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Casas Festivas e Trovadores Medievais

O documento explora a importância das casas festivas no Midi durante os séculos XIII a XVI, destacando a relação entre trovadores e seus patronos. Ele menciona biografias de poetas e a influência social da poesia, além de enfatizar a generosidade de senhores como o rei Pedro II de Aragão e Delfim de Auvergne. A obra reflete sobre como essas casas permitiram a expressão poética e a celebração da vida, sugerindo uma esperança de acolhimento e festividade.

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Casas Festivas e Trovadores Medievais

O documento explora a importância das casas festivas no Midi durante os séculos XIII a XVI, destacando a relação entre trovadores e seus patronos. Ele menciona biografias de poetas e a influência social da poesia, além de enfatizar a generosidade de senhores como o rei Pedro II de Aragão e Delfim de Auvergne. A obra reflete sobre como essas casas permitiram a expressão poética e a celebração da vida, sugerindo uma esperança de acolhimento e festividade.

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CASAS FESTIVAS

Marcela Lopes Guimarães

Em uma vintena de cancioneiros occitanos muito especiais, compilados em boa parte na Itália
entre os séculos XIII e XVI, podemos encontrar além da poesia dos trovadores e das trovadoras
(troubadours e tobairitz) e das iluminuras que nos encantam, as biografias dos poetas e explicações de
sua poesia, ou seja, suas vidas e razos. Esses textos de tamanhos variados foram escritos na mesma
língua dos trovadores, o occitano, língua batizada por Dante Alighieri (1265-1321) a partir de um
critério bem objetivo: a maneira de afirmar, ou seja, de dizer sim. Nós conhecemos dois autores dessas
biografias e explicações: um deles o também trovador Ugo de Saint Circ (...1217-1257...), biógrafo do
trovador Bernart de Ventadorn e autor de uma razo da poesia de Savaric de Mauléon, e o outro biógrafo,
o escrivão Michel de la Tour (século XIII), do trovador Peire Cardenal (1205-1272). Eles podem ter
escrito outras biografias, mas reivindicam mesmo a autoria dessas que menciono. É possível
reconhecer elementos que se repetem em boa parte das vidas, o que apontaria para a responsabilidade
de um grupo pequeno de autores, elementos como: a inscrição do trovador em uma realidade
geográfica, a menção aos senhores e cortes que protegeram o poeta, as damas cantadas, o vínculo entre
o amor e o canto e o deslocamento. Mas ainda que a gente possa reconhecer esses elementos, eu me
recuso a ver a repetição de um modelo, tal a forma como encontramos enredos mirabolantes e
personagens fora do comum, desde um trovador necrófilo até um que sonhou ser imperador de
Bizâncio!
É na menção às cortes de proteção e acolhimento dos trovadores que encontramos as casas
mais festivas do Midi e os senhores mais generosos e divertidos. Antes, uma lembrança, segundo a
narrativa das vidas, a poesia foi um agente de “mistura social”, ou seja, por ela, algumas relações foram
embaralhadas e foi possível ler a rivalidade entre reis e pobres cavaleiros (ou até jograis) pelo amor de
uma mulher, caso do trovador Raimundo de Miraval (...1191-1229...) e do rei Pedro II de Aragão
(1178-1213)! O rei Pedro de Aragão foi o senhor mais acolhedor da poesia occitana, segundo as vidas
e razos; no Livro dos feitos do rei Jaime I, o conquistador, filho do rei Pedro, ele afirmou que o pai era
homem de mulheres e que foi o mais generoso dos reis, até o exagero... Imagino que sua casa era uma
festa. Pedro de Aragão deu a vida pela defesa dos seus vassalos do Midi, na Batalha de Muret (1213).
A casa de um rei dispunha de recursos para a proteção dos poetas, é claro, mas as vidas e razos
mencionam outras casas tão ou mais acolhedoras, onde trovadores foram recebidos, alimentados,
vestidos, presenteados, honrados e onde cantaram as altas damas, roubaram-lhes beijos, espiaram-lhes
a intimidade pelo buraco de fechaduras, reivindicaram o bem em direito de amor, em que o obtiveram
ou não..., casas em que os biógrafos afirmaram que eles, os poetas, é que foram os verdadeiros
senhores! Entre as casas tão acolhedoras quanto os palácios reais, figuram as dos grandes senhores que
foram também trovadores. Uma das mais divertidas parece ter sido a de Delfim de Auvergne (1160-
1235), um senhor muito mencionado no conjunto das vidas e razos. Sobre ele, o biógrafo anônimo
afirma (em tradução minha, direto do occitano):
Delfim de Auvergne foi conde de Auvergne, um dos mais sábios cavaleiros, e um dos mais
corteses do mundo; largo, o melhor nas armas, e o que mais soube do amor, do galanteio e da guerra e
de todos os feitos graciosos; o que mais conheceu e o que mais compreendeu, e o que melhor compôs
sirventeses e coblas e tensós, e o homem que melhor falou, tanto a sério quanto divertidamente. E por
causa de sua largueza, perdeu mais da metade de todo o seu condado, mas com avareza e inteligência,
ele soube recuperar e mesmo ganhar mais do que ele perdera.

