Lições das Crises Financeiras Históricas
Lições das Crises Financeiras Históricas
Coimbra
31 de julho de 2021
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Crises Financeiras -
O que nos ensina a história?
Orientadora
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TERMO DE RESPONSABILIDADE
Declaro ser o autor desta dissertação, que constitui um trabalho original e inédito, que nunca
foi submetido a outra instituição de ensino superior para obtenção de um grau académico ou
outra habilitação. Atesto ainda que todas as citações estão devidamente identificadas e que
tenho consciência de que o plágio constitui uma grave falta de ética, que poderá resultar na
anulação da presente dissertação.
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AGRADECIMENTOS
À pessoa que esteve sempre presente ao meu lado desde o dia que recebi a aceitação da
minha candidatura, até à última letra escrita neste trabalho, a Inês Domingues, a minha
companheira de longa data, amiga, conselheira, e, acima de tudo, a pessoa que mais me
apoiou nesta caminhada académica. Sofremos juntos e acabamos juntos.
Um especial obrigado à minha professora e orientadora Drª Ana Paula Quelhas pelo
acompanhamento e apoio prestado. Acredito que também ela tenha tido dificuldades neste
ano tão atípico e mesmo assim prestou-me a assistência necessária para concluir este
capítulo da minha vida. Obrigado professora.
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RESUMO
Certo que cada crise é individual e característicamente única, no entanto, após este estudo,
acredito que serão criadas as ferramentar necessárias para poder determinar se existem,
ou não, padrões chave na criação de uma crise financeira, isto pois apesar de existirem
ínumeras teorias sobre as suas possíveis causas, o objetivo deste trabalho não é construir
um modelo matemático que nos irá permitir prever o aparecimento ou criação de uma
crise. Não, o meu objetivo é tentar encontrar padrões nos espaços temporais que
antecipam as crises, e, desta forma, ter a capacidade de indentificar se estes mesmos
padrões se estão,ou voltarão, a repetir.
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ÍNDICE
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Índice de gráficos, figuras, quadros e tabelas
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Abreviaturas e Siglas
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1. INTRODUÇÃO
As crises financeiras, ou colapsos dos mercados financeiros, são uma realidade bem
existente e uma ameaça constante. Com o passar dos anos, o aumento da complexidade
dos ativos financeiros tem sido cada vez maior e a informática está sempre presente e em
constante evolução. Infelizmente, com um mundo em constante desenvolvimento, vem o
lado negro da moeda, que, neste caso, são as crises financeiras. Por mais preparado que
acreditamos estar, estes colapsos levam países inteiros a ficarem em situações extramente
difíceis. Famílias inteiras ficam sem meios financeiros, perdem as suas poupanças e ficam
sem as suas casa. Tudo e todos são afetados, governos, empresas, pessoas, portanto é de
grande importância tentar perceber os colapsos financeiros que tiveram lugar no passado
para tentarmos determinar quais os fatores e determinantes que possam desencadear tal
evento.
Como seria de prever, nenhuma crise é igual uma à outra, e, portanto, o objetivo deste
trabalho não é tentar determinar qual o evento que irá desencadear o próximo colapso,
mas tentar perceber qual o ambiente, as condições perfeitas, para que tal aconteça. Isto,
pois, cada crash teve o seu momento chave onde tudo começou, e apesar de parecer de
fácil e direta resolução, não o é, pois, vários investigadores podem ter várias explicações
para a mesma crise, discordando uns com os outros. Para tal, foram selecionados para
este estudo apenas crises financeiras mundiais de grande impacto, onde todos ou vários
mercados financeiros foram afetados.
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Hodgson G. M. argumenta que a economia e as finanças nos dias de hoje são unicamente
interpretados com modelos matemáticos e moldados por agendas pessoais pré-
determinadas, onde o conhecimento e análise do passado não são tão importantes como
deveriam ser. Certo que cada crise tem as suas especificidades e as suas causas únicas, no
entanto, é necessário estudar o comportamento humano como qualquer outro possível
fator da crise, isto porque a própria especulação de mercado é de natureza humana. Para
poder entender futuras crises temos que aprender das crises anteriores, isto para absorver
toda a informação e experiência necessária para evitar, ou atenuar, as terríveis
consequências que uma futura crise possa vir a ter.
Grande parte dos economistas atuais estão interessados em modelos matemáticos, isto
porque lhes são ensinadas técnicas de análise em vez do contexto intelectual, histórico e
institucional que nos faz questionar o porquê e a origem dos acontecimentos. Visto que a
matemática inundou os currículos escolares, os estudantes desta área tornaram-se em
profissionais não equipados nem encorajados em priorizar as economias do mundo real e
das instituições. Já não se questiona a natureza e a causa da pobreza e da riqueza das
nações, mas sim análises matemáticas para determinar os fatores ou determinantes de
determinado evento.
Foi feito um questionário aos estudantes das universidades de topo dos EUA, onde apenas
3% dos formados determinavam o “ter um conhecimento profundo da economia” como
“muito importante”, enquanto que 65% consideravam “ ser esperto no sentido de resolver
problemas” ser o aspeto mais importante. Adicionalmente, 57% acredita que “excelência
na matemática” é de extrema importância. Apesar da economia moderna ser extramente
informatizada e complexa, a economia necessita igualmente de ser estudada e
compreendida como um organismo vivo e de constante alteração, e não apenas por
números e modelos matemáticos, mas sim como próprios seres “vivos”, visto que somos
nós humanos que moldamos e manipulamos o mercado e não apenas os números.
Friedmand cita o seguinte: “a economia está-se a tornar cada vez mais num ramo
matemático em vez de lidar com os problemas económicos reais”.
O problema não é necessariamente a matemática per se, mas a obsessão da técnica sobre
a substância. Devido ao facto do domínio da técnica na economia moderna, temos que
considerar como tal irá afetar o julgamento dos economistas e os conselhos dados aos
criadores de leis.
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2. CONTEXTUALIZAÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA
Uma “bolha” pode surgir com alguma facilidade, mesmo quando são fornecidas aos
investidores informações completas sobre o valor fundamental dos ativos. A “bolha”
tem o seu início com o desvio entre esse valor fundamental e o preço dos ativos. Para
que a mesma seja sustentável, é necessário que os investidores comprem os ativos ao
preço de mercado, não descontando o seu valor fundamental. Quanto mais se
transacionarem ativos financeiros sujeitos a especulação, mais a “bolha” vai
crescendo. Este processo desenvolve-se e autossustenta-se enquanto existir liquidez
no mercado, pois a falta de liquidez está fortemente associada ao rebentamento de
“bolhas”.
