MÉTODOS DE
INVESTIGAÇÃO DA
PERSONALIDADE
UNIDADE III
Aplicação do
Teste de Rorschach
Carla Priscila da Silva Pereira
Aplicação do
Teste de Rorschach
Introdução
O teste Rosrchach é um teste projetivo desenvolvido por Hermann Rorschach,
considerado um método normativo válido para estudo da personalidade. É
conhecido mundialmente como o teste das manchas de tintas. Por ser complexo, o
rigor metodológico é necessário em sua aplicação, com o intuito de que a validade
do teste seja mantida, assim a habilidade do examinador é um componente
essencial da avaliação.
Objetivos da Aprendizagem
Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de:
• Identificar os requisitos necessários para a aplicação do teste.
• Analisar as principais condutas a serem adotadas durante a aplicação do teste.
• Identificar os principais desafios da testagem psicológica.
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Preparo para Aplicação do Teste
Neste tópico, vamos dar atenção ao preparo da aplicação do teste de Rorschach,
aos aspectos éticos que envolvem os testes psicológicos e à devida preparação do
ambiente para realizar a testagem.
Hermann Rorschach não apenas criou o teste, mas pensou em toda a estrutura
metodológica para sua aplicação, desde a padronização da apresentação do material
ao sujeito até a codificação e interpretação dos dados com base em diferenças
individuais e estilos cognitivos (Pasian, 2010).
Assim, o autor desenvolveu um modelo único de pranchas, que compõe o material
a ser mostrado ao examinando, formulou um modo específico para a realização do
inquérito sobre o que as manchas significariam ao indivíduo, elaborou critérios bem
delineados para a classificação de respostas de acordo com o modo como o sujeito
interpretava os estímulos, comparou as respostas de pacientes e não pacientes,
criando uma normatização para grupos clínicos e não clínicos, propôs diretrizes
interpretativas para inferir as características de personalidade. Suas características
lhes conferem validade inclusive para avaliações em diferentes culturas, idiomas,
facilitando adaptações transculturais (Pasian, 2010).
Manchas de tinta
Fonte: © [Link], Freepik (2024).
#pratodosverem: manchas de tinta, nas cores rosa e marrom,
sobre papel cartão.
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O teste de Rorschach é composto por 10 lâminas ou pranchas – cinco pranchas
acromáticas, duas pranchas bicromáticas e três pranchas policromadas (coloridas)
–, cada uma com borrões de tinta sem contorno definido e textura variável. Todas as
figuras possuem perfeita simetria, tendo como referência o eixo vertical. Na testagem,
as pranchas são apresentadas sequencialmente de um a dez, e o examinando deve
observar o material e responder o que lhe parece, sugere ou lhe faz lembrar o estímulo.
O teste tem tempo indeterminado para as respostas, porém a aplicação dura cerca de
60 minutos. Sua indicação é para aplicação individual, porém há registros de uso em
casais para auxílio na condução do processo terapêutico (Torres, 2010).
Aspectos Éticos na Testagem Psicológica
A testagem psicológica é um procedimento exclusivo do psicólogo; assim, a
responsabilidade pela escolha do instrumento, aplicação e interpretação fazem parte
da conduta ética do profissional. Nesse sentido, o Conselho Federal de Psicologia traz
diretrizes para a utilização do teste:
• Ser proficiente na aplicação do teste escolhido, que significa ter domínio téc-
nico e teórico para a interpretação dos dados.
• Escolher instrumentos que respeitem as características dos avaliados.
• Verificar se existem características específicas do indivíduo para a reali-
zação do teste, tanto físicas quanto psicológicas, que possam interferir no
seu desempenho.
• Cuidar da adequação do ambiente físico, vestimenta do examinador e qual-
quer outro estímulo que possa interferir na avaliação.
• Utilizar o teste dentro dos padrões referidos no manual do teste, o que inclui:
forma de aplicação, materiais padronizados e procedimentos de interpretação.
• Destaca-se que o teste é um elemento complementar à avaliação psicológica,
dessa forma o resultado da avaliação não pode ser dado apenas por ele, con-
forme a resolução CFP 09/2008 (CFP, 2022).
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Testagem psicológica
Fonte: © freepik, Freepik (2024).