GUIMARÃES, M. L. Casas Festivas. Escrita da História e Literatura. In: Sacralidades Medievais


(site). Disponível em: [Link] Acesso em 01 de Abril de
2022.

[Link]
Delfim, que é nome próprio1, como as Reginas que conhecemos e os dois Princes, filhos de
Michael Jackson, chegou a exigir que uma de suas irmãs frequentasse a sua corte apenas para ser
cantada pelo trovador Peirol (...1188-1222...). Quando Delfim desconfiou que essa inspiração tinha
virado amor recíproco, enciumou-se a ponto de colocar o trovador para correr. Mas ele protegeu um
outro trovador roubador de dama casada (o trovador Peire de Maensac), fez de um pobre jogral um
cavaleiro (trovador Perdigo) e acolheu o trovador-biógrafo Saint Circ e o poeta Ugo Brunet. Pode ter
protegido muitos outros. Os biógrafos do cancioneiro occitano têm Delfim em alta conta e a sua
biografia entrega tudo aquilo que se podia esperar de um grande senhor do Midi: sabedoria, cortesia,
generosidade, conhecimento do amor, das armas e das formas da poesia. O biógrafo menciona que
Delfim era um homem eloquente e que sua largueza quase o levou à ruína.
Para os biógrafos do cancioneiro occitano, há dois critérios para se compreender uma casa
festiva: a possibilidade de ela abrigar a poesia e o modo de viver que a poesia convida. Junto a Delfim
de Auvergne, mas também junto à casa dos Baux, à casa do rico barão da Provença Blacatz, todos
trovadores! Bem como junto a outras casas do Midi, foi possível entregar-se ao cultivo da poesia, dos
jogos, das conversações, dos banquetes, da música... Junto a esses senhores, homens e mulheres
puderam entrever alternativas poéticas aos limites reais que os constrangiam, puderam sonhar
ultrapassá-los. Ler essas casas festivas me faz pensar que, por um breve momento, também podemos
suspender as dores do mundo para comemorar um Natal que este ano vai receber menos damas, altos
senhores e jograis. Quem sabe ano que vem não possamos ser tão acolhedores quanto Delfim? É uma
esperança.

Para saber mais

BOUTIÈRE, Jean, SCHUTZ, A.-H. Biographies des troubadours. Textes provençaux des XIIIe et
XIVe siècles. Édition refondue, augmentée d’une traduction française, d’un appendice, d’un lexique,
d’un glossaire et d’un index des termes concernant le ‘trobar’ par Jean Boutière avec la collaboration
de I.-M CLUZEL. A.-G. Nizet: Paris, 1964.

CAMPOS, Augusto. Verso. Reverso. Controverso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1978.

RIQUER, Martín de. Los Trovadores. Historia literaria y textos. Barcelona: Editorial Ariel
(Planeta): 2012 (2ª impressão: 2019).

1
Confira a elucidação da questão em: FOURNIER, Pierre. “Le nom du troubadour Dauphin d'Auvergne et l'évolution du
mot dauphin en Auvergne au Moyen Age”. In: Bibliothèque de l'école des chartes. 1930, tome 91. pp. 66-99. Disponível
em: <[Link] acesso em 14 de setembro de 2020.

GUIMARÃES, M. L. Casas Festivas. Escrita da História e Literatura. In: Sacralidades Medievais


(site). Disponível em: [Link] Acesso em 01 de Abril de
2022.

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