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2.1. Crise de 1929
A bolha no mercado financeiro formou-se durante o rápido crescimento dos anos 20,
induzindo muitos investidores a investir no mercado bull (crescente). Esta onda de
crescimento baseou-se maioritariamente na euforia que motiva indivíduos e instituições,
a acreditar que o mercado contnuará a crescer e que estão destinados a enriquecer. Este
sentimento de ganância foi então alimentado pela expansão do crédito na forma de
empréstimos por parte dos corretores, levando os investidores a alavancarem-se de forma
perigosa.
Existe uma discussão académica sobre quantos e quais fundamentos contribuíram para o
colapso do mercado, que estava caracterizado como mercado bull, e quais os momentos
decisivos que culminaram no desencadeamento da onda de especulação, isto pois apesar
da facilidade de crédito por parte dos corretores, a reserva federal tinha implementado
políticas monetárias rígidas. Adicionalmente, não foram realizados estudos suficientes
para determinar o efeito de eventos externos à criação da crise de 1929.
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teve início em março 1928, quando estava a decorrer um grande crescimento no mercado
de ações, tendo como exemplo a General Motors, que registou um aumento de 7 pontos
percentuais numa única semana e a RCA (RCA corporation) aumentou 14 pontos
percentuais.
Contudo, vários investigadores acreditam que qualquer outro evento poderia ter
desencadeado investidores irracionais a vender os seus ativos de forma descontrolada.
Decidiram focar-se na inevitabilidade do colapso da bolha financeira e na quebra de
confiança do público/investidores, levando, subsequentemente, ao colapso do mercado
financeiro.
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Figura 1- Stock Prices and Brokers' Loans
A Reserva Federal dos EUA decidiu implementar políticas monetárias rígidas durante
estes anos como uma consequência do receio existente em relação ao fluxo do crédito do
mercado de ações. O crédito excessivo originado pela especulação foi uma preocupação
constante da Reserva Federal neste período problemático. Sempre acreditaram que a
pressão direta podia ser utilizada para redirecionar o crédito fora da especulação, no
entanto a Reserva Federal de Nova York sempre se opôs a esta medida.
Existe, no entanto, uma questão esta que até agora tem sido ignorada, a questão dos juros,
isto pois em 1928 as taxas de juros dos empréstimos dos corretores aumentaram de forma
drástica, comparando-se com as taxas de juros do papel comercial e as taxas de desconto,
e apesar da diferença entre as taxas não ser constante no decorrer do boom, permaneceram
muito altas, sugerindo que foi o aumento da onda de especulação que aumentou as taxas
de juro. Sugere igualmente que as entidades que concedia empréstimos aos corretores, já
não consideravam os empréstimos concedidos pelos próprios corretores como seguros,
insistindo em cobrar prémios bastante elevados.
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acompanhariam a tendência do mercado, aumentando consideravelmente quando a
economia apresentasse às grandes melhorias. A convicção de Fisher foi confirmada em
1975 pelo trabalho de Sirkin.
Um dos argumentos que explica o boom do mercado de ações é que o aumento do preço
das ações teria sido justificado pelo aumento contínuo da economia, isto se os erros
políticos da Reserva federal e do Congresso não teriam levado a economia para uma
depressão, contudo, dada a duração normal dos ciclos dos negócios, aparenta ser
improvável que o boom pudesse ter sido sustentado por um período de tempo tão
prolongado.
White (1989) demonstrou entre 1922 e 1927, que os dividendos e os preços das ações
moviam-se juntamente. Esta tendência perdeu intensidade em 1928, quando os
dividendos, apesar de apresentarem um crescimento, não conseguiram acompanhar o
ainda maior crescimento do preço das ações. Este acontecimento dá-nos a ideia de que os
gestores não partilhavam o mesmo entusiasmo que o público. O facto do crescimento dos
dividendos não acompanhar o crescimento do preço das ações, não implica
necessariamente a existência de uma bolha financeira, sendo geralmente comum os
gestores estarem hesitantes em aumentar os dividendos.
Em 1928, o CEO do Bancitaly (futuro Banco da América), declarou que o preço elevado
das suas ações não era justificado, solicitando uma descida acentuada. Outros gestores
informaram igualmente o público que os preços praticados no mercado de ações não eram
justificados, tendo o exemplo das empresas Canadia Marconi e Brooklyn Edyson. Uma
mudança dos fundamentos pode ter iniciado o boom, mas não é a razão principal, isto
porque, apesar de várias empresas terem solicitado a descida do preço das suas ações, o
valor das mesmas manteve a sua tendência crescente. Este acontecimento leva a acreditar
que a causa principal do boom esteja ainda por ser explicada, sendo o candidato principal
a facilidade de conceção dos créditos praticados pelos corretores.
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afetadas pela especulação. Contudo, a problemática com os testes de bolha é que são
modelos específicos para um conjunto de fundamentos de mercado, portanto, poder-se-á
sempre encontrar uma bolha apenas pelo simples facto do modelo não ter sido
corretamente ajustado e parameterizado ao mercado em causa. Adicionalmente, os testes
empíricos foram realizados através de dados anuais, ora estes dados tornar-se-iam
suficientes para detetar bolhas de longa duração, e nunca o boom de 1928-1929.
Fisher (1966) demonstrou igualmente que o Index do preço das ações atingiu o seu
máximo em fevereiro de 1929, significando que a maioria das ações do New York
Exchange não foram sujeitas ao boom. Determinaram que os preços adotavam
comportamentos aleatórios e que não existiam provas que o mercado estaria a consumir-
se a ele próprio. Apesar desta conclusão, o grau de exatidão deste tipo de estudos pode
ser bastante baixo.
O inicio do boom aconteceu em setembro 1926, devido a um furacão que destruiu grande
parte da Flórida, causando uma descida tremenda nos preços das casas. Queda esta que
só estagnou em 1933. Quando a imobiliária colapsou, fundos de investimento inundaram
o mercado de ações. Estimou-se que 186 investment trusts foram criados em 1928 e 265
em 1929, enquanto que foram vendidos 400 milhões USD de ativos financeiros em 1927
e 3 mil milhões USD em 1929.