#pratodosverem: imagem de uma mulher de calça jeans e blusa rosa sentada
em frente a um profissional que mostra uma prancheta com estímulos.
A padronização do teste diz respeito à sua forma de aplicação e tipo do material. É
importante destacar que a reprodução de testes psicológicos prejudica a validade do
teste, implicando falta de ética, da mesma maneira não é possível fazer adaptações no
modo de aplicação, e testes impressos não podem ser aplicados on-line. Condições
como essas também devem ser avaliadas, visto que comprometem a avaliação
realizada (CFP, 2022).
Atenção
O código de ética profissional em seu artigo 2º inciso h destaca:
é vedado ao psicólogo interferir na validade e fidedignidade de
instrumentos e técnicas psicológicas.
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Preparo do Ambiente e Sujeito para a Aplicação
O teste de Rorschach foi elaborado a partir de um experimento psicológico; por isso,
o autor teve uma preocupação singular com a metodologia do teste. Sensível às
interferências que o meio poderia causar no exame psicológico, Rorschach descreveu
passo a passo seu experimento a fim de garantir a padronização do teste (Hutz;
Bandeira; Trentini, 2018).
O primeiro cuidado que se deve ter ao se realizar um teste é refletir sobre qual o propósito
da avaliação, pois a própria situação de testagem pode interferir na resposta. Ou seja,
se a avaliação é clínica para auxiliar em um tratamento, ela terá um peso diferente de
uma testagem que visa uma hospitalização ou perícia judicial. Se o uso é para fins de
pesquisa, a colaboração e a disposição do examinando serão diferentes do que para
fins médicos ou legais (Pasian, 2010).
Outro ponto importante antes de iniciar a testagem é avaliar a compreensão do sujeito
e sua cultura a fim de identificar se já possui informações suficientes sobre o indivíduo
para realizar a aplicação, e se o teste proposto é adequado para a avaliação do
indivíduo. Questões como essas são fundamentais antes de iniciar qualquer testagem
psicológica (Pasian, 2010).
Reflita
O Brasil é um país de território extenso, por isso popularmente
se diz que no Brasil há vários “Brasis”. Dessa forma, será
mesmo que dentro de um mesmo país precisaremos fazer
adaptações regionais?
Para a aplicação, é importante a organização prévia dos materiais: as pranchas do
teste, folhas do protocolo de registro, cronômetro para registrar o tempo reacional
e o tempo total do teste, lápis para a anotação. Também é necessário o preparo
do ambiente e a sala de aplicação deve ser um local silencioso, tranquilo e livre
de interferências; ou seja, com pouco estímulo, com iluminação adequada, de
preferência luz natural para não interferir na prancha, principalmente na questão
do sombreamento (Coelho, 2000).
Quanto à posição do examinador, embora não haja uma obrigatoriedade, é orientado
que verifique uma adequação à sala de aplicação, de modo que consiga visualizar o
sujeito, seus movimentos, as pranchas, mas que também seja uma postura adequada
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para não o inibir. O tempo de execução da prova pode variar de acordo com o protocolo
utilizado (Coelho, 2000).
Testagem Psicológica
Estabelecendo bom Rapport
Uma vez decidido que o teste é adequado para o objetivo da avaliação e para o sujeito
em questão, é necessário que o examinador estabeleça um bom rapport, pois a
situação de testagem é um momento de grande ansiedade por ser uma situação nova
e inesperada. Logo, estabelecer um vínculo inicial é essencial para que o indivíduo se
sinta confortável, compreendido e tenha confiança no examinador. É fundamental dar
instruções claras a respeito de como realizar o teste para obter um número satisfatório
de respostas que sejam suficientes para realizar a classificação, codificação e
interpretação dos dados (Pasian, 2010).
Rapport
Fonte: © freepik, Freepik (2024).
#pratodosverem: imagem de uma mulher vestindo calça preta e camisa branca,
sentada em uma poltrona; na sua frente há uma mesa com papéis e caneta,
e ao seu lado um homem de camisa branca e gravata preta gesticula,
explicando algo a ela.
