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Ararajuba 12 (2):63-64
Dezembro de 2004
Primeiro registro documentado de Anhima cornuta (Linnaeus, 1766)
(Anseriformes Anhimidae) para o Estado do Espírito Santo, Brasil
José Eduardo Simon 1, 2 e Saulo Ramos Lima 3
1
Museu de Biologia Mello Leitão. R. José Ruschi, 4, Santa Teresa, ES, Brasil, 29065-000. E-mail: simon@[Link]
2
Instituto de Pesquisas da Mata Atlântica-IPEMA. R. Hugo Viola, 1001, sala 218, Vitória, ES, Brasil, 29060-420.
3
Laboratório de Zoologia dos Vertebrados. FAESA- Faculdades Integradas de São Pedro, Campus II. Rodovia Serafim Derenze, 3115. Vitória, ES,
Brasil, 29030-001. E-mail: tortoise@[Link]
Abstract – We report the first documented record of Anhima cornuta in the state of Espírito Santo, Brazil. The species was
recorded in the municipality of Itaguaçu, at the central-western portion of the state. Seven individuals were observed in swamps
and flooded areas of the region. It is possible that the present record is the result of a recent geographical expansion, favored by the
pronounced reduction of native forests in Espírito Santo.
KEY WORDS: Anhima cornuta, range expansion, Espírito Santo state, Brazil
PALAVRAS-CHAVE: Anhima cornuta, Anhimidae, expansão geográfica, Espírito Santo
A Família Anhimidae, restrita à América do Sul, é composta
por três espécies, duas das quais com ocorrência no Brasil:
Anhima cornuta (anhuma) e Chauna torquata (tachã) (Sick
1997). Anhima cornuta, em particular, apresenta ampla
distribuição no país, ocupando quase toda a Região Amazônica,
além dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Bahia, Minas Gerais,
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e Paraná
(Pinto 1964, Sick 1997). Relatamos aqui o primeiro registro
documentado dessa espécie para o Espírito Santo, obtido durante
um breve levantamento de campo que realizamos na porção
centro-oeste do Estado, entre 21 e 26 de janeiro de 2004.
Anhima cornuta foi assinalada na Fazenda Pontal (19°37‘S,
40°49‘W, altitude: 110 m), município de Itaguaçu, em 21 de janeiro
de 2004. Seu registro foi feito através de contato auditivo e
visual, tendo sido possível nossa aproximação a apenas poucos Figura 1- Primeiro registro documentado de Anhima cornuta
metros da espécie, o que permitiu a sua documentação fotográfica (Anhimidae) para o Espírito Santo (município de Itaguaçu, 21/01/
em condição natural (figura 1). 2004), Brasil. Foto: J. E. Simon.
Um total de sete indivíduos foram contados no local, todos
nas proximidades do rio Santa Joana (afluente do rio Doce),
freqüentando brejos e alagados marginais com plantas aquáticas local, construindo seu ninho na vegetação marginal do alagado
diversas, como aguapé (Eichhornia crassipes, Pontederiaceae), (cf. Gill et al. 1974, Hilty e Brown 1986).
repolho-d‘água (Pistia stratiotes, Araceae) e taboa (Typha sp., A expansão geográfica de Anhima cornuta para o Espírito
Typhaceae). Por vezes, foram também avistados pousados aos Santo pode ter ocorrido a partir de Minas Gerais, através do vale
pares em árvores isoladas e próximas à água, de onde do Rio Doce, favorecida pela acentuada redução da cobertura
freqüentemente vocalizavam, mostrando-se bastante florestal nativa da região (cf. SOS Mata Atlântica et al. 1998). O
conspícuos. Parque Estadual do Rio Doce era a localidade mais a leste
É possível que o presente registro seja resultado de uma conhecida para a espécie em território mineiro (Sick 1997), até
expansão geográfica recente da espécie, a julgar pela completa seu recente registro para o município de Resplendor (Calixto, 12
ausência de dados anteriores consistentes (bibliográficos e de setembro de 1997, M. F. de Vasconcelos e L.V. Lins com. pess.,
museológicos) sobre sua ocorrência no Espírito Santo, assim março de 2004), situado a cerca de 60 km do local onde A. cornuta
como pelos relatos de moradores da região, que mencionaram o foi por nós registrada no Espírito Santo. Obtivemos ainda relatos
primeiro contato com a espécie apenas no ano de 1998, recentes de A. cornuta para os municípios de Águia Branca (A.