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financeiro. Esta mesma desigualdade faz com que a top elite direcionasse os
investimentos da economia real para investimentos especulativos, onde uma parte é
reciclada como dívida para o restante da população. Dada a subestimação da importância
da desigualdade, a economia falhou em capturar a sua importância para a crise financeira
de 2008.
No entanto esta taxa de desemprego não relata a realidade dos factos, isto pois, a força da
mão de obra estava a diminuir. Neste período, a inovação tecnológica estava a permitir
às empresas reduzir os gastos com o pessoal da produção, e procurar mão de obra mais
qualificada. A mão de obra não qualificada, que assumia postos na linha de produção,
estava a ser substituída por mão de obra qualificada, como por exemplo, pelos mecânicos
das máquinas. Como consequência, os vencimentos da mão de obra não qualificada
diminuiu enquanto que o vencimento da mão de obra qualificada aumentou. Culmatando
a este problema, em 1921, 1924 e 1926, as pessoas com rendimentos mais elevados
beneficiaram de cortes nas taxas, onde a taxas de 75% reduziram para 25% neste mesmo
período de tempo. Em 1922, o top 1% da população era detentora de 49% do total das
poupanças nos EUA, tendo a percentagem aumentado para os 80% em 1929. O que se
estava a suceder era que os aumentos salariais e de consumo dos ricos estava a
transformar-se em dívida para a população mais pobre.
A crise financeira de 1929 surgiu sem sinais aparentes dado que o foco dominante estava
na superfície (crescimento da economia, deflação, etc), enquanto que abaixo da superfície
existia estagnação salarial, diminuição da igualdade e uma crescente especulação.
Durante os anos 20 o excesso de especulação ocorreu em dois momentos, o 1º em 1926,
na imobiliária, e em 1929 no mercado de ações.
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2.1.6. Causas do colapso
Apesar de todos estes argumentos, nada foi feito para entender se o aspeto psicológico da
sociedade teve algum peso no desencadeamento da crise, portanto J. D. Wisman (2014)
decidiu analisar este tema, tendo como principal objetivo o estudo psicológico da crise de
1929, pois apesar de existirem inúmeros estudos sobre esta crise, nenhum realçou a
desigualdade dos agregados. Surpreendente é o facto deste tema ter sido alvo de tão pouca
atenção e dedicação quando existe uma desigualdade crescente entre famílias.
A segunda dinâmica era o consumo de famílias não-elite como resposta à menor quota
dos rendimentos, ou seja, enquanto as famílias mais ricas atingiam consumos máximos,
as famílias de rendimentos inferiores tinham que aumentar igualmente os seus consumos
para manterem os seus estatutos sociais bem como o respeito próprio. Para terem a
capacidade de aumentarem o seu consumo, estas famílias pouparam menos, aumentaram
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o seu endividamento, e, provavelmente para fazer face a estes aumentos, criou-se a
necessidade de aumentaram os seus horários de trabalho.
A terceira dinâmica é o facto das famílias mais ricas terem em sua posse a maior quota
dos recursos da sociedade, permitindo-lhes aumentar o controlo sobre ideologias
políticas. A ascensão da crise financeira de 1929 era uma novidade pois até este dia, as
recuperações eram relativamente rápidas porque, a seguir ao desemprego, a maior
consequência das crises eram a destruição do valor do papel moeda, detida por uma muito
pequena percentagem da população, os ricos elite. O que tornou esta crise “inovadora”
foi o facto de que a onda especulativa precedente ao início da crise, ocorreu não apenas
no mercado financeiro, mas igualmente no sector imobiliário, afetando desta forma toda
a população.
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2.2. Crise de 1987
2.2.1. Contextualização
O R. Roll argumentou que, devido ás diferenças dos fusos horários, o mercado financeiro
dos EUA foi o último a abrir e, logicamente, considerando que o colapso iniciou no dia
19 de outubro de 1987 noutros mercados financeiros, e só após abertura do mercado
financeiro dos EUA é que este entrou igualmente em colapso, seria lógico concluir que
os EUA não esteve na origem da crise, mas sim outros mercados extrangeiros, podendo
considerar o colapso dos mercados do EUA como danos “colaterais”. Ora, como foi visto
anteriormente, o colapso pode se ter iniciado “oficialmente” no dia 19, mas foi
demonstrado que os primeiros indícios do boom foram registados no dia 14, onde já
existiam registos de grandes variações, registando-se as mais intensas precisamente no
mercado financeiro americano. Dito isto, o colapso do dia 19 pode ter iniciado noutro
mercado que a América, mas vários eventos da semana precedente, com origem no
mercado americano, resultaram neste efeito catastrófico.
Existem 3 principais teorias pelo qual o mercado de ações ter colapsado neste dia,
opiniões estas que não são mutualmente exclusivas. A primeira é a teoria da eficiência de
mercado, onde o mercado reagiu a uma notícia fundamental, que lidou os participantes
do mercado a subavaliarem as suas ações em mais de 20% num único dia. A segunda é a
teoria da liquidez, onde por alguma razão, foi realizado um grande número de pedidos de
venda, diminuindo subitamente o preço das ações. A última teoria é a hipótese do
comportamento financeiro, onde os investidores reagem de forma irracional fazendo com
que, ou os preços aumentassem demasiado, seguindo uma descida acentuada, ou criou
pânico de vender, independetemente da razão, diminuindo os preços de forma dramática.
Cutler (1989) concluiu que nós, humanos, não somos particularmente eficientes a explicar
grandes oscilações no preço das ações e questionar a eficiência do mercado. Considerou
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inicialmente as notícias macroeconómicas no mercado de ações, concluindo que estas
variáveis macroeconómicas não têm importância significativa no retorno dos mercados
de ações. No entanto também foi analisado o peso das “grandes notícias”, em particular,
qual foi a principal notícia no dia onde se registou a maior variação do S&P500, ou seja,
qual foi a grande notícia do dia 19 de outubro de 1987, e se existe a possibildiade desta
ter desencadeado um comportamento irracional nos investidores. A notícia encontrada foi
a “Preocupação sobre a descida do Dólar e défice comercial; Medo dos EUA não
suportarem o Dólar”. Apesar desta teoria, Cutler concluiu que é extramamente complexo
explicar grandes variações nos preços, mesmo após o acontecimento.
