduceu chamado Ananeel
que deseja tornar-se sumo sacerdote. Como não tenciono ser eu próprio sumo
sacerdote, ele serve tão bem como qualquer outro e prometi-lhe o lugar em troca
de informações exactas sobre os Partos. Fi-lo murmurar aos seus contactos
partos que, depois de teres ocupado a Síria do Norte, tencionas montar uma
cilada a Pácoro em Nicefório, no rio Eufrates, porque estás à espera que ele o
atravesse em Zeugma. Pácoro agora acredita nisso e ignorará Zeugma e continuará
pela margem oriental, sempre para norte, até Samósata. Suponho que tomará o
atalho de Crasso pelo rio Bilechas acima; não é irónico?
Apesar de não conseguir simpatizar com Herodes, Ventídio era suficientemente
esperto para perceber que aquele sapo ganancioso não tinha nada a ganhar
mentindo; quaisquer que fossem as informações que Herodes lhe desse seriam
verdadeiras.
- Agradeço-te, rei Herodes - disse ele sem sentir o tipo de asco que Délio lhe
inspirava. Herodes não era um sicofanta, apesar da sua atitude subserviente;
estava simplesmente determinado a destronar Antígono, o usurpador, e ser rei
dos Judeus. - Podes ficar descansado que assim que a ameaça dos Partos deixar
de existir, eu ajudar-te-ei a livrares-te de Antígono.
- Espero não ter que aguardar muito tempo - disse Herodes com um suspiro. -As
mulheres da minha família e a minha noiva estão encalhadas no cimo da rocha
mais detestável do mundo. O meu irmão José mandou-me uma mensagem, dizendo que
estão com as reservas de comida muito em baixo. Receio não os poder ajudar.
- Algum dinheiro seria uma ajuda? Posso dar-te o suficiente para viajares até
ao Egipto, comprares mantimentos e pagar o transporte da comida para a tua
família. Conseguirás fazer chegar os mantimentos a esse rochedo detestável sem
seres apanhado à saída do Egipto?
Herodes sentou-se, cheio de animação.
- Consigo escapar facilmente à detecção, Públio Ventídio. O rochedo tem um nome
- Massada - e fica lá muito em baixo, no Palus Asfaltite. Uma caravana de
camelos que viesse por terra de Pelúsio evitaria judeus, idumeus, nabateus e
partos.
- Uma lista temível - disse Ventídio com um sorriso. - Então enquanto trato de
Pácoro sugiro que faças isso. Anima-te, Herodes! Por esta altura do próximo ano
estarás em Jerusalém.
Herodes conseguiu parecer humilde e desafiador em simultâneo, o que não era
pouco.
- Eu... hum... como é que... ah... me candidato a esse dinheiro?
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- Limitas-te a ir ter com o meu questor, rei Herodes. Dir-lhe-ei para te dar o
que pedires... dentro do razoável, claro. - Os olhos azuis brilhantes
tremeluziram. - Os camelos são caros, eu sei, mas eu sou criador de mulas de
profissão. Faço uma ideia razoável do custo de tudo o que tenha quatro patas.
Trata comigo com honestidade e mantém o fluxo de informações.
Oito mil catafractários apareceram do Nordeste, em Samósata, e atravessaram o
Eufrates quando este estava no seu ponto mais baixo do Inverno. Assumindo
pessoalmente o comando desta vez, Pácoro avançou para ocidente, para Caleis,
pela estrada que levava a Antioquia, através de campos verdejantes que não lhe
punham qualquer dificuldade e que ele conhecia bem das suas incursões
anteriores. Havia erva e água com fartura e, à parte uma serra baixa chamada
Gindarus, o terreno era fácil e relativamente plano. Sentindo-se confortável
por saber que todos os pequenos príncipes da região estavam do seu lado,
aproximou-se por um dos flancos de Gindarus com os cavaleiros estendendo-se por
quilómetros atrás de si, pastando a caminho de Antioquia que eles sabiam estar
novamente nas mãos dos Romanos. Os agentes de Herodes tinham feito bem o seu
trabalho e Antígono dos Judeus, que se previa mantivesse abertos os seus canais
de comunicação com Pácoro, andava demasiado ocupado a subjugar os Judeus que
ainda sentiam o domínio romano como sendo menos estranho.
Um batedor chegou a galope para o informar de que havia um exército romano
entrincheirado em Gindarus, protegido por boas fortificações. Foi um alívio
para Pácoro que chamou os seus catafractários para as linhas de batalha; não
gostara de não saber onde estava o exército romano.
Repetiu todos os erros cometidos pelos seus subordinados nas Portas Cilicianas
e no monte Amano, ainda imbuído de desprezo pelos soldados apeados,
confrontados com gigantes de armadura em cima de cavalos couraçados. O grosso
dos catafractários carregou colina acima, de encontro a uma chuva de mísseis de
chumbo, que lhes perfuraram as armaduras a uma distância muito maior do que a
das setas; no meio da maior desordem, com os cavalos relinchando devido às
bolas que lhes acertavam entre os olhos, a vanguarda partia tropeçou. Foi então
que os legionários se lançaram sem medo na batalha, esquivando-se por entre os
cavalos esmagadores para lhes atacar os joelhos e atirar os cavaleiros por
terra, onde morriam com as espadas cravadas na cara. As suas lanças compridas
eram inúteis no meio daquela confusão e a maioria ainda tinha as espadas
embainhadas. Sem qualquer esperança de conseguir que a sua retaguarda passasse
pela confusão na sua frente, e sem maneira de encontrar o flanco dos Romanos,
Pácoro observou horrorizado os legionários a aproximarem-se da sua própria
posição no topo de uma pequena colina. Mas lutou, tal como lutaram os homens à
sua volta, defendendo-o até ao último homem.
220
Quando Pácoro caiu, aqueles que ainda podiam fazê-lo, desmontaram e rodearam o
seu corpo, tentando bater-se com genuínos soldados de infantaria. Ao cair da
noite a maior parte dos oito mil cavaleiros estava morta, os poucos
sobreviventes galopavam a toda a velocidade em direcção do Eufrates e da sua
terra, levando o cavalo de Pácoro como prova de que este morrera.
Na verdade ele ainda não estava morto quando a batalha terminou, apesar de ter
um ferimento fatal na barriga. Um legionário deu-lhe o golpe de misericórdia,
tirou-lhe a armadura e entregou-a a Ventídio.
"O terreno era o ideal", escreveu Ventídio a António, que estava em Atenas com
a mulher e a sua prole de crianças. "Terei a armadura dourada de Pácoro para
exibir no meu triunfo; os meus homens proclamaram-me imperator no campo por
três vezes, como poderei comprovar se o exigires. Não fazia sentido fazer
acções de contenção neste momento da campanha, que progrediu com naturalidade
para uma série de três batalhas. Claro que compreendo que o facto de a minha
campanha ter sido decisiva não é razão de queixa para ti. Deu-te simplesmente
uma Síria mais segura para onde poderás conduzir os teus exércitos - incluindo
o meu, que estacionarei em acampamentos de Inverno junto a Antioquia, Damasco e
Caleis - para a tua grande campanha contra a Mesopotâmia.
"Chegou contudo aos meus ouvidos que Antíoco de Comagena concluiu um tratado
com Pácoro que entregava Comagena ao domínio parto. Também ofereceu comida e
rações a Pácoro, que foi o que permitiu a este entrar na Síria sem os problemas
que afligem habitualmente as grandes forças de cavalaria. Por isso em Março
tenciono levar sete legiões para norte, até Samósata, e ver o que o rei Antíoco
tem para dizer sobre a sua traição. Silo prosseguirá para Jerusalém com duas
legiões para instalar o rei Herodes no seu trono.
"0 rei Herodes foi uma grande ajuda para mim. Os agentes dele espalharam
informações erradas entre os espiões partos, o que me permitiu encontrar o
terreno ideal enquanto os Partos permaneciam completamente ignorantes quanto à
minha localização. Creio que Roma terá nele um aliado valoroso. Dei-lhe cem
talentos para que fosse comprar provisões ao Egipto para a sua família e a
família do rei Hírcano, que estão refugiados numa montanha qualquer que não
pode ser assaltada. Ainda assim a minha campanha rendeu dez mil talentos de
prata em despojos, que vão a caminho do Tesouro em Roma, no momento em que
escrevo esta carta. Depois de eu ter o meu triunfo e de os despojos serem
libertados, os teus lucros serão consideráveis. A minha parte, da venda dos
escravos, não será grande pois os Partos lutaram até ao fim. Apanhei cerca de
mil homens do exército de Labieno e vendi-os.
"Quando a Quinto Labieno, acabo de receber uma carta de Gaio Júlio Demétrio, do
Chipre, que me informa que capturou Labieno e o matou.
221
Deploro este facto, pois não me parece que um mero liberto grego, mesmo que
tenha pertencido ao falecido César, tenha autoridade suficiente para mandar
executar homens. Mas deixo-te a decisão final relativamente a esse assunto,
como é minha obrigação.
"Garanto-te que quando chegar a Samósata tratarei com dureza Antíoco que
renegou o seu estatuto de Amigo e Aliado. Espero que esta carta te encontre bem
a ti e aos teus."
A vida em Atenas era agradável, especialmente desde que Marco António resolvera
as suas divergências com Tito Pompónio Ático, o romano mais apreciado de
Atenas, como o testemunhava o seu cognomen Ático, que significava ateniense de
coração. Amante de rapazinhos atenienses teria sido uma discrição mais
adequada, mas esse facto era discretamente ignorado por todos os Romanos, até
mesmo por alguém tão homofóbico como António. Em tempos mais recuados, Ático
conseguira disciplinar-se para não se dedicar ao seu gosto por rapazinhos a não
ser na Atenas tolerante da homossexualidade, onde construíra uma mansão e
fizera muitas benfeitorias à cidade ao longo dos anos. Homem de vasta cultura e
literato reconhecido, Ático tinha um passatempo que acabava por lhe render bom
dinheiro; publicava os trabalhos de autores romanos famosos, de Catulo a Cícero
e a César. Cada novo volume era copiado em edições que iam das várias dúzias
aos vários milhares. Uma centena de escribas, escolhidos pela fiabilidade e
legibilidade, estavam confortavelmente instalados num edifício próximo do
Argileto perto do Senado, e andavam muito ocupados naquela altura com os
trabalhos de Virgílio e de Horácio. Anexas àquele scriptorium havia instalações
que funcionavam como biblioteca pública, um conceito que fora na verdade
inventado pelos Irmãos Sósio, os editores seus rivais da porta ao lado. A sua
carreira de editores era anterior à de Ático, mas faltava-lhes a imensa riqueza
deste e tinham que trabalhar com mais lentidão; recentemente os Irmãos Sósio
tinham produzido obras de aspirantes políticos, um dos quais estava ligado a
António como seu legado sénior.
Na meia-idade, Ático casara com uma prima, Cecília Pília, que lhe dera uma
menina, Cecília Ática, a sua única filha e herdeira da sua fortuna. Uma crise
de paralisia estival deixara Pília inválida; morrera pouco após a batalha de
Filipos, deixando Ático sozinho a criar Ática. Nascida dois anos antes de César
ter atravessado o Rubicão, a menina tinha agora treze anos, educada ternamente
por um homem sofisticado que nunca lhe escondia nenhuma das suas actividades,
acreditando que a ignorância só a tornaria vulnerável às bisbilhotices
maldosas. Apesar disso, Ático preocupava-se com a sua única cria que estava a
chegar à maturidade - quem poderia escolher para seu marido dentro de cinco
anos?
222
Uma espantosa habilidade e uma invulgar capacidade para manter boas relações
com todas as facções da classe dominante de Roma tinham garantido, até então, a
sobrevivência de Ático, mas após a morte de César o mundo mudara de uma forma
tão radical que ele temia tanto pela sua própria sobrevivência como pelo bem-
estar da sua filha. A sua única fraqueza tinha sido a simpatia pelas mais
duvidosas das matronas romanas; esta levara-o a socorrer Servília, a mãe de
Bruto e amante de César; Clódia, a irmã de Públio Clódio e famosa devoradora de
homens e Fúlvia, que fora mulher de nada menos do que três demagogos: Clódio,
Curião e António. Ter dado abrigo a Fúlvia quase originara a sua ruína, apesar
do seu poder no mundo comercial de Roma governado por cavaleiros; por um
instante horrível parecera que tudo, das suas importações de cereais aos seus
vastos latifundia no Epiro, seria amalgamado num único lote e levado a leilão
para benefício de António, mas ao receber a breve missiva daquele ordenando-lhe
que abandonasse Fúlvia, obedecera. Apesar de ter chorado amargamente em privado
ao saber que ela cortara os pulsos, o destino de Ática e da sua fortuna era
mais importante.
Por isso quando António chegou a Atenas com Octávia e o seu cortejo de
crianças, Ático dedicou-se a ficar nas boas graças de marido e mulher. Foi
encontrar o triúnviro muito mais calmo e apaziguado e atribuiu, correctamente,
o crédito a Octávia. Era evidente que estavam felizes juntos, mas não da forma
habitual nos recém-casados, que nunca queriam a companhia de mais ninguém a não
ser um do outro. António e Octávia estavam desejosos de companhia e assistiam a
todas as palestras, simpósios e eventos que a Capital da Cultura tinha para
oferecer e recebiam frequentemente em casa. Sim, um ano de casamento melhorara
António, da mesma forma que aquele labrego famoso do Pompeu, o Grande, tinha
melhorado depois de casar com a encantadora filha de César, Júlia.
Evidentemente que o velho António continuava a habitar o invólucro hercúleo:
impetuoso, com mau feitio, agressivo, hedonista e preguiçoso.
Era a última característica, a preguiça de António, que ocupava principalmente
os pensamentos de Ático enquanto este percorria uma estreita viela ateniense a
caminho de um jantar com ele na residência do governador. Corria o mês de Abril
do ano de consulado de Ápio Cláudio Pulcro e Gaio Norbano Flaco e -juntamente
com o resto de Atenas - Ático sabia que os Partos tinham sido expulsos para as
suas próprias terras. Não por António mas por Públio Ventídio. Em Roma as
pessoas diziam que as incursões dos Partos tinham-se simplesmente desmoronado,
desfeitas tão rapidamente que António não tivera tempo de se juntar a Ventídio
na Cilicia ou na Síria. Mas Ático sabia que não fora assim; nada impedira
António de estar onde estava a acção militar. Isto é, nada a não ser a fraqueza
mais fatal de António: uma preguiça que o levava a adiamentos perpétuos.
Parecia cego ao ritmo dos acontecimentos, dizendo confortavelmente a si próprio
que tudo aconteceria quando ele o desejasse.
223
Enquanto Júlio César fora vivo para o pressionar, aquele defeito não parecera
tão fatal e, após a morte de César, fora Octaviano quem o pressionara. Mas
Filipos fora uma vitória tão grande para António que as suas fraquezas tinham-
se multiplicado subitamente. Tal como acontecera quando Júlio César o deixara
encarregue de toda a Itália enquanto ele próprio partia para esmagar os últimos
dos seus inimigos. E o que fizera António com essa imensa responsabilidade?
Atrelara quatro leões a um carro, juntara uma comitiva de mágicos, bailarinas e
palhaços e festejara sem fim. Trabalho? O que era isso? Roma geria-se a si
própria; sendo o homem no poder, podia fazer exactamente o que queria, que era
divertir-se. Apesar de tal não ter por base qualquer realidade, parecia
acreditar que, por ser Marco António, tudo acabaria por correr da forma como
ele achava que devia. E quando as coisas não lhe corriam de feição, António
culpava toda a gente excepto a si próprio.
Sob a influência calmante de Octávia, ele não mudara verdadeiramente. O prazer
antes do trabalho, sempre. Polião e Mecenas tinham reorganizado as fronteiras
triunvirais com mais sensatez, algo que deveria ter libertado António
completamente para a liderança dos seus exércitos. Mas, aparentemente, ele
ainda não estava pronto para o fazer e as suas desculpas eram ocas. Octaviano
não representava nenhuma ameaça genuína e, apesar dos seus protestos, tinha
dinheiro suficiente para entrar em guerra. As suas legiões já existiam, estavam
devidamente equipadas e abastecidas com o cereal barato de Sexto Pompeu. Então
o que o detinha?
Quando chegou à residência do governador Ático já atingira um estado de
amargura típico dos homens velhos e descobriu, com desalento, que ele e António
iriam jantar sozinhos; invocando uma qualquer doença infantil Octávia
desculpara--se. Tal significava que teria que levar António e elogiá-lo até ele
ficar bem-disposto. Com pesar, Ático apercebeu-se de que a refeição iria ser
desagradável.
- Se o Ventídio aqui estivesse, julgá-lo-ia por traição! - foi a primeira frase
de António.
Ático riu-se.
- Disparate! - disse.
António pareceu sobressaltado e depois pesaroso.
- Sim, sim, compreendo porque dizes que é um disparate, mas a guerra contra os
Partos era minha! Ventídio ultrapassou as ordens que tinha.
- Devias estar tu na tenda de comando, meu caro António! - disse Ático
bruscamente. - Como não estavas, como te podes queixar se o teu substituto se
saiu tão bem que nem sequer teve baixas muito pesadas? Devias estar a oferecer-
lhe Marte Invicto.
- Ele devia ter esperado por mim - disse António com teimosia.
- Disparate! O teu problema é quereres sempre dois tipos de vida em simultâneo.
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De boca aberta, demasiado atordoado para conseguir falar, António ficou a vê-lo
pegar na toga e nos sapatos e dirigir-se à porta. Depois também ele saltou do
divã e alcançou Ático a tempo de o impedir de sair.
-Tito Ático, por favor! Deita-te novamente por favor! - O rito do sorriso
afastou-lhe os lábios dos dentes, mas conseguiu manter suave o aperto no braço
de Ático.
A ira desvaneceu-se; Ático pareceu encolher e depois deixou-se ser puxado
novamente para o divã e instalou-se novamente no locus consularis.
- Desculpa - murmurou.
- Não, não, tens direito à tua opinião - disse António em tom bastante jovial.
-Ao menos fico a saber o que pensas de mim.
- Estavas a pedi-las, sabes. Sempre que começas a usar Octaviano como um
pretexto para te demorares no Ocidente, em vez de ires para onde devias, fico
sem paciência - disse Ático partindo um pedaço de pão.
- Mas Ático, o rapaz é um completo idiota! Eu preocupo-me com a Itália, de
verdade.
- Então ajuda Octaviano em vez de lhe criares dificuldades.
- Nem num milhar de anos!
- Ele está com grandes dificuldades, António. Parece que os cereais da próxima
colheita nunca chegarão ao destino, graças a Sexto Pompeu.
- Então Octaviano devia ficar em Roma a enfiar os dedos por baixo das saias da
Lívia Drusila em vez de andar a organizar invasões da Sicília com sessenta
navios. Sessenta navios! Não é para admirar que tenha sido derrotado. - Uma mão
enorme mas bem feita estendeu-se para um franguinho. A comida pareceu acalmá-
lo; olhou de soslaio para Ático com um sorriso. - Deixa-me só ter uma campanha
bem--sucedida contra os Partos no próximo ano e, depois disso, darei a
Octaviano toda a ajuda de que precisar. - Pareceu ficar desconfiado. - Tu não
gostas do Octaviano, pois não?
- É-me indiferente - disse Ático num tom distante. -Tem ideias estranhas sobre
a forma como Roma deve funcionar... ideias que não me beneficiarão a mim nem a
qualquer outro plutocrata. Tal como o Divus Julius, acho que ele tenciona
enfraquecer a primeira classe e a parte superior da segunda classe para
reforçar as classes mais baixas. Oh, não o Conto de Cabeças, reconheço. Ele não
é nenhum demagogo. Se fosse simplesmente um explorador cínico da credulidade
popular eu não estaria preocupado. Mas acho que ele acredita firmemente que
César é um deus e que ele próprio é filho de um deus.
- A insistência dele na deificação de César é sinal de insanidade - disse
António sentindo-se melhor.
- Não, Octaviano não é doido. Na verdade acho que nunca conheci um homem mais
são de espírito do que ele.
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Sendo casado com Octávia, sabia tudo o que havia para saber sobre mães babadas.
Sentiu um impulso vago de visitar Alexandria e ver, por si próprio, no que
Cesarião se estava a transformar, mas de momento tal era impossível. Apesar de
que, pensou, descobrir que Octaviano tinha um primo rival mais perigoso do que
Marco António, lhe daria imenso prazer. Sentou-se para escrever a Cleópatra.
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Não há em Roma nenhuma mulher mais desejável do que ela; sou muito invejado,
mesmo pelos meus inimigos.
Escreve a dizer como estás e como está o Cesarião. Ático fez alguns comentários
pertinentes sobre ele e a sua relação com Octaviano. Sugeriu que aí poderia
haver perigos futuros para ele. Faças o que fizeres, não o mandes a Roma até
que eu o possa acompanhar. É uma ordem e não te armes em Ventídio. O teu rapaz
é demasiado parecido com César para ser bem recebido por Octaviano. Precisará
de aliados em Roma e de um forte apoio.
No fim de Maio António recebeu uma carta de Octaviano sobre o tema do costume -
as suas dificuldades com Sexto Pompeu e com o abastecimento de cereais - mas
nesta ele implorava a António que se encontrasse imediatamente com ele em
Brundísio. Acompanhado apenas por um esquadrão de guardas germanos a cavalo,
António deixou Atenas maldisposto e partiu para Corinto, para apanhar o barco
para Patras. Mas antes de partir repetiu com exaspero as suas razões de queixas
a Délio, começando pelo seu ressentimento relativamente a Ventídio.
- Ele continua sentado à frente de Samósata a dirigir aquele cerco ridículo a
passo de caracol! Quer dizer, isto põe-no na mesma categoria de Cícero! Roma
inteira sabia que Cícero não seria capaz de comandar uma raposa num galinheiro,
mesmo com Pontino a travar as batalhas.
- Cícero? - perguntou Délio com incredulidade sentindo-se perdido. Era
demasiado novo para se lembrar de grande coisa sobre as aventuras militares de
Cícero. - Mas quando é que o Grande Advogado comandou um cerco? É a primeira
vez que oiço dizer o que quer que seja sobre actividades militares da parte
dele.
- Foi governador da Cilicia dez anos depois de ter sido cônsul e atascou-se num
cerco no Leste da Capadócia... numa aldeia chamada Pindenisso. Ele e o Pontino
levaram séculos para a conseguir submeter.
- Estou a ver - disse Délio que via realmente, mas não cercos liderados pelo
cônsul menos marcial que Roma alguma vez produzira. - Tinha a convicção de que
Cícero fora um bom governador.
- Oh e foi... se aprovares o tipo de homem que torna impossível aos homens de
negócios romanos terem lucros nas províncias. Mas Cícero não é a questão,
Délio. E Ventídio. Espero bem que, quando eu regressar do encontro com
Octaviano, ele já tenha reduzido a pó os portões de Samósata e que esteja muito
ocupado a contabilizar o saque.
António não esteve fora nem metade do tempo com que Délio contara, mas já tinha
a história pronta quando o triúnviro do Oriente entrou de rompante na sua
residência ateniense a queixar-se de Octaviano que não aparecera nem enviara
qualquer explicação para a sua ausência. Para tornar a coisa ainda mais
insultuosa,
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- Certamente. Que o cerco de Samósata não vai a lado nenhum porque o Ventídio
aceitou um suborno de mil talentos de Antíoco de Comagena. Se o cerco se
arrastar durante tempo suficiente, Antíoco tem esperança de que tu ordenes a
Ventídio e às suas legiões que arrumem a trouxa e se vão embora.
Atordoado, António não disse nada por longos instantes. Depois a sua respiração
começou a assobiar por entre os dentes e cerrou os punhos.
- Ventídio aceitar um suborno? Ventídio? Não! O teu informador está enganado. A
cabeça pequena meneou-se de um lado para o outro para transmitir uma tristeza
céptica.
- Compreendo a tua relutância em acreditar numa coisa assim vinda de um velho
camarada de armas, António, mas diz-me: porque haveria o meu amigo da Sexta de
mentir? Que proveito lhe traria? Mais do que isso, parece que o suborno é do
conhecimento geral entre os legados das sete legiões. Ventídio não fez disso
qualquer segredo. Está farto do Oriente e desejoso de regressar a casa para
celebrar o seu triunfo. Também correm rumores de que ele falsificou os livros
da contabilidade que enviou para o aerarium juntamente com o saque da sua
campanha. Que, na realidade, ficou com mais mil talentos do saque. Samósata é
um sítio tão insignificante que ele sabe que não lhe renderá grande coisa,
portanto porque haveria de tentar tomá-la?
António pôs-se de pé de um salto e gritou pelo mordomo. -António! Que tencionas
fazer? - perguntou Délio, empalidecendo.
- O que qualquer comandante-chefe faz quando o seu segundo-comandante trai a
sua confiança! - disse António bruscamente.
O mordomo entrou com ar apreensivo.
- Sim, domine?
-Arranja a minha arca, incluindo armadura e armas. E onde é que anda o Lucílio?
Preciso dele.
E lá foi o mordomo todo apressado; António começou a andar de um lado para o
outro.
- Que vais fazer? - repetiu Délio começando a suar.
- Vou a Samósata, evidentemente. Podes vir comigo, Délio. Podes estar
descansado que irei até ao fundo desta questão.
Délio viu toda a sua vida passar-lhe diante dos olhos; vacilou, gorgolejou,
caiu por terra e foi acometido por convulsões. António caiu de joelhos a seu
lado gritando por um médico. Que levou uma hora a chegar, já Délio fora metido
na cama, aparentemente a dar as últimas.
Não que António tivesse ficado junto dele; assim que Délio foi levado, começou
a berrar ordens a Lucílio certificando-se de que os criados sabiam como
arranjar as bagagens para uma campanha - fora uma decisão idiota, não ter
trazido consigo a sua ordenança ou o seu questor!
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Mas o vento do sul não era o ideal e o comandante do barco não gostava
do alto-mar e navegou junto à costa durante o caminho todo, desde que avistaram
terra na Lícia até Porta Alexandria. Ainda bem, pensou António sentindo-se
impaciente, que Pompeu, o Grande, tinha exterminado os piratas em todas aquelas
enseadas e refúgios tão convenientes ao longo da Panfília e da Cilicia
Traqueia. Caso contrário já teria sido capturado para ser trocado por um
resgate, como acontecera a muitos romanos, incluindo Divus Julius.
Até mesmo ler se tornava difícil, pois o navio tinha tendência para baloiçar;
apesar do Nosso Mar não ter a ondulação dos oceanos e as marés não serem muito
fortes, era agitado e podia ser perigoso durante as tempestades. Pelo menos a
essas fora poupado por estar em plena época estival, a melhor altura do ano
para viajar de barco. A única forma que tinha de aplacar a sua impaciência era
jogar dados com a tripulação em apostas de poucos sestércios e, mesmo assim,
tinha o cuidado de perder. Também dava voltas e voltas ao convés e mantinha os
músculos em forma, erguendo barricas com água e fazendo outras exibições de
força em benefício da tripulação. Era raro passar uma noite em que o capitão
não insistisse em entrar num porto ou ancorar em frente a uma qualquer praia
deserta. Uma viagem de mais de setecentas milhas feita a trinta milhas por dia,
nos dias bons. Por vezes António sentia que nunca chegaria ao seu destino.
Quando já não havia mais nada que pudesse fazer encostava-se à amurada do navio
e ficava a olhar para a água, na esperança de ver um qualquer monstro marinho
gigante, mas o mais próximo que esteve disso foi quando golfinhos grandes
saltaram e brincaram em torno do barco, brincando entre os lemes e saltando por
cima deles como se fossem lebres marinhas. Depois descobriu que ficar de olhar
fixo durante muito tempo lhe provocava uma onda de solidão, uma sensação de
abandono, de cansaço e desencanto, e pensou no que lhe estaria a acontecer.
Por fim concluiu que a deserção de Ventídio lhe destruíra uma parte do seu eu
mais íntimo, que lhe provocara, não a sua habitual raiva, que era uma espécie
de espírito lutador, mas sim um desespero profundo. Sim, pensou, receio
encontrar-me com ele. Temo encontrar a prova da sua perfídia ali mesmo debaixo
do meu nariz. Que posso fazer? Despedi-lo, evidentemente. Bani-lo de Roma e não
lhe dar a porcaria do triunfo que ele está tão determinado a ter. Mas
substituí-lo-ei por quem? Por um rafeiro choroso como Sósio? Quem mais há para
além de Sósio? Canídio é um bom homem. E o meu primo Canínio também. Mas ainda
assim... se Ventídio aceitou um suborno, porque não o aceitaria qualquer um
deles, que não estiveram anos comigo na Gália Ulterior e nas campanhas da
guerra civil de César? Tenho quarenta e cinco anos, mas os outros são dez e
quinze anos mais novos. Calvino e Vácia estão do lado de Octaviano e também,
pelo que me dizem, Ápio Cláudio Pulcro, o cônsul mais importante desde Calvino.
Talvez seja esse o cerne da questão? Infidelidade. Deslealdade.
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Eu queria acreditar, só posso pensar nessa razão. Queria ver o meu velho amigo
desonrado, estava desejoso que isso acontecesse. E porquê? Porque ele travou
uma guerra que me pertencia a mim, uma guerra que não me dei ao trabalho de
travar. Isso poderia ter dado muito trabalho. Tornou-se uma tradição romana o
comandante-chefe ficar com o crédito todo. Foi Gaio Mário quem iniciou essa
tradição, quando ficou com o crédito pela captura de Jugurta. Não o devia ter
feito. Foi Síla quem o conseguiu fazer com perícia e brilhantismo. Mas Mário
não suportava ter que partilhar os louros, por isso nem sequer o menciona nas
suas comunicações. Se Sila não tivesse publicado as suas memórias nunca ninguém
teria descoberto a verdade. Queria embalar a campanha contra os Partos em neve,
preservar o confronto final para mim, depois de um homem melhor do que eu os
ter amaciado. Depois o Ventídio roubou-me o facho. Um titã suficientemente
atrevido para perceber como fazê-lo - traz, bum! E lá desapareceu o meu facho.
Como eu estava zangado, como estava frustrado! Subestimei-os, a ele e a Silo -
nunca me ocorreu sequer como eram bons. E foi por essa razão que acreditei em
Délio. Não pode haver outra razão. Queria destruir os feitos de Ventídio,
queria vê-lo desonrado, talvez até passado pela espada como Salvidieno. Essa
também foi obra minha, apesar de Salvidieno não ter sido um homem tão bom nem
um comandante tão competente. Estava tão obcecado por Octaviano que deixei o
Oriente escapar-me por entre os dedos e entreguei as rédeas a Ventídio, o meu
criador de mulas de confiança.
Começou a chorar, baloiçando-se para trás e para a frente sobre o banco frágil
de pés cruzados e assento de couro, vendo as lágrimas tombarem no vinho,
bebendo o seu próprio desgosto da mesma maneira que um cão negro bebe sangue.
Oh, a dor, o arrependimento! Nunca mais ninguém olharia para ele da mesma
maneira. A sua honra estava manchada para além do recuperável.
Quando Herodes entrou a correr pela porta, uma hora mais tarde, encontrou
António tão bêbado que este não o reconheceu nem pareceu dar pela sua presença.
Ventídio entrou, viu António e cuspiu no chão.
- Vai chamar os criados dele e diz-lhes que o metam na cama - disse Ventídio
bruscamente. -Ali, nos meus aposentos. Quando ele recuperar a consciência já eu
estarei a meio caminho da Síria.
E Herodes não conseguiu descobrir mais nada.
António contou-lhe dois dias mais tarde, já sóbrio, mas afectado pelo vinho de
uma forma que não era habitual.
- Acreditei no Délio - disse miseravelmente.
- Bem, isso foi insensato, António. - Herodes tentou parecer animado. - Pronto,
mas já acabou. Samósata foi tomada, Antíoco fugiu para a Pérsia e o saque
ultrapassa todas as expectativas. Uma boa conclusão para a guerra.
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- E não há dinheiro para financiar uma guerra total contra esse mentula! -
disse Agripa selvaticamente. - Bem, eu trago mais dois mil em saque... o que dá
para pagar cem milhões da conta dos cereais quando os juntarmos ao que resta de
Ven-tídío. O que nós devíamos fazer era pôr o Senado no meio do Fórum e deixar
que a multidão apedrejasse todos os seus membros até à morte! Mas é claro que
eles fugiram de Roma, não fugiram?
- Oh, sim. Estão escondidos nas suas villas. Não é só Roma que está a ferver, a
Itália inteira está amotinada. A culpa não é deles, dizem, deitando todas as
culpas ao mau governo de César. Malditos sejam!
Agripa dirigiu-se à porta da tenda.
- Isto tem que parar, Mecenas. Anda, vamos ter com César. Mecenas ficou a olhar
para ele de boca aberta.
-Agripa! Não podes! Atravessas o pomerium, entras em Roma e perdes o teu
triunfo!
- Oh, o que é um triunfo quando César precisa de mim? Terei o meu triunfo
noutra guerra qualquer. - E lá foi Agripa, sozinho, ainda de armadura de
cerimónia, as pernas compridas devorando o caminho. A sua mente andava em
círculos, pois sabia que não havia solução enquanto o seu espírito insistia em
que tinha que haver uma. César, César, não podes permitir que um vulgar pirata
te faça refém a ti e ao Povo de Roma! Maldito sejas, Sexto Pompeu, mas António
ainda é mais maldito.
A Mecenas só restava entrar para a sua liteira e esperar chegar uma hora depois
à domus Lívia Drusila, escoltado pela sua guarda armada. Agripa, sozinho! A
multidão ia desfazê-lo em pedaços.
A cidade estava em polvorosa, as portadas das lojas todas fechadas e trancadas;
as paredes cobertas com inscrições, algumas protestando contra o preço dos
cereais mas, a maioria, insultando César, reparou imediatamente Agripa enquanto
descia pela colina dos Banqueiros. Vagueavam por ali bandos armados com pedras,
mocas e, ocasionalmente, uma espada, mas nenhum o desafiou - aquele era um
guerreiro e isso era algo que, mesmo os mais agressivos de entre eles,
conseguiam ver num relance. Os detritos de ovos e vegetais podres escorriam
pelas bancas e pórticos de lojas veneráveis, o fedor a esgoto pairava no ar,
devido aos bacios que ninguém tinha coragem suficiente para levar até à latrina
pública mais próxima para esvaziar. Nunca, nem nos seus sonhos mais mórbidos,
Agripa pensara ver Roma tão degradada, tão suja, tão desfigurada. A única coisa
que faltava era o cheiro a fumo; o que significava que a loucura ainda não se
instalara completamente. Sem pensar na sua própria segurança, Agripa abriu
caminho por entre a multidão ululante no Fórum onde as estátuas tinham sido
derrubadas e as cores ricas dos templos estavam praticamente cobertas de
inscrições e de sujidade.
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Apesar de termos que arranjar cento e cinquenta navios de guerra não sei onde.
Os estaleiros da Itália não conseguirão fornecer-nos tantos.
- Só existe uma única fonte capaz de os fornecer e essa é o nosso querido
António - disse Octaviano amargamente. - Ele, e só ele, é a causa de tudo isto!
Tem o Senado a ir comer-lhe à mão e nenhum deus me consegue explicar a razão!
Seria de pensar que os idiotas teriam mais juízo, vivendo numa agonia destas,
mas não! A lealdade a Marco António é mais importante do que as barrigas
vazias!
- Isso não mudou desde os tempos de Catulo e de Escauro - disse Agripa. -Tens-
lhe escrito?
- Estava a fazê-lo quando me apareceste à porta. A estragar folha após folha de
bom papel tentando encontrar as palavras certas.
- Há quanto tempo é que o não vês?
- Há mais de um ano, quando ele levou Octávia e as crianças para Atenas.
Escrevi-lhe na última Primavera, pedindo-lhe que se encontrasse comigo em Brun-
dísio, mas ele enganou-me, pois veio sem as suas legiões e tão prontamente, que
eu ainda estava em Roma à espera da sua resposta. E ele regressou a Atenas e
enviou--me uma carta desagradável, ameaçando cortar-me o pescoço com a sua
própria espada se eu não aparecesse no encontro seguinte. Depois partiu para
Samósata, portanto... não houve encontro. Nem sequer tenho a certeza de que ele
tenha regressado a Atenas.
- Deixando isso de lado, César, o que podemos fazer relativamente ao
abastecimento de cereais? Temos que arranjar maneira de alimentar a Itália e
por menos dinheiro do que aquilo que Mecenas diz que conseguiremos.
- Lívia Drusila diz que tenho que pedir emprestado o que for preciso aos
plutocratas, mas receio fazê-lo.
Bem, bem, bons conselhos do pequeno leopardo negro!
- Ela tem razão, César. Pede emprestado em vez de cobrares impostos.
Os olhos dela voaram para o rosto de Agripa, espantados; aquele fora um
encontro que receara, convicta de que o amigo mais querido de César seria seu
inimigo - porque não haveria de o ser? Os homens não gostavam de ter as
mulheres no conselho e, apesar de saber que as suas ideias estavam certas,
homens como Estatílio Tauro, Calvísio Sabino, Ápio Cláudio e Cornélio Galo,
odiavam ver a sua estrela em ascensão. Descobrir que Agripa estava do seu lado
era um presente melhor do que a criança que ainda não chegara.
- Eles vão esfolar-me.
- Melhor do que qualquer magarefe - disse Agripa sorrindo. - Todavia o dinheiro
está lá e, até que António mexa o rabo para regularizar o Oriente, eles não
obterão daí quaisquer lucros, a sua maior fonte de rendimentos. Têm capital a
precisar de ser investido.
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- Sim, sei disso - disse Octaviano com alguma rigidez não estando certo de
querer ser inundado de bons conselhos sobre questões que ele próprio já
resolvera. - O que me desagrada é ter que lhes pagar um juro composto de vinte
por cento.
Tempo de bater em retirada.
- Composto?
- Sim, juros sobre juros. Tornar-se-ão credores de Roma durante os próximos
trinta ou quarenta anos - disse Octaviano.
- Duvidas de ti próprio, querido César, e não devias - disse Lívia Drusila.
-Pensa, anda! Sabes a resposta.
O velho sorriso apareceu; ele riu-se.
- Os cofres de Sexto Pompeu cheios de dinheiro ganho desonestamente, é o que
queres dizer. - Subitamente fez um ar manhoso. - Vou oferecer-lhes vinte por
cento compostos e lanço uma rede suficientemente larga para apanhar alguns dos
senadores de António também. Duvido que alguém recuse a minha proposta nestes
termos, não acham? Sou capaz de ter mesmo que pagar o equivalente dos ganhos
desonestos de Pompeu de um ano inteiro, mas assim que me vir livre de António e
o Senado for meu, posso fazer o que quiser. Reduzir a taxa de juro passando
novas leis... os únicos a levantar objecções serão os tubarões maiores do nosso
mar financeiro!
- Ele não esteve inactivo noutros aspectos - disse a mulher a Agripa. Octaviano
pareceu ficar sem saber do que estavam a falar por um instante e
depois riu-se.
- Oh, a campanha do "Cultivem Mais Trigo na Itália"! Sim, contraí ainda mais
dívidas em nome de Roma. Os meus números revelam que um agricultor, com uma
família numerosa, precisa de duzentos modii de trigo por ano para alimentar
toda a gente. Mas um iugerum produz muito mais do que isso e, como é evidente,
o agricultor vende o excedente, a não ser que os animais do campo, ou quaisquer
outros presságios em que ele acredite, lhe digam que se aproxima uma seca ou
uma inundação. Nesse caso armazena uma maior quantidade de cereal. Todavia,
tudo indica que não devemos ter cheias nem secas no próximo ano. Portanto estou
disposto a pagar aos produtores de trigo trinta sestércios por modius dos seus
excedentes. Uma quantia que os comerciantes privados, a quem eles habitualmente
vendem, não estão dispostos a pagar. O que espero é que os nossos veteranos
cultivem mesmo alguma coisa nos seus terrenos. A maior parte deles arrenda as
suas terras a vinhateiros porque gostam de beber vinho; parece-me que essa é a
forma de pensar dos soldados reformados.
-Tudo o que contribua para que tenhamos que comprar menos cereais a Sexto na
próxima colheita é uma coisa boa, César - disse Agripa -, mas será essa a
solução? Quanto pensas que irás comprar?
- Metade das nossas necessidades - disse Octaviano calmamente.
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- Será caro, mas não tanto como aquilo que Sexto pede. Mecenas disse que Lépido
não fez nada para defender os cereais africanos; que é que se passa com ele? -
perguntou Agripa.
- Está a ficar demasiado cheio de si - disse Lívia Drusila, lançando a pedra
para ver se Agripa olhava para o marido à procura de confirmação. Mas ele não o
fez, limitando-se a aceitar a afirmação dela - e a ela própria - como tão
merecedora de confiança como Octaviano. Oh, Agripa, também te amo!
A couraça de Agripa gemeu quando ele tentou pôr-se numa situação mais
confortável - estava demasiado habituado aos bancos de campanha que não tinham
costas.
- Ele não sabe, César - disse ela com os olhos a brilhar. - Diz-lhe e depois o
pobre homem poderá ver-se livre daquela couraça horrível.
- Edepol! Esqueci-me! - exclamou Octaviano e riu-se deliciado. - Dentro de
menos de um mês, Marco, serás o cônsul sénior de Roma.
- César! - exclamou Agripa, atordoado. Uma onda de alegria percorreu-o
transfigurando o seu rosto severo. - César, eu não... eu não sou digno disso!
- Ninguém no mundo é mais digno do que tu, Marco. A única coisa que estou a
fazer é entregar-te uma Roma ferida e a sangrar, esfomeada e quase derrotada.
Tive que ceder e dar o lugar de cônsul a Canínio só porque ele é primo de
António, mas com condições... será sucedido por Estatílio Tauro, como sufecto,
em Julius. O Senado está a tremer, pois tu mostraste aquilo de que eras feito
quando foste prateor urbanus e eles sabem que não serás misericordioso.
- O que tu não disseste, César, é o quanto esta nomeação deve ser ofensiva para
os homens com sangue de linhagem. O meu é baixo.
- Nomeação? - perguntou Octaviano abrindo muito os olhos cinzentos. - Meu caro
Agripa, foste eleito in absentia, algo que não foi concedido nem a Divus
Julius. E o teu sangue não é baixo, é bom e legítimo sangue romano. Eu sei qual
a espada que quereria ter a meu lado e ela não pertence a nenhum Fábio nem
Valério. Nem a um Júlio.
- Oh, isto é óptimo! Significa que posso trabalhar no Portus Julius com
autoridade consular! Só tu ou António é que podem levantar-me objecções e tu
não o farás e ele não pode fazê-lo. Obrigado, César, obrigado!
- Quem me dera que todas as minhas decisões provocassem tanto prazer - disse
Octaviano ironicamente trocando um olhar com a mulher. - Lívia Drusila tem
razão, tens que ir vestir roupas mais confortáveis. Eu tenho que voltar à
escrita da carta para António.
- Não, não vás - disse Agripa soerguendo-se da cadeira. - Não?
- Não. -Agripa conseguiu levantar-se. - Isto já passou do ponto em que se
podiam enviar cartas. Envia o Mecenas.
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Nem por um momento acreditou nos rumores de que eles eram amantes em todos os
sentidos. Talvez essa inclinação fosse incipiente em César, mas, dissera-lho o
próprio, tinha sido posta de lado para sempre. Não admitindo que tivesse
existido, mas contando-lhe o essencial da conversa que mantivera com Divus
Julius num cabriole enquanto atravessavam a Hispânia Ulterior a galope.
Dezassete anos. Fora na época um contubernalis enfermiço que tivera o
privilégio de servir no exército do maior romano que alguma vez existira. E
Divus Julius avisara-o de que a sua beleza, aliada ao aspecto delicado,
originariam comentários de que ele fazia sexo com homens - o que, na Roma
homofóbica, seria um obstáculo tremendo para uma carreira política. Não, ele e
Agripa não eram amantes. O que eles partilhavam era algo mais profundo do que
uma ligação carnal, uma fusão única dos espíritos. E, compreendendo-o, ela
vivera aterrorizada com Marco Agripa, o único que não conseguiria conquistar
como seu aliado. O facto de a linhagem dele não merecer nem mesmo o desprezo de
um Cláudio Nero, deixara de ter importância; se Agripa era uma parte intrínseca
da sobrevivência milagrosa de César, então para a nova Lívia Drusila, o seu
sangue era de tão boa qualidade como o seu. Melhor, até.
Naquele dia dera-se o encontro entre ambos e este deixara-a com a mesma
sensação de leveza de uma borboleta ao vento. Pois descobrira que Marco Agripa
amava de verdade, de uma maneira que poucos eram capazes de amar ou estavam
dispostos a amar - sem egoísmo, sem condições, sem temer rivais, sem buscar
favores ou distinções.
Agora somos três, pensou ao ver a pomba de Opsiconsiva a erguer-se bem alto
sobre os pinheiros com as pontas das asas douradas pelo sol que se punha. Somos
três para cuidar de Roma e três é um número de sorte.
A última pomba era a da Bona Dea, a sua oferenda privada que lhe dizia respeito
unicamente a ela. Mas quando esta se erguia no céu uma águia desceu a pique e
apanhou-a, levando-a consigo. Uma águia... Roma recebeu a minha oferenda e ela
é uma deusa ainda maior do que a Bona Dea. O que poderá isto significar? Não
perguntes, Lívia Drusila! Não, não perguntes.
Mecenas nunca se importara por ser enviado para negociações em locais como
Atenas, onde tinha uma pequena residência que não tencionava partilhar nunca
com a sua mulher, uma típica Terência Varrão: altiva, orgulhosa, extremamente
consciente do seu estatuto. Ali, tal como Ático, podia dedicar-se discreta e
deliciosamente ao seu lado homossexual. Mas isso teria que esperar; primeiro
teria que ver Marco António, que se dizia estar em Atenas, apesar de Atenas não
lhe ter posto a vista em cima. Aparentemente não andava com disposição para
filosofia nem palestras.
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Finalmente bateu com as mãos nas coxas e soltou uma exclamação exasperada, o
seu primeiro sinal de impaciência.
- António, reconhece que sem a tua ajuda César Octaviano não conseguirá
derrotar Sexto Pompeu! - disse.
António arreganhou o lábio.
- Admito-o de livre vontade.
- Então ainda não te ocorreu que o dinheiro de que necessitas para dominar o
Oriente e invadir o reino dos Partos está nos cofres de Sexto?
- Bem, sim... isso já me ocorreu.
- Então nesse caso porque não começas a redistribuir a riqueza da maneira
correcta, à maneira romana? Será realmente importante César Octaviano ter os
seus problemas resolvidos se Sexto for derrotado? São os teus problemas que são
importantes para ti António e, tal como para César Octaviano, estes dissipar-
se-ão no ar assim que os cofres de Sexto Pompeu forem abertos. Não será isso
mais importante do que o destino de César Octaviano? Se regressares do Oriente
com uma campanha brilhante no currículo, quem te poderá fazer frente?
- Não confio no teu amo, Mecenas. Ele vai arranjar uma maneira de ficar com o
recheio dos cofres de Sexto.
- Isso poderia ser verdade se Sexto tivesse menos dinheiro. Creio que estás
disposto a admitir que César Octaviano tem boa cabeça para números, para as
minúcias da contabilidade?
António não conseguiu deixar de se rir. - A aritmética foi sempre o seu forte!
- Então considera o seguinte. Quer seja cultivado nas suas terras da Sicília,
quer seja roubado às frotas cerealíferas da África e da Sardenha, Sexto não
paga o trigo que vende a Roma... e a ti. Esse estado de coisas já vem de antes
de Filipos. Fazendo os cálculos por baixo, a quantidade de cereais que ele
roubou durante os últimos seis anos chegam a, números redondos, pelo menos a
oitenta milhões de modii. Descontando uns quantos almirantes gananciosos e
alguns custos, mas custos que não se comparam aos que Roma e tu suportam, César
Octaviano e o seu ábaco chegaram a uma média de vinte sestércios de lucros
limpos por cada modius. Não é fantasia! O preço que ele cobrou a Roma este ano
foi de quarenta e nunca foi menos de vinte e cinco. Bem, isso significa que os
cofres de Sexto Pompeu devem conter mais ou menos mil e oitocentos milhões de
sestércios. Divide por vinte e cinco mil e obténs o espantoso resultado de
setenta e dois mil talentos! Ora com metade disso, César Octaviano poderá
alimentar a Itália, comprar terras para instalar os veteranos e reduzir os
impostos! Enquanto que a tua metade permitirá aos teus legionários usar cotas
de malha em prata e plumas de avestruz nos capacetes. O Tesouro de Roma nunca
foi tão rico como Sexto Pompeu é neste momento, nem mesmo quando o pai dele
duplicou o seu recheio.
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E ali estava ele, saltando do navio para o tapete vermelho, com um aspecto tão
saudável e robusto como sempre. Octaviano e Agripa esperaram juntos debaixo do
toldo ao fundo do cais com Canínio, o cônsul júnior, um passo mais atrás e,
atrás dele, setecentos senadores, todos eles homens de Marco António. O
duumviri e outros oficiais da cidade tiveram que se contentar com uma posição
ainda mais recuada.
Obviamente que António envergava a sua couraça dourada de cerimónia; a toga não
assentava bem no seu corpanzil, fazia-o parecer gordo. Sendo um homem
igualmente musculado, apesar de mais esbelto, Agripa não ligava ao aspecto e
usava a toga debruada a púrpura. Ele e Octaviano avançaram para saudar António,
Octaviano parecendo uma criança frágil e delicada no meio daqueles dois
esplêndidos guerreiros. No entanto era Octaviano quem dominava, talvez devido a
esse facto, talvez devido à sua beleza, à sua espessa cabeleira loira e
brilhante. Naquela cidade do Sul da Itália, onde os Gregos se tinham instalado
muito antes de os primeiros romanos terem penetrado na península, o cabelo
loiro e brilhante era uma raridade muito admirada.
Está feito!, pensou Octaviano. Consegui trazer António para solo italiano e ele
não sairá daqui até me dar aquilo que eu quero, aquilo que Roma tem que ter.
Pelo meio de pétalas de rosas lançadas por meninas, desfilaram até ao complexo
de edifícios que lhe estavam reservados, sorrindo e acenando às multidões
extasiadas.
- Uma tarde e noite para te instalares - disse Octaviano junto à porta da
residência de António. - Devemos começar imediatamente a trabalhar... sei que
estás com pressa... ou deveremos agradar ao povo de Tarento indo amanhã ao
teatro? Vão encenar uma farsa atelana.
- Não é Sófocles, mas é mais do agrado geral - disse António parecendo
descontraído. - Sim, porque não? Trouxe Octávia e as crianças comigo... ela
estava desesperada por ver o irmãozinho.
- Não mais desesperada do que estou por vê-la. Ainda não conheceu a minha
mulher... sim, eu também trouxe a minha - disse Octaviano. - Digamos então que
vamos ao teatro amanhã de manhã e que faremos um banquete amanhã à tarde?
Depois disso... será mesmo trabalho.
Quando entrou na sua própria residência, Octaviano encontrou Mecenas com um
ataque de riso.
- Não vais acreditar! - conseguiu Mecenas arfar secando os olhos e depois teve
novo ataque de riso. - Oh, é engraçado!
- O quê? - perguntou Octaviano permitindo a um criado que lhe tirasse a toga. -
E onde estão os poetas?
- É isso mesmo, César! Os poetas! - Mecenas conseguiu controlar-se, engolindo
de vez em quando e com os olhos ainda marejados de lágrimas.
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Viu uma jovem matrona elegantemente vestida com o cabelo apanhado à última moda
e que usava a quantidade certa de jóias de ouro simples (mas maciço). Comparada
com ela, Octávia sentiu-se razoavelmente bem vestida, mas fora de moda - o que
não era surpreendente, depois de ter passado tanto tempo em Atenas, onde as
mulheres não frequentavam a sociedade. É claro que as esposas romanas insistiam
em frequentar os jantares oferecidos pelos homens romanos, mas os jantares
oferecidos pelos homens gregos estavam-lhes vedados: só eram convidados os
maridos. Portanto o centro da moda feminina era Roma e Octávia nunca estivera
tão consciente desse facto como naquele momento, olhando para a sua nova
cunhada.
- Foi uma ideia muito inteligente pôr-nos na mesma casa - disse Octávia quando
se instalaram a beber um vinho doce e aguado e a comer bolos de mel ainda
quentes do forno de barro, uma especialidade da região.
- Bem, dá liberdade aos nossos maridos - disse Lívia Drusila sorrindo. -
Imagino que António teria preferido vir sem ti.
- A tua imaginação está absolutamente correcta - disse Octávia ironicamente.
Inclinou-se impulsivamente para a frente. - Mas eu não interesso! Conta-me tudo
sobre ti e o... - tinha na ponta da língua "Pequeno Gaio", mas houve algo que a
deteve e a avisou de que fazê-lo seria um erro. O que quer que fosse, Lívia
Drusila não era nem sentimental nem feminina, isso era evidente. - ... Gaio -
emendou. -Tenho ouvido histórias tão idiotas que gostaria de saber a verdade.
- Conhecemo-nos nas ruínas de Fregelas e apaixonámo-nos - disse Lívia Drusila
num tom de voz normal. - Esse foi o nosso único encontro até nos termos casado
confarreatio. Nessa altura já eu estava grávida de oito meses do meu segundo
filho, Tibério Cláudio Nero Druso, que César enviou ao pai para ser criado.
- Oh, pobrezinha! - gritou Octávia. - Deves ter ficado com o coração
despedaçado.
-Absolutamente nada. -A mulher de Octaviano mordiscou um bolinho delicadamente.
- Eu não gostava dos meus filhos porque não gostava do pai deles.
- Tu não gostavas de uma criança?
- Porque haveria de gostar? Eles crescem e tornam-se nos adultos de que não
gostamos.
- Já os viste? Especialmente o segundo... como é que lhe chamam?
- O pai chama-lhe Druso. E não, nunca o vi. Já tem treze meses.
- Certamente que sentes a sua falta!
- Só quando fico doente por causa do leite.
- Eu... eu... - Octávia gaguejou e acabou por se calar. Sabia o que as pessoas
diziam do Pequeno Gaio - que ele era frio como uma pedra. Bem, casara com
alguém tão frio como ele. No entanto ambos tinham ardido, só que não tinham
ardido pelas mesmas coisas que ela, Octávia, achava importantes. - És feliz? -
perguntou tentando encontrar algo em comum.
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- Estou muito cansada, minha querida. Importas-te que vá fazer uma sesta? Terás
muito tempo para ver as crianças... ficaremos aqui durante dias.
- Mais provavelmente durante nundinae - disse Lívia Drusila que, era óbvio, não
estava propriamente entusiasmada com a perspectiva de conhecer uma tribo de
crianças pequenas.
A previsão íntima de Mecenas provou estar certa; tendo passado o Inverno em
Atenas a digerir a quantidade de dinheiro que havia nos cofres de Sexto Pompeu,
António queria a parte de leão.
- Oitenta por cento são para mim - anunciou.
- Em troco de quê? - perguntou Octaviano com uma expressão impassível.
- Da frota que trouxe de Tarento e o serviço de três almirantes experientes:
Bíbulo, Ópio Capito e Atratino. Sessenta dos navios são comandados por Ópio,
outros sessenta por Atratino e Bíbulo desempenha as funções de almirante-geral.
- E, por vinte por cento, eu teria que arranjar mais trezentos navios no mínimo
e ainda um exército terrestre para a invasão da Sicília.
- Correcto - disse António examinando as unhas.
- Não te parece que essa é uma divisão bastante desproporcionada? Sorrindo,
António inclinou-se para diante com uma expressão de ameaça subtil. -Vê as
coisas desta forma, Octaviano: sem mim não conseguirás derrotar Sexto.
Portanto sou eu quem impõe as condições.
- Negoceias de uma posição de poder. Sim, compreendo. Mas não concordo por duas
razões. A primeira é que agiremos em conjunto para tirar uma farpa do flanco de
Roma, não do meu nem do teu. A segunda é que eu preciso de mais do que vinte
por cento para reparar a devastação causada por Sexto e para pagar as dívidas
de Roma.
- Estou-me absolutamente nas tintas para o que tu queres ou o que tu precisas!
Para participar nisto exijo oitenta por cento.
- Isso significa que estarás presente em Agrigento quando abrirmos os cofres de
Sexto? - perguntou Lépido.
A chegada dele fora um choque para António e para Octaviano, que estavam
tranquilos sabendo que o terceiro triúnviro e as suas dezasseis legiões estavam
em segurança lá longe, em África. Como é que ele soubera da conferência com
antecedência suficiente para assistir, António não sabia, enquanto que
Octaviano suspeitava do filho mais velho de Lépido, Marco, que estava em Roma
para se casar com a primeira noiva intocada de Octaviano, Servília Vácia.
Alguém dera com a língua nos dentes e Marco contactara Lépido imediatamente. Se
havia grandes saques no horizonte, então os Emílios Lépidos tinham que receber
a sua parte.
- Não, não estarei em Agrigento! - ripostou António. - Estarei bem adiantado na
tarefa de submeter os Partos.
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- Como esperas então que a divisão do conteúdo dos cofres de Sexto seja feita
conforme a tua vontade? - perguntou Lépido.
- Porque se tal não acontecer, Pontífice Máximo, tu ficarás sem o teu lugar de
sacerdote e sem tudo o resto! Quero saber das tuas legiões? Não, não quero! As
únicas legiões que valem alguma coisa pertencem-me a mim e não ficarei no
Oriente para sempre. Oitenta por cento.
- Cinquenta por cento - disse Octaviano mantendo o rosto inexpressivo. Olhou
para Lépido. - E para ti, Pontífice Máximo, nada. Os teus serviços não serão
necessários.
- Disparate, é claro que serão - disse Lépido complacentemente. - Contudo eu
não sou ganancioso. Dez por cento servem-me perfeitamente. Tu, António, não
estás a fazer nada que justifique quarenta por cento, mas concordarei com essa
quantia visto seres tão ganancioso. A maior parte das dívidas de Octaviano
devem-se às actividades de Sexto, portanto deve ficar com cinquenta por cento.
- Oitenta ou levo a minha frota para Atenas.
- Fá-lo e não receberás nada - disse Octaviano inclinando-se para diante numa
ameaça subtil, algo que ele fazia melhor do que António. - Não me interpretes
mal, António! Sexto Pompeu vai cair no próximo ano, quer tu contribuas com uma
frota quer não. Como triúnviro cumpridor e leal estou a oferecer-te uma
oportunidade para partilhares o saque da sua derrota. A oferecer-te. A tua
guerra no Oriente, se bem--sucedida, beneficiará Roma e o Tesouro, portanto uma
parte ajudará a custear essa guerra. Não te faço esta oferta por mais nenhuma
razão. Mas Lépido tem razão. Se eu usar as legiões dele e as de Agripa para
invadir uma ilha muito grande e montanhosa, depois de as frotas de Sexto terem
deixado de existir, a Sicília cairá mais rapidamente e com menos perdas de
vidas. Portanto estou disposto a conceder ao nosso Pontífice Máximo dez por
cento dos despojos. O que te deixa com quarenta por cento. Quarenta por cento
de setenta e dois mil são vinte e nove mil. Era mais ou menos isso o que César
tinha na sua arca de guerra para a campanha contra os Partos.
António escutou com uma ira visivelmente crescente, mas não disse nada.
Octaviano avançou.
-Todavia, quando tivermos montado esta guerra total contra Sexto, eleja terá
adicionado vinte mil talentos ao seu espólio: o preço desta colheita. O que
significa que terá cerca de noventa e dois mil talentos. Dez por cento disso é
mais do que nove mil talentos. Os teus quarenta por cento, António, são cerca
de trinta e sete mil. Pensa nisso, pensa! Um lucro enorme para um pequeno
investimento... apenas uma frota, por muito boa que seja.
- Oitenta - repetiu António sem vacilar.
Quanto, pensou Mecenas, estará ele preparado para aceitar? Não oitenta por
cento - ele tem que saber que nunca conseguirá essa quantia. Mas é evidente que
se esqueceu de juntar a actual colheita aos despojos.
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Depende da quantia que eleja tenha gasto na sua cabeça. Com os números antigos,
uns trinta e seis mil. Aceitando dez por cento menos com os números novos,
receberá um pouco mais do que receberia se estivesse a contar receber cinquenta
por cento.
- Lembrem-se - disse Octaviano -, o que quer que vá para ti, António, e para
ti, Lépido, é pago em nome de Roma. Nenhum de vós gastará o vosso quinhão com a
própria Roma. Enquanto que os meus cinquenta por cento irão inteirinhos para o
Tesouro. Sei que o general tem direito a dez por cento, mas eu não ficarei com
nada. Para que os quereria, se ficasse com eles? O meu divino pai deixou-me
bens mais do que suficientes para as minhas necessidades e comprei a única
domus romano de que alguma vez precisarei. Já está mobilada. Portanto as minhas
necessidades pessoais são praticamente inexistentes. A minha parte vai toda
para Roma.
- Setenta por cento - disse António. - Eu sou o parceiro mais importante.
- Em quê? Certamente que não na guerra contra Sexto Pompeu - disse Octaviano. -
Quarenta por cento, António. É pegar ou largar.
O regateio continuou durante um mês no fim do qual António já deveria ir a meio
caminho da Síria. A responsabilidade de ele continuar onde estava podia ser
atribuída ao pecúlio de Sexto, pois estava determinado a sair daquela
negociação com dinheiro suficiente para equipar soberbamente vinte legiões e
vinte mil soldados de cavalaria. Muitas centenas de peças de artilharia. Um
enorme comboio de mantimentos capaz de carregar toda a comida e alimentação
para animais que o seu exército enorme fosse capaz de consumir. Era de esperar
que Octaviano insinuasse que ele ficaria com o dinheiro para si próprio. Não
ficaria, e Octaviano sabia-o muito bem. Aquele dinheiro significava o melhor
exército que Roma alguma vez tivera. Oh! e o saque no fim da campanha! Faria
com que o tesouro de Sexto Pompeu parecesse uma miséria.
Finalmente chegaram a acordo nas percentagens: cinquenta para Octaviano e Roma,
quarenta para António e para o Oriente e dez para Lépido em Africa.
- Há outras questões - disse Octaviano. - Questões que têm que ser debatidas
agora e não mais tarde.
- Oh, Júpiter! - grunhiu António. - O quê?
- O Pacto de Putéolos ou Miseno ou o que queiram chamar-lhe, deu a Sexto
imperium proconsular sobre as ilhas, bem como sobre o Peloponeso. E deverá ser
cônsul dentro de dois anos. Isso são tudo coisas que têm que acabar
imediatamente. O Senado deverá reactivar o decreto de hostis e proibir o uso da
água e do fogo a Sexto num raio de cento e sessenta quilómetros de Roma,
retirar-lhe as suas pretensas províncias e retirar o seu nome dos fasti... não
poderá ser cônsul nunca.
- Como é que essas coisas podem ser feitas imediatamente? O Senado reúne-se em
Roma - objectou António.
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- Ora, quando o assunto é a guerra? Quando discute uma guerra, o Senado tem que
se reunir no exterior do pomerium. E Tarento fica indiscutivelmente no exterior
do pomerium. Estão aqui mais de setecentos dos teus senadores, António, muito
atarefados a lamber-te as botas, de tal maneira que já têm as línguas gastas
-disse Octaviano desabridamente. - Também aqui temos o Pontífice Máximo e tu és
um augure e eu sou sacerdote e augure. Não há nenhum impedimento, António,
absolutamente nenhum.
- O Senado tem que se reunir num edifício devidamente inaugurado.
- Que, certamente, existirá em Tarento.
- Esqueceste uma coisa, Octaviano - disse Lépido.
- Esclarece-me por favor.
- O nome de Sexto Pompeu já está nos fasti... é isso o que acontece quando
escolhemos os cônsules com um ano de antecedência e depois limitamo-nos a
fingir que são eleitos. Apagá-lo seria nefas.
Octaviano soltou uma risadinha.
- Para quê apagá-lo, Lépido? Não vejo necessidade. Esqueces-te de que há um
outro Sexto Pompeu da mesma família a pavonear-se por Roma? Não há razão para
que não possa ser cônsul daqui a dois anos... é um dos sessenta pretores que
serviram no ano passado.
Todos os rostos se iluminaram com sorrisos rasgados.
- Brilhante, Octaviano! - gritou Lépido. - Eu conheço o sujeito... é o neto do
irmão de Pompeu Estrabão. Ficará morto de orgulho.
-Apenas quase morto de orgulho já será suficiente, Lépido. - Octaviano es-
preguiçou-se, bocejou e conseguiu parecer-se com um gato satisfeito. - Supõem
que isto significa que podemos concluir o Pacto de Tarento e regressar a Roma,
para espalhar a boa nova de que o triunvirato foi renovado por mais cinco anos
e que os dias de pirataria de Sexto Pompeu estão contados? Tens que vir,
António, já é demasiado tarde para iniciares uma campanha este ano.
- Oh, António, que maravilha! - gritou Octávia quando ele lhe disse. - Posso
ver a mamã e ver a pequena Júlia com os meus próprios olhos... Lívia Drusila é
completamente indiferente à sua sorte e não fará qualquer esforço para
persuadir o Pequeno... o César Octaviano, quero dizer, a manter-se em contacto
com a filha; receio pela pequenita.
- Estás outra vez grávida - disse António percebendo subitamente. -
Adivinhaste! Que espantoso! Ainda estou muito no início e estava à espera
de ter a certeza para te contar. Espero que seja um filho.
- Filho, filha, que interessa isso? Tenho imensos de uns e de outros.
- Na verdade, tens - disse Octávia. - Mais do que qualquer outro homem ilustre,
especialmente se contares com os gémeos de Cleópatra.
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As melhores notícias são que arranquei a recolha do betume das mãos do Malco da
Nabateia que tomou o partido dos Partos e que me rejeitou, a mim, seu próprio
sobrinho. Despeço-me agradecendo-te profusamente pelo teu apoio. Fica certo de
que Roma nunca se arrependerá de me ter feito rei dos Judeus.
António deixou que o pergaminho se enrolasse e ficou sentado alguns instantes
com as mãos por trás da cabeça, sorrindo com as ideias que estava a ter sobre
aquele sapo semita. Era um Mecenas oriental, mas senhor de uma impiedade e
selvajaria que, em Mecenas, estavam completamente ausentes. A questão era, o
que seria mais útil aos interesses romanos no Sul da Síria? Um reino judaico
reunificado ou fragmentado? Sem expandir as suas fronteiras geográficas numa
milha sequer, Herodes enriquecera extraordinariamente ao adquirir os jardins de
bálsamo de Jericó e a recolha de betume de Palus Asfaltite. Os Judeus eram um
povo guerreiro e davam excelentes soldados - precisaria Roma de uma Judeia rica
governada por um homem inteligentíssimo? O que aconteceria se a Judeia
engolisse toda a Síria a sul do rio Orontes? Para onde olharia o rei a seguir?
