MÉTODOS DE
INVESTIGAÇÃO DA
PERSONALIDADE
UNIDADE II
Aplicabilidade do
Teste de Rorschach
Carla Priscila da Silva Pereira
Aplicabilidade do
Teste de Rorschach
Introdução
O teste Rosrchach foi criado em 1921, completando mais de 100 anos de história.
Embora seja conhecido como um teste projetivo, ao longo do tempo, muitos estudos
foram desenvolvidos sobre seus complexos sistemas de avaliação e interpretação,
fato que deu a ele caráter de teste de desempenho. Porém, ao contrário dos testes de
inteligência, no Rorschach o desempenho não tem a ver com os escores do teste e sim
com o modo que o indivíduo responde aos estímulos, característica que é reforçada
no sistema de avaliação por performance – R-PAS (Pelisoli; Lago, 2018). Entre muitas
críticas e pesquisas conquistou reconhecimento mundial, sendo utilizado amplamente
na área clínica e forense.
Objetivos da Aprendizagem
Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de:
• Identificar a aplicabilidade do teste Rorschach.
• Reconhecer a viabilidade do instrumento para o contexto clínico.
• Compreender a viabilidade e fatores que podem influenciar na aplicabilidade
do Rorschach no contexto forense.
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Aplicabilidade do Teste
O teste de Rorschach é considerado projetivo, com o maior número de estudos de
validade, pois fornece dados sobre sua personalidade mediante seu posicionamento
frente à dinâmica de estímulos e respostas; ou seja, como o indivíduo percebe e interpreta
os estímulos ambíguos revelando aspectos de sua personalidade (Amparo et al., 2012;
Villemor-Amaral; Pianowski, 2019). Dessa forma, o teste avalia o desempenho típico
do indivíduo, isto é, como se comporta frente aos estímulos. É importante ressaltar
que, embora promova insights acerca dos aspectos da personalidade e padrões de
pensamento, o teste não consegue ser uma medida direta sobre seu desempenho
cotidiano, em razão de que a sistematização das interpretações de respostas permite
a generalização de confiança dos comportamentos apresentados. Também é válido
considerar o fator de interpretação das respostas, que por sua vez deverá ser realizada
com cautela, e não necessariamente a partir de uma representação direta dos
comportamentos, considerando o contexto e a individualidade do sujeito. (Villemor-
Amaral; Pianowski, 2019).
Teste de personalidade
Fonte: © Freepik, Freepik, 2024.
#pratodosverem: imagem do perfil de um homem, com a cabeça coberta por
uma fumaça azul.
Avaliação da Personalidade
As bases teóricas do teste estão nos elementos perceptivos do indivíduo e em como
ele capta e interpreta os estímulos do teste. Os estímulos ambíguos exigem que o
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examinado os organize, elabore respostas, escolha as mais adequadas e as interprete,
imprimindo sua marca em cada processo de escolha.
Alguns destaques são importantes neste momento, já que o teste em questão não
exige uma “escolha mais adequada” – sendo este um movimento interno do sujeito
–, em vez disso, atua explorando como o indivíduo interpreta e reage aos estímulos
ambíguos, que por sua vez refletirão nos aspectos de sua personalidade. Do mesmo
modo, no teste de Rorschach, o foco está mais em torno de como as respostas dadas
revelariam aspectos da personalidade do que em uma escolha consciente de resposta.
Curiosidade
Herman Rorschach desenvolveu sua teoria pelas vivências
com a arte, pois também era um artista. Mas a inspiração para
o desenvolvimento do teste é originária de um jogo de cartas
da época.
Os dados de elaboração de respostas é a parte fundamental da coleta no Rorschach,
pois direcionam comportamento, percepção, tomada de decisão e qualificação das
respostas, os quais, no processo de interpretação, permitem compreender a dinâmica
de funcionamento do indivíduo e sua manifestação em outros contextos. As evidências
neurológicas poderão agir de forma a apoiar a compreensão dos processos subjacentes
às respostas, contudo a interpretação deverá agir em consideração ao caráter projetivo,
não alcançando o elemento direto para a mensuração da autorregulação emocional
(Vliermor-Amaral; Pienowski, 2019).