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De notar que dos 23 países analisados, 20 deles registaram subidas de janeiro a setembro
de 1987. Ora 1 mês depois, o mercado financeiro colapsou, o que nos faz questionar a
existência de uma relação negativa cross-country, ou seja, suponhamos um fator
macroeconómico fundamental relacionado com o mundo inteiro, influenciando assim os
mercados de todos os paísesde igual forma, isso iria fazer com que os países com betas
elevados teriam uma melhor performance num mercado bull e, opostamente, teriam as
piores performances num mercado bear. Portanto para descobrir se a crise de 87 foi
causada por uma bolha especulativa ou uma manifestação do comportamento normal do
mercado financeiro, ter-se-ia que identificar e estimar um modelo fator sobre um período
totalmente diferente e de seguida adaptar esse modelo às especificidades
macroeconómicas do mercado de 1987.
R. McKeon e J. Netter (2006) discordam de Richard Roll acreditando que a crise teve
início nos EUA, apresentando factos e argumentos bastante persuasivos, sendo um deles
a maior descida alguma vez registada do index S&P 500. Tal se sucedeu na segunda-feira,
dia 19 de outubro de 1987 onde se registou a maior descida, num único dia, no mercado
de capital do EUA, onde o index S&P500 desceu 57.86 pontos, representando uma
descida de 20.46% num único dia. Nunca tal descida tinha sido registada.
Mitchell e Netter, propuseram em 1989 que o declínio do mercado fosse devido a uma
proposta inesperada vinda do House Wyas e do Means Committee para acabar com a taxa
de dedutibilidade da dívida usada nas aquisições (takovers). Na noite de 13 de outubro,
a proposta de lei foi introduzida. Todos os testes suportam a premissa de que esta proposta
de lei foi um dos fatores chave para o declínio do mercado de ações, nos 3 dias anteriores
ao colapso do mercado. Apresentando igualmente argumentos da improbabilidade de
outras notícias poderem ter desencadeado o declínio. Em 1999 Miller e Mitchel
examinaram a probabilidade desta notícia ter desencadeado o declínio, e demostraram
que qualquer mudança nos cash flows futuros ou taxas de desconto, poderia resultar em
grandes reavaliações no mercado, tendo defendido: “while it might first seem that one
should be able to identify the shocks to fundamental factors that can cause such a
dramatic price decline, the above analysis suggests that these shocks do not necessarily
have to be dramatic themselves”. Ou seja, mesmo se determinado choque abale o
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mercado, não fará com que os preços sofram grandes alterações. O que fará desencadear
o declínio dramático será o comportamento humano. Por outros termos, mesmo quando
não há razão aparente para os investidores reagirem a determinado acontecimento, a
especulação negativa irá fazer com que haja uma reação igualmente negativa no mercado,
levando a quedas de mercado completamente desnecessárias, e que não aconteceria se os
investidores não tivessem optado por reagir.
Após analisar os retornos desde 1950 a 30 de julho de 2008, foi demonstrado que houve
9 quedas de retornos superiores ao registado no dia 16 de outubro de 1987, no entanto em
nenhum dos casos deu seguimento a um colapso do mercado. As características mais
notáveis de outubro de 1987 foi o volume de vendas e o nível de volatilidade do retorno
registado no mercado, onde este foi o maior no período estudado. Foi igualmente
demonstrado que o declínio registado do dia 14 ao dia 16 de outubro 1987 foi o maior
declínio num espaço de 3 dias na história. Foi selecionado o período de 3 dias pois foram
os dias passados desde o primeiro anúncio da lei do imposto até ao dia do colapso.
Concluíram que, apesar de poderem existir inúmeras razões para o colapso de 87, o fator
mais importante foi a proposta de lei do imposto. Fazendo com que o mercado sofra um
declínio de 10% no total destes 3 dias, declínio que era completamente inesperado. Este
declínio pode ter revelado informação negativa sobre o mercado, levando a graves
problemas de liquidez, ou apenas poderá ter mudado a psicologia dos investidores.
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2.3. Crise de 1997
2.3.1. Contextualização
A crise asiática tem sido geralmente descrita como a maior crise financeira a atingir o
planeta desde a crise de 1987. Envolveu a maior ajuda financeira mundialmente registada
até então aos 3 países mais afetados (Coreia, Tailândia e Indonésia), totalizando 114.2
Mil Milhões USD. Esta crise exauriu as reservas do FMI, tendo sido questionado se este
organismo teria capacidade para debelar os efeitos da crise caso a mesma se prolongasse
por mais alguns meses, ou se teria poder de resposta se um evento análogo surgisse num
futuro próximo.
Krugman (1994) argumentou que o crescimento económico da Ásia teve como base a
acumulação de capital e de mão de obra, em vez de sustentado no aumento da
produtividade. Nesse sentido, as economias asiáticas iriam inevitavelmente atingir o
ponto onde os retornos e o crescimento económico começariam a diminuir. Por outro
lado, Radelet & Sachs (1998) argumentaram que a crise financeira asiática foi, de certa
forma, uma “crise de sucesso”, isto porque o crescimento rápido e sustentável, em
conjugação com as elevadas taxas de juro, tornou a região atrativa para os gestores de
fundos ocidentais. Quando estas circunstâncias se alteraram, teve início uma reversão
súbita e rápida de fluxos de capital, conduzindo à crise.
Para sustentar este argumento, foram analisados os fluxos de entrada de capital privado
na Ásia, determinando que aumentou de 37.9 Mil Milhões USD em 1994 para 97.1 Mil
Milhões USD em 1996. No entanto, estas entradas de capital eram na sua esmagadora
maioria para créditos a curto prazo e portfólio de capital (devido às taxas de juro
elevadas). Quando as taxas de juro diminuíram drasticamente, o fluxo de entrada de
capital rapidamente se transformou em fluxo de saída, gerando um enorme desequilíbrio
financeiro, demonstrado pelo nível do défice dos países afetados.
As origens da crise remontam à Tailândia, em 1996, quando o crescimento económico
começou a diminuir, deteriorando os indicadores económicos nacionais. A bolsa de ações
perdeu cerca de um quinto do seu valor nos primeiros 9 meses, tendo como consequência
o decréscimo do investimento externo.
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A crise financeira alastrou-se para a economia real por intermédio das taxas de juro
praticadas nas operações de crédito. Muitas empresas localizadas nas zonas mais afetadas
foram incapazes de obter créditos/empréstimos a custos comportáveis, levando à
inevitável e súbita falência. Tal sucedeu a uma grande percentagem das empresas,
independentemente de terem ou não, antes da eclosão da crise, uma situação financeira
sustentada. As empresas que sobreviveram foram forçadas a pagar juros a taxas
extraordinariamente altas, reduzindo os respetivos orçamentos e gerando despedimentos
em massa.