Para a Nabateia, que lhe renderia uma das duas maiores frotas envolvidas no
comércio com a índia e com a Taprobana. Mais riqueza. Depois disso ele olharia
para o Egipto, que seria menos problemático do que qualquer tentativa de
expansão para norte e para as províncias romanas. Humm...
Agarrou na carta de Cleópatra, quebrou o selo e leu-a muito mais rapidamente do
que lera a de Herodes. Não que eles fossem muito diferentes, Herodes e
Cleópatra: não tinham, qualquer um dos dois, um grama de sentimentalismo. Como
sempre, ela escrevera uma litania de elogios a Cesarião, mas isso não era
sentimentalismo, era o instinto protector da leoa para com a sua cria. À parte
Cesarião, aquela era mais uma carta de uma soberana do que de uma antiga
amante. Glafira faria bem em imitar a sua homóloga.
O rostinho comprido de Cleópatra pairava no seu espírito, os olhos dourados
brilhando como acontecia quando estava feliz - estaria ela feliz? Era uma carta
muito fria, suavizada apenas pelo amor dela pelo filho mais velho. Bem, em
primeiro lugar era rainha e só depois era mulher. Mas ao menos tinha mais
assuntos para debater do que Octávia, mergulhada na gravidez e na felicidade de
estar novamente em Roma. Apesar de não passar muito tempo com Lívia Drusila, a
quem considerava fria e calculista. Não que ela o dissesse - quando é que a sua
mulher rompia com a etiqueta, mesmo em privado com o marido? Mas António sabia-
o porque partilhava do desagrado dela; a rapariga era completamente uma
criatura de Octaviano. Que qualidade teria Octaviano para conseguir apanhar
algumas pessoas e controlá-las com garras de aço? Agripa. Mecenas. E agora
Lívia Drusila.
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Subitamente, sentiu-se cheio de asco por Roma, pela pequena classe dominante
romana, pelos objectivos inexoráveis de Roma, pelo direito divino de Roma a
governar o mundo. Mesmo os Silas e os Césares subjugavam os seus desejos a
Roma, ofereciam tudo o que faziam nos altares de Roma, alimentavam Roma com a
sua força, os seus feitos, com o animus que os movia. Que se passaria com ele?
Seria incapaz daquele tipo de dedicação a uma abstracção, a uma ideia?
Alexandre, o Grande, não pensava na Macedónia da mesma maneira que César
pensara em Roma; pensava em si próprio em primeiro lugar, sonhava com a sua
própria deificação e não com o poder do seu país. Claro que essa fora a razão
de o seu império se ter desfeito imediatamente após a sua morte. O império de
Roma nunca se desfaria devido à morte de um homem, nem mesmo devido à morte de
muitos homens. Um romano tinha o seu lugar temporário ao sol, nunca se encarava
a si próprio como o sol. Alexandre, o Grande, fizera-o. E talvez Marco António
também o fizesse. Sim, Marco António queria um sol só para si e esse sol não
era o de Roma. Não, não era o de Roma!
Porque é que permitira àqueles tipos em Tarento que lhe diminuíssem a
percentagem? Só tinha que ir embora com a sua frota, mas não fora. Pensando que
ficava para garantir a segurança e o bem-estar das suas tropas quando invadisse
o reino dos Partos. Aplacado com meras promessas para o futuro! Sim, prometo
que te darei vinte mil legionários bem treinados, dissera Octaviano, mentindo
com quantos dentes tinha na boca. Prometo que te enviarei quarenta por cento do
total assim que abrirmos as portas dos cofres de Sexto. Prometo-te que serás
cônsul. Prometo-te que serás o triúnviro mais importante. Prometo zelar pelos
teus interesses no Ocidente. Prometo isto, prometo aquilo. Mentiras, mentiras,
tudo mentiras!
Reflecte, António. Pensai Tens mais de setecentos senadores num total de mil.
Consegues reunir votos nas classes superiores e controlar as leis e as
eleições. Mas, não sei como, nunca consegues atingir César Octaviano. E isso
deve-se ao facto de ele estar aqui, em Roma, e tu não. Mesmo durante este Verão
interminável em que aqui estás fisicamente, não consegues reunir as forças para
o destruir. Os senadores estão à espera para ver quanto conseguirão tirar dos
cofres de Sexto Pompeu - isto é, aqueles de entre os que não desapareceram para
as villas junto ao mar, fugindo da Roma quente e fedorenta. E o Povo está a
perder-te de vista. Agora que regressaste, há já muitos que não te reconhecem à
primeira, apesar de só terem passado dois anos desde que aqui estiveste. Eles
podem odiar Octaviano, mas é um ódio familiar e muito amado: o tipo de homem
que todos os outros homens acham que têm que amar para odiar. Já eu, não sou
mais visto, actualmente, como o salvador de Roma. Eles esperaram demasiado
tempo que me impusesse. Passaram cinco anos de Filipos e não consegui fazer
aquilo que disse que faria no Oriente.
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266
Ainda era cedo para os ventos do equinócio e António estava ansioso por partir,
na esperança de apanhar ventos e mares favoráveis o caminho todo, em torno do
cabo Ténaro, abaixo do Peloponeso e para cima, para Atenas, até ancorar no
Pireu.
Mas após três dias de viagem encontraram uma tempestade terrível que os forçou
a procurar abrigo em Corcira, uma bela ilha em frente à costa grega mesmo
abaixo de Epiro. O mar agitado não fizera nada bem a Octávia, que estava quase
no fim do sétimo mês de gravidez, e ela saudou com gratidão a terra firma.
- Detesto que te atrases - disse a António -, mas confesso que espero ficar
aqui vários dias; o meu bebé deve ser um soldado e não um marinheiro.
Ele não sorriu com a sua graçola, demasiado impaciente por continuar a viagem
para se comover com o sofrimento da mulher ou com os seus esforços valorosos
para não ser um problema.
-Assim que o capitão disser que podemos partir embarcaremos novamente - disse
com brusquidão.
- Claro. Estarei pronta.
Nessa noite não apareceu para jantar, invocando um estômago ainda doente devido
às provações marítimas, e António estava cansado do grupo do costume que o
rodeava competindo pela sua atenção, forçando-o a fingir uma bonomia que não
sentia. Na verdade o único que o atraía era Fonteio, a quem pediu que lhe
fizesse companhia ao jantar; um jantar só para os dois.
Com o tipo de astúcia do diplomata nato e gostando mais de António do que de si
próprio, Fonteio aceitou com gratidão. Havia muito que adivinhara que António
não estava feliz e talvez aquela noite fosse a sua oportunidade de sondar a
ferida de António para tentar encontrar a seta envenenada.
Era uma noite ideal para uma conversa íntima; as chamas do candeeiro
bruxuleavam loucamente devido ao vento que rugia no exterior, a chuva batia nas
persianas, uma pequena torrente gorgolejava no seu caminho colina abaixo. Os
carvões brilhavam, vermelhos, em vários braseiros para aquecer a sala e os
criados moviam--se como lémures, aparecendo e desaparecendo na sombra.
Talvez devido à atmosfera, ou talvez porque Fonteio soubesse como obter as
respostas certas, António deu por si a confessar os seus receios, horrores,
dilemas, ansiedades, com pouca lógica e desordenadamente.
- Qual é o meu lugar? - perguntou a Fonteio. - O que é que eu quero? Serei um
verdadeiro romano ou aconteceu-me algo que me tornou menos romano do que
costumava ser? Tenho tudo na minha mão, um poder enorme... e no entanto... no
entanto... pareço não ter um lugar a que possa chamar meu. Ou será local a
palavra errada? Não sei!
- Pode ser que quando dizes local queiras dizer função - disse Fonteio
escolhendo delicadamente o caminho. - Adoras divertir-te, estares com homens
que consideras teus amigos e com mulheres que desejas.
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O rosto que mostras ao mundo é atrevido, audaz, simples. Mas eu vejo muitas
complicações por baixo dessa fachada. Uma delas levou-te a uma participação
periférica no assassínio de César... não, não o negues! Não te culpo a ti,
culpo a César. Ele também te matou ao fazer de Octaviano seu herdeiro. Só posso
imaginar como isso te deve ter ferido! Tinhas passado toda a tua vida, até essa
altura, ao serviço de César e um homem com o teu temperamento não podia
compreender a razão por que César condenava algumas das tuas acções. Depois ele
deixou um testamento em que nem sequer és mencionado. Um golpe cruel que
destruiu completamente a tua dignitas. Pois os homens ficaram a pensar por que
razão César teria deixado o seu nome, as suas legiões, o seu dinheiro e o seu
poder a um menino bonito em vez de tos deixar a ti, seu primo e um homem no
apogeu. Interpretaram o testamento de César como um sinal do seu tremendo
descontentamento com a tua conduta. Tal não teria tido importância se não se
tratasse de César, o ídolo do Povo. Fizeram dele um deus e os deuses não tomam
decisões erradas. Logo, tu não eras digno de ser herdeiro de César. Nunca
poderás ser outro César. César tornou isso impossível, não Octaviano. Ele
roubou-te a tua dignitas.
- Sim, compreendo - disse António lentamente cerrando os punhos. - O velhote
cuspiu-me em cima.
- Tu não és naturalmente introspectivo, António. Gostas de lidar com factos
concretos e tens a mesma propensão de Alexandre, o Grande, para usar a espada
na resolução de problemas complicados. Não tens a capacidade de Octaviano de
escavar por baixo da pele da sociedade, para murmurar difamações como sendo
verdades de maneira a que as pessoas acreditem. A origem do teu dilema é a
mancha na tua reputação ali posta por César. Porquê, por exemplo, escolheste o
Oriente como a tua parte do triunvirato? Provavelmente pensas que o fizeste
devido às riquezas e às guerras que podias travar por lá. Mas eu não acho que
tenha sido essa a razão. Acho que foi uma maneira honrada de poderes sair de
Roma e da Itália onde terias que aparecer perante pessoas que sabiam que César
te desprezava. Procura bem dentro de ti, António! Encontra a tua ferida e
identifica-a como sendo o que é!
- Sorte! - disse António chocando Fonteio. - Depois, mais alto: - Sorte! A
sorte de César era proverbial, fazia parte da sua lenda. Mas quando ele me
excluiu do testamento passou a sua sorte para Octaviano. De que outra forma
poderia o vermezinho ter sobrevivido? Ele tem a sorte de César, é por isso! E
eu perdi a minha. Perdi-a! E esse é o cerne da questão, Fonteio. Tudo o que
faço dá azar... como é que uma pessoa resolve uma coisa assim? Eu não sei.
- Mas sabes, António! - gritou Fonteio recuperando para conseguir acompanhar
aquela reviravolta extraordinária. - Se decidires encarar a tua actual
melancolia como falta de sorte, então recupera a sorte no Oriente! Não é uma
tarefa fora do teu alcance. Recupera a tua reputação junto dos cavaleiros
criando um Oriente perfeito e cheio de oportunidades de negócio!
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A tristeza inundou-a; olhou para os olhos avermelhados dele com os seus cheios
de dor. Como é que o sabia não fazia ideia, mas aquela seria a última vez que
veria Marco António, o seu amado marido. O adeus na ilha de Corcira - quem o
poderia ter previsto?
- Farei aquilo que achares melhor - disse ela engolindo em seco.
- Óptimo! - Ele levantou-se e inclinou-se para a beijar.
- Mas ver-te-ei de manhã, não é?
- Sim, certamente que verás.
Depois de ele sair ela rolou sobre si própria e enterrou o rosto na almofada.
Não para chorar; a agonia era demasiado grande para lágrimas. Aquilo que ela
contemplava era a solidão.
Fonteio partiu primeiro. Um mercador sírio também tinha aportado para esperar
que a tempestade passasse e, dado que o comandante do seu barco teria que
enfrentar o oceano Líbio de qualquer maneira, disse ele, não lhe desagradaria
uma paragem extra em Alexandria por uma boa maquia. Os seus porões estavam
carregados com rodas de carroça reforçadas a ferro da Gália, potes de cobre da
Hispânia Citerior, alguns potes de condimento de garum e, para preencher os
espaços, telas de linho das terras dos Petrocórios. O que significava que a
embarcação ia bastante baixa, mas bem assente na água, e estava disposto a
ceder a sua cabina por baixo do convés a este senador finório com os seus sete
criados.
Fonteio acenou em despedida a António, ainda atordoado. Como tudo correra
terrivelmente mal! E como ele fora presunçoso, ao pensar que conseguiria ler a
mente de António, quanto mais manipulá-la! Porque se teria o homem fixado logo
na questão da sorte? Um fantasma, um produto da imaginação. Fonteio não
acreditava na existência da sorte como numa entidade em si própria, dissessem
as pessoas o que dissessem da sorte de César. No entanto António erguera-se
sobre os cumes da verdade que deveria ter visto para se fixar na sorte. Sorte!
E Cleópatra! Deuses, no que estaria ele a pensar para a escolher como
conselheira oriental? Ela picá-lo-ia e torcê-lo-ia, aumentando-lhe a confusão.
O sangue do rei Mitrídates, o Grande, corria-lhe nas veias, juntamente com o
sangue de um bando de Ptolomeus assassinos e amorais e ainda com o sangue de
uns quantos partos, para compor. Para Fonteio, ela era uma destilação de tudo o
que havia de pior no Oriente.
Fonteio queria uma guerra civil, se fosse isso o necessário para se verem
livres de Octaviano. E o único homem que conseguiria ter sucesso e vencer
Octaviano era Marco António. Não o António que Fonteio vira emergir nos últimos
anos; seria necessário o António de Filipos. Cleópatra? Oh, António, uma má
escolha! Fonteio tivera relações de amizade com a viúva de César, Calpúrnia,
antes de esta se ter suicidado e ela fizera-lhe uma descrição bastante completa
da Cleópatra, que ela e outras mulheres tinham conhecido em Roma.
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- Marco António enviou-te para nos avisares da sua vinda? - perguntou o filho
ansiosamente. - Oh, como tenho saudades dele!
- Não, Majestade, ele não vem para aqui.
O rosto bonito ficou desanimado e os olhos azuis vivos desviaram-se.
-Oh!
- Um desapontamento - comentou a mãe. - Porque vieste então?
- Por esta altura Marco António já se deve ter instalado em Antioquia - disse
Fonteio pensando que o camarão de água doce que estava a comer era sensaborão.
Com o Nosso Mar a lamber os degraus do palácio, porque não dava ela ordens às
suas frotas pesqueiras para que apanhassem camarões marinhos? Enquanto a sua
mente pensava naquele enigma, os lábios continuaram a falar. - Planeia
instalar-se lá, permanentemente, por duas razões.
- Uma das quais - disse o rapaz - é a proximidade das terras dos Partos. Ele
vai atacá-los a partir de Antioquia.
O monstrinho mal-educado!, pensou Fonteio. A meter-se na conversa dos adultos!
E mais, a mãe dele acha isso normal e maravilhoso. Muito bem, pequeno monstro,
vamos lá ver se és mesmo inteligente! - e a segunda razão? - perguntou
Fonteio.
- Antioquia fica mesmo no Oriente, o que não se pode dizer da província da Ásia
e muito menos da Grécia ou da Macedónia. Se António vai dominar o Oriente, terá
que estar instalado num local verdadeiramente oriental e Antioquia ou Damasco
são locais ideais - respondeu Cesarião sem se atrapalhar.
- Então porque não Damasco?
- Tem melhor clima mas fica demasiado longe do mar.
- Foi exactamente isso o que António disse - respondeu Fonteio que era
demasiado diplomático para deixar transparecer o seu desagrado.
- Porque estás então aqui, Gaio Fonteio? - perguntou a rainha.
- Para vos convidar, Majestade, para virdes a Antioquia. Marco António está
muito ansioso por ver-vos, mas há mais razões. Ele necessita do conselho de
alguém que seja oriental por nascimento e cultura e pensa que vós sois, de
longe, a melhor
candidata.
- Ele pensou noutras pessoas? - perguntou ela secamente e franzindo o sobrolho.
- Não, eu é que pensei - disse Fonteio calmamente. - Sugeri-lhe nomes, mas
para António só havia um possível: o vosso.
- Ah! - Ela recostou-se no divã e fez um sorriso tão felino como o gato
alaranjado que estava junto ao seu cotovelo. Uma das mãos magras começou a
afagar as costas da criatura e este virou-se para lhe sorrir.
- Gostais de gatos - disse ele.
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- Os gatos são sagrados, Gaio Fonteio. Em tempos, há talvez uns vinte e cinco
anos, um homem de negócios romano de Alexandria matou um gato. O povo desfê-lo
em pedacinhos.
- Brr! - disse ele estremecendo. - Estou habituado a gatos cinzentos tigrados
ou malhados, mas nunca tinha visto nenhum desta cor.
- É uma gata egípcia. Chamo-lhe Bastella. Chamar-lhe Bast seria sacrílego, mas
recebi bons presságios para o diminutivo latino. - Cleópatra desviou-se da gata
e estendeu a mão para uma tâmara. - Então, Marco António ordena-me que vá a
Antioquia?
- Não ordena, Majestade. Pede.
- Uma ova! - disse Cesarião rindo. - Ele ordena.
- Podes dizer-lhe que irei.
- E eu também! - disse o rapaz rapidamente.
Uma estranha troca silenciosa seguiu-se entre mãe e filho; não foi proferida
uma única palavra, apesar de ela estar ansiosa por falar. Uma batalha de
vontades. O facto de o rapaz ter vencido não foi surpresa para Fonteio;
Cleópatra não nascera uma autocrata, tinham sido as circunstâncias que a
fizeram assim. Já Cesarião era um autocrata desde o ventre materno. Tal como o
seu tatá. Fonteio sentiu um calafrio de medo que lhe percorreu a espinha e lhe
pôs os cabelos em pé. Imagine-se como seria Cesarião depois de crescido! O
sangue de Gaio Júlio César e o sangue de tiranos orientais. Seria imparável. E
é por Cleópatra saber disso que fará o trabalhinho sujo por António. Não
querendo saber nem dele nem do seu destino. Querendo que o seu filho Cesarião
reine sobre o mundo.
Fonteio foi aconselhado a viajar por terra acompanhado por uma guarda egípcia
que Cleópatra disse ser necessária; a Síria estava cheia de bandidos desde o
colapso dos vários principados durante a ocupação dos Partos.
- Seguir-te-ei assim que puder - disse ela a Fonteio -, mas não creio que isso
aconteça antes do Ano Novo. Se Cesarião insistir em me acompanhar terei que
arranjar um regente e um conselho, apesar de Cesarião não ir permanecer em
Antioquia mais do que alguns dias.
- Ele sabe disso? - perguntou Fonteio maliciosamente.
- Certamente - respondeu Cleópatra muito tensa.
- E então os filhos de António?
- Para os ver António terá que vir a Alexandria.
Um mês depois encontrou António instalado em Antioquia e a trabalhar
arduamente. Lucílio corria para cumprir ordem após ordem e António estava
sentado à secretária a rever pilhas de papel e uns quantos rolos de pergaminho.
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O seu único entretenimento era fazer paradas com as tropas que estavam de
regresso ao acampamento de Inverno, após uma campanha rápida na Arménia que
Públio Canídio conduzira com a mesma eficiência com que Ventídio conduzira as
campanhas anteriores; o próprio Canídio ficara no Norte com dez das legiões,
esperando a Primavera, o resto das legiões, a cavalaria e Marco António. O
único erro que, aos olhos de António, Canídio cometera fora avisá-lo, em todas
as cartas, que o rei Artavasdes da Arménia não era merecedor de confiança, não
obstante todos os seus protestos de lealdade a Roma e de inimizade com os
Partos. Uma profecia que António preferiu ignorar por ter mais receio do outro
Artavasdes, rei da Média. Também ele fazia ofertas de amizade.
- Vejo que a cidade se está a encher de potentados e de aspirantes a potentados
- disse Fonteio recostando-se na cadeira.
- Sim, consegui finalmente escolhê-los a todos, portanto convoquei-os para que
fiquem a saber a sua sorte - disse António com um sorriso. - Ela... ela virá? -
acrescentou, o divertimento desvanecendo-se devido à ansiedade.
-Assim que puder. Aquele fedelho insolente, Cesarião, insistiu em vir com ela,
por isso tem que arranjar um regente.
- Fedelho insolente? - perguntou António de cenho franzido.
- É o que eu acho dele. Insuportável até.
- Oh, bem, ele participa na monarquia como igual da mãe... ambos são Faraó.
- Faraó? - perguntou Fonteio.
- Sim, senhor supremo do Nilo, o verdadeiro reino do Egipto. Alexandria é
considerada como não egípcia.
- Nisso pelo menos estou de acordo. Na verdade é muito grega.
- Oh, não no interior dos Domínios Reais. - António tentou parecer
desinteressado. - Quando é que ela vem exactamente?
- No início do novo ano.
Desapontado, António fez um gesto vago de despedida com a mão.
- Amanhã vou distribuir a generosidade de Roma por todos os potentados e
aspirantes a potentados - disse ele. -Na agora. Os costumes e a tradição dizem
que deveria envergar a toga, mas eu odeio togas. Vou usar a couraça dourada.
Tens contigo uma armadura de cerimónia?
Fonteio pestanejou.
- Não António, nem mesmo uma couraça de trabalho.
- Então Sósio pode emprestar-te uma.
- A couraça é... hum... legal?
- Fora da Itália tudo o que um triúnviro decidir é legal. Pensei que sabias
isso, Fonteio.
- Confesso que não sabia.
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<Página em branco>
IV
A Rainha das Bestas
36 a.C. a 33 a.C.
<Gravura - omitida>
Nas nonas de Janeiro e fustigados por um vento agreste e pouco usual, Cleópatra
e Cesarião entraram em Antioquia. Ostentando a Coroa Dupla e viajando na sua
liteira, a rainha, sentada, parecia a boneca descrita por Fonteio, o rosto
pintado, o corpo envolto em linho alvo finamente branqueado, pescoço, braços,
ombros, cintura e pés brilhantes e cobertos de ouro e de jóias. Com a versão
marcial da Coroa Dupla, Cesarião montava um vigoroso cavalo vermelho, pois era
essa a cor de Montu, o deus da Guerra; tinha o rosto pintado de vermelho e o
corpo envolto na armadura egípcia dos faraós, feita de linho e de placas de
ouro. Por entre as túnicas purpúreas e prateadas dos mil Guardas Reais, o
brilho dos cavalos peados, que transportavam dignitários e burocratas e a
liteira real com Cesarião cavalgando ao lado, Antioquia não vira um desfile
assim desde que Tigranes fora rei da Síria.
António andara muito ocupado. Reconhecendo serem verdadeiras as comparações que
Fonteio fizera entre o palácio do governador e uma hospedaria para caravanas,
demolira vários quarteirões de edifícios nas vizinhanças e construirá um anexo
que achava adequado ao alojamento da rainha do Egipto.
- Não é um palácio alexandrino - disse ele acompanhando Cleópatra e o filho
numa visita às instalações -, mas é muitíssimo mais confortável do que a antiga
residência.
Cesarião estava esfuziante de alegria, lamentando apenas ter crescido demasiado
para poder continuar a ser transportado ao colo na anca de António.
Controlando-se para não desatar aos saltos, caminhava solenemente e tentava pôr
um ar majestático. O que não era difícil debaixo daquela tinta toda que tanto
detestava.
- Espero que haja um banho - disse.
- Pronto e a postos, jovem César - disse António com um sorriso.
Os três não voltaram a ver-se até meio da tarde quando António mandou servir o
jantar num triclinium tão novo que ainda cheirava a tinta e aos vários
pigmentos usados para ornamentar as paredes sombrias com frescos de Alexandre,
o Grande, e dos seus marechais mais próximos, todos montados em cavalos em
poses animadas.
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Como estava demasiado frio para abrir as persianas, queimavam incenso para
disfarçar o mau cheiro. Cleópatra era demasiado bem-educada e altiva para fazer
comentários, mas Cesarião não tinha esse tipo de constrangimento.
- Este sítio fede - disse ele subindo para um divã.
- Se for insuportável podemos refugiar-nos no velho palácio.
- Não, dentro de alguns minutos deixarei de dar por isso e os vapores já não
são venenosos. - Cesarião riu-se. - Catulo César suicidou-se fechando-se numa
sala recentemente estucada com uma dúzia de braseiros e todas as aberturas
tapadas para impedir a entrada de ar exterior. Era primo direito do meu bisavô.
- Tens andado a estudar a História de Roma.
- Evidentemente.
- E então a História do Egipto?
- Até aos registos orais, antes da invenção dos hieróglifos.
- É o Ch'am que o ensina - disse Cleópatra falando pela primeira vez. -
Cesarião será o rei mais bem-educado de sempre.
Aquela troca de palavras fixou o tom do jantar; Cesarião falou incessantemente
e a mãe fazia um comentário ocasional para confirmar uma afirmação sua,
enquanto António se mantinha deitado no divã fingindo escutar quando não estava
a responder a uma das perguntas de Cesarião.
Apesar de gostar do rapaz reconhecia a pertinência do comentário de Fonteio;
Cleópatra não dera a Cesarião nenhuma noção dos seus limites e ele sentia-se
suficientemente confiante para participar em todas as conversas como se fosse
um adulto. Isso poderia ser admissível se ele não tivesse o hábito de
interromper os outros. O seu pai teria posto fim àquele género de conduta -
como António se lembrava bem de como fora quando, ele próprio, tivera a idade
de Cesarião! Já Cleópatra era uma mãe babada dominada por um filho imperioso e
extremamente teimoso. O que não era bom.
Finalmente, depois de os doces terem sido servidos e levantados, António agiu.
- Vai-te embora, jovem Cesarião - disse bruscamente. - Quero falar com a tua
mãe em privado.
O rapaz agitou-se e abriu a boca para protestar; depois viu o brilho vermelho
nos olhos de António. A sua resistência esvaziou-se como uma bexiga furada. Um
encolher de ombros resignado e desapareceu.
- Como é que conseguiste? - perguntou ela aliviada.
- Falei e agi como um pai. Tu dás muita liberdade ao rapaz, Cleópatra, e ele
mais tarde não te agradecerá.
Ela não respondeu, demasiado ocupada em tentar compreender aquele Marco
António. Não parecia envelhecer da mesma maneira que os outros homens nem
revelava quaisquer sinais exteriores de dissipação. Tinha o ventre plano, os
músculos dos braços acima do cotovelo não tinham a flacidez da meia-idade e o
cabelo continuava tão ruivo como sempre, sem quaisquer cabelos grisalhos.
283
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Ah, ela esquecera o seu odor, como a excitava! Limpo, bronzeado, sem o menor
vestígio oriental. Bem, ele comia os alimentos do seu próprio povo, não
sucumbira aos cardamomos e canelas que eram preferidos no Oriente. E era por
isso que a pele dele não transpirava os seus óleos residuais.
Com um olhar apercebeu-se de que os criados tinham saído e que não seria
permitida a entrada de ninguém, nem mesmo de Cesarião. Pousou a mão sobre a
dele e levou-a ao peito, que ficara mais cheio desde o nascimento dos gémeos.
- Também senti a tua falta - mentiu ela, sentindo a excitação a percorrê-la.
Sim, ele agradara-lhe como amante e Cesarião beneficiaria com um segundo irmão.
Amon-Rá, Isis, Hathor, dêem-me um filho! Só tenho trinta e três anos, o que não
é idade suficiente para tornar os partos arriscados para uma Ptolomeu.
- Também senti a tua falta - murmurou. - Oh, é maravilhoso!
Vulnerável, consumido por dúvidas, inseguro quanto àquilo que o futuro lhe
reservava em Roma, António estava maduro para que Cleópatra o colhesse e caiu,
de livre vontade, na palma da sua mão. Chegara a uma idade em que tinha uma
necessidade desesperada de ter das mulheres mais do que sexo; ansiava por uma
verdadeira companheira e não a encontrava entre as suas amigas, nem nas suas
amantes nem, sobretudo, na sua mulher romana. Esta rainha entre as mulheres -
na realidade, este rei entre os homens - era sua igual em tudo: em poder, força
e na ambição que a permeava até à medula.
E ela, consciente de tudo isto, levava o tempo que queria a satisfazer as suas
necessidades, que não eram nem carnais nem espirituais. Gaio Fonteio,
Publícola, Sósio, Tício e o jovem Marco Emílio Escauro, estavam todos em
Antioquia, mas aquele novo Marco António quase nem dava por eles, assim como
não prestou atenção a Gneu Domício Aenobarbo quando este apareceu, pois o lugar
de governador da Abissínia estava demasiado distante de tudo para um homem tão
enérgico. Cleópatra sempre lhe desagradara e o que viu em Antioquia só serviu
para reforçar esse desagrado. António era seu escravo.
- Não parece um filho com a sua mãe - disse Aenobarbo a Fonteio em quem
pressentia ter um aliado - , mas sim um cão com o seu dono.
- Aquilo há-de passar-lhe - disse Fonteio certo de que assim seria. - Ele está
mais perto dos cinquenta do que dos quarenta, já foi cônsul, imperador,
triúnviro, já foi tudo excepto Primeiro Homem em Roma incontestado. E desde os
tempos loucos da sua juventude com Curião e com Clódio, foi sempre um
mulherengo famoso sem nunca se ter entregue a qualquer mulher. E já era mais do
que tempo de isso acontecer, daí o que se está a passar com Cleópatra. Admite-
o, Aenobarbo! Ela é a mulher mais poderosa do mundo e fabulosamente rica. Ele
tem que a ter e tem que a manter contra todos os rivais.
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- Cacat! - ripostou o seu interlocutor com intolerância. - É ela que manda nele
e não ele nela! Ele está mole como papas!
- Assim que tiver saído de Antioquia e estiver no campo de batalha, o velho
Marco António regressará - confortou-o Fonteio certo de ter razão.
Para grande surpresa de Cleópatra, quando António disse a Cesarião que chegara
o momento de regressar a Alexandria para ali reinar como Rei e Faraó, o rapaz
partiu sem um murmúrio de protesto. Não passara tanto tempo com António como
esperara, mas tinham conseguido sair de Antioquia várias vezes e passado dias
inteiros a caçar os lobos e leões que passavam o Inverno na Síria antes de
regressarem às estepes da Cítia. E também não se deixava enganar.
- Eu não sou idiota, sabes - disse ele a António depois de abater a primeira
presa, um leão macho.
- Que queres dizer? - perguntou António sobressaltado.
- Esta é uma região colonizada, demasiado populosa para ter leões. Trouxeste-o
do mato para termos alguma coisa para caçar.
- És um monstro, Cesarião,
- Uma górgona ou um ciclope?
- Uma espécie inteiramente nova.
As últimas palavras que António lhe dirigiu antes de partir de regresso ao
Egipto foram mais sérias.
- Quando a tua mãe regressar- disse ele -, certifica-te de que tratas melhor
dela. Presentemente passas por cima das suas opiniões e dos seus desejos.
Herdaste isso do teu pai. Mas falta-te a percepção da realidade, algo que ele
entendia ser uma coisa exterior a si próprio. Cultiva essa qualidade, jovem
César, e, quando cresceres, nada te deterá.
E eu, pensou António, serei demasiado velho para me importar com aquilo que tu
faças da tua vida. Apesar de pensar que fui mais um pai para ti do que para os
meus próprios filhos. Mas isso é porque a tua mãe é extraordinariamente
importante para mim e tu és o centro do mundo dela.
Ela esperou cinco nundinae para atacar. Por essa altura já a maioria dos recém-
nomeados reis e potentados tinham visitado Antioquia para apresentar
cumprimentos a António. Não a ela. Quem era ela senão mais uma monarca-cliente?
Amintas, Polémon, Pitodoro, Tarcondimoto, Arquelau Sisenes e, evidentemente,
Herodes. Muito cheio de si!
Começou por Herodes.
- Ele ainda não me pagou o dinheiro que me deve nem a minha parte dos lucros
do bálsamo - disse a António.
- Não sabia que ele te devia dinheiro nem lucros do bálsamo.
286
- Mas deve! Emprestei-lhe cem talentos para ir apresentar o seu caso a Roma. O
bálsamo fazia parte do pagamento.
- Amanhã vou lembrar-lhe através de uma carta enviada por mensageiro.
- Não lhe vais lembrar nada! Ele não se esqueceu, simplesmente não tenciona
honrar as suas dívidas. Embora exista uma forma de o obrigar a pagar.
- Ai sim? Como ? - perguntou António desconfiado.
- Concede-me os jardins de bálsamo de Jericó e a recolha de betume do Palus
Asfaltite. Livres e desimpedidos, todos meus.
- Júpiter! Isso equivale a metade dos rendimentos de todo o reino de Herodes!
Deixa-o em paz com o seu bálsamo, meu amor.
- Não, não deixo! Eu não preciso do dinheiro e ele precisa, é verdade, mas ele
não merece ser deixado em paz. É uma lesma gorda!
Após um momento de reflexão, António sentiu-se divertido; os seus olhos
começaram a brilhar.
- Há mais alguma coisa que queiras exigir, meu pardal?
- Soberania total sobre Chipre que sempre pertenceu ao Egipto até Catão o ter
anexado a Roma. Sobre a Cirenaica, outra possessão egípcia roubada por Roma. A
Cilícia Traqueia. A costa da Síria até ao rio Eleutero... foi mais o tempo que
pertenceu ao Egipto do que aquele que não pertenceu. Cálcis. Na verdade, um Sul
da Síria inteiramente egípcio encantar-me-ia, portanto o melhor é concederes-me
toda a Judeia. Creta também calhava bem. E Rodes.
Ele ficou de boca aberta e os olhos pequenos esbugalhados, sem saber se havia
de rir à gargalhada ou rugir de ultraje. Finalmente disse:
- Estás a brincar.
- A brincar? A brincar? Mas quem são os teus novos aliados, António? Os teus
aliados, não os de Roma! Deste a Anatólia e uma boa parte da Síria a um bando
de rufias, traidores e bandidos! Na realidade, Tarcondimoto é um bandido! A
quem entregaste as Portas Sírias e todo o Amano! Ofereceste ao filho da tua
amante a Capadócia e deste a Galácia a um vulgar escriturário! Casaste a tua
filha, que tem dupla linhagem juliana, com um usurário greco-asiático
gorduroso! Puseste um liberto a governar Chipre! Oh, a quantidade de glória que
distribuíste generosamente pelos teus belíssimos aliados! - Ela estava a
aumentar o tom da sua irritação com precisão e mestria, os olhos com um brilho
felino e feroz, os lábios arreganhados e a face esculpida numa máscara de puro
veneno. - E onde está o Egipto em todas essas brilhantes disposições? -
sibilou. - Ultrapassado! Nem sequer mencionado! Como o Tarcondimoto, para falar
só num, se deve estar a rir! Quanto ao Herodes... esse é um sapo peganhento,
esse filho rapace de duas nulidades ambiciosas!
Onde estava a sua fúria? Onde estava o seu instrumento de maior confiança,
usado para esmagar as pretensões de adversários muito mais poderosos do que
Cleópatra? Nem um lampejo do velho e conhecido fogo lhe aquecia as veias que
permaneciam geladas sob aquele olhar de Medusa.
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- Não estou a defender a sedição, António - disse em tom calmo e doce. - Longe
disso. Só estou a dizer-te que, em concerto comigo, podes fazer do Oriente um
local mais forte e melhor. Como é que isso pode ser malvisto por Roma? Como
pode isso diminuir Roma? Pelo contrário. Por exemplo, impede o surgimento de um
outro Mitrídates ou Tigranes.
- Eu tornar-me-ia teu consorte num piscar de olhos, Cleópatra, se conseguisse
acreditar verdadeiramente que uma parte disso era por mim ou por causa de mim.
Terão todas as partículas dessa decisão que ser devidas a Cesarião? - perguntou
ele com os lábios a acariciarem-lhe o ombro. - Ultimamente apercebi-me de que,
antes de morrer, quero erguer-me só e colossal sob a luz forte do sol... sem
sombras de qualquer tipo! Não quero uma sombra romana nem a sombra de Cesarião.
Quero terminar a minha vida como Marco António, nem romano nem egípcio. Quero
ser verdadeiramente singular. Quero ser António, o Grande. E tu não é isso que
me ofereces.
- Mas eu estou mesmo a oferecer-te a grandeza! Não podes ser egípcio, isso é
impossível. E se és romano, só tu podes decidir deixar de o ser. E apenas uma
pele, não é difícil de largar, as cobras largam as suas. - Roçou-lhe o rosto
com a boca. - António, eu compreendo! Tu anseias por ser maior do que Júlio
César, o que significa conquistar novos mundos. Mas ao olhar para os Partos
estás a olhar para o sítio errado. Vira-te para ocidente e não mais para leste!
César nunca conquistou verdadeiramente Roma. Ele sucumbiu a Roma. António só
poderá conquistar o cognome de Grande se conquistar Roma.
Aquele foi meramente o primeiro assalto daquela que viria a ser uma batalha
permanente que durou até Março, a Primavera de Antioquia. Uma luta titânica
travada na escuridão do emaranhado das suas emoções e no silêncio das suas
dúvidas e desconfianças mudas. O secretismo era muitíssimo importante e
completo; se Aenobarbo, Publícola, Fonteio, Fúrnio, Sósio ou qualquer outro
romano em Antioquia, adivinhasse que António estava a vender para sempre e sem
direito a tributo aquilo que pertencia a Roma e que era meramente cedido a
reis-clientes em troca de tributos, teria havido uma convulsão tão grande que
António poder-se-ia ver acorrentado e enviado de regresso a Roma. As terras
cedidas a Cleópatra tinham que parecer ter sido cedidas de uma forma inocente,
até a base de poder de António ser muito mais forte. Portanto, aquilo que, num
aspecto, era do conhecimento público, noutro aspecto era conhecido apenas de
António e Cleópatra. Para os seus compatriotas romanos tinham que parecer
concessões normais para conseguir o ouro necessário ao financiamento de um
exército. Assim que ele se tornasse senhor absoluto do Oriente, já não
interessaria o que era ou não do conhecimento público. Ela tentara persuadir
César a declarar-se rei de Roma e falhara. António era feito de um material
mais maleável, especialmente no seu presente estado de espírito.
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E o Oriente estava sedento de um rei forte. Quem melhor para o lugar que um
romano, com formação legal e experiência governamental, e nada dado a caprichos
ou a carnificinas? António, o Grande, consolidaria o Oriente, transformando-o
numa entidade suficientemente formidável para poder disputar a Roma a
supremacia mundial. Aquele era o sonho de Cleópatra, sabendo muito bem que
ainda faltava muito caminho e que o caminho ainda seria mais longo até ela
poder esmagar António, o Grande, em favor de Cesarião, o Rei dos Reis.
António conseguiu enganar os colegas. Aenobarbo e Publícola serviram de
testemunhas na emissão dos documentos de Cleópatra sem ler o que diziam e
fizeram pouco da sua credulidade. Tanto ouro!
Mas o pior conflito de António este não o confidenciava a ninguém. A rainha era
totalmente contrária à sua campanha contra os Partos e regateava-lhe o ouro
para a financiar. Ficava horrorizada com a perspectiva de ver o exército
horrivelmente reduzido pelos ataques partos, horrorizada com a ideia de o
exército ficar demasiado fraco para fazer aquilo que ela queria que fizesse.
Fazer a guerra a Roma e a Octaviano. Planos esses que só revelara parcialmente
a António mas que estavam permanentemente presentes no seu espírito. Cesarião
deveria reinar sobre o mundo de César bem como sobre o Egipto e o Oriente e
nada, incluindo Marco António, iria impedir que tal acontecesse.
Para horror de António, este apercebeu-se de que ela tencionava ir com ele em
campanha e esperava ter um papel relevante nos conselhos de guerra. Canídio
aguardava em Carana após uma surtida bem sucedida a norte, no Cáucaso, e ela
estava ansiosa por se encontrar com ele, segundo dizia insistentemente. Por
mais que tentasse, António não conseguiu convencê-la de que não seria bem-vinda
e de que os seus legados não a tolerariam.
Por isso, e no espaço de um nundinum, ele livrou-se dos homens que era mais
provável se rebelassem contra a presença dela. Enviou Publícola a Roma para
animar os seus setecentos senadores e Fúrnio para governar a província da Ásia.
Aenobarbo regressou para o governo da Bitínia e Sósio iria continuar na Síria.
Depois o mais natural e inevitável dos acontecimentos salvou-o: uma gravidez.
Tonto de alívio, pôde dizer aos seus legados que a rainha só viajaria com as
legiões até Zeugma no Eufrates e depois regressaria a casa, no Egipto.
Divertidos e admirados, os seus legados concluíram que o amor da rainha por
António era tão grande que ela mal conseguia estar afastada dele.
Foi portanto uma Cleópatra muito satisfeita que beijou Marco António e se
despediu dele em Zeugma e começou a longa viagem de regresso ao Egipto; apesar
de poder ir de barco, tinha boas razões para não o fazer. Uma razão chamada
Herodes, rei dos Judeus. Quando soubera da perda do bálsamo e do betume, ele
viera a galope de Jerusalém até Antioquia.
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Mas António não é o homem adequado para to conseguir. Ele está a perder o
controlo sobre a parte do mundo que tem em seu poder, não reparaste?
- Pff! - cuspiu ela. - Se estás a referir-te a esta campanha contra o rei dos
Partos, trata-se simplesmente de uma coisa que ele tem que eliminar do sistema
antes de virar as suas energias para objectivos mais exequíveis.
- Objectivos que tu inventas para ele!
- Disparate! Ele é muito capaz de os ver sozinho.
Herodes recostou-se para trás no divã e entrelaçou os dedos gorduchos e cheios
de anéis sobre a barriga.
- Há quanto tempo é que andas a maquinar aquilo que acho que estás a maquinar?
Os olhos dourados abriram-se muito e olharam-no especulativamente.
- Herodes, eu, a maquinar? Tens uma imaginação febril. Não tarda estás para aí
a delirar. O que poderia eu maquinar?
- Com António com um anel no nariz e a arrastar atrás de si um grande número de
legiões, minha cara Cleópatra, a minha aposta é que o teu objectivo é
substituir Roma pelo Egipto. E que melhor altura para atacar senão quando
Octaviano está enfraquecido e as províncias ocidentais necessitam dos melhores
homens de que dispõe? Não há limite para a tua ambição, para a tua sede. O que
me surpreende é que ninguém parece ter-se apercebido dos teus planos a não ser
eu. Pobre António, quando descobrir!
- Se fores sensato, Herodes, manterás as tuas especulações no interior da tua
cabeça e não as deixarás cair da ponta da língua. São uma loucura sem qualquer
fundamento.
- Dá-me o bálsamo e o betume e ficarei calado. Ela saiu do divã e enfiou os
chinelos.
- Eu não te daria nem o cheiro de um trapo sujo, sua abominação! - E saiu,
arrastando a cauda do vestido atrás de si com o som de murmúrios sedosos e
suaves, semelhantes ao de vozes recitando feitiços.
No dia seguinte ao da partida de Cleópatra de Zeugma para o Egipto,
apareceu Aenobarbo animado e descontraído.
- Devias ir a caminho da Bitínia - disse António com uma expressão de desagrado
mas sentindo-se felicíssimo.
- Esse era o teu esquema para te veres livre de mim enquanto pensaste que a
harpia egípcia iria em campanha contigo. Nenhum homem romano aguentaria uma
coisa dessas, António, e estou surpreendido por teres pensado que conseguias...
a não ser que tenhas desistido de ser um homem romano.
<Gravura - omitida>
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- Não, não desisti! - disse António irritado. - Aenobarbo, tens que compreender
que foi unicamente a disponibilidade de Cleópatra para me emprestar enormes
quantidades de ouro que permitiu montar esta expedição! Ela parecia pensar que
o empréstimo lhe dava o direito de participar no empreendimento mas, quando
chegámos aqui, já estava desejosa de regressar a casa.
- E eu fiquei muito satisfeito por interromper a minha viagem para a Nicomédia.
Então, meu amigo, esclarece-me quanto aos acontecimentos mais recentes.
António está com muito bom aspecto, pensou Aenobarbo, o melhor aspecto que lhe
vi desde Filipos. Tem uma tarefa à sua altura e, além disso, é uma realização
de um sonho. Por muito que eu deteste a harpia egípcia, estou-lhe grato pelo
empréstimo do ouro. Ele poderá pagar-lho só com o saque de uma das campanhas.
-Arranjei uma fonte de informação relativamente aos Partos - disse António. -
Um sobrinho do novo rei parto, chamado Monaeses. Quando Fraates assassinou a
sua família inteira, Monaeses conseguiu fugir para a Síria porque na altura não
estava na corte. Estava em Nicefório, a resolver uma disputa comercial com os
Skenitas. É claro que não se atreveu a regressar a casa... tem a cabeça a
prémio. Parece que o rei Fraates desposou uma filha casadoira de um membro
menor da Casa Arsácida e tenciona criar um novo lote de herdeiros. A família da
noiva foi toda passada pelo fio da espada, ou do machado ou do que quer que
seja que os Partos usam. Esta nova ninhada de filhos levará anos a crescer,
logo passar-se-ão anos até serem um perigo para Fraates. Enquanto que Monaeses
é um homem feito e tem seguidores. São implacáveis, estes monarcas orientais.
- Espero que te recordes desse facto quando lidas com Cleópatra - disse
Aenobarbo secamente.
- Cleópatra - disse António com uma ligeira altivez - é diferente.
- E tu, António, estás apaixonado - disse-lhe o amigo directa e brutalmente.
-Espero bem que a tua avaliação deste Monaeses seja mais sólida.
- Tão sólida como um bronze de Briáxis.
Mas quando Aenobarbo conheceu o príncipe Monaeses, sentiu o estômago gelado.
Confiar naquele homem? Nunca! Ele não o conseguia olhar olhos nos olhos, por
muito bom que fosse o seu grego e por muito bem que imitasse as maneiras
gregas.
- Não lhe confies nem a pontinha do dedo! - gritou Aenobarbo. - Se o fizeres,
ele fica-te com o braço e com o ombro! Não vês que ele foi quem o rei Fraates
manteve de reserva, treinado nas maneiras do Ocidente, para o caso de ser
necessário colocar um espião no nosso seio? Monaeses não escapou ao massacre,
foi poupado para cumprir o seu dever de parto - atrair-nos para a ruína e a
derrota!
A resposta de António foi uma gargalhada; nada que Aenobarbo ou qualquer um dos
outros cépticos lhe dissesse o fazia vacilar na convicção de que Monaeses era
tão sólido como o ouro de Cleópatra.
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A maior parte do exército aguardava em Carana com Públio Canídio, mas António
trouxe mais seis legiões com ele bem como dez mil cavaleiros gauleses e um
total de trinta mil recrutas estrangeiros compostos por judeus, sírios,
cilícios e asiáticos gregos. Deixara uma legião em Jerusalém para garantir a
manutenção de Herodes no trono - António era um amigo leal ainda que por vezes
fosse demasiado crédulo - e sete legiões para guarnecer a Macedónia que estava
permanentemente agitada.
O Eufrates escavara um amplo vale entre Zeugma e as terras mais altas em
Carana; havia pastagens em abundância para os cavalos, mulas e bois. Chegaram a
Samósata e ultrapassaram-na; o vale começou a estreitar um pouco e a estrada a
ficar mais dura à medida que a força enorme continuava na direcção de Melitene.
Não muito a norte de Samósata, o exército ultrapassou o comboio das bagagens, o
que foi um desapontamento, pois António enviara-o de Zeugma vinte dias antes da
partida do exército e pensara que ambos alcançariam Carana ao mesmo tempo. Mas
confiara que os bois conseguiriam fazer vinte e cinco ou mais quilómetros por
dia, no entanto nem todas as pragas e chicotes do mundo tinham conseguido que
fizessem mais do que dezasseis, como percebeu naquela altura.
O comboio das bagagens era motivo de grande alegria e orgulho para António,
pois era o maior que um exército romano alguma vez tivera. Eram literalmente
centenas de catapultas, balistas e peças mais pequenas de artilharia atreladas
ao número necessário de bois para o transporte de cada peça, mais uma
quantidade de aríetes capazes de derrubar as portas normais de uma cidade e um
monstro com oitenta metros de comprimento capaz de derrubar, como António disse
a Monaeses em tom jocoso, "até mesmo os portões da antiga Ílio!" E isso era
apenas a maquinaria de guerra. Em carroça após carroça eram transportados os
mantimentos: trigo, barricas de carne de porco salgada, peças de toucinho
longamente fumado, azeite, lentilhas, grão, sal, peças sobressalentes,
ferramentas e equipamento para os artesãos da legião, carvão, porcas de ferro
fundido para fazer aço, enormes barrotes e pranchas de madeira, serras para
derrubar árvores ou rocha macia como a pedra calcária, cordas e cabos, lonas,
tendas sobressalentes, postes, arreios, tudo o que um praefectus fabrum
eficiente pensava que um exército daquele tamanho era capaz de precisar para
completar aquilo que transportava e também para montar um cerco. Em fila única,
o comboio estendia-se por oitenta quilómetros, mas viajava com uma frente larga
com cinco quilómetros de fundo; duas legiões incompletas de quatro mil homens
cada estavam permanentemente destacadas para guardar um instrumento de guerra
tão imenso e precioso. Ópio Estatiano era o comandante e queixava-se disso a
todos quantos lhe dessem ouvidos.
Os seus ouvintes incluíram António quando o exército passou por ele.
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- Está tudo muito bem enquanto conseguirmos marchar assim - disse Estatiano sem
tacto nenhum -, mas aquelas montanhas ali à frente significam, na minha
opinião, vales estreitos e se tivermos que esticar a linha dos carros, as
linhas de comunicação e as nossas defesas não se aguentarão.
Não era uma opinião que António quisesse ouvir ou estivesse preparado para
escutar.
- Pareces uma velha, Estatiano - disse ele tocando, o cavalo com os
calcanhares. - Arranca-lhes é mais quilómetros!
As forças móveis chegaram a Carana quinze dias depois de terem saído de Zeugma,
uma distância de quinhentos e sessenta quilómetros, mas o comboio com as
bagagens só chegou doze dias depois, apesar de ter saído muito antes. O que
deixou António muito mal disposto; quando estava assim não ouvia ninguém, nem
amigos como Aenobarbo nem marechais como Canídio, que tinha acabado de chegar
de uma expedição ao Cáucaso e estava muitíssimo bem informado acerca das
montanhas.
- A Itália está cercada pelos Alpes - disse Canídio -, mas esses parecem uma
brincadeira de crianças quando comparados com estes picos. Olha em torno do
vale onde fica Carana e verás centenas de montanhas com cerca de quatro mil e
quinhentos metros de altitude. Vai para norte ou para leste, e são ainda mais
altas e com precipícios maiores. Os vales são estreitos, com praticamente a
largura dos ribeiros cheios de rápidos que os atravessam. Já estamos a meio de
Abril, o que significa que tens até Outubro para a tua campanha. Seis meses e o
Inverno estará aí. Carana é a maior plataforma de terras relativamente planas
entre este local e as grandes planícies por onde o Araxes corre para o mar
Cáspio. Eu só tinha dez legiões e dez mil cavaleiros, mas achei que até mesmo
com uma força dessas dimensões era impossível de manobrar neste terreno. Ainda
assim imagino que saibas o que estás a fazer, portanto não tenciono discutir.
Tal como Ventídio, Canídio era um Homem Militar de origens ignóbeis; fora
apenas a sua grande competência no comando de tropas que lhe permitira subir.
Ligara-se a Marco António após a morte de César e gostava mais de António do
que das suas capacidades militares. Contudo, após o triunfo de Ventídio na
Síria, Canídio sabia que não lhe dariam o comando de uma empresa como aquela
que António tencionava levar a cabo no reino dos Partos através, digamos, da
porta das traseiras. Uma iniciativa tortuosa que requereria o génio de um
César, e António não era nenhum César. Para já ele gostava de coisas enormes,
enquanto que César detestava exércitos muito grandes. Para ele, dez legiões e
dez mil cavaleiros eram o número máximo que um comandante conseguia manobrar
com sucesso; num exército mais numeroso as ordens baralhavam-se, as linhas de
comunicação ficavam em perigo devido à distância e ao tempo. Canídio concordava
com César.
- O rei Artavasdes veio? - perguntou António.
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Não temos madeira para construir torres de cerco, nem catapultas, nem balistas
nem nada. Até agora já perdemos vinte e cinco mil soldados estrangeiros
enviados em busca de provisões e hoje recebi a primeira recusa de sair daqui da
parte de cilícios, judeus, sírios e capadócios. É evidente que são menos vinte
e cinco mil bocas para alimentar, mas não estamos a conseguir trazer comida
suficiente dos campos para manter corpos e moral em boas condições durante
muito mais tempo. Algures para lá do alcance dos nossos batedores, pelo menos
daqueles que conseguem regressar, está um exército parto a fazer o mesmo que
Fábio Máximo fez a Aníbal.
António sentia-se, por aqueles dias, como se tivesse a barriga cheia de chumbo,
um sintoma que não podia ignorar pois sabia o que significava: o reconhecimento
da derrota. As muralhas escuras de Fraaspa riam-se dele e sentia-se perdido,
tão impotente na realidade como se sentira, premonitoriamente, durante muitos
meses. Anos mesmo. E tudo levara àquilo: ao falhanço. Seria por isso que a
melancolia se apossara dele? Porque perdera a sua sorte? E onde estava o
inimigo? Porque não o atacavam os Partos se lhe tinham roubado os seus
abastecimentos? E um receio ainda pior e mais horrendo invadiu-o: não lhe ia
ser dada sequer a oportunidade de travar batalha, de morrer gloriosamente no
campo de batalha, tal como Crasso morrera, redimindo nas suas últimas horas
todos os erros tremendos de uma campanha mal planeada. Era essa a única razão
de o nome de Crasso ser pronunciado respeitosamente e com pena por a sua cabeça
cega ter sido exposta nas muralhas de Artaxata. Mas o nome de António? Quem o
recordaria se não houvesse uma batalha?
- Eles não tencionam atacar-nos enquanto aqui estivermos, pois não? - perguntou
a Canídio.
- É essa a minha interpretação, Marco - disse Canídio não deixando transparecer
na voz a compaixão que sentia; ele sabia o que António estava a pensar.
- E eu também tenho a mesma interpretação - disse Aenobarbo de cenho franzido.
- Não nos vão dar batalha, querem que morramos lentamente e de causas mais
mundanas que os golpes das espadas. Também tivemos um traidor no nosso seio
para lhes contar tudo: Monaeses.
- Oh, não quero que isto acabe assim! - gritou António ignorando a referência a
Monaeses. - Preciso de mais tempo! Fraaspa não pode estar a viver com rações
completas, nenhuma cidade tem tanta comida no interior das suas muralhas, nem
mesmo Ílio! Se persistirmos um pouco mais, acho que Fraaspa se renderá.
- Podíamos invadi-la - disse Marco Tício.
Ninguém se deu ao trabalho de lhe responder; Tício era um questor, jovem e tolo
e disposto a tudo.
António ficou sentado na sua cadeira curul a olhar para longe com o rosto quase
absorto. Finalmente acordou do seu devaneio e olhou para Canídio.
- Quanto tempo mais nos conseguiremos aguentar aqui, Públio?
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- Até mesmo do motim - disse António a Fonteio quando tinha metade das tropas
de um lado das montanhas e a outra metade ainda a atravessá-las ou à espera de
as atravessar. - Nem me atrevo a mostrar a cara.
- Isso é verdade para todos nós - respondeu Fonteio desanimadamente. - Há sete
dias que comem trigo cru, têm os dedos pretos e a cair, assim como os narizes.
Terrível! E culpam-te a ti, Marco... a ti e só a ti. Os descontentes dizem que
nunca deverias ter perdido de vista o comboio das bagagens. .
- Eu não sou verdadeiramente a razão - disse António fatigadamente -, é este
pesadelo de campanha infrutífera, que não os deixou provar o que valem no campo
de batalha. Na opinião deles a única coisa que fizeram foi ficar sentados num
acampamento durante cem dias a olhar para uma cidade que lhes mostrava o
medicus. Vão levar no cu, romanos! Acham que são bons? Bem, não são.
Compreendo... - Calou-se quando Tício entrou apressado e parecendo assustado.
- Marco António, correm rumores de motim!
- Diz-me alguma coisa que eu não saiba, Tício.
- Não, mas isto é sério! Será esta noite ou amanhã ou então esta noite e
amanhã. Estão envolvidas pelo menos seis legiões.
- Obrigado, Tício, agora vai tratar da contabilidade, somar quanto devemos aos
soldados ou coisa do género... qualquer coisa!
E lá se foi Tício, incapaz, por uma vez, de encontrar uma solução.
- Será esta noite - disse António.
- Sim, concordo - disse Fonteio.
- Ajudas-me a cair sobre a espada, Gaio? Uma das coisas mais irritantes de ter
o peito e os braços tão musculados é que me cortam o alcance. Não consigo
agarrar com firmeza suficiente o punho da espada para desferir um golpe com a
força e profundidade necessárias.
Fonteio não discutiu.
- Sim - disse.
Ficaram os dois abrigados numa pequena tenda de cabedal à espera que o motim
rebentasse. Para António, já devastado, aquele era o fim adequado para a pior
campanha que algum general romano fizera, desde que Carbão fora feito em
pedaços pelos Germanos Cimbros ou que o exército de Cipião morrera em Aráusio,
ou - a mais horrenda de todas - a campanha em que Paulo e Varrão tinham sido
aniquilados por Aníbal, em Canas. Nem um único facto brilhante para iluminar o
abismo da derrota total! Ao menos os exércitos de Carbão, Cipião, Paulo e
Varrão tinham morrido a combater! Enquanto que ao seu grande exército não fora
dada a mínima oportunidade de mostrar o seu valor - nenhuma batalha, apenas
impotência.
Não posso culpar os meus soldados por se amotinarem, pensou António sentado com
a espada desembainhada no colo, pronta. Impotência. É o que eles sentem tanto
como eu.
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Como poderão falar aos netos da expedição de Marco António à Partia Média sem
cuspir na sua memória? Uma expedição maltrapilha, descomposta, totalmente
destituída de orgulho ou distinção. Miles gloriosus, foi o que António foi. O
soldado vanglorioso. O material perfeito para uma farsa. Exibindo-se, dando-se
ares, cheio de si e da sua importância. Mas com sucessos tão ocos como ele
próprio. Uma caricatura de homem e um falhanço enquanto general. António, o
Grande. Ah!
E depois o motim desfez-se no ar rarefeito da passagem montanhosa como se os
legionários nunca o tivessem discutido. A manhã assistiu à passagem contínua
dos homens pela montanha e, a meio da tarde, a passagem ficara para trás.
António foi buscar algures a força necessária para se misturar com os homens,
fingindo que pelo menos ele nunca ouvira falar em motins.
Vinte e sete dias depois de terem levantado o acampamento em Fraaspa, as
catorze legiões e uma mão-cheia de cavaleiros chegaram a Artaxata, as barrigas
cheias com um pouco de pão e tanta carne de cavalo quanta conseguiam engolir.
Ciro, o guia, indicara a António onde poderia roubar carvão suficiente para
cozinhar.
A primeira coisa que António fez quando chegou a Artaxata foi dar a Ciro, o
guia, um saco de moedas e dois bons cavalos e enviá-lo a galope pelo caminho
mais rápido para sul. A missão de Ciro era urgente - e secreta, especialmente
no que dizia respeito a Artavasdes. O destino dele era o Egipto onde deveria
pedir uma audiência à rainha Cleópatra; as moedas que António lhe dera,
cunhadas em Antioquia no Inverno anterior, seriam o seu passaporte para chegar
à rainha. Levava instruções para lhe implorar que viesse a Leuke Kome trazendo
auxílio para as tropas de António. Leuke Kome era um pequeno porto perto de
Berito na Síria, um local muito mais discreto do que portos como o de Berito,
Sídon ou Jope. Ciro partiu grato e veloz; permanecer na Arménia após a partida
dos romanos equivaleria a uma sentença de morte, pois guiara os romanos com
competência e não era isso o que o Artavasdes arménio tivera em mente. Os
romanos deveriam ter vagueado, ter-se perdido, sem comida nem combustível, até
morrerem todos até ao último homem.
Mas com catorze fortes legiões confortavelmente acampadas nos arredores de
Artaxata, o rei Artavasdes não tivera alternativa senão ser agradável e
implorar a António que passasse ali o Inverno. Sem acreditar numa única palavra
do que Artavasdes dizia, António recusou-se a demorar-se por ali. Obrigou o rei
a abrir os celeiros e depois, devidamente abastecido, continuou a marcha para
Carana, enfrentando tempestades e neve. Os legionários, que pareciam já se ter
habituado, percorreram aqueles últimos trezentos quilómetros muitíssimo
animados por agora já poderem fazer fogueiras durante a noite. A madeira também
era escassa na Arménia, mas os arménios de Artaxata não se tinham atrevido a
discutir quando os soldados romanos caíram sobre as suas pilhas de lenha e as
confiscaram. A ideia de os arménios poderem morrer de frio não comoveu
minimamente os romanos. Eles tinham marchado a mastigar grãos crus de trigo
devido às traições orientais.
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- Pelo menos ninguém foi feito escravo, António. Não é uma desgraça, é
simplesmente um desastre devido ao mau tempo.
- O Fonteio diz que devo continuar até Leuke Kome para aguardar a rainha,
enviar-lhe outra mensagem se necessário.
- Bem pensado. Vai, António.
- Traz o exército da melhor maneira que puderes, Canídio. Meias de pele ou de
cabedal para toda a gente e, se encontrares tempestades de neve, espera que
passem num bom acampamento. Junto ao Eufrates estará um pouco mais quente,
suponho. Mas mantém-nos em movimento e promete-lhes um passeio nos Campos
Elísios quando chegarem a Leuke Kome: sol quente, imensa comida e todas as
prostitutas que eu conseguir encontrar na Síria.
Clemente tinha tido o mesmo destino de todos os cavalos quando aparecera
carvão, depois da passagem da montanha e de Artaxata. Com as pernas penduradas
e os pés quase a arrastar pelo chão, António partiu de Carana montado num
cavalo nativo, acompanhado por Fonteio, Marco Tício e Aenobarbo.
Chegou a Leuke Kome um mês depois, e encontrou o pequeno porto espantado com a
sua chegada; Cleópatra não viera nem chegara nenhuma notícia do Egipto. António
enviou Tício para Alexandria mas com poucas esperanças; ela não quisera que ele
fizesse aquela campanha e não era mulher de perdoar. Não lhe daria ajuda, nem
dinheiro para remendar o que restava das suas legiões e, enquanto que para ele
era um feito considerável ter conseguido trazer as legiões dizimadas mas não
aniquiladas, era mais provável que ela chorasse a perda das tropas auxiliares.
A depressão abateu-se sobre ele e transformou-se num desespero tão profundo,
que António se virou para a garrafa do vinho, incapaz de enfrentar as imagens
do frio gelado, dos dedos dos pés apodrecidos, da ameaça de motim naquela noite
terrível, de fileira após fileira de rostos cheios de raiva, de cavaleiros
odiando-o pela perda dos seus amados cavalos, das suas próprias decisões
patéticas, sempre erradas e sempre desastrosas. Ele, e só ele, carregava a
culpa de tantas mortes e de tanta miséria humana. Oh! Era insuportável! Por
isso bebeu até esquecer e continuou a beber.
Vinte ou trinta vezes por dia cambaleava para fora da tenda, com o copo a
transbordar numa das mãos, cobria a pequena distância que o separava da costa,
aos tropeções, e ficava a olhar para a distância, para o porto onde não se viam
velas nem navios.
- Ela virá? - perguntava a quem estivesse por perto. - Ela virá? Ela virá? -
Pensavam que estava louco e fugiam assim que o viam emergir da tenda. Quem é
que virá?
De regresso ao interior da tenda bebia um pouco mais e depois saía novamente:
- Ela virá? Ela virá?
313
Janeiro deu lugar a Fevereiro e depois Fevereiro chegou ao fim e ela não veio
nem enviou uma mensagem. Não chegou nada de Ciro nem de Tício.
Finalmente, as pernas de António deixaram de conseguir suportar o seu peso;
balouçava-se sobre o jarro do vinho na tenda e tentava dizer "Ela virá?" a quem
quer que entrasse.
- Ela virá? - perguntou ele assim que a cortina da tenda se levantou no início
de Março, um balbucio incoerente para quem não soubesse, devido à longa
experiência, aquilo que tentava dizer.
- Ela está aqui - disse uma voz suave. - Ela está aqui, António.
Sujo e fedorento, António lá conseguiu levantar-se; caiu de joelhos e ela
deixou-se cair a seu lado, aninhando-lhe a cabeça contra o peito enquanto ele
chorava, chorava.
Ela estava horrorizada, se bem que essa fosse apenas uma palavra; não conseguia
sequer começar a descrever as emoções que fervilhavam na mente de Cleópatra e
devastavam o seu corpo durante os dias que se seguiram, enquanto conversava com
Fonteio e com Aenobarbo. Depois de António ter chorado até adormecer e poder
ser lavado, deitado numa cama mais confortável do que a cama de campanha, o
doloroso processo de o pôr sóbrio e de o fazer passar sem o vinho testou todos
os limites do engenho de Cleópatra. Devido ao seu estado de espírito não era um
doente fácil: recusava-se a falar, irava-se quando lhe recusavam vinho e
parecia arrepender--se de alguma vez ter desejado a presença de Cleópatra.
Por isso tiveram que ser Fonteio e Aenobarbo a falar com ela, o primeiro
muitíssimo disposto a ajudar em tudo o que estivesse ao seu alcance, o segundo
não fazendo qualquer esforço para disfarçar o desagrado e o desprezo que nutria
por ela. Por isso tentou dividir os horrores que lhe contaram por fases, na
esperança de que, ao abordar as coisas com lógica e sequencialmente, pudesse
ver mais claramente uma forma de curar Marco António. Se ele ia sobreviver,
tinha que ser curado!
De Fonteio recebeu o relato completo da campanha condenada, incluindo da noite
em que o suicídio parecera a única alternativa. Das tempestades de vento e
neve, do gelo e dos homens atascados em neve até às virilhas, não tinha
qualquer compreensão, pois só vira a neve nos dois Invernos que passara em Roma
e que, segundo lhe tinham garantido na época, não haviam sido rigorosos; o
Tibre não gelara e os pequenos nevões foram encantadores, criando um mundo
completamente silencioso e coberto de branco. Nada, adivinhou, que pudesse ser
comparado com a retirada de Fraaspa.