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Deve-se deixar claro o motivo da testagem psicológica, a natureza da avaliação, a
qual avalia personalidade, e não outros construtos que podem ser aplicados em
pessoas de qualquer idade, escolaridade, cultura ou nível socioeconômico. Também
é importante ressaltar sobre o caráter sigiloso da prova. Estabelecido o contato
inicial, é indispensável coletar alguns dados do indivíduo e checar sua disposição
para a realização do teste. Caso ele esteja sob efeito de medicação, é necessário
verificar se o objetivo da testagem é relacionado ao uso da substância; ainda, caso
esteja com fome ou sonolento, deve-se avaliar a pertinência de concluir a avaliação
ou adiá-la (Coelho, 2000).
Registro das Respostas
A primeira fase do teste é de associação livre do indivíduo frente ao estímulo. Após a
certeza de que o rapport foi estabelecido, seguem-se as instruções do teste, solicitando
que o examinando diga o que vê nas manchas de tinta, o que elas lhe representam.
Deve-se destacar que não há certo ou errado, e que as pessoas veem coisas diferentes
umas das outras; o importante é falar livremente sobre o que vê. É essencial avisar
ao examinando que serão feitas anotações durante a testagem, bem como o uso de
cronômetro, os quais são para registro do examinador. Não há limite de tempo, ao
terminar uma prancha ela será devolvida para o examinador (Coelho, 2000).
Registro das respostas
Fonte: © freepik, Freepick (2024).
#pratodosverem: imagem de um homem de camisa azul com uma pasta laranja
nas mãos sobre a qual faz o registro de informações.
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O registro da resposta deve seguir a folha de protocolo e todos os movimentos
do indivíduo diante do teste são considerados informações de reação. Caso o
examinando movimente a prancha para sua interpretação, essas rotações devem ser
anotadas por meio de símbolos identificando posição normal (^), posição invertida (ν),
para lateral esquerda (<), para lateral direita (>) e, no caso de giro, este será indicado
por uma seta em movimento circular. Todas as respostas devem ser anotadas, de
preferência de forma literal, assim como expressões verbais e comportamentais,
tempo de reação e total das respostas. Caso o sujeito dê apenas uma resposta, ele
deve ser estimulado a continuar: “Você não gostaria de tentar ver mais alguma coisa
nesta mancha?” (Coelho, 2000).
Os casos de inibição diante do estímulo também deverão ser anotados: se ocorrerem
em uma das três pranchas da I a VII, poderá fazer uma reapresentação do estímulo
após a prancha X. Se a inibição ocorrer da prancha VII a X, todo o teste deverá ser
repassado; o mesmo ocorrerá se houver inibição em mais de três pranchas, baixo
número de respostas no teste (menor que quinze) ou perseveração na resposta (ver
a mesma coisa em várias pranchas). Os tempos de reação e total serão anotados e
somados para a interpretação (Coelho, 2000).
São registradas como rejeição as pranchas que, mesmo após a reapresentação ou
repassagem, não forem interpretadas pelo indivíduo. Terminada a fase de associação,
inicia-se o inquérito, que é a compreensão por parte do examinador de como o indivíduo
construiu a associação e percepção, e elaboração da resposta (Coelho, 2000).
Durante a aplicação do teste, todas as respostas anotadas pelo examinador em uma
folha de protocolo padronizada, registram o processo do examinando. A interpretação
é realizada de acordo com três elementos: localização, determinantes e conteúdos
(Torres, 2010). Acompanhe!
Localização
Porção da mancha na qual foi visualizada a resposta.
Determinantes
Qualidade perceptiva da resposta (itens como forma, cor, sombreamento e
movimento).
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Conteúdos
O que foi visto na imagem: animal, humano ou anatômico.
Assim, o examinador deve observar quando o sujeito utiliza: forma (contorno das
manchas); cor (considera as cores nas repostas); luminosidade (quando utiliza as
diferentes tonalidades das manchas); movimento (sente cinesia nas manchas, ou seja,
movimentos); e perspectivas (ideias de profundidade ou plano diferentes na construção
da resposta). Ao finalizar o teste, é importante abrir espaço para que o examinando
coloque suas vivências e seja feito o encerramento da sessão (Coelho, 2000).
Curiosidade
Você sabia que existem estudos para realizar a adaptação do
Rorschach para pessoas com deficiência visual? As mudanças
foram realizadas nas instruções e nas pranchas feitas de material
com textura.