Krugman (1994) sugere que a crise monetária foi um “sintoma” (ou consequência) e não
a causa do problema. Segundo o autor, o entendimento da crise asiática deverá ser
focalizado no papel dos intermediários financeiros e no modo de formação do preço dos
ativos em geral. Evidencia, ainda, a relação entre os bancos, as empresas financeiras, o
governo e o setor privado como condições cruciais para a criação de uma bolha dos preços
em geral. Segundo o autor, a bolha persistirá enquanto o governo mantiver as garantias.
Os primeiros bancos a falir poderão vir a receber apoios do governo, mas a vontade ou a
capacidade para a realização de possíveis futuros resgates diminui consideravelmente.
Por outro lado, Radelet e Sachs (1998) defendem que a crise foi maioritariamente
desencadeada pelo fluxo de saída de capitais em consequência do pânico sentido por
alguns agentes e de decisões desordenadas, ao invés de ter sido pelas fraquezas
fundamentais do foro macroeconómico. O pânico entre a comunidade internacional, os
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erros em procedimentos e os programas de salvamento incorretamente elaborados
exacerbaram a retirada de capital estrangeiro, empolando os efeitos da crise.
Stiglitz (1998) indica que o rápido e largo fluxo de entrada de investimento externo criou
tensões na economia. Adicionalmente, a frágil regulamentação o sistema financeiro mais
vulnerável. Neste sentido, a existência de um sistema adequado de regulação e
regulamentação teria permitido reestabelecer a estabilidade e a confiança.
Tem existido várias discussões sobre as possíveis causas da crise financeira asiática de
1997, onde duas principais visões emergiram. A primeira visão sugere que a extensão e a
profundidade da crise não deveriam ser atribuídas à deterioração dos fundamentais, mas
sim ao pânico por parte dos investidores nacionais e internacionais (visão partilhada por
Radelet e Sachs em 1998). A segunda visão sugere que a crise ocorreu principalmente
como o resultado das distorções políticas e estruturais. Relativamente a esta visão, as
variações dos fundamentais desencadeou a crise monetária e financeira de 1997. Mesmo
depois desta ter iniciado, as fortes reações causaram a queda das taxas de câmbio, valor
de ativos, bem como a atividade económica.
Zhuang e Dowling (2002) analisaram a crise asiática recorrendo ao modelo EWS (Early
Warning System Model). Para além de procurarem aferir a possibilidade de a crise ter
sido prevista, os autores procuram avaliar se a mesma teve origem na deterioração dos
fundamentais ou no pânico dos investidores nacionais e internacionais.
Os sinais prévios apontam para fragilidades nos fundamentais, incluindo uma apreciação
real das moedas nacionais, empréstimos externos excessivos concedidos pelos bancos,
crescimento excessivo do crédito doméstico e rebentamento da bolha financeira. De
acordo com os autores, nos países asiáticos mais afetados, anteriormente a 1997, já
existiam fortes sinais referentes à probabilidade de ocorrência de uma crise financeira,
através da aplicação deste tipo de modelos EWS. Consequentemente, os autores
sustentam que existem boas razões para sugerir que a crise foi causada por fragilidades
intrínsecas às economias e não pelo pânico dos investidores.
Outros estudos tentaram demonstrar que o modelo EWS poderia ter previsto a crise de
1997, destacando-se os de Kaminsky (2000) e Berg e Patillo (1999). Para construírem o
modelo, os autores adotaram duas perspetivas. A primeira corresponde à denominada
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abordagem de sinalização, que envolve a monitorização de indicadores de alta frequência,
observando se os mesmos atingem os valores limite historicamente associados à
emergência de uma crise financeira. A segunda abordagem recorre a modelos probit/logit,
os quais permitem conduzir uma análise multivariada e testar a significância estatística
das variáveis explicativas. Uma abordagem EWS poderá ser útil para distinguir entre as
duas hipóteses em causa.
O estudo demonstra que existia uma probabilidade de 77% que uma crise se formasse nos
24 meses anteriores ao início da crise de 1997. Na Tailândia, desde a crise de novembro
de 1984 que a probabilidade de crise permaneceu bastante baixa, com uma flutuação de
20%. Porém, desde o início de 1996, a probabilidade de crise começou a aumentar de
forma drástica, atingindo os 70% no fim do ano. Este resultado foi idêntico para todos os
restantes países, com exceção de Singapura. Desde 1990 ao início de 1996 a probabilidade
de crise dos países estudados era de aproximadamente 20%. Mo espaço de um ano a
probabilidade de crise para todos os países, tirando a Singapura, aumentou para os 70%.
Pode-se concluir que dos 6 países estudados, apenas a Singapura, que não teve um
aumento de probabilidade de crise tão acentuado quanto aos restantes países, não teve
como origem da sua crise fracos fundamentais, mas sim uma reação da crise dos seus
países vizinhos. Nos países onde a probabilidade de crise aumentou para os 70% pode-se
sugerir que foram os fracos fundamentais de cada país que os levou à crise tendo em conta
que em espaço de 6 anos a probabilidade de crise aumentou 50 pontos percentuais.
O modelo deu no total 7 sinais de perigo para a Indonésia nos 24 meses anteriores à crise
de 1997. Adicionalmente, a Coreia obteve 9 sinais de perigo no mesmo período, 13 sinais
de perigo para a Malásia, 10 sinais de perigo para as Filipinas e 10 para a Tailândia.
Surpreendentemente a Singapura não registou nenhum aviso de perigo nos 24 meses
anteriores à crise de 1997, tornando-se cada vez mais claro que a origem da crise de
Singapura não foi interna, mas uma reação doméstica às crises existentes externas.
Pode-se concluir que, dos países mais afetados pela crise, esta poderia ter sido prevista
com antecedência de modo a atenuar as consequências, tendo tido como provável causa
principal a deterioração dos fundamentais internos.
28
2.4. Crise de 2008
2.4.1. Acontecimentos
O colapso de 2008 começou a ganhar forma em 2006, quando começaram a ser dados
avisos de que o mercado imobiliário estava a começar a deteriorar-se. Isso levaria ao
desencadeamento de hipotecas subprime, ou seja, as pessoas que pediam empréstimos
passavam a ter uma classificação baixa de crédito, aumentando subsequentemente as
taxas de juro. Apesar deste acontecimento, os oficiais do governo não pensavam que iria
afetar a economia.