Aenobarbo concentrou-se em fazer-lhe descrições gráficas, dos pés e narizes a
apodrecerem devido às queimaduras do gelo, dos homens a mastigar trigo em grão,
de António enlouquecido pela traição de todos, desde os aliados aos guias.
314
- Pagastes o fiasco dele - disse Aenobarbo -, sem sequer vos deterdes para
pensar que tipo de equipamento não estava incluído e devia estar, nomeadamente
roupas mais quentes para os legionários.
Que lhe poderia responder? Que essas não eram as suas preocupações, que eram da
competência de António e do seupraefectus fabrum? Se o fizesse, Aenobarbo
concluiria que respondia assim para se preservar à custa de António; era
evidente que não estava disposto a ouvir qualquer crítica a António, preferindo
atribuir-lhe a ela as culpas, apenas porque fora o seu dinheiro a financiar a
expedição. Por isso disse:
- Já estava tudo comprado quando o meu dinheiro ficou disponível. Como iria
António conduzir a sua campanha se não tivesse aparecido o meu dinheiro?
- Não teria havido campanha nenhuma, rainha! António teria continuado na Síria,
afundado em dívidas colossais aos fornecedores de tudo, desde cotas de malha a
peças de artilharia.
- E tu terias preferido que as coisas continuassem assim em vez de ele ter
dinheiro para pagar o que devia e poder fazer a sua campanha?
- Sim! - ripostou Aenobarbo.
- Isso significa que não o consideras um general capaz.
- Tirai as conclusões que quiserdes, rainha. Eu não digo mais nada. - E
Aenobarbo saiu disparado irradiando ódio.
-Terá ele razão, Fonteio? - perguntou ela ao seu simpático informante. - Será
Marco António incapaz de comandar um grande empreendimento?
Surpreendido e confundido, Fonteio amaldiçoou interiormente a língua irascível
de Aenobarbo.
- Não, Majestade, ele não tem razão e também não foi isso que quis dizer. Se
não tivésseis acompanhado o exército até Zeugma, com a intenção de continuar a
acompanhá-lo, e se não tivésseis dado opiniões no conselho, os homens como
Aenobarbo não teriam feito quaisquer críticas. O que ele estava a dizer é que
vós destes cabo do empreendimento ao insistirdes que ele fosse conduzido de uma
certa forma. Que, sem vós, António teria sido um homem diferente e não teria
sido derrotado sem travar uma única batalha.
- Oh, isso não é justo! - disse ela arfando. - Eu não dei qualquer tipo de
ordem a António! Nenhuma!
- Acredito em vós, senhora. Mas Aenobarbo nunca acreditará.
Quando o exército começou a coxear na direcção de Leuke Kome, três nundiane
após a rainha do Egipto lá ter chegado, encontrou um pequeno porto atafulhado
de navios e acampamentos espalhados pelos arredores da cidade. Cleópatra
trouxera médicos, remédios e o que parecia uma legião de padeiros e cozinheiros
que serviam aos legionários uma comida melhor que aquela que lhes era fornecida
pelos não-combatentes das legiões, camas confortáveis e roupas limpas e macias;
dera-se até mesmo ao trabalho de ordenar aos seus escravos que retirassem todos
os ouriços-do-mar dos baixios de uma praia grande, para que toda a gente
pudesse banhar-se sem ter que se preocupar com a pior praga que havia nas
praias daquela região do Nosso Mar.
315
Se Leuke Kome não era exactamente os Campos Elísios, para o legionário mediano
assemelhava-se muito. O estado de espírito melhorou imenso, sobretudo entre os
homens que não tinham perdido dedos dos pés.
- Estou muito grato - disse-lhe Públio Canídio. - Os meus rapazes precisam de
umas verdadeiras férias e vós permitistes que eles as tenham. Quando tiverem
recuperado esquecerão a parte pior das provações por que passaram.
- Excepto os narizes e dedos dos pés podres - respondeu Cleópatra amargamente.
Portus Julius ficou pronto a tempo de Agripa treinar os remadores e soldados
durante todo o Inverno pouco rigoroso em que Lúcio Gélio Publícola e Marco
Coceio Nerva assumiram o consulado no Dia de Ano Novo. Como de costume, o
candidato apoiado por um partido venceu o candidato independente; o terceiro
elemento neutral nas negociações que tinham originado o Pacto de Brundísio,
Lúcio Nerva, perdeu para o irmão, que era partidário de Octaviano. Estando em
Roma para desempenhar a função de observador para António, Publícola ficou com
a tarefa de governar a cidade; Octaviano não o queria a reclamar vitórias sobre
Sexto Pompeu em nome da facção de António, que ainda era grande e muito
barulhenta.
Sabino tinha sido um bom supervisor da construção de Portus Julius e queria o
comando supremo, mas a tendência que tinha para ter mau feitio tornara-o
desadequado aos olhos de Octaviano; com Agripa ocupado em Portus Julius,
Octaviano dirigiu-se ao Senado para fazer as suas propostas.
- Como já foste cônsul, o teu estatuto é equivalente ao de Sabino - disse ele a
Agripa quando o seu valoroso amigo veio a Roma prestar-lhe contas -, por isso o
Senado e o Povo decretaram que serás tu, e não Sabino, o comandante-chefe em
terra e almirante-chefe no mar. Sob o meu comando, evidentemente.
Dois anos como governador da Gália Ulterior, um consulado e a confiança de
Octaviano nas suas iniciativas, tinham produzido efeitos profundos em Agripa.
No passado teria corado e argumentado, agora limitou-se a engolir em seco e a
parecer agradado. O seu grau de convencimento - que era zero - não se alterara,
mas a confiança em si próprio desenvolvera-se sem revelar os defeitos fatais de
António: não era preguiçoso, mantinha uma atenção permanente aos pormenores e
não tinha relutância em tratar da correspondência de Marco Agripa!
316
Quando Agripa recebia uma carta esta era imediatamente respondida e de uma
forma tão sucinta, que o seu destinatário não tinha qualquer dúvida acerca da
natureza do seu conteúdo.
Tudo o que Agripa disse ao receber a notícia da enorme tarefa que iria
desempenhar foi:
- Como queiras, César.
- Contudo - continuou Octaviano -, peço-te humildemente que me arranjes uma
pequena frota e um par de legiões para comandar. Quero participar pessoalmente
na guerra. Desde que casei com Lívia Drusila que pareço estar completamente
curado da asma, mesmo quando estou perto de cavalos, portanto devo ser capaz de
sobreviver sem correr o risco de ouvir mais um chorrilho de piadas sobre a
minha cobardia. - Aquilo foi dito friamente, mas a expressão vidrada dos seus
olhos revelava a sua determinação em apagar de uma vez por todas as calúnias de
Filipos.
- Já estava a pensar fazê-lo, César - disse Agripa sorrindo. - Se tiveres tempo
gostaria de discutir os planos para a guerra.
- Lívia Drusila devia estar presente.
- Concordo. Ela está em casa ou saiu para comprar roupas?
A mulher de Octaviano tinha poucos defeitos, mas o seu amor por roupas bonitas
era certamente um deles. Insistia em vestir bem, tinha um gosto perfeito e as
suas jóias, cujo número era aumentado regularmente pelo marido, eram motivo da
inveja de todas as mulheres de Roma. O facto de o habitualmente parcimonioso
Octaviano não levantar objecções à sua extravagância devia-se a querer que a
sua mulher estivesse acima das outras em todos os aspectos; ela deveria parecer
e comportar-se como uma rainha não coroada, estabelecendo assim a sua
ascendência sobre as restantes mulheres. Um dia isso seria muito importante.
- Em casa, acho. - Octaviano bateu as palmas e disse ao homem que acorreu para
ir chamar a senhora Lívia Drusila.
Ela chegou momentos depois, vestida com roupas esvoaçantes de um tecido azul
muito escuro, bordado aqui e ali com uma safira que brilhava reflectindo a luz.
O colar, os brincos e os braceletes eram também de safiras e pérolas, e os
botões que apertavam as mangas a espaços eram também feitos com safiras e
pérolas.
Agripa pestanejou, ofuscado.
- Estás deliciosa, minha querida - disse Octaviano parecendo um homem de
setenta anos; ela tinha nele esse efeito.
- Sim, não consigo entender a razão de as safiras serem tão impopulares - disse
sentando-se numa cadeira. - Acho a sua cor escura muito subtil.
Octaviano fez sinal aos escribas e funcionários que andavam por ali de orelhas
espetadas.
- Vão almoçar ou contar os peixes no único lago que os germanos não saquearam -
disse-lhes. E para Agripa: - Oh, quem me dera não ter que viver por trás de
muralhas fortificadas! Diz-me que este ano as poderei derrubar, Agripa!
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<Mapa - omitido>
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Mas foi Agripa quem venceu a campanha. Conhecendo a dimensão da frota de Tauro
e sobrestimando o tamanho da frota-isco de Octaviano, Sexto Pompeu chamou todos
os navios que possuía e concentrou-os nos estreitos, determinado a controlar
Messina e, consequentemente, a parte leste da ilha. Em resultado disso as
duzentas e onze quinquerremes e trirremes de Agripa mandaram para o fundo de
Mylae uma pequena frota pompeia e, a seguir, desembarcaram ali sãs e salvas
quatro legiões. Agripa subiu depois pela costa em direcção a norte, seguindo
uma rota para ocidente, antes de reunir os navios de guerra e ficar à espreita
ao largo em Náuloco.
Parecia não ter entrado na cabeça de Sexto Pompeu que o desprezível Octaviano
fosse - ou pudesse - reunir tantos navios e tropas para lançar contra si. Mas
as más notícias sucediam-se: Lépido estava a subjugar a extremidade ocidental
da Sicília, Agripa submetia a costa norte e o próprio Octaviano tinha
conseguido atravessar finalmente o estreito. A Sicília fervilhava de soldados,
mas destes, poucos pertenciam a Sexto Pompeu. Aterrorizado e desesperado, o
filho mais novo de Pompeu, o Grande, decidiu apostar tudo numa enorme batalha
naval e partiu ao encontro de Agripa.
As duas frotas encontraram-se em Náuloco com Sexto convencido de que, para além
de estar em maioria, também tinha mais perícia. Mais de trezentas galés
soberbamente tripuladas e comandadas, consigo próprio no comando supremo - o
que estaria um apuliano como Marco Agripa a pensar que fazia ao desafiar Sexto
Pompeu, que não fora derrotado durante dez longos anos? Mas os navios de Agripa
eram mais agressivos e estavam armados com uma arma secreta típica de Agripa. O
harpax. Pegara numa vulgar âncora pequena e transformara-a num míssil passível
de ser disparado por um escorpião, a distâncias muito maiores do que as
alcançáveis pelo lançamento de um braço. O navio inimigo era então puxado para
perto, continuando a ser submetido ao bombardeamento de dardos lançados por
escorpiões, pedregulhos e fardos de palha incendiados. Enquanto estas manobras
prosseguiam, o navio de Agripa virava e atacava de proa o lado da embarcação
inimiga, destruindo-lhe os remos. Depois de terminada essa tarefa, os soldados
passavam à abordagem usando pranchas corvus e acabavam o trabalho matando todos
quantos não se tivessem atirado ao mar, onde se afogariam ou seriam pescados
como prisioneiros de guerra. De acordo com a maneira de pensar de Agripa, os
bicos dos navios eram muito úteis, mas raramente afundavam um navio e, na maior
parte das vezes, permitiam que este fugisse. Com o harpax, os remos partidos e
os soldados para terminarem o trabalho, o desfecho era inevitavelmente o mesmo.
Com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, Sexto Pompeu assistiu à destruição
das suas frotas unidas. No último momento virou o navio almirante para sul e
fugiu, determinado a não ser conduzido acorrentado pelo Fórum romano para ser
julgado por traição em segredo no Senado, como acontecera com Salvidieno.
321
Pois ele sabia que o seu estatuto o protegeria do destino habitual de quem era
declarado hostis: ser morto pelo primeiro homem que o visse. Isso poderia ter
suportado.
Escondeu-se numa enseada e navegou pelo estreito a coberto da escuridão, depois
traçou uma rota para leste em torno do Peloponeso e foi procurar refúgio junto
de António, que ele sabia estar ausente na sua campanha; esconder-se-ia num
qualquer local acolhedor até ao regresso de António. Mitilene, na ilha de
Lesbos, concedera asilo ao seu pai; faria o mesmo pelo filho, Sexto estava
certo disso.
A resistência em terra foi insignificante, especialmente depois do terceiro dia
de Setembro, data em que Agripa venceu em Náuloco. As "legiões" de Sexto eram
compostas por bandidos, escravos e libertos, mal treinados e pouco valentes.
Sexto só os usara para aterrorizar as populações locais; contra legiões romanas
genuínas não tinham qualquer possibilidade de vencer. A maioria rendeu-se
implorando misericórdia.
Lépido deliciou-se com a sua superioridade e levou bastante tempo a atravessar
a ilha. Mesmo assim chegou a Messina antes de Octaviano, que encontrara a
resistência mais determinada na costa do estreito a norte de Tauroménio. Quando
Lépido chegou a Messina encontrou o governador nomeado por Pompeu, Plínio Rufo,
disposto a render-se a Agripa. Um insulto que Lépido não toleraria. Mandou
chamar imediatamente Plínio Rufo exigindo que se lhe rendesse a ele e não a
Agripa, aquele zé-ninguém de baixo nascimento. Tal facto poderia ter sido
aceitável, não fosse ele ter aceite a rendição em seu próprio nome e não no de
Octaviano.
Quando Octaviano chegou ao acampamento de Agripa, encontrou-o a ferver: uma
experiência inédita! Em todos os anos que tinham passado juntos não se lembrava
de alguma vez ter visto Agripa a ferver de raiva.
- Sabes o que aquele cunnus fez? - rugiu Agripa agitando uma cauda metafórica .
- Disse que era ele o vencedor na Sicília, não tu, o triúnviro de Roma, Itália
e das ilhas! Disse.... disse... oh, nem sequer consigo pensar, de tão furioso
que estou!
- Vamos ter com ele - acalmou-o Octaviano -, resolvemos as nossas divergências,
ele pede-nos desculpa. Que tal?
- Só a sua cabeça me satisfará - resmungou Agripa.
Lépido, todavia, não estava num estado de espírito conciliatório. Recebeu
Octaviano e Agripa envergando o paludamentum escarlate e uma bela couraça
dourada, com o peitoral gravado com uma imagem de Emílio Paulo no campo de
batalha de Pidna, uma vitória famosa. Com cinquenta e cinco anos, Lépido já não
era um jovem e ressentia-se dolorosamente de ser eclipsado por dois meros
rapazes. No que lhe dizia respeito, seria agora ou nunca; chegara o momento de
avançar para o poder que parecia escapar-lhe permanentemente. O seu estatuto
era igual ao de António e de Octaviano, no entanto ninguém o levava a sério e
isso tinha que mudar.
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O mais belo dos sorrisos moldou os lábios de Octaviano; os olhos que virou para
Agripa eram luminosos, inocentes, perigosamente jovens.
- Caro Agripa! Não, não teremos que o combater, prometo-te.
E Agripa não conseguiu saber mais do que aquilo. Octaviano dissera simplesmente
que não haveria guerra civil, nem mesmo uma guerrazinha, uma escaramuça, um
duelo, um exercício.
Na madrugada da manhã seguinte Octaviano desapareceu; quando Agripa,
desesperado, o encontrou, já tudo terminara. Sozinho e togado, entrara no
gigantesco campo de Lépido e misturara-se com os muitos milhares de soldados,
sorrindo--lhes, felicitando-os e tornando-os seus. Eles fizeram poderosos
juramentos a Terra, Sol Indígetes e Liber Pater que César seria o seu único
comandante, que César era o seu querido, a sua mascote de cabelos dourados,
divi filius.
As oito legiões de Sexto Pompeu, com os seus recrutas variegados, foram
desmanteladas naquele mesmo dia e conduzidas sob forte guarda, num estado de
espírito complacente e a especular sobre o que a sorte lhes reservaria; de
Lépido tinham recebido a promessa de liberdade e, como pouco sabiam de
Octaviano, confiavam plenamente no mesmo tipo de tratamento.
- A corrida acabou para ti, Lépido - disse Octaviano ao atarantado Lépido
quando este lhe invadiu a tenda. - Como tens relações de parentesco com o meu
divino pai, poupar-te-ei a vida e não te submeterei a um julgamento por traição
no Senado. Mas farei com que esse mesmo Senado te retire os poderes de
triúnviro e de todas as províncias. Retirar-te-ás para a vida privada e nunca
mais a abandonarás, nem mesmo para tentares obter o cargo de censor. Poderás
contudo manter-te como Pontífice Máximo. Esse é um cargo vitalício e continuará
teu enquanto viveres. Exijo que viajes a bordo do meu navio comigo, mas deixar-
te-ei desembarcar em Circei onde tens uma villa. Não entrarás em Roma a
pretexto nenhum nem te será permitida a residência na Domus Publica.
Muito pálido, Lépido escutou-o com a garganta percorrida por espasmos. Quando
finalmente não conseguiu encontrar nada que pudesse dizer deixou-se cair numa
cadeira e cobriu o rosto com a dobra da toga.
Octaviano cumpriu a sua palavra. O Senado podia estar cheio dos clientes e
partidários de António, mas emitiu os decretos que lhe foram pedidos
relativamente a Lépido sem um único murmúrio. Lépido foi proibido de entrar em
Roma e destituído de todos os seus deveres públicos, honras e províncias.
A colheita daquele ano foi vendida a dez sestércios o modius e a Itália
rejubilou. Quando os cofres de Agrigento foram arrombados por Octaviano e
Agripa, renderam a fabulosa quantia de cento e dez mil talentos. Os quarenta
por cento de António, quarenta e quatro mil talentos, foram separados e
enviados para Antioquia assim que a sua frota ateniense pôde partir.
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- Germe, não é nada! - disse Decídio que sabia ler e escrever mas que era um
desastre a fazer contas. - És um vigarista e um mentiroso!
- Garanto-te, Decídio, que não sou uma coisa nem outra. Limito-me a dizer a
verdade. Para to provar, quando vos pagar, sim, pagar-vos-ei!, meterei o
dinheiro em cem mil sacos de mil denários cada um para os homens e em vinte mil
sacos de cem denários cada um para os não-combatentes. Denários e não
sestércios. Empilharei esses sacos no recinto da assembleia e sugiro que
encontres um número suficiente de legionários que saibam contar para que
verifiquem se cada saco contém, na realidade, a quantia exacta de dinheiro.
Embora seja mais rápido pesar do que contar - concluiu modestamente.
- Oh, esqueci-me de mencionar que, para os centuriões, são quatro mil denários
por cabeça - acrescentou Decídio.
- Demasiado tarde, Decídio! Os centuriões receberão o mesmo que os soldados das
fileiras. Concordei com a tua proposta inicial e recuso-me a alterá-la depois
de fechado o acordo, estamos entendidos? No entanto irei um pouco mais longe,
depois de fechado o acordo, porque sou triúnviro e é-me permitido esse
privilégio, ao dizer-te que não podes esperar receber este bónus e ter a
expectativa de receber terras. Este será o vosso pagamento de reforma e isso
deixa as contas acertadas. Se receberem terras será à minha discrição. Esbanjem
à vontade o dinheiro que deveria ficar no Tesouro com a minha bênção, mas não
me venham pedir mais, nem agora nem no futuro. Porque Roma não pagará mais
bónus avultados. No futuro, as legiões de Roma combaterão por Roma, não por um
general nem em guerras civis. E no futuro, as legiões de Roma receberão o seu
pagamento, as suas poupanças e um pequeno bónus quando se retirarem. Não haverá
mais terras nem mais nada sem a sanção do Senado e do Povo. Vou instituir um
exército permanente de vinte e cinco legiões e em todas elas os homens servirão
durante vinte anos sem direito a dispensa. Será uma carreira e não um emprego.
Empunharão uma tocha por Roma e não uma vela por um general. Fiz-me entender?
Acabou-se, Decídio, acabou-se hoje.
Os vinte representantes escutaram-no com um horror crescente, pois havia algo
de César naquele belo rosto, agora que já não era tão bonito nem tão jovem como
já fora. Sabiam que ele estava a falar a sério. Enquanto representantes, eram
os mais militantes e venais entre os seus pares, mas até o mais militante e
venal dos homens consegue ouvir o som de uma porta a fechar-se e, naquele dia,
houve uma porta que se fechou. Talvez o futuro reservasse mais motins, mas o
que César estava a dizer é que estes significariam a pena de morte para todos
os envolvidos.
- Não conseguirás executar-nos, somos cem mil - disse Decídio.
- Oh, não consigo? - Os olhos de Octaviano abriram-se mais e tornaram-se mais
luminosos. - Quanto tempo é que achas que durarias se eu dissesse aos três
milhões de pessoas da Itália que estás a fazê-los reféns e a tirar-lhes o
dinheiro das bolsas?
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Só porque usas uma couraça e empunhas uma espada? Não é razão suficiente,
Decídio. Se o povo de Itália soubesse, desfaria os vossos cem mil homens em
pedaços. - Fez um gesto desdenhoso com a mão. - Saiam, saiam todos! E olhem bem
para o tamanho dos vossos bónus quando eu empilhar os sacos no recinto da
assembleia. Perceberão então aquilo que pediram.
Eles foram-se embora com um ar envergonhado, mas determinado.
- Ficaste com os nomes deles, Agripa?
- Sim, de todos sem excepção. E ainda o de mais alguns.
- Desfaz o grupo e dispersa-o. Acho que seria melhor que todos eles tivessem
acidentes, não achas?
- A Fortuna é caprichosa, César, mas a morte numa batalha é mais fácil de se
arranjar. Uma pena que as campanhas tenham terminado.
- De modo algum! - disse Octaviano no mais cordial dos tons. - No ano que vem
iremos para a Diria. Se não o fizermos, Agripa, as tribos unir-se-ão aos Bessos
e aos Dardânios e invadirão os Alpes Cárnicos e a Gália Italiana. Esse é o
caminho mais fácil e de mais baixa altitude para entrar em Itália e a única
razão de nunca ter sido usado para uma invasão, é a falta de unidade entre as
tribos. Que estão a ficar romanizadas da maneira errada. Os representantes das
legiões vão ser uns heróis e muitos deles morrerão em actos que lhes valerão a
coroa de bravura. A propósito, vou conceder-te a Coroa Naval. - Deu uma
risadinha. - Vai ficar-te bem Agripa... todo aquele ouro.
- Obrigado, César, é muito simpático da tua parte. Mas a Ilíria?
- Não, os motins. Vão ficar fora de moda ou eu não me chame César e não seja
filho de um deus. Pff! Acabo de perder dezasseis mil talentos numa miserável
campanha, que teve mais homens a morrer afogados do que trespassados na ponta
de uma espada. Nem que seja só para acabar com os bónus exorbitantes, terá que
deixar de haver guerras civis. As legiões lutarão por Roma na Ilíria. Será uma
campanha como deve ser, sem qualquer elemento de devoção ao comandante nem
qualquer competência da parte deste para atribuir bónus de acordo com a sua
vontade. Apesar de eu também ir combater, a campanha será tua, Agripa. É em ti
que confio.
- Tu és espantoso, César.
Octaviano pareceu genuinamente surpreendido.
- Porquê? - perguntou.
- Tu enfrentaste-os, àquele grupo desprezível de verdadeiros bandidos. Eles
vieram aqui esta manhã para te intimidar e viraste o feitiço contra o
feiticeiro e intimidaste-os a eles. Saíram daqui homens muito assustados.
E lá apareceu o sorriso que - ou pelo menos era o que Lívia Drusila achava
-conseguia derreter uma estátua de bronze.
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- Oh, Agripa, eles podem ser uns verdadeiros bandidos, mas são tão infantis!
Sei que pelo menos um em cada oito legionários deve saber ler e escrever mas,
no futuro, quando pertencerem a um exército permanente, todos terão que saber
ler... e contar. Os acampamentos de Inverno vão ficar cheios de professores. Se
eles fizessem uma ideia do que a sua ganância custou a Roma pensariam duas
vezes. É por isso que as lições começam agora, com os sacos. - Suspirou e
pareceu pesaroso. - Tenho que mandar buscar uma coorte inteira de funcionários
do Tesouro. Ficarei aqui sentado até ter terminado, Agripa, tudo debaixo dos
meus próprios olhos. Não haverá desfalques, desvios ou fraudes no horizonte.
-Vais pagar-lhes com cistophori? Havia imensos no tesouro de Sexto e lembro--me
de uma história segundo a qual o irmão do grande Cícero foi pago em cistophori.
- Os cistophori serão derretidos e cunhados sob a forma de sestércios e de de-
nários. Os meus verdadeiros bandidos, e os homens que eles representam, serão
pagos em denários, tal como exigiram. - Uma expressão sonhadora penetrou-lhe o
olhar. - Estou a tentar visualizar a altura que terão as pilhas de sacos, mas
nem a minha imaginação consegue tal feito.
Foi só em Janeiro que Octaviano conseguiu regressar a Roma com a tarefa
terminada. Transformara o acontecimento em si numa espécie de circo, obrigando
cada um dos cento e vinte mil homens a passar em frente do recinto da
assembleia e a olhar para as pequenas montanhas de sacos e depois fez um
discurso, mais ao estilo do falecido César do que ao seu. O seu método de
difusão do discurso foi inovador; ele próprio sentou-se numa tribuna elevada e
dirigiu-se aos centuriões que os seus agentes tinham informado serem os homens
com verdadeira influência, enquanto que cada um dos seus agentes fazia o mesmo
discurso a uma centúria de tropas, não lendo um papel, mas declamando-o de
memória. Aquilo espantou Agripa, que sabia da existência dos agentes de
Octaviano, mas que nunca se apercebera do seu número. Uma centúria era composta
por oitenta soldados e vinte criados não-combatentes; cada legião tinha
sessenta centúrias e as vinte legiões reuniram-se para ver os sacos e ouvir o
discurso. Mil e duzentos agentes! Não admirava que ele soubesse tudo o que se
passava. Podia fingir que era filho de César, mas a verdade era que Octaviano
não se parecia com ninguém, nem mesmo com o seu divino pai. Era algo de
absolutamente novo, tal como os homens inteligentes, que era o caso do falecido
Aulo Hírcio, tinham percebido logo no início da sua carreira.
Quanto aos seus agentes civis, eram homens virtualmente incapazes de serem
empregues em qualquer outra capacidade - eram o género de indivíduos bisbilho-
teiros e indolentes que adoravam receber um pequeno salário só para vaguearem
pelos mercados e falar, falar, falar. Quando um deles comunicava uma informação
importante ao seu superior numa cadeia hierárquica cuidadosamente estruturada,
recebia alguns denários de recompensa, mas só se a informação se revelasse
correcta.
328
329
Sabino foi dotado de uma equipa de pretores para ouvirem as queixas judiciais
que eram muitas; os Romanos, de todas as classes, eram um povo litigante.
Vinte dias após a batalha de Náuloco, Octaviano fizera vinte e sete anos;
estava no coração da política e da guerra romanas há nove anos inteiros. Um
período mais longo até mesmo do que César ou Sila, que tinham estado ausentes
de Roma durante anos a fio. Octaviano era uma característica de Roma. Isso era
visível em muitos aspectos, mas especialmente na sua postura. Magro, não muito
alto, a sua silhueta togada movia-se com graciosidade, dignidade e uma estranha
aura de poder - o poder de alguém que sobrevivera contra todas as expectativas
e emergira triunfante. O povo de Roma, dos mais importantes aos mais humildes,
habituara-se a vê-lo e, tal como acontecera com Júlio César, ele não se inibia
de falar com quem quer que fosse. Mesmo apesar da presença da guarda germânica,
que sabia que não devia intervir quando ele passava entre as suas fileiras para
conversar com um cidadão. Apesar de soltarem as espadas nas bainhas, aprenderam
a disfarçar a ansiedade e a trocar piadas num latim mal-amanhado com aqueles
que, na multidão, não estavam a tentar chegar a César. Mantendo um aspecto
magnífico.
Mas no Ano Novo, quando aquele afortunado Pompeio com o mesmo nome, Sexto
Pompeu, assumiu o consulado juntamente com Lúcio Cornifício, começaram a chegar
a Roma notícias de grandes vitórias no Oriente, espalhadas pelos agentes de
António instigados por Publícola. António conquistara os Partos, anexara vastas
áreas a Roma, acumulara tesouros incomensuráveis. Os seus partidários
exultaram, os inimigos ficaram confundidos. Octaviano, o mais importante entre
os cépticos, enviou agentes especiais ao Oriente para confirmar a veracidade
dos rumores.
Nas Calendas de Março reuniu o Senado, algo que não costumava fazer. Sempre que
o fazia, os senadores apareciam todos por curiosidade e um respeito crescente.
Ele ainda não alcançara os seus objectivos; ainda havia senadores que lhe
chamavam Octaviano e se recusavam a dar-lhe o título de César, mas o seu número
estava a diminuir. E a sua sobrevivência àqueles perigosos nove anos tinha
acrescentado um elemento de medo. Se o seu poder continuasse a crescer e Marco
António não regressasse rapidamente a casa, nada o impediria de se transformar
no que quisesse. Era daí que provinha o medo.
Enquanto triúnviro responsável por Roma e pela Itália, sentava-se numa cadeira
curul de marfim na plataforma elevada, na extremidade mais próxima da nova
Cúria que o seu divino pai mandara construir, um processo tão longo que só
terminara no ano da derrota de Sexto Pompeu. Como o seu imperium era maius,
sobrepunha-se ao dos cônsules cujas cadeiras curul ficavam de ambos os lados da
sua e mais para trás.
330
Levantou-se para falar, não tendo na mão quaisquer notas, com a espinha
direita, o cabelo uma nuvem dourada num edifício que, pelas suas dimensões, se
tornava algo sombrio. A luz entrava pelas janelas do clerestório, lá muito em
cima, e era engolida pela penumbra de um interior suficientemente grande para
receber mil homens em dois estrados com três filas cada, uma de cada lado da
plataforma. A maioria dos senadores estava sentada em pequenos bancos, os que
já tinham sido magistrados importantes na fila de baixo, os magistrados menos
importantes na fila do meio e os pedarii, que não tinham direito à palavra, na
fileira do cimo. Como não existia um sistema de partidos, um homem escolher
sentar-se à esquerda ou à direita da plataforma não tinha significado, apesar
de os membros de uma mesma facção tenderem a ficar juntos. Alguns tiravam notas
minuciosas em estenografia para os seus arquivos, mas seis funcionários
registavam todas as palavras para o próprio Senado, registos que eram
posteriormente copiados, levavam os selos dos cônsules e eram guardados nos
arquivos que ficavam no edifício ao lado, nos escritórios do Senado.
- Digníssimos cônsules, consulares, pretores, ex-pretores, edis, ex-edis,
tribunos das plebes, ex-tribunos das plebes e pais conscritos, estou aqui para
vos fazer o relatório do que foi feito. Lamento não ter podido fazer-vos este
relatório mais cedo, mas não pude deixar de viajar até à província de África
para instalar Tito Estatílio Tauro como governador e ver, com os meus próprios
olhos, a confusão que o ex-triúnviro Lépido ali criou. Uma confusão
considerável, consistindo sobretudo na acumulação de um número avassalador de
legiões que usou posteriormente numa tentativa de se apropriar do governo de
Roma. Uma situação que eu resolvi como sabem. Mas nunca mais qualquer
promagistrado de qualquer estatuto ou com qualquer tipo de imperium terá
permissão para recrutar, armar e treinar legiões na sua província ou para
importar legiões para a sua província, sem o expresso consentimento do Senado e
do Povo de Roma.
"Muito bem, prossigamos. As minhas legiões mais antigas, as dos veteranos de
Mútina e de Filipos, serão dispensadas e receberão terras em África e na
Sicília, sendo que esta está mergulhada num caos ainda maior do que o de África
e precisa desesperadamente de um bom governo, de uma agricultura decente e de
uma populaça próspera. Estes veteranos serão instalados em cem ou duzentas
iugera de terras e terão que cultivar trigo que alternarão com legumes a cada
quatro anos. Os velhos latinfundia da Sicília serão subdivididos com excepção
de um que será doado ao imperator Marco Agripa. Este desempenhará as funções de
supervisor dos agricultores veteranos aliviando-os assim do fardo de ter que
tratar da venda das suas colheitas, o que ele fará em seu nome pagando-lhes o
preço justo. Os representantes destas tropas das legiões deram-se por
satisfeitos com estas minhas disposições e sentem-se ansiosos por se retirarem.
331
"A sua partida deixará Roma com vinte e cinco boas legiões, homens suficientes
para combater em quaisquer guerras que Roma se veja forçada a travar. Muito em
breve servirão na Ilíria, que tenciono submeter durante este ano e talvez no
ano que vem. É mais do que tempo de as populações do Leste da Gália Italiana
serem protegidas dos ataques dos Iapudes, dos Dálmatas e de outras tribos
ilíricas. Se o meu pai divino tivesse sobrevivido, esse assunto já estaria
resolvido. Portanto essa tarefa recai agora sobre mim e eu desempenhá-la-ei em
conjunto com Marco Agripa. Eu próprio não posso, nem quero, ausentar-me de Roma
durante mais do que alguns meses. A boa governança tem que ser assegurada em
primeiro lugar e são minhas as mãos que o Senado e o Povo de Roma honraram com
essa incumbência, a de estabelecer a boa governança.
Octaviano desceu da plataforma curul, contornou o comprido banco de madeira que
acomodava os dez tribunos das plebes e dirigiu-se ao centro da sala
ornamentada. E ali falou, girando em círculos muito lentos, assegurando-se de
que todos os senadores o viam tão bem e à expressão do seu rosto como lhe viam
a nuca. A nuvem de cabelos loiros esvoaçava, dando à sua silhueta pequena uma
aura sobrenatural.
- Tivemos motins e agitação desde que Sexto Pompeu começou a interferir com o
abastecimento de cereais - continuou ele numa voz calma e neutra. - O Tesouro
estava vazio, o povo esfomeado, o preço dos bens subiu de tal modo que fez com
que todos aqueles que não tinham posses não pudessem viver de forma adequada a
um romano... com dignidade e algum conforto. O número daqueles que não podiam
sequer ter um escravo multiplicou-se. Entre o capite censi, aqueles que não
recebiam o soldo de um legionário viram-se em tais dificuldades, que houve
alturas que nenhuma loja de Roma se atrevia a abrir as portas. A culpa não era
deles, pais conscritos! A culpa era nossa, por não tratarmos de Sexto Pompeu.
Não tínhamos nem as frotas nem o dinheiro necessário para o enfrentar como
todos vós bem sabeis. Foram necessários quatro anos a amealhar e a procurar
dinheiro para reunirmos os navios de que necessitávamos, mas no ano passado
conseguimos e Marco Agripa varreu permanentemente Sexto Pompeu dos mares.
A sua voz mudou e assumiu um tom duro.
- Tratei das tropas terrestres de Sexto Pompeu com a mesma dureza que tratei os
seus marinheiros e remadores. Aqueles que eram escravos foram devolvidos aos
seus senhores com o pedido expresso de que nunca sejam libertos. Quando não foi
possível encontrar os seus anteriores senhores, por Sexto Pompeu os ter matado,
os escravos foram empalados. Sim, verdadeiramente empalados! Com uma estaca
enfiada pelo recto até atingir os órgãos vitais. Os libertos e os estrangeiros
foram chicoteados e marcados a ferro na testa. Os almirantes foram executados.
O ex-triúnviro Marco Lépido queria recrutá-los para as suas legiões, mas Roma
não precisa de uma tal escumalha nem a deve tolerar.
332
Morreram ou enfrentam uma vida inteira de escravidão, tal como está certo e é
devido.
"Os cônsules de Roma, pretores, edis, questores e tribunos dos soldados, têm
certos deveres que desempenharão com zelo e eficiência. Os cônsules fazem leis
e autorizam empreendimentos. Os pretores julgam casos legais, criminais e
cíveis. Os questores cuidam dos dinheiros de Roma, estejam ao serviço do
Tesouro, de um governador, de um porto ou de qualquer outra entidade. Os edis
cuidam da própria Roma, velando para que o abastecimento de água, os esgotos,
os mercados, os edifícios e os templos recebam os cuidados necessários. Na
minha qualidade de triúnviro responsável por Roma e pela Itália, vigiarei de
perto estes magistrados e espero que estes sejam bons magistrados.
Sorriu, os dentes brancos a brilhar e adoptou uma expressão travessa.
- Aprecio a estátua dourada da minha pessoa que foi erigida no Fórum e que diz
que restaurei a ordem na terra e no mar, mas aprecio mais a boa governança. E
Roma ainda não é suficientemente rica para que possa oferecer estátuas com os
seus rendimentos. Gastem com sensatez, pais conscritos!
Começou a percorrer a sala e depois regressou à plataforma onde ficou de pé
para fazer aquilo que, segundo todos esperavam, seria a sua peroração e
sentindo-se aliviados por o discurso ter sido curto, ainda que aterrorizante.
- Por último, mas de forma nenhuma menos importante, pais conscritos, chegou à
minha atenção o facto de o imperator Marco António ter obtido grandes vitórias
no Oriente, a sua testa envolta em louros e o saque imenso. Penetrou as terras
do rei dos Partos até Fraaspa, que fica a uns meros trezentos e vinte
quilómetros de Ecbátana, e triunfou por onde passou. A Arménia e a Média estão
sob a sua bota, os reis são seus vassalos. Proponho portanto que aprovemos um
voto de louvor e vinte dias de festejos pelos seus feitos valorosos! Todos que
concordarem digam sim!
O rugido dos "Sim!" foi abafado pelos vivas e pelo bater dos pés; os olhos de
Octaviano examinaram as bancadas, contando. Sim, ainda eram cerca de setecentos
os partidários de António.
- Antecipei-me - disse ele complacentemente a Lívia Drusila quando regressou a
casa - e tirei às criaturas dele a oportunidade de gritarem as notícias dos
feitos de António das bancadas.
- Ainda ninguém sabe do fiasco de António? - perguntou ela.
- Parece que não. Ao propor que lhe fosse concedido um voto de louvor, impedi
que alguém argumentasse.
- E evitaste as moções para lhe concederem jogos de vitória ou coisas que se
tornariam do conhecimento público de todos, até do Conto de Cabeças - disse ela
com satisfação. - Excelente meu amor, excelente!
333
Ele puxou-a para o seu lado do divã e beijou-lhe as pálpebras, as faces e a
boca
deliciosa.
- Apetece-me fazer amor - murmurou-lhe ao ouvido. - Vamos então - murmurou-lhe
ela pegando-lhe na mão.
Enlaçados, saíram da sala de estar de Lívia Drusila e entraram no seu cubículo
de dormir. Agora, enquanto ele estava animado de prazer! Agora, agora!, pensou
ela tirando as roupas de ambos e deitando-se voluptuosamente na cama. Beija-me
os seios, beija-me o ventre, beija-me o que fica mais abaixo, cobre-me de
beijos, enche-me com a tua semente!
Seis nundinae mais tarde, Octaviano voltou a convocar o Senado, armado com uma
pilha de provas de que sabia não ir necessitar mas que, por prevenção, tinha
que ter à mão. Desta vez começou por anunciar que havia dinheiro suficiente no
Tesouro para levantar alguns dos impostos e reduzir outros, e seguiu aquela
declaração com a afirmação de que um governo adequadamente republicano seria
restaurado assim que a campanha na Ilíria estivesse concluída. Os triúnviros
deixariam de ser necessários, os candidatos consulares poderiam apresentar-se
sem a aprovação triunviral, o Senado teria o poder supremo, as Assembleias
reunir-se-iam regularmente. Todos aqueles anúncios foram recebidos com vivas e
aplausos estrondosos.
- Contudo - disse ao Senado numa voz sonante -, antes de concluirmos, teremos
que discutir a situação no Oriente. Isto é, a situação do imperator Marco
António. Em primeiro lugar, Roma recebeu muito pouco em tributo das províncias
de Marco António desde que este assumiu o triunvirato no Oriente, pouco depois
de Filipos, o que já foi há seis anos e meio. O facto de eu, triúnviro de Roma,
Itália e das ilhas, ter conseguido retirar alguns impostos e baixar outros é,
na verdade, um feito unicamente meu sem qualquer contributo ou ajuda de Marco
António. E, antes que alguém nas bancadas da frente ou do meio salte para me
dizer que Marco António me doou cento e vinte navios para a campanha contra
Sexto Pompeu, devo dizer-vos a todos que ele cobrou a Roma pela utilização
desses navios. Sim, cobrou a Roma! Oiço-os perguntar. Quanto? Quarenta e quatro
mil talentos, pais conscritos! Uma soma que representa quarenta por cento do
recheio dos cofres de Sexto Pompeu! Os restantes sessenta e seis mil talentos
vieram para Roma, não para mim. Repito, não para mim! Serviram para pagar as
enormes dívidas públicas e normalizar o fornecimento de cereais. Eu sou um
servo de Roma e não tenho desejo de ser o senhor de Roma! Dela só recebo aquilo
que os costumes e a tradição honraram através dos tempos. Aqueles cento e vinte
navios custaram trezentos e sessenta e seis talentos cada e foram alugados por
António e não dados. Uma quinquerreme nova custa cem talentos, mas tivemos que
alugar a frota de Marco António. Não havia dinheiro no Tesouro e não podíamos
continuar a adiar a nossa campanha contra Sexto Pompeu por mais um ano.
334
Por isso, em nome de Roma, concordei com esta extorsão... pois de uma extorsão
se tratou!
Por aquela altura já as bancadas estavam mergulhadas no caos, com os seus
ocupantes a gritarem insultos ou palavras de incentivo e os setecentos
senadores de António conscientes de estarem na defensiva e, devido a esse
facto, estarem a fazer o dobro do barulho. Com uma expressão composta,
Octaviano esperou que o furor amainasse.
-Ah, mas o Tesouro recebeu esses sessenta e seis mil talentos de prata? -
perguntou Publícola. - Não! Só foram depositados cinquenta mil talentos! O que
aconteceu aos outros dezasseis mil? Não foram parar aos teus cofres, Octaviano?
- Não foram - disse Octaviano numa voz suave. - Foram pagos às legiões de Roma
para evitar motins muito graves. Um assunto que tenciono discutir com os
membros da Câmara numa outra ocasião, pois isto tem que acabar. Hoje a Câmara
está a discutir a administração do Oriente por Marco António. É um embuste,
pais conscritos! Um embuste! Os magistrados de Roma, de mim para baixo, não
recebem quaisquer notícias das actividades de António no Oriente, assim como o
Tesouro de Roma não recebe tributos do Oriente!
Fez uma pausa para observar as bancadas, primeiro as da direita e depois as da
esquerda, os olhos detendo-se mais longamente nos partidários de António que
começavam a encolher-se. Sim, pensou, eles sabem. Pensariam eles que eu não
descobriria? Terão pensado que eu estava a ser sincero quando lhes pedi que
votassem um louvor a António?
- Tudo no Oriente é um embuste - disse em voz alta -, tudo até às proclamadas
vitórias de Marco António contra os Partos. Não houve quaisquer vitórias, pais
conscritos. Absolutamente nenhumas. Em vez disso, António sofreu uma derrota.
Antes de ele assumir o triunvirato, o palácio do rei dos Partos em Ecbátana,
exibia sete Águias Romanas, perdidas quando Marco Crasso e sete legiões foram
dizimadas em Carras. Uma vergonha deplorada por todos os Romanos! A perda de
uma Águia significa a perda de uma legião em circunstâncias em que o inimigo
fica no controlo do campo de batalha quando esta termina. Aquelas sete Águias
representam a vergonha de Roma, pois eram as únicas em poder de um inimigo.
Sim, uso o pretérito! Propositadamente! Pois durante os seis anos e meio em que
Marco António governou o Oriente, mais quatro Águias partiram para o palácio de
Verão em Ecbátana! Perdidas por Marco António! As primeiras duas pertenciam às
duas legiões que Gaio Cássio deixou na Síria e a quem António confiou a defesa
da Síria quando regressou, para se divertir em Atenas, após a invasão dos
Partos. Mas qual era o seu dever? Ora, o seu dever era permanecer na Síria e
expulsar o inimigo! O que ele não fez. Fugiu para Atenas e continuou com o seu
estilo de vida dissoluto. O governador nomeado por ele, Saxa, foi morto. Como
também foi morto o irmão de Saxa.
335
Regressou António para os vingar? Não, não regressou! Governou o que lhe
restava do Oriente a partir de Atenas e, quando os Partos foram expulsos, o seu
conquistador foi Públio Ventídio, um vulgar criador de mulas! Um bom homem, um
soberbo general, um homem de quem Roma se pode orgulhar, orgulhar, orgulhar!
Enquanto o seu chefe se divertia em Atenas e fazia pequenas viagens através do
Adriático para me atormentar, a um colega, por não alcançar os meus objectivos
como estava estipulado no nosso acordo. Mas eu alcancei os meus objectivos e,
quando chegou o momento, estava presente, em pessoa. Ter confiado o comando da
minha campanha a Marco Agripa foi puro bom senso. Ele é muito melhor general do
que eu... ou, suspeito, do que Marco António! Pois eu dei liberdade total a
Marco Agripa, enquanto que António atou Ventídio de pés e mãos. Ele devia
manter os Partos a postos para o seu chefe para quando este lhe apetecesse
mexer o rabo musculado, levasse cinco meses ou cinco anos! Felizmente para
Roma, pais conscritos, Ventídio ignorou as suas ordens e expulsou os Partos.
Pois não posso deixar de pensar, pais conscritos, que se Ventídio tem obedecido
às suas ordens, António teria conduzido as suas legiões à derrota! Tal como
agora!
Calou-se unicamente para se regozijar com o profundo silêncio dos oitocentos
homens, na sua maioria antonianos, paralisados, perguntando-se o que Octaviano
saberia, temendo a conclusão que se aproximava. Não se ouviram gritos de
protesto, nem um!
- No último Maio - disse Octaviano num tom de voz normal -, António conduziu
uma força poderosíssima de Carana, na Pequena Arménia, para leste numa longa
marcha. Dezasseis legiões romanas, noventa e seis mil homens, e uma força
auxiliar de infantaria e cavalaria das suas províncias, mais cinquenta mil
homens; deteve-se em Artaxata, na capital da Arménia, antes de iniciar a viagem
por terras desconhecidas, guiado por uns arménios da confiança de António. Uma
das tragédias desta história, pais conscritos, é que Marco António demonstrou
uma estranha tendência para confiar nos homens errados. Os seus conselheiros
bem que puderam protestar até os céus caírem, mas António não escutou os seus
sábios conselhos. Confiou em quem não devia ter confiado, começando pelo rei da
Arménia e depois o rei da Média. Os dois Artavasdes primeiro atiraram-lhe areia
para os olhos e, depois, esfolaram-no. A nossa pobre ovelha, António, perdeu o
comboio das bagagens, o maior comboio alguma vez reunido por um comandante
romano e, no processo, perdeu duas boas legiões comandadas por Gaio Ópio
Estatiano de uma eminente família de banqueiros. Mais duas Águias de prata para
Ecbátana, fazendo com que do total de onze, que adornam o palácio de Verão do
rei Fraates, quatro sejam de António! Uma tragédia? Sim, evidentemente. Mas
mais do isso, pais conscritos... uma calamidade] Que inimigo estrangeiro irá
temer o poder de Roma quando as tropas romanas perdem as suas Águias?
336
Desta vez o silêncio foi quebrado por soluços abafados; a maioria dos senadores
não tinha, de modo algum, ouvido aquela história e, mesmo a maior parte dos que
a tinham ouvido, não conheciam os pormenores.
Octaviano recomeçou.
- Sem o seu equipamento de cerco, desviado pelo rei Artavasdes da Média
juntamente com o resto da bagagem, Marco António ficou futilmente acampado em
frente da cidade de Fraaspa durante mais de cem dias, incapaz de a tomar. Os
seus destacamentos de aprovisionamento estavam à mercê das emboscadas dos
Partos, comandados por um tal de Monaeses, o parto em quem António confiara
totalmente. Quando o Outono chegou, António não teve alternativa senão retirar.
Oitocentos quilómetros até Artaxata, perseguidos por Monaeses e uma horda de
partos, que apanharam, aos milhares, aqueles que ficavam para trás. Na maioria
tropas auxiliares que não conseguiam marchar ao mesmo ritmo das legiões
romanas. Mas um governador romano que emprega tropas auxiliares tem o dever de
honra de as proteger como se fossem romanas e António abandonou-as
deliberadamente para salvar as suas legiões. Talvez eu ou Marco Agripa
tivéssemos feito o mesmo em circunstâncias semelhantes, mas duvido que qualquer
um de nós tivesse perdido o comboio das bagagens ao permitir que este ficasse
centenas de quilómetros para trás do exército.
"A retirada foi conseguida e o exército instalado num acampamento temporário em
Carana no final de Novembro. António fugiu então para um pequeno porto sírio,
Leuke Kome, deixando a Públio Canídio o encargo de trazer as tropas que estavam
desesperadamente necessitadas de auxílio. Alguns dos soldados pereceram nessa
última marcha em consequência do frio terrível, muitos perderam dedos dos pés e
das mãos devido ao gelo. Dos seus cento e quarenta e cinco mil homens, mais de
um terço morreu, a vasta maioria dos quais auxiliares. A honra de Roma ficou
maculada, pais conscritos. Menciono a perda de um homem em especial, um rei-
cliente nomeado por Marco António - Polémon do Ponto, que contribuíra em muito
para as vitórias de Públio Ventídio e contribuíra generosamente com homens para
António, incluindo a sua própria pessoa. Acrescento que decidi, em nome de
Roma, despender algum do saque de Sexto Pompeu no resgate do rei Polémon que
não merece morrer cativo dos Partos. Custará uma ninharia ao Tesouro: vinte
talentos.
O choro era agora audível, com muitos dos senadores sentados com a ponta da
toga passada sobre a cabeça. Um dia triste para Roma.
- Disse-lhes que o exército de António estava desesperadamente necessitado de
socorro. Mas para quem se virou António em busca de auxílio? Onde foi ele
procurar esse auxílio? Pediu-o a vós, pais conscritos? Pediu-o a mim? Não, não
pediu! Pediu-o a Cleópatra do Egipto! A uma estrangeira, a uma mulher que adora
deuses animalescos, a uma não romana! Sim, pediu-lho a ela! E enquanto a
aguardava, informou o Senado e o Povo da sua campanha desastrosa?
337
Embebedou-se até cair durante dois meses inteiros, parando apenas uma dúzia de
vezes por dia para sair da tenda e perguntar, "Ela virá?" como um rapazinho a
chorar pela mamã. "Quero a minha mamã!" Era na verdade o que ele estava a
dizer, uma e outra vez. "Quero a minha mamã, quero a minha mamã!" O rapazinho
Marco António, triúnviro para o Oriente.
"E, eventualmente, ela acabou por chegar, pais conscritos do Senado. A Rainha
das Bestas veio, trazendo comida, vinho, médicos, ervas medicinais, ligaduras,
frutos exóticos, toda a fartura do Egipto! E, à medida que os soldados entravam
a coxear em Leuke Kome, ela cuidava deles. Não em nome de Roma mas em nome do
Egipto! Enquanto Marco António bêbado, deitava a cabeça no seu colo e
balbuciava! Sim, balbuciava!
Publícola pôs-se de pé de um salto.
- Isso não é verdade! - gritou. - Mentes, Octaviano!
Octaviano esperou mais uma vez pacientemente que a confusão amainasse com um
sorriso ligeiro a brincar-lhe nos lábios como a luz do sol sobre as águas. Era
um começo; sim, definitivamente, aquele era um começo. Uns quantos dos
senadores antonianos menos convictos estavam suficientemente zangados para o
abandonarem e à sua causa. E só fora precisa a palavra balbuciar.
- Tens alguma proposta a fazer? - perguntou Quinto Larónio, um dos apoiantes de
Octaviano.
- Não, Larónio, não tenho - disse Octaviano enfaticamente. - Vim até à Cúria
Hostília do meu divino pai, hoje, para contar uma história, para repor a
verdade. Já o disse muitas vezes antes, e volto a repeti-lo agora!, não farei a
guerra contra outro romano! Por nenhuma razão, nem mesmo esta, porei sequer a
hipótese de entrar em guerra com o triúnviro Marco António! Ele que asse no seu
próprio fogo! Ele que continue a cometer erro após erro, até que esta Câmara
decida que, tal como Marco Lépido, lhe deve ser retirada a sua magistratura e
as suas províncias, eu próprio não o proporei, pais conscritos, nem agora nem
no futuro. - Calou-se com ar pesaroso. - Isto é, a não ser que Marco António
rejeite a sua cidadania e o seu país. Façamos sacrifícios a Quirino e a Sol
Indígetes para que Marco António nunca faça uma coisa dessas. Hoje não haverá
debate. A sessão está terminada.
Desceu da plataforma e caminhou ao longo do pavimento de mármore preto e branco
em xadrez até às grandes portas de bronze do fundo da sala, onde os seus
lictores e os guardas germanos o rodearam. As portas não tinham sido fechadas,
um ardil inteligente e, sem fazerem ideia do que se iria passar, os cônsules
não tinham insistido para que o fossem. Os espectadores no exterior, que também
eram frequentadores do Fórum romano, tinham ouvido tudo. Passada uma hora a
maior parte de Roma ficaria a saber que Marco António não era herói coisa
nenhuma.
338
- Vislumbro uma pequena esperança - disse ele a Lívia Drusila, Agripa e Mecenas
ao jantar nessa tarde.
- Esperança? - perguntou a mulher. - Esperança de quê, César?
- Adivinhaste? - perguntou ele a Mecenas.
- Não, César. Esclarece-nos por favor.
- Adivinhaste, Agripa?
- Talvez.
- Sim, terias que ser tu. Estiveste comigo em Filipos e ouviste muita coisa que
não contei a mais ninguém. - Octaviano ficou em silêncio.
- Por favor, César! - gritou Mecenas.
- Surgiu-me de repente, enquanto falava no Senado. De improviso, dado o assunto
em questão. É divertido contar histórias e não o devemos fazer de uma maneira
pomposa. É claro que conheci Marco António durante toda a minha vida e, em
tempos, gostei verdadeiramente dele. Ele era a minha antítese: grande,
musculoso, afável. O tipo de sujeito que a minha saúde não me deixava ser. Mas
depois, suponho que em simultâneo com o meu divino pai, fiquei desiludido.
Especialmente depois de António ter massacrado oitocentos cidadãos no Fórum
romano e ter subornado as legiões do meu divino pai. Duas grandes desilusões!
Não lhe podia ser permitido tornar-se no seu herdeiro. O pior de tudo é que ele
não tinha quaisquer dúvidas de que herdaria e esse foi o maior choque da sua
vida. Decidiu arruinar-me... mas vocês sabem de tudo isto, portanto vou passar
ao presente.
Escolheu cuidadosamente uma azeitona, enfiou-a na boca, mastigou e engoliu sob
o olhar dos restantes que sustinham a respiração.
- Foi na passagem em que comparei António com um rapazinho pequeno a chamar
pela mãe: "Quero a minha mamã!" E de repente tive uma visão do futuro, mas uma
visão vaga, como que através de uma placa de âmbar. Tudo depende de dois
factores. O primeiro é a carreira de António de amargos desapontamentos, desde
a exclusão do testamento de César até à expedição contra os Partos. Ele não
consegue lidar com os desapontamentos, estes dão cabo dele. Destroem a sua
capacidade de pensar, exacerbam-lhe o temperamento, fazem-no procurar
desesperadamente o prazer e provocam ataques de bebedeira.
Sentou-se direito no divã e ergueu uma das mãos pequenas e pouco atraentes.
- O segundo factor é a rainha Cleópatra do Egipto. É em torno dela que tudo
gira, do destino dele ao meu destino. Se ela passar a representar,
literalmente, uma mãe para António, ele satisfar-lhe-á todos os caprichos,
ordens e pedidos. Isso está na sua natureza, talvez devido ao facto de a sua
mãe verdadeira ser um tal... desapontamento. Cleópatra é uma monarca reinante e
nasceu para o ser. Desde a morte de Divus Julius, ela não tem tido conselho nem
assistência.
339
E já tem alguma história com António: ele passou um Inverno em Alexandria e ela
deu-lhe um filho e uma filha. No Inverno passado esteve com ele em Antioquia e
deu-lhe mais um rapaz. Em circunstâncias normais, eu considerá-la-ia como mais
uma das muitas conquistas reais de António, mas o comportamento dele em Leuke
Kome sugere que a vê como alguém que lhe é indispensável... tal como a sua
mamã.
- E o que é que viste exactamente como que através de uma placa de âmbar?
-perguntou Lívia Drusila com os olhos brilhantes.
- Um compromisso. De António para com Cleópatra. Uma não romana que não se
contentará com os presentes relativamente triviais que António lhe deu: Chipre,
Fenícia, Cilicia Traqueia e m concessões do bálsamo e do betume. Ele não lhe
deu a Tira Síria e Sídon, nem lhe deu a Selêucia ciliciana... os entrepostos
importantes onde está a verdadeira riqueza. Apesar de eu me preparar para
regressar ao Senado dentro de um mês para me queixar destas concessões à Rainha
das Bestas... não acham que é um bom nome para ela? A partir de agora juntarei
o nome dela ao de António constantemente. Vou sublinhar o facto de ser
estrangeira e de ter enfeitiçado Divus Julius. As suas grandes ambições. As
suas ambições relativamente a Roma através da pessoa do seu filho mais velho,
que afirma ser filho de César, apesar de toda a gente saber que o rapaz é
malnascido, filho de um qualquer escravo egípcio que ela usou para satisfazer
os seus vorazes apetites sexuais. Pff!
- Júpiter, César, isso é de génio! - gritou Mecenas esfregando as mãos de
contente. Depois franziu o sobrolho. - Mas será o suficiente? - perguntou. -
Não estou a ver António a abdicar da sua cidadania nem tão-pouco Cleópatra a
encorajá-lo a fazê-lo. Ele é-lhe mais útil como triúnviro.
- Não te sei responder a isso, Mecenas, o futuro é demasiado nebuloso. No
entanto ele não terá que abdicar formalmente da sua cidadania. Só teremos que
conseguir fazer parecer que ele abdicou. - Octaviano tirou as pernas de cima do
divã e esperou que o bater de palmas fizesse aparecer um criado para lhe atar
os sapatos. - Vou pôr a minha gente a falar - disse ele estendendo a mão a
Lívia Drusila. - Anda minha querida, vamos ver os peixes novos.
- Oh, César, foi ouro puro! - exclamou ela com a admiração estampada no rosto.
- Sem uma única falha!
- Uma fêmea e grávida. - Apertou-lhe os dedos. - Um nome para ela? Tens
sugestões?
- Cleópatra. E aquele tipo enorme ali é António.
Ali à volta nadava uma carpa muito mais pequena, de um negro aveludado, com uma
forma parecida a um tubarão.
340
-Aquele é Cesarião - disse Octaviano apontando. - Vês? Anda por ali sem ser
notado, ainda uma criança, mas já um perigo.
- E aquele - disse Lívia Drusila apontando para um peixe-dourado - é o
imperator César Divi Filius. O mais belo de todos.
Em Maio as últimas tropas de António chegaram a Leuke Kome e aos ternos
cuidados das centenas de escravos de Cleópatra; sem ter consciência das
consequências políticas da sua presença ao lado de António, os soldados
estavam-lhe muito gratos. A maior parte das vítimas do gelo estava fora do
alcance da salvação, mas alguns ainda conservavam os dedos enegrecidos e a
medicina egípcia era melhor do que a romana ou a grega. Ainda assim uns dez mil
legionários não voltariam a empunhar uma espada ou a fazer uma longa marcha.
Para surpresa e espanto de António, a sua frota ateniense veio para Selêucia
Pieria no início do mês, trazendo consigo quarenta e três mil arcas de carvalho
- três dos navios tinham-se afundado numa tempestade ao largo do cabo Ténaro -
contendo a parte de António do tesouro de Sexto Pompeu. O dinheiro foi recebido
com alívio, pois Cleópatra não trouxera dinheiro e jurara que não doaria mais
fundos para campanhas infrutíferas contra os Partos. António pôde dar aos seus
soldados aleijados boas pensões e embarcá-los nas galés que regressariam a
Atenas e seriam desactivadas; os seus anos de navegação tinham terminado. O
dinheiro também lhe permitiu começar a reunir um novo exército liberalmente
recheado com veteranos da sua primeira e amargamente desapontante tentativa.
- Mas porque haveria Octaviano de fazer uma coisa destas? - perguntou
Cleópatra.
- Fazer o quê, meu amor?
- Enviar-te a tua parte do tesouro de Sexto.
- Porque ele fez toda a sua carreira com base numa bondade esfuziante. Cai bem
junto do Senado e para que quer ele o dinheiro? Ele é triúnviro de Roma e tem o
Tesouro ao seu dispor.
- Deve estar cheio até ao tecto - disse ela pensativamente.
- É o que deduzo da carta de Octaviano que vinha a acompanhar o dinheiro.
- Que não me deste a ler.
- Não tens o direito de a ler.
- Discordo. Quem é que te trouxe auxílio a este local desolado? Fui eu e não
Octaviano! Dá-ma António.
- Diz "por favor"
- Não, não digo! Tenho o direito de a ler! Passa-a para cá. Ele serviu um copo
de vinho e bebeu avidamente.
341
- Estás a ficar muito cheia de ti - disse com um arroto. - O que é que queres
mais? Um par de botas militares?
- Talvez - disse ela estalando os dedos. - Estás em dívida para comigo,
António, portanto passa-a para cá.
De cenho franzido ele deu-lhe uma única folha de papel faniano que ela leu, tal
como César também costumava fazer, de um único relance.
- Pff! - cuspiu amarrotando a carta e lançando-a para um canto da tenda. - Ele
é, quanto muito, semialfabetizado!
- Já estás descansada quanto ao conteúdo da carta?
- Nunca estive ralada, mas sou tua igual em poder, em estatuto e em riqueza.
Sou a tua parceira neste empreendimento oriental. Tens que me mostrar tudo, tal
como terei que estar presente em todos os teus conselhos e reuniões. Algo que
Canídio compreendeu, mas que não está ao alcance do entendimento de gente
desprezível como Tício ou Aenobarbo.
- Tício tudo bem, mas Aenobarbo? Está longe de ser desprezível. Ora, Cleópatra,
deixa de ser tão sensível! Mostra aos meus colegas aquele teu lado que só a mim
é permitido ver: o teu lado amável, amoroso e preocupado.
O pezinho dela, calçado numa sandália dourada, bateu no chão de terra da tenda
e a sua expressão tornou-se ainda mais sombria.
- Estou muito cansada de Leuke Kome, é esse o problema - disse ela mordendo o
lábio. - Porque não podemos mudar-nos para Antioquia para alojamentos que não
gemam e estremeçam sempre que o vento sopra?
António pestanejou.
- Por razão nenhuma, na verdade - disse ele parecendo surpreendido. - Mudemo-
nos para Antioquia. Canídio pode continuar a cuidar disto aqui e a preparar as
tropas. - Suspirou. - Só no próximo ano é que as poderei conduzir novamente até
Fraaspa. Aquele cão traiçoeiro de Monaeses! Hei-de ter a cabeça dele, juro!
- Se tiveres a cabeça dele passarás a beber menos?
- Provavelmente - disse ele e pousou o copo como se este contivesse lava. -Oh,
não compreendes? - gritou estremecendo. - Perdi a minha sorte! Se é que alguma
vez a tive. Sim, tive sorte... em Filipos. Mas apenas em Filipos, é o que me
parece agora. Antes e depois disso... não tive sorte nenhuma. É por isso que
tenho que continuar a combater os Partos. Monaeses fugiu com a minha sorte e
com duas das minhas Águias. Quatro, se incluirmos as duas que Pácoro roubou.
Tenho que as recuperar, a minha sorte e as minhas Águias.
Ele anda sempre às voltas, pensou ela, sempre a mesma conversa sobre a sorte
perdida e o triunfo em Filipos. Os bêbados falam em círculos, dizem sempre a
mesma coisa, como se houvesse ali alguma pérola de sabedoria que tivesse o
poder de curar todos os infortúnios ou males deste mundo.
342
Dois meses em Leuke Kome a ouvir António a dizer o mesmo e a caçar a sua
própria cauda. Talvez quando chegarmos a um sítio novo e diferente ele melhore.
Apesar de não saber dar um nome ao que o aflige, eu chamo-lhe melancolia
profunda. O seu humor é péssimo e dorme de mais, como se não quisesse acordar e
ver a vida, mesmo que eu esteja nela. Será que acha que se deveria ter
suicidado naquela noite em que havia no ar a ameaça de motim? Os Romanos são
estranhos, têm uma noção de honra que os leva a cair sobre as espadas. Para
eles a vida não é algo sem preço, tem um limite imposto por aquilo a que chamam
dignitas e não têm medo de morrer, como acontece à maioria dos povos, incluindo
o egípcio. Portanto terei que arrancar pela raiz a melancolia de António ou
esta estrangulá-lo-á. Tenho que lhe devolver a sua dignitas. Preciso dele,
preciso dele! Completo e inteiro, o velho António. Capaz de derrotar Octaviano
e de pôr o meu filho no trono de Roma que há quinhentos anos que está vazio. À
espera de Cesarião. Oh, como sinto a falta de Cesarião! Se conseguirmos chegar
a Antioquia, convencerei António a continuar até Alexandria. Assim que lá
estiver recuperar-se-á.
Mas Antioquia reservava-lhes alguns choques, nenhum deles agradável. António
tinha à sua espera uma pilha de cartas de Publícola, enviadas de Roma, todas
datadas no exterior para que as pudesse ler por ordem.
As cartas relatavam pormenorizada e coloridamente a campanha de Octaviano
contra Sexto Pompeu, embora tornassem claro que a principal razão de queixa de
Publícola era a sua exclusão daquilo que apelidava de operação muito eficaz. E
Octaviano não se escondera no equivalente italiano de um pântano, nem mesmo
durante as duras batalhas que se tinham desenrolado após ele ter finalmente
desembarcado em Tauroménio. As faltas de ar, dizia ele alegremente a todos
quantos estivessem dispostos a ouvi-lo, tinham desaparecido completamente desde
o seu casamento. Hum, pensou António. Os peixes frios dão-se bem uns com os
outros.