Desse modo, há evidências de que o teste é capaz de captar: a personalidade em
ação; aspectos cognitivos e afetivos interagindo e expressando características da
personalidade, como motivação, produtividade, construção e curso do pensamento;
compreensão e acurácia no julgamento, como representa a si mesmo e aos outros,
ao explicar suas relações pessoais e interpessoais; além de perturbações ou emoções
negativas que interferem na adaptação do indivíduo (Villermor-Amaral; Pianowski, 2019).
A interpretação de dados sistematizada e normatizada possibilitou a organização
das variáveis encontradas em domínios interpretativos. Como exemplo, podemos
citar o sistema de avaliação por performance do Rorschach (R-PAS), que apresenta
quatro domínios: engajamento e processamento cognitivo, problemas de percepção e
pensamento, estresse e distresse, e percepção de si e dos outros. Tais achados tornam
o teste potente para o uso clínico principalmente no que diz respeito ao funcionamento
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individual do sujeito. Contudo, exige tempo e capacitação do profissional para realizar
o processo de interpretação, visto que cada comportamento diante do estímulo é
um dado para ser codificado, sistematizado e interpretado para só depois chegar às
características do indivíduo (Villermor-Amaral; Pianowski, 2019).
Diagnósticos de Transtornos Mentais
O teste de Rorschach é universalmente reconhecido como instrumento válido para
avaliação de personalidade e para a aplicação em crianças, adultos e adolescentes,
em ambientes clínicos, quando se quer uma análise mais aprofundada do indivíduo
ou, ainda, para avaliação de psicopatologia e da personalidade com o intuito de
planejar os tratamentos. Mais recentemente, tem sido utilizado como estratégia de
intervenção, pois favorece o autoconhecimento (Villermor-Amaral; Pianowski, 2019).
Dinâmica psíquica revelada
Fonte: © jcomp, Freepik, 2024.
#pratodosverem: imagem de uma mão sobre a qual paira a
ilustração de um encéfalo.
Além disso, o teste de Rorschach tem se mostrado útil para definir quadros
psicopatológicos gerais, como depressão, transtorno esquizofrênico e transtorno
de personalidade borderline. No entanto, nem sempre é possível realizar diagnóstico
diferencial, por exemplo, caracterizando diferentes quadros depressivos unipolar
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ou bipolar, ou ainda de perturbações menores. Também, mostra-se sensível para
quadros graves, variações de quadros clínicos e a alguns medicamentos. Portanto,
é importante destacar que esse teste poderá fornecer informações úteis, entretanto
não deve ser utilizado de forma isolada na construção de diagnósticos, sendo
fundamental a integração dos resultados com outras informações. Na área clínica,
auxilia na avaliação da personalidade e em áreas que poderiam ser trabalhadas a
psicoterapia (Cunha, 2007).
Atenção
Nos casos de diagnóstico diferencial, é essencial o conhecimento
da história de vida do indivíduo para traçar as hipóteses iniciais
que serão confrontadas com os achados do teste.
Ainda, o teste fornece informações sobre instabilidade de afeto ou humor, impulsividade,
agressividade, censo de realidade prejudicado, capacidade afetada de enfrentamento,
solidão, sentimentos de desamparo, autodestrutivos, além de características de
personalidade como narcisismo, paranoia entre outros (Pelisoli; Lago, 2018).
Características de personalidade
Fonte: © Freepik, Freepik, 2024.
#pratodosverem: imagem desfocada, com fundo em tons de azul, mostra perfil
de uma pessoa em preto; da parte frontal da sua cabeça sai uma luz amarelada.
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Assim, o teste é útil para avaliação da dinâmica de personalidade, quadros
psicopatológicos (borderline, esquizofrenia), como também para o uso clínico na
avaliação de ansiedade infantil, em situações de trauma, compreensão de dinâmicas
de personalidade e para auxiliar no processo de cirurgia transexualizadora (Amparo et
al., 2012; Pelisoli; Lago, 2018).
Reflita
No teste de Rorschach, que possui 100 anos de história, os
principais problemas apontados foram a sua complexidade e falta
de padronização na aplicação e interpretação, que levaram ao
questionamento de sua validade.