Em 2007, a Reserva Federal reconheceu que o setor da banca estava com problemas
de liquidez devido à incapacidade das pessoas pagarem as suas hipotecas, portanto
decidiu começar a injetar liquidez, vendendo as suas reservas de tesouraria e aceitar
as hipotecas subprime como garantia. Neste mesmo ano a economia perdeu 17 000
empregos, pela primeira vez desde 2004.
Em 2008 a Reserva Federal interveio e resgatou o banco Bear Steams, a primeira
vítima do declínio do mercado imobiliário. Este resgate deu confiança ao mercado,
ao ponto de que em maio, graças à ligeira subida de certos indicadores económicos,
o mercado julgava que o pior já tinha passado. Em julho desse ano a crise das
hipotecas subprime já tinha passado para agências governamentais, que tiveram de
ser igualmente resgatadas.
Dia 15 de setembro, o primeiro grande banco declarou falência, os Lehman Brothers.
Dia 16 de setembro a Reserva Federal declarou que iria resgatar a seguradora AIG.
Declararam que iriam realizar um empréstimo de 85 mil milhões USD em troca de
79.9% do capital, passariam, portanto, a ter o controlo da seguradora. Este evento
aconteceu devido, uma vez mais, à falta de liquidez.
Dia 17 de setembro o mercado monetário perdeu 144 mil milhões USD. Devido a
esta quebra gigantesca num único dia, os investidores entraram em pânico, trocando
por notas de tesouraria, supostamente, “extremamente seguras”.
Dia 19, a Reserva Federal criou o AMLF (Asset-Backed Commercial Paper Money
Mutual Fund Liquidity Facility), onde emprestaram 122.8 mil milhões USD a vários
bancos para comprarem papel comercial.
29
Dia 20, Hank Paulson e Ben Bernanke enviaram uma proposta de lei “bank bailout
bill” para o Congresso, no entanto no dia 29 esta proposta foi recusada, levando à
maior queda registada num único dia da história, criando o pânico no mercado:
o O MSCI Worl Index desceu nesse dia 6% (record histórico)
o O FSTE de Londres desceu 15%
o O ouro diminuiu 900$ a onça (aproximadamente 31 gr)
o O petróleo desceu 95$ o baril
Para restaurar alguma estabilidade financeira, a Reserva Federal duplicou os seus SWAP’s
de moeda com os bancos centrais da Europa, Inglaterra e Japão, num total de 620 mil
milhões USD. Em outubro, o congresso passou finalmente a proposta de Lei, mas nesse
momento o pânico já estava instalado. A economia já tinha perdido 159 000 empregos
num único mês. Para combater a crise de liquidez nos bancos, a Reserva Federal
emprestou 540 mil milhões USD aos fundos do mercado monetário, dando aos fundos
capacidade de respirar pela primeira vez desde o dia 19 de setembro.
Até ao fim de outubro, 240 000 postos de trabalhos tinham sido extintos, AIG receberia
mais um resgate de 150 mil milhões USD e os 3 maiores construtores de automóveis
estavam igualmente a pedir um resgate à Reserva Nacional. Em dezembro a taxa dos
fundos Fed da Reserva Federal desceu para 0, um mínimo histórico. Por fim, no dia 5 de
março de 2009, o Index da economia atingiu o mínimo histórico. Este é o dia onde o
mercado financeiro americano iniciou a sua drástica queda.
30
2.4.2. Dados pré-crise 2008
Os índices dos preços das ações usados para calcular os retornos diários são: S&P 500
COMPOSITE, Dow Jones média industrial, NASDAQ, and Russell 2000. VIX é o
Chicago Board Options Exchange, Index de volatilidade do mercado da volatilidade
implícita de S&P 500, Index das opções. Além disso, Preço do crude por baril do West
Texas Intermediate (WTI) e o preço do ouro do Handy & Harman Base dollar e a taxa de
troca do dolar para Euro.
Adotar este método nas variações de retornos no ouro e preço de óleo, mostra (figura nº3)
os maiores rácios Sharpe de 5.1% e 5.0% respetivamente. Seguido pelo Euro/dólar com
um rácio de 1.76%. Comparando com o ouro e o óleo, as ações têm menos retorno
ajustado ao risco no decorrer do tempo, variando de 1.24% no S&P 500 a 1.33% no
Nasdaq e de 2.02% do Dow Jones a 2.61% no Russel 2000. Enquanto que os mercados
de commodities têm menos retorno, isto sugere que no primeiro subperíodo os retornos
de Dow 30 e Rusell 2000 crescem mais rapidamente do que outras referências.
31
2.4.3. Análise dos fatores micro e macroeconómicos
A crise financeira mundial de 2008 desvendou a crise global económica mais severa desde
a grande depressão dos anos 30 (crise de 1929). Esta crise levou a que vários líderes
mundiais mudassem de ideia em relação a um mercado financeiro pouco regulado, onde
o mercado não seja visto como a solução de todos os problemas. O antigo presidente da
Reserva Federal dos EUA, Alan Greenspan, declarou que tinha errado ao presumir que o
interesse próprio das organizações, principalmente dos bancos, seria suficiente para
proteger os shareholders e capital das empresas. Ele descobriu uma falha no modelo do
período, de liberalização e autorregulamentação.
Tal falha foi causada pelo colapso da bolha do setor imobiliário, que tinha adotado uma
dimensão gigantesca devido à extensa dívida hipotecária que existia no momento, que foi
além disso facilitado, por sua vez, pelo maior sustento político de expansão monetária do
último século. Grande parte das hipotecas eram criadas por pessoas com um baixo
património líquido, e que praticavam pagamentos de rendas bastante reduzidas devido
aos seus baixos rendimentos, portanto, assim que a bolha colapsou, as taxas de juro
aumentram drásticamente, aumentando, subsequetemente, as suas rendas. Como
consequência os gastos rapidamente se tornaram superiores aos rendimentos dos
proprietários, perdendo a capacidade financeira de liquidar as suas hipotecas. Estas perdas
foram por sua vez transferidas para o sistema financeiro. A perda de liquidez e o medo de
solvência criou um ciclo de financiamento reduzido, reduzindo a procura de casas, a
descida acentuada do preço das casas, e mais danos para o sistema financeiro, e
eventualmente esses danos passaram para o mercado de ações e derivados e para a
economia real.