A notícia do destino de Lépido irritou-o; de acordo com os termos do pacto
celebrado entre os três, ele tinha direito a voto numa questão como a expulsão
de Lépido dos seus cargos públicos e províncias, mas Octaviano não se dera ao
trabalho de o contactar, invocando, como desculpa, o isolamento de António na
Média. Trinta legiões! Como teria conseguido Lépido acumular um número tão
impressionante num local tão remoto como a província de África? E o Senado,
incluindo os seus partidários, os partidários de António, tinha votado a favor
do exílio do pobre Lépido para fora de Roma! Estava preso na sua villa de
Circei.
Também recebera uma carta dele repleta de desculpas e de autocomiseração. A
mulher, a irmã de Bruto, Júnia Menor - a Júnia Maior era a mulher de Servílio
Vácia -, nem sempre lhe fora fiel e estava a tornar-lhe a vida difícil agora
que não podia livrar-se dele. Lamentos, lamentos, lamentos. António cansou-se
das desventuras de Lépido e rasgou a carta meio lida.
343
Talvez Octaviano tivesse alguma razão do seu lado; certamente que o vermezinho
tratara inteligentemente das tropas de Lépido. Como ele interpretava bem aquele
papel de rapaz jovem e adorável!
A versão de Octaviano do incidente de Lépido era algo diferente, embora também
tivesse comentários a fazer sobre a inclusão das legiões inimigas nas legiões
de Roma, como Lépido fizera com os soldados de Sexto Pompeu.
"Pensei que era mais do que tempo de o Senado" e o Povo de Roma verem com
clareza cristalina que os dias em que as tropas inimigas eram tratadas com
indulgência terminaram; essa indulgência só pode dar origem a ressentimentos,
especialmente quando os legionários de Roma são forçados a tolerar a seu lado a
presença de homens contra quem embateram um nundinum antes. Sabendo que aqueles
homens, por eles detestados, receberão terras quando se retirarem como se nunca
tivessem empunhado uma espada contra Roma. Mudei tudo isso. Os soldados,
marinheiros e remadores de Sexto Pompeu receberam um tratamento muito duro",
dizia a carta de Octaviano. "Não é um costume romano a tomada de prisioneiros,
mas também não é um costume romano libertar os inimigos derrotados como se
estes fossem romanos. Sexto Pompeu tinha poucos romanos nas suas legiões e
tripulações. Aqueles que tinha eram hostis. Noutras circunstâncias poderia ter
optado por vendê-los como escravos, mas em vez disso decidi transformá-los num
exemplo.
"0 próprio Sexto Pompeu escapou juntamente com Libão e com dois dos assassinos
do meu divino pai, Décimo Turúlio e Cássio Parmesão. Fugiram para oriente e
tornaram-se assim num problema teu e não meu. Correm rumores de que procuraram
asilo em Mitilene."
Mas aquilo não era, de forma alguma, tudo o que Octaviano tinha para dizer.
Continuou num tom brando, as palavras seguras e fortes. Aquele era um novo
Octaviano, vitorioso e dotado com uma sorte soberba e consciente disso. Não era
uma carta em que António pudesse cuspir e rasgar.
"Já deves ter recebido a tua parte do tesouro de Sexto Pompeu juntamente com a
minha carta que o acompanha e venho comunicar-te, com tua licença, que esta
enorme soma de dinheiro, pago em moeda da República, cancela qualquer obrigação
minha de te enviar vinte mil soldados. Tens, evidentemente, a liberdade de vir
a Itália recrutá-los, mas eu não tenho nem tempo nem inclinação para fazer o
teu trabalho sujo. O que fiz foi escolher dois mil dos melhores homens, todos
dispostos a servirem contigo no Oriente, e enviá-los-ei brevemente para Atenas.
Como vi com os meus próprios olhos que setenta das tuas galés de guerra estão a
dar as últimas, com as madeiras podres e cobertas de crustáceos, doar-te-ei
setenta "cincos" recentemente construídas, das minhas próprias frotas, bem como
algumas excelentes peças de artilharia e equipamento de cerco para ajudar a
substituir aquilo que perdeste na Média. Não foram concedidos quaisquer
triunfos pela campanha contra Sexto Pompeu que terá que ser considerado romano.
344
Devo, no entanto, elogiar muitíssimo Marco Agripa que provou ser um almirante
tão brilhante como o é enquanto general de tropas terrestres. Lúcio Cornifício,
que é o cônsul júnior deste ano, foi um comandante inteligente e valente, como
o foram também Sabino, Estatílio Tauro e Messala Corvino. A Sicília está
pacificada e sob o governo permanente de Marco Agripa que é o único beneficiado
com um latifundium à moda antiga na ilha. Tauro partiu para governar a
província de África; viajei com ele até Útica no início do seu mandato e posso
garantir-te que ele não abusará dos seus poderes. Na realidade ninguém abusará
dos seus poderes, desde os cônsules até aos pretores, passando pelos
governadores e magistrados menos importantes. E já avisei as legiões de Roma de
que não mais lhes serão pagos grandes bónus. No futuro lutarão por Roma e não
por um homem qualquer."
E continuava por aí fora no mesmo tom. Depois de ter acabado de ler o rolo
enorme, António atirou-o a Cleópatra.
- Toma, lê isto! - berrou. - O cachorrinho acha que é um lobo e, mais ainda,
que é o chefe da alcateia.
Depois de ler a carta num décimo do tempo de que António necessitara, ela
pousou-a com os dedos a tremerem ligeiramente e fixou os olhos dourados no
rosto de António. Aquilo não era nada bom, nada bom mesmo! Enquanto António
falhara no Oriente, Octaviano fora bem-sucedido no Ocidente. E não estivera com
meias medidas; uma vitória total e esmagadora que fizera jorrar riqueza para o
Tesouro, o que significava que Octaviano dispunha dos fundos necessários para
equipar e treinar novas legiões à medida que fosse necessitando delas e também
para manter as suas frotas.
- Ele é paciente - foi o seu comentário. - Muito paciente. Esperou seis anos
para o fazer, mas quando o fez, foi devastador. Acho que este Marco Agripa deve
ser um homem extraordinário.
- O Octaviano está colado a ele - grunhiu António.
- Correm boatos de que são amantes.
- Isso não me surpreenderia. - António encolheu os ombros e pegou na carta
seguinte que era muito mais curta. - É do Fúrnio, da província da Ásia.
As notícias da província da Ásia também não eram boas. Fúrnio escrevia-lhe
dizendo que Sexto Pompeu, Libão, Décimo Turúlio e Cássio Parmesão tinham
chegado ao porto de Mitilene, na ilha de Lesbos, no fim do anterior mês de
Novembro e não tinham ficado inactivos. A sua estada não fora muito longa; em
Janeiro já estavam em Éfeso a recrutar voluntários entre os veteranos que, ao
longo dos anos, tinham recebido terras na província da Ásia. Em Março já tinham
três legiões completas e estavam prontos para tentar conquistar a Anatólia. Um
assustado Amintas, rei da Galácia, unira forças com Fúrnio. Este achava que,
quando António recebesse aquela carta, já a guerra teria rebentado.
345
- Devias ter apagado a luz a Sexto Pompeu há anos - disse Cleópatra reabrindo
uma velha ferida.
- Como podia fazer uma coisa dessas se era ele que mantinha Octaviano ocupado e
fora do meu caminho? - perguntou António estendendo a mão para o jarro do
vinho.
- Não! - disse ela bruscamente. - Ainda não leste a última carta de Publícola.
Se tens que beber, António, bebe só depois de teres o trabalho terminado.
Infantilmente ele obedeceu, o que a convenceu de que precisava mais dos seus
bons conselhos do que do vinho. Mas o que iria ela fazer quando ele precisasse
mais do vinho do que dela? Uma ideia surgiu-lhe na cabeça: uma ametista! As
ametistas tinham poderes mágicos sobre o vinho e evitavam que este criasse
dependência. Iria mandar uma encomenda para o joalheiro real em Alexandria para
que lhe fizesse o anel de ametista mais magnífico do mundo. Quando o começasse
a usar, ele ultrapassaria a sua necessidade de vinho.
Evidentemente que Publícola sempre soubera que a campanha de António contra os
Partos falhara; fora ele que espalhara pelos quatro cantos de Roma a história
de que António obtivera uma grande vitória, seguindo a teoria de que aquele que
conseguisse espalhar primeiro a sua versão dos acontecimentos seria o mais
bem--sucedido. Escrevera anteriormente a António, num estado de espírito
jubiloso, dizendo-lhe que Roma e o Senado tinham acreditado na sua versão e
rindo-se do facto de o próprio Octaviano ter votado um louvor a António pela
sua "vitória". A mais recente das suas cartas era bem diferente. A maior parte
da carta era dedicada a relatar, na íntegra, o discurso de Octaviano no Senado
que descrevia a campanha de António como um falhanço abismal; os agentes que
Octaviano enviara para o Oriente tinham descoberto os mais ínfimos pormenores.
Quando conseguiu soletrar a carta até ao fim, António tinha as lágrimas a
correrem-lhe pelo rosto; Cleópatra observava-o com crescente desânimo e
arrancou-lhe o pergaminho das mãos e leu a diatribe cortante e intensamente
política. Oh, como se atrevia Octaviano a descrever o seu papel nos
acontecimentos como maligno! A Rainha das Bestas! "Quero a minha mamã!" Uma
brilhante manobra de difamação. Como conseguiria sarar António agora?
Amaldiçoo-te Octaviano, amaldiçoo-te! Que Sobek e Tawaret te entrem pelas
narinas e te afoguem, desfeito e quebrado!
Depois viu qual o caminho a seguir e perguntou-se porque não o teria visto
antes. António teria que ser desmamado de Roma, tinha que perceber que o seu
destino e a sua sorte estavam no Egipto e não em Roma. Far-lhe-ia um ninho em
Alexandria, tão confortável e lisonjeiro, tão recheado de diversões que ele
nunca mais quereria ir a sítio nenhum. Ele teria que se casar com ela; era uma
sorte que um povo tnonógamo, como o romano, ignorasse os casamentos com
estrangeiros por serem ilegais! Se, por enquanto, António tinha que se manter
ligado a Octávia isso não tinha importância.
346
Na realidade a sua união egípcia seria muito mais importante junto daqueles
para quem as suas relações privadas tinham significado: os reis-clientes e
príncipes menores.
Ficou sentada com a cabeça de António no colo e os olhos fixos num busto de
César, o parceiro perfeito que lhe fora roubado. Era de Afrodísia, cujos
escultores e pintores não tinham rival e tudo no busto estava certo, do tom
pálido do cabelo loiro aos olhos penetrantes, de um azul pálido rodeado por
anéis escuros como tinta. Uma onda de dor percorreu-a mas foi imediatamente
reprimida. Contenta-te com o que tens, não anseies pelo que poderias ter tido.
Haverá uma guerra, tem que haver uma guerra. A única questão é quando?
Octaviano mente com quantos dentes tem na boca quando diz que não haverá mais
guerras civis - terá que lutar com António ou perder o que tem. Mas ainda não,
a julgar por aquele discurso. Ele planeia treinar as suas legiões e levá-las ao
pico da forma, subjugando as tribos da Ilíria, e calcula que levará três anos
em campanhas. O que significa que temos três anos para nos prepararmos e
depois... invadiremos o Ocidente, invadiremos a Itália. Terei que deixar que
António acabe com o martírio dos Partos na sua cabeça de uma maneira que una as
suas legiões sem as destruir. Pois António não tem a classe de César como
general de tropas. Creio que sempre o soube, mas pensei que, com César morto,
ninguém entre os vivos poderia rivalizar com António. Mas agora que o conheço
melhor, percebo que os defeitos que ele revela como homem também afectam a sua
capacidade de comandar tropas. Ventídio era-lhe superior; assim como é, creio,
Canídio. Que Canídio faça o verdadeiro trabalho enquanto António, gozando a
reputação, entontece o mundo com os seus ilusórios truques de magia.
Primeiro o casamento. Fá-lo-emos assim que Cha'em cá chegue. Lançamos Canídio
para a primeira fase desta campanha idiota, garantimos que a Arménia seja
esmagada e a Média se sinta demasiado intimidada para agir. Manteremos António
fora do reino dos Partos propriamente dito. Terei que me esforçar por convencer
António de que, conquistando a Arménia e a Média Atropatene, já conquistou os
Partos. Tenho que o entontecer com vinho e tomar eu as rédeas dos
acontecimentos. Porque não hei-de ser capaz de conduzir uma campanha tão bem
como qualquer homem? Oh, António, porque não podes estar ao nível de César?
Como teria sido fácil! Um dia, não mais do que daqui a dez anos, Cesarião terá
que ser rei de Roma, pois quem é rei de Roma é rei do mundo. Conseguirei que
ele derrube os templos no Capitólio e que construa lá o seu palácio, com um
salão dourado onde presidirá às audiências. E os "deuses bestiais" do Egipto
tornar-se-ão nos deuses de Roma. Júpiter Óptimo Máximo prostrar-se-á aos pés de
Ámon-Rá. Já cumpri o meu dever para com o Egipto: três filhos e uma filha. O
Nilo continuará a provocar inundações.
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Ele até ao fim do ano já estará morto, razão pela qual juntei as legiões dele e
as de Aenobarbo ao total. No entanto penso que terei que ter trinta legiões,
nem todas estarão completas ou serão experientes. O que proponho é enviar as
menos numerosas das legiões sírias para a Macedónia e trazer as tropas
macedónias para aqui, para a minha campanha.
Canídio pôs um ar duvidoso.
- Compreendo as tuas razões, Marco António, mas aconselho-te vivamente a
deixares uma das legiões macedónias onde está. Manda chamar seis, mas não
envies para lá nenhuns dos teus homens sírios. Espera até teres recrutado mais
cinco legiões e envia-as. Concordo que a Macedónia é um bom local para soldados
novos e inexperientes - os Dardânios e os Bessos ainda não recuperaram de
Polião e de Censorino. Terás as tuas trinta legiões.
- Óptimo! - disse António sentindo-se mais bem-humorado do que se sentira
durante meses. - Vou precisar de dez mil cavaleiros, gálatas e trácios. Já não
posso recrutar mais cavalaria gaulesa, quem os controla é Octaviano e não se
sente inclinado a cooperar. Recusa-me as quatro legiões que me deve, o
merdinhas!
- Quantas legiões levarás para leste?
- Vinte e três, todas na máxima força e compostas por homens experientes. Cento
e trinta e oito mil homens, incluindo os não-combatentes. Desta vez não levarei
tropas auxiliares, são um problema demasiado grande. Ao menos a cavalaria
consegue acompanhar as legiões. Desta vez marcharemos em quadrado o tempo todo
e com o comboio da bagagem no meio. Onde o terreno for suficientemente plano,
formaremos em agmen quadratum.
- Concordo, António.
- No entanto, creio que devemos fazer alguma coisa este ano, apesar de eu ter
que ficar aqui até ver o que acontece com Sexto Pompeu. Terás que ser tu a
assumir o comando este ano, Canídio. Quantas legiões consegues reunir para
começar agora?
- Sete na máxima força se misturar coortes.
- É o suficiente. Não será uma campanha muito longa... aconteça o que
acontecer, não te deixes apanhar pelo Inverno a não ser que tenhas um
acampamento quente. Amintas pode dar-te imediatamente dois mil cavaleiros; a
julgar pela carta dele devem estar quase a chegar. Suspeito que se não os
tivesse já enviado os teria conservado para a guerra com Sexto.
- Tens razão, Sexto não vai durar muito - disse Canídio confortavelmente.
- Entra na Arménia propriamente dita por Carana. É importante que demos uma
pequena lição ao Artavasdes da Arménia. Assim ele ficará maduro para ser
colhido no próximo ano.
- Como queiras, António.
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Canídio abriu a boca para responder, depois fechou-a, abanou a cabeça e saiu.
- Confundiste-o - disse António.
- Estou consciente disso embora não perceba porquê.
- Ele não te conhece, minha querida - disse António com algum cansaço.
- Opões-te? - perguntou ela de dentes cerrados. Os pequenos olhos avermelhados
abriram-se muito.
- Eu? Edepol, não! O dinheiro é teu, Cleópatra. Gasta-o como quiseres.
- Bebe um copo! - berrou ela e depois, controlando a irritação, dirigiu-lhe o
seu sorriso mais encantador. - Na verdade, desta vez faço-te companhia. O meu
mordomo disse-me que esta colheita em particular foi comprada ao velho Asander,
o comerciante de vinhos e é especialmente boa. Sabias que Asander é uma
corruptela de Alexandre?
- Essa tentativa de mudar de assunto não é muito inteligente, mas faço-te a
vontade. - Sorriu. - Mas se vais beber terás que beber sozinha.
- Desculpa?
-A minha recuperação é completa, acabou-se o vinho. A boca dela abriu-se de
espanto.
- O quê?
- Ouviste-me. Cleópatra, amo-te até à perdição, mas achas mesmo que eu não
percebi o teu plano de me manteres embriagado? - suspirou e inclinou-se
ansiosamente para a frente. - Apesar de pensares que sabes aquilo porque o meu
exército passou na Média, não sabes. Assim como não sabes aquilo por que eu
passei. Para saberes terias que ter lá estado e não estiveste. Eu, o comandante
do meu exército, não mantive os meus homens em segurança porque entrei pelas
terras inimigas como um javali desvairado. Acreditei nos murmúrios de um agente
parto, mas não dei credibilidade aos avisos dos meus legados. Júlio César
estava sempre a criticar a minha impulsividade e tinha razão. Só eu posso ser
responsabilizado pelo falhanço da minha campanha na Média e sei-o muito bem.
Não sou nenhum idiota nem estou irreversivelmente viciado em vinho. Tu é que
pensas que estou! Precisei de apagar a minha negligência na Média bebendo até
ao esquecimento! Eu sou assim! E agora... bem, já passou. Digo-o novamente:
amo-te mais do que à vida. Nunca serei capaz de deixar de te amar. Mas tu não
estás apaixonada por mim, apesar de todos os teus protestos e tens a cabeça
cheia de esquemas e de maquinações para conseguir, para Cesarião, só os deuses
sabem o quê. O Oriente inteiro? O Ocidente também? Quererás que ele seja rei de
Roma? Sonhas permanentemente com isso, não é? Despejas as tuas ambições sobre
os ombros do pobre rapaz...
- Eu amo-te de verdade! - gritou ela interrompendo-o. -António, nunca penses
que não te amo! E o Cesarião... o Cesarião... - Gaguejou, demasiado atordoada
por aquela faceta de António para conseguir encontrar argumentos.
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Uma cama de campanha para dormir, tens mais armaduras do que togas e nem sequer
tens uma criada - disse Octaviano. - Sempre que tens comichão - riu-se
parecendo envergonhado -, coças com uma labrega qualquer do campo, com quem
nunca poderias ter uma união permanente. Não te estou a dizer que devias
abandonar as labregas do campo, compreendes, Agripa? Estou simplesmente a dizer
que te devias casar.
- Ninguém me quereria - disse ele frontalmente.
-Ah, mas estás enganado! Meu caro Agripa, és bem-parecido, és rico e tens um
estatuto elevado. És um consular!
- Sim, mas não tenho o sangue César, e não me agrada nenhuma daquelas raparigas
chamadas Cláudia, Emília, Semprónia ou Domícia. Se elas me aceitassem seria
simplesmente devido à minha amizade contigo. A ideia de uma mulher que me olhe
com superioridade não me atrai.
- Então olha um pouco mais para baixo mas não muito mais abaixo - incentivou
Octaviano. - Tenho a esposa ideal para ti.
Agripa pareceu desconfiado.
- Isso é obra de Lívia Drusila?
- Não, palavra de honra que não! A ideia é completamente minha.
- Quem então? Octaviano respirou fundo.
- A filha de Ático - disse com ar triunfante. - É perfeito Agripa, de verdade!
Não tem estatuto senatorial, embora eu admita que isso se deve apenas ao tata
dela preferir ganhar dinheiro por meios pouco senatoriais. Tem laços de sangue
com os Cecílios Metelos e portanto é suficientemente bem-nascida. E é herdeira
de uma das maiores fortunas de Roma!
- É demasiado nova. Sabes sequer qual é o aspecto dela?
-Tem dezassete anos, quase dezoito e sim, já a vi. É mais bem-parecida do que
bonita, tem boa figura e é extraordinariamente bem-educada, como seria de
esperar de uma filha de Ático.
- É mais dada às leituras ou às compras?
- À leitura.
O rosto franzido pareceu aliviado.
- Bem, isso é um ponto positivo. É morena ou loira?
- Mediana. -Oh!
- Olha, se eu tivesse uma parente com idade suficiente para casar contigo
poderias tê-la com a minha bênção! - gritou Octaviano erguendo as mãos no ar.
- Podia? Falas a sério, César?
- Sim, evidentemente que podias! Mas como não tenho, aceitas ou não a Cecília
Ática?
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- Humm... tenho a certeza de que tens razão, César, mas algo me diz que ele não
lhe oferece consolo poético. Oh, ela é virtuosa! Mas durante quanto tempo o
será se levares o Agripa para a Ilíria?
- Isso está nas mãos dos deuses, minha querida, e eu, para já, não faço tenções
de meter o bedelho no casamento do Agripa. Temos que esperar que apareça um
bebé que a mantenha ocupada. - Suspirou. - Talvez uma mulher muito nova não
seja o adequado para Agripa. Deveria ter-lhe sugerido Escribónia?
Fosse como fosse, quando Octávia veio jantar com Mecenas e a sua Terência, e
com Agripa e a sua Ática, já era evidente para a maior parte da classe superior
romana que o casamento de Agripa não prosperava. Ao ver a expressão sombria de
Agripa, o seu mais velho amigo desejava ter palavras de conforto para oferecer,
mas não conseguia fazê-lo. Ao menos, reflectiu, Ática estava grávida. E ele
tivera a coragem necessária para deixar cair nos ouvidos de Ático a sugestão de
que o seu muito amado liberto Epirota deveria ser mantido afastado da sua muito
amada filha. As mulheres que lêem, pensou, são tão vulneráveis como as mulheres
que fazem compras.
Octávia fez o caminho do palácio, nas Carinas, até a casa quase aos saltinhos,
de tão feliz que estava. Ia ver finalmente António! Tinham-se passado dois anos
desde que ele a deixara na Corcira, a bebé Antónia Menor, conhecida por
Tonilla, já andava e falava. Uma menina linda com o cabelo ruivo escuro do pai
e os seus olhos avermelhados, mas felizmente sem o seu queixo nem - pelo menos
até ao momento - o seu nariz. Oh, mas o feitio! Antónia era mais parecida com a
mãe, enquanto que Tonilla era igualzinha ao pai. Pára, Octávia, pára! Pára de
pensar nos teus filhos e pensa no teu marido a quem verás muito em breve. Que
alegria! Que prazer! Foi à procura da modista, uma mulher competente que
apreciava muito a sua posição na casa de António e que, para além disso, estava
muito ligada a Octávia.
Estavam profundamente embrenhadas numa conversa sobre quais os vestidos que
Octávia deveria levar para Atenas e que vestidos novos deveria fazer para a
ajudarem a deliciar o marido, quando o mordomo entrou para anunciar a chegada
de Gaio Fonteio Capito para a visitar.
Ela conhecia-o, mas não muito bem; estivera com ele quando embarcara com
António da última vez, mas o enjoo mantivera-a fechada na cabina e a viagem
terminara abruptamente na Corcira. Por isso saudou o alto, belo e
impecavelmente vestido Fonteio com alguma reserva, sem saber bem qual seria o
motivo da sua visita.
- O imperator César disse-me que tu e eu deveríamos levar presentes a Marco
António, em Atenas - disse ele não fazendo menção de se sentar -, e pensei que
deveria vir saber se há alguma cosia em especial de que necessites, seja para a
viagem seja para levares na bagagem para Atenas... um móvel ou alimentos não
perecíveis, talvez?
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Dos filhos que o marido tinha tido com Cleópatra ela sabia, incluindo o rapaz
que nascera no ano anterior, mas isso não a tinha perturbado; limitara-se a
deduzir que a rainha do Egipto era uma mulher fértil que, tal como ela própria,
não tomava precauções para não conceber. A impressão que tinha dela, era de uma
mulher que amara Divus Julius, apaixonadamente, completamente e que procurara o
consolo do primo deste e também filhos que garantissem o trono na geração
seguinte. Certamente que nunca ocorrera a Octávia que António não teria outras
mulheres; isso fazia parte da sua natureza e como conseguiria ele mudá-la?
Mas Perdita falara num amor infinito! Oh, ela transpirara malícia e veneno,
portanto porque haveria de acreditar nela? No entanto o parasita alojara-se sob
a pele de Octávia e começara a escavar um túnel através das suas entranhas em
direcção ao coração, às suas esperanças e aos seus sonhos. Não podia negar que
o marido pedira a ajuda de Cleópatra nem que ele continuava nos braços dessa
fabulosa monarca. Mas não, assim que ele soubesse dela, da presença de Octávia
em Atenas, devolveria Cleópatra ao Egipto e viria para ela. Tinha a certeza
disso, a certeza absoluta!
Mesmo assim, durante aquela hora andou sozinha para trás e para diante na sala,
combateu o verme enterrado na sua pele por Perdita, lutou pela sanidade, usando
a razão, e utilizou as suas enormes reservas de senso comum. Pois não fazia
sentido nenhum que António se tivesse apaixonado por uma mulher cuja principal
razão para ser famosa era ter seduzido Divus Julius, um intelectual, um esteta,
um homem de gostos pouco habituais e fastidiosos. Tão parecido com António como
a porcaria se parecia com erva de cheiro. Essa era a metáfora habitual, mas não
conseguia marcar as diferenças entre ambos. Como se António, um rubi, se
comparasse com uma conta de vidro vermelho? Não, não, porque estaria a perder
tempo com aquelas metáforas idiotas? A única coisa que Divus Julius e António
tinham em comum era o sangue juliano e, pelo que o seu irmão César dissera,
essa fora a única razão de Cleópatra ter procurado António. Ela tinha em
tempos, revelara-lhe o irmão César, feito uma proposta a ele por causa do seu
sangue juliano; os filhos dela tinham que ter sangue juliano. Ir para a cama
com uma rainha reinante, com o objectivo de lhe fazer filhos, teria agradado
imensamente a António e fora desse ponto de vista que Octávia encarara o caso
quando soubera dele pela primeira vez. Mas amor? Não, nunca! Impossível!
Quando Fonteio lhe veio fazer a sua rápida e costumeira visita diária,
encontrou Octávia subtilmente abatida; havia sombras por baixo daqueles olhos
maravilhosos, o sorriso tendia a esmorecer e as suas mãos moviam-se sem
destino. Decidiu ser directo.
- Quem é que te andou a encher os ouvidos? - perguntou. Ela estremeceu e pôs um
ar contrito.
- Nota-se? - perguntou.
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- Para mais ninguém a não ser eu. O teu irmão encarregou-me do teu bem-estar e
eu levo esse pedido muito a sério. Quem?
- Perdita.
- Mulher abominável! Que foi que ela te disse?
- Na verdade nada que eu já não soubesse, a não ser o casamento.
- Mas não foi o que ela disse, foi a maneira como disse, não é? -Sim.
Ele atreveu-se a pegar nas mãos inquietas num gesto que poderia ser
interpretado como reconfortante... ou um gesto amoroso.
- Octávia, escuta-me! - disse ele muito sério. - Não penses o pior, por favor.
Ainda é demasiado cedo e demasiado efémero para que tu, ou quem quer que seja!,
tires conclusões. Eu sou um bom amigo de António, conheço-o. Talvez não tão bem
como tu, que és mulher dele, mas de uma maneira diferente. Pode muito bem ser
que o casamento no Egipto tenha sido algo que ele considerou necessário para o
seu desempenho como triúnviro do Oriente. Isso não te pode afectar... tu és a
mulher dele, legalmente. Essa união inválida é um sintoma das provações por que
ele tem passado no Oriente onde nada correu como planeara. É, creio, uma forma
de estancar o fluxo dos desapontamentos. - Largou-lhe as mãos antes que ela
pudesse sentir a intimidade do toque. - Compreendes?
Ela parecia melhor, mais descontraída.
- Sim, Fonteio, compreendo. E agradeço-te do fundo do coração.
- A partir de agora não estarás em casa quando Perdita te visitar. Oh, ela virá
a correr da próxima vez que Peregrino receber uma carta dos seus benditos
amigos. Mas tu não a receberás. Prometes?
- Prometo - disse ela com um sorriso.
- Então tenho boas notícias. Vai haver uma representação do Oedipus Rex esta
tarde. Dou-te alguns minutos para te arranjares e depois vamos ver se os
actores valem alguma coisa. Diz-se por aí que são magníficos.
Um mês após a carta de Octávia ter sido enviada para Antioquia, a resposta de
António chegou-lhe às mãos.
Que estás tu a fazer em Atenas sem os vinte mil homens que o teu irmão me deve?
Aqui estou eu, a preparar uma nova expedição na Média Partia, tremendamente
necessitado de boas tropas romanas e Octaviano tem o desplante de me enviar só
dois mil homens? É demais, Octávia, é simplesmente demais. Octaviano sabe
perfeitamente que, neste momento, não posso regressar a Itália para recrutar
legionários pessoalmente e fazia parte do nosso acordo ele recrutar--me quatro
legiões. Legiões de que necessito desesperadamente.
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Agora recebo uma carta pateta tua, pairando sobre esta e aquela criança - achas
que o quarto das crianças e os seus ocupantes me ralam alguma coisa num momento
como este? O que me rala é o acordo quebrado por Octaviano. Quatro legiões, e
não quatro coortes! Os melhores entre os melhores, realmente! E o teu irmão
acha que eu preciso de um aríete gigantesco quando estou a tão pouca distância
dos cedros do Líbano?
Que a peste o leve a ele e a todos os que lhe estão associados!
Ela pousou a carta, banhada em suores frios. Não havia palavras de amor, nem
termos carinhosos, nem qualquer referência à sua vinda para além daquela
diatribe dirigida a César.
- Ele nem sequer me diz o que quer que eu faça com os homens e os equipamentos
que trouxemos - disse ela a Fonteio.
Este sentia o rosto rígido, a pele a picar como se tivesse sido atingida por
uma tempestade de areia. Os grandes olhos fixados nele, tão translúcidos que
eram janelas para os seus pensamentos mais íntimos, encheram-se de lágrimas que
começaram a correr-lhe pelas faces como se não desse por elas. Fonteio enfiou a
mão no sinus da toga e tirou o lenço que lhe entregou.
- Anima-te, Octávia - disse ele mal conseguindo controlar a voz. - Tiro duas
conclusões da leitura dessa carta. A primeira, é que esta reflecte uma faceta
de António que ambos conhecemos: irada, impaciente, frustrada. Estou a vê-lo e
a ouvi-lo a andar para trás e para a frente e a ter uma típica reacção inicial
àquilo que acha ser um insulto de César. Tu és apenas a intermediária, a
mensageira que ele mata para dar largas à fúria. Mas a segunda conclusão é mais
séria. Acho que Cleópatra ficou a ouvi-lo, foi tirando notas e ditou-lhe, ela
própria, a resposta. Se tivesse sido o próprio António a responder, ele teria
ao menos indicado o que quer fazer com aquilo que é, afinal de contas, um
donativo de materiais e de máquinas de guerra, bem como de soldados, de que ele
necessita muitíssimo. Já Cleópatra, uma novata em questões militares, não
estaria nada preocupada em dar directrizes. Foi ela quem escreveu a carta e não
António.
Era uma resposta que fazia sentido; Octávia secou as lágrimas, assoou-se, olhou
desalentada para o lenço sujo de Fonteio e sorriu.
- Inutilizei-o até que seja lavado - disse. - Agradeço-te, caro Fonteio. Mas
que devo fazer?
-Vir ver a representação das Nuvens de Aristófanes comigo e depois escrever a
António como se nunca tivesses recebido esta carta. Pergunta-lhe o que quer que
faças com os presentes de César.
- E pergunto-lhe quando tenciona vir a Atenas? Posso perguntar-lhe?
-Absolutamente. Ele tem que vir.
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E agora, sabia-o, estava tudo terminado. Chegara o dia que ela previra em
tempos; amá-lo-ia para o resto da vida, mas teria que viver sem ele. O que quer
que o ligava à rainha do Egipto era muito forte, talvez mesmo inquebrável. E no
entanto - no entanto - algures dentro de si, Octávia sabia que a relação deles
não era feliz, que António se queixava amargamente e em parte a detestava.
Comigo, pensou ela, ele tinha paz e sossego. Eu mimava-o e acalmava-o. Com
Cleópatra, tem a incerteza e o tumulto. Ela inflama-o, tenta-o, atormenta-o. -
-Aquele tipo de casamento vai enlouquecê-lo - disse ela a Fonteio mostrando-lhe
também a carta.
- Sim, pois vai - conseguiu Fonteio dizer apesar do nó enorme que tinha na
garganta. - Pobre António! Cleópatra fará dele o que quiser.
- E o que é que ela quer? - perguntou Octávia atormentada.
- Quem me dera saber, mas não sei.
- Porque é que ele não se divorciou de mim? Fonteio pareceu espantado e,
depois, desgostoso.
- Edepol! Porque não me terei lembrado disso? Sim, porque não se divorciou ele
de ti? Com uma carta dessas, era quase imperativo que o fizesse.
- Ora, Fonteio, pensa! Tu deves saber. Seja qual for a razão terá que ter
motivações políticas.
- Esta segunda carta não foi uma surpresa para ti, pois não? Já estavas à
espera que dissesse o que diz.
- Sim, sim! Mas porque não se divorcia ele de mim? - insistiu ela.
- Penso que quer dizer que ele ainda não queimou todas as pontes - disse
Fonteio lentamente. - Ainda tem a necessidade de se sentir romano com uma
esposa romana. Tu serves-lhe de protecção, Octávia. Também pode ser que, ao não
divorciar-se de ti, ele esteja a afirmar a sua independência. Aquela mulher
cravou-lhe as garras num momento de profundo desespero, momento esse em que ele
ter-se-ia virado para quem estivesse mais próximo em busca de conforto... e foi
ela.
- Ela certificou-se disso.
- Sim, obviamente.
- Mas porquê, Fonteio? Que quer ela dele?
-Territórios. Poder. Ela é uma monarca oriental, neta de Mitrídates, o Grande.
Não é a parte ptolomaica dela que está a manifestar-se; os Ptolomeus têm sido
letárgicos e nutrido ambições muito mesquinhas há gerações, mais preocupados em
roubar o trono do Egipto uns aos outros do que em alargar horizontes. Cleópatra
está sedenta de expansão; apetites mais próprios de Mitrídates e da Selêucia.
- Como é que sabes tanto acerca dela? - perguntou Octávia curiosa.
- Falei com as pessoas quando estive em Alexandria e Antioquia.
- E o que achaste dela quando a conheceste?
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- Duas coisas, acima de tudo. A primeira é que ela está completamente obcecada
pelo filho que teve com Divus Julius. A segunda foi que ela é um bocado
parecida com Tétis, é capaz de se transformar naquilo que crê ser necessário
para alcançar os seus objectivos. Tubarão, choco... não me lembro em que mais
se transformou ela, só me recordo de que Peleu se aguentou, apesar de todas as
transformações de Tétis. - Estremeceu. - Pobre António, na realidade! Está
determinado a manter-se agarrado a ela.
Ele decidiu mudar de assunto, apesar de não conseguir pensar em nada capaz de a
alegrar.
- E vais regressar a casa? - perguntou.
- Oh, sim. Detesto abusar, mas poderias arranjar-me um navio?
- Melhor do que isso - disse ele descontraidamente. - O teu irmão encarregou--
me do teu bem-estar, o que significa que irei contigo.
Um alívio, senão uma alegria; Fonteio viu o rosto dela descontrair-se um pouco,
desejando com todas as suas forças que ele, Gaio Fonteio Capito, fosse capaz de
a persuadir a amá-lo. Um número razoável de mulheres dissera-lhe que o amavam e
duas esposas tinham-no amado realmente, mas não significavam nada. Muito depois
do que alguma vez esperara, encontrara a mulher do seu coração, dos seus
sonhos. Mas ela amava outro homem e continuaria a amá-lo. Tal como ele a
continuaria a amar.
- Mas que mundo estranho este em que vivemos - disse ele e conseguiu soltar uma
gargalhada irónica. - Achas que te apetece assistir à peça As Mulheres de
Tróia, esta tarde? Admito que o tema é muito próximo da nossa situação actual,
mulheres que perderam os seus homens, mas Eurípides é um verdadeiro mestre e o
elenco é magnífico. Demétrio de Corinto desempenha o papel de Hécuba, Dorisco o
de Andrómaca e, dizem que é espantoso no papel, Aristógenes faz de Helena.
Queres vir?
- Sim, por favor - disse ela sorrindo-lhe, com um sorriso que lhe chegava aos
olhos. - Que são os meus problemas comparados com os delas? Pelo menos tenho a
minha casa, os meus filhos e a minha liberdade. Far-me-á bem testemunhar as
provações das mulheres de Tróia, sobretudo porque nunca vi a peça. Já ouvi
dizer que é de partir o coração, portanto poderei chorar por causa dos
problemas de outrem.
Octaviano chorou por causa dos problemas da irmã quando ela chegou a Roma, um
mês mais tarde. Estavam em Setembro e ele estava prestes a partir para a sua
primeira campanha contra as tribos da Ilíria. Secando as lágrimas, atirou as
duas cartas que Fonteio lhe entregou para cima da mesa e tentou recuperar a
compostura. Tendo conseguido, rangeu os dentes de fúria, mas uma fúria que não
era dirigida a Fonteio.
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- Obrigado por teres vindo ver-me antes de eu ir ter com Octávia - disse a
Fonteio e estendeu-lhe a mão. - Portaste-te com honra e bondade com a minha
irmã e não preciso que ela mo diga. Ela... ela está muito abatida?
- Não, César, ela não é desse género. O comportamento de António magoou-a mas
não a derrotou.
Um veredicto que mereceu a concordância de Octaviano quando a viu.
- Tens que vir viver aqui comigo - disse ele passando-lhe o braço pelos ombros.
-Trazes as crianças, evidentemente. Lívia Drusila está desejosa de ter
companhia e as Carinas ficam demasiado longe.
- Não, César, não posso fazer isso - disse Octávia com firmeza. - Sou mulher de
António e viverei na casa dele até que ele me diga para sair. Por favor não
insistas nem me pressiones por causa disto! Não vou mudar de ideias.
Suspirando, ele sentou-a numa cadeira e puxou outra para junto da dela,
pegando-lhe nas mãos.
- Octávia, ele não vai voltar para casa e para ti.
- Eu sei disso, Pequeno Gaio, mas não faz diferença. Continuo a ser mulher
dele, o que significa que ele espera que eu cuide dos seus filhos e da sua
casa, como é dever da esposa quando o marido está fora.
- E então o dinheiro? Ele certamente que não está a sustentar-te.
- Eu tenho o meu próprio dinheiro.
Aquilo aborreceu-o, embora a sua ira fosse reservada para a insensibilidade
emocional de António.
- O teu dinheiro é teu, Octávia! Vou fazer com que o Senado te transfira fundos
suficientes dos honorários de António para cuidares da propriedade dele aqui em
Roma. Das villas dele também.
- Não, por favor, não faças isso! Eu manterei um registo minucioso daquilo que
gastar e ele poderá pagar-me quando regressar a casa.
- Octávia, ele não vai regressar a casa!
- Não podes ter a certeza disso, César. Não pretendo compreender as paixões dos
homens, mas conheço António. Esta mulher egípcia pode tornar-se noutra Glafira,
até mesmo noutra Fúlvia. Ele cansa-se das mulheres quando estas se tornam
inoportunas.
- Ele cansou-se de ti, minha querida.
- Não, não se cansou - disse ela corajosamente. - Continuo a ser mulher dele,
ele não se divorciou de mim.
- Isso foi para manter os seus senadores e cavaleiros de estimação do seu lado.
Ninguém poderá dizer que ele está permanentemente nas garras da rainha do
Egipto enquanto não se tiver divorciado de ti, da sua verdadeira mulher.
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- Ninguém pode dizer? Ora, César! Tu não poderás dizê-lo, é o que queres dizer!
Eu não sou cega! Queres que o António pareça traidor... para cumprires os teus
próprios objectivos e não os meus.
- Acredita nisso, se quiseres, mas não é verdade.
- Fico aqui - foi só o que ela disse.
Octaviano deixou-a, não se sentindo surpreendido e apenas ligeiramente
irritado; ele conhecia-a como só um irmão mais novo podia conhecer, tendo-a
seguido, quatro anos mais velha, por todo o lado como se estivesse preso a uma
trela, sabendo os pensamentos que expressava em voz alta, tendo ouvido as
conversas de rapariguinha com as amigas, os devaneios e paixões adolescentes.
António inspirara-lhe esses devaneios muito antes de ela ter idade para o poder
amar como mulher. Quando Marcelo a pedira em casamento, ela fora ao encontro do
seu destino sem um murmúrio de protesto, pois sabia qual era o seu dever e
nunca sonhou que poderia casar com António. Ele na época estava de tal modo
envolvido com Fúlvia que a rapariga sensata de dezoito anos que Octávia era
então, abandonara todas as esperanças que alguma vez alimentara - e que
provavelmente não tinham sido nenhumas.
- Ela não quer vir para aqui? - perguntou Lívia Drusila quando ele regressou.
-Não.
Lívia Drusila estalou a língua.
-Tss! Que pena!
Ele riu-se e fez-lhe uma festa afectuosa na cara.
- Disparate! Tu estás profundamente satisfeita. Não és nenhuma amante de
crianças, mulher, e sabes muito bem que aquelas crianças mimadas e
indisciplinadas andariam por todo o lado se vivessem aqui, por mais que
tentássemos controlá-las.
- Pois, é verdade! - riu-se ela. - Todavia, César, não sou eu que sou fora do
normal, Octávia é que é. As crianças são algo de muito desejável e eu ficaria
felicíssima se engravidasse. Mas Octávia faz com que as gatas pareçam
negligentes, por comparação. Fiquei surpreendida por ela ter aceite ir para
Atenas sem elas.
- Ela foi sem elas porque, para manter as metáforas felinas, sabe que António é
um gatarrão que sente o mesmo que tu relativamente às crianças. Pobre Octávia!
- Eu tenho pena dela, César, sob todos os aspectos, mas não deixo de achar que
é melhor sofrer agora do que mais tarde.
Enquanto Públio Canídio e as suas sete legiões penetravam na Arménia e faziam
um bom trabalho, António mantivera-se na Síria, alegadamente para supervisionar
a guerra contra Sexto Pompeu na província da Ásia e reunir um exército
magnífico para a sua campanha seguinte na Partia Média. Tudo isso não passava
de uma desculpa; levara um ano inteiro a recuperar lenta e dolorosamente da sua
doença provocada pelo vinho.
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Estava em tão boa forma como sempre e, certamente, em suficiente boa forma para
comandar a sua campanhazinha ridícula. Mas desta vez ele não marcharia para
Fraaspa, disso tinha ela a certeza. Sem o apoio de Canídio, que estava ausente,
fora uma tarefa difícil, mas ela insistira em desgastar as ambições de António
ao longo dos meses, moldando-as em algo de diferente. Evidentemente que não
sugerira, por palavras ou actos, que ele olhasse para ocidente e para Roma; em
vez disso, não parara de repetir que Octaviano viria inevitavelmente para
leste, agora que Sexto Pompeu fora derrotado e cuja execução fora uma ideia
sua. Um bom suborno a Lúcio Munácio Planco e outro ao filho da irmã deste,
Tício, e a coisa fora feita.
Com Lépido forçado a retirar-se e Sexto Pompeu fora de combate para sempre,
argumentara ela, não havia ninguém que pudesse evitar que Octaviano reinasse
sobre o mundo a não ser Marco António. Não fora difícil convencer Marco António
de que Octaviano queria governar o mundo, especialmente depois de ter
encontrado um aliado inesperado para reforçar os seus argumentos. Como se o seu
nariz tivesse uma capacidade especial para detectar um lugar deixado vazio no
círculo de António, Quinto Délio aparecera em Antioquia para ocupar o lugar
deixado vago por Gaio Fonteio e cheio de histórias acerca deste que, ele
jurava, era agora escravo de Octávia, o alvo apaixonado da galhofa geral. Como
Délio era totalmente destituído da integridade de Fonteio e da sua suavidade,
não era um verdadeiro substituto. No entanto, podia ser comprado e, quando um
nobre romano vendia os seus serviços, estava comprado para sempre. Era,
aparentemente, uma questão de honra, mesmo que fosse uma honra ordinária.
Cleópatra comprou-o.
Pôs Délio a trabalhar no espaço que Fonteio vagara; voltou a ocupar a posição
de embaixador de António. O que se passara com Ventídio em Samósata
desaparecera do primeiro plano das preocupações de António e já não lhe parecia
um crime tão grave. Para além disso, António sentia a falta do companheirismo
masculino de Fonteio e agarrou-se a Délio como substituto, apesar de este ser
muitíssimo desadequado para o papel. Se Aenobarbo estivesse na Síria, as coisas
ter-se-iam desenrolado de maneira diferente, mas Aenobarbo estava muito ocupado
na Bitínia. Não se interpunha no caminho de Délio. Nem no de Cleópatra.
Naquela altura Délio estava empenhado numa tarefa concebida por Cleópatra.
Unindo esforços, ele e Cleópatra tinham tido pouca dificuldade em convencer
António de que aquela era uma tarefa da maior importância; ele deveria viajar
como embaixador de António até à corte de Artavasdes da Média e propor-lhe uma
aliança entre a Média e Roma que fosse contrária ao interesse dos Partos. A
Média propriamente dita, de que Fraaspa era a capital, pertencia ao rei dos
Partos; Artavasdes reinava sobre a Média Atropatene, mais pequena e com um
clima menos aprazível. Como todas as suas fronteiras, à excepção de uma, eram
com os Partos, Artavasdes sentia-se num dilema; a autopreservação impunha-lhe
que não fizesse nada que ofendesse o rei dos Partos, enquanto que a ambição o
levava a lançar o olhar guloso para a Média propriamente dita.
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Oh, Alexandria, Alexandria! Como era bela aquela cidade depois das viela
imundas e dos bairros de lata de Antioquia! Evidentemente que havia na cidade
mesma quantidade de pobres em barracas que em Antioquia - mais, na verdade pois
a cidade era maior - mas todas as ruas eram suficientemente largas para o ar
circular e este era doce, fresco, seco, nem demasiado quente no Verão nem
demasiado frio no Inverno. E os bairros de barracas também eram novos; Júlio
César e os seus inimigos macedónios tinham praticamente arrasado a cidade
catorze anos antes forçando-a a reconstruí-la. César quisera que ela aumentasse
o número de fontes e desse ao povo banhos gratuitos, mas ela não o fizera -
porque haveria de fazê-lo? Se chegasse de barco ao Grande Porto, desembarcava
nos Domínios Reais, se chegasse pela estrada, entrava na Avenida Canópica.
Nenhum desses caminhos exigia que passasse pelos bairros problemáticos de
Rhakotis, e o que os seus olhos não viam o seu coração não chorava. A peste
reduzira a população de três milhões para um milhão, mas isso fora seis anos
antes; um milhão de pessoas aparecera não se sabia de onde, a maioria fruto dos
nascimentos, mas também um pequeno número devido à imigração. Não era permitido
aos nativos egípcios viverem em Alexandria, mas havia muitos mestiços
resultantes das misturas com os gregos pobres; formavam uma vasta classe de
servos livres, que não eram cidadãos, nem mesmo depois de César ter insistido
com ela para que desse a cidadania alexandrina a todos os residentes da cidade.
Apolodoro aguardava-a no cais do Porto Real mas não estava acompanhado,
verificaram os seus olhos ansiosos, pelo seu filho mais velho. O brilho do seu
olhar esmoreceu mas estendeu a mão a Apolodoro para que este a beijasse quando
se ergueu da sua vénia e não resistiu a chamá-lo à parte, a expressão no seu
rosto deixando transparecer a urgência que tinha em transmitir-lhe informações
vitais logo ali, no momento da sua chegada.
- Que se passa, Apolodoro?
- Cesarião - disse ele.
- Que fez ele?
- Nada... por enquanto. É o que planeia fazer.
- Tu e o Sosígenes não conseguem controlá-lo?
-Tentamos, ísis Reencarnada, mas é cada vez mais difícil. - Pigarreou e fez um
ar embaraçado. - Os testículos dele amadureceram, Majestade, e ele considera-se
a si próprio um homem.
Ela parou repentinamente e virou os olhos dourados para o seu servo de maior
confiança.
- Mas... mas ele ainda nem tem treze anos!
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Faz treze anos daqui a três meses, Majestade, e está a crescer a toda a
velocidade. Já mede quatro cúbitos e meio. Está a mudar a voz e o corpo é mais
de homem do que de criança.
- Deuses, Apolodoro! Não, não me digas mais nada, imploro-te! Dispondo já dessa
informação acho melhor ser eu a chegar às minhas próprias conclusões. Recomeçou
a andar. - Onde está ele? Porque não veio receber-me?
- Está a preparar legislação que queria ter pronta antes da vossa chegada.
- A preparar legislação?
- Sim. Ele dir-vos-á, Filha de Rá, provavelmente antes mesmo de conseguirdes
abrir a boca para falar.
Apesar de ter sido avisada, a primeira visão do filho tirou a respiração a
Cleópatra. Durante o ano da sua ausência ele transformara-se de criança em
jovem, mas sem o ar habitualmente desajeitado dos rapazes. Tinha a pele
perfeita e bronzeada, a cabeleira dourada e espessa estava cortada curta e não
usava os cabelos compridos, como era hábito dos adolescentes e, tal como
Apolodoro dissera, o corpo dele era o de um homem. Já! O meu filho, o meu
menino, o que te aconteceu? Perdi-te para sempre e tenho o coração despedaçado.
Até os teus olhos mudaram - tão austeros e seguros, tão... inflexíveis.
E tudo aquilo não era nada comparado com a semelhança com o pai. Ali estava
César quando jovem, César como devia ter sido quando usava a laena e o apex do
Flamen Dialis, o sacerdote romano dedicado a Júpiter Óptimo Máximo. Tinha sido
preciso Sila e o décimo nono aniversário para libertarem César daquele
abominado sacerdócio, mas ali estava a imagem do que César poderia ter sido, se
Gaio Mário não tivesse tentado impedi-lo de ter uma carreira militar. O rosto
comprido, o nariz aquilino, a boca sensual com as rugas bem-humoradas aos
cantos - Cesarião, Cesarião ainda não! Não estou pronta.
Ele atravessou a sala enorme entre a secretária e o local onde Cleópatra
ficara, fascinada, uma mão empunhando um rolo grosso de pergaminho e a outra
estendida na sua direcção.
- Mamã, que bom ver-te - disse numa voz grave.
- Deixei um rapaz e agora encontro um homem - conseguiu ela dizer. Ele
entregou-lhe o pergaminho.
- Acabei de a completar - disse -, mas é claro que tens que a ler antes de eu a
publicar.
O rolo de papel era pesado; ela olhou para ele e depois para o filho.
- Não mereço um beijo? - perguntou.
- Se quiseres. - Deu-lhe um beijo na face e depois, parecendo concluir que
aquilo não era suficiente, beijou-lhe a outra face. - Pronto! Agora lê isso,
mamã, por favor!
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O pequeno Ptolomeu Filadelfo, por seu lado, era igual a Marco António da cabeça
aos pés: grande, robusto, com cabelos e olhos avermelhados e um nariz que se
esforçava por encontrar o queixo, curvando-se sobre a boca pequena e cheia.
Nascera no mês romano de Outubro no ano anterior, tendo portanto dezoito meses.
- Ele é tipicamente um filho mais novo - murmurou Charmian. - Não faz qualquer
esforço para falar, apesar de caminhar como o papá.
- Típico? - perguntou Cleópatra abraçando o corpinho que se debatia num abraço
que, era evidente, não fora bem-vindo.
- Os mais novos não falam porque os mais velhos falam por eles. Ele paira e
eles percebem.
- Oh! - Pousou rapidamente Filadelfo quando ele enterrou os dentes de leite na
sua mão e ficou a abaná-la, cheia de dores. - É realmente como o pai, não é?
Determinado. Iras, manda o joalheiro da corte fazer-lhe um bracelete de
ametistas. Para o proteger do vinho.
- Ele arrancá-la-ia, Majestade.
- Então um colar apertado ou um pregador... não me interessa, desde que use
ametistas.
-António usa a dele? - perguntou Iras.
- Agora usa - disse Cleópatra sombriamente.
Do quarto das crianças foi tomar um banho e Charmian e Iras acompanharam--na.
Em Roma, sabia-o, contavam-se histórias fabulosas acerca dos seus banhos; que
enchia a banheira com leite de burra, que esta era do tamanho de um lago para
carpas, que era alimentada por uma cascata em miniatura e que a sua temperatura
era testada imergindo primeiro um escravo. Nenhuma das lendas, nascidas da sua
estada em Roma, era verdadeira; a banheira que Júlio César encontrara na tenda
de Lêntulo Crure, depois de Farsalo era muito mais sumptuosa do que a sua. A
banheira de Cleópatra era rectangular e de um tamanho normal, feita de granito
vermelho não polido. Era cheia por escravos que transportavam ânforas cheias de
água, umas com água quente e outras com água fria; a receita era padronizada e
a temperatura praticamente não variava.
- Cesarião dá-se com os irmãozinhos e com a irmã? - perguntou ela enquanto
Charmian lhe massajava as costas e deitava água quente por cima.
- Não, Majestade - respondeu Charmian com um suspiro. - Ele gosta deles,
mas não o interessam.
- Não é surpreendente - disse Iras preparando o unguento perfumado. -A
diferença de idades é demasiado grande para que sejam íntimos e ele nunca foi
tratado como uma criança. É esse o destino do Faraó.
- Verdade.
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Que os deuses não permitissem que aquela fosse uma repetição da história de
Ptolomeu Barriga Grande contra Cleópatra a Mãe! Mas não vejo nele sinais de
corrupção, nem de ganância, nem de selvajaria. Ele é um César não é um
Ptolomeu! O que significa que não se submeterá a mim, que pensa que é mais
sensato do que eu, apesar de toda a minha "idade e experiência". Tenho que me
desviar, tenho que ceder.
- A tua posição fica registada, Faraó - disse ela sem ira. - Eu sento-me nesta
extremidade e tu sentas-te nessa. - Inconscientemente,, esfregou com a mão a
base do pescoço onde, descobrira durante o banho, surgira um inchaço. - Existe
alguma coisa que queiras discutir sobre a tua condução dos assuntos do reino
enquanto estive fora?
-Não, correu tudo muito bem. Fiz justiça sem ter que consultar casos anteriores
e ninguém contestou os meus veredictos. A bolsa pública do Egipto tem as contas
em ordem bem como a bolsa pública de Alexandria. Encarreguei o escrivão e os
outros magistrados de Alexandria da reparação dos edifícios da cidade e
autorizei reparações em vários templos e recintos ao longo das margens do Nilo,
em resposta a solicitações nesse sentido. - A expressão dele mudou e tornou-se
mais animada. - Se não tiveres perguntas a fazer e se não tiveres recebido
queixas acerca da minha conduta, poderei pedir-te que escutes os meus planos
para o futuro do Egipto e de
Alexandria?
- Não tive queixas até ao momento - disse Cleópatra cautelosamente. - Podes
prosseguir, Ptolomeu César.
Ele pousara os seus rolos de pergaminho em cima da mesa e começou a falar sem
recorrer a eles. A sala estava obscura porque o dia chegava ao fim, mas lâminas
de luz dançavam, imprevisíveis, fazendo brilhar partículas de pó, ao ritmo das
palmeiras que se agitavam no exterior. Um dos raios, mais firme do que os
restantes, iluminava o disco de Ámon-Rá na parede por trás da cabeça de
Cesarião; Cha'em assumiu a sua expressão de vidente e disse qualquer coisa numa
voz estrangulada que não foi perceptível e pousou as mãos na mesa, a tremer.
Talvez fosse a pouca luz que fazia a sua pele parecer cinzenta; Cleópatra não
sabia, mas qualquer que tivesse sido a visão que lhe aparecera, ele não lha
comunicaria. O que significava que fora maligna.
- Primeiro tratarei de Alexandria - disse Cesarião bruscamente. - Terá que
haver mudanças... mudanças imediatas. No futuro seguiremos a prática romana e
daremos uma ração de cereais gratuita aos pobres. Depois de os seus recursos
terem sido provados, evidentemente. Ainda relativamente aos cereais, os preços
não reflectirão os preços de custo no estrangeiro quando não houver inundações
no Nilo. A despesa adicional será suportada pela bolsa pública de Alexandria.
Estas leis aplicar-se-ão no entanto apenas à quantidade de cereais que uma
família pequena consome durante um mês: o medimnus. Qualquer alexandrino que
compre mais do que um medimnus por mês terá que pagar ao preço de mercado.
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- Oh, deixa de ser criança, Cesarião! - disse Cleópatra num tom fatigado. -Só
porque tens uma mesada enorme para estoirar não quer dizer que percebas alguma
coisa de alta finança! Arranjaremos o dinheiro... disparates! És uma criança
com uma visão infantil da forma como o mundo funciona.
Toda a alegria se desvaneceu; o rosto de Cesarião assumiu uma expressão rígida
e altiva.
- Não sou uma criança! - disse de dentes cerrados e a voz tão fria como um
Inverno romano. - Sabes como é que eu gasto a minha enorme mesada, Faraó? Pago
os salários de uma dúzia de contabilistas e escriturários! Há nove meses
encomendei-lhes um estudo das receitas e despesas de Alexandria. Os nossos
magistrados macedónios, desde o intérprete até à sua enorme burocracia de
sobrinhos e primos são corruptos! Podres! - Uma mão, com o anel de rubi
vermelho a lançar reflexos de fogo, passou por cima dos pergaminhos. - Está
tudo aqui, até ao último peculato, desfalque, fraude, pequeno roubo! Quando
recebi todos os dados, senti vergonha de me intitular rei de Alexandria!
Se o silêncio podia ser ensurdecedor, aquele era-o. Uma parte de Cleópatra
exultava com a espantosa precocidade do filho, mas outra parte estava tão irada
que a palma da sua mão direita ardia de vontade de bater na cara do monstrinho.
Como se atrevia?! E, no entanto, como era maravilhoso que se atrevesse! E o que
poderia responder-lhe? Como iria sair daquela situação com a sua dignidade
intacta e o seu orgulho incólume?
Sosígenes adiou o terrível momento.
- O que eu quero saber é quem é que vos deu essas ideias, Faraó? Certamente que
não as recebestes de mim e recuso-me a acreditar que elas tenham saído já
prontas da vossa cabeça. Portanto de onde é que surgiram?
Enquanto fazia a pergunta, Sosígenes teve consciência de um apertão no peito,
uma dor de pura pena pela infância perdida de Cesarião. Foi sempre uma
experiência espantosa testemunhar a evolução deste verdadeiro prodígio, pensou,
pois, tal como o seu pai, ele é um verdadeiro prodígio.
Mas tal significara a inexistência de uma infância. Ainda era um bebezinho de
colo e já falava com frases perfeitas; ninguém podia deixar de se aperceber da
mente prodigiosa que habitava o pequeno Cesarião. Apesar de o seu pai nunca
ter, nem uma única vez, feito comentários a esse facto; na verdade parecia nem
ter consciência disso. Talvez tal se devesse às recordações dos seus próprios
doze anos? Como teria sido, por exemplo, que a sua mãe o tratara? Não da forma
que Cleópatra tratava Cesarião, concluiu Sosígenes naquela fracção de segundo
que César levou a responder. Cleópatra encarava o seu filho como um deus,
portanto a profundidade do seu intelecto só servia para aumentar a tolice dela.
Oh, se ao menos Cesarião tivesse sido mais... normal!
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Eles pertencem-nos assim como as colheitas que fazem. Quanto ao dinheiro! Temos
tanto dinheiro que nunca o conseguiremos gastar, está ali, enterrado debaixo do
chão perto de Mênfis. Usá-lo-ei para melhorar a sorte do povo do Egipto.
- Eles não te agradecerão - disse ela de lábios cerrados.
- E porque o fariam? O dinheiro, por direito, devia ser deles e não nosso.
- Nós - disse ela cuspindo cada palavra -, somos o Nilo. Somos Filho e Filha de
Ámon-Rá, ísis e Horus reencarnados, Senhores das Duas Senhoras, o Alto e Baixo
Egipto, do Junco e da Abelha. O nosso objectivo é sermos férteis e trazermos
prosperidade para todos, ricos e pobres. O Faraó é Deus na terra, destinado a
nunca morrer. O teu pai teve que morrer para assumir a sua divindade, enquanto
que tu foste um deus desde a concepção. Tens que acreditar!
Ele reuniu os pergaminhos e levantou-se.
- Obrigado por me teres escutado, Faraó.
- Dá-me os teus papéis! Quero lê-los. Aquilo provocou uma gargalhada.
- Não me parece - disse ele e saiu.
- Bem, pelo menos sabemos em que pé estamos - disse Cleópatra aos restantes. -
À beira do precipício.
- Ele mudará à medida que for amadurecendo - confortou-a Sosígenes.
- Sim, mudará - disse Apolodoro. Cha'em não disse nada.
- E tu concordas, Cha'em? - perguntou ela. - Ou a visão disse-te que ele não
mudará?
- A minha visão não fazia sentido - murmurou Cha'em. - Foi embrulhada, confusa.
.. verdade, Faraó, não significava nada.
- Tenho a certeza de que para ti significou alguma coisa, mas não me vais
contar, pois não?
- Repito, não há nada para contar.
Mas afastou-se lentamente, vergado ao peso da idade e, assim que ficou
suficientemente longe para não ser visto, começou a chorar.
Cleópatra ceou nos seus aposentos mas não chamou as suas aias; o dia fora muito
longo e devia ter esgotado Charmian e Iras. Uma rapariga mais nova - macedónia,
evidentemente - serviu-a enquanto ela ia debicando a comida sem apetite e
depois ajudou-a a despir a roupa para dormir. As pessoas abastadas e que tinham
muitos criados não costumavam usar roupas para dormir. Os que dormiam vestidos
ou eram pudicos, como a falecida mulher de Cícero, Terência, ou não tinham
criados suficientes para lavar as roupas de cama com frequência.
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O facto de ela pensar sequer naquele assunto era culpa de António; ele
desprezava as mulheres que usavam camisa de noite e dissera-lhe porquê e até
quem tinha esse hábito. Octávia, uma mulher modesta mas não pudica, não se
importava de fazer amor nua, dissera-lhe ele, mas assim que acabava de fazer
amor vestia a camisa de dormir. A desculpa dela - parecia-lhe - era que uma das
crianças podia precisar dela com urgência durante a noite e ela não permitiria
que a criada que a viesse chamar lhe visse o corpo nu. Embora, segundo António,
o corpo dela fosse adorável.
Tendo esgotado aquele assunto, a mente de Cleópatra passou a outros aspectos da
relação de António com Octávia: pensaria fosse no que fosse só para não ter que
pensar no dia que passara!
Ele recusara divorciar-se de Octávia, e fincara teimosamente os calcanhares
quando Cleópatra tentara persuadi-lo de que o divórcio era a melhor
alternativa. Ele era marido dela agora; um casamento romano não tinha razão de
ser. Mas descobrira, no meio das suas exortações, que António continuava a
gostar de Octávia e não meramente por ela ser mãe de dois dos seus filhos
romanos. Eram ambas meninas e portanto - pelo menos para Cleópatra - não tinham
importância. Não para António, ao que parecia. Já estava a planear os seus
casamentos, apesar de Antónia ter, no máximo, cinco anos e Tonilla ainda não
ter dois. O filho de Aenobarbo, Lúcio, estava destinado a casar com Antónia,
mas António ainda não se decidira quanto ao marido de Tonilla. Como se isso
tivesse alguma importância! Como conseguiria ela libertá-lo das suas ligações
romanas? Para que serviriam elas para o consorte da Faraó, para o padrasto do
Faraó? Para que servia uma mulher romana, mesmo que fosse a irmã de Octaviano?
Para Cleópatra, o facto de António se manter agarrado a Octávia era sinal de
que ele ainda tinha esperança num acordo com Octaviano que permitisse a ambos
ficarem com uma parte do império. Como se aquela fronteira no rio Drina,
separando o Ocidente do Oriente, fosse uma divisória permanente onde, de um
lado o cão de António e do outro o cão de Octaviano, pudessem rosnar um ao
outro e mostrar os dentes sem nunca terem que lutar. Oh, porque não veria
António que um acordo assim nunca poderia durar? Ela sabia-o e Octaviano
também. Os agentes dela em Roma faziam-lhe relatórios cheios das manhas de
Octaviano para a desacreditar aos olhos dos Romanos e dos Italianos. Ele
chamava-lhe Rainha das Bestas, embelezava as histórias dos seus banhos, da sua
vida privada, alegava que ela andava a corromper António com drogas e vinho.
Transformando-o numa criatura sua. Os seus agentes diziam que, até ao momento,
os esforços de Octaviano para desacreditar António tinham caído em orelhas
moucas; ninguém acreditava verdadeiramente nessas histórias... por enquanto. Os
setecentos senadores de António permaneciam-lhe fiéis, a sua estima por António
alimentada pelo ódio que sentiam por Octaviano. Uma pequena fenda aparecera na
parede sólida da sua devoção, depois de ter sido conhecida a verdadeira
história da campanha da Partia, mas apenas uma mão-cheia o abandonara.
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A maioria tinha decidido que o desastre no Oriente não fora culpa de António;
admitir que fora era reconhecer que Octaviano estava certo e isso eles não
conseguiam fazer.
António... Naquela altura devia estar a iniciar a sua campanha contra
Artavasdes da Arménia, que teria que conseguir conquistar. Mas antes que
pudesse pensar em marchar contra Artavasdes da Média Atropatene, Quinto Délio
tinha que já ter conseguido forjar uma aliança que nenhum general romano,
incluindo António, poderia recusar. Apesar de alguns aspectos do pacto não
poderem ser escritos, nem mesmo comunicados a António: diziam respeito ao
Egipto e à Média e estipulavam que, quando Roma fosse conquistada e absorvida
pelo novo império egípcio, o Artavasdes medo poderia atacar o rei dos Partos,
com todo o poder de quarenta ou cinquenta legiões romanas, e assumir o trono
por que ansiava acima de tudo. O preço de Cleópatra era a paz, uma paz que
teria que durar até Cesarião ter idade suficiente para ocupar o lugar do pai.