Sistema Exner como Avaliação do Estado Emocional do Paciente
O Sistema de Exner foi proposto em 1974, conhecido como Sistema Compressivo
(SC). Desde a morte de Herman Rorschach, muitos seguidores passaram a
desenvolver pesquisas sobre o seu teste dando origem a vários sistemas de aplicação
e interpretação. Em 1930, nos Estados Unidos e Europa, já havia cinco sistemas
oficiais: Beck, Hertz, Klopfer, Piotrowski e Rapapport, porém as divergências levavam
a reduzir a credibilidade no teste. Exner, na década de 1950, iniciou os trabalhos com
um grupo de pesquisadores (Rorschach Research Conceil) no sentido de unificar
os sistemas existentes. Dessa forma, depois de várias pesquisas, desenvolveu o
Sistema Compressivo com a integração dos dados e pesquisas da época (Amaro;
Hisatugo, 2019).
Dessa forma, Exner incluiu ao sistema as variáveis mais relevantes para a sua validade
e fidedignidade, também estabeleceu um conjunto de normas para diferentes faixas
etárias. No Brasil, as primeiras pesquisas com o SC iniciaram na década de 1990;
contudo, só em 2003 o instrumento foi validado pelo Conselho Federal de Psicologia
(Nascimento; Semer, 2007; Amaro; Hisatugo, 2019).
As contribuições do novo sistema foram a inclusão de novas variáveis como,
por exemplo, índice de esquizofrenia (SCZI), índices de transtorno de percepção
do pensamento (PTI), resposta de representação humana (GHR:PHR), índice de
comprometimento do ego (EII2), o qual traz informações sobre o funcionamento do
ego na relação com a realidade, controle de impulso, relação objetal, processo de
pensamento, autonomia e síntese (Nascimento; Semer, 2007).
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Foi acrescentado, ainda, o índice de desenvolvimento (d), que mede o progresso de
desenvolvimento em pessoas de até 25 anos, ao demonstrar maturidade ou imaturidade
na interpretação, o que corresponde à capacidade de processar informações e de
regular estados emocionais, e ao relacionamento interpessoal. Exner ressalta a
importância da qualificação do examinador para a integração desses dados; para
ele é necessária experiência clínica, conhecimento sobre psicopatologia, teorias da
personalidade e desenvolvimento (Nascimento; Semer, 2018).
Validade
A validade de um teste significa que ele é capaz de medir o que se propõe a
medir. Na prática, as evidências e a teoria sustentam a interpretação do teste.
Fidedignidade
Diz respeito à propriedade psicométrica dos itens que compõem o teste que
demonstram estabilidade. Quando reaplicados, permanecem consistentes.
Normatização
Conjunto de dados que representa o desempenho das pessoas que formam a
amostra do teste.
Aplicabilidade do Teste de Rorschach no Contexto
Forense
Avaliação Psicológica no Contexto Forense
A avaliação psicológica no contexto forense é um processo de avaliação que vai além
da compreensão da dinâmica da personalidade. O psicólogo perito, tal como definido
na resolução do CFP 08/2010, pode atuar na vara de infância e juventude (adoção,
guarda e risco para acolhimento, destituição do poder, adolescentes que cometeram
atos infracionais), vara de família (guarda, alienação parental, negação de paternidade,
relação de socioafetividade, abuso sexual), criminal (abusos e crimes) e justiça do
trabalho (situações indenizatórias) (Viglione, 2022; Arbach; Barboni; Mercurio, 2024).
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Avaliações no contexto forense
Fonte: © freepik, Freepik, 2024.
#pratodosverem: imagem mostrando rosto de um homem de frente, com o lado
direito sombreado; há vários fragmentos de parede e papéis ao seu redor.
O teste de Rorschach é frequentemente utilizado como instrumento de avaliação de
personalidade para o contexto jurídico, a fim de dar subsídios para a atribuição de
sentenças com vistas nas dinâmicas de personalidade encontradas. Entretanto, é
importante ressaltar que nenhuma ferramenta de avaliação consegue proferir dados
de previsibilidade comportamental com precisão e garantia. No Brasil, é comum a
solicitação por parte do judiciário da aplicação do teste de Rorschach; contudo, é
da autonomia e responsabilidade do psicólogo planejar seu trabalho e escolher os
instrumentos adequados de acordo com o objetivo da avaliação (Paisan, 2010).
O psicólogo forense deve utilizar de instrumentos autorizados pelo CFP; logo, é
fundamental manter-se atualizado e atento às alterações no Sistema de Testes
Psicológicos (SATEPSI) para se certificar de que o instrumento possui parecer
favorável. Nesse sentido, as avaliações forenses necessitam de informações precisas,
pois impactam diretamente na vida dos envolvidos (Pelisoli; Lago, 2018).