Alem disso, os empréstimos estavam a ser aceites para pessoas que não tinham
rendimentos fixos. Qualquer indivíduo podia solicitar um empréstimo e obtê-lo sem
qualquer tipo de restrições. Isso transforma o ativo financeiro em ativo tóxico desde o
32
próprio momento que a pessoa aceita assinar o contrato de empréstimo, pois tem uma
grande probabilidade de não cumprir a totalidade das suas obrigações financeiras.
Estes ativos eram depois transformados pelo setor bancário em derivados complexos, que
eram facilmente vendidos a outras instituições financeiras, que por sua vez eram
novamente transformados em derivados e vendidos a uma maior taxa e maiores
comissões, assim sucessivamente, até ter adotado proporsões gigantescas. No entanto
nenhum banco, ou investidor, tinha noção que os ativos financeiros que estavam a adquirir
eram tóxicos, dada a complexidade da sua própria [Link] mais vendidos eram,
mais complexos se tornavam e maior era a dificuldade em entender como eram
constituidos na sua realidade.
Na altura, os EUA acreditavam que o risco de recessão era mínimo e eventualmente seria
o Reino Unido a entrar numa grande recessão. De acordo com o Blanchflower (2009), o
argumento chave de que ambos os EUA e o Reino Unido estariam iminente a uma
recessão, era a descida acentuada na confiança dos consumidores e a opinião geral sobre
o mercado de trabalho. Estas previsões foram estimadas não através de modelos
matemáticos, mas sim a sua experiência e a leitura e análise de pesquisas detalhadas.
Sendo confrontado com a sua escolha em não utilizar modelos mundialmente aceites,
declarou o seguinte “os modelos de previsão são bastante inúteis... e os que fazem as
provisões, tendem a não prever recessões”.
33
A dificuldade de prever crises reside na dificuldade de pôr em prática medidas defensivas
contra um perigo incerto e o custo subjacente a tal medidas, bem como a falta de
mecanismos para agregar e analisar sinais de perigo de várias fontes, ou seja, associar um
estatuto de perigo a certos e determinados eventos ou informações, criar um mecanismo
que consiga interpretar toda a informação, e por fim, agregá-la para que possa ser lida e
analisada para uma tomada de decisão. Uma tarefa no mínimo extramente complexa de
se realizar. Contudo houve vários investigadores que informaram as pessoas e entidades
competentes que este colapso iria acontecer, avisos estes que foram descreditados ou
ignorados. Algumas das pessoas que previram este colapso foram o economista R. S.
Dale, H. Minsky e M. Keynes. Infelizmente, apesar de terem previsto esta crise e alertado
com antecedência as entidades competentes, não foram tidos em conta. Mesmo apôs a
crise, os trabalhos destes autores não são lecionados, ou mesmo divulgados, nas
universidades de topo dos EUA, significando que as universidades decidem por própria
opção não lecionar os modelos aplicados por estes investigadores. Isto apesar dos seus
trabalhos terem tidoa capacidade em prever o que mais ninguém, nem outro modelo,
previu. Uma escolha no mínimo questionável.
A maioria dos modelos geralmente aceites pelo mundo financeiro tendem exclusivamente
fornecer avaliações de risco e algoritmos de investimento para os seus clientes
investidores, enquanto deveriam ser implementados modelos capazes de entender os
mecanismos dos mercados institucionais, ou mesmo prever resultados sistemáticos.
34
2.5. Análise anual FMI
2.5.1. 2018
Dez anos após a queda dos Lehman Brothers, a economia mundial continuava a crescer
e o progresso para um sistema financeiro mundial mais seguro é inegável. Novos padrões
de supervisão e regulamentação, práticas e ferramentas têm sido desenvolvidos e
implementados através do globo. Os bancos estão agora mais fortes pois a qualidade e a
quantidade de capital tem aumentado de forma segura, e os padrões mínimos de liquidez
têm sido faseados pelo mundo. Estas alterações sugerem que uma nova arquitetura
financeira foi implementada, tornando-se num testamento dos legisladores que
trabalharam juntos a nível internacional para evitar que a grande depressão se repita.
35
nível de alavancagem nos setores não financeiros, deterioração contínua nos padrões de
subscrição, e uma sob avaliação dos ativos em mercados importantes. Um ponto positivo
é a ampla agenda de regulações criadas pela comunidade internacional que ajudou a
fortalecer o sistema internacional bancário. Adicionalmente, cada país tem a autoridade
macro prudencial e outras ferramentas para supervisionar e conter o risco do sistema
financeiro.
Desde abril de 2018 que o risco a curto prazo da estabilidade financeira mundial tem
aumentado de forma moderada, enquanto que o risco a médio prazo permanece elevado.
Por outro lado, a expansão económica mundial permanece forte, mas tornou-se menos
equilibrado e de maior risco. As taxas de juro continuam a registar valores mínimos
históricos.
36
dos anos derivado à acomodação das políticas e poderá igualmente expor fragilidades no
sistema financeiro que emergiram desde a crise financeira mundial de 2008.
Estas fragilidades provêm de um sistema que ainda não foi testado, isto pois, desde 2008
a estrutura do mercado de liquidez foi submetido a importantes alterações. Existem
indicações que a liquidez pode se ter tornado mais segmentado através diferentes
plataformas de negociação, e mais dependentes das empresas que realizam high-
frequency trading, instituições investidoras motivadas por análises benchmarking de
instituições, bem como participantes de mercados de maior sensibilidade monetária
(como os bancos centrais). Assistir a liquidez é importante porque fracas condições de
mercado poderão amplificar choques e agravar os ajustamentos do preço de ativos,
conduzindo à instabilidade financeira.
37
2.5.2. 2019
38
implementar ferramentas de prudência macroeconómicas para combater as
vulnerabilidades financeiras.
Os mercados financeiros têm estado numa luta constante contra o fluxo das tensões
comerciais e o aumento das preocupações económicas globais. O enfraquecimento da
atividade económica e o aumento do risco induziu uma alteração nas políticas monetárias
a nível mundial, tornando-as menos rígidas, algo que tem sido acompanhado por descidas
acentuadas dos yields. Como resultado, a quantidade de obrigações com yields negativos
aumentou aproximadamente 15 biliões de USD (15 trillions USD). Os investidores
preveem que as taxas de juros permaneçam bastante baixas por um período de tempo bem
mais superior do que era espectável no início do ano. Políticas monetárias ajustadas à
realidade suportaria a economia a curto prazo, mas facilidades nas condições financeiras
estão a facilitar suportar o risco financeiro, bem como alimentar uma maior
vulnerabilidade em alguns setores e países. Foi demonstrado que as vulnerabilidades do
setor corporativo já estão bastante elevadas, e de forma sistemática, em importantes
economias, uma consequência do aumento do peso da dívida e o enfraquecimento da
capacidade do serviço de dívida. De notar que as vulnerabilidades continuam
extremamente elevadas no setor dos seguros.