Pronto. O nome conseguira intrometer-se finalmente e não podia ser evitado. Se
os acontecimentos daquele seu primeiro dia no regresso a Alexandria, pudessem
ser tomados como prova da personalidade incrível de Cesarião, então ele iria
transformar-se no mesmo tipo de génio militar que o seu pai fora. Os desejos do
pai motivavam-no e o pai fora assassinado três dias antes da partida para uma
campanha de cinco anos contra os Partos. Cesarião quereria conquistar terras
para leste do Eufrates e, depois de o conseguir, reinaria desde o oceano
Atlântico até ao rio do Oceano, para lá da índia. Um reino muito mais vasto do
que fora o de Alexandre, o Grande, no seu apogeu. E o exército dele não se
recusaria a continuar a avançar para oriente, nem a estrutura das satrapias
seria posta em perigo por marechais rebeldes, determinados a derrubar o império
para dividirem entre si os despojos. Pois os seus marechais seriam os seus
irmãos e os primos, fruto do casamento de António com Fúlvia. Fundidos pela
lealdade do sangue, unidos e não divididos.
Não achava que nada daquilo fosse impossível. Tudo o necessário para que se
realizasse era uma determinação férrea da sua parte e essa, ela tinha-a. Se os
seus conselheiros não lhe pertencessem tão completamente, pelo menos um de
entre eles poderia ter-lhe perguntado o que aconteceria a toda aquela
periclitante construção de ambições se o filho não revelasse, afinal, o mesmo
génio militar do pai. Uma questão que ela teria posto imediatamente de lado. O
rapaz era tão precoce como o pai, igualmente dotado e tão parecido com ele,
como a proverbial farinha do mesmo saco. Era um Juliano, metade do seu sangue
era de César. E vejam só o que Octaviano, com muito menos sangue juliano nas
veias, fizera aos dezoito, dezanove e vinte anos. Assumira a sua herança,
marchara duas vezes sobre Roma, forçara o Senado a fazer dele primeiro-cônsul.
Mas, comparado com Cesarião, Octaviano tornava-se insignificante.
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Mas como iria ela conseguir desviar Cesarião do tipo de idealismo que, sabia-o,
o pragmatismo de César teria moderado? Os planos de César para Alexandria e
para o Egipto eram experimentais, coisas que achava que conseguiria impor ao
Egipto através do controlo da sua monarca, Cleópatra. Pensando em apontar os
sucessos das reformas no reino dela quando tentasse implementar o mesmo género
de medidas em Roma de uma forma mais consistente do que tivera tempo para fazer
até ao momento. A sua solidão tinha sido o seu mal; não conseguira encontrar
colegas que acreditassem nas suas ideias. O mesmo aconteceria, sabia-o, a
Cesarião. Portanto Cesarião teria que ser convencido a não tentar implementar o
seu programa.
Levantou-se da cama e dirigiu-se à pequena câmara requintada, junto aos seus
aposentos onde se erguiam estátuas de Ptah, Horus, Isis, Osíris, Sekhmet,
Hathor, Sobek, Anúbis, Montu, Tawaret, Toth e mais uma dúzia. Algumas das
estátuas tinham cabeças de animais, era verdade, mas muitas não. Todas elas
representavam aspectos da vida ao longo do rio, não muito diferentes dos numina
romanos e das forças elementares. Mais parecidas com eles, na realidade, do que
com deuses gregos, que eram humanos a uma escala gigantesca. E não tinham os
Romanos sentido a necessidade de dar rostos aos seus deuses com o passar dos
séculos?
Revestida a ouro, a sala tinha as estátuas alinhadas junto às paredes, pintadas
com cores vivas que brilhavam mesmo à luz fraca da lamparina. No meio da sala
estava uma carpete de Persépolis; Cleópatra ajoelhou sobre o tapete com os
braços estendidos na sua frente.
- Meu pai, Amon-Rá, meus irmãos e irmãs na divindade, peço-vos humildemente que
dêem ao vosso filho e irmão Ptolomeu César, que é Faraó, sabedoria. Peço-vos
humildemente que me dêem a mim, a sua mãe terrena, os dez anos mais de que
necessito para o trazer em toda a glória que vós desejais. Ofereço a minha vida
como garantia da segurança dele e imploro a vossa ajuda nesta tarefa difícil.
Depois de terminada a prece manteve-se prostrada e adormeceu naquela posição,
acordando apenas quando a luz da madrugada anunciava a chegada do sol. Dorida,
espantada, rígida.
Ao regressar à cama, apressando-se para lá chegar antes de os servos começarem
o seu trabalho, passou por um enorme espelho de prata polida e deteve-se,
sobressaltada, para olhar para a mulher ali reflectida. Tão magra como sempre,
tão pequena como sempre, tão pouco bonita como sempre. Não tinha quaisquer
pêlos no corpo; eram depilados com cuidado e minúcia. Parecia mais uma criança
do que uma mulher, com excepção do rosto. A sua forma mudara, alongara-se,
endurecera, apesar de não ter linhas nem rugas. O rosto de uma mulher com
trinta e quatro anos, cujos grandes olhos dourados estavam ensombrados pela
tristeza. A luz aumentou de intensidade; continuou ali de pé a olhar para si
própria. Não, não era o corpo de uma criança! Três gravidezes, uma delas de
gémeos, tinham transformado a pele da sua barriga num pergaminho manchado,
solto, enrugado e de um castanho baço.
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Porque será que António me ama?, perguntou, chocada, à sua imagem. E porque
será que não consigo amá-lo?
A meio da manhã foi encontrar Cesarião, decidida a esclarecer a situação com
ele. Tal como era seu hábito, ele fora para a enseada por trás do palácio para
nadar e estava agora sentado numa rocha, parecendo um modelo ideal para Fídias
ou Praxíteles. Só tinha vestida uma tanga, ainda suficientemente molhada para
que a mãe visse que ele se tornara realmente num homem. A descoberta
aterrorizou-a, mas não era mulher de exteriorizar os seus sentimentos e sentou-
se noutra rocha de onde só lhe podia ver o rosto. Cada vez mais o rosto de
César.
- Não vim para te ralhar, nem aborrecer nem criticar - disse. O seu sorriso
brilhante revelou os dentes brancos e regulares.
- Não esperava que o fizesses, mamã. O que queres?
- Um pedido, acho.
- Então expõe o teu caso.
- Dá-me tempo, Cesarião - disse na sua voz mais doce. - Preciso de tempo, mas
disponho de menos tempo do que tu. Deves-me tempo.
- Tempo para quê? - perguntou ele desconfiado.
- Para preparar o nosso povo de Alexandria e do Egipto para a mudança. Ele
franziu o cenho, desagradado, mas não disse nada. Ela continuou.
- Não te vou dizer que não viveste o suficiente para ter a experiência
necessária para lidar com as pessoas, sejam elas colegas ou súbditos...
rejeitarias a afirmação. Mas tens que levar em conta a minha idade e
experiência como sendo algo a que vale a pena dar ouvidos! De verdade, meu
filho, as pessoas têm que ser educadas para aceitar a mudança. Não podes emitir
decretos faraónicos que provocam agitação imediata nas pessoas e esperar não
encontrar oposição. Admiro a meticulosidade das tuas investigações e admito que
muito do que disseste é verdade. Mas o que eu e tu sabemos ser verdade não é
tão óbvio para os outros. As pessoas normais, até mesmo os aristocratas
macedónios, estão agarradas aos seus costumes. Resistem à mudança da mesma
maneira que uma mula resiste a ser conduzida pela rédea. O mundo de um homem ou
de uma mulher é muito reduzido quando comparado com o nosso mundo... poucos
deles viajam e, aqueles que o fazem, não vão além do Delta ou de Tebas para
umas férias, se tiverem dinheiro para isso. O escrivão nunca esteve mais longe
de Alexandria do que Pelúsio, portanto como achas que ele vê o mundo? Quererá
saber de Mênfis, quanto mais de Roma? E se isso é verdade para ele, como achas
que as pessoas mais humildes se vão sentir?
O rosto dele adquiriu uma expressão teimosa, mas nos olhos via-se a incerteza.
- Se os pobres receberem cereais gratuitos, mamã, não me parece que se
revoltem.
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- Concordo, razão pela qual sugiro que comeces por aí. Mas não de um dia para o
outro, por favor! Passa o ano que vem a preparar aquilo a que o teu pai
chamaria a logística, escreve tudo e traz o assunto novamente ao conselho nessa
altura. Fá-lo-ás?
Obviamente a ração gratuita de cereais era a primeira das suas prioridades; ela
adivinhara correctamente.
- Não levará tanto tempo - disse ele. - Apenas um ou dois meses.
- Até mesmo a legislação do grande César levou anos a escrever - contrariou-o
ela. - Não podes ir por atalhos, Cesarião. Trata de cada alteração devidamente,
meticulosamente, perfeitamente. Toma o primo Octaviano como exemplo. Ora ele é
um verdadeiro perfeccionista e não sou tão preconceituosa que não o consiga
admitir! Tens tanto tempo, meu filho. Faz as coisas gradualmente, por favor.
Fala muito antes de agires... as pessoas têm que ser cuidadosamente preparadas
para as mudanças, para que não sintam que estas lhes foram impostas sem aviso.
Por favor?
O rosto dele descontraíra-se; e sorriu.
- Está bem, mamã, percebi o que queres dizer.
- Tenho a tua palavra de honra, Cesarião?
- A minha palavra de honra. - Ele riu-se com uma gargalhada solta e atraente.
-Pelo menos não me obrigaste a jurar pelos deuses.
- Acreditas o suficiente nos nossos deuses para encarar um juramento, feito em
seu nome, como sagrado e obrigando-te até à morte?
- Oh, sim.
- Bem, eu vejo-te como um homem de palavra, um homem que não precisa de ser
obrigado por juramentos.
E ele saltou da rocha e correu para ela para a beijar e abraçar.
- Oh, obrigado mamã, obrigado! Farei como dizes.
E esta, pensou ela ao vê-lo saltar de rocha em rocha com a graciosidade de um
bailarino, é exactamente a melhor maneira de lidar com ele. Oferecer-lhe uma
parte daquilo que ele quer e convencê-lo de que é o suficiente. Por uma vez agi
com sensatez e vi claramente o que tinha a fazer.
Um mês mais tarde, Cleópatra apercebeu-se de que estava a esfregar
constantemente a garganta para verificar a evolução do inchaço. Não lhe parecia
um tumor e também não tinha essa sensação, mas quando Iras comentou o seu novo
hábito e inspeccionou ela própria o inchaço, insistiu para que a sua senhora
consultasse um médico.
- E não um trapaceiro grego! Manda chamar Hapd'efan'e - disse Iras. - Estou a
falar a sério, Cleópatra. Se não o chamares, chamo-o eu.
A passagem dos anos tinha sido bondosa para com Hapd'efan'e; tinha mais ou
menos o mesmo aspecto quando seguira César, do Egipto para a Ásia Menor e para
África, depois para Espanha e finalmente até Roma, mantendo a "epilepsia" de
César sob o seu olhar severo e apercebera-se de que esta só se manifestava
quando César se esquecia de comer durante longos períodos, algo que o seu
paciente quezilento e difícil tinha tendência para fazer.
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- Sim, Hapd'efan'e, mas só porque a minha vida tem sido muito difícil nos
últimos dois anos,
-Talvez - foi tudo o que ele disse prostrando-se; saiu da sala às arrecuas e de
gatas.
- É um alívio saber que não é maligno - disse Cleópatra a Iras e a Charmian.
- Sim, realmente, mas se crescer ficarás desfigurada - disse Iras.
- Morde a língua! - gritou Charmian atirando-se a Iras ferozmente.
- Não falei sem pensar, sua solteirona idiota! Andas demasiado preocupada com
perder a beleza e todas as esperanças de arranjar marido, para perceber que a
rainha tem que estar preparada antes que alguma coisa aconteça, percebes?
Charmian ficou a balbuciar, incapaz de encontrar palavras para retaliar
enquanto Cleópatra ria, o primeiro som de genuíno divertimento que soltara
desde o seu regresso a casa.
- Pronto, pronto - disse quando parou de rir. - Vocês têm trinta e quatro anos,
não têm catorze... e são ambas solteironas. - Um franzir de sobrolho substituiu
o sorriso. - Tirei-vos a vossa juventude e as possibilidades de um casamento,
sei muito bem disso. Ao meu serviço quem é que encontram, a não ser eunucos e
velhos?
Charmian esqueceu o insulto e começou a rir.
- Ouvi dizer que o Cesarião tem as suas opiniões acerca dos eunucos.
- Como sabes?
- Como poderíamos deixar de saber? O Apolodoro está desfeito.
- Oh, aquele rapaz malvado!
O rei Artavasdes da Arménia não tinha qualquer possibilidade de derrotar a
força poderosíssima que António reunira contra ele, mas não se entregou sem dar
luta, o que proporcionou ao triúnviro uma série de batalhas decentes para dar o
baptismo de sangue aos seus homens inexperientes e trazer os seus homens
experientes para o pico da forma. Agora que deixara de beber vinho por
completo, a sua capacidade de comando nas batalhas regressara e, com ela, a
confiança. Cleópatra tinha razão: o seu verdadeiro inimigo era o vinho. Sóbrio
e cheio de saúde, reconheceu perante si próprio que aquilo que deveria ter
feito no ano anterior era ter ficado em Carana, com o que restara das suas
tropas, e trazer até lá a ajuda de Cleópatra; em vez disso impusera-lhes uma
marcha de mais oitocentos quilómetros antes de receberem qualquer tipo de
auxílio. Contudo, o que estava feito, feito estava. Não valia a pena ficar a
remoer no passado, disse a si próprio o revigorado António.
Tício estava a governar a província da Ásia no lugar de Fúrnio e Planco
continuava na Síria, mas Aenobarbo juntara-se-lhe para a campanha e Canídio
era, como sempre, o braço direito da confiança de António. Em segurança no
interior de Artaxata, com o exército comodamente acampado e muito bem-disposto,
começou a planear o golpe contra o outro Artavasdes.
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Terei jurado? Tê-lo-ei feito? Porque haveria ela de dizer que eu jurei se não
for verdade? Oh, mas o que aconteceu com a minha memória? Ter-se-á a minha
mente transformado num queijo dos Alpes, cheio de buracos? Sinto-a tão clara e,
ultimamente, sei que tem estado muito clara. Voltei a ser quem era. Sim, estes
dois lapsos que descobri até ao momento aconteceram em Lueke Kome e em
Antioquia, enquanto recuperava dos efeitos do vinho. É nesse período e
unicamente nesse período, que os meus lapsos acontecem. Que é que eu fiz? Que é
que eu disse? Que mais terei jurado?
Levantou-se e começou a andar para trás e para a frente, consciente de uma
sensação de desânimo, de uma impotência que não podia imputar a ninguém a não
ser a si próprio. Envolto na sensação da sua confiança reencontrada, na
ausência da melancolia e da ira, vira com uma clareza total as escolhas que se
lhe ofereciam e como poderia reconquistar o seu prestígio em Roma. Egipto?
Alexandria? O que eram esses locais senão terras estrangeiras governadas por
uma rainha estrangeira? Sim, ele amava-a - amava-a o suficiente para se ter
casado com ela - mas não era nem egípcio nem alexandrino. Era romano. Todas as
fibras do seu ser eram romanas. E, concluíra-o em Artaxata, ainda ia a tempo de
remediar as suas desavenças com Octaviano. Tanto Aenobarbo como Canídio achavam
que isso era possível. Na realidade, Aenobarbo até ridicularizara as histórias
de Cleópatra dos boatos difamadores espalhados por Octaviano. Se isso era
verdade, perguntara Aenobarbo, então por que razão continuavam a ser leais a
António setecentos dos mil senadores de Roma? Porque se agarravam tão
tenazmente a António os plutocratas e os cavaleiros--comerciantes? Era verdade
que ele iniciara lentamente as suas acções no Oriente, mas agora as suas
decisões já tinham sido implementadas e imensamente benéficas para o comércio
romano. O dinheiro também começava a afluir ao Tesouro; os tributos iam
finalmente ser pagos. Foram aqueles os argumentos de Aenobarbo acompanhados por
acenos concordantes de Canídio.
Agora, em Antioquia, não tinha nenhum dos dois para o tranquilizar; estava
acompanhado apenas por Délio e por um grupo de homens pouco importantes, netos
e sobrinhos-netos de homens famosos e há muito mortos. E poderia mesmo confiar
em Délio? Não lhe vinha à cabeça nenhuma razão para confiar em Délio naquela
questão e sabia que aquilo que o governava eram os seus próprios interesses, e
que não tinha nenhuns pruridos éticos ou morais quando era mortalmente
ofendido, como acontecera com Ventídio em Samósata. Ainda assim... esta
situação não tinha nada em comum com essa. Se ao menos Planco ali estivesse!
Mas partira para a província da Ásia para visitar Tício. Não havia ninguém a
quem pudesse recorrer a não ser a Délio. Ao menos, pensou António, Délio tem
consciência de que eu tive um lapso de memória. Poderá recordar-se de outros.
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Sendo a outra parte naquela situação, Herodes foi convocado para que se
encontrasse com ele em Jopa. O mesmo destino abatera-se sobre Herodes; poderia
ter de volta os seus jardins de bálsamo - por duzentos talentos anuais - mas
apenas se cobrasse também os duzentos talentos anuais do rei Malco.
- É nojento! - gritou a António. - Nojento! A mulher devia ser chicoteada! Tu
és marido dela... chicoteia-a!
- Se fosses tu o marido dela, Herodes, sem dúvida que ela seria chicoteada
-disse António consumido de admiração pela astúcia com que Cleópatra conseguira
manter viva a inimizade entre Herodes e Malco. - Os Romanos não chicoteiam as
suas mulheres, receio bem. E também não te podes queixar a mim. Cedi os jardins
de bálsamo de Jericó à rainha Cleópatra, portanto é a ela que tens de apelar e
não a mim.
- Mulheres! - foi a resposta furiosa de Herodes àquelas palavras.
- O que me leva a assuntos muito diferentes do bálsamo - disse António no tom
de voz de governador romano -, apesar de dizerem respeito a mulheres. Segundo
sei, nomeaste um membro da casa de Zadoc, chamado Ananeel, para sumo sacerdote
dos Judeus assim que subiste ao trono. Mas a tua sogra, a rainha Alexandra,
queria esse lugar para o filho dela, Aristóbulo, de dezasseis anos. Não é
assim?
- Sim! - sibilou Herodes expondo a sua faceta mais maligna. - E quem é, por
acaso, a melhor amiga de Alexandra? Ora, Cleópatra! Essas duas conspiraram
contra mim, sabendo que o meu trono é demasiado recente para que eu possa fazer
aquilo que adoraria: matar essa porca velha metediça da Alexandra! Oh, como ela
foi rápida a engraxar a Cleópatra! Uma garantia de sobrevivência! Mas pergunto-
te, um sumo sacerdote de dezasseis anos? Ridículo! Para além disso ele é
asmoneu, não é saduceu. Essa foi a primeira jogada do jogo engenhoso de
Alexandra para me tirar o trono e passá-lo a Aristóbulo. - Herodes estendeu as
mãos. - Escuta Marco António, eu tenho feito uma ginástica tremenda para
agradar aos parentes da minha mulher!
- Mas acabaste por te vergar aos desejos da tua sogra, segundo ouvi dizer.
- Sim, sim, no ano passado fiz do Aristóbulo sumo sacerdote! Não que isso lhe
tenha feito algum bem a ele ou à mãe. - Herodes assumiu a expressão de um
prisioneiro injustamente condenado. -Alexandra e Cleópatra engendraram um plano
para fazer com que o Aristóbulo parecesse estar em perigo de vida... um
disparate total! Deveria fugir de Jerusalém e da Judeia e procurar refúgio no
Egipto. Depois, após uma curta estada aí, deveria regressar à cabeça de um
exército e usurpar o meu trono... o trono que tu me destes!
- Já ouvi alguma coisa acerca desse assunto - disse António cautelosamente.
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- Bem, isso tudo estava de tal forma longe de ser verdade, que o jovem
Aristóbulo aceitou alegremente um convite meu para um piquenique. - Herodes
suspirou e pôs um ar pesaroso. - Veio a família inteira, incluindo Alexandra, a
filha dela e minha mulher, os nossos quatro filhos pequenos, a minha própria e
amada mãe... um grupo muito animado, garanto-te. Escolhemos um local aprazível
onde o rio se alarga e forma um lago grande, bastante profundo nalguns locais
mas nada perigoso, a não ser que o banhista seja demasiado aventureiro.
Aristóbulo foi demasiado aventureiro: foi nadar sem saber nadar. - Os ombros
anafados subiram e desceram. - Será preciso dizer mais alguma coisa? Ele deve
ter tropeçado e caído num buraco, porque subitamente só tinha a cabeça fora de
água e gritava por socorro. Vários dos guardas lançaram-se à água para o
socorrer, mas era tarde. Eleja se afogara. António considerou a história,
sabendo que seria interrogado quando chegasse junto a Cleópatra. É claro que
sabia muito bem que fora Herodes quem arranjara a morte "acidental", mas não
havia absolutamente nenhuma prova disso, graças a todos os deuses. As mulheres,
realmente! Aquela viagem para sul estava a revelar-lhe mais facetas de
Cleópatra, não enquanto pessoa mas como monarca. Ambiciosa e expansionista,
dominadora, astuta na sementeira de inimizades entre os seus inimigos, não se
fazendo rogada a cultivar a amizade de uma rainha viúva cujo marido e filhos
tinham combatido contra Roma. E como o trabalhara inteligentemente a ele,
António, para alcançar os seus objectivos.
- Não consigo ver como esse afogamento acidental possa ter sido obra tua,
Herodes, especialmente se, como dizes, este aconteceu perante os olhos da mãe
do moço e de toda a família.
- Cleópatra queria que eu fosse julgado e executado, não queria?
- Ficou desagradada, é verdade. Ainda bem que tu e eu... humm... nos
desencontrámos em Laodiceía. Se nos tivéssemos encontrado eu era capaz de ter
reagido de forma diferente. Assim sendo não encontrei provas que sugiram que
tiveste algum papel em tudo isto, Herodes. E mais, o cargo de sumo sacerdote é
da tua competência. Podes nomear quem muito bem entenderes. Mas poderei pedir-
te que não o transformes num cargo vitalício?
- Esplêndido! - disse Herodes radiante. - Na realidade irei ainda mais longe do
que isso. Manterei a regalia sagrada na minha posse e emprestá-la-ei ao sumo
sacerdote sempre que a Lei Mosaica requeira a sua utilização. Diz-se que as
vestes são mágicas, portanto não quero que ele ande no meio do povo todo
enfarpelado a semear a dissensão contra mim. Juro-te, António, que não
abdicarei do meu trono! Quando estiveres com Cleópatra, diz-lhe isso mesmo.
- Podes acreditar quando te digo que Roma não aprovará nenhum ressurgimento
asmoneu na Judeia - disse António. - A casa real asmoneia só nos traz
problemas, podes perguntar a qualquer um, do falecido Aulo Gabínio para cá.
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Oh, como ele tinha razão! Sem ele ela não era nada. Não tinha exército nem era
um génio como general ou governante. Agora, mais do que em qualquer outra
ocasião no passado, compreendia que a sua primeira - e talvez única - tarefa
era a de seduzir António afastando-o da sua lealdade a Roma. Tudo dependia
disso.
Eu não sou, pensou ela começando a andar para trás e para diante, um monstro em
nenhum dos aspectos que ele diz que assumo. Sou uma monarca a quem o destino
colocou numa posição de poder potencial num momento da história em que posso
tentar obter autonomia total, recuperar os territórios perdidos do Egipto e
tor-nar-me numa grande figura do palco mundial. As minhas ambições nem sequer
são para mim própria! São inteiramente para o meu filho. O filho de César.
Herdeiro de mais que do nome de César, já imortalizado no seu título, Ptolomeu
XV Caesar, Faraó e Rei. Ele terá que realizar todo o seu potencial, mas é
demasiado cedo! Terei que lutar durante mais dez anos para o proteger e ao seu
destino... não tenho tempo para desperdiçar a amar outras pessoas, gente como
Marco António. Ele pressente-o; estes longos meses em que estivemos separados
soltaram-no das correntes que eu conseguira forjar para o manter preso a meu
lado. Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?
Quando António voltou para junto dela, jovial, amoroso, desejoso de ir para a
cama, ela já decidira o seu curso. Que era convencer António, fazê-lo ver que
Octaviano nunca lhe permitiria tornar-se no incontestado Primeiro Homem em
Roma, portanto para quê continuar agarrado a Roma? Teria que o convencer -
sóbrio e senhor do seu autocontrolo - de que a única forma de alguma vez vir a
governar Roma sozinho seria entrando em guerra com Octaviano, o obstáculo.
A primeira coisa que fez foi organizar uma parada para António através de
Alexandria, numa imitação tão próxima de um triunfo romano quanto se atreveu. A
tarefa foi tornada mais fácil pelo facto de o único romano com alguma
importância que o acompanhara ser Quinto Délio, que recebera ordens suas para
desviar a capacidade analítica de António da forma de um triunfo romano. Afinal
ele não tinha consigo uma legião, nem mesmo uma coorte de tropas romanas. Não
haveria carros alegóricos, decidiu ela, apenas enormes carros planos, equipados
com estruturas cuidadosamente concebidas para exibir este ou aquele tesouro
mais precioso do saque, puxados por bois engalanados. E ele não iria em nada
que se parecesse, remotamente sequer, com a quadriga romana antiga, puxada por
quatro cavalos, do triunfador romano; envergaria antes a armadura e o capacete
do faraó e far-se-ia transportar num carro faraónico de duas rodas. E também
não iria um escravo a segurar-lhe uma coroa de louros por cima da cabeça nem a
murmurar-lhe ao ouvido que não passava de um homem mortal.
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Na verdade os louros não tinham ali qualquer lugar; ela invocou o facto de no
Egipto não haver loureiros. A sua batalha mais dura foi convencer António a pôr
correntes douradas no rei Artavasdes da Arménia para que, conduzido atrás de um
burro, fosse exibido como prisioneiro; nos triunfos romanos, os prisioneiros de
elevado estatuto iam vestidos com as suas melhores vestes e insígnias reais e
desfilavam como homens livres. António concordou com as correntes, pensando que
assim eliminaria qualquer sugestão de triunfo romano. Com o que ele não contara
fora com Quinto Délio que recebera instruções de Cleópatra para escrever uma
carta maliciosa para Publícola em Roma.
Mas que escândalo, Lúcio! Finalmente a Rainha das Bestas venceu. Marco António
preferiu triunfar em Alexandria a fazê-lo em Roma. Oh, houve diferenças, mas
nada que valha a pena ser mencionado. Em vez disso sou forçado a enviar para
casa uma carta cheia de semelhanças. Apesar de ele afirmar que o saque é maior
que aquele que o Pompeu Magno tirou ao Mitrídates, a verdade é, que sendo na
realidade grande, não é assim tão grande. Ainda assim pertence a Roma e não a
António. Que, no fim da sua parada pelas avenidas mais largas de Alexandria, ao
som dos aplausos ensurdecedores soltados por milhares de gargantas, entrou no
templo de Serápio e dedicou os despojos a... Serápio, Sim, os despojos
permanecerão em Alexandria, propriedade da rainha e do rapaz rei. A propósito,
Publícola, Cesarião é a imagem de César Divus Julius e detesto pensar no que
poderia acontecer a Octaviano se Cesarião alguma vez fosse visto em Itália,
quanto mais em Roma.
Em todo o desfile era evidente a mão da Rainha das Bestas. O rei Artavasdes da
Arménia foi exibido acorrentado, imaginas uma coisa assim? Depois, quando a
parada terminou, foi mantido prisioneiro em vez de ser estrangulado. Nada de
acordo com os costumes romanos. António não fez absolutamente nenhum comentário
sobre as correntes nem sobre a clemência da vida poupada. Ele é um boneco nas
mãos dela, Publícola, é seu escravo. Não posso deixar de pensar que ela o
droga, que os sacerdotes dela inventam poções que tu e eu, simples romanos, nem
sequer conseguimos imaginar.
Deixo ao teu critério que partes deste relato devem ser disseminadas -Octaviano
tiraria disto grande partido, receio, podendo mesmo chegar ao ponto de declarar
guerra ao seu colega triúnviro.
Pronto!, pensou Délio pousando a caneta de junco. Aquilo devia ser o suficiente
para pôr Publícola a falar, pelo menos a repetir algumas das partes; em todo o
caso o suficiente para chegar aos ouvidos de Octaviano. Dá-lhe munições e,
ainda assim, desculpabiliza António. Se é a guerra o que ela quer, então a
guerra acabará eventualmente por acontecer.
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Mas terá que ser uma guerra que, depois de António a vencer, lhe permita
conservar a sua posição romana e não lhe criar problemas no estabelecimento do
governo único. Quanto à rainha do Egipto - desvanecer-se-á na obscuridade. Sei
que António está longe de ser seu escravo; ele é senhor de si próprio.
Délio não tinha inteligência para detectar a mais secreta das ambições de
Cleópatra nem para farejar a profundeza da subtileza de Octaviano. Um servo
pago da Coroa Dupla, fez aquilo que lhe era mandado sem questionar as ordens.
Antes de conseguir arranjar um mensageiro e um navio para enviar a sua curta
missiva para Roma e para Publícola, escreveu um post-scriptum perturbador:
Oh, Publícola, isto vai de mal a pior! Completamente iludido, António acaba de
participar numa cerimónia no ginásio alexandrino que, depois de a cidade ter
sido reconstruída, ficou maior do que a agora e é, por isso, o local de todas
as reuniões públicas. Um pódio enorme foi construído no interior do ginásio,
com cinco plataformas em socalco. No cimo, um trono. No degrau abaixo, um
trono. No degrau abaixo desse, três pequenos tronos. No trono mais alto
sentava-se Cesarião, coberto com todo o esplendor das vestes faraónicas. Eu já
as vi muitas vezes, mas vou fazer-te uma breve descrição: uma coroa em duas
partes, branca e vermelha, na cabeça, muito grande e pesada - a Coroa Dupla,
chamam-lhe. Uma túnica de linho branco, grandes colares de pedras preciosas e
ouro em volta do pescoço e ombros, um cinto verde e largo cravejado de pedras
preciosas, muitas pulseiras e braceletes, pulseiras em torno dos tornozelos,
anéis nos dedos dos pés e das mãos. Palmas das mãos e plantas dos pés pintados
com pigmento castanho. Espantoso. A Faraó fêmea, Cleópatra, estava sentada no
degrau abaixo. As vestes e insígnias são iguais, com excepção do vestido que é
de tecido dourado e cobre-lhe os seios. No degrau mais abaixo sentam-se os três
filhos que ela teve de António. Ptolomeu Alexandre Hélio estava vestido com as
vestes de um rei da Partia: tiara, anéis de ouro em torno do pescoço, blusa e
saia com folhos e cravejados de jóias. A irmã, Cleópatra Selene, com vestes a
meio caminho das faraónicas e das gregas; estava sentada ao meio. E do outro
lado sentava-se um rapazinho que ainda não tem três anos, mascarado de rei da
Macedónia - um chapéu de abas largas de cor púrpura com um diadema atado à
copa, uma capa curta presa num dos ombros de cor púrpura, túnica e botas
púrpura.
A multidão era enorme, transbordava do ginásio que dizem ter capacidade para
cem mil pessoas - apesar de eu, que conheço o Circo Máximo, ter as minhas
dúvidas a esse respeito. Tinham construído bancadas, mas no meio delas havia
aparelhos para exercícios atléticos. Cleópatra e os quatro filhos,
inicialmente, ficaram de pé junto ao estrado, quando apareceu Marco António,
montado num magnífico cavalo medo, mosqueado de cinzento e com o focinho,
crinas e cauda negros. A sela era de cabedal tingido a púrpura, com embutidos e
franjas douradas.
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Ele conhecia muito bem as limitações da mãe. Sabia também que ela estava a
tentar despojar António das suas características romanas, da sua independência
e do seu arbítrio. Nada a satisfaria a não ser o domínio do mundo e encarava
Roma como sua inimiga. E estava certa; um poder tão enraizado como o de Roma
não cederia sem dar luta. Oh, se ao menos fosse mais velho! Então poderia
enfrentar Cleópatra como um seu verdadeiro igual e informá-la liminarmente de
que aquilo que ela queria para ele não era o que ele próprio desejava. Na
verdade ainda não dissera nada sobre os seus próprios sentimentos, sabendo que
ela desvalorizaria as suas opiniões por serem as de um rapaz. Mas ele não era
um rapaz, nunca fora verdadeiramente um rapaz! Dotado com a mesma inteligência
precoce do pai e sendo rei desde tenra idade, bebera os conhecimentos como um
cão esfomeado bebe de uma poça de sangue, pela simples razão de que adorava
aprender. Todos os factos eram absorvidos e guardados para referências futuras
que se viessem a revelar necessárias e, depois de obtidos os conhecimentos
suficientes acerca de determinado assunto, recorria a esse acervo para proceder
à sua análise. Mas não estava enamorado pelo poder e não sabia se isso também
acontecera com o seu pai. Por vezes suspeitava de que assim fora; César
erguera-se a alturas olímpicas porque não o fazer teria significado o exílio e
a eliminação de todas as referências à sua pessoa dos anais romanos. Um destino
que César não toleraria. Mas não se esforçara muito por viver, Cesarião tinha,
de alguma forma, a noção disso. O meu tatá, de quem me recordo de quando ainda
mal andava, tão nitidamente que o seu rosto e o seu corpo alto dançam no
interior dos meus olhos quando penso nele. O meu tatá de quem sinto a falta
desesperadamente. António é um homem maravilhoso, mas não é nenhum César.
Preciso do meu tatá aqui para me aconselhar e isso não é possível.
Enchendo-se de coragem, foi procurar Cleópatra e tentou explicar-lhe o que
sentia, mas aconteceu aquilo que eleja esperava. Ela riu-se dele, beliscou-lhe
a face, beijou-o amorosamente e disse-lhe para ir brincar e fazer as coisas
próprias de um rapaz da sua idade. Magoado, isolado, sem ninguém em quem
pudesse confiar, afastou-se mais da mãe emocionalmente e começou a não aparecer
para o jantar. Que poderia ter procurado António foi algo que nunca lhe
ocorreu; encarava António como uma presa de Cleópatra e não pensou que a
reacção de António pudesse ser diferente da dela. As ausências ao jantar foram
aumentando na proporção exacta das cada vez mais frequentes descomposturas
violentas que Cleópatra dava ao marido a quem tratava, pensava Cesarião, mais
como a um filho do que como a um parceiro das suas iniciativas.
Havia contudo, dias agradáveis e, por vezes, períodos mais longos; em Janeiro a
rainha tirou o Filopator do seu abrigo e desceu o Nilo até à Primeira Catarata,
apesar de aquela não ser a estação exacta para consultar o Nilómetro. Para
Cesarião foi uma viagem maravilhosa. Já antes a fizera, mas era mais novo.
Agora já tinha idade suficiente para apreciar todos os aspectos da experiência,
desde a sua própria divindade até à simplicidade da vida ao longo do poderoso
rio. Os factos foram armazenados; mais tarde, quando fosse verdadeiramente
Faraó, daria uma vida melhor àquela gente.
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Por sua insistência pararam em Coptos e seguiram por terra, nela rota das
caravanas, até Myos Hormus no Sinus Arabicus; ele quisera fazer o caminho mais
longo para Berenice, muito mais abaixo no Sinus, mas Cleópatra recusara. De
Myos Hormus e Berenice, as frotas egípcias partiam para a índia e para a
Taprobana e era ali que regressavam com as suas cargas de especiarias,
pimentas, pérolas oceânicas, safiras e rubis. Era também ali que estavam
ancoradas as frotas do Corno de África; transportavam marfim, cássia, mirra e
incenso da costa africana em torno do Corno. Frotas especiais traziam para casa
o ouro e as pedras preciosas enviadas por terra para o Sinus da Etiópia e da
Núbia; o terreno era demasiado acidentado e o curso do Nilo demasiado
perturbado por cataratas e rápidos para poder ser navegado.
Na viagem de regresso, viajando agora ao sabor da corrente, pararam em Mênfis e
entraram no templo de Ptah, onde lhes mostraram os túneis do tesouro que se
estendiam por longos percursos até ao campo das pirâmides. Nem António nem
Cesaríão os tinham ainda visto, mas Cha'em, o seu guia, teve o cuidado de não
deixar que António visse onde e como se acedia à entrada; foi conduzido de
olhos vendados e achou tudo aquilo muito divertido até que, com os olhos
descobertos, contemplou a riqueza do Egipto. Para Cesaríão o choque foi ainda
maior; não conseguia sequer compreender a vastidão do que ali estava guardado e
passou o resto da longa viagem a maravilhar-se com a frugalidade da sua mãe.
Ela podia dar-se ao luxo de alimentar toda a Alexandria com comida suficiente
para satisfazer um glutão, no entanto regateava a sua patética pequena ração
gratuita de cereais!
- Não a compreendo - murmurou ele para António quando o Filopator entrava no
Porto Real.
Um comentário que fez com que António tivesse um ataque de riso.
A conquista da Ilíria deveria levar três anos, mas o primeiro ano, aquele em
que António deveria ter sido o cônsul sénior, foi o mais duro, simplesmente
porque foi necessário um ano para perceber qual a forma mais adequada de
abordar a tarefa. Como acontecia com tudo aquilo em que Octaviano se metia, a
campanha foi tão meticulosamente preparada quanto era possível para uma
iniciativa militar. Governador da Gália Italiana durante toda a campanha da
Ilíria, Gaio Antístio Vetus tinha por missão resolver o problema das tribos
revoltosas que habitavam o vale dos Salácios na fronteira noroeste; apesar de
esta distar muitas milhas da Ilíria, Octaviano não queria que nenhuma parte da
Gália Italiana ficasse à mercê das tribos bárbaras, e os Salácios continuavam a
ser um problema.
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- Não é para admirar - disse Octaviano a Agripa -, que regiões muito mais
afastadas de Itália do que a Ilíria tenham sido pacificadas enquanto os Ilírios
continuam por subjugar. Creio que o meu divino pai teria empalidecido perante
este local tão terrível. - Estremeceu. -Além disso marchamos, se é que posso
usar o termo ironicamente, correndo alguns riscos de ser atacados. O mato
rasteiro torna impossível avistar uma emboscada na nossa frente.
- Verdade - disse Agripa ficando à espera da sugestão de César.
- Seria uma ajuda se enviássemos algumas coortes para o cimo das colinas que
ladeiam o nosso caminho? Eles poderiam ter a possibilidade de avistar atacantes
quando estes atravessassem alguma clareira.
- Boa táctica, César - disse Agripa satisfeito. Octaviano sorriu.
- Não achavas que eu fosse capaz, pois não ?
- Eu nunca te subestimo, César. És demasiado surpreendente.
As coortes enviadas para bater as colinas frustraram várias emboscadas; Terpo
caiu, seguindo-se Metulum. Aquela era a maior povoação da região, com um reduto
bem fortificado com paliçadas de madeira no cimo de um promontório rochoso, com
sessenta metros de altura. Os portões estavam fechados e os habitantes
desafiadores.
- Achas que consegues tomar a fortaleza? - perguntou Agripa a Octaviano.
- Não sei, mas tenho a certeza de que tu consegues.
- Não, porque eu não estarei aqui. O Tauro está num dilema... deverá continuar
a marchar para oriente ou deverá virar para norte, para a Panónia?
- Como Roma precisa de ter pacificados o Leste e o Norte, Agripa, o melhor é
ires até lá para decidires por ele. Mas vou sentir a tua falta!
Octaviano observou cuidadosamente Metulum e decidiu que a melhor forma de a
atacar seria construir um monte, desde o fundo do vale até às muralhas de
madeira, sessenta metros mais acima. Os legionários cavaram alegremente e foram
empilhando terra e pedras até à altura indicada. Mas os habitantes de Metulum,
que tinham capturado máquinas e aparelhos de cerco anos antes, a Aulo Gabínio,
apres-saram-se a usar as suas excelentes pás e enxadas romanas para enfraquecer
o monte; esburacado por túneis, este não tardou a desabar. Octaviano
reconstruiu-o, mas não encostado aos penhascos de Metulum. Agora o monte
erguia-se isolado, escorado em toda a volta por pranchas fortes. A seu lado
erguia-se um segundo monte. Sendo capazes de se aplicar na construção do que
quer que fosse, os artesãos das legiões começaram a construir estruturas de
madeira entre os penhascos, por baixo da fortaleza e os dois montes romanos;
quando os andaimes atingiram a altura das muralhas, foi possível montar sobre a
estrutura pranchas que formaram pontes entre os montes e as muralhas. Cada um
dos quatro corredores tinha largura suficiente para permitir a passagem de
quatro soldados lado a lado, o que daria ao assalto um poder e volume
imediatos.
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O que não significou que quando a sua vez chegou, tivesse sido despachado para
um cirurgião assistente. O cirurgião-chefe, Públio Cornélio, tratou-lhe
pessoalmente do joelho enquanto um subalterno começou a extrair as farpas das
mãos e dos braços.
Quando a ligadura foi retirada, Cornélio grunhiu.
- Uma ferida feia, César- disse ele apalpando delicadamente. - Partiste a
rótula que se estilhaçou e perfurou a pele nalguns locais. Felizmente nenhuma
das veias principais se rompeu, mas há aqui uma grande quantidade de hemorragia
lenta. Vou ter que retirar os fragmentos... uma operação dolorosa.
- Tira-os, Cornélio - disse Octaviano com um sorriso, consciente de estar a ser
observado e escutado por todos os outros ocupantes da tenda enorme. - Se eu
gritar sentem-se em cima de mim.
Onde fora buscar as forças para aguentar a hora seguinte não sabia; enquanto
Cornélio trabalhava no joelho ele manteve-se ocupado a falar com os outros
feridos, brincando com eles, fazendo pouco da sua própria provação. Na verdade,
com excepção da agonia, toda aquela experiência era fascinante. Quantos
comandantes viriam até à tenda do cirurgião para ver com os próprios olhos o
que a guerra podia fazer?, pensou. Aquilo que testemunhei hoje é mais uma razão
para quando me tornar o incontestado Primeiro Homem em Roma, mover montanhas,
Pelion e Ossa, para evitar a guerra pela guerra, para evitar guerras que só
serviam de pretexto à celebração de triunfos no termo de um mandato de
governador. As minhas legiões guarnecerão as cidades, não as invadirão. Só
lutarão quando não houver alternativa. Estes homens são corajosos para lá do
imaginável, e não merecem sofrer desnecessariamente. O meu plano para tomar
Metulum era fraco, não contei com a possibilidade de o inimigo ser
suficientemente inteligente para fazer o que fez. E isso faz de mim um idiota.
Mas um idiota com sorte. Como fui gravemente ferido em consequência do meu
erro, os soldados não virarão esse erro contra mim.
- Terás que dar por finda a tua participação e regressar a Roma - disse Agripa
depois de Metulum capitular.
As pontes foram reconstruídas sobre uma estrutura mais robusta e montada guarda
para garantir que os mineiros de Mentulum não repetiam a graça; o próprio facto
de César ter sido gravemente ferido espicaçava os homens para entrar em
Metulum. Que ardeu completamente após alguns dos seus habitantes terem entrado
em pânico. Não houve despojos nem cativos para serem vendidos para a
escravatura.
- Receio que tenhas razão - conseguiu Octaviano dizer; a dor era pior do que
imediatamente após o ferimento. Apertava os cobertores com os olhos encovados
nas órbitas. - Terás que continuar sem mim, Agripa. - Riu-se com ironia. - O
que não será um obstáculo ao sucesso, sei-o bem! Na verdade sair-te-ás melhor.
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nas mãos e nos braços impressionavam, pois algumas das farpas eram enormes. O
seu heroísmo era manifesto.
Logo depois da sua recuperação chegou a notícia de que tinha havido problemas
na Síscia, que fora o local para onde Agripa se dirigira e que conquistara.
Deixara Fúfio Gémeo no comando de uma guarnição, mas os Iapudes tinham atacado
em força. Octaviano e Agripa apressaram-se a ir socorrê-lo, mas descobriram que
Fúfio Gémeo conseguira conter a revolta sem a sua ajuda.
E portanto as cerimónias do Dia de Ano Novo podiam ter lugar como planeado;
Octaviano deveria ser o cônsul sénior e Agripa, apesar de já ser consular,
assumiu as funções de edil curul.
Em alguns aspectos aquele seria o ano de maior glória para Agripa, pois iniciou
enormes obras de reabilitação do fornecimento de água e de esgotos de Roma. A
reconstrução da Aqua Mareia estava terminada e a Aqua Júlia trouxe
melhoramentos ao fornecimento de água ao Quirinal e ao Viminal que, até então,
dependiam em grande medida das nascentes. Maravilhoso, sim, mas insignificante
quando comparado com as obras realizadas por Agripa nos imensos esgotos de
Roma. Três ribeiros subterrâneos tinham tornado exequível aquele sistema de
túneis abobadados; havia três saídas do esgoto: uma logo abaixo do Trigarium do
Tibre, local onde o rio era limpo e puro para se nadar, outro no Porto de Roma
e outro, o mais maciço, no local onde a Cloaca Máxima desaguava mesmo junto à
Ponte de Madeira. Ali a abertura (que fora em tempos o local onde desaguara o
rio Spinon) era suficientemente larga para permitir a entrada na Cloaca Máxima
num barco a remos. Toda a Roma se maravilhava com as viagens que Agripa fazia
naquele barco a remos, cartografando o sistema, tomando notas dos locais onde
os muros precisavam de ser escorados ou reparados. Não haveria mais, prometia
Agripa, refluxo dos esgotos quando o Pai Tibre inundasse. Além disso, dizia
aquele homem espantoso, não tencionava abdicar da supervisão dos esgotos e do
sistema de fornecimento de água quando abandonasse o cargo; enquanto vivesse,
Marco Agripa montaria guarda, como um cão negro, à porta das empresas das águas
e das empresas dos esgotos que, durante demasiado tempo, tinham tiranizado
Roma. Só Octaviano conseguia aproximar-se em popularidade junto ao povo. Tendo
amedrontado as empresas de águas e esgotos, Agripa baniu de seguida todos os
mágicos, profetas, videntes e curandeiros de Roma. Retirou da prateleira os
pesos e medidas padrão e obrigou os vendedores de tudo e mais alguma coisa a
conformarem-se com eles e, depois, dedicou a sua atenção aos empreiteiros de
construção. Durante algum tempo tentou manter a altura máxima dos prédios das
insulae nos trinta metros, mas isso, percebeu rapidamente, era uma tarefa que
estava para além do alcance até mesmo de Marco Agripa. O que podia fazer - e
fez - foi certificar-se de que todas as ligações dos canos de água eram da
dimensão adequada; não mais fornecimentos de água em abundância para os
apartamentos finos do Palatino e das Carinas!
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- Eu sei. Todavia já está a ser feito. Mandei buscá-los e devem estar a chegar
a todo o momento. Burgúndio está a preparar-lhes aposentos adequados: uma sala
de estar, dois cubículos para dormir, uma sala de aulas e um jardim privado.
Creio que eram os aposentos do jovem Hortênsio. Amanhã irei pessoalmente
comprar-lhes um pedagogo, enquanto Burgúndio vai à casa de Nero buscar as
coisas deles. Tenho a certeza de que haverá por lá brinquedos de que
detestariam ver-se separados bem como roupas e livros. Ainda assim não ficarei
com o seu actual pedagogo mesmo que estejam muito ligados a ele. Quero desfazer
os maus sentimentos que têm em relação a nós e tal será mais fácil de acontecer
sob a influência de estranhos.
- Porque não os mandas para casa de Escribónia com a pequena Júlia?
- Porque essa é uma casa de mulheres, uma espécie a que não estão habituados.
Nero não tinha uma mulher em casa, nem mesmo uma lavadeira - disse Octaviano.
Foi beijá-la mas ela desviou a cara. - Não sejas tonta querida, por favor.
Aceita o teu destino graciosamente, tal como é adequado à mulher de César.
O espírito dela corria à desfilada muito à frente do dele. Que extraordinário
ele ter decidido ficar com os seus filhos! Pois era evidente que tal
acontecera. Por isso, amando-o - e sabendo que o seu futuro dependia dele -
encolheu os ombros, sorriu e beijou-o de moto próprio.
- Suponho que não terei que os ver com muita frequência - disse.
- Tanto quanto é o dever de uma boa mãe romana. Quando eu não estiver em Roma,
espero que ocupes o meu lugar junto deles.
Os rapazes chegaram, tensos, sem lágrimas e sem olhos avermelhados que
sugerissem que as lágrimas tinham secado de tanto chorarem. Nenhum deles se
lembrava da mãe, nenhum deles vira alguma vez o padrasto, nem mesmo no Fórum;
Nero mantivera-os em casa sob estrita supervisão.
Tibério tinha cabelos e olhos pretos, pele cor de azeitona e feições regulares;
era alto para a idade mas extremamente magro. Como se, pensou Octaviano, não
fizesse exercício suficiente. Druso era adorável; o facto de ter entrado
imediatamente no coração de Octaviano devia-se às suas parecenças com a mãe,
apesar de os seus olhos serem mais azuis. Uma farta cabeleira de caracóis
pretos, os lábios cheios e malares altos. Tal como Tibério era alto e magro -
será que Nero nunca permitia aos filhos que corressem e ganhassem alguns
músculos para cobrir os ossos?
- Lamento a morte do vosso tatá - disse Octaviano muito sério tentando parecer
sincero.
- Eu não - disse Tibério.
- Nem eu - disse Druso.
- Está aqui a vossa mamã, rapazes - disse Octaviano desconcertado. Eles fizeram
uma vénia lançando-lhe olhares curiosos.
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Não tinham quaisquer brinquedos o que fez Octaviano chorar; ele tinha sido
cumulado de brinquedos pela sua mamã amorosa, tivera tudo o que havia de melhor
na casa de Filipe. Sendo um homem frio e racional, que muitos consideravam
gélido, Octaviano tinha uma faceta mais doce que vinha à superfície quando
estava com crianças. Não se passava um único dia, quando estava em Roma, que
não arranjasse algum tempo para passar com a pequena Júlia, uma criança
encantadora que já tinha seis anos. E apesar de não ter ansiado por filhos -
fazê-lo teria sido pouco romano - desejara ardentemente a companhia de
crianças, uma característica que partilhava com a irmã, cujos aposentos das
crianças recebiam frequentemente o Tio César que era engraçado, bem-disposto e
cheio de ideias para novas brincadeiras. Agora, observando os enteados ao
jantar, podia dizer novamente a si próprio que tinha muita sorte. Era evidente
que Tibério pertenceria a Lívia Drusila, que parecia ter perdido completamente
o seu desagrado pelo primogénito. Ah, mas o querido pequeno Druso! Temos um
cada, pensou Octaviano, sentindo-se tão feliz que parecia que ia rebentar. Até
o próprio jantar foi uma maravilha para os rapazes que comeram vorazmente,
revelando inconscientemente que Nero racionara tanto a qualidade como a
quantidade de comida que lhes era servida. Foi Lívia Drusila quem lhes chamou a
atenção para não se empanturrarem enquanto Octaviano os incitava a provar um
pouco disto e daquilo. Felizmente que os olhos já se fechavam antes de os doces
serem servidos; Octaviano levou Druso ao colo e Burgúndio levou Tibério para os
respectivos cubículos aconchegando-os debaixo dos cobertores quentes e mantas
acolchoadas; o Inverno prolongava-se sombriamente.
- Como te sentes agora, mulher? - perguntou Octaviano a Lívia Drusila quando se
preparavam para entrar na cama.
Ela apertou-lhe a mão.
- Muito melhor... oh, muito melhor! Sinto-me envergonhada por não me ter
esforçado mais para os visitar, mas nunca esperei que o ódio que Nero sentia
por nós não contagiasse os seus filhos. Como ele os tratava mal! César, eles
são patrícios! Teve todas as oportunidades para os transformar em nossos
inimigos implacáveis e que foi que ele fez? Chicoteou-os até o odiarem. Não
quis saber do seu bem-estar... fê-los passar fome, ignorou-os. Estou muito
satisfeita por ele estar morto e nós podermos cuidar convenientemente dos
nossos rapazes.
-Amanhã terei que fazer o funeral dele. Ela levou a mão ao peito.
- Oh, deuses, tinha-me esquecido disso! Suponho que Tibério e Druso terão que
assistir?
- Receio que sim. Far-lhe-ei o elogio fúnebre na rostra.
- Será que a Octávia tem túnicas pretas de criança? Octaviano riu-se.
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Uma ideia muito reconfortante; Tibério olhou para Octaviano e tentou o seu
primeiro sorriso.
- Quanto a ti, meu jovem - disse Octaviano a Druso -, não vejo quaisquer sinais
de timidez. Tiveste muita razão em preferir a Tonilla à Antónia, mas espero que
mais tarde consigas encontrar interesses comuns com o Marcelo, apesar de ele
ser um pouco mais velho do que tu.
Lívia Drusila recebeu os rapazes com um beijo e mandou-os para a sala de
estudo com Cimbro.
- César, tive uma ideia brilhante! - gritou assim que ficaram a sós.
- Qual foi? - perguntou ele desconfiado.
- Uma recompensa para Marco Agripa! Bem, duas recompensas, na realidade.
- Agripa não está nisto por causa das recompensas, querida.
- Sim, sim, sei disso! Mesmo assim deve receber recompensas... mantê-lo-ão
preso a ti à medida que os anos forem passando.
- Ele nunca deixará de estar ligado a mim porque esse sentimento vem de quem
e daquilo que ele é.
- Sim, sim, sim! Mas não seria um casamento óptimo para ele se casasse com
Marcela?
- Ela tem treze anos, Lívia Drusila.
-Treze a caminhar para os trinta, provavelmente. Dentro de quatro anos terá
dezassete... idade suficiente para se casar. São cada vez menos as Famílias
Famosas que mantêm o costume de ter as filhas em casa até aos dezoito anos.
- Sem dúvida que pensarei no assunto.
- E depois há a filha de Agripa, Vipsânia. Sei que quando o velho Ático morrer
a sua fortuna passará para Ática, ma ouvi dizer que se esta morrer, o
testamento estipula que a fortuna passa para Agripa - disse Lívia Drusila
ansiosamente. - O que torna a filha muitíssimo desejável e, como a herança do
Tibério é tão insignificante, penso que ele deveria casar com Vipsânia.
- Ele tem oito anos e ela ainda não tem três.
- Oh, por amor dos deuses, César, deixa de ser tão casmurro! Eu sei muito bem a
idade deles, mas terão idade suficiente para casar antes de conseguires dizer
Alammelech!
- Alammelech? - perguntou ele com os lábios a tremer.
- É um rio na Filístia.
- Eu sei, mas não sabia que tu sabias.
- Oh, vai atirar-te ao Tibre!
Enquanto a sua vida doméstica se tornava cada vez mais numa fonte de alegrias
para Octaviano, os seus actos públicos e políticos não estavam a dar muitos
frutos merecedores de serem colhidos.
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Por mais rumores que espalhassem, por mais calúnias que murmurassem contra
Marco António, os agentes de Octaviano não conseguiam fazer mudar a convicção
de setecentos senadores de que Marco António era o homem certo a seguir.
Acreditavam genuinamente que ele regressaria brevemente a Roma; na realidade
teria que o fazer, nem que fosse apenas para celebrar o triunfo das suas
vitórias na Arménia. As cartas que ele enviara de Artaxata gabavam-se de um
saque enorme, desde estátuas de ouro maciço com seis cúbitos de altura a arcas
cheias de moedas partias de ouro e, literalmente, centenas de talentos de
pedras de lápis-lazúli e cristais. Traria com ele a Décima Nona Legião e já
exigira a Octaviano que encontrasse terras para distribuir aos seus legionários
quando estes se retirassem.
Se a influência de António se circunscrevesse ao Senado, poderia ter sido
ultrapassada, mas a primeira e a segunda classes na sua totalidade, muitos
milhares de homens envolvidos em algum tipo de negócio, proclamavam o
brilhantismo, a integridade e o génio militar de António. Para piorar ainda
mais as coisas, os tributos estavam a fluir para o Tesouro a um ritmo cada vez
maior e os cobradores de impostos publicani e plutocratas de todos os géneros
andavam a zumbir em torno da província da Ásia e da Bitínia como abelhas à
volta de flores carregadas de néctar e agora parecia que viriam aí despojos
imensos para acrescentar ao Tesouro. A estátua em ouro maciço de Anaitis seria
a oferenda pessoal de António ao templo de Júpiter Óptimo Máximo, mas a maior
parte das outras obras de arte, bem como as jóias, seriam vendidas. O general,
os seus legados e as legiões, receberiam as suas percentagens legalmente
estabelecidas, mas o Tesouro ficaria com o resto. Apesar de se terem passado
anos desde que António estivera mais do que alguns dias seguidos em Roma - e a
última visita acontecera há quatro anos - a sua popularidade mantinha-se entre
aqueles que verdadeiramente contavam. Aquela gente queria saber da Ilíria? Não,
não queria. Não havia por lá nenhuma promessa de actividades comerciais e
poucos dos que viviam em Roma e tinham villas na Campânia ou na Etrúria,
queriam saber se Aquíleia tinha sido arrasada ou Mediolanum destruída. A única
coisa positiva que Octaviano conseguiu fazer foi tornar conhecido o nome de
Cleópatra em Itália, desde o mais importante ao mais insignificante dos seus
habitantes. Dela toda a gente acreditava no pior; o problema era não conseguir
convencê-los de que era ela quem controlava António. Se a inimizade entre
António e Octaviano não fosse tão conhecida, este talvez tivesse conseguido
estabelecer o seu ponto de vista, mas todos quantos gostavam de António
limitavam-se a ignorar as alegações de Octaviano por as entenderem como parte
da inimizade entre ambos. Foi então que Gaio Cornélio Galo chegou a Roma.
Apesar de ser um bom amigo de Octaviano, aquele poeta empobrecido com uma
faceta guerreira, tinha pedido desculpa a Octaviano e partira para servir como
legado de António, tendo escapado à justa da retirada de Fraaspa. Ficara então
na Síria, sem fazer nada, enquanto António bebia, passando o tempo a compor
belas odes líricas no estilo de Píndaro e a escrever ocasionalmente a
Octaviano.
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Lamentando o facto de a sua bolsa não estar mais recheada, manteve-se na Síria
até António se livrar dos efeitos do vinho e marchou para a Arménia. O seu ódio
por Cleópatra era intenso e obstinado; ninguém se regozijou mais do que ele
quando ela regressou ao Egipto e deixou António para se desembaraçar sozinho.
Aos trinta e quatro anos, quando pediu uma entrevista ao seu velho amigo
Octaviano, Galo era extremamente bem-parecido, de uma forma algo cruel, que era
mais um acidente da fisionomia do que um traço do seu carácter. Adorava
elegias, Amores já o tinha tornado famoso e era íntimo de Virgílio, com quem
tinha muito em comum racialmente: ambos eram gauleses italianos. Ele não era,
portanto, um Cornélio patrício.
- Espero que me possas emprestar algum dinheiro, César - disse enquanto
aceitava o copo de vinho que César lhe estendia. Um sorriso pesaroso franziu-
lhe os cantos dos esplêndidos olhos cinzentos. - Não ando propriamente a pedir
esmola - continuou. - Mas gastei tudo o que tinha numa viagem rápida de
Alexandria para Roma, sabendo que o Inverno atrasaria a chegada a Roma das
notícias do que se passou em Alexandria.
Octaviano franziu o sobrolho.
- Alexandria? Que estavas lá a fazer?
- A tentar arrancar a António e àquela porca horrorosa da Cleópatra a
percentagem a que tenho direito dos despojos da Arménia. - Encolheu os ombros.
-Não tive sucesso. Assim como mais ninguém terá.
- Pelo que soube - disse Octaviano instalando-se numa cadeira -, António andava
ocupado a visitar o Sul da Síria, isto é, a parte que não entregou a Cleópatra.
- Um pretexto - disse Galo de sobrolho franzido. - Aposto que ninguém em Roma
sabe ainda que António levou todo o saque da Arménia, até ao último sestércio,
para Alexandria. Onde se exibiu numa parada triunfal para gáudio dos cidadãos
de Alexandria e... da sua rainha, sentada bem alto num estrado dourado no
cruzamento das Avenidas Real e Canópica. - Respirou fundo e bebeu avidamente.
-Após ter triunfado, dedicou tudo a Serápio: a sua parte, as partes dos seus
legados, as partes das legiões e a do Tesouro. Altura em que Cleópatra se
recusou a pagar as percentagens do exército, embora António tenha conseguido
convencê-la de que as tropas tinham que ser pagas e rapidamente. Homens como eu
foram de tal forma desprezados que nem fomos convidados para os espectáculos
públicos.
- Deuses! - disse Octaviano em voz fraca completamente chocado. - Ele teve a
temeridade de dar aquilo que não lhe pertence?
- Oh, sim. Estou certo de que, eventualmente, todo o exército será pago, mas o
Tesouro não. Suportei Alexandria depois do triunfo, mas quando António
organizou aquilo que Délio denominou as Doações, senti uma saudade tão forte de
Roma que tive que me vir embora ainda sem ter recebido qualquer compensação.
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- Doações?
- Oh, uma cerimónia maravilhosa no novo ginásio! Agindo com a autoridade que
lhe é conferida como representante de Roma, António proclamou publicamente
Ptolomeu César, Rei dos Reis e governador do mundo! Cleópatra foi nomeada
Rainha dos Reis e os seus três filhos com António receberam a maior parte da
África, o reino Parto, a Anatólia, a Trácia, a Grécia, a Macedónia e as ilhas
na extremidade oriental do Nosso Mar. Espantoso, não é?
Octaviano estava de boca aberta e os olhos esbugalhados.
- Incrível!
-Talvez, mas não menos real. É um facto, César, um facto! -António deu alguma
explicação aos legados?
- Uma explicação curiosa, sim. O que Délio sabe escapa-me; ele goza de um
estatuto especial. Ao resto de nós, todos os legados juniores, foi-nos dito que
ele jurara entregar o saque a Cleópatra e que era a sua honra que estava em
causa.
- E a honra de Roma?
- Não estava em parte nenhuma.
Durante a hora que se seguiu, Octaviano ouviu de Galo a história completa, sob
a forma meticulosa de alguém que vê o mundo pelos olhos de um poeta. O nível do
vinho no jarro foi descendo, mas Octaviano não lamentou o vinho nem a soma
considerável que pagaria a Galo por lhe ter trazido aquela informação, em
primeira mão, a Roma. Um tesouro fabuloso! O Inverno naquele ano chegara cedo e
fora muito longo; não era para admirar que tivesse passado tanto tempo. O
triunfo e as Doações tinham acontecido em Dezembro e já estavam em Abril. No
entanto, avisou Galo, tinha razões para acreditar que Délio escrevera a
Publícola para lhe dar aquelas notícias dois meses antes e que a carta viera
num barco que chegara ao seu destino.
Finalmente só faltava relatar um facto estranho. Octaviano inclinou-se para
diante, com os cotovelos apoiados na secretária e o queixo apoiado nas mãos.
- Ptolomeu César foi proclamado superior a sua mãe?
- Cesarião é o que lhe chamam. Sim, foi.
- Porquê?
- Oh, a mulher adora-o! Em termos comparativos, os filhos que teve com António
não lhe interessam. É tudo para Cesarião.
- Ele é filho do meu divino pai, Galo?
- Indubitavelmente - respondeu Gaio com firmeza. - A imagem de Divus Julius sob
todos os aspectos. Não tenho idade suficiente para me recordar de Divus Julius
em novo, mas Cesarião tem o aspecto que ele deve ter tido com a mesma idade.
- E qual é a idade?
- Treze anos. Fará catorze em Junho. Octaviano descontraiu-se.
- Então ainda é uma criança.
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- Oh não, longe disso! Já está bem entrado na puberdade, César; tem a voz suave
e o aspecto de um homem adulto. Segundo sei, o seu intelecto é tão profundo
como precoce. Ele e a sua mamã têm tido divergências espectaculares, segundo
Délio.
-Ah! - Octaviano levantou-se e estendeu o braço na direcção de Galo, apertou-
lhe vigorosa e calorosamente a mão. - Nem sei como te dizer o quão grato estou
pelo teu zelo, portanto deixarei que algo de mais tangível fale por mim. Vai ao
banco do Ópio no próximo nundinum e encontrarás lá um belo presente. E mais,
como sou agora o tutor das propriedades do meu enteado, posso oferecer-te a
casa de Nero durante os próximos dez anos em troco de uma renda simbólica.
- E serviço na Ilíria? - perguntou o poeta guerreiro avidamente.
- Definitivamente. Não será grande coisa em termos de saque, mas haverá umas
boas batalhas.
A porta fechou-se nas costas de um Gaio Cornélio Galo que flutuava vários
centímetros acima do solo enquanto se dirigia para a casa de Virgílio;
Octaviano ficou no meio do escritório processando todas aquelas informações e
pondo-as numa sequência que lhe permitisse digeri-las convenientemente. Que
António pudesse ter feito coisas tão estúpidas deixava-o estupefacto e esse
permaneceria para sempre o factor mais incompreensível de toda aquela história.
Pois suspeitava que nunca saberia quais tinham sido as suas razões. Um
juramento? Aquilo não fazia sentido! Como nunca acreditara na sua própria
propaganda, Octaviano deu por si quase sem saber o que fazer. Quase. Talvez a
harpia tivesse drogado António, apesar de, até àquele momento, Octaviano sempre
ter sido céptico relativamente a poções capazes de se sobreporem aos princípios
mais essenciais da existência. E o que seria mais essencial para um romano do
que a própria Roma? António depositara no colo de Cleópatra o saque que
pertencia a Roma sem, ao que parecia, considerar sequer se a conseguiria
persuadir a pagar ao seu exército as percentagens a que tinha direito sobre os
despojos. Ter-se-ia ele posto de joelhos, a implorar, antes de ela consentir
pagar ao menos aos soldados vulgares? Oh, António, António! Como pudeste fazê-
lo? O que dirá a minha irmã? Mas que insulto!
Havia contudo uma coisa mais importante do que todas as outras juntas: Ptolomeu
César. Cesarião. De alguma forma era mais fácil compreender Cleópatra sabendo
que ela adorava o filho mais velho. Era um choque ficar a saber que, na
realidade, o rapaz era a imagem do pai, mesmo no que dizia respeito ao
amadurecimento precoce e à inteligência. Faria catorze anos dentro de dois
meses e apenas cinco anos o separavam da audácia dos Césares, da perspicácia
dos Césares. Ninguém melhor do que Octaviano sabia do que era capaz o sangue
juliano; ele próprio tinha, afinal, lutado pelo poder aos dezoito anos. E com
sucesso! Aquele rapaz tinha tantas vantagens: já estava habituado a ter poder,
era suficientemente forte para defrontar a mãe, sem dúvida que era tão fluente
em latim como ela própria e, portanto, capaz de iludir Roma fazendo-a crê-lo um
romano genuíno.