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Compreensão da Dinâmica da Personalidade no Contexto Forense
A avaliação psicológica forense tem tido grande impacto nas decisões judiciais. No
teste, a dinâmica de personalidade é compreendida por meio da percepção que o
indivíduo tem dos estímulos apresentados e de como aplica significado a eles.
Assim, esse instrumento pode revelar características que as pessoas não conhecem
completamente em si ou que não gostariam de revelar. Como o teste acessa funções
cerebrais subcorticais do hemisfério direito, no qual sequelas emocionais negativas
provenientes de traumas normalmente ficam registradas, também é útil no sentido de
avaliar as vítimas e os impactos de suas vivências (Pelisoli; Lago, 2018).
As pesquisas sobre o uso do teste na área forense denotam que ele tem sido
utilizado para identificação de psicopatias, quadros psicopatológicos, homicídios e
agressividade. Na vara de família, são objetos das avaliações os crimes sexuais, perfil
de personalidade do agressor, traços de perversão e narcisismo (Amparo et al., 2012;
Arbach; Barboni; Mercurio, 2024).
O uso de instrumentos padronizados traz segurança e precisão das informações.
Os testes são complementares às entrevistas para avaliação de dados específicos
e podem esclarecer características de personalidade observadas pelo psicólogo,
na dinâmica da relação do sujeito com o outro e com mundo, funcionamento diante
de conflitos familiares, conflitos com a lei, atos infracionais e crimes. Assim, nesse
contexto, ultrapassa as questões clínicas, uma vez que tem o objetivo de prever
comportamentos que terão repercussão legal. Logo, o psicólogo deve estar ciente
do impacto do seu trabalho na vida das pessoas agindo de forma ética e cuidadosa
(Pelisoli; Lago, 2018; Paisan 2010; Viglione et al., 2022).
Pelo fato de o Rorschach ser um sistema complexo de aplicação, codificação e
interpretação, é apontado como última escolha para avaliação forense, usado apenas
para as avaliações profundas de personalidade, principalmente nos casos de abuso
sexual e vitimização. Isso também se deve às limitações do uso do teste no contexto
forense (Pelisoli; Lago, 2018).
Limites e Vantagens do Método para o Contexto
Forense
O método de Rorschach teve ampla utilização no contexto forense, visto que suas
características favorecem a apreensão da personalidade com baixa interferência do
examinando, no entanto apresenta limitações para seu uso. A tabela a seguir mostra
os aspectos positivos e negativos do teste no contexto forense.
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Vantagens e limitações do uso do Rorschach na avaliação forense
Vantagens do uso do Rorschach Limitações ao uso
• Índices quantitativos comparam os sujeitos • Limitação de tempo e prazo de entrega de
aos dados normatizados. documentos.
• Mediação indireta que reduz a • Acesso às pessoas e ao instrumento.
dissimulação. • Maior incidência de simulação ou
• Característica ambígua. dissimulação por parte do examinando.
• Estabilidade temporal. • Aplicação da técnica e interpretação dos
dados.
• Limitações por parte do profissional
considerando que a natureza projetiva
sugere interpretação do avaliador.
Fonte: adaptado de Pelisoli e Lago (2019).
#pratodosverem: tabela com duas colunas em que, à esquerda, são apresen-
tadas as vantagens do uso do Rorschach no contexto forense e, à direita, as
limitações.
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Ministério Público pediu a Nardoni antes de a justiça decidir sobre
a sua liberdade, clicando neste link.
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Conclusão
O teste de Rorschach é um instrumento valioso para compreensão da dinâmica de
personalidade, com evidências de validade tanto no uso clínico quanto no contexto
forense. Ao longo de sua história, o desenvolvimento de pesquisas sobre o teste foi
um marco para a qualificação do instrumento. Além disso, é importante ressaltar que
a aplicação do teste exige do aplicador dedicação e estudo sobre o instrumento, e,
acima de tudo, de todos os construtos envolvidos na avaliação: conhecimento do
teste, estrutura da personalidade, desenvolvimento e do contexto no qual vai ocorrer
a avaliação, com o objetivo de integrar os dados. É de grande responsabilidade
profissional a escolha de um instrumento complexo sem o devido preparo.
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Referências
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São Paulo: Hogrefe, 2019.
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arttext&pid=S1688-42212024000101212&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 16 ago. 2024.
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