Rorschach define a compreensão da personalidade humana por meio dos tipos de
vivências ou experiências de base (EB). Ainda, conceituou os tipos como: introversivo,
extratensivo, ambigual e coartado, que indicam o modo de relação com o mundo
de maneira estável. O tipo de vivência se destaca basicamente pelas respostas de
movimento humano (M) e respostas de cor (C) no teste.
Tipos de personalidade
Introversivo (M>Wsum C) Idealista reflexivo; contemplativo; produtivo mentalmente.
Pessoa que aprende por ensaio; erro no contato afetivo
Extratensivo (M<Wsum C) com o meio externo; maior excitabilidade e impulsividade.
Apresenta capacidades iguais de introversivo e
Ambigual (M=WSum C) extratensivo, porém é mais instável na forma como lida
com suas experiências.
Reprime a experiência introversiva e extratensiva; é mais frio
Coartado ou evitativo e distante; busca o autocontrole racional continuamente,
(0M:0WsumC) esquivando-se do seu meio interno (pensamentos e valores)
e meio externo (pessoas e ambientes).
Fonte: adaptado de Pasian (2010).
#pratodosverem: tabela de duas colunas: à esquerda, cita-se os tipos
de personalidade; e, na coluna à direita, explica-se o funcionamento de cada
tipo correspondente.
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A avaliação qualitativa se apoia em dados estatísticos; esses atributos levam a
cálculos que permitem a identificação de nove itens. A interpretação considera
resultados brutos, índices calculados, reação diante do elemento apresentado,
denotando o desempenho do indivíduo e levando em consideração a sequência de
resposta, qualidade da resposta e simbolismo da lâmina indicadora de ansiedade.
Os resultados do teste evidenciam produtividade intelectual, tipologia, introversão e
extroversão, estrutura de personalidade, foco nos conflitos (Torres, 2010).
O teste de Rorschach é um instrumento particularmente adaptável às diferentes
culturas, pois os estímulos visuais podem ser percebidos por qualquer indivíduo sem
restrições culturais. Ao mesmo tempo, é considerado um instrumento sensível à
cultura; portanto, o examinador precisa ter bom conhecimento da cultura do indivíduo
para realizar as classificações de respostas de maneira correta (Pasian, 2010).
Desafios na Aplicação
O teste de Rorschach é um instrumento complexo e de difícil aplicação. Existem alguns
fatores intervenientes que merecem ser observados na escolha do teste:
• Adequação de utilização;
• Entendimento da interação clínica;
• Identificação do que é uma verbalização classificável;
• Atribuição correta dos escores;
• Levantamento dos cálculos de índices bases para as hipóteses;
• Integração de dados para diagnóstico;
• Experiência clínica, formação, manejo do manual (Cunha et al., 2007).
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Saiba mais
Confira o artigo sobre Rorschach para deficientes visuais:
apresentação de instruções e pranchas adaptadas. Acesse aqui.
Chegamos ao fim desta unidade!
Saiba mais
Para saber mais sobre este tema, acesse o link.
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Conclusão
O teste de Roschach é um teste complexo em sua aplicação, com rigor metodológico.
Dessa maneira, para o bom uso do teste, é necessário o estudo exaustivo do manual de
instrução, além do bom treino do examinador frente aos fatores que podem interferir
na avaliação. Assim, a qualificação em Rorschach e a supervisão técnica podem ser
de grande valia.
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Referências
COELHO, L. M. S. Rorschach Clínico: Manual Básico. São Paulo: Terceira Margem, 2000.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Cartilha da Avaliação Psicológica. 2.
ed. Brasília: CFP, 2022. Disponível em: [Link]
avaliacao-psicologica-2022/. Acesso em: 4 set. 2024.
CUNHA, J. A. et al. Psicodiagnóstico-V. 5. ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Artmed, 2007.
HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C. M. Avaliação psicológica da inteligência e
da personalidade. Porto Alegre: Artmed, 2018.
PASIAN, S. R. (org.). Avanços do Rorschach no Brasil. São Paulo: Ampla, 2010.
TORRES, J. M. A. O Teste de Rorschach na história da avaliação psicológica. Rev.
NUFEN, São Paulo, v. 2, n. 1, jun. 2010. Disponível em: [Link]
[Link]?script=sci_arttext&pid=S2175-25912010000100006&lng=pt&nrm=iso.
Acesso em: 4 set. 2024.
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