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Depois voltava ao tom monótono para que toda a gente pudesse fazer mais uma
soneca agradável. Tanto os partidários de António como de Octaviano ficaram
gratos por aquela técnica, de modo que Aenobarbo ganhou muitos amigos.
Octaviano estava sentado na sua cadeira curul de marfim na frente do estrado
dos magistrados curuis, fazendo um grande esforço para se manter acordado,
ainda que quando a Câmara inteira dormitava ele se sentisse à vontade para
dormitar também. O edifício era bastante abafado, a não ser quando fustigado
por um vento forte capaz de penetrar as altas janelas do clerestório de ambos
os lados, mas naquele dia não havia vento; estava-se no início do Verão.
Contudo manter-se acordado era mais fácil para ele; tinha muito em que pensar e
o coro de ressonadelas suaves não era um impedimento. Para ele, o início
daquela carta que viria a ficar famosa era o mais interessante.
"O Oriente", dizia António (ou Cleópatra?), "é fundamentalmente estranho à mos
maiorum romana, portanto não pode ser compreendida pelos Romanos. A nossa
civilização é a mais avançada do mundo; elegemos livremente os magistrados que
nos governam e, para garantir que nenhum magistrado começa a pensar que é
indispensável, os mandatos são limitados a períodos de um ano. Só em tempos de
grave perigo interno recorremos a governos mais longos, mais ditatoriais, como
acontece actualmente em que temos três - peço desculpa, pais conscritos -, dois
triúnviros para supervisionar os actos dos cônsules, pretores, edis e
questores, senão mesmo os tribunos da plebe.
"Vivemos de acordo com o primado da lei, cujo processo é formal e imparcial..."
Ouviram-se risadas vindas de todas as bancadas; Aenobarbo aguardou até o ruído
esmorecer e depois recomeçou como se não tivesse sido interrompido.
"... e sensato nas penalidades que impõe. Não prendemos os cidadãos por nenhum
crime. As ofensas menores resolvem-se com multas e, as mais graves, incluindo a
traição, através do confisco dos bens e do exílio para uma determinada
distância de Roma."
Aenobarbo delineou meticulosamente o sistema penal, os tipos de cidadãos, a
divisão do governo romano em braços legislativo e executivo e o lugar das
mulheres na ordem romana das coisas.
"Pais conscritos, acabo de descrever pormenorizadamente a mos maiorum e, na
realidade, a forma como os Romanos vêem o mundo", continuou.
"Imaginem então, se forem capazes, um governador romano com imperium
proconsular, a chegar a uma determinada província como a Cilicia, a Síria ou o
Ponto. Parte do princípio de que a sua província pensa como os Romanos e quando
faz justiça ou emite decretos, pensa como os Romanos".
- Mas - rugiu Aenobarbo -, o Oriente não é romano! Não pensa romano! Por
exemplo, em mais nenhum lugar a não ser em Roma, os pobres são alimentados à
custa do Estado. Os pobres do Oriente são vistos como um problema e são
deixados morrer à fome se não puderem comprar pão.
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O Egipto não mantém nenhum exército permanente e não tem ambições de conquista.
Os territórios que cedi ao Egipto, em nome de Roma, são mais bem governados
pelo Egipto, pois todos eles pertenceram ao Egipto durante séculos. Enquanto o
rei Ptolomeu César e a rainha Cleópatra estiverem atarefados a estabelecer
governos estáveis nesses locais não pagarão qualquer tributo a Roma, mas os
tributos reiniciar-se-ão numa data futura." - Que reconfortante - disse Messala
Corvino.
Agora viria a peroração, pensou Octaviano. Esta seria curta, o que era uma
misericórdia. Aenobarbo lê bem, mas uma carta nunca consegue substituir um
discurso proferido pessoalmente. Especialmente um discurso proferido por alguém
como António, que é um orador muito competente.
"Tudo o que Roma deseja do Oriente", rugiu Aenobarbo, "é o comércio e os
tributos! As minhas disposições aumentarão ambos."
Sentou-se no meio de vivas e aplausos, apesar de os trezentos senadores que
tinham desertado do campo de António, após o triunfo alexandrino e as Doações,
não terem dado vivas nem aplaudido. António alienara-os permanentemente com
aquela última secção da sua carta que todos os verdadeiros romanos consideravam
uma prova do domínio de Cleópatra sobre ele. Não era preciso ser-se muito
imaginativo para deduzir que o que restava da Anatólia e da Síria asiática iria
para aquele maravilhoso apanágio, para esse primo chegado que era o Egipto.
Octaviano levantou-se, agarrando as pregas da toga sobre o ombro esquerdo com a
mão esquerda, avançando até ficar sob um raio de sol que entrava por um pequeno
orifício no telhado. Quando a luz incidiu sobre ele o seu cabelo incendiou-se e
o seu brilho acompanhava-lhe os movimentos. O que ninguém sabia, com excepção
de Agripa, era que fora ele quem mandara abrir o buraco.
- Mas que documento espantoso - disse ele depois de ter feito as saudações da
ordem. - Marco António, essa fabulosa autoridade do Oriente! Um nativo dessa
terra, seríamos tentados a pensar. Provavelmente é bem capaz de o ser na sua
essência, uma vez que é tão dado a deitar-se em divãs e atirar uvas para a
boca, em estado líquido bem como em estado sólido, e muito adepto de bailarinas
escassamente vestidas e muito dado a tudo o que seja egípcio. Mas, por outro
lado, sou capaz de estar errado, pois não sou nenhuma autoridade em matéria de
Oriente. Hum... deixem-me ver... Quantos anos se passaram desde Filipos,
batalha após a qual António partiu para o Oriente? Nove anos, mais coisa menos
coisa... Durante esse período fez três breves visitas a Itália, duas delas
incluindo uma viagem até Roma. Apenas numa única ocasião se demorou durante um
tempo significativo em Roma. Foi há quatro anos, depois de Tarento...
certamente que estais recordados, pais conscritos! Depois disso e ao regressar
ao Oriente, ele abandonou a minha irmã e sua esposa em Corcira. Ela estava
grávida, mas coube ao bom Gaio Fonteio trazê-la de volta a casa.
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"Muito bem, nove anos tornam na realidade Marco António um perito no Oriente,
tenho que o admitir. Durante quatro anos manteve a mulher romana em casa,
enquanto mantinha a sua outra mulher, a Rainha das Bestas, tão próxima de si, a
seu lado, que já não sabe existir sem ela. Ela tem um lugar de honra entre a
corte de reis-clientes de António, pois ao menos demonstrou força e
determinação. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos restantes reis-
clientes... um bando de desgraçados. Amintas o escriturário, Tarcondimoto o
bandido, Herodes o selvagem, o genro de António, Pitodoro, o grego
escorregadio, Cleón o facínora, Polémon o bajulador, Arquelau Sisenes o filho
da sua amante... oh, podia continuar infinitamente!
- O melhor é calares-te para sempre, Octaviano! - gritou Publícola.
- César! Eu sou César. Sim, um bando lamentável. É verdade que os tributos
começam finalmente a chegar da província da Ásia, da Bitínia e da Síria romana,
mas onde estão os tributos do bando de clientes lamentáveis de António? Em
particular o tributo dessa jóia brilhante que é a Rainha das Bestas? Deduzimos
que ela tem melhor destino a dar ao dinheiro, gastando-o em poções para dar a
António, pois não posso acreditar que um António são e intacto oferecesse os
despojos de Roma como presente ao Egipto. Nem que entregasse o mundo inteiro ao
filho da Rainha das Bestas e de um escravo patético.
Ninguém o interrompeu; Octaviano fez uma pausa e posicionou-se adequadamente
sob o raio de luz, esperando pacientemente pelos comentários que não vieram.
Avante então, falaria agora das legiões e proporia a sua própria solução para o
problema de estas "ficarem como os nativos": transferir as legiões de uma
província para outra durante as suas missões de guarnição.
- Não tenciono tornar o vosso dia numa provação total, colegas senadores,
portanto concluirei dizendo que se as legiões de Marco António, as legiões
dele!, ficaram com os nativos, porque é que ele quer que eu lhes encontre
terras em Itália? Suponho que os soldados ficariam mais satisfeitos se ele lhes
arranjasse terras na Síria. Ou no Egipto, onde parece que tenciona instalar-se
permanentemente.
Pela primeira vez desde que entrara na Câmara há dez anos, Octaviano deu por si
a ser entusiasticamente aplaudido; até mesmo alguns dos quatrocentos senadores
de António aplaudiram, enquanto que os seus próprios partidários e os trezentos
independentes o aplaudiam de pé. E ninguém, nem mesmo Aenobarbo, se atreveu a
assobiar ou a patear. Ele tinha mexido demasiado na ferida para que isso fosse
possível.
Saiu da Câmara de braço dado com Gaio Fonteio que se tornara cônsul sufecto nas
Calendas de Maio; tinha desistido do seu próprio consulado no segundo dia de
Janeiro, imitando António no ano anterior. Haveria mais cônsules sufectos, mas
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No rosto dela estava estampada aquela expressão obstinada e significava que não
iria admitir discussões; uma tempestade em formação espumava por detrás dos
seus olhos. Se ele lhe tentasse dizer aquilo que a experiência viria a
confirmar, iriam ter mais uma de uma série interminável de discussões. Teria
alguma vez nascido um homem capaz de lidar, com sucesso, com uma mulher mandona
e senhora de um poder quase ilimitado? António duvidava. Talvez o falecido
César, mas esse conhecera-a quando ela era muito nova e estabelecera um
ascendente que ela não soubera como destruir. Agora, anos mais tarde, ela
estava firme como pedra. Pior ainda, tinha-o visto a ele, António, no seu pior,
encharcado em vinho ao ponto de quase entrar em coma e interpretara esse
episódio como uma demonstração de fraqueza fundamental. Sim, ele podia
intimidá-la lembrando-lhe que não dispunha de exército nem de marinha para
alcançar os seus objectivos, mas no dia seguinte ela atacaria de novo e
recomeçaria a pressioná-lo.
Estou encurralado, pensou ele, enredado numa teia tecida por ela e não tenho
forma de me libertar sem abandonar a minha própria tentativa de alcançar o
poder. Até certo ponto queremos a mesma coisa: a destruição de Octaviano. Mas
ela iria muito mais longe, tentaria destruir a própria Roma. Isso não lho
permitirei mas, neste momento, não me posso opor. Tenho que ganhar tempo e
tentar parecer que lhe dou tudo o que ela quer. Incluindo o comando conjunto.
- Concordo - disse ele com ar decidido. Que tudo fosse conforme os desejos de
Cleópatra... por enquanto. A experiência demonstrar-lhe-ia que nunca seria
aceite numa tenda de comando cheia de homens romanos. No entanto... conseguiria
ele rejeitá-la? Vivendo com ela, dormindo na mesma cama, conseguiria rejeitá-
la? O tempo também clarificaria esse ponto.
- Queres o comando conjunto - disse ele. - Queres ser minha igual nos conselhos
de guerra. - Deu um soluço e reprimiu-o. - Concordo - repetiu. E, finalmente,
queimou todas as pontes. Que fosse tudo conforme os desejos de Cleópatra;
talvez então ele pudesse ter paz.
Sentou-se para escrever a Aenobarbo usando o seu título extinto, triúnviro, e
enumerando todas as suas exigências ao Senado e Povo de Roma: autoridade total
sobre o Oriente, que deveria ficar completamente isento da supervisão
senatorial sob que forma fosse; o direito de cobrar tributos conforme achasse
adequado; a nomeação de reis-clientes; o comando de quaisquer legiões que Roma
pudesse enviar para leste do rio Drina; a ratificação de todas as suas
actiones; e mais uma ratificação: das terras e títulos que concedera ao rei
Ptolomeu César, à rainha Cleópatra, ao rei Ptolomeu Alexandre Hélio, à rainha
Cleópatra Selene e ao rei Ptolomeu Filadelfo.
"Coroei o rei Ptolomeu César Rei dos Reis e senhor do mundo. Ninguém me poderá
contradizer. Para além disso recordo ao Senado e Povo de Roma que o rei
Ptolomeu César é filho legítimo de Divus Julius e seu herdeiro legal. Quero que
este facto seja formalmente reconhecido."
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- Mamã - dissera a Cleópatra -, isto é uma loucura! Não vês? Estás a desafiar o
poder de Roma! Sei que Marco António é um excelente general e que tem um
exército enorme, mas se Roma mobilizar todos os seus recursos ninguém a
conseguirá derrotar. Levou cento e cinquenta anos a esmagar Cartago, mas
Cartago foi esmagada... e de tal forma que nunca mais se reergueu! Roma é
paciente, mas não precisará de cento e cinquenta anos para esmagar o Egipto e o
Oriente de António. Por favor, imploro-te, não ofereças a César Octaviano o
pretexto para vir para oriente! Ele encarará a concentração de todas as forças
de António em Éfeso, num local tão longínquo de qualquer região com problemas,
como uma declaração de guerra. Por favor, por favor, mamã, suplico-te, não o
faças!
- Disparate, Cesarião - disse ela confortavelmente enquanto andava de um lado
para o outro a supervisionar o empacotamento das suas coisas. -António não pode
ser derrotado em terra ou no mar, certifiquei-me disso ao fornecer-lhe uma
imensa arca de guerra. Se adiarmos, isso só servirá para Octaviano se tornar
mais forte.
Ele estava de pé ao lado de um busto seu, muito recente, que a mãe encomendara
a Doroteu de Afrodisias, duplicando-se inconscientemente aos olhos da mãe.
Esquilo pintara o busto e captara correctamente todas as subtilezas do cabelo e
da pele e delineara os olhos com brilhantismo. A escultura parecia de tal modo
viva que se esperava que abrisse a boca e começasse a falar mas, com o modelo
real ao seu lado, tão veemente e apaixonado, tornava-se pálida e
insignificante.
- Mamã - insistiu ele -, Octaviano ainda nem sequer começou a recorrer às suas
reservas. E por muito que eu ame Marco António, ele não está à altura de Marco
Agripa em terra ou no mar. Octaviano pode ocupar nominalmente a tenda de
comando, mas deixará a condução da guerra nas mãos de Agripa. Aviso-te, Agripa
é a base de tudo! Ele é formidável! Roma não produzira nada assim desde o meu
pai.
- Oh, Cesarião, realmente! Tu preocupaste-te tanto que eu já nem te ligo.
-Cleópatra parou com um dos vestidos preferidos de António na mão. - Quem é
esse Marco Agripa? Um nada, ninguém. Um igual de António? Decididamente que
não.
- Então fica ao menos tu aqui em Alexandria - implorou o rapaz. Ela ficou
espantada.
- Em que estás a pensar? Sou eu quem está a pagar esta campanha, o que
significa que sou sócia de António neste empreendimento. Achas que sou neófita
nestas coisas da guerra?
- Sim, acho. A tua única experiência foi quando ficaste no monte Cássio à
espera de Aquilas e do seu exército. Foi o meu pai que te livrou dessa confusão
e não a tua inexistente perícia militar. Se acompanhares Marco António, os seus
colegas romanos pensarão que o tens sob controlo e odiar-te-ão.
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- Que queres dizer com alguns anos? Ela devia estar aqui juntamente com vinte
mil soldados enviados pelo irmão!
- Só posso repetir, domine, que não está cá. E também não há quaisquer soldados
aboletados nos arredores de Atenas. Se o senhor Octaviano enviou soldados eles
devem ter ido para a Macedónia ou, por terra, para a província da Ásia.
A memória estava a voltar; sim, tinham passado cinco anos desde que Octávia
viera com quatro coortes de tropas e não com quatro legiões. E ele ordenara-lhe
que enviasse os presentes militares de Octaviano para Antioquia e que
regressasse ela própria a casa. Cinco anos! Ter-se-ia passado mesmo tanto
tempo? Não, talvez tivessem sido apenas quatro anos. Ou três? Oh, isso
interessaria?
- Estive demasiado tempo longe de Roma - disse a Lucílio sentando-se atrás
da secretária.
- A última vez foi a viagem a Tarento, há seis anos - disse Lucílio de trás da
sua própria secretária.
- Então foi há quatro anos que Octávia veio para Atenas. -Sim.
- Pega numa carta, Lucílio... "Para Octávia de Marco António. Divorcio-me de ti
por este meio. Retira-te da minha casa em Roma e cessa a permanência em
qualquer das minhas villas em Itália. Não te devolverei o teu dote e declino
continuar a sustentar-te ou aos meus filhos romanos. Aceita esta carta como
final e definitiva."
Mantendo os olhos fixos na folha de papel, Lucílio escreveu. Oh, querida
senhora! Com aquele acto estava perdida toda a esperança de salvação para
António... Ergueu a cabeça, levantou-se e pousou o papel na frente de António.
Um dos seus talentos excepcionais era a caligrafia, de tal forma boa que não
tinha que ser copiada por um escriba profissional.
António leu-a rapidamente e dobrou-a.
- A cera, Lucílio.
O vermelho era a cor habitual para documentos formais. Lucílio chegou a barra
de lacre à chama, com enorme perícia, para que esta não enegrecesse com o fumo
e virou-a no instante em que uma bolha, do tamanho de um denário, caiu sobre a
folha exterior. António colocou sobre o lacre o anel de sinete e fez pressão.
Hércules, rodeado pelas letras IMP. M. [Link].
- Mete-a no próximo navio que largue para Roma - disse António bruscamente - e
arranja-me um navio para Éfeso. Os meus assuntos em Atenas estão praticamente
concluídos. - Sorriu ironicamente. - Nunca existiram.
Não parecia haver um momento exacto que pudesse apontar o momento em que
queimara as pontes romanas, decidiu António quando saiu do Pireu; sabia apenas
que tudo tivera início quando soubera do seu juramento de se dedicar a si
próprio e ao seu saque a Cleópatra e a Alexandria.
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O seu amor por Octávia e pelas coisas romanas não tinha prosperado, enquanto
que o seu amor por Cleópatra se tornara avassalador. Qual a razão, não sabia
verdadeiramente dizer, excepto que ela estava no âmago do seu ser e que não
conseguia contrariá-la, nem mesmo quando as suas exigências eram absurdas. Uma
parte devia-se às suas falhas de memória, sim, mas essas também não podiam
acarretar com todas as culpas. Talvez a grande rainha se tivesse apossado do
seu coração por, ao menos ela, lhe reconhecer mérito; pelo menos ela achava-o
poderoso e digno de ser cativado. Roma pertencia a Octaviano, portanto porque
não desistir completamente de Roma? Era a isso que tudo se resumia no final de
contas. Se queria ser o Primeiro Homem em Roma teria que conquistar Octaviano
no campo de batalha. E Cleópatra via isso claramente, sempre o vira. A sua
perigosa recaída em Samos, e a terrível ressaca de doenças e novas falhas de
memória, tinham-no feito ver que os seus melhores anos pertenciam ao passado,
mesmo que soubesse que aquilo não passara de uma recaída episódica. Uma recaída
irresistível, pois a sua verdadeira razão para embarcar de Éfeso para Atenas
fora para fugir ao seu amor, à sua ruína, aos seus votos a Cleópatra.
Portanto, pensara, ao chegar a Atenas mais ou menos curado, porque não queimar
as pontes romanas? Toda a gente, de Cleópatra a Octaviano o desejava, o
esperava, não aceitaria dele nada diferente. Agora teria que regressar a Éfeso
antes que Cleópatra criasse novos problemas.
Mas antes de ele conseguir chegar a Éfeso já a presença de Cleópatra estava a
ter graves repercussões. Primeiro foram Saturnino e Arrúncio que partiram para
Roma, declarando que preferiam servir um homem que odiavam a servir qualquer
tipo de mulher; ao menos Octaviano era romano! Depois seguiu-se Atratino,
juntamente com um grupo de legados subalternos que estavam furiosos devido à
maneira como Cleópatra passava revista aos acampamentos à procura de defeitos,
fazendo mesmo comentários mordazes acerca de equipamentos mal cuidados ou de
centuriões veteranos que não se punham em sentido quando ela lhes falava.
Quando Atratino chegou a Roma, Aenobarbo e Sósio escutaram as suas queixas com
desalento.
As coisas em Roma também não estavam a correr bem. O Tesouro estava quase vazio
devido ao elevado custo de encontrar terras boas para muitos milhares de
veteranos. Os muitos milhões de sestércios provenientes dos cofres de Sexto
Pompeu tinham sido gastos, por incrível que isso parecesse. A terra estava a
ficar cara e eram muito poucos os legionários que concordavam em retirar-se
para locais no estrangeiro, como as Hispânias, as Gálias ou África. Também eram
romanos e estavam ligados ao solo italiano. Sim, os veteranos estavam
satisfeitos... mas com um elevado custo para a nação.
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Contudo, não havia forma de negar que Octaviano estava lentamente a ganhar
influência no Senado e entre os plutocratas e cavaleiros-comerciantes; as
oportunidades de António no Oriente escasseavam e os homens e empresas, que
tinham prosperado dois anos antes, estavam agora a desintegrar-se. Polémon,
Arquelau Sisenes, Amintas e as dinastias menos importantes nomeadas por António
tinham ganho confiança suficiente para tornar impossível o florescimento do
comércio romano. Incitados, como toda a gente sabia, por Cleópatra, a aranha no
centro da teia.
- Que havemos de fazer? - perguntou Sósio a Aenobarbo depois da saída do
irado Atratino.
- Tenho andado a pensar nisso, Gaio, desde que recebi a carta de António, e
creio que só nos resta fazer uma coisa.
- Diz então! - gritou Sósio.
- Temos que reforçar o carácter romano da governação de António no Oriente,
esse é o primeiro braço desta pinça - disse Aenobarbo. - O segundo é fazer com
que Octaviano pareça ilegal.
- Ilegal? Mas como é que vais conseguir uma coisa dessas? -Transferindo o
governo de Roma para Éfeso. Tu e eu somos os cônsules deste
ano. A maioria dos pretores também é partidária de António. Duvido que
consigamos arrancar os tribunos da plebe do lado dele, mas se metade do Senado
nos acompanhar, seremos incontestavelmente um governo no exílio. Sim, Sósio,
trocaremos Roma por Éfeso! Transformaremos assim Éfeso no centro do governo e
injectaremos o círculo de António com, digamos, quinhentos romanos de
confiança. Mais do que o suficiente para forçar Cleópatra a regressar ao
Egipto, que é onde deve estar.
- Isso foi o que Pompeu Magno fez depois de César, ups, Divus Julius!, ter
atravessado o Rubicão e entrado na Itália propriamente dita. Levou os cônsules,
os pretores e quatrocentos senadores para a Grécia. - Sósio franziu o sobrolho.
- Mas naqueles tempos o Senado era mais pequeno e não incluía tantos novi
homines. Hoje em dia o Senado tem mil membros e dois terços desses membros são
Homens Novos. Muitos deles são partidários de Octaviano. Se queremos ser um
governo no exílio, teremos que persuadir pelo menos quinhentos senadores a
acompanharem-nos e não creio que o consigamos.
- Na realidade, eu também não. O meu objectivo é convencer os quatrocentos
senadores que são partidários de António até à morte. Não são a maioria, mas
são em número suficiente para convencer a maior parte das pessoas de que
Octaviano estará a agir ilegalmente se tentar formar um governo para nos
substituir - disse Aenobarbo com ar satisfeito.
- Se o conseguires, Gneu, estarás a iniciar uma guerra civil.
- Eu sei. Mas uma guerra civil já é inevitável, de qualquer maneira. Porque é
que achas que o António levou todo o seu exército e marinha para Éfeso? Achas
que Octaviano não interpretou correctamente essa acção? Detesto o homem, mas
tenho perfeita consciência do seu brilhantismo.
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- Oh, eu não te compreendo! Num momento nomeias o meu filho Rei dos Reis no
momento seguinte tens uma conversa com uns quantos romanos e voltas a ser
completamente romano outra vez! Decide-te! Devo continuar a financiar a tomada
do poder mundial do meu filho ou deverei fazer as malas e regressar a
Alexandria? Tu és um idiota, António! Um idiota grande, trapalhão e indeciso!
Em resposta António virou-lhe as costas; o tempo provar-lhe-ia que depois de
ele derrotar Octaviano, Roma continuaria tão romana como sempre fora: uma
república sem lugar para um rei. Entretanto, era ela quem pagava as contas
completa e totalmente. Isso não a transformava na proprietária de um exército
romano, mas fazia dela a proprietária daquela campanha. Oh, ele podia obrigá-la
a regressar ao Egipto. Era isso mesmo o que todos os legados furiosos lhe
tinham dito que fizesse, em número crescente a cada dia que passava. Mas se ele
a mandasse para casa, ela levaria consigo a sua arca de guerra com os seus
vinte mil talentos de ouro. Alguns, como Atratino, tinham-lhe dito abertamente
que ele deveria limitar-se a matar a porca, confiscar-lhe a arca de guerra e
anexar o Egipto ao Império. Sabendo ser incapaz de fazer qualquer uma dessas
coisas, suportava as diatribes de Cleópatra em silêncio e recordava aos seus
legados quem estava a financiar o empreendimento. Mas alguns, como Atratino,
tinham acabado por preferir submeter-se a Octaviano em vez de Cleópatra.
- Como posso mandá-la para casa? - perguntou ele a Canídio, um dos dois
apoiantes romanos de Cleópatra.
- Não podes, António, e sabes disso.
- Então porque são tantos os que reclamam que eu o faça?
- Porque não estão habituados a ver mulheres no comando e não conseguiram meter
nas suas cabeças duras que quem paga o músico é que escolhe a música.
- Será que alguma vez conseguirão meter isso nas suas cabeças duras? Canídio
riu-se perante aquela pergunta genuinamente cómica.
- Não, não conseguirão. Consegui-lo exigiria sofisticação e atitudes
helenistas... tudo qualidades que eles não possuem.
O outro apoiante de Cleópatra era Lúcio Munácio Planco, que ela comprara com um
belo suborno. O investimento rendera-lhe também Marco Tício, sobrinho de
Planco, apesar de Tício, que era de um tipo mais feroz, ter dificuldade em
disfarçar a sua repulsa e desprezo pela nova patroa do tio. O que Cleópatra não
compreendia era a infalível capacidade que Planco tinha de acertar no vencedor
em qualquer conflito para o lugar de Primeiro Homem em Roma. Tal como o avô do
actual Lúcio Márcio Filipe, era um tergiversador nato e não via qualquer
desonra em mudar de partido sempre que o instinto lho aconselhava.
E, tal como disse a Tício ao fim de um mês em Efeso:
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O grão na engrenagem veio de outra fonte: Gaio Escribónio Curião, com dezoito
anos, anunciou que não mudaria de casa; iria para o Oriente para se juntar a
Marco António.
- Oh, Curião, tens mesmo que fazer isso? - perguntou Octávia desalentada. -
Darás um imenso desgosto ao tio César.
- César não é meu tio! - disse o jovem desdenhosamente. - Eu pertenço ao campo
de António.
- Se fores, como poderei persuadir Antilo a não ir também?
- Facilmente. Ele ainda não é um homem.
- Mas isso é mais fácil de dizer do que de fazer - disse ela a Gaio Fonteio que
se tinha oferecido para a ajudar a mudar de casa.
- Quando é que Antilo faz dezasseis anos?
- Ainda falta muito. Ele nasceu no ano em que Divus Julius morreu.
- Então mal tem treze anos.
- Sim. Mas oh, é tão incontrolável e impulsivo! Ele vai fugir.
- Aos treze anos será apanhado. Quanto ao jovem Curião a questão é muito
diferente. Já é maior e senhor da sua fortuna.
- Como conseguirei dizer a César?
- Não terás que o fazer. Eu digo - disse Fonteio que teria feito qualquer coisa
para evitar o sofrimento de Octávia.
O divórcio dela tornava-a disponível - teoricamente - mas Fonteio era demasiado
sensato para lhe falar no seu amor. Enquanto não dissesse nada o seu lugar na
vida dela estava seguro; assim que lhe dissesse o que sentia ela mandá-lo-ia
embora. Era melhor esperar que o tempo lhe curasse a dor. Se até mesmo o tempo
tivesse esse poder. Não sabia.
A deserção de Saturnino, Arrúncio e Atratino, entre outros, não provocou grande
abalo entre os seguidores de António, mas quando Planco e Tício desertaram,
deixaram um vazio evidente.
- É uma reedição do acampamento de guerra de Pompeu Magno - disse Planco a
Octaviano assim que chegou a Roma. - Eu não estive com Magno, mas dizem que
toda a gente tinha uma opinião diferente e que Magno não os conseguia
controlar. Por isso, quando se deu Farsalo, não teve poder suficiente para
impor as tácticas fabianas que eram da sua preferência. Labieno comandou e
perdeu. Ninguém conseguia vencer Divus Julius, embora Labieno pensasse que
podia. Oh, as brigas e discussões! Mas nada se compara com o que se passa no
acampamento de António, César, acredita em mim. Aquela Mulher insiste em dar a
sua opinião, dá as suas opiniões como se estas tivessem mais peso do que as de
António e não se importa nada de o desautorizar na frente dos legados, dos
senadores... até na frente dos centuriões.
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Ele aguenta tudo! Adora-a, corre atrás dela: ela deita-se no divã dele no locus
consularis, vê só! Como o Aenobarbo a odeia! Guerreiam como um par de gatos
selvagens, cuspindo e rosnando... mas António não a põe no lugar. Um dia, ao
jantar, ela teve uma cãibra no pé e acreditas que o António caiu de joelhos na
frente dela para melhor lhe massajar o pé? Ouvir-se-ia uma traça a pousar numa
almofada, de tão silenciosa e imóvel que ficou a sala de jantar. Depois ele
voltou para o seu lugar como se nada tivesse acontecido! Acho que foi esse
episódio que fez com que Tício e eu decidíssemos que era tempo de partir.
- Tenho ouvido todo o tipo de boatos estranhos em Roma, Planco, tantos que não
sei no que acreditar - disse Octaviano, pensando qual seria o preço de Planco.
- Acredita nos piores e não te enganarás muito.
- Então como irei conseguir convencer estes burros, aqui em Roma, de que esta é
uma guerra de Cleópatra e não de António?
- Queres dizer que eles ainda acham que é António quem comanda?
- Sim. Não conseguem simplesmente engolir a ideia de que uma mulher estrangeira
é capaz de dominar o grande Marco António.
- Eu também não conseguia até ter visto com os meus próprios olhos. - Planco
riu-se. - Talvez devesses organizar visitas a Samos, é lá que eles estão
actualmente a caminho de Atenas, para os incrédulos. Uma vez visto, nunca será
esquecido.
- A frivolidade, Planco, não te fica bem.
- Falemos então a sério, César. Eu talvez pudesse oferecer-te melhores
munições, mas teriam um preço.
Querido e descarado Planco! Fora direito ao assunto, nada de evasivas.
- Diz qual o teu preço.
- Um consulado sufecto no próximo ano para o meu sobrinho Tício.
- Ele não é lá muito popular em Roma desde que executou Sexto.
- Foi ele o executor, sim, mas a ordem veio de António.
- Posso indicá-lo para o cargo, sim, mas não poderei protegê-lo dos seus
detractores.
- Ele pode muito bem pagar a guarda-costas. Está combinado, então?
- Está. E então o que me dás em troca?
- Quando António estava em Antioquia, ainda a recuperar dos efeitos do vinho,
fez o testamento. Se será o último, não sei, mas eu e Tício fomos as
testemunhas. Creio que o levou com ele para Alexandria... mas Sósio, em
qualquer caso, entregou-o em Roma.
Octaviano franziu o sobrolho.
- Que tem o testamento de António a ver com isto?
- Tudo - limitou-se Planco a dizer.
- Não é uma resposta adequada. Explica-te.
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- Ele estava muito bem-disposto quando nós servimos de testemunhas e fez uns
quantos comentários que nos levaram, a mim e a Tício, a pensar que aquele era
um documento altamente suspeito. Uma traição, na realidade, se é que um
documento que só será revelado após a morte do seu autor pode ser considerado
traição. E evidente que António não acha possível a traição póstuma, daí os
seus comentários pouco cautelosos.
- Sê mais específico, Planco, por favor!
- Não posso. António foi demasiado obscuro. Mas eu e Tício achamos que te seria
útil dar uma vista de olhos ao testamento de António.
- Como poderei fazê-lo? O testamento de um homem é sacrossanto.
- Esse problema é teu, César.
- Não me podes dizer nada acerca dos seus comentários? Que comentários foram
esses exactamente?
Já de pé, Planco ajeitou as pregas da toga, aparentemente absorto.
- Devíamos mesmo arranjar umas roupas melhores para nos sentarmos do que as
togas... Falou de como amava Alexandria e Aquela Mulher... Sim, as togas são um
empecilho... Disse que o filho dela devia ver reconhecidos os seus direitos...
Ora bolas! Tenho uma nódoa! - E foi-se embora ainda a ajeitar a roupa.
Então não era uma traição assim tão grave. Mas parecera-lhe que Planco achava
genuinamente que o testamento de António o poderia ajudar. Como o consulado
sufecto para o Tício ainda estava a meses de distância, certamente que Planco
tinha consciência de que se usasse um isco falso para atrair Octaviano, Tício
nunca se sentaria na cadeira curul. Mas como poderia ter acesso ao testamento
de António? Como?
- Recordo-me de Divus Julius me ter dito que as vestais têm na sua posse mais
de dois milhões de testamentos: no andar de cima, no andar de baixo e em parte
da cave - disse ele a Lívia Drusila, a única pessoa a quem poderia confiar uma
novidade tão bombástica. - Elas têm um sistema de arquivo. Os testamentos das
províncias e dos países estrangeiros são guardados numa determinada área, os
testamentos italianos noutra e os testamentos romanos noutra ainda. Mas Divus
Julius não entrou em pormenores sobre o sistema e, na altura, eu não sabia como
essa questão se viria a revelar importante, portanto não o pressionei para
saber mais. Estúpido, estúpido! - bateu com o punho num joelho.
-Não te rales, César, alcançarás os teus objectivos. - Os grandes olhos azul--
marinhos listados de Lívia Drusila assumiram uma expressão contemplativa;
sentou-se, pensativa, e depois começou a rir. - Terás que começar por fazer
algo de simpático pela Octávia - disse então -, e como eu sou,
reconhecidamente, uma mulher ciumenta, terás que ser simpático para mim também.
- Tu, com ciúmes da Octávia? - perguntou ele incrédulo.
- Mas as pessoas que não pertencem ao nosso círculo íntimo não têm que saber
como são as relações entre mim e Octávia, pois não? Roma inteira está indignada
por causa do divórcio... que homem idiota!
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Ele nunca a deveria ter posto na rua com as crianças, isso causa-lhe mais danos
do que todas as piadas sobre o domínio que a Cleópatra exerce sobre ele. - O
rosto bonito assumiu uma expressão doce e sonhadora. - Seria esplêndido que os
teus agentes fizessem saber ao povo de Roma e de Itália o quanto amas a tua
irmã e a tua mulher e a grande consideração e ternura que tens por elas. Tenho
a certeza de que se deixasses o Lépido passar a residir na Domus Publica, este
ficaria tão grato que proporia uma pequena homenagem a mim e à Octávia como
forma de agradecimento.
Ele olhava-a com o ar atarantado que ela conseguia provocar-lhe quando a
subtileza da sua mente ultrapassava a dele.
- Quem me dera perceber onde queres chegar, minha querida, mas não percebo.
- Pensa nas centenas de estátuas de Octávia que mandastes erigir em Roma e na
Itália e nas estátuas minhas que agora as acompanham. Não seria maravilhoso se
pudéssemos acrescentar uma linha às suas inscrições? Uma qualquer honra
espantosa?
- Continuo às escuras.
- Persuade Lépido Pontífice Máximo a atribuir-nos, a Octávia e a mim, o
estatuto de virgens vestais perpétuas.
- Mas vocês não são vestais! Nem virgens, já agora!
- Honorárias, César, honorárias! Anuncia-o com fanfarras e trombetas nos
mercados de Mediolano e Aquileia. Régio e Tarento! A tua irmã e a tua mulher
são de uma exemplaridade indescritível, de tal forma que a sua castidade
conjugal e conduta as põe no mesmo plano das vestais.
- Continua! - disse ele entusiasticamente.
- O nosso estatuto de virgens vestais permitir-nos-á entrar e sair da ala da
Domus Publica reservada às vestais, perdoa-me o trocadilho, de acordo com as
nossas vontades. Não será preciso meter Octávia nisto se eu também gozar desse
privilégio, pois assim posso saber exactamente onde está guardado o testamento
de António. Apuleia não suspeitará dos meus motivos... porque suspeitaria? A
mãe dela é meia--irmã da tua mãe, ela janta regularmente connosco e gosta muito
de mim. Não poderei roubar o testamento para ti, mas se descobrir onde ele
está, conseguirás pôr-lhe as mãos rapidamente.
Ele abraçou-a com tanta força que quase a esmagou e deixou sem respiração, mas
ela não se importava de ser esmagada e ficar sem respiração. Nada dava mais
prazer a Lívia Drusila do que poder sugerir uma linha de acção em que César não
tivesse pensado primeiro.
- Lívia Drusila, és brilhante! - gritou ele soltando-a.
- Eu sei - disse ela dando-lhe um pequeno empurrão. - Agora começa a tratar do
assunto, meu amor! Vai levar uns cinco nundinae e não nos podemos dar ao luxo
de esperar muito tempo.
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A perda do seu estatuto de triúnviro não provocava em Lépido uma dor tão aguda
como o exílio da cidade de Roma, por isso quando recebeu a visita de Octaviano
e ficou a saber o que teria que fazer para poder regressar à Domus Publica,
concordou sem hesitar em elevar Octávia e Lívia Drusila à categoria de virgens
vestais. Aquela não era uma honraria oca. Fazia das duas mulheres sacrossantas
e invioláveis; poderiam caminhar por todo o lado sem sofrer qualquer perigo
pois nenhum homem, nem mesmo o mais ordinário ou predador, se atreveria a tocar
numa virgem vestal. Se o fizesse, ficaria condenado por toda a eternidade -
seria sacer - maligno, ser-lhe-ia retirada a cidadania, chicoteado e decapitado
e todos os seus bens, até ao mais insignificante copo, seriam confiscados. A
sua mulher e filhos morreriam de fome. Toda a Roma e Itália rejubilaram; se a
aprovação era mais devida a Octávia do que a Lívia Drusila, a segunda senhora
não se importava minimamente com o facto. Em vez disso fez-se convidada para o
jantar na sala de jantar das vestais para conhecer as suas companheiras
sacerdotisas.
Apuleia, a vestal-chefe, era prima de Octaviano e conhecia bem Lívia Drusila,
desde os tempos em que, jovem e grávida, esta ficara abrigada no Átrio de Vesta
antes do seu casamento com Octaviano.
- Um presságio - disse-lhe Apuleia quando as sete se sentaram em cadeiras para
comer à volta de uma mesa. - Estava tão preocupada, agora posso admiti-lo. Oh,
o alívio que sinto quando a tua estada não teve consequências religiosas! Era
um presságio disto que viria a acontecer, tenho a certeza.
Apuleia não era uma mulher inteligente, no entanto a tremenda reverência de que
era objecto moldara-a naquilo que era esperado de uma vestal-chefe. Envergava
vestes alvas e puras, um vestido de mangas compridas e, por cima deste, uma
túnica aberta de ambos os lados, a medalha bulia dependurada numa corrente de
metal em volta do pescoço, o cabelo escondido por uma coroa de sete novelos de
lã sobrepostos, e tudo isto coberto por um véu tão fino que esvoaçava.
Governava o seu pequeno rebanho com mão de ferro, consciente de que a castidade
das vestais garantia a sorte de Roma. De tempos a tempos aparecia um homem -
como Públio Clódio - a questionar a castidade de uma das vestais e esta era
levada a julgamento, mas tal não aconteceria sob o reinado de Apuleia!
Todas as vestais estavam sentadas em volta da mesa liberalmente coberta de
comida saborosa e com um jarro de vinho branco espumoso de Alba Fucência. As
duas vestais menores bebiam água do poço de Juturna, enquanto que as três
outras, vestidas como Apuleia, podiam servir-se livremente do vinho. Lívia
Drusila, a sétima, não se atrevera a vestir-se de vestal, embora estivesse
vestida de branco.
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O executor tem que o abrir na nossa presença, pois temos que pôr as letras VV
no final de cada cláusula. Assim não poderá ser alterado depois de deixar de
estar à nossa guarda.
- Brilhante! - disse Lívia Drusila. Beijou Apuleia na face e apertou-lhe a mão.
-Tenho que ir, mas tenho uma última pergunta muito importante a fazer-te: um
testamento alguma vez é aberto ante da morte do seu autor, minha querida?
Outro olhar horrorizado.
-Não, nunca! Isso seria uma quebra dos nossos votos e, isso, nós nunca fazemos.
De volta à domus Livia Drusila, ela encontrou o marido no escritório. Bastou
olhar-lhe para o rosto para que mandasse embora os escribas e os secretários.
- Então? - perguntou.
- Tive o testamento de António na minha mão - disse ela - e posso dizer-te
exactamente onde está guardado.
- Isso dá-nos um grande avanço. Achas que Apuleia me permitiria abri-lo?
- Nem mesmo que a sentenciasses por falta de castidade e a enterrasses debaixo
de terra com um jarro de água e um pão. Receio que tenhas que lho arrancar... e
às outras.
- Cacat!
- Sugiro que leves os teus germanos até ao Átrio de Vesta a meio da noite,
César, e que seles a área exterior à residência. Terás que o fazer em breve,
pois disseram-me que Lépido vai mudar-se para a residência do Pontífice Máximo
na Domus Publica muito em breve. Vai haver sem dúvida um tumulto e não queres
que Lépido venha a correr da casa dele para ver o que se passa. Amanhã à noite,
o mais tardar.
Octaviano teve que bater muito nas portas antes de um rosto assustado abrir uma
frecha e espreitar para fora; era a governanta. Dois germanos afastaram a
mulher e fizeram entrar o amo, iluminado pelas tochas e seguido por mais
germanos.
- Óptimo - disse Octaviano a Armínio. - Com sorte conseguirei encontrá-lo antes
de as vestais aparecerem. Elas têm que se vestir.
Quase conseguiu.
- O que pensas que estás a fazer? - perguntou Apuleia junto à porta que
conduzia aos aposentos das vestais.
Com o testamento de António na mão, Octaviano argumentou:
- Estou a confiscar um documento traidor - disse ele altivamente.
- Traidor uma ova! - ripostou a vestal-chefe avançando para lhe impedir a
saída. - Devolve-mo, César Octaviano!
Em resposta, ele passou o testamento por cima da cabeça dela e entregou-o a
Armínio que era tão alto que, quando levantou o braço, tirou o testamento do
alcance
de Apuleia.
- És sacer! - arfou ela quando três outras vestais apareceram.
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Que foi para Leuke Kome carregada de presentes inimagináveis: dinheiro, comida
armas, medicamentos, milhares de servos e médicos aos montes. De Leuke Korne o
par mudou-se para Antioquia, onde António tratou finalmente de fazer um
testamento. Uma cópia foi depositada aqui em Roma, a outra em Alexandria, onde
António desaguou no último Inverno. Mas aí já ele estava completamente sob o
domínio de Cleópatra, drogado e dominado. Já não precisava de beber mais vinho,
tinha coisas melhores para engolir, desde as poções de Cleópatra às suas
lisonjas. Cora-o resultado de que, na Primavera deste ano que está a chegar ao
fim, transferiu todo o seu exército e a sua marinha para... Éfeso. Éfeso! Mil e
seiscentos quilómetros a ocidente do local onde é realmente necessário, na
linha da fronteira entre a Arménia Parva e a Síria, para prevenir as incursões
dos Partos. Porque transferiu então o exército e a marinha para Éfeso? E porque
os moveu a ambos, posteriormente, para a Grécia? Será Roma uma ameaça para ele?
Ou a Itália? Terão alguns exércitos ou frotas estacionados a ocidente do rio
Drina feito algum gesto hostil na sua direcção? Não, não o fizeram! E não
precisais de acreditar em mim quanto a este aspecto: é evidente para todos vós!
Os seus olhos varreram as bancadas de trás, onde se sentavam os pedarii sob um
silêncio imposto. Depois, lenta e cuidadosamente, desceu do estrado curai e
postou-se no meio da sala.
- Não acredito nem por um momento que Marco António tenha cometido
voluntariamente estes actos de agressão contra a sua terra natal. Nenhum romano
o faria, a não ser aqueles que, tendo sido injustamente postos fora da lei
procuram regressar: Gaio Mário, Lúcio Cornélio Sila, Divus Julius. Mas Marco
António foi declarado hostis? Não, não foi! Até hoje, o seu estatuto permanece
aquele que sempre foi: romano de Roma, o último de muitas gerações de Antónios
que serviram o seu país. Nem sempre com sensatez, ma sempre com zelo
patriótico.
"Que aconteceu então a Marco António? - perguntou Octaviano com voz
tonitruante, apesar de aquele não ser um discurso durante o qual os senadores
tivessem que ser despertos de uma agradável soneca. Estavam completamente
despertos, escutando avidamente. - Mais uma vez a resposta reside numa palavra:
Cleópatra. Ele é um boneco, uma marioneta nas mãos dela... sim, todos vós
poderíeis entoar a lista em coro comigo, eu sei! Mas a maior parte de vós nunca
acreditou em mim, também o sei. Hoje estou em condições de vos oferecer a prova
de que o que digo é apenas uma versão aligeirada das perfídias feitas por
António sob as ordens de Cleópatra. Uma estrangeira, uma mulher, uma adoradora
de bestas! E uma poderosa feiticeira, capaz de enfeitiçar os mais fortes, os
mais romanos de entre os Romanos.
"Sabeis que essa mulher, a estrangeira, tem um primogénito cuja paternidade
atribui a Divus Julius. Um rapaz agora com quinze anos, que se senta a seu lado
no trono como Ptolomeu XV Caesar, por favor! Para um romano, é um bastardo e
não cidadão romano.
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Àqueles de entre vós que acreditais que ele é o filho de Divus lulius, posso
apresentar provas em como não é: é o filho de um escravo que Cleópatra usou
para seu prazer. Ela é dada aos amores, tem muitos amantes e sempre teve. .
quem usa primeiro como parceiros sexuais e depois como vítimas dos seus
envenenamentos.. . sim, faz experiências neles até que morram! Tal como morreu
o escravo que a engravidou do primeiro filho.
"Que relevância tem tudo isto, perguntais? Porque ela convenceu o pobre António
a declarar este bastardo Rei dos Reis e, agora, ela entra em guerra com Roma
para o sentar no Capitólio! Estão aqui sentados homens, pais conscritos, que
poderão confirmar sob juramento que uma das ameaças favoritas desta mulher é
que serão castigados quando ela se sentar no trono no Capitólio a ditar
sentenças em nome do filho! Sim, ela espera usar o exército de António para
conquistar Roma e transformá-la no reino de Ptolomeu XV Caesar! - Pigarreou. -
Mas deverá Roma continuar a ser a maior cidade do mundo, o centro da lei, da
justiça, do comércio e da sociedade? Não, Roma não o será! A capital do mundo
será transferida para Alexandria! Roma definhará até nada ser.
O pergaminho desenrolou-se, pendurado da mão de Octaviano, preso no ar e
batendo nos mosaicos pretos e brancos do pavimento. Uns quantos dos senadores
sobressaltaram-se com o barulho, de tão repentino que foi, mas Octaviano
ignorou-os, continuando:
- A prova está neste documento, o testamento e últimas vontades de António!
Neste ele deixa tudo o que tem, incluindo as propriedades em Roma e na Itália,
investimentos e dinheiro, à rainha Cleópatra. A quem ele jura amar, amar, amar,
amar! A sua única esposa, o centro do seu ser. Atesta que Ptolomeu César é o
filho legítimo de Divus Julius e herdeiro de tudo quanto Divus Julius me
deixou, ao seu filho romano! Insiste para que as suas famosas Doações sejam
honradas, o que faz de Ptolomeu XV Caesar o Rei de Roma! De Roma que não tem
rei!
Os murmúrios começavam a fazer-se ouvir; o testamento estava aberto, poderia
ser examinado por todos quantos quisessem confirmar o que Octaviano dizia.
- Ora, pais conscritos, estais ultrajados? Pois deveis estar!! Mas isto não é o
pior que é dito no testamento de António! A parte pior vem na cláusula fúnebre
onde estipula que, seja onde for que a sua morte ocorra, o seu corpo deverá ser
entregue aos embalsamadores egípcios, que o acompanham para toda a parte, para
que seja embalsamado de acordo com as técnicas egípcias, Depois dá ordens para
ser depositado num túmulo da sua amada Alexandria! Juntamente com a sua amada
esposa, Cleópatra!
Rebentou um tumulto com os senadores a saltarem dos bancos, das cadeiras de
marfim, brandindo os punhos e soltando urros.
Publícola esperou que se acalmassem.
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- Continua - encorajou-a.
- O assassinato do Druso não teria sido necessário se ele não tivesse feito
algo de extraordinário, algo que lhe elevou de tal forma o estatuto que só o
assassinato o poderia derrubar. Ele obtivera um juramento secreto de lealdade
pessoal de todos os italianos sem cidadania. Se a sua legislação tivesse sido
aprovada, teria tido a Itália inteira na sua clientela, e ter-se-ia tornado de
tal forma poderoso que poderia ter governado como ditador perpétuo, se assim o
decidisse. Se era isso o que queria, nunca saberemos. - Chupou as bochechas e
ficou com um aspecto sobrenatural. - Pergunto-me... ser-te-ia possível pedir ao
povo de Roma e da Itália que faça um juramento de lealdade pessoal a ti?
Ele ficara imóvel; agora começara a tremer. Ficou com a testa banhada em suor,
este escorreu-lhe para os olhos fazendo-os arder como se fosse ácido.
- Lívia Drusila! O que te levou a pensar numa coisas dessas?
- O facto de eu ser neta dele, talvez, apesar de o meu pai ser seu filho
adoptivo. Sempre foi uma das histórias contadas na família, percebes. Druso era
o mais bravo de entre os bravos.
- Polião... Salústio... alguém deve ter registado a fórmula desse juramento na
história dessa época.
- Não há necessidade de revelar o jogo a esse género de gente. Eu sei recitar o
juramento de cor - disse ela, a sorrir.
- Não! Ainda não! Escreve-o para mim, depois ajuda-me a emendá-lo para melhor
se adequar aos meus objectivos, que não são iguais aos de Druso. Vou organizar
a cerimónia fecial o mais breve possível e vou pôr os agentes a falar. Vou
atacar impiedosamente a Rainha das Bestas, vou pedir a Mecenas que invente
vícios fabulosos para ela praticar, compile uma lista de amantes e de crimes
hediondos. Quando ela desfilar na minha parada triunfal, ninguém poderá ter
pena dela. Ela é uma coisinha tão frágil que alguns dos que a virem poderão
sentir-se tentados a ter pena dela, a não ser que fique conhecida como uma
fusão da Harpia, da Fúria, da Sirene e da Górgona... um verdadeiro monstro. Vou
sentar António ao contrário em cima de ! um burro e pôr-lhe um par de cornos de
amante enganado na cabeça. Negar-lhe-ei qualquer possibilidade de parecer
nobre... ou romano.
- Estás a afastar-te do assunto - disse ela suavemente.
- Oh! Sim, pois estou. Serei cônsul sénior no Ano Novo, portanto lá para o fim
de Dezembro mandarei afixar cartazes em todas as cidades, vilas e aldeias,
desde os Alpes até à sola da bota, do dedo e do salto. Estes anunciarão o
juramento e pedirão humildemente a qualquer um que o deseje fazer, que o faça.
Não haverá coerção nem recompensas. Terá que ser imaculado, algo de voluntário
e completamente transparente. Se as pessoas quiserem ver-se livres da ameaça de
Cleópatra, então terão que jurar apoiar-me até eu estar convencido de ter
terminado a tarefa satisfatoriamente. E se houver um número suficiente de
pessoas a jurar, ninguém se atreverá a derrubar-me ou a despojar-me do meu
imperium.
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Se homens como Polião recusarem fazê-lo, não os punirei de nenhuma forma, quer
no presente, quer no futuro.
- Tens que ser sempre superior às vinganças, César.
-Tenho consciência disso. - Riu-se. - Imediatamente após Filipos, pensei muito
em homens como Sila e o meu divino pai, tentei ver onde é que eles tinham
errado. E apercebi-me de que gostavam de viver com alarde, extravagantemente,
assim como gostavam de comandar o Senado e as Assembleias com mão de ferro. Já
eu, decidi ser um homem calmo e discreto e governar Roma como um papá velho e
querido.
Belona era a deusa romana da guerra original, e datava dos tempos em que os
deuses romanos eram forças puras, sem rosto nem sexo. O seu outro nome era
Nerio, uma entidade ainda mais misteriosa interligada com Marte, o deus da
guerra posterior. Quando Ápio Cláudio Cego, inaugurou o templo para que Belona
ficasse do seu lado durante as Guerras Etruscas e Samnitas, pôs uma estátua da
deusa no edifício; tanto o templo como a estátua eram belos, estavam bem
cuidados, pintados com cores vivas regularmente retocadas. Uma guerra era algo
que não podia ser discutido no interior do pomerium da cidade e o templo de
Belona ficava no Campo de Marte, no exterior das fronteiras sagradas e era
espaçoso. Tal como todos os templos romanos, fora construído sobre uma base
elevada. Para lá entrar tinha que se subir vinte degraus em dois lanços de dez;
no grande patamar entre os dois lanços erguia-se, exactamente ao centro, uma
coluna quadrada de mármore vermelho com um metro e vinte de altura. Ao fundo
das escadas, um iugerum inteiro, com os limites marcados com plintos fálicos
sobre os quais se erguiam as estátuas de grandes generais romanos: Fábio Máximo
Cunctor, Ápio Cláudio Cego, Cipião Africano, Emílio Paulo, Cipião Emiliano,
Gaio Mário, César Divus Julius e muitos outros, todos tão belamente pintados
que pareciam vivos.
Quando o Colégio dos Feciais, com vinte membros, se reuniu nas escadarias de
Belona, actuou para um público numeroso constituído por senadores, cavaleiros,
homens da terceira, quarta e quinta classes e alguns pobres do Conto de
Cabeças. Apesar de o Senado ter que dispor de lugar para todos os seus membros,
Mecenas escolhera os restantes com muito cuidado para que estes pudessem
testemunhar os acontecimentos e divulgá-los rapidamente por todos os estratos
sociais. Assim, os homens da Subura e do Esquilino estavam tão generosamente
representados como os homens do Palatino e das Cardinas.
Todos os outros colégios de sacerdotes estavam presentes, assim como todos o
lictores ao serviço em Roma, o que formava um espectáculo colorido de togas com
barras vermelhas e púrpuras, capas redondas e capacetes com os apex em marfim,
pontífices e augures com as togas puxadas para cima, para lhes tapar as
cabeças.
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Os feciais usavam togas de um vermelho baço sobre os troncos nus, tal como era
costume nos tempos iniciais e também tinham as cabeças nuas. O verbenarius
ergueu a terra e as ervas recolhidas no Capitólio mantendo-se próximo do pater
patratus, cujo papel estava confinado ao objectivo do ritual. A maior parte da
longa cerimónia era declamada numa língua tão antiga que já ninguém a
compreendia e por um fecial que decorara aquela algaraviada na perfeição;
ninguém queria cometer um erro, pois até o mais pequeno dos erros significava
que tinham que começar tudo de novo. A vítima sacrificial era um javali
pequeno, que um quarto fecial matou com uma faca de pedra mais antiga do que o
Egipto.
Finalmente, o pater patratus entrou no templo e emergiu empunhando uma lança em
forma de folha cujo cabo fora escurecido pelo tempo. Desceu os primeiros dez
degraus e ficou em frente da pequena coluna, com a lança erguida e pronta a ser
arremessada, a ponta prateada refulgindo ao sol gelado e brilhante.
- Roma, estás ameaçada! - gritou ele em latim. -Aqui perante mim está o
Território Inimigo, guardado pelos generais de Roma! Declaro que o nome desse
território inimigo é Egipto! Com o lançamento desta lança, nós, o Senado e o
Povo de Roma, declaramos uma guerra santa ao Egipto nas pessoas do rei e da
rainha do Egipto!
A lança saiu-lhe da mão, voou sobre a coluna e aterrou no iugerum de terreno
aberto declarado Território Inimigo. Fora removido um único mosaico e o pater
patratus era um guerreiro soberbo; a lança alcançou o alvo, com a haste a
estremecer e a ponta enterrada no solo por baixo do mosaico levantado. Soou um
enorme aplauso enquanto os presentes lançavam pequenas bonequinhas de madeira
na direcção da lança.
Assistindo de um dos lados, juntamente com os restantes elementos do Colégio de
Pontífices, Octaviano observava tudo aquilo sentindo-se satisfeito. Antigo,
impressionante, uma parte absolutamente integrante da mos maiorum. Roma estava
agora oficialmente em guerra mas não contra um romano. O inimigo era a Rainha
das Bestas e Ptolomeu XV Caesar, senhores do Egipto. Sim, sim! Uma sorte ele
ter conseguido que Agripa fosse o pater patratus e Mecenas não dava um
excelente - ainda que adiposo - verbenarius?
Foi para casa rodeado por centenas de clientes e, para variar, divertindo-se.
Até mesmo os plutocratas - porque seriam os ricos aqueles que tinham sempre uma
maior relutância em pagar impostos? - pareciam estar de boas relações com ele
naquele dia, apesar de o estado de espírito não poder durar para lá do primeiro
pagamento. Terminara as disposições para a colecta dos impostos usando o
recenseamento dos cidadãos, que registavam os rendimentos dos homens e eram
actualizados de cinco em cinco anos. Cabia aos censores esta tarefa, mas estes
tinham sido muito poucos durante as últimas décadas. Enquanto triúnviro para o
Ocidente durante a última década, Octaviano assumira os deveres censoriais e
certificara-se de que o registro dos rendimentos de cada cidadão estava
actualizado.
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A colecta daquele novo imposto iria ser uma tarefa complicada que exigiria um
recinto bastante grande: Pórtico Minúcia ou Campo de Marte.
Tencionava transformar o primeiro dia da colecta num festival. Não poderia
haver celebrações, mas deveria reinar uma atmosfera patriótica; as colunas e os
campos do Pórtico Minúcia foram decorados com estandartes vermelhos com a
inscrição SPQR, cartazes de uma figura feminina de tronco nu, com uma cabeça de
chacal e mãos como garras amarfanhando a insígnia SPQR; outro cartaz
representava um jovem feio e de ar cretino ostentando a Coroa Dupla e tinha uma
legenda, por baixo: ESTE É O FILHO DE DIVUS JULIUS? NÃO PODE SER!
Assim que o sol se ergueu acima do Esquilino, apareceu uma procissão, conduzida
por Octaviano em toda a glória da sua toga sacerdotal, a cabeça coroada com
louros, a insígnia do triunfador. Atrás dele vinha Agripa, também coroado,
empunhando o bastão curvo e envergando a toga multicolorida vermelha e púrpura.
Depois vinham Mecenas, Estatílio Tauro, Cornélio Galo, Messala Corvino,
Calvísio Sabino, Domício Calvino, os banqueiros Balbo e Ópio e um grupo dos
partidários mais fiéis a Octaviano. Contudo isso não bastava para Octaviano,
que inserira três mulheres entre ele e Agripa: Lívia Drusila e Octávia com os
mantos das virgens vestais que, de alguma forma, relegavam a terceira mulher,
Escribónia, para segundo plano. Octaviano pagou com grande alarido mais de
duzentos talentos, o seu imposto de vinte e cinco por cento, apesar de não ter
entregue nenhum saco com moedas. Limitou-se a entregar um pedaço de papel, uma
ordem de pagamento para os seus
banqueiros.
Lívia Drusila aproximou-se da mesa.
- Eu sou cidadã romana! - gritou em voz alta. - Sendo mulher não pago impostos,
mas quero pagar este imposto, pois ele é necessário para impedir que Cleópatra
do Egipto transforme a nossa amada Roma num deserto, despida de gente e de
dinheiro! Dou a esta causa duzentos talentos!
Octávia fez um discurso igual e doou a mesma soma, embora Escribónia só pudesse
doar cinquenta talentos. Não tinha importância; por essa altura já a multidão
que se juntara aplaudia tão vivamente que abafou quase por completo a voz de
Agripa que pagou oitocentos talentos.
Um dia de trabalho produtivo.
Mas não tão minucioso e paciente como o trabalho que Octaviano e a mulher
tiveram a escrever o Juramento de Lealdade.
- Ohhh! - suspirou Octaviano olhando para o juramento original feito a Marco
Lívio Druso, sessenta anos antes. - Se ao menos eu me atrevesse a fazer as
pessoas jurarem que seriam meus clientes, como o Druso fez!
- Os Italianos não tinham patronos naquela altura, César, porque não eram
cidadãos romanos. Hoje em dia toda a gente tem um patrono.
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E apesar de ele tomar sempre o seu partido nas discussões na tenda de comando,
fazia-o como se essas discussões não fossem verdadeiramente importantes: como
se fazer--lhe as vontades fosse mais importante do que ter os legados
satisfeitos. Também desenvolvera uma grande capacidade de desviar as suas
acusações de deslealdade quando ela verbalizava as suas desconfianças. Podia
estar a ficar mais velho, era verdade que tinha falhas de memória, mas
acreditaria ele verdadeiramente, lá bem no seu íntimo, que Cesarião seria o rei
de Roma? Não tinha a certeza.
Apenas dezanove das trinta legiões romanas de António viajaram para a Grécia
Ocidental; as outras onze foram destinadas à guarnição da Síria e da Macedónia.
Ainda assim as forças terrestres de António foram reforçadas com quarenta mil
soldados de infantaria e cavalaria doados pelos reis-clientes, a maioria dos
quais se deslocara pessoalmente a Éfeso, onde tinham ficado a saber que não
iriam acompanhar António e Cleópatra na sua viagem para Atenas. Em vez disso
deveriam deslocar-se para o teatro de guerra que lhes fora designado na Grécia
Ocidental. O que não caiu bem a nenhum deles.
Fora o próprio Marco António que separara a sua viagem das dos seus reis--
clientes por temer que, se testemunhassem a autocracia de Cleópatra na tenda de
comando, tornariam as coisas piores para ele próprio tomando o partido dela
contra os generais romanos. Só ele sabia quão desesperada era a sua situação,
pois só ele próprio tinha noção do grau de determinação da sua esposa egípcia
em dar as suas opiniões. E era tudo uma patetice! O que Cleópatra queria e o
que os seus generais romanos queriam era, habitualmente, quase o mesmo; o
problema era que nem ela nem eles o reconheciam.
Gaio Júlio César teria identificado as fraquezas de António como comandante,
mas ali só Canídio tinha esse tipo de percepção e Canídio, sendo de origens
humildes, era largamente ignorado. António conseguia, simplesmente, comandar
uma batalha mas não uma campanha. A sua confiança animadora de que as coisas
iriam correr bem era-lhe desfavorável no que dizia respeito à logística e aos
problemas dos abastecimentos, perpetuamente negligenciados. Para além disso,
António estava demasiado preocupado em manter Cleópatra satisfeita para pensar
em equipamentos e abastecimentos; despendia todas as suas energias a servi-la.
Aos olhos dos seus legados, aquilo eram fraquezas, mas a verdadeira fraqueza de
António era não conseguir matá-la e confiscar-lhe a arca de guerra. O seu amor
por ela e a sua noção de justiça impediam-no de o fazer.
E ela, não compreendendo a situação, vangloriava-se da ascendência sobre
António, provocando deliberadamente os seus marechais, exigindo isto e aquilo
como prova da sua devoção por ela, não percebendo que a sua conduta estava a
tornar a tarefa de António muito mais difícil - e a tornar a sua própria
presença mais abominável para os generais romanos a cada dia que passava.
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Isso são apenas as suas forças terrestres. A sua marinha é composta por
duzentas "cincos" grandes que se saíram bem em Náuloco, mais duzentas
miseráveis pequenas liburnas. Somos-lhe superiores em todos os aspectos.
- Muito bem dito, Canídio. Não há hipótese de perdermos. - Depois estremeceu. -
Há algumas questões que só podem ser resolvidas pela guerra, mas o resultado é
sempre incerto, não é? Olhem para César. Ele estava sempre em inferioridade
numérica. Dizem que Agripa é quase tão bom como ele. .
Imediatamente após terem recebido a carta de Polião, mudaram-se para Patras, no
estuário do golfo de Corinto na Grécia Ocidental; naquela altura já o exército
inteiro e a marinha toda tinham chegado, navegando em torno da península
ocidental do Peloponeso e entrando no Adriático.
Apesar de terem sido deixadas várias centenas de galés a guarnecer Methone bem
como Corcira e outras ilhas estratégicas, a frota principal ainda assim era
composta por quatrocentas e oitenta das quinquerremes mais gigantescas jamais
construídas. Aqueles leviatãs eram equipados com oito homens nos três remos da
cada banco, tinham um convés completamente coberto e possuíam bicos de
abalroamento de bronze maciço rodeados por bicos de carvalho; os cascos eram
reforçados com madeira revestida a metal e com cintas de ferro que serviam de
protecção para o caso de serem abalroadas. Tinham sessenta metros de
comprimento e quinze metros de largura, erguiam-se três metros acima da linha
de água, a meio do navio, e a oito metros à popa e à proa. Todas estavam
equipadas com quatrocentos e oitenta remadores cada e com cento e cinquenta
soldados, e estavam eriçadas de torres altas com peças de artilharia. Todo este
equipamento tornava-as impregnáveis e um grande argumento defensivo; mas
arrastavam-se a passo de caracol, o que não consistia numa vantagem em caso de
ataque. A galera com o pavilhão de António, a Antónia, era ainda maior.
Sessenta dos navios de Cleópatra eram daquele tamanho e modelo, mas as outras
sessenta eram trirremes espaçosas com quatro homens por cada banco de remadores
e moviam-se velozmente, em especial quando impelidas pelas velas e pelos remos.
A galera com o seu pavilhão, a Cesarião, apesar de requintadamente pintada e
dourada, era rápida e mais concebida para a fuga do que para o combate.
Quando já tudo estava em marcha, António recostou-se complacentemente, não
vendo mal nenhum em emitir ordens de tal forma vagas que muitos dos pormenores
eram deixados entregues às capacidades dos legados individuais, alguns bons,
alguns medíocres e outros inúteis.