inicialmente através de um único exemplar avistado nos brejos P. de Almeida com. pess., fevereiro de 2004) e Colatina (E. Negrelli
da fazenda. Segundo os entrevistados, a espécie já procriou no com. pess., janeiro de 2004), o que sugere a colonização de outras
64 Notas
localidades do Espírito Santo. Processo de invasão recente do REFERÊNCIAS
Espírito Santo, decorrente da substituição das florestas nativas
por paisagens abertas, parece ter ocorrido também com outras Gill, F. B., F. J. Stokes e C. C. Stokes (1974) Observations on the
espécies de aves, como Rhynchotus rufescens (perdiz), Nothura Horned Screamer. Wilson Bull. 86 (1): 43-50.
maculosa (codorna) e Bubulcus ibis (garça-vaqueira), para as Hilty, S. L. e W. L. Brown (1986) A guide to the birds of Colombia.
quais, igualmente, não encontramos registros históricos para o Princeton University Press, Princeton, New Jersey.
Pacheco, J. F. e C. Bauer (2001) A lista de aves do Espírito Santo de
Espírito Santo, estando, porém, atualmente disseminadas em
Augusto Ruschi (1953): uma análise crítica. Pp. 261-278; Em: J. L.
vários municípios do Estado (e.g. Venturini et al. 2000, Pacheco
B. Albuquerque, J. F. Cândido Jr., F. C. Straube e A. L. Roos (eds).
e Bauer 2001, Willis e Oniki 2002, J.E.S. obs. pess.). Ornitologia e conservação – da ciências às estratégias. Tubarão,
A única menção de A. cornuta para o Espírito Santo aparece Ed. Unisul.
em Ruschi (1979), que a inclui entre as várias espécies Pinto, O. M. O. (1964) Ornitologia brasiliense. Vol. 1. São Paulo: Dep.
relacionadas como extintas no Estado. Porém, em seu estudo, Zool. Sec. Agric., SP.
Ruschi (op. cit.) não forneceu qualquer evidência para a Ruschi, A. (1979) Número comemorativo do XXX aniversário da sua
ocorrência pretérita da espécie e nem apontou qualquer fundação, 26 de junho de 1979. Bol. Mus. Biol. Prof. Mello Leitão
documentação formal para a inclusão do Espírito Santo em sua (número especial), 215p.
área de distribuição geográfica. A falta dessas informações não Sick, H. (1997) Ornitologia brasileira. Edição revista e ampliada por
permite avaliar com exatidão a opinião de Ruschi (1979) sobre a José Fernando Pacheco. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Simon, J. E. (2000) Composição da avifauna da Estação Biológica de
extinção local de A. cornuta no Espírito Santo, existindo outros
Santa Lúcia, Santa Teresa-ES. Bol. Mus. Biol. Mello Leitão (N. Sér.),
exemplos de inconsistências dessa natureza nas análises de
11/12: 149-170.
avifauna regional apresentadas por esse autor (e.g. Simon 2000, SOS Mata Atlântica, INPE e ISA (1998) Atlas da evolução dos
Pacheco e Bauer 2001, Willis e Oniki 2002). remanescentes florestais e ecossistemas associados no Domínio
da Mata Atlântica no período 1990 – 1995. Fundação SOS Mata
AGRADECIMENTOS Atlântica, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e Instituto
Socioambiental, São Paulo.
Ao Sr. Alfredo Belote, proprietário da Fazenda Pontal, onde Venturini, A. C., A. M. Ofranti, J. B. M. Varejão e P. R. Paz (2000)
realizamos nossos trabalhos de campo. A José Fernando Pacheco, Aves e mamíferos da restinga: Parque Estadual Paulo César Vinha
Marcelo Ferreira de Vasconcelos e um revisor anônimo, pela – Setiba, Guarapari-ES. Vitória: Secretaria de Estado de
leitura crítica e sugestões ao manuscrito. A Josiene Rossini e Desenvolvimento Sustentável – SEDESU.
Willis, E. O. e Y. Oniki (2002) Birds of Santa Teresa, Espírito Santo,
Ludovic Kollmann (MBML) pela identificação das plantas
Brazil: do humans add or subtract species ? Pap. Avuls. Zool. 42
aquáticas. A Albert Ditchfield, pela revisão do Abstract. A
(9): 193-264.
Antônio de Pádua de Almeida e Edson Negrelli, por suas
informações sobre a ocorrência de Anhima cornuta no Espírito
Santo. E ao CNPq, pelo auxílio financeiro às pesquisas de J. E.
Simon, através do projeto “Biodiversidade da Mata Atlântica do
Espírito Santo” (Processo CNPq N° 469.321/2000-8).