Ele tomara posição a meio de uma linha que ia da ilha de Corcira a Methone, um
porto do Peloponeso mesmo a norte do cabo Acritas. Bogud da Mauritânia, um
refugiado em fuga do irmão, Bocchus, recebeu o comando de Methone, enquanto que
a outra grande base naval, na ilha de Leucas, foi entregue a Gaio Sósio.
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<Mapa - omitido>
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Ele era a sua marioneta, o seu instrumento, a sua arma! Sempre o soubera! Então
porque estaria agora agarrada a ele? Ele não tinha nem a competência nem a
coragem necessárias àquela iniciativa, nunca tivera. Simplesmente amava-a e
tentara ser aquilo de que ela necessitava. É Roma, pensou ela, continuando a
acariciá-lo. Nem mesmo uma monarca tão grande e poderosa como Cleópatra do
Egipto consegue arrancar Roma de dentro de um romano. Quase consegui. Mas não
passou do quase. Não consegui fazê-lo com César, nem com António. Então porque
estou aqui? Porque será que durante estes últimos nundinae dei por mim a sentir
mais afecto por ele e parei de o acicatar? Porque fui bondosa com ele se eu não
o sou?
Depois a verdade abateu-se sobre ela com o mesmo terror de uma catástrofe
súbita e natural, como uma avalanche, uma onda gigantesca, um terramoto: eu
amo-o! Aninhando-o protectoramente, beijou-o na face, nos pulsos e,
estupefacta, apercebeu-se da natureza daquela nova emoção que tomara conta dela
tão disfarçadamente, que a invadira e conquistara. Eu amo-o, amo-o! Oh, pobre
Marco António, tens finalmente a tua vingança! Amo-te tanto quanto tu me amas a
mim - completamente e sem limites. O meu coração empedernido sofreu uma
convulsão, abriu uma brecha e escancarou-se para receber Marco António, e a
ferramenta que o conseguiu foi o amor dele por mim. Ofereceu-me o seu espírito
romano, aventurou-se numa noite tão densa e escura que não vê nada senão a mim.
E eu, ao aceitar o seu sacrifício, fiquei a amá-lo. O que quer que seja que o
futuro nos reserve, será o mesmo futuro para os dois. Não posso abandoná-lo. -
Oh, António, eu amo-te! - gritou ela e beijou-o.
À medida que o Verão avançava, os legados iam desertando do campo de António às
dúzias e os senadores passavam-se, às centenas, para o lado de Octaviano. Era
tão fácil como remar para o outro lado da baía, pois António, mergulhado no
desespero, recusava-se a detê-los. As suas súplicas de asilo giravam sempre em
torno Daquela Mulher, a causa da ruína. Apesar de um espião ter relatado um
facto curioso a Cleópatra: Rhoemetalces da Trácia era particularmente cáustico
nas suas críticas a António até Octaviano ter caído em cima dele.
- Quin taces! - gritara. - Lá porque gosto da traição não significa que tenha
que gostar de traidores.
Para António o golpe mais duro chegou no fim de Julius; não fazendo segredo do
seu ódio por Cleópatra - apregoando-o em voz rouca, na verdade - Aenobarbo
desistiu.
- Nem mesmo por ti, António, conseguirei suportar Aquela Mulher nem por mais um
dia. Sabes que estou doente mas, provavelmente, não saberás que estou a morrer.
E eu quero morrer num ambiente adequadamente romano, livre do mais leve odor
Daquela Mulher. Oh, como és idiota, Marco! Sem ela terias vencido. Com ela não
tens qualquer hipótese.
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Chorando, António ficou a ver o barco a remos que levava Gneu Domício Aenobarbo
para o outro lado da baía e depois enviou todos os bens de Aenobarbo para lhe
serem entregues. As objecções veementes de Cleópatra caíram em saco roto.
No dia seguinte à desistência de Aenobarbo, Quinto Délio seguiu-o, juntamente
com os últimos senadores.
No dia depois desse, Octaviano enviou a António uma carta elegante. "O teu
amigo mais devotado, Gneu Domício Aenobarbo, morreu calmamente na noite
passada. Quero que saibas que o recebi e tratei com toda a consideração.
Segundo sei, o seu filho, Lúcio, está prometido à primeira filha que tiveste
com a minha irmã, Octávia. Essa promessa deverá ser honrada, pois dei a minha
palavra a Aenobarbo. Será interessante testemunhar o resultado da ligação do
sangue de Divus Julius, Marco António e dos Aenobarbos, não achas? Será uma
batalha metafórica, pois os Aenobarbos sempre se opuseram aos Júlios."
- Tenho saudades dele, tenho saudades dele! - disse António com as lágrimas
correndo-lhe livremente pelo rosto.
- Ele era meu inimigo declarado - disse Cleópatra com os lábios cerrados.
Nos Idos de Sextilis, Cleópatra convocou um conselho de guerra. Somos tão
poucos, tão poucos!, pensou enquanto instalava ternamente Marco António na sua
cadeira curul.
- Tenho um plano - anunciou a Canídio, Publícola, Sósio e Marco Lúrio, os
únicos legados seniores que restavam. - No entanto pode ser que mais alguém
também tenha um plano. Se assim for, gostaria de o ouvir antes de falar. - O
seu tom era humilde e parecia sincera.
- Eu tenho um plano - disse Canídio, muito grato por aquela oportunidade
inesperada para o poder expor sem ter que, ele próprio, convocar um conselho.
Já se tinham passado muitos meses desde que depositara alguma confiança em
António, que se transformara numa sombra daquilo que fora. Culpa dela e de mais
ninguém. E pensar que em tempos a defendera! Bem, isso acabara.
- Fala, Públio Canídio - disse ela. Canídio também estava envelhecido apesar do
corpo esbelto e do seu gosto pelo trabalho físico. Não perdera contudo a sua
franqueza.
- A primeira coisa que teremos que fazer é abandonar a frota - disse -, e com
isso quero dizer que não salvamos nada, nem mesmo os navios almirantes. Todos
os navios, incluindo o da rainha Cleópatra, terão que ser abandonados.
Ficando tensa, Cleópatra abriu a boca e depois fechou-a. Deixaria Canídio
acabar de expor o seu plano ridículo e depois atacaria!
- Retiramos o exército terrestre em marchas forçadas para a Macedónia e a
Trácia, onde teremos espaço para manobrar e para travar a batalha em terrenos
escolhidos por nós.
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Todo aquele ódio era pela mulher. Os Romanos não gostavam das mulheres, razão
por que as deixavam em casa mesmo que não estivessem a fazer nada de mais
importante do que passar uns dias numa villa no campo! Por fim, obtivera a
solução para aquele enigma.
- Não sabia que era por causa do meu sexo - disse ela a António depois de os
quatro generais terem saído, resmungões e irados, mas convencidos de que ele
tinha razão. - Como posso ter sido tão cega?
- Ora, porque a tua própria vida nunca levantou esse véu. Seguiu-se um
silêncio, mas não um silêncio desconfortável. Cleópatra sentia uma mudança em
António, como se a amargura e a longa duração da discussão entre ela e os
quatro amigos que lhe restavam tivessem penetrado o seu distanciamento e lhe
tivessem devolvido alguma energia.
- Acho que já não quero partilhar o meu plano com o Canídio e os outros - disse
ela -, mas gostaria de o discutir contigo. Queres ouvir?
- De bom grado, meu amor. De bom grado.
- Não podemos vencer aqui, sabemos disso - disse ela mas com vigor, como se
isso não a preocupasse. - Também já percebi que o exército terrestre não serve
para nada. As tuas tropas romanas permanecem leais como sempre e não houve
deserções no seu seio. Portanto, se tal for possível, devem ser salvas. O que
eu quero fazer é quebrar o cerco em Ambrácia e fugir para o Egipto. E só há uma
maneira de o fazer. As nossas frotas devem dar batalha. Uma batalha que deverá
ser comandada por ti, pessoalmente, a bordo da Antónia. Deixar-te-ei a ti e aos
teus amigos a tarefa de decidir os pormenores porque não tenho quaisquer
competências em assuntos navais. O que quero é embarcar todas as tropas romanas
que couberem nos meus transportes enquanto tu embarcas as restantes nas tuas
galeras mais rápidas. Não penses sequer nas quinquerremes, são tão lentas que
serão apanhadas.
Ele estava a ouvi-la atentamente com os olhos fixos no seu rosto.
- Continua.
- Este é o nosso segredo, Marco, meu amor. Não podes falar disto nem mesmo com
Canídio, que manterás em terra para comandar a infantaria que restar. Põe
Publí-cola, Sósio e Lúrio no comando das tuas frotas, assim eles mantêm-se
ocupados. Enquanto souberem que tu estás lá, em pessoa, não suspeitarão de
nada. Eu estarei a bordo da Cesarião atrás das linhas, recuada apenas o
suficiente para ver onde se abrem brechas. Assim que tiver uma aberta, fugimos
para o Egipto com as tuas tropas. Terás que manter uma pinaça perto da
Antónia... quando me vires içar as velas, segues-me. Apanhar-me-ás rapidamente
e subirás a bordo da Cesarião.
- Vou parecer um desertor - disse António de cenho franzido.
- Não quando souberem que o fizeste para salvar as tuas legiões.
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- Posso melhorar o teu plano, minha amada. Tenho uma frota e quatro boas
legiões na Cirenaica com Pinário Escarpo. Dá-me um navio e irei a Paretónio
buscar o Pinário e os meus homens. Encontrar-nos-emos de novo em Alexandria.
- Paretónio? Isso fica na Líbia e não na Cirenaica.
- Razão por que vou mandar já um barco para a Cirenaica. Mandarei Pinário
marchar imediatamente para Paretónio.
- Como não podemos salvar as onze legiões que aqui tens, mais quatro ser-nos-ão
úteis - disse ela com satisfação. - Que assim seja, Marco. Terei esse barco
colado à Cesarião à tua espera. Mas antes de subires a bordo terás que te
despedir de mim na Cesarião, por favor.
- Isso não será nenhum sacrifício - disse ele rindo e beijando-a.
Houve uma fuga e o segredo deixou de o ser, como era inevitável quando, nas
Calendas de Setembro, as legiões foram embarcadas, como sardinhas em lata, a
bordo dos transportes de Cleópatra e em todos os outros navios julgados capazes
de navegarem a uma boa velocidade. Outros indícios de que estava em preparação
algo mais do que uma batalha naval tinham aparecido antes: todos os navios, com
excepção das enormes "cincos", tinham as velas guardadas a bordo assim como
grandes quantidades de água e comida. Canídio, Publícola, Sósio, Lúrio e o
resto dos legados partiram do princípio de que, imediatamente após o desfecho
da batalha, tentariam alcançar o Egipto. Essa convicção foi reforçada quando
todos os navios incapazes de aguentar o mar, ou desnecessários, foram levados
para a praia e queimados a uma distância suficiente do canal de Ambrácia para
que o fumo se dissipasse antes de Octaviano o poder ver. Do que ninguém
suspeitava era de que também a batalha era uma cortina de fumo e que não seria
travada até ao desfecho final. Sendo romanos orgulhosos, Publícola, Sósio e
Lúrio não teriam apoiado um plano que não implicasse uma luta até ao fim.
Canídio, que viu através do fumo, não disse nada aos colegas e concentrou-se
simplesmente em meter o maior número de tropas possível a bordo dos transportes
antes que Octaviano desse conta do que se estava a passar.
No fim do Verão adriático o vento era mais previsível do que em qualquer outra
estação do ano: soprava de ocidente de manhã e, cerca do meio do dia, virava
para noroeste, ganhando mais força à medida que ia virando para norte.
Não tinham passado despercebidos a Octaviano e a Agripa os sinais de uma
batalha iminente, apesar de nenhum espião lhes ter relatado nada sobre as
velas, a água e a comida a bordo de todos os transportes que António e
Cleópatra possuíam; se tivessem tido conhecimento desses factos, poderiam ter
planeado medidas que impedissem a fuga.
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Apenas ao meio-dia, quando o vento começasse a virar para norte, é que poderia
dar início à batalha.
Cleópatra e os seus transportes tiraram vantagem da distância maior,
aproximando-se do canal como se se tratasse de uma força de reserva e confiando
que a distância inesperada a que Agripa se encontrava da praia ocultasse o
facto de os navios serem transportes de tropas.
O vento começou a soprar; ambos os lados se deitaram ao trabalho e remaram
desesperadamente para norte, as galeras mais a norte, de ambos os lados da
contenda, dispostas numa linha que registava intervalos maiores entre as
"cincos" de António do que entre as liburnas de Agripa.
A corrida terminou num empate. Nenhum dos lados conseguiu virar o outro contra
o vento. Em vez disso as duas esquadras da extremidade envolveram-se em
combate. A Antónia e o navio almirante de Agripa, Divus Julius, foram os
primeiros a estabelecer contacto e, em poucos instantes, seis pequenas liburnas
tinham arpoado a Antónia e estavam a puxá-la. Quando teve oportunidade de
olhar, António descobriu que dez das suas galeras estavam também em
dificuldade, arpoadas pelas liburnas. Algumas estavam a arder; não tinha
importância não poderem ser abalroadas e afundadas, quando o fogo podia fazer
esse trabalho. Soldados das seis liburnas, que mais pareciam lapas, começaram a
saltar para o convés da Antónia; António decidiu abandonar o navio. Viu que
Cleópatra e os seus transportes tinham saído da baía e que se dirigiam para sul
com as velas içadas, ajudadas por um forte vento norte. Com um salto para a
pinaça também ele se pôs ao largo, serpenteando por entre as liburnas na
embarcação que era célebre pela sua velocidade.
Ninguém a bordo do Divus Julius reparou na pinaça que já estava a meia milha de
distância quando a Antónia se rendeu. Lúcio Gélio Publícola e as outras duas
esquadras da ala direita de António renderam-se imediatamente sem dar combate,
enquanto Marco Lúrio, que comandava o centro das linhas de António, deu meia-
volta aos seus navios e remou de retorno à baía. Na extremidade sul da linha,
comandada por Gaio Sósio, a ala esquerda de António seguiu o exemplo de Lúrio.
Foi um fiasco, uma anedota de batalha. Dos mais de setecentos navios que
estavam no mar, menos de vinte tinham entrado em combate.
Na realidade aquilo era de tal modo incrível, que Agripa e Octaviano ficaram
convencidos de que este resultado estranhíssimo era um truque e que na manhã
seguinte seria empregue uma outra táctica. Foi por isso que nessa noite a frota
de Agripa se manteve a postos no mar, perdendo assim qualquer possibilidade que
pudesse ter tido de apanhar Cleópatra e quarenta mil soldados romanos.
Quando o dia seguinte não revelou nenhum estratagema mais inteligente, Agripa
remou para casa, em Comaro, e ele e Octaviano foram ver os prisioneiros.
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Ainda tinha tantas drogas no corpo que entrou em pânico, requisitou uma pinaça
e saiu atrás dela, como um cão apaixonado corre atrás de uma cadela. Muitos dos
seus almirantes viram-no ir atrás de Cleópatra chamando-a. Octaviano disse em
falsete: "Cleópatra, não me deixes, Suplico-te, não me deixes!" Havia homens
mortos a flutuar por todos os lados, pranchas e cabos enrolados na água, mas a
pinaça que transportava Marco António continuou em frente, atravessando a
carnificina, no encalço de Cleópatra. Depois disso, os almirantes de António
desanimaram. E tu, Agripa, inexcedível combatente, esmagaste os teus
adversários.
- Até ao momento parece-me que resulta - disse Agripa bebendo mais um golo do
odre com vinho. - O que aconteceu depois?
- António alcança o navio de Cleópatra e sobe a bordo. Por favor perdoa-me mas
vou passar para o presente. Ajuda-me sempre quando estou a embelezar factos
cuja realidade nunca será conhecida - disse o mestre do embelezamento. - Mas
subitamente caiu em si e imagina o desastre que abandonou tão cobardemente...
vou ensinar àquele irrumator do António o ter-me chamado cobarde em Filipos!
Agora é a vez dele... vê o desastre e foge cobardemente. Uiva de angústia,
cobre a cabeça com o paludamentum, e fica sentado durante três dias no convés
sem se mexer. Cleópatra dá-lhe antídotos, implorando-lhe que desça para a
cabina dela mas ele recusa mexer-se, demasiado devastado pela sua cobardia.
Milhares de homens mortos e a responsabilidade é dele!
- Isso parece um daqueles poemas épicos rascas que as rapariguinhas compram -
disse Agripa.
- Sim, parece, não parece? Mas atrever-te-ias a apostar que toda a Itália e
toda a Roma não comprarão este?
- Não sou tão parvo assim. Comprá-lo-iam até mesmo em papel caro. Assim que o
Mecenas lhe acrescentar uns floreados, ficará impecável.
- Certamente que servirá para aligeirar o ressentimento contra mim por ter
entrado em guerra. As pessoas gostam de receber a retribuição do seu dinheiro.
- Um assunto delicado, César. Como conseguirás pagar as tuas dívidas? Agora com
Cleópatra derrotada, não terás desculpa para continuar a cobrar o imposto. No
entanto, enquanto ela for viva, não terás sossego. Ela vai armar-se, para
tentar novamente, quer António esteja com ela, quer não. Ela quer que seja o
alegado filho de Divus Julius a governar o mundo e não António. Portanto... o
dinheiro?
- Em breve irei espremer os reis-clientes de António até eles ficarem da cor da
púrpura de Tiro e os olhos lhes saltarem das órbitas. E, em último caso,
invadiremos o Egipto.
Agripa olhou para o sol que aparecia por entre as árvores e levantou-se.
- Tempo de regressarmos, César. Não podemos ser apanhados aqui pela escuridão.
Segundo Ático, e ele deve saber do que fala, os bosques estão cheios de ursos e
de lobos.
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Não come, bebe em demasia, negligencia a pequena Vipsânia como se não gostasse
da criança. Tenho-a vigiada porque não quero que ela abra os pulsos no banho. O
dinheiro dela virá para mim. Tentei persuadi-la a deixá-lo a Vipsânia... não
terias dificuldade em arranjar uma excepção para a Lex Voconia de mulierum
hereditabus, mas ela recusou. Em qualquer caso, se alguma coisa lhe acontecer,
dou a fortuna dela a Vipsânia como dote.
E foi assim que Octávia herdou mais uma criança; Ática bebeu veneno e morreu em
agonia três dias depois de Agripa ter falado dela com Octaviano, deixando
Vipsânia ao cuidado da irmã deste. Sendo um homem de palavra, Agripa transferiu
os fundos de Ática para a criança, o que fez dela uma noiva muitíssimo
desejável. Octaviano descobrira em si próprio um amor pelas crianças que,
embora não rivalizasse com o de Octávia, era forte e protector. Quando Antilo
tentou fugir e foi trazido de volta, não foi castigado. E sempre que Octaviano
vinha a casa jantar, todos os ocupantes da ala das crianças participavam na
refeição. Como com a adição de Vipsânia as crianças já eram doze, Octávia não
exagerara quando dissera ao irmão que precisava de mais um par de mãos
maternais.
Para Lívia Drusila chegara o momento de planear quais as crianças que se
casariam umas com as outras; encurralou Octaviano e obrigou-o a escutá-la.
- Evidentemente, Antilo e Iulius terão que encontrar noivas noutro sítio -
disse ela com a expressão competente e determinada no rosto que dizia a
Octaviano que o melhor era não argumentar. - Tibério pode casar com Vipsânia. A
fortuna dela é imensa e ele gosta dela.
- E Druso? - perguntou ele.
- Com Tonilla. Também gostam um do outro. - Pigarreou e fez um ar severo.
-Marcelo devia casar-se com Júlia.
Ele franziu o sobrolho.
- Eles são primos direitos, Lívia Drusila. Divus Julius não aprovava o
casamento entre primos direitos.
-A tua filha, César, é uma rainha não coroada. Seja qual for o marido, se não
fizer parte da família será sempre uma ameaça para ti. Aquele que se casar com
a filha de César será o teu herdeiro.
-Tens razão, como sempre. - Suspirou. - Muito bem, que Marcelo se case com
Júlia.
-Antónia está tratada, casa-se com Lúcio Aenobarbo. Não é o par que eu teria
escolhido, mas ela estava ao cuidado do pai quando o contrato da promessa foi
feita e tu prometeste honrá-lo.
- E a filha de Ácia, Márcia? - Ele continuava a detestar pensar nela e na
traição da mãe.
- Deixo isso a teu cargo.
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Eles recusavam-se a receber ordens de uma mulher, por mais elevada que fosse a
sua posição. Portanto nunca pararam de pressionar António para que me enviasse
de volta ao Egipto. Não tendo percebido a razão por que o faziam, eu recusei
vir.
- Bem, tudo isso pertence ao passado e agora já não fará diferença - disse
Cesarião com um suspiro. - Que planeias fazer?
- O que farias no meu lugar? - perguntou ela com uma curiosidade súbita.
- Enviava Sosígenes como embaixador a Octaviano e tentava fazer a paz.
Oferecia-lhe o ouro que ele quisesse para nos deixar em paz no nosso cantinho
do Mar Deles. Entregava-lhe reféns como garantia e permitiria que os Romanos
enviassem regularmente inspectores para se certificarem de que não nos
estávamos
a armar em segredo.
- Octaviano não nos deixará em paz, dou-te a minha palavra de honra a esse
respeito.
- O que pensa António?
- Reagrupar e lutar.
- Mamã, isso é inútil! - gritou o jovem. - António já passou do seu auge e eu
não tenho experiência para comandar no seu lugar. Se o que dizes sobre seres
mulher é verdade, então estas ti opas romanas que aqui temos em Alexandria
nunca te seguirão. Sosígenes tem que chefiar uma delegação que vá a Roma, ou a
onde quer que Octaviano esteja, e que negoceie a paz. Quanto mais cedo melhor.
- Esperemos que António regresse de Paretónio - suplicou ela com a mão no braço
de Cesarião. - Depois poderemos decidir.
Abanando a cabeça, Cesaríão levantou-se.
-Tem que ser já, mamã.
Ela disse que não.
A atitude do filho deveria ter sido muitíssimo elucidativa, deveria ter-lhe
despertado os sentidos e o espírito para aquilo que deveria ter visto antes de
partir para Éfeso. Todas as suas energias e recursos mentais tinham sido
aplicados a planear o futuro dele, o futuro brilhante, triunfante, glorioso
como Rei dos Reis, senhor do mundo. Agora, pela primeira vez, apercebia-se de
que ele não queria nada disso, que falara a sério quando lho dissera nas várias
ocasiões em que a procurara para discutir o assunto. Era dela, a sede desse
futuro brilhante, pusera-se no lugar dele partindo do princípio errado de que
ninguém poderia resistir à sua atracção, muito menos um jovem com ascendência
divina, linhagem real e a mente de um génio. Os exercícios militares tinham
provado que não era nenhum cobarde, portanto não era o receio pela sua própria
pele o que o detinha. O que faltava a Cesarião era a ambição. E, faltando-lhe
ambição, nunca seria Rei dos Reis em nada a não ser no nome; ele não tinha a
vontade necessária. O Egipto e Alexandria bastavam-lhe; não desejava mais nada.
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Oh, Cesarião, Cesarião! Como pudeste fazer-me isto? Como podes voltar as costas
ao poder? Onde foi que correu mal a ligação do meu sangue ao de César? Duas das
pessoas mais ambiciosas que alguma vez caminharam sobre a Terra produziram um
filho valente mas gentil, forte mas sem ambição. Foi tudo para nada e nem
sequer tenho a consolação de pensar que posso substituir o meu primogénito por
Alexandre Hélio ou por Ptolomeu Filadelfo, que são destituídos, não de ambição,
mas da inteligência suficiente. São medíocres. É Cesarião quem faz com que o
Nilo suba até aos Cúbitos da Abundância ano após ano, é Cesarião que é Horus e
Osíris. E não quer o seu destino. Ele, que não é medíocre, anseia pela
mediocridade. Que ironia. Oh, mas que tragédia!
- Quando eu costumava dizer que ele era uma criança que ninguém conseguia
estragar com mimos, não percebia o que isso significava - disse a Cha'em depois
de o jantar silencioso ter terminado e de Apolodoro e Sosígenes, ambos pálidos,
terem desaparecido.
- Mas agora percebes - disse o velho numa voz terna.
- Sim. Cesarião não sente a falta de nada porque não deseja nada. Se Amon-Rá o
tivesse encarnado no corpo de um mestiço egípcio que passasse a vida a fazer
pão e a varrer as ruas, ele teria aceite o seu destino com elegância e
gratidão, feliz por ganhar o suficiente para comer, alugar uma casinha
minúscula em Rhakotis, casar e ter filhos. Se algum padeiro ou supervisor das
ruas mais perspicaz se apercebesse das suas qualidades e o promovesse um pouco,
ele teria ficado extasiado, não por si próprio, mas por causa dos filhos.
- Viste a verdade.
- Mas então e tu, Cha'em? Viste a natureza e personalidade de Cesarião daquela
vez que ficaste da cor da cinza e te recusaste a contar-me a tua visão?
- Uma coisa desse género, Filha de Rá. Uma coisa parecida.
António regressou a Alexandria um mês depois, imediatamente antes de os
Alexandrinos terem ficado a saber da derrota em Ácio. Ninguém se manifestou nas
ruas, ninguém reuniu uma multidão para atacar os Domínios Reais. Choraram e
uivaram, nada mais, apesar de alguns terem perdido filhos, sobrinhos, primos
que tinham tripulado a frota egípcia. Cleópatra emitiu um édito explicando que
poucos desses homens tinham sido perdidos para sempre; se Octaviano os quisesse
vender para a escravatura, ela comprá-los-ia ou, caso Octaviano os libertasse,
trá-los-ia para casa assim que fosse possível.
Durante o mês em que esperou por António ficou preocupada com ele como nunca
antes lhe acontecera; o amor invadira o seu coração e isso significava medo,
dúvida, preocupação permanente. Estaria bem? Como estaria o seu humor? O que
estaria a passar-se em Paretónio?
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Tudo isso tinha que saber através de Lúcio Cina. António recusou-se a
aproximar-se dos palácios; trepou por cima da amurada e desembarcou nas águas
baixas, chapinhando até terra numa praia pequeníssima adjacente ao Porto Real.
Não dirigira palavra a ninguém desde que tinham partido de Paretónio, disse
Cina.
- Na realidade, senhora, nunca o vi assim, tão cheio de desespero.
- O que aconteceu?
- Soubemos que Pinário se rendeu a Cornélio Galo na Cirenaica. Um golpe
terrível para António, mas o pior estava para vir. Galo embarcou para
Alexandria com as suas quatro legiões e as quatro que pertenciam a Pinário. Tem
transportes em abundância e duas frotas, a sua e a de Pinário. O que significa
que há oito legiões e duas frotas a dirigirem-se para Alexandria, vindas do
ocidente. António queria permanecer em Paretónio e enfrentar lá Galo, mas...
bem, podeis ver com os vossos próprios olhos a razão por que não podia fazê-lo,
Majestade.
- Não tinha tempo suficiente para vir buscar as tropas a Alexandria. Então con-
venceu-se a si próprio de que deveria ter mantido as legiões em Paretónio. Mas
para ter tomado essa decisão, Cina, ele teria que ser vidente!
- Todos nós tentámos, senhora, mas ele não nos dá ouvidos.
- Tenho que ir ter com ele. Por favor encontra Apolodoro e diz-lhe que te
arranje alojamento. - Cleópatra deu uma palmadinha no braço de Cina e dirigiu-
se para a enseada onde via a figura acocorada de Marco António, sentado com os
braços em volta dos joelhos e o queixo apoiado nas mãos. Desolado. Sozinho.
Todos os presságios estão contra nós, pensou ela com a capa a adejar fortemente
à volta do corpo. O dia estava nublado e o vento muito mais frio do que a
habitual brisa do Inverno alexandrino. Aquele era um vento que gelava até aos
ossos. Espuma branca cobria as águas cinzentas do Porto Real, as nuvens
passavam, cerradas e baixas, de norte para sul; Alexandria ia ter chuva.
Ele tresandava a suor mas não, graças a todos os deuses, a vinho. A barba
crescera-lhe, hirsuta e tinha o cabelo em pé, a precisar de ser cortado; nenhum
romano usava a barba ou o cabelo compridos a não ser após uma morte ou qualquer
outra calamidade tremenda. Marco António estava de luto.
Ela acocorou-se ao lado dele a tremer.
-António? Olha para mim, António! Olha para mim!
Em resposta ele puxou opaludamentum por cima da cabeça até lhe cobrir o rosto.
- António, meu amor, fala comigo!
Mas ele recusava-se a falar e não descobria a cara.
Ao fim de mais ou menos uma hora, começou a chover, uma chuva forte e contínua
que os encharcou. Ele falou então... mas apenas, parecia, para se ver livre
dela.
- Vês aquele pequeno promontório por trás do Akro?
- Sim, meu amor, claro que vejo. A ponta Sóter.
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- Constrói-me uma casa só com uma divisão lá em cima, uma casa com tamanho
suficiente só para mim. Sem criados. Não quero qualquer contacto com homens ou
mulheres, incluindo-te a ti.
- Pensas imitar Timão de Atenas? - perguntou ela horrorizada.
- Sim. O novo Marco António é simultaneamente misantropo e misógino exactamente
como Timão de Atenas. A minha casa só de uma divisão será o meu Timonium e
ninguém se deverá aproximar dela. Estás a ouvir-me? Ninguém! Nem tu, nem
Cesarião, nem os meus filhos.
-Vais morrer de frio antes de estar terminada - disse ela grata pela chuva;
esta disfarçava-lhe as lágrimas.
- Mais uma razão para te apressares, então. Agora vai, Cleópatra! Vai-te embora
e deixa-me sozinho!
- Deixa-me mandar-te comida e bebida, por favor!
- Não. Não quero nada.
Cesarião estava à espera, tão ansioso por notícias que nem saiu quarto. Ela
teve que despir a roupa molhada por trás de um biombo, falando com ele enquanto
Charmian e Iras lhe esfregavam o corpo gelado com toalhas de linho áspero para
a aquecer.
- Conta-me, mamã! - dizia a voz dele repetidamente. Ouvia o som dos seus pés
para trás e para a frente. - Qual é a verdade? Diz-me, diz-me!
- Ele transformou-se em Timão de Atenas - disse ela através do biombo pela
décima vez. - Eu tenho que lhe construir uma casa só com uma divisão no cume da
ponta Sóter... tenciona chamar-lhe Timonium. - Saiu de trás do biombo. - E não,
ele não quer ver-te nem a mim, não quer comida nem vinho, não tolerará nem
sequer a presença de um criado. - Estava a chorar novamente. - Oh, Cesarião,
que hei-de fazer? Os soldados dele sabem que está de volta, mas o que irão
pensar quando virem que não os visita? Quando souberem que não os comandará?
Ele secou-lhe os olhos e abraçou-a para a reconfortar.
- Pronto, mamã, pronto! Não vale a pena chorar. As coisas foram assim tão más
enquanto estiveste fora? Eu sei que ele pensava suicidar-se depois da retirada
de Fraaspa e sei que tentou afogar-se em vinho. Mas não me contaste como é que
ele estava quando, na tenda de comando, estava tudo em convulsão. Só me
descreveste a atitude dos seus amigos e legados, o que não é o mesmo. Fala-me
de ti e de António. Tão honestamente quanto fores capaz. Já não sou um rapaz
sob nenhum aspecto.
Arrancada ao seu desgosto, ela ficou a olhar para ele com espanto.
- Cesarião! Queres dizer que estiveste com mulheres? Ele riu-se.
- Preferirias que tivesse estado com homens?
511
- Os homens foram bons para Alexandre, o Grande, mas a esse respeito os Romanos
são muito estranhos. O teu pai ficaria certamente satisfeito por saber que as
tuas amantes são mulheres.
- Então não tem razão de queixa. Anda, senta-te. - Instalou-a numa cadeira e
sentou-se aos seus pés de pernas cruzadas. - Conta-me.
- Ele apoiou-me contra tudo e contra todos, meu filho. Nunca houve um marido
mais leal do que ele. Oh, como eles o pressionaram! Dia após dia,
ininterruptamente. Que me mandasse para casa para o Egipto, que não queriam uma
mulher na tenda de comando, que eu era estrangeira... mil milhares de razões
para eu não poder estar lá com ele. E eu fui estúpida, Cesarião. Muito
estúpida. Resisti, recusei-me a vir para casa. E também o pressionei. Eles não
seriam dominados por uma mulher. Mas António defendeu-me e nunca cedeu, nem por
uma vez. No final, quando até Canídio se virou contra mim, ele continuou a
recusar-se a mandar-me embora.
- Essa recusa era motivada pela lealdade ou... pelo amor?
- Por ambos, creio. - Ela estendeu as mãos e agarrou as dele febrilmente. - Mas
isso não foi o pior para ele, Cesarião. - Eu... eu... eu não o amava, e ele
sabia-o. Era o seu maior desgosto. Tratei-o como se fosse lixo! Dei-lhe ordens,
humilhei-o na frente de legados que não o conheciam bem e, sendo romanos, o
olhavam com desprezo por ele me deixar dar-lhe ordens... eu, uma mulher! Fi-lo
ajoelhar aos meus pés na frente deles, estalava os dedos para o chamar,
arrancava-o a conferências para me levar a fazer piqueniques. Não é para
admirar que eles me odiassem! Mas ele
nunca me odiou.
- Quando é que percebeste que o amavas, mamã?
- Em Ácio, no meio das deserções em massa dos reis-clientes e dos legados e
após uma série de pequenas derrotas em terra. As vendas caíram-me dos olhos,
não consigo descrevê-lo de outra forma. Olhei para a cabeça dele e vi que
ficara grisalho quase de um dia para o outro. Subitamente estava a sofrer por
ele e com ele, como se ele fosse eu. E... as vendas caíram. Num instante, no
tempo de uma respiração. Sim, vejo agora que o meu amor se instalara mais
lentamente, mas na altura foi como um relâmpago. Depois as coisas aconteceram
com uma rapidez tal que não tive tempo suficiente para lhe demonstrar a
profundidade do meu amor. - Emitiu um som breve e triste. - Agora talvez nunca
mais tenha tempo.
Cesarião tirou-a da cadeira e prendeu-a entre os joelhos, massajando-lhe as
costas como se ela fosse uma criança.
- Ele vai reagir, mamã. Isto passará, terás oportunidade de lhe demonstrar o
teu amor.
- Como é que te tornaste tão sensato, meu filho?
- Sensato? Eu? Não, não sou sensato. Simplesmente consigo ver. Não tenho vendas
nos olhos nem nunca tive. Agora vai para a cama, mamã... minha querida e doce
mamã. Eu construir-lhe-ei a casa só de uma divisão num único dia.
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- Ácio foi transformada na mais colossal batalha naval alguma vez travada
-disse ele à mesa do jantar onde estavam sentados o jovem Curião, Antilo e
Cesarião. - Muitos, muitos milhares dos teus soldados romanos pereceram,
António. Sabias disso? Foram tantos os que morreram que restaram apenas uns
poucos para fazer prisioneiros. Tu próprio, contudo, continuaste a lutar mesmo
depois de a Antónia se ter tornado pasto das chamas. Depois viste a rainha a
desertar para o Egipto, saltaste para uma pinaça e perseguiste-a
freneticamente, abandonando os teus homens. Abriste caminho pelo meio de
centenas de soldados romanos moribundos, ignorando as suas súplicas para que
ficasses, concentrado apenas em alcançar Cleópatra. Quando o conseguiste e ela
te içou para bordo do seu navio, uivaste como um cão empalado, ficaste sentado
no convés e recusaste-te a mexer-te durante três dias. A rainha confiscou-te a
espada e o punhal, de tal forma estavas enlouquecido por teres abandonado os
teus homens. É evidente que Roma e Itália estão agora absolutamente convencidas
de que és, na melhor das hipóteses, um escravo de Cleópatra. Os teus mais fiéis
partidários abandonaram-te. Até mesmo Polião, embora se recuse a lutar contra
ti.
- Octaviano está em Roma? - perguntou Cesarião quebrando o silêncio provocado
pelo choque.
- Esteve, mas por pouco tempo. Partiu com mais legiões e navios para se juntar
aos que o aguardam em Efeso. Ouvi dizer que vai dispor de trinta legiões,
embora não tenha mais cavaleiros do que os dezassete mil que sempre teve.
Parece que vai embarcar em Efeso para Antioquia, talvez até mesmo para Pelúsio.
Os Ventos Etésios não vão soprar nessa altura, mas o Astreu nos últimos anos
tem chegado atrasado.
- Quando achas que ele chegará aqui? - perguntou António numa voz calma e com
uma atitude impassível.
-Ao Egipto, talvez em Junho. Diz-se que não atravessará o delta do Nilo por
mar. Tenciona marchar de Pelúsio para Mênfis, por terra, e aproximar-se de
Alexandria vindo do Sul.
- Mênfis? Isso é bizarro - disse Cesarião. Canídio encolheu os ombros.
- Só posso concluir, Cesarião, que ele quer Alexandria completamente isolada,
incapaz de receber quaisquer reforços. É uma boa estratégia, ainda que
cautelosa.
- A mim parece-me errada - insistiu Cesarião. - É Agripa o autor dessa
estratégia?
- Não me parece que Agripa esteja presente. Estatílio Tauro será o segundo-
comandante de Octaviano e Cornélio Galo avançará da Cirenaica.
- Um movimento em pinça - disse Curião exibindo os seus conhecimentos. António
e Canídio disfarçaram um sorriso, mas Cesarião pareceu exasperado.
Francamente! Um movimento em pinça! Mas que perspicaz da parte de Curião.
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Agora que António recuperara o juízo, um enorme fardo fora levantado dos ombros
de Cleópatra, mas não conseguia invocar as suas antigas reservas de ânimo e de
energia. O inchaço na garganta continuava a crescer ligeiramente, os pés e as
pernas não paravam de inchar, tinha falta de ar e, ocasionalmente, sentia-se
desorientada. Hapd'efan'e atribuía tudo ao bócio sem saber como tratá-lo. O
melhor que podia fazer era mandá-la deitar-se na cama ou num divã com os pés
elevados sempre que o edema ocorresse, o que acontecia habitualmente depois de
passar muito tempo sentada à secretária.
O seu espírito vingativo e a sua arrogância tinham feito dos dois homens na sua
fronteira com a Síria inimigos intratáveis, Herodes e Malco; por sua vez,
Cornélio Galo bloqueara o Ocidente do Egipto. Teria portanto que procurar mais
longe os seus aliados. Foi enviada uma embaixada ao rei dos Partos com muitos
presentes e promessas de assistência na próxima invasão da Síria pelos Partos.
Mas o que poderia ela fazer pelo Artavasdes da Média? Este ia aumentando
permanentemente o seu poder enquanto se aproximava da Partia Média explorando
as querelas no interior da corte partia. O Artavasdes arménio, que fora trazido
para Alexandria para desfilar na parada triunfal de António, ainda estava
preso. Cleópatra executou-o e enviou a sua cabeça para a Média juntamente com
uma embaixada e instruções para garantirem ao rei que a sua filha pequena,
Iotape, continuaria prometida a Alexandre Hélios e que o Egipto confiava na
Média para manter os Romanos em respeito nas suas fronteiras com a Arménia.
Para ajudar a suportar os custos daquela política enviou ouro.
Com a passagem do tempo iam chegando relatórios que confirmavam o avanço de
Octaviano e Cleópatra foi levada a inventar esquemas cada vez mais
mirabolantes.
Em Abril mandou transportar uma pequena frota de navios de guerra velozes
através das areias de Pelúsio, para Heroõnopolis, na extremidade do Sinus
Arabicus. O que a preocupava mais agora era a segurança de Cesarião e não via
forma de a garantir a não ser enviando-o para a costa Malabar da índia, ou para
a grande ilha em forma de pêra que ficava mais abaixo, a Taprobana. Acontecesse
o que acontecesse, Cesarião teria que ser enviado algures para acabar de
crescer; só um homem completamente amadurecido poderia regressar para
conquistar Octaviano. Mas assim que a frota ficou ancorada, Malco da Nabateia
caiu sobre ela e incendiou todas as galeras que arderam até à linha de água.
Resoluta, mandou transportar outra frota para o Sinus Arabicus, mas desta vez
para Berenice, bem fora do alcance de Malco. A acompanhar a frota seguiram
cinquenta dos seus servos de maior confiança com instruções para aguardarem em
Berenice a chegada do Faraó César. Depois deveriam partir para a índia.
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Dado ser impossível ressuscitar a Sociedade da Vida Inimitável, Cleópatra teve
a ideia de fundar a Sociedade dos Companheiros na Morte. O objectivo era
praticamente o mesmo: divertirem-se, beberem, comerem... mas também esquecerem
durante algumas horas de cada vez o destino que se aproximava rapidamente.
Apesar de os Companheiros na Morte, reflectindo o seu nome, nunca terem sido a
sucessão de celebrações loucas e sem limites que tinham sido apanágio da
Sociedade da Vida Inimitável. Eram ocas, forçadas, frenéticas.
António mantinha-se sóbrio apesar de beber vinho, quase sempre com moderação,
pois preferia passar os dias com as suas legiões, treinando-as para que
ficassem no auge da sua forma. Cesarião, Curião e Antilo acompanhavam-no sempre
que estava com uma disposição marcial, embora não sentissem o mesmo entusiasmo
por serem Companheiros na Morte. Na sua idade recusavam acreditar que a morte
era uma possibilidade; toda a gente podia morrer, eles não podiam.
No início de Maio chegaram da Síria notícias que devastaram António. No seu
caminho para Atenas encontrara uma centena de genuínos gladiadores romanos
encalhados em Samos e contratara-os para que combatessem nos jogos da vitória
que tencionava celebrar quando derrotasse Octaviano. Pagara-lhes e deixara-os
utilizar dois navios, mas Ácio arruinara-lhe os planos. Ao saberem da derrota
de António, os gladiadores resolveram partir para o Egipto e combater lá por
ele, não mais soldados da arena mas verdadeiros soldados. Conseguiram chegar a
Antioquia onde Tício Dídio, o novo governador de Octaviano os deteve. Depois
Messala Corvino chegou com a primeira das legiões de Octaviano e ordenou que os
gladiadores fossem crucificados. Uma morte cruel e lenta reservada aos escravos
e aos piratas e a mais ninguém. Era a forma de Corvino dizer que quaisquer
gladiadores que combatessem por Marco António eram escravos e não homens
livres, apesar de eles serem homens livres.
Por uma qualquer razão que escapava à compreensão de Cleópatra, aquela história
triste afectou António de uma forma que nem Ácio nem Paretónio tinham
aparentemente afectado. Chorou inconsolavelmente durante vários dias e quando,
finalmente, passou o paroxismo da dor, parecia ter perdido o interesse, a
energia e o espírito e desceu sobre ele uma melancolia, mas sob a máscara de um
grande entusiasmo pela Sociedade dos Companheiros na Morte, em cujas
celebrações participava agora freneticamente bebendo até cair. As legiões foram
negligenciadas, o exército egípcio esquecido e quando Cesarião lhe lembrava
constantemente que tinha que pôr mãos à obra e manter os dois exércitos num
estado de prontidão, António ignorava-o.
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Um tubo para falar penetrava a pedra com um metro e meio de espessura adjacente
à portada da esquerda dos portões exteriores.
Até que ela e António ali jazessem embalsamados, manter-se-ia uma abertura lá
no alto da parede, junto à porta, onde se chegava através de um andaime feito
com vimes; um guincho e um cesto enorme permitiam que pessoas e objectos fossem
passados para dentro e para fora do edifício. O processo de embalsamamento
levava noventa dias, decorreriam portanto três meses entre a morte e a selagem
da abertura na parede da porta; os sacerdotes embalsamadores andariam para trás
e para a frente com os seus instrumentos e o natro, o sal acre e ácido que
retiravam do lago Tritonis nas margens da província romana de África. Até mesmo
isso estava a postos, os sacerdotes guardavam a substância numa casa especial
juntamente com os seus instrumentos.
A câmara interior de António estava ligada à dela através de uma porta e ambas
eram lindas, embelezadas com pinturas murais, ouro, pedras preciosas, todos os
luxos que uma Faraó e o seu consorte poderiam desejar no Reino dos Mortos.
Livros para lerem, cenas das suas vidas para que as pudessem admirar com um
sorriso, todos os deuses egípcios, um belíssimo mural do Nilo. A comida, os
móveis, as bebidas e o barco já estavam nos seus lugares; já não faltava muito,
Cleópatra sabia-o.
Nas salas reservadas a António estavam a sua secretária e cadeira curul de
marfim, as suas melhores couraças, uma colecção de togas e de túnicas, mesas de
madeira de citrino e pedestais de marfim com embutidos de ouro. Estavam
presentes os templos miniatura que continham imagens de cera dos seus
antepassados que haviam alcançado o lugar de pretor, e um busto dele próprio
num pedestal ornamentado com falos de que ele gostava especialmente; o escultor
grego tinha-lhe envolto a cabeça nas mandíbulas de uma cabeça de leão, com as
patas cruzadas sobre o seu peito e dois olhos vermelhos brilhando sobre o seu
crânio. As únicas coisas que faltavam naquela secção eram uma couraça de
combate e uma toga debruada a púrpura, tudo do que necessitaria antes do fim.
Evidentemente que Cesarião estava ao corrente do que ela estava a fazer e
percebera, sem dúvida, que estava convicta de que ela e António estariam mortos
em breve, mas não disse nada nem tentou dissuadi-la. Só o mais idiota dos
faraós não levaria em conta a possibilidade de morte; aquilo não significava
que a mãe e o padrasto estavam a pensar em suicidar-se, mas apenas que estariam
prontos para entrar no Reino dos Mortos devidamente equipados e prevenidos,
fossem as suas mortes resultantes da invasão de Octaviano ou viessem a ocorrer
apenas dali a quarenta anos. O seu próprio túmulo estava a ser construído, tal
como era devido e adequado; a sua mãe colocara-o ao lado do de Alexandre, o
Grande, mas ele deslocara-o para um canto obscuro e discreto.
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Uma parte de si estava animadíssima com a expectativa da batalha, mas uma outra
preocupava-se e debatia-se com o destino do seu povo se ficasse sem Faraó.
Tendo idade suficiente para se recordar da fome e da pestilência dos anos que
mediaram a morte do pai e o nascimento dos gémeos, tinha um grande sentido da
responsabilidade e sabia que teria que sobreviver, fosse o que fosse que
acontecesse à mãe e ao seu consorte. Tinha a certeza que lhe seria permitido
sobreviver se negociasse com inteligência e estava preparado para dar a
Octaviano a parte do tesouro que este exigisse. Um Faraó vivo era de longe mais
importante para o Egipto do que túneis atafulhados com meros objectos. As suas
ideias e opiniões sobre Octaviano eram mantidas em privado, nunca tinham sido
transmitidas a Cleópatra, que não concordaria com elas nem ficaria com uma boa
opinião dele se as ouvisse. Pois ele compreendia o dilema de Octaviano e não
podia culpá-lo pelas suas acções. Oh, mamã, mamã! Tanta húbris, tanta ambição!
Porque tinha desafiado o poder de Roma, Roma viera. Estava prestes a iniciar-se
uma nova era para o Egipto, uma era que ele teria que controlar. Nada na
conduta de Octaviano fazia crer que ele fosse um tirano; era, adivinhava
Cesarião, um homem com uma missão; proteger Roma dos seus inimigos e
proporcionar ao seu povo paz e prosperidade. Com esses objectivos em mente,
poder-se-ia falar com o homem e fazê-lo ver as vantagens de ter um Egipto
estável, sob um governante estável, que nunca se tornaria num perigo. O Egipto,
Amigo e Aliado do Povo de Roma, o reino-cliente mais leal de Roma.
Cesarião fez dezassete anos no vigésimo terceiro dia de Junho. Cleópatra queria
fazer-lhe uma grande festa, mas ele recusou-se a ouvir falar no assunto.
-Apenas uma coisa pequena, mamã. A família, Apolodoro, Cha'em, Sosígenes -
disse com firmeza. - Nada de Companheiros na Morte, por favor! Tenta convencer
António disso.
Não foi uma tarefa tão difícil como ela esperara; Marco António estava cansado,
desgastado.
- Se esse é o tipo de celebração que o rapaz quer, será isso que terá. - Os
olhos castanho-avermelhados brilharam de uma forma agora rara. - Para te dizer
a verdade, minha querida esposa, eu sou mais Morte do que Companheiro hoje em
dia. - Suspirou. - Já não falta muito, agora que Octaviano chegou a Pelúsio.
Mais um mês, talvez um pouco mais.
- O meu exército não lhes resistiu - disse ela de dentes cerrados.
- Ora, Cleópatra, porque haveria de resistir? Camponeses sem terra, uns quantos
centuriões grisalhos e perros que ainda vêm dos tempos de Aulo Gabínio... eu
não lhes poderia pedir que sacrificassem as suas vidas, desejava-o tanto como
Octaviano. Não, na verdade fico satisfeito por não terem combatido. - Fez um ar
irónico. - E mais satisfeito ainda por Octaviano se ter limitado a mandá-los
para casa. Está a agir mais como um turista do que como um conquistador.
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Octaviano,
Estou certo de que não desejas a morte de mais romanos e, pela maneira como
trataste o exército da minha mulher, também não desejas a morte a mais
inimigos.
Suponho que quando o meu filho mais velho te alcançar já estarás em Mênfis. Ele
é portador desta carta porque sei que assim irá ter à tua secretária e não à de
um qualquer legado. O rapaz está ansioso por me prestar um serviço e eu fico
feliz por lhe dar essa oportunidade.
Octaviano, acabemos com esta farsa. Estou disposto a admitir que fui o agressor
na nossa guerra, se é que se pode chamar guerra a isto. Marco António não
brilhou a grande altura, isso é certo e agora deseja pôr-lhe um fim.
Se permitires que a rainha Cleópatra governe o seu reino como Faraó e Rainha,
prometo-te que cairei sobre a minha espada. Um fim apropriado a uma luta
patética. Envia a tua resposta pelo meu rapaz. Aguardarei três nundinae por
ela. Se até lá não tiver recebido uma resposta saberei que recusaste a minha
proposta.
Passaram-se três nundinae e não veio qualquer resposta de Octaviano. O que
preocupava António era Antilo não ter regressado, mas concluiu que Octaviano
deteria o rapaz até a sua vitória ser total e depois... o que se fazia aos
filhos dos proscritos? A prática habitual era serem banidos, mas Antilo vivera
durante anos com Octávia. O irmão dela não baniria uma das suas crias. Nem lhe
negaria um rendimento suficiente para viver de forma adequada a um António.
- Pensaste mesmo que Octaviano iria aceitar, fossem quais fossem as condições
que lhe enviaste na tua carta? -perguntou Cleópatra. Ela não a lera nem exigira
lê-la; a nova Cleópatra percebia que as questões dos homens lhes pertenciam.
- Suponho que não - disse António encolhendo os ombros. - Quem dera que Antilo
entrasse em contacto comigo.
Como haveria de lhe dizer que o rapaz estava morto?, perguntou a si própria.
Octaviano não podia acordar condições, ele precisava do Tesouro dos Ptolomeus.
Saberia onde encontrá-lo? Não, claro que não. O que não o impediria de escavar
mais buracos nas areias do Egipto do que estrelas havia no firmamento. E
Antilo? Vivo seria um problema. Os rapazes de dezasseis anos eram escorregadios
como enguias e tinham uma certa manha. Octaviano não correria o risco de o
manter vivo para se escapar para vir contar ao pai quais eram as intenções do
inimigo. Sim, Antilo estava morto. Faria alguma diferença guardar aquela
conclusão para si própria ou comunicá-la ao pai do rapaz? Não, não fazia.
Portanto para quê pôr-lhe sobre os ombros, já tão encurvados, tão frágeis, mais
um fardo de dor? Frágil era um adjectivo que ela nunca pensara aplicar a Marco
António.
Em vez disso abordou o assunto relativo a outro rapaz: Cesarião.
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- Se eu jurar pelo meu pai Ámon-Rá que não interferirei mais em nenhum dos teus
assuntos militares, Marco, consentirás em travar uma grande batalha? -
perguntou com os olhos encovados por não ter dormido.
Ele conseguiu ir buscar um sorriso algures, puxou-a para si e aspirou o
maravilhoso perfume da sua pele, aquela fragrância fresca e floral que
destilava do bálsamo de Jericó.
- Sim meu amor, vou travar a minha última batalha. Ela ficou tensa e afastou-se
para o olhar.
- Última batalha?
- Sim, última batalha. Amanhã de madrugada. - Respirou fundo e fez um ar
severo. - Não regressarei, Cleópatra. Aconteça o que acontecer, não
regressarei. Poderemos vencer, mas é apenas uma batalha. Octaviano ganhou a
guerra. Tenciono morrer no campo de batalha com a maior bravura que puder.
Assim o elemento romano terá desaparecido e poderás negociar com Octaviano sem
ter que me ter em consideração. Eu sou aquilo que o embaraça, não tu... tu és
uma inimiga estrangeira com quem ele poderá lidar com simplicidade, como fazem
os Romanos. Poderá exigir que desfiles na sua parada triunfal, mas não te
executará nem aos filhos que tiveste comigo. Duvido que permita que governes o
Egipto, o que significa que depois do triunfo te porá a viver numa cidadela
italiana como Norba ou Praeneste. Com muito conforto. E poderás esperar aí pelo
regresso de Cesarião.
O rosto dela ficara pálido, a cor fugira toda para aqueles enormes olhos
dourados.
-António, não! - murmurou ela.
-António, sim. É o que eu quero, Cleópatra. Poderás pedir o meu corpo e eles
entregar-to-ão. Ele não é um homem vingativo... o que ele faz, fá-lo por razões
práticas, racionais e cuidadosamente pensadas. Não me recuses uma morte boa,
meu amor, por favor!
As lágrimas eram quentes e queimavam-lhe as faces enquanto corriam na direcção
dos cantos da boca.
- Não te negarei a tua boa morte, meu muito amado. Só peço uma última noite nos
teus braços vivos e nada mais.
Ele beijou-a uma vez e saiu para o hipódromo onde foi tratar dos preparativos
para a batalha.
Sem destino, morta por dentro, ela atravessou os corredores do palácio até à
porta que dava para um caminho ladeado por palmeiras que levava à Sema, seguida
por Charmian e por Iras como sempre. Elas não tinham feito perguntas; não havia
necessidade, depois de terem visto o rosto da Faraó. António iria morrer na
batalha, Cesarião partira para a índia e a Faraó aproximava-se rapidamente do
horizonte ténue que separava o Nilo do Reino dos Mortos.
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No seu túmulo pediu a atenção daqueles que ainda trabalhavam na ala de António,
dando ordens para que tudo estivesse pronto para receber o seu corpo no
crepúsculo do dia seguinte. Depois ficou de pé na pequena antecâmara no
interior das grandes portas de bronze e fitou-as, virando-se depois para
admirar a mais exterior das suas próprias câmaras, onde fora colocada uma bela
cama e uma banheira, um recanto para a satisfação das necessidades, uma mesa e
duas cadeiras, uma secretária fornecida com o melhor papel de papiro, canetas
de junco e blocos de tinta, uma cadeira. Tudo o que a Faraó necessitaria na
outra vida. Mas, pensou, estava também devidamente apetrechado para a Faraó
nesta vida.
Aquilo atormentava-a, sentir-se encurralada pela sua impotência entre a morte
de António e a decisão de Octaviano sobre ela e os seus filhos. Tinha que se
esconder! Tinha que se esconder até descobrir qual seria a decisão de
Octaviano. Se ele a encontrasse num local onde pudesse ser capturada, prendê-
la-ia e, provavelmente, os seus filhos seriam mortos de imediato. António não
parava de insistir no facto de Octaviano ser um homem misericordioso, mas para
Cleópatra ele era Basilisco, o réptil letal. Certamente que ele a queria viva
para a sua parada triunfal: portanto uma Rainha das Bestas morta era o último
dos seus desejos. Mas se ela se suicidasse agora, os seus filhos sofreriam
indubitavelmente as consequências. Não, não poderia atentar contra a sua vida
até se certificar de que os filhos estavam em segurança. Para já Cesarião ainda
não devia ter alcançado o porto no Sinus Arabicus; ainda passariam nundianae
até ele embarcar. Quanto aos filhos de António - ela era a mãe deles, apanhada
pelos laços intangíveis que ligavam para sempre uma mulher aos seus filhos.
A ideia surgira-lhe quando os olhos caíram sobre a cama. Porque não esconder-se
no interior do seu túmulo? Evidentemente que ainda era possível lá entrar pela
abertura, mas antes que Octaviano pudesse ordenar aos homens que lá entrassem,
ela estaria aos gritos pelo tubo de comunicação dizendo que se quaisquer
lacaios tentassem entrar por ali a encontrariam morta pelo veneno. O último
tipo de morte que Octaviano aprovaria para ela; todos os seus inimigos, que
eram muitos, se ergueriam num clamor dizendo que ele a envenenara. Ela teria
que permanecer viva, livre e com várias opções durante o tempo suficiente para
conseguir que ele lhe jurasse que os seus filhos viveriam e prosperariam
independentemente de Roma. No caso de o Senhor de Roma se recusar a jurar, ela
envenenar-se-ia de uma forma tão pública e chocante que o ódio do acto
destruiria para sempre a sua imagem
política.
- Vou ficar aqui - disse a Charmian e a Iras. - Ponham um punhal em cima da
mesa, outro junto ao tubo de comunicação e vão ter imediatamente com
Hapd'efan'e. Digam-lhe que quero um frasco de aconitas pura. Octaviano nunca
porá as mãos numa Cleópatra viva.
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Uma ordem que Charmian e Iras compreenderam mal, pensando que a sua senhora
tencionava morrer - oh, a dor! - quase imediatamente. Portanto um Apolodoro
chocado também interpretou mal as intenções de Cleópatra quando as duas
mulheres entraram no palácio em lágrimas.
- Onde está a rainha?
- No seu túmulo - soluçou Iras apressando-se a ir ter com Hapd'efan'e.
- Ela vai morrer antes de Octaviano chegar a Alexandria! - conseguiu Charmian
dizer por entre os soluços.
- Mas... António! - disse Apolodoro, devastado.
- António tenciona morrer amanhã na batalha.
- A Filha de Rá já estará morta nessa altura?
- Não sei! Talvez, provavelmente... não sei! - Charmian saiu apressadamente
para ir levar alimentos frescos à sua senhora, no túmulo.
Passada uma hora já toda a gente do palácio sabia que a Faraó estava prestes a
morrer; a sua aparição na sala de jantar espantou Cha'em, Apolodoro e
Sosígenes.
- Majestade, já soubemos - disse Sosígenes.
- Não tenciono morrer hoje - disse Cleópatra divertida.
- Por favor, Majestade, pensai melhor! - implorou Cha'em.
- Então, não tiveste visões da minha morte, Filho de Ptah? Descansa! Não há
nada a temer na morte. Ninguém sabe disso melhor do que tu.
- E o senhor António? Ireis dizer-lhe?
- Não, não lho direi, cavalheiros. Ele continua a ser romano, não compreenderá.
Quero que a nossa última noite juntos seja perfeita.
A meio dessa última noite que António e Cleópatra passaram juntos nos braços um
do outro, serenos, submersos em amor, com os sentidos insuportavelmente
despertos, os deuses desertaram de Alexandria. Anunciaram a sua partida com um
estremecimento ligeiro, um suspiro e um gemido imenso que foi esmorecendo como
um trovão a dissipar-se à distância.
- Serápio e os deuses alexandrinos são como nós, meu querido António -murmurou
ela contra a garganta dele.
- Foi apenas um tremor - disse ele com as palavras entarameladas, meio a
dormir.
- Não, os deuses recusam-se a permanecer numa Alexandria romana.
Depois ele adormeceu, mas Cleópatra não conseguiu. O quarto estava tenuemente
iluminado com candeeiros e ela pôde erguer-se sobre um cotovelo e ficar a olhar
para ele, a absorver a visão daquele rosto amado, dos caracóis quase prateados
que formavam um belo contraste com a pele bronzeada, a saliência dos ossos,
mais evidentes devido à perda de peso. Oh, António, o que eu te fui fazer! E
não foi nada de bom, nem de bondoso nem de compreensivo!
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Esta noite foi tão pacífica que estou envolta no teu perdão... nunca viraste
contra mim os meus actos. Costumava pensar porque seria que isso acontecia, mas
apercebo-me agora de que o teu amor por mim era suficientemente grande para
perdoar o que quer que fosse, tudo. E só o que posso fazer para te retribuir é
transformar a eternidade da morte em algo que transcenda as sensações humanas,
num idílio dourado no reino de Ámon-Rá.
Mas depois deve ter dormitado, porque só deu por ele se levantar, uma silhueta
escura recortada contra a palidez perlada da madrugada. Viu o criado ajudá-lo a
vestir a couraça: a túnica escarlate almofadada por cima da tanga escarlate, o
corpete de cabedal escarlate, o contorno simples da couraça de aço, o saiote e
as mangas de cabedal vermelho, as botas curtas bem apertadas com as palas,
gravadas com leões de aço, dobradas por cima dos atacadores. Dirigindo-lhe um
grande sorriso, ele pôs o capacete debaixo do braço e ajeitou o paludamentum
escarlate para que lhe libertasse os ombros.
- Anda, mulher - disse. - Vem despedir-te de mim.
Ela enfiou o seu melhor lenço aspergido com o perfume que usava dentro da cava
da couraça e acompanhou-o até ao ar livre, fresco e vibrante com o canto dos
pássaros.
Canídio, Cina, Décimo Turúlio e Cássio Parmesão aguardavam; António subiu para
cima de um banco para conseguir montar o cavalo e bateu com os calcanhares nas
costelas do seu cavalo público malhado, saindo a galope para percorrer os oito
quilómetros até ao hipódromo. Era o último dia de Julius.
Assim que deixou de o ver ela foi para o seu túmulo na companhia de Charmian e
de Iras. Unindo esforços, as três conseguiram pôr no lugar as trancas no
interior das portas duplas, fazendo com que estas só pudessem ser abertas com o
famoso aríete de vinte e cinco metros de António. Havia alimentos frescos em
abundância, descobriu Cleópatra, assim como cestos com figos, azeitonas,
tâmaras e pequenos pães cozidos de uma maneira especial que fazia com que
conservassem a mesma consistência durante muitos dias. Não que ela esperasse
ficar ali muitos dias.
O pior iria ser aquela noite, quando o corpo de António lhe fosse devolvido;
ele iria directamente para a sua sala do sarcófago, onde se submeteria em
silêncio aos talentos horrendos dos sacerdotes embalsamadores. Mas primeiro
teria que ver
o seu rosto morto.
- Oh, Amon-Rá e todos os deuses, que ele possa parecer em paz, sem sofrimento!
Que a sua vida possa ter terminado rapidamente!
- Ainda bem - disse Charmian a tremer - que aquela abertura deixa entrar muito
ar. Oh, isto é tão lúgubre!
- Acende mais luzes, pateta! - foi a resposta da pragmática Iras.
António e os seus generais cavalgaram na direcção de Canopo, sorrindo com
satisfação perante a expectativa da batalha.
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Quando viu o corpo magnífico rasgado por um golpe fino e comprido logo abaixo
das costelas, Cleópatra teve que cerrar os dentes para calar o grito de
protesto, o primeiro assomo de dor. Ele ia morrer - bem, ela já o esperara. Mas
não a realidade. A dor nos olhos dele, o espasmo de agonia que o fez dobrar-se
subitamente em dois quando os sacerdotes se esforçavam por ligá-lo. A mão dele
esmagou-lhe os dedos, desfazendo-lhe os ossos, mas ela sabia que tocar-lhe lhe
dava forças e suportou o sofrimento.
Quando ficou tão confortável quanto possível, ela puxou uma cadeira para junto
da cama e ficou ali sentada a falar com ele numa voz doce e suave e os olhos
dele, brilhantes de prazer, nunca se desviaram do seu rosto. Minuto após
minuto, hora após hora, ajudando-o a atravessar o rio, como ele dizia,
continuando romano no seu mais íntimo.
- Iremos mesmo caminhar juntos no Reino dos Mortos?
- Muito em breve, meu amor.
- Como te irei encontrar?
- Eu encontrar-te-ei. Senta-te apenas num local belo e espera.
- Um destino mais agradável do que o sono eterno.
- Oh, sim. Ficaremos juntos.
- César também é um deus. Vou ter que te partilhar?
- Não, César pertence aos deuses romanos. Não vai estar lá.
Passou-se muito tempo antes de ele conseguir reunir a coragem necessária para
lhe contar o que se passara no hipódromo.
- As minhas tropas desertaram, Cleópatra. Até ao último homem.
- Então não houve batalha.
- Não. Caí sobre a espada.
- Uma alternativa melhor do que Octaviano.
- Foi o que eu pensei. Oh, mas é fatigante! Lento, demasiado lento.
- Estará terminado em breve, meu amor adorado. Já te disse que te amo? Disse-te
o quanto te amo?
- Sim e finalmente acredito em ti.
A transição da vida para a morte, quando chegou, foi tão subtil que ela não se
apercebeu do que acontecera até que, ao olhá-lo de perto nos olhos, viu as
pupilas muito dilatadas e cobertas por uma fina névoa dourada. O que quer que
fosse Marco António tinha partido; ela tinha nos braços um invólucro vazio, a
parte de si que ele abandonara.
Um grito rasgou o ar: o grito dela. Uivou como um animal, arrancou os cabelos
às mãos-cheias, rasgou o vestido com as unhas até ficar com o peito desnudo e
arranhou os seios com as unhas, uivando e gritando, mutilando-se enlouquecida.
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Quando pareceu a Charmian e a Iras que havia o perigo de ela se magoar com
seriedade, chamaram os sacerdotes embalsamadores que enfiaram xarope de
papoilas à força pela garganta de Cleópatra abaixo. Só depois de ela ter caído
num estupor drogado é que os sacerdotes conseguiram remover o corpo de Marco
António para a sua sala do sarcófago para iniciarem o processo de
embalsamamento.
A escuridão descera; António levara onze horas para morrer, mas no fim fora o
velho António, o grande António. Na morte encontrara-se finalmente a si
próprio.
Cesarião continuou a descer tranquilamente a estrada para Mênfis, apesar de os
seus dois criados, ambos macedónios idosos, o incitarem a dirigir-se para
Schedia e aí apanhar um barco para o Nilo Pelusíaco. Tal evitaria o risco de um
encontro com o exército de Octaviano, diziam; era também o caminho mais curto
para o Nilo.
- Que disparate, Praxis! - riu-se o rapaz. - O caminho mais curto para o Nilo
é a estrada de Mênfis.
- Só quando nesta não há um exército romano, Filho de Rá.
- E não me chames isso! Sou Paramanedes de Alexandria, um banqueiro subalterno
que vai inspeccionar o Banco Real em Coptus.
Uma pena a mamã ter insistido que eu trouxesse dois cães de guarda, pensou
Cesarião, apesar de no fim eles não poderem fazer nenhuma diferença. Sabia
exactamente para onde ia e o que ia fazer. Não iria deixar a mamã naquela
aflição, isso era evidente - que filho seria ele se fizesse tal coisa? Em
tempos tinham estado ligados por um cordão através do qual o sangue dela
passara para as suas veias, enquanto ele estava envolto no líquido quente e
macio que o corpo dela criara para ele. E, mesmo depois de esse cordão ter sido
cortado, persistia um outro, invisível, capaz de se esticar em volta do mundo
inteiro e que continuava a ligá-los. Era evidente que ela estava a pensar na
sua segurança quando o enviara para um local do globo, de tal forma longínquo,
que não compreendia nem os seus costumes nem a sua língua. Mas ele pensara nela
quando partira com a intenção de se dirigir para um local totalmente diferente.
Na encruzilhada onde a maior parte do tráfego seguia para a estrada de Schedia,
despediu-se alegremente dos viajantes que o acompanhavam mais de perto, virou
abruptamente o camelo e partiu a galope pela estrada de Mênfis.
-Vamos! Vamos! - incitou o animal com as pernas firmemente apertadas à parte da
frente da sela para evitar cair; a posição era pouco habitual, ambas as pernas
para o mesmo lado e apontadas para a frente, o que implicava um movimento
balançado semelhante ao de um navio sobre uma forte ondulação. - Temos que o
apanhar - disse Praxis suspirando.
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Tal como todos os seus legados, vinha a pé e vestia uma túnica castanha vulgar
e bastante usada. O cabelo loiro denunciá-lo-ia, mesmo que o estandarte
escarlate não o identificasse. Tão... pequeno! Não media mais do que um metro e
sessenta e sete, pensou Cesarião espantado. Magro, bronzeado, com um rosto belo
mas não efeminado, as mãos pequenas e feias movendo-se ao ritmo da canção
(polida) que os soldados cantavam na sua frente.
- César Octaviano! - gritou tirando o capuz. - César Octaviano, vim negociar!
Octaviano ficou imóvel, o que fez com que a metade do exército que vinha
atrás de si se detivesse repentinamente e que os que iam na frente
continuassem, até um legado subalterno montar a cavalo e dirigir-se à linha da
frente.
Por um momento louco e alucinado, Octaviano pensou genuinamente que estava a
olhar para Divus Julius, como este deveria ser se fosse agraciado com uma
materialização grega. Depois os seus olhos deslumbrados viram a lã bege do
disfarce, a juventude das feições de Divus Julius e percebeu que aquele era
Cesariâo. O filho de Cleópatra e do seu divino pai. Ptolomeu XV Caesar do
Egipto.
Aproximavam-se a toda a velocidade dois homens mais velhos em camelos;
subitamente Octaviano virou-se para Estatílio Tauro.
- Captura-os... e põe o capuz ao rapaz, Tauro! Imediatamente!
Enquanto o exército tirava os fardos dos ombros e das costas há muito
habituados ao peso e eram enviadas expedições ao lago Mareotis ali próximo em
busca de água, a tenda de comando de Octaviano foi apressadamente montada. Não
tinha qualquer possibilidade de excluir os seus marechais da entrevista que se
seguiria, pelo menos no seu início; Messala Corvino e Estatílio Tauro tinham
ambos visto a cabeça dourada e nua, a aparição do fantasma de Divus Julius?
- Leva os outros dois e mata-os imediatamente - disse a Tauro -, depois vem ter
comigo. Não deixes ninguém falar com eles antes de morrerem, portanto fica para
testemunhar a execução, entendido?
Havia três homens que acompanhavam Octaviano por preferência e não devido às
suas competências militares, pois não tinham quaisquer qualificações nessa
área. Um deles era um nobre e os outros dois dos seus próprios libertos. Gaio
Proculeio era o meio-irmão do cunhado de Mecenas, Varrão Murena, um homem
famoso pela sua erudição e personalidade agradável. Gaio Júlio Tirso e Gaio
Júlio Epafrodito tinham sido escravos de Octaviano e tinham-no servido tão bem
que, quando da sua emancipação, ele não os admitira apenas ao seu serviço
tornando-os também seus confidentes. Para alguém como Octaviano, o convívio
exclusivo com militares do tipo dos seus principais legados, durante meses
infindáveis, tê-lo-ia levado à loucura. Era essa a razão da presença de
Proculeio, de Tirso e de Epafrodito. Como todos os marechais de Octaviano, de
Sabino até Calvino, sabiam que o chefe era um excêntrico, ninguém achava
ofensivo ou se sentia diminuído pelo facto de Octaviano preferir jantar sozinho
durante as campanhas: ou seja, com Proculeio, Tirso e Epafrodito.
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O choque que Octaviano sofrera levou algum tempo a desvanecer-se, por muitas
razões, a primeira e mais importante das quais o facto de ter localizado o
Tesouro dos Ptolomeus seguindo fielmente as instruções do seu divino pai. Um
exercício levado a cabo na companhia dos seus dois libertos; nenhum nobre
romano iria alguma vez pôr os olhos no que estava guardado em centenas de
pequenas salas, de ambos os lados de uma teia de túneis, que se iniciavam no
templo de Ptah e a que se acedia pressionando uma determinada carteia e
descendo para as profundezas mergulhadas nas trevas. Depois de ter vagueado
durante horas como um escravo admitido nos Campos Elísios, reunira as suas
"mulas" - homens egípcios mantidos de olhos vendados até estarem bem no
interior dos túneis e depois utilizados para retirar do local tudo aquilo que
Octaviano achava necessário para pôr Roma novamente de pé: ouro,
principalmente, juntamente com blocos de lápis-lazúli, cristal em rocha e
alabastro, para que os escultores tivessem matéria-prima com que esculpir
maravilhosas obras de arte para adornar os templos e locais públicos romanos.
De regresso à luz do sol, os soldados da sua própria coorte mataram os egípcios
e encarregaram-se do comboio de transporte que já ia a caminho de Pelúsio e de
casa. Os soldados podiam adivinhar o conteúdo das caixas devido ao peso destas,
mas nenhum deles as abriria, pois estavam seladas com a esfinge.
O fardo que saíra dos ombros de Octaviano ao ver riquezas maiores do que alguma
vez sonhara existir, tinha-o deixado exultante, tão livre e descontraído que os
seus legados não conseguiam perceber o que haveria em Mênfis capaz de produzir
aquela transformação. Cantava, assobiava, quase saltava de alegria quando o
exército iniciou a marcha estrada acima em direcção à toca da Rainha das
Bestas, Alexandria. Evidentemente que, com o tempo, acabariam por perceber o
que devia ter acontecido em Mênfis, mas por essa altura já eles - e todo o ouro
- estariam de regresso a Roma, e não teriam a menor oportunidade de enfiar
qualquer coisinha nos sinus das respectivas togas.
Por isso, quando Cesarião o deteve a menos de vinte e cinco quilómetros do
hipódromo e dos subúrbios de Alexandria, ainda não tinha tomado decisões
definitivas sobre a estratégia a adoptar. O ouro ia a caminho de Roma, sim, mas
o que iria ele fazer com o Egipto e a sua família real? E com Marco António?
Qual seria a melhor protecção para o Tesouro dos Ptolomeus? Quantos conheceriam
a forma de lhe aceder? A quais dos seus potenciais aliados teria Cleópatra
revelado o segredo, do rei dos Partos a Artavasdes da Arménia? Oh, maldito
fosse o rapaz e a sua aparição extemporânea e inesperada! À vista de todo o seu
exército!
Quando Estatílio Tauro regressou, Octaviano fez um breve aceno de cabeça. -
Trá-lo cá, Tício. Tu próprio.
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Ele entrou com a cabeça ainda coberta mas despiu rapidamente o manto, revelando
uma vulgar túnica de montar de cabedal vermelho. Tão alto! Ainda mais alto do
que fora Divus Julius. Os marechais de Octaviano ficaram todos sem respiração,
atordoados.
- Que estás aqui a fazer, rei Ptolomeu? - perguntou Octaviano sentado na
cadeira curul de marfim onde se instalara. Não haveria apertos de mão nem boas-
vindas cordiais. Nada de hipocrisias.
- Vim para negociar.
- Foi a tua mãe que te mandou?
O jovem riu-se, revelando mais outra das suas semelhanças com Divus Julius.
- Não, evidentemente que não! Ela pensa que eu já vou longe a caminho de
Berenice de onde deveria embarcar para a índia.
- Terias feito melhor em obedecer-lhe.
- Não, não a posso deixar... não a deixaria para te enfrentar sozinha.
- Ela tem o Marco António.
- Se percebi bem as suas intenções ele estará morto.
Octaviano espreguiçou-se e bocejou até ficar com os olhos marejados de
lágrimas.
- Muito bem, rei Ptolomeu, negociarei contigo. Mas não com tantos ouvidos à
escuta. Senhores legados, estais dispensados. Recordem o juramento que fizeram
à minha pessoa. Não quero que nada disto chegue a mais nenhum homem nem deverão
discutir hoje o assunto entre vós. Entendido?
Estatílio Tauro assentiu; ele e os outros legados saíram.
- Senta-te, Cesarião.
Proculeio, Tirso e Epafrodito alinharam-se junto às paredes da tenda fora das
vistas dos dois participantes naquele drama, quase não respirando de terror.
Cesarião sentou-se, os olhos azul-esverdeados a única feição que não pertencia
a Divus Julius.
- O que pensas conseguir que Cleópatra não consiga?
- Uma atmosfera tranquila, para começar. Tu não me odeias... como poderias
odiar-me se nunca nos encontrámos? Quero trazer uma paz que seja tão benéfica
para ti como para o Egipto.
- Expõe as tuas propostas.
- Que a minha mãe se retire para viver em Mênfis ou em Tebas. Que os filhos que
teve com Marco António a acompanhem. Que eu reine em Alexandria como rei e no
Egipto como faraó. Fazendo parte da clientela de Gaio Júlio César Divi Filius
como o mais leal e fiel dos seus reis-clientes. Dar-te-ei todo o ouro que me
pedires assim como o cereal necessário para alimentar as multidões italianas.
- Porque haverias de reinar com mais sensatez do que a tua mãe?
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Durante catorze anos! Comecei quando tinha dezoito anos e fui adoptado como
filho romano pelo meu divino pai. Recebi a minha herança e agarrei-me a ela,
apesar de muitos homens se terem oposto a mim, incluindo Marco António. Tenho
agora trinta e dois anos e, depois de tu estares morto, estarei finalmente a
salvo. Não tive uma juventude como a tua. Era doente e fraco. Os homens faziam
pouco da minha coragem. Esforcei-me por me parecer com Divus Julius: pratiquei
o seu sorriso, usei botas com salto para parecer mais alto, copiei os seus
discursos e estilo retórico. Até que, finalmente, a imagem terrena de Divus
Julius se esbateu na memória dos homens e começaram a pensar que ele devia ter
sido parecido comigo. Estás a começar a entender, Cesarião?
- Não. Lamento as tuas atribulações, primo, mas não consigo perceber o que a
minha aparência tem a ver com tudo isso.
- A aparência é o ponto fulcral sobre o qual girou toda a minha carreira
política. Tu não és romano e não foste educado como romano. És um estrangeiro.
- Octaviano inclinou-se para a frente com os olhos a brilhar. - Deixa-me dizer-
te por que razão os Romanos, que são um povo pragmático e sensato, deificaram
Gaio Júlio César. Um acto muito pouco romano. Eles amavam-no! Tem-se dito de
muitos generais que os seus soldados estariam prontos a morrer por eles, mas só
de Gaio Júlio César é que se disse que todo o povo de Itália e de Roma morreria
por ele. Quando ele atravessava o Fórum romano, as ruelas e os bairros pobres
de Roma ou de qualquer outra cidade italiana, tratava todos quantos encontrava
como seus iguais: dizia piadas, escutava os relatos das suas pequenas
desgraças, tentava ajudar. Nascido e criado no bairro degradado da Subura,
movia-se por entre os membros do Conto de Cabeças como se fosse um deles:
falava o calão deles, dormia com as suas mulheres, beijava-lhes os filhos
malcheirosos quando as suas histórias o comoviam, como acontecia
frequentemente. E quando aqueles preconceituosos pedantes e amantes do dinheiro
o assassinaram, o povo de Roma e de Itália não suportou perdê-lo. Foram eles
que fizeram dele um deus, não foi o Senado! Na realidade o Senado, liderado
pelo Marco António!, tentou tudo o que pôde para reprimir o culto de César. Sem
sucesso. Tinha legiões de clientes, que eu herdei juntamente
com a sua fortuna.
Levantou-se e deu a volta à secretária para ficar em frente do rapaz de ar
atormentado e olhou de cima para baixo.
- Se as pessoas de Roma e de Itália te puserem a vista em cima, Ptolomeu César,
esquecerão tudo o resto. Acolher-te-ão nos seus peitos e corações num frenesim
de alegria... e eu? Serei esquecido de um dia para o outro. O trabalho de
catorze anos será esquecido. Os lambe-botas do Senado adular-te-ão e farão de
ti cidadão romano e, provavelmente, dar-te-ão um consulado no dia a seguir.
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Reinarás não apenas no Egipto e no Oriente, mas em Roma, sem dúvida da forma
que preferires, de dictator perpetuus a rex. O próprio Divus Julius começou a
amolecer a nossa mos maiorum e depois nós, os três triúnviros, continuámos a
desgastá-la e agora, que retirei a António qualquer esperança de me fazer
frente, sou o Senhor indisputado de Roma. Isso, evidentemente, desde que nem
Roma nem a Itália te vejam. Tenho plena intenção de governar Roma e as suas
possessões como um autocrata, jovem Ptolomeu César. Pois Roma está, finalmente,
na condição adequada para aceitar o governo autocrático. Se as pessoas te
vissem em Roma aceitar-te-iam. Mas tu governarias como a tua mamã te treinou...
como um rei, sentado no Capitólio em julgamento, Minos junto aos portões do
Hades. Tu não vês nisso nada de errado, apesar de todos os teus programas de
reformas liberais em Alexandria e no Egipto. Já o meu governo será invisível.
Não usarei nenhum diadema ou tiara para proclamar o meu estatuto nem permitirei
à minha querida esposa que seja rainha. Continuaremos a residir na nossa casa
actual e deixaremos que Roma pense que é governada democraticamente. É por isso
que tens que morrer. Para que Roma continue romana.
As emoções tinham passado pelo rosto de Cesarião uma após outra: espanto,
desgosto, cisma, raiva, tristeza, compreensão. Mas não tinha havido nem
confusão nem atordoamento.
- Compreendo - disse lentamente. - Compreendo e não te posso culpar.
- Bem, tu és o filho verdadeiro do divino César e, por tudo quanto tenho ouvido
dizer, herdaste o seu brilhantismo. Lamento não poder vir a descobrir se também
terás herdado o seu génio militar, mas tenho alguns bons marechais e não receio
o rei dos Partos com quem tenciono negociar e não guerrear. Um dos pilares do
meu governo será a paz. A guerra é, por inerência, uma das actividades humanas
que gera maior desperdício, de vidas e de dinheiro, e não permitirei que as
legiões romanas ditem a forma de Roma ou quem a governa.
Ele agora falava, pressentiu Cesarião, para adiar a execução de uma execução.
Oh, mamã! Porque não confiaste em mim? Não sabias aquilo que o filho
genuinamente romano de César acabou de me dizer? António certamente que sabia,
mas António era uma marioneta nas tuas mãos. Não porque o tenhas drogado nem
por ele, por vezes, se embebedar, mas porque te amava. Deverias ter-me dito.
Mas, por outro lado, és capaz de não ter percebido e António podia andar
demasiado ocupado a provar ser digno do teu amor para dar importância ao meu
problema...
Cesarião fechou os olhos e obrigou-se a pensar, a aplicar o seu formidável
intelecto na resolução do seu dilema. Haveria nem que fosse a mais remota
hipótese de fuga? Sentindo o ventre vazio de esperança suspirou. Não, não havia
possibilidade de fuga.
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O máximo que poderia fazer era tornar a sua morte difícil para Octaviano, sair
da tenda aos gritos, dizendo ser o filho de César... não era para admirar que
Tauro tivesse ficado a olhar para ele embasbacado! Mas seria isso que o seu pai
romano teria desejado do seu filho não romano? Ou exigir-lhe-ia César o
sacrifício máximo? Conhecia a resposta e suspirou de novo. Octaviano era o
verdadeiro filho de César, de acordo com a vontade e testamento do próprio
César; nele não fizera qualquer menção ao seu outro filho, no Egipto. E no
final de contas, o que César prezara acima de tudo na vida fora a dignitas.
Dignitas! A mais romana de todas as qualidades, a quota pessoal de um homem em
sucessos, actos e força. Mesmo nos seus últimos momentos César mantivera
intacta a sua dignitas; em vez de continuar a lutar, usara a pequeníssima
fracção de tempo que lhe restava para puxar uma dobra da toga sobre o rosto e
outra sobre os joelhos. Para que Bruto, Cássio e os restantes não
testemunhassem a expressão do seu rosto moribundo nem vislumbrassem os seus
genitais.
Sim, pensou Cesarião, também eu preservarei a minha dignitas! Morrerei senhor
de mim próprio, com o rosto e os genitais cobertos. Serei digno do meu pai.
- Quando morrerei? - perguntou numa voz calma.
- Agora, dentro desta tenda. Terei que ser eu próprio a fazê-lo, pois não
confio em mais ninguém neste caso. Se a minha falta de perícia tornar a tua
morte mais
dolorosa, desde já o lamento.
- O meu pai disse, "Que seja rápida". Desde que tenhas isso em mente, César
Octaviano, dar-me-ei por satisfeito.
- Não te posso decapitar. - Octaviano estava muito pálido, as narinas a tremer
enquanto tentava controlar a boca. Conseguiu um sorriso retorcido. - Não tenho
força física para isso nem a coragem necessária. E também não quero ver a tua
cara. Tirso, passa-me esse pano e essa corda.
- Como farás, então? - perguntou Cesarião levantando-se.
- Espetarei uma espada por baixo das tuas costelas direita ao coração. Não
tentes fugir, isso não alterará o teu destino.
- Sei disso. Mais público mas muito menos limpo. Ainda assim fugirei se não
aceitares as minhas condições. - Diz.
- Serás bondoso para com a minha mãe.
- Sê-lo-ei.
- E os meus irmãozinhos e a minha irmã?
- Não lhes tocarei num só cabelo.
- Tenho o teu juramento?
- Tens.
- Então estou pronto.
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Octaviano passou o pano por cima da cabeça de Cesarião e atou a corda para que
o capuz improvisado se mantivesse no lugar. Tirso passou-lhe a espada;
Octaviano testou a lâmina e viu que esta estava afiadíssima. Depois olhou para
o chão de terra da tenda e franziu o sobrolho e fez sinal a Epafrodito que
estava branco como um lençol.
- Dá-me uma mão, Dito. Octaviano pegou no braço de Cesarião.
-Anda connosco - disse e olhou para o pano branco. - Como és corajoso! A tua
respiração é curta e regular.
Uma voz, que poderia ter pertencido a Marco António, saiu debaixo do capuz.
- Pára de tagarelar e despacha-te com isso, Octaviano! A quatro passos de
distância estava um tapete persa de um vermelho brilhante;
Epafrodito e Octaviano levaram Cesarião para cima do tapete e depois não podia
haver mais adiamentos. Despacha-te, Octaviano, despacha-te! Posicionou a espada
e enfiou-a de baixo para cima com mais força do que pensara possuir; Cesarião
soltou um suspiro e caiu de joelhos, seguido por Octaviano, as mãos ainda
apertadas em torno da águia de marfim, pois não conseguia abrir os dedos.
- Ele está morto? - perguntou virando a cabeça para olhar para cima. - Não,
não! Façam o que fizerem, não lhe descubram o rosto!
- A artéria do pescoço não tem pulsação, César - disse Tirso.
- Então fiz a coisa bem feita. Enrolem-no na carpete.
- Larga a espada, César.
Um choque percorreu-o; relaxou os dedos e largou finalmente a águia.
- Ajudem-me a levantar.
Tirso enrolara o corpo na carpete, mas este era tão comprido que os pés ficavam
de fora. Pés grandes como os de César.
Octaviano caiu sobre a cadeira mais próxima e ficou sentado com a cabeça entre
os joelhos, a arfar.
- Oh, eu não queria ter feito isto!
- Tinha que ser feito - disse Proculeio. - E agora?
- Manda buscar seis não-combatentes com pás. Podemos enterrá-lo aqui mesmo.
- Dentro da tenda? - perguntou Tirso com uma expressão enjoada.
- Porque não? Mexe-te, Dito! Não quero ter que passar aqui a noite e não posso
dar ordens de marcha até o rapaz estar convenientemente enterrado. Ele tem
algum anel?
Tirso procurou dentro do tapete e retirou um anel.
Agarrando-o com uma das mãos - óptimo, óptimo, não estava a tremer -Octaviano
ficou a olhar para o anel. Aquilo a que os Egípcios chamavam Uraeus estava
gravado no anel, uma cobra de capelo de cabeça erguida. A pedra era uma
esmeralda e em torno das bordas estava escrito qualquer coisa com hieróglifos.
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Um pássaro, um olho com uma lágrima, umas linhas onduladas, outro pássaro. Bem,
serviria. Se tivesse que o mostrar como prova da sorte de Cesarião, serviria.
Enfiou-o na bolsa.
Uma hora depois as legiões e a cavalaria estavam de novo em marcha, embora não
tivessem avançado muito pela estrada de Alexandria; Octaviano decidira acampar
durante alguns dias e permitir a Cleópatra que pensasse que o filho escapara e
que ia a caminho da índia. Atrás deles, no local onde a tenda estivera montada
durante algum tempo, ficara uma área de terra alisada e cuidadosamente batida;
por baixo da terra, a uma profundidade de seis cúbitos, jazia o corpo de
Ptolomeu XV Caesar, Faraó do Egipto e Rei de Alexandria, embrulhado numa
carpete ensopada com o seu próprio sangue.
Cá se fazem cá se pagam, pensou Octaviano dentro da mesma tenda montada sobre
outro solo, nada perturbado pela vitória que António obtivera sobre a sua
guarda avançada. Aquela Mulher já é uma lenda e, parte dessa lenda, é ter sido
dissimulada dentro de um tapete para conseguir falar com César. De acordo com
César, era um tapete barato de junco, mas os historiadores já o estavam a
transformar numa belíssima carpete. Agora todos os seus desejos e esperanças
acabaram--se também dentro de uma carpete. E eu posso descontrair-me
finalmente. A maior ameaça que pairava sobre mim desapareceu para sempre. Ele
morreu bem, no entanto, tenho que lhe reconhecer isso.
Depois daquele fiasco do último dia de Julius, em que o exército de António se
rendera, Octaviano decidira não entrar em Alexandria como um conquistador à
cabeça dos muitos quilómetros de legiões e do seu enorme corpo de cavalaria.
Não, entraria discretamente na cidade de Cleópatra, sem causar alarde. Apenas
ele próprio, Proculeio, Tirso e Epafrodito - com a sua guarda pessoal de
germanos, evidentemente. Não valia a pena arriscar-se ao punhal de um assassino
só por causa do anonimato.
Deixou os seus legados mais importantes no hipódromo entregues à tarefa de
tentar recensear as tropas de António e estabelecer alguma ordem num caos
considerável. Contudo, reparou, a população de Alexandria não tentava sequer
fugir. Tal significava que estavam resignados com a presença de Roma e que
estariam presentes quando os seus arautos anunciassem o destino do Egipto.
Recebera notícias de Cornélio Galo, que estava apenas a alguns quilómetros para
ocidente, e enviara-lhe instruções para que as suas frotas passassem ao largo
dos dois portos de Alexandria e ancorassem junto às estradas que levavam ao
hipódromo.
- Que belo! - disse Epafrodito quando os quatro se aproximaram da Porta do Sol
pouco depois da madrugada nas Calendas, o primeiro dia de Sextilis.
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É na verdade muito raro uma mulher conseguir ultrapassar o amor maternal. Mesmo
Cleópatra, que deve ter assassinado centenas de pessoas, incluindo uma irmã e
um irmão, pode ser controlada através de uma simples ameaça contra os seus
filhos. Um rei dos reis é capaz de matar os seus filhos, mas uma rainha dos
reis não.
- Qual é o teu objectivo, César? Porque não a deixas pôr fim à existência?
-perguntou Galo com uma parte do espírito ocupado a compor uma ode. A não ser
que seja só para a teres a desfilar no teu triunfo? - ..
- A última prisioneira que eu quero no meu triunfo é Cleópatra! Não estão a
imaginar as nossas avozinhas e mamãs sentimentais, ao longo do percurso da
parada, a olhar para aquela pobre mulher escanzelada e patética? Ela, uma
ameaça para Roma? Ela, uma bruxa, uma sedutora, uma prostituta? Meu caro Galo,
chorariam por ela, não a odiariam. Chorariam baldes de lágrimas, rios de
lágrimas, oceanos de lágrimas. Não, ela morre aqui em Alexandria.
- Então porque não já? - perguntou Proculeio.
- Porque primeiro, Galo, tenho que a quebrar. Tem que ser submetida a uma nova
forma de guerra... a guerra de nervos. Tenho que manipular a sua sensibilidade,
atormentá-la, mantê-la no fio da espada.
- Continuo a não perceber - disse Proculeio de cenho franzido.
- Tem tudo a ver com a forma da sua morte. Seja como for que esta aconteça,
terá que ser vista pelo mundo inteiro como uma escolha sua e não um assassínio
instigado por mim. Tenho que emergir de tudo isto imaculado, o nobre romano que
a tratou bem, que lhe deu toda a liberdade no interior do palácio e que nunca a
ameaçou de morte. Se ela se envenenar eu serei acusado. Se usar uma faca, serei
acusado. Se se enforcar, serei acusado. A sua morte deverá ser de tal forma
egípcia que ninguém suspeite de que tive nela algum papel.
- Tu não a viste - disse Galo pegando num pombo envolto em especiarias
saborosas e estranhas.
- Não, nem tenciono vê-la. Ainda. Primeiro tenho que a quebrar.
- Gosto deste país - disse Galo com a língua a arder devido à mistura perversa
dos sabores das especiarias na pele estaladiça do pombo.
- Isso são excelentes notícias, Galo, porque vou deixar-te aqui para que o
governes em meu nome.
- César! Podes fazê-lo? - perguntou o poeta muito satisfeito. - Não será uma
província sob a alçada do Senado e do Povo?
- Não, não podemos deixar que tal aconteça. Não quero que enviem para aqui um
procônsul ou um propretor vigarista e abençoado pelo Senado - disse Octaviano
mastigando aquilo que pensava ser o equivalente egípcio do aipo. - O Egipto
pertencer-me-á a mim pessoalmente, tal como Agripa é virtualmente proprietário
da Sicília hoje em dia. Uma pequena recompensa pela minha vitória no Oriente.
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- É melhor mantê-lo nesta parte do mundo, a uma distância segura de Roma -disse
ela com a sua voz mais melodiosa. - O pai dele sempre insistiu que o seu futuro
estava no Egipto... fui eu quem se encarregou de lhe alargar os horizontes, não
percebendo que ele não tinha qualquer desejo de ter um império. Ele nunca será
um perigo para ti, Octaviano... ficará satisfeito por governar o Egipto como
teu rei--cliente. A melhor forma que tens de salvaguardar os teus interesses no
Egipto é instalá-lo em ambos os tronos e proibir aos Romanos a entrada no país.
Ele certificar-se-á de que recebas tudo o que quiseres: ouro, cereais,
tributos, papel, linho. - Suspirou e esticou-se um pouco, consciente do seu
sofrimento. - Ninguém em Roma precisará sequer de saber que Cesarião existe.
Os olhos dele desviaram-se do busto para o rosto dela.
Oh, esquecera-me de quão belos são os seus olhos!, pensou ela. Tão cinzentos
como prateados, tão luminosos e debruados por pestanas espessas, longas e
cristalinas. Porque seria, então, que nunca deixavam transparecer os seus
pensamentos? Tal como o seu rosto. Um rosto adorável, que faz lembrar César mas
sem ser anguloso, os ossos da sua estrutura mais dissimulados. E, ao contrário
de César, vai conservar a cabeleira dourada.
- Cesarião está morto. - Repetiu: - Cesarião está morto.
Ela não respondeu. Os seus olhos procuraram os dele e fixaram-nos, imóveis como
um lago de águas estagnadas e ficando de um castanho-esverdeado; a cor
desapareceu do seu rosto, desde a raiz dos cabelos até ao pescoço,
instantaneamente, deixando a bela pele de um branco-acinzentado.
-Veio ter comigo quando eu marchava na estrada de Mênfis para Alexandria,
montado num camelo, com dois companheiros mais idosos. Tinha a cabeça cheia de
ideias, convencido de que me conseguiria persuadir a poupar-te e ao reino
duplo. Tão jovem! Tão iludido quando à honorabilidade dos homens! Tão certo de
que conseguiria convencer-me. Disse-me que o tinhas mandado embora, que deveria
embarcar em Berenice a caminho da índia. E como eu já encontrara o Tesouro dos
Ptolomeus. Sim, senhora, César traiu-te e contou-me como o poderia encontrar
antes de morrer... não precisei de o torturar para que me revelasse a sua
localização. Não que tivesse conseguido fazê-lo falar, por mais cruel que a
tortura fosse. Era um rapaz muito corajoso, não me foi difícil percebê-lo.
Contudo não podia permitir que vivesse. Um César de cada vez chega muito bem e
sou eu esse César. Matei-o eu próprio e enterrei-o junto à estrada de Mênfis,
numa campa sem qualquer marca. - Enterrou ainda mais a faca. - O corpo ficou
enrolado num tapete. - Depois procurou na bolsa que trazia presa no cinto e
estendeu-lhe qualquer coisa. - O anel dele. Mas não to dou. Agora é meu.
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Só consigo pensar em Cesarião, a sua cabeça dourada e macia contra o meu peito
enquanto bebia o meu leite em grandes e longos golos. Cesarião, a brincar com o
seu cavalo de Tróia de madeira - sabia o nome de todos os cinquenta guerreiros
de brincar que havia dentro da sua barriga. Cesarião, determinado a ter os seus
privilégios de Faraó. Cesarião, estendendo os braços ao pai. Cesarião, a rir
com António. Sempre e para sempre, Cesarião.
Oh, mas fico satisfeita por tudo ter terminado! Não suporto ter que caminhar
nem mais um momento neste vale de lágrimas. Os erros, os desgostos, os choques,
as lutas. A viuvez. E para quê? Um filho que não compreendi, dois homens que
não compreendi. Sim, a vida é um vale de lágrimas. Estou muitíssimo grata por
esta oportunidade de lhe pôr fim nos meus próprios termos.
O cesto de figos chegou com uma nota de Cha'em dizendo que tudo fora feito
conforme as suas ordens, que Horus a saudaria à chegada, que o próprio Ptah
fornecera o instrumento.
Ela banhou-se escrupulosamente, vestiu um vestido simples e dirigiu-se com Iras
e Charmian para o seu túmulo. Os pássaros cantavam na nova madrugada e a brisa
aromática de Alexandria soprava suavemente
Um beijo a Iras e outro a Charmian; Cleópatra tirou o vestido e ficou nua.
Ao levantar a tampa do cesto, os figos mexeram-se quando a enorme cobra-real se
mexeu no interior da sua prisão. Ali! Agora! Cleópatra agarrou a cobra com
ambas as mãos mesmo por baixo do capelo quando esta se ergueu, furiosa, de
dentro do cesto e ofereceu-lhe os seios. A cobra atacou ruidosamente, com uma
força tal que a fez cambalear e deixá-la cair. O animal deslizou imediatamente
para longe indo esconder-se num canto escuro; acabaria por encontrar uma saída
por uma das condutas.
Charmian e Iras ficaram com ela enquanto morria, um processo não muito demorado
mas agonizante. Tremores, convulsões, um coma inquieto. Tendo tratado da sua
morte, as duas mulheres mataram-se também.
Das sombras vieram os sacerdotes embalsamadores para ir buscar o corpo da Faraó
e colocá-lo sobre uma mesa nua. A faca que usaram para fazer a incisão no seu
flanco era de obsidiana; através da abertura retiraram o fígado, o estômago, os
pulmões e os intestinos. Cada um destes órgãos foi lavado, virado do avesso e
recheado com ervas esmagadas e especiarias, com excepção do incenso, que era
proibido, e depois colocado num jarro canópico entre natro e resina. O cérebro
viria mais tarde, depois de o conquistador romano fazer a sua visita.
Quando ele chegou com Proculeio e Cornélio Galo, ela estava coberta por montes
de natro excepto no peito e na cabeça; sabiam que os romanos quereriam ver como
ela morrera.
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<Página em branco>
VI
Metamorfose
29 a.C. a 27 a.C.
<Gravura - omitida>
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Não me importa nada que a Rainha das Bestas tenha este destino, mas a ideia do
António passar por aquilo incomoda-me. Foi sem dúvida um Marco António
mumificado quem estimulou o fascínio de todos quantos estávamos no Egipto.
Proculeio disse-me que Heródoto descrevia o processo no seu tratado mas como o
escreveu em grego, nunca o li: não faz parte do curriculum da escola. Deixei o
Cornélio Galo a administrar o Egipto como praefectus. Ele ficou muito
satisfeito, de tal forma que o poeta desapareceu, pelo menos temporariamente.
Só fala das expedições que vai fazer para sul, na Núbia e mais longe ainda, até
Meroé - para ocidente até ao deserto eterno. Está também convencido de que a
África é uma ilha enorme e tenciona navegar à volta dela nos navios egípcios
construídos para as viagens até à índia. Não me importo com essas frívolas
iniciativas exploratórias, pois servirão para o manter ocupado. Muito melhor
isso do que descobrir que ele andou a farejar à volta de Mênfis em busca de um
tesouro enterrado. Os assuntos do país foram devidamente tratados por uma
equipa de oficiais escolhidos por mim pessoalmente.
Esta carta vai chegar às tuas mãos juntamente com os filhos mais novos de
Cleópatra, um horrível trio de pequenos Antónios com um toque de Ptolomeus.
Precisam de uma disciplina que a Octávia não está preparada para ministrar, mas
não estou preocupado. Uns quantos meses a viverem com Iulius, Marcelo e
Tibério, amansá-los-á. Depois disso veremos. Espero poder casar a Selene com um
rei-cliente quando ela crescer, já os rapazes serão um problema mais difícil de
resolver. Quero apagar todas as recordações das suas origens, portanto deves
dizer a Octávia que, a partir de agora, Alexandre Hélios deverá chamar-se Gaio
António e Ptolomeu Filadelfo, Lúcio António. Só espero que os rapazes sejam
pouco inteligentes. Como não vou confiscar os bens do António na Itália, o
Iulius, o Gaio e o Lúcio terão um rendimento decente. Felizmente que uma parte
substancial foi vendida ou entregue e eles nunca serão imensamente ricos e,
logo, não constituirão um perigo para mim.
Só três dos marechais de António foram executados. Os outros não são ninguém,
apenas netos de grandes homens mortos há muito tempo. Perdoei-os na condição de
que me jurassem fidelidade sob uma forma ligeiramente modificada. O que não
significa que os seus nomes não passem a fazer parte da minha lista secreta.
Ser-lhes-á atribuído um agente a cada um, isso é certo. Eu sou César, mas não
sou como César.
Quanto ao teu pedido de ficares com algumas das roupas e jóias de Cleópatra,
minha querida Lívia Drusila, virá tudo para Roma mas para ser exibido no meu
triunfo. Depois disso tu e Octávia poderão escolher alguns dos objectos que eu
comprarei, garantindo assim que o Tesouro não é lesado. Não haverá mais dedos
gananciosos.
Cuida de ti. Escreverei novamente da Síria.
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De Antioquia, Octaviano foi para Damasco e daí enviou o seu embaixador ao rei
Fraates na Selêucia do Tigre. O homem, um pretendente ao trono parto chamado
Arsaces, detestava ter que voltar a enfiar a cabeça na boca do lobo, mas
Octaviano foi inflexível. Como Roma mantinha as suas legiões de uma ponta à
outra da Síria, Octaviano estava certo de que o rei dos Partos não faria
nenhuma tolice, incluindo atentar contra o embaixador do conquistador romano.
Por isso quando o Inverno se iniciou, no fim do ano em que os sonhos de
Cleópatra tinham começado a morrer, Octaviano encontrou-se com uma dúzia de
nobres partos em Damasco e forjou um novo tratado: tudo para leste do rio
Eufrates ficaria sob o domínio do Império Romano. Tropas armadas nunca
atravessariam aquela poderosa massa de águas azuis leitosas.
- Tínhamos ouvido dizer que eras sábio, César - disse o principal embaixador
dos Partos. O nosso novo pacto confirma-o.
Passeavam pelos jardins perfumados pelos quais Damasco era famosa, um par
improvável: Octaviano com uma toga debruada a púrpura; Taxiles com uma saia com
folhos e uma blusa, uma série de colares de ouro ao pescoço e um pequeno chapéu
redondo e sem aba incrustado com uma série de pérolas oceânicas em cima dos
caracóis negros, penteados em saca-rolhas.
- A sabedoria é, sobretudo, senso comum - disse Octaviano com um sorriso. -
Tive uma carreira de tal forma atribulada que teria ido várias vezes por água
abaixo se não tivesse sido por duas coisas: o meu senso comum e a minha sorte.
- Tão jovem! - maravilhou-se Taxiles. - A tua juventude fascina mais o meu rei
do que qualquer outro aspecto teu.
- Fiz trinta e três anos em Setembro - disse Octaviano com alguma presunção.
- Estarás à frente de Roma durante muitas décadas.
- Definitivamente. Espero poder dizer o mesmo relativamente a Fraates?
- Só entre nós os dois, César, não. A corte tem estado mergulhada em
turbulência desde que Pácoro invadiu a Síria. Prevejo que haverá muitos reis na
Partia antes do fim do teu reinado.
- E respeitarão este tratado?
- Sim, categoricamente. Deixa-os livres para tratarem dos seus rivais.
A Arménia caíra depois da guerra de Ácio; Octaviano iniciou a viagem
desgastante pelo Eufrates acima até Artaxata, seguido por quinze legiões
naquilo que parecia, a alguns dos soldados, uma marcha que estavam condenados a
repetir eternamente. Mas aquela seria a última vez.
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Ele, o homem menos musical do mundo, teria que encantar os senadores com um
canto da sereia tão sedutor que os fizesse abandonar para sempre os remos.
Quando Marcela fez dezoito anos casou-se com Marco Agripa que era cônsul pela
segunda vez; não deixara de estar apaixonada pelo seu herói sisudo e pouco
comunicativo e entrou naquela união convencida de que o cativaria.
O número de crianças nunca parecia diminuir nos aposentos de Octávia, apesar da
saída de Marcela e de Marcelo, os seus dois mais velhos. Tinha Iulius, Tibério
e Márcia todos com catorze anos; Celina, Selene e o gémeo de Selene,
recentemente chamado Gaio António, e Druso, todos com doze anos; Antónia e
Júlia com onze; Tonilla com nove; o recentemente chamado Lúcio António com
sete; e Vipsânia com seis. Doze crianças no total.
- Lamento ver o Marcelo partir - disse Octávia a Gaio Fonteio -, mas ele tem a
sua própria casa e deve fazer dela a sua residência. Vai ser contubernalis de
Agripa no próximo ano.
- E o que acontecerá a Vipsânia, agora que Agripa se casou?
-Vai ficar comigo: uma sábia decisão, parece-me. Marcela não vai querer um
lembrete dos seus últimos anos nos aposentos das crianças e Vipsânia sê-lo-ia.
Além disso Tibério iria ficar muito triste.
- Como estão a dar-se os filhos de Cleópatra? - perguntou Fonteio.
- Estão muito melhor!
- Então os assim chamados Gaio e Lúcio António cansaram-se finalmente de levar
pancada do Tibério, do Iulius e do Druso?
- Depois de eu ter ganho coragem para fingir que não via, sim. Foi um bom
conselho, Fonteio, apesar de na altura eu não ter gostado nada da ideia. Agora
só tenho que persuadir Gaio António a não comer de mais... oh, é um glutão!
- O pai dele também o era em muitos aspectos. - Fonteio apoiou as costas numa
coluna nos novos jardins requintados que Lívia Drusila criara em volta dos
velhos lagos de carpas de Hortênsio e cruzou os braços defensivamente. Agora
que Marco António estava morto e o seu túmulo em Alexandria selado para sempre,
resolvera tentar a sua sorte com Octávia, que tivera muitos anos para chorar o
seu último marido. Com quarenta anos, a sua fertilidade chegara provavelmente
ao fim e os aposentos das crianças não receberiam mais nenhum novo ocupante. A
não ser que fossem netos. Porque não tentar? Ela e ele tinham sido tão bons
amigos que já deixara de pensar que ela o recusaria por amor à memória de
António.
Um homem tão bonito!, estava ela a pensar enquanto ele a observava, a sua
natureza sensível adivinhando que ele tinha alguma coisa em mente.
- Octávia... - disse ele e depois calou-se.
- Sim? - incitou-o ela sentindo curiosidade. - Diz lá!
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Erigira também esfinges gigantescas dele próprio em toda a parte, algo que era
proibido a todos os Romanos, cujas estátuas nunca podiam ultrapassar o tamanho
de um homem. Mesmo Octaviano tinha o cuidado de observar esse preceito; o facto
de o seu amigo e partidário Galo não o ter feito, fora um choque. Chamado a
Roma para responder pela sua húbris, Cornélio Galo e a mulher tinham-se
suicidado a meio do julgamento por traição no Senado.
Não sendo homem para ignorar aquele tipo de lição, Octaviano passou, daí em
diante, a mandar apenas homens muito vulgares e de nascimento humilde para
governar o Egipto e assegurou-se de que os ex-cônsules que governavam
províncias eram enviados para regiões onde não havia exércitos numerosos. Os
ex-pretores herdaram os exércitos; como queriam vir a ser cônsules, era mais
provável que se comportassem devidamente. Os triunfos tornar-se-iam um direito
apenas da própria família de Octaviano e de mais ninguém.
- Engenhoso - disse Mecenas. - As tuas ovelhas senatoriais comportaram-se como
carneiros... mé, mé, mé.
- A nova Roma não se pode permitir a ascensão de homens ambiciosos de uma forma
que possam exibir os seus feitos aos cavaleiros, quanto mais à gente vulgar.
Que ganhem louros militares à vontade, mas ao serviço do Senado e do Povo de
Roma e não para aumentar o prestígio das suas próprias famílias - disse
Octaviano. - Já descobri uma maneira de castrar a nobreza, antiga e recente,
não faz diferença. Podem viver com a opulência que quiserem, mas nunca obter
fama pública. Permitir-lhes-ei a coragem mas nunca a glória.
- Precisas de mais um nome para além de César - disse Mecenas com os olhos
fixos num belo busto de Divus Julius saqueado do palácio de Cleópatra. - Não me
passou despercebido que não gostas de dux nem de princeps. Imperator é melhor
deixar passar e Divi Filius já não é necessário. Mas que nome?
- Rómulo - gritou Octaviano ansiosamente. - César Rómulo!
- Impossível! - guinchou Mecenas.
- Eu gosto de Rómulo!
- Podes gostar do que quiseres, César, mas é o nome de um fundador de Roma... e
do primeiro rei de Roma.
- Quero ser chamado César Rómulo!
Posição de que Octaviano se recusou a sair, por mais que Mecenas e Lívia
Drusila argumentassem. Finalmente foram ter com Marco Agripa que naquela altura
estava em Roma por ser o cônsul do ano anterior e ir ser novamente cônsul no
ano novo.
- Marco, convence-o de que não pode ser Rómulo!
- Vou tentar - disse Agripa -, mas não prometo nada.
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- Não sei porque é esta confusão toda - disse Octaviano amuado quando Agripa
lhe falou no assunto. - Preciso de um nome adequado ao meu estatuto e não
consigo pensar em nenhum melhor do que Rómulo.
- Mudarias de ideias se alguém arranjasse um nome melhor?
- Sim, evidentemente que mudaria! Não sou cego às implicações reais de Rómulo!
- Encontra-lhe um nome melhor - disse Agripa a Mecenas. Foi Virgílio, o poeta,
quem encontrou o nome.
- E que tal - perguntou Mecenas delicadamente -, Augusto? Octaviano pestanejou.
-Augusto?
- Sim, Augusto. Significa o mais alto dos altos, o mais glorioso dos gloriosos,
o maior entre os maiores. E nunca foi usado como cognome por ninguém...
absolutamente ninguém.
- Augusto. - Octaviano rolou a palavra na língua, saboreando-a. -Augusto... Sim
gosto. Muito bem, que seja Augusto.
No décimo terceiro dia de Janeiro, quando Octaviano tinha trinta e cinco anos e
era cônsul pela sétima vez, reuniu o Senado.
- Chegou o momento de abdicar de todos os meus poderes - disse à Câmara. - Os
perigos desapareceram. Marco António, pobre idiota, já está morto há dois anos
e meio e, com ele, a Rainha das Bestas que o corrompeu de forma tão vil. Os
pequenos pânicos e terrores passageiros da época também se desvaneceram desde
então, meros nadas quando comparados com a glória de Roma. Tenho sido o fiel
guardião de Roma, o seu campeão indómito. Por isso agora, neste dia, pais
conscritos, aviso-os de que abdico de todas as minhas províncias: as ilhas
cerealíferas, as Hispânias, as Gálias, a Macedónia e a Grécia, a província da
Ásia, a África, a Cirenaica, a Bitínia e a Síria. Entrego-as ao Senado e ao
Povo de Roma. Tudo o que desejo conservar é a minha dignitas, que implica o meu
estatuto de consular como vosso princeps senatus, e o meu estatuto pessoal como
tribuno das plebes.
A Câmara irrompeu em urros espontâneos.
- Não, não! - gritavam aos ouvidos de Octaviano de todos os lados, num ruído
ritmado.
- Não, grande César, não! - ouviu-se a voz de Planco, a mais alta. - Mantém
Roma nas tuas mãos de confiança, imploramos-te!
- Sim, sim, sim - de todos os lados.
A farsa prolongou-se durante algumas horas, um Octaviano cada vez mais
encolhido a tentar protestar, afirmando já não ser necessário. Finalmente,
Planco, vira-casacas determinado, deu por terminada a sessão sem que o assunto
ficasse concluído, mantendo-o pendente até que a Câmara se reunisse dali a três
dias.
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FINIS
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GLOSSÁRIO
aedes A casa de um deus que não foi santificada pelo ritual dos augúrios na sua
consagração. Vesta, deusa das mulheres, tinha uma aedes e não um templo. Era um
edifício redondo localizado no Fórum romano.
aerarium Local de depósito para os dinheiros públicos: o tesouro.
agora Espaço aberto nas cidades gregas, usado para reuniões públicas.
Habitualmente era um local rodeado de colunas.
Águia Quando Gaio Mário recrutou pobres para o seu exército, entregou a cada
legião uma águia prateada, que era erguida bem alto por um aquilifer, e
introduziu o culto da Águia para dar àquelas tropas, que nada tinham de seu,
algo de tangível por que lutar. O estratagema funcionou na perfeição.
Anatólia Grosseiramente, poderemos dizer que corresponde à actual Turquia
asiática.
animus Traduzindo do Oxford Latin Dictionary: "A mente em oposição ao corpo, a
mente ou a alma que constituem com o corpo a pessoa no seu todo." Para um
romano, não significava a alma imortal: era simplesmente a força que animava e
dava a consciência.
Apolónia O extremo sul da Via Egnácia na costa adriática da Macedónia. Ficava
junto do estuário daquilo que é hoje o rio Vijosê, na Albânia. O extremo norte
era Dirráquio.
Apúlia, Apuliano A região do Sudoeste de Itália onde os Apeninos se esbatem e
onde fica a "espora" da bota. Os Apulianos eram considerados labregos e burros.
Árabes Skenitas Tribo árabe que habitava a região a leste do rio Eufrates nas
proximidades de Zeugma e Nicefório. Eram um povo nómada do deserto que não
encontrava nos Romanos motivos para admiração.
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Arécio A moderna Arezzo situada nas margens do rio Arno. Arménia Parva Pequena
Arménia. Ficava a ocidente da Arménia propriamente dita e em torno da nascente
e do início do rio Eufrates, constituída por terras altas, extremamente
montanhosas e inóspitas.
augure Membro do Colégio dos Augures que, nesta época, era constituído por
quinze membros. Os seus deveres tinham mais a ver com a adivinhação e não com a
predição, e era escolhido para toda a vida pelos seus congéneres ou era eleito,
dependia. Examinava certos objectos ou sinais para verificar se determinado
projecto tinha a aprovação dos deuses, fosse uma reunião, uma guerra, uma nova
proposta de lei, ou qualquer outra questão pública. Existia um protocolo que
regulamentava a interpretação, por isso o augure fazia tudo "à letra" e não
reivindicava poderes psíquicos. Envergava uma toga com riscas vermelhas e
púrpura e empunhava um bastão, denominado lituus, encimado por uma espiral.
auroques Bos primigenia, os touros selvagens da Europa, extintos há um milénio.
Eram de cor negra, mediam um metro e oitenta até às espáduas e ostentavam um
formidável par de cornos curvos e projectados para diante.
auxiliares Tropas ao serviço dos exércitos romanos mas que não tinham a
cidadania romana. Eram habitualmente tropas de cavalaria mas também podiam ser
soldados de infantaria.
balista Nesta época era a designação dada a uma peça de artilharia concebida
para lançar pedras e pedregulhos. O projéctil colocava-se num braço em forma de
colher que era submetido a uma enorme tensão através de uma corda fortemente
enrolada. Quando a corda se soltava, o braço erguia-se no ar indo embater num
bloco espesso, arremessando o projéctil a uma grande distância. Era uma arma
precisa quando usada por um artilheiro competente.
basílica Um edifício amplo dedicado a actividades públicas como as dos
tribunais. O edifício era iluminado pelas janelas altas do clerestório das
paredes laterais. Belgas A temida confederação das tribos que habitavam a
região noroeste da Gália dos Cabelos Compridos, banhada pelo Reno. De sangue
germânico e celta, compreendiam tribos como a dos Nérvios, que combatiam a pé e
os Tréveros, que combatiam a cavalo.
bico Em latim, rostrum. O bico, de carvalho ou bronze, projectava-se a partir
da proa dos navios, logo abaixo da linha da água, e era usado para rasgar ou
danificar os navios inimigos durante uma manobra denominada "encontrar".
boni Literalmente, o plural de "bom", mas usado desde os tempos de Plauto para
descrever os homens que formavam a minoria ultraconservadora do Senado: "os
homens-bons".
Bonónia Cidade localizada na Via Emília na Gália Italiana. A actual Bolonha.
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cavaleiros O Ordo Equester ou a ordem equestre. Quando Roma era muito jovem,
alguns homens formaram a cavalaria e, como os cavalos eram caros, o Estado
pagava-lhes as montadas. No entanto, na época em que este livro se situa, um
cavaleiro era meramente um homem de negócios proeminente, um membro da primeira
classe. Esta era portanto uma distinção social e económica.
cavalo público Eram cavalos comprados pelo Senado em tempos mais recuados.
Apesar de os Romanos já não manterem a sua própria cavalaria, as Famílias
Famosas apreciavam muito a posse de um cavalo público.
censor O mais importante dos magistrados romanos ainda que não o mais poderoso,
pois não possuía imperium. Para ser censor, um homem tinha que ter sido cônsul
e só os antigos cônsules famosos concorriam. Dois censores eram eleitos para um
mandato de cinco anos, o lustrum. Fiscalizavam o registo dos cidadãos,
determinavam o estatuto económico dos homens, regulavam as entradas para o
Senado e levavam a cabo o censo completo de todos os cidadãos romanos em todo o
mundo. Habitualmente não conseguiam entender-se entre si e demitiam-se muito
antes de completar o lustrum.
centunculus Uma casaco remendado de cores berrantes usado pelos palhaços.
centurião Um soldado profissional de uma legião romana. O estatuto de que
gozava não era afectado por questões sociais. A promoção fazia-se a partir das
fileiras. A graduação de um centurião era medida de uma forma tão tortuosa, que
nenhum académico moderno foi ainda capaz de determinar quantos graus havia ou
como eram feitas as promoções. O centurião normal comandava uma centúria (80
soldados e 20 cidadãos não-combatentes). Opilusprior comandava uma coorte e o
primipilus comandava uma legião. "cinco" Quinquerreme em calão.
clâmide A peça de vestuário exterior, semelhante a uma capa, usada pelos homens
gregos.
classes Havia cinco classes de cidadãos romanos, numeradas da primeira à
quinta. O critério de pertença a cada uma das classes era económico e decidido
pelos censores.
cliente, clientela Um homem com estatuto de homem livre ou liberto (não tinha
que ser cidadão romano) que jurava lealdade a outro homem a quem chamava
patrono, tornando-se num dos clientes da clientela do seu patrono. O cliente
jurava e assumia com a maior das solenidades obedecer aos desejos e servir os
interesses do seu patrono em troca de vários favores (habitualmente presentes
em dinheiro, ou empregos, ou assistência legal). Cidades inteiras podiam fazer
parte da clientela de um homem, como acontecia com Bonónia e Mútina que
pertenciam à clientela de António.
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Foi este heroísmo exemplar que lhe granjeou o estatuto de deusa, pois era tida
como o modelo ideal das mulheres romanas, embora estas raramente a conseguissem
emular.
cunnus, cunni Uma das obscenidades preferidas em latim: cona. curator annonae O
magistrado responsável pelo fornecimento dos cereais. denarius, denarii A moeda
romana usada mais vulgarmente, era em prata e tinha mais ou menos o tamanho de
uma moeda de dez cêntimos americanos. Um denário valia 4 sestércios e um
talento valia 6,250 denarii.
diadema O símbolo helénico da soberania. Era uma fita branca, com cerca de uma
polegada de largura, que se usava em torno da cabeça e atado por trás da nuca.
As pontas eram franjadas e caíam sobre os ombros.
Dioniso Um deus grego, com origem em raízes trácias e adorado com rituais
sangrentos e orgíacos. Nesta época o seu culto era mais suave, sendo o
padroeiro do vinho e das festas.
domine, domina Meu senhor, minha senhora em latim (vocativo). domus A
residência citadina de um homem, preferencialmente uma casa e não um
apartamento. Significava também o lar e toda a família de um homem.
druidismo A principal religião celta, mística e animista. Era malvista pelos
Romanos que deploravam as suas características bizarras, particularmente o
sacrifício humano na leitura dos augúrios.
duumvir Um dos dois magistrados que chefiavam uma cidade romana ou municipium.
Ecastor! O epíteto socialmente aceite e usado pelas mulheres, equivalente a
"Raios!"
Ecbátana A actual Hamadan, no Irão.
Edepoll O epíteto socialmente aceite e usado pelos homens, equivalente a
"Bolas!"
Epiro Situa-se na costa ocidental da Grécia e corresponde aproximadamente à
actual Albânia.
éter A parte superior da atmosfera permeada por forças divinas ou o ar que
rodeava um deus. Também significava o céu azul do dia.
Farsalo Fica na Tessália grega. Local onde César derrotou Pompeu, o Grande.
fasces Feixes cilíndricos de varas tingidas de vermelho, fortemente atadas umas
às outras por tiras de cabedal encarnado e formando um padrão entrecruzado.
Eram transportados por um homem denominado lictor e simbolizavam o grau de
imperium de um magistrado: seis para um pretor e doze para um cônsul. No
interior da cidade de Roma os fasces continham apenas as varas, simbolizando o
poder punitivo do magistrado, mas no exterior da cidade era acrescentado um
machado de uma única lâmina que simbolizava o poder do magistrado de decapitar.
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harpia Monstro mítico do sexo feminino. Tinha corpo de ave de rapina e cabeça
de mulher.
Helesponto Os estreitos entre a Europa e a Ásia e que correm do mar de Marinara
para o mar Egeu. Os actuais Dardanelos.
herm Um pedestal adornado com genitais masculinos. Na era cristã estes
pedestais foram destruídos, pois a representação dos genitais era considerada
obscena. hostis Um inimigo do Estado romano. Ao ser declarado hostis, um
cidadão era privado da sua cidadania e das suas propriedades e, eventualmente,
da própria vida. Idos Uma das três datas enumeradas no mês romano. Caía no
décimo terceiro dia dos meses de Janeiro, Fevereiro, Abril, Junho, Sextilis
(Agosto), Setembro, Novembro e Dezembro. Em Março, Maio, Julius e Outubro, caía
no décimo quinto dia. ilha de Corcira A actual ilha de Corfu ou Kérkyra,
próxima da costa adriática da Grécia.
ílio A designação romana de Tróia.
Ilíria As terras altas do leste da costa do mar Adriático que se estendiam para
o interior. Incluíam a Ístria, a Libúrnia e a Dalmácia.
imperator, imperador Originalmente, o general comandante de um exército romano.
Na época em que decorre esta narrativa, o termo passara a ser unicamente
aplicado ao general que tivesse sido aclamado imperator no campo de batalha.
Conferia o direito a um triunfo.
imperíum Era o grau de autoridade investido num magistrado curul. Se este
viesse a deter uma promagistratura, o imperium era prorrogado, ainda que não
necessariamente com o mesmo grau. O número de lictores que precediam um homem
indicava o grau do seu imperium: seis para um pretor, doze para um cônsul.
imperium maius Imperium ilimitado. O grau de imperium do seu detentor era de
tal forma elevado que se sobrepunha a todos, excepto a um ditador, quer em
Roma, quer nas províncias. Até à época desta narrativa era relativamente raro,
mas durante as últimas décadas da República, o Senado conferiu-o a um número
razoável de homens.
inepte Um imbecil, um idiota, alguém com limitações intelectuais.
insula Ilha. Significava também um edifício alto de apartamentos que era sempre
cercado por vielas.
irrumator Um insulto mortal! O homem que praticava fellatio com outro homem,
logo que se ajoelhava na frente deste.
Itália A perna e o pé da bota italiana. Era limitada pelos rios Arno e Rubicão.
iugerum, iugera A medida agrária romana. A um iugerum correspondia 0, 623 de
uma jeira ou 0,252 de um hectare.
Julius O antigo mês romano de Quinctilis antes de este ter sido rebaptizado
Julius, após o assassínio e deificação de Júlio César.
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Lares e Penates Eram os deuses domésticos romanos ou deuses dos campos - dos
celeiros e das despensas, de tudo quanto permitia a uma família viver em
segurança e conforto.
Lares Permarini Os Lares que protegiam os Romanos nas viagens marítimas.
laserpicium Substância obtida de uma planta do Norte de Africa, o silphium. Era
usada como digestivo para aliviar os excessos gastronómicos e extremamente
dispendiosa. -
latifundium, latifundia O latifundium era uma vasta extensão de terras,
geralmente públicas, arrendadas para pastagens e não para cultivo. Os
latifundia eram a principal razão de a Itália não ser auto-suficiente em trigo,
pois privavam de terra os pequenos agricultores. Reduziam o emprego e
encorajavam a migração para as cidades.
lectus medius Os divãs das salas de jantar romana eram dispostos de frente uns
para os outros, em forma de U, podendo ir de três a quinze. O divã do
anfitrião, o lectus medius, formava a base do U.
legado Os segundos-generais ou segundos-comandantes num exército romano, na
acepção aqui usada
legião A unidade mais pequena de um exército romano capaz de travar uma guerra
sozinha. Isto é, era auto-suficiente em recursos humanos, equipamentos e
funcionalidades. Uma legião na sua máxima força compreendia 4800 soldados
divididos em 10 coortes de seis centúrias cada. Incluía também 1200 cidadãos
romanos não-combatentes e 60 centuriões bem como artífices e artilheiros.
Contava com 600 mulas para transporte da carga e 60 carros de bois para os
mantimentos mais pesados.
lemur, lemures Sombras. Criaturas do mundo inferior.
lex, leges Lei, leis. Do género feminino. O nome do homem que promulgava a lei
ficava geralmente ligado a esta, como na Lex Ogulnia, Lex Annia, etc.
Lex Voconia de mulierum hereditatibus Promulgada em 169 a. C, restringia
severamente os direitos das mulheres a herdarem grandes fortunas. No entanto, o
Senado podia contrariá-la por decreto.
liberto Um escravo alforriado. Era obrigado a usar um solidéu cónico, o "gorro
da liberdade". Se o seu antigo dono fosse romano, entrava directamente para a
clientela deste e tinha poucas possibilidades de exercer o seu direito de voto.
Podia contudo ganhar dinheiro e ascender bem alto nas classes.
liburna Uma embarcação assim denominada por ser usada pelos piratas da
Libúrnia. As suas dimensões exactas são difíceis de determinar, mas dado Agripa
ter usado liburnas em batalhas marítimas, estas deveriam ser aproximadamente do
tamanho de trirremes ou "três". O que significa que estariam equipadas com um
convés e podiam transportar soldados em número considerável.
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nemes Toucado egípcio feito com panos que passavam sobre a testa, eram presos
na nuca e estendiam-se de ambos os lados da cabeça, como asas, por trás das
orelhas.
Nonas Uma das três datas enumeradas no mês romano. Se os Idos caíam a treze, as
Nonas caíam a cinco; se os Idos eram a quinze, as Nonas caíam a sete.
Nosso Mar Em latim, Maré Nostrum. O Mediterrâneo. Todo o Mar Mediterrâneo.
numen, numina, numinoso Os deuses romanos genuínos não tinham rosto nem sexo e
seria mais adequado descrevê-los como forças do que como entidades. Estas
forças governavam tudo, desde a abertura e o fecho de uma porta, à chuva e ao
vento, à guerra e à prosperidade pública. Não tinham qualquer mitologia. Estas
forças percorriam caminhos equidistantes do universo dos homens e dos deuses,
numa espécie de vaivém, daí o hábito romano de fazer contratos entre os deuses
e os homens.
nundinum, nundinae A semana romana tinha oito dias, sendo o oitavo um dia de
mercado, chamado nundinus. Havia um calendário afixado na rostra do Fórum
romano.
oppidum Fortalezas gaulesas, consideradas horrivelmente feias pelos Romanos.
pais conscritos Nesta época era um título de cortesia dos senadores. Teve
origem no tempo dos Reis de Roma que chamavam aos membros dos seus conselhos
"pais". Mais tarde, ao passarem a ser escolhidos pelos censores, eram
considerados conscritos. Daí o termo "pais conscritos".
Palus Asfaltite O mar Morto. Era assim denominado por produzir pedaços de
asfalto que vinham à superfície e podiam ser "pescados" das suas águas - uma
mercadoria muito valiosa.
papel faniano Um homem de negócios romano, chamado Fânio, inventou um processo
barato de transformar papel de papiro da pior qualidade em algo de semelhante
ao papel mais caro. Fez uma fortuna enorme.
Paretónio Possivelmente Mersa Matruh no Egipto Ocidental.
Partos A Partia era uma terra a lesta do mar Cáspio, pelo que para os Romanos o
inimigo eram "os Partos" e não o país em si. O reino dos Partos era enorme,
estendendo-se do rio Indo até ao rio Eufrates. Uma grande parte dessas terras
era inóspita.
Patrae A actual Patras, no golfo de Corinto na Grécia.
phalerae Discos de ouro ou prata, redondos, gravados e ornamentados com cerca
55 a 100 milímetros de diâmetro. Eram condecorações por bravura militar,
montadas em três filas sobre um arnês sofisticado de tiras de cabedal usado
sobre a cota de malha ou couraça.
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rostra Uma plataforma elevada no fórum, usada pelos oradores e para presidir a
reuniões alargadas. Foi buscar o seu nome aos esporões dos navios que decoravam
a coluna que lhe ficava adjacente.
saltatrix tonsa Literalmente, uma bailarina barbada. Aplicava-se a homens que
se vestiam de mulheres e vendiam favores sexuais em locais públicos. Havia uma
lei, a Lex Scantinia, que tornava esse acto uma ofensa capital.
satrapia Território pertencente a um suserano ou a um rei, mas administrado
enquanto entidade distinta em nome do suserano. O homem designado para dirigir
a satrapia era um sátrapa. Era a forma de rei-cliente dos Partos e das regiões
orientais.
Senado A Câmara Alta, por assim dizer. Nesta época era composto por um milhar
de homens que eram admitidos por terem sido eleitos questores, cooptados pelos
censores ou pelos triúnviros. O Senado não tinha competência para homologar
leis, podendo apenas recomendar a sua aprovação. O poder legislativo pertencia
às Assembleias que, por esta altura, estavam praticamente defuntas. Os
triúnviros legislavam prestando uma atenção meramente formal às Assembleias.
senatus consultum Um decreto do Senado. Não tinha o poder da lei.
Serápio Um deus híbrido peculiar, inventado para os cidadãos de Alexandria pelo
primeiro Ptolomeu e pelo então sumo sacerdote de Ptah, um tal de Manetho. O
objectivo era fundir as ideias religiosas gregas e egípcias para que Alexandria
tivesse um deus local com uma natureza adequadamente grega. O seu templo era ,
em Rhakotis, o pior bairro da cidade, um sinal de que Serápio seria um deus
para as classes baixas.
sestercius, sestércio Moeda diminuta em prata que constituía a unidade
monetária da contabilidade romana. Quatro destas moedas formavam um denário. 25
000 eram um talento.
sereia Mulher mítica muitíssimo atraente que vivia nos penhascos e rochas
perigosos. Enfeitiçava os marinheiros com a beleza do seu canto levando-os a
encalhar os navios.
sinus Geograficamente, era um golfo, como em Sinus Arabicus (actualmente mar
Vermelho). Um sinus era também a parte da toga que caía em pregas soltas sobre
a anca direita de quem a envergava. Era usado para transportar papéis e um
lenço. A bolsa com o dinheiro, contudo, era sempre presa com firmeza ao cinto
que prendia a túnica.
socius Homem livre ou liberto que habitava em território romano mas que não era
cidadão romano.
Sol Indígetes, Terra e Líber Pater Este trio de deuses romanos presidia aos
juramentos. Ao serem invocados, até mesmo o mais cínico dos Romanos cumpria o
juramento fosse a que custo fosse.
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FIM