O fluxo de capital em mercados em expansão tem sido estimulado pela baixa taxa nas
economias as avançadas. Estes fluxos de entrada de capital têm suportado empréstimos
adicionais: A mediana da dívida externa nos mercados em expansão estava em 2019 em
160% das exportações quando em 2008 estava a 100%, representando um aumento de 60
pontos percentuais em apenas 11 anos. Em alguns países, este rácio aumentou em mais
de 300%. Caso algum evento venha a restringir as condições financeiras mundiais, o
aumento de empréstimo poderá levar a um aumento descontrolado do risco da
sustentabilidade do risco.
39
2.6. Análise 2020
2020 iniciou de forma relativamente normal a nível mundial, existindo relatos de um surto
gripal numa província da China, Wuhan. Visto que estava ocorrer num país longínquo e
tão conservador, a grande maioria dos países decidiu ignorar o seu potencial devastador.
Apesar de discutível, muitos afirmam que o Partido Comunista da China tomou a decisão
de manipular os dados sobre os acontecimentos na cidade de Wuhan e, adicionalmente,
impedir que a verdade se dissipasse pelo mundo.
A nível nacional, 2020 iniciou com dados motivadores, tendo Portugal atingido um
crescimento de 2.2% do PIB em comparação a 2018 e a taxa de desemprego em dezembro
de 2019 era de 6,7%. Fatores positivos e encorajadores para iniciar 2020 com altas
expectativas, o que, infelizmente, veio-se a verificar ser apenas uma simples fantasia que
se foi desvanecendo com o passar do tempo com a dura realização de que esta gripe iria
se tornar em algo de extramente grave globalmente, tanto a nível da sociedade como a
nível governamental. O primeiro paciente Europeu registou-se no dia 24 de janeiro de
2020 na Alemanha, no entanto, nenhum surto acontecera na Alemanha, mesmo sem
qualquer tipo de precauções tomadas pelo país. Podemos assumir que o Covid-19 atingiu
a Europa de forma mais devastadora na Itália, mais propriamente em Lombardia, no dia
21 de fevereiro de 2020, onde, a partir deste dia, se propagou a um ritmo alarmante pelo
restante continente, deixando todos os países com a sensação de impotência, não sabendo
como reagir a algo que ainda não se tinha suficiente conhecimento. A única resposta
apropriada naquele momento foi o fecho das fronteiras e implementação do estado de
emergência ou calamidade, dependo obviamente de como o Covid-19 afetara cada país
individualmente. As economias enfraqueceram e as pessoas estavam desmoralizadas.
Apesar dos dados disponíveis hoje em dia, na minha opinião pessoal, não refletirem a
verdadeira dimensão da gravidade, nem a imprevisibilidade do quão profundo serão as
consequências socioeconómicas, é prudente afirmar que estamos a atravessar uma
“ligeira” crise, não só a nível nacional como a nível internacional. A imprevisibilidade e
magnitude com que o Covid-19 afetou as economias mundiais, poderá expôr muitas
“fissuras” que estavam apenas a aguardar de ser expostas. Por exemplo, em Portugal era
notório a existência de uma bolha imobiliária, principalmente nas grandes metropolitanas
como Lisboa, Porto e Coimbra. O mercado imobiliário tem sido inflacionado por
40
investidores externos, tornando os valores praticados pelo setor imobiliário irrealista para
a realidade atual portuguesa. Contudo, as “bazucas financeiras” da UE irão colmatar os
problemas de liquidez que os países possam ter, atenuando assim os impactos negativos
que já se fazem sentir a nível mundial.
Apesar da taxa de desemprego estar bastante baixa no período “pré-Covid”, existe uma
grande falta de confiança da população para com o seu Governo, e como foi referenciado
anteriormente, este poderá ser considerado como um fator favorável para o início de uma
crise, ou enfraquecimento dos fundamentias. A desigualdade societária está a aumentar a
uma velocidade alarmante e o custo de vida em Portugal, apesar de determos um dos
salários mais baixos da Europa, é extremamente elevado, mesmo quando comparado com
outros países em que o salário é bastante mais elevado. Como exemplo temos a Suíça,
Luxemburgo, Reino Unido e França, onde as despesas mensais para bens essenciais ( a
título de exemplo: água, eletricidade, gás e comunicação) são de valor bastante
semelhante às de Portugal.
41
volatilidade na faturação da empresa, criando uma enorme preocupação dos gestores e
empresários na redução de liquidez e situação de tesouraria.
“Tudo o que o governo fizer antes da pandemia será considerado como alarmista, tudo
o que fizer depois será considerado inadequado.”
O efeito da crise não poderá ser previsto com absoluta certeza a curto prazo pois é
impossível determinar com exatidão se ocorrerá, ou não, outras vagas, e devido à
incerteza de quanto tempo demorará a vacina a surtir efeitos reais nas sociedades. No
entanto podemos estudar e entender como nos afetou e como continuará a afetar.
42
Equiparado já por vários especialistas como tendo as mesmas consequências económicas
como a segunda guerra mundial, a pandemia causada pelo Covid-19, tem provocado
fortes e profundas consequências em vários setores, bem como governamentais. Vários
governos foram forçados a fechar completamente o país para evitar a onda de infeção que
os estava a atingir.
A agricultura e o petróleo foram umas das mais afetadas. Na agricultura a quebra abrupta
da procura fez com que os preços diminuíssem em aproximadamente 20%. Pelo mundo
fora foram criadas restrições e imposições, levando a que várias empresas do setor da
restauração e hotelaria fossem obrigadas a encerrar. Como consequência, houve uma
grande queda na procura de produtos alimentares. Adicionalmente, como prevenção,
foram interditos a abertura de feiras e mercados.
A causa da queda abrupta do preço do barril de petróleo teve início no dia 6 de março em
Viena, onde a Rússia recusou reduzir a sua produção, motivando a Arábia Saudita a
retaliar com descontos extraordinários para com os seus compradores e aumentar a sua
produção. Estas decisões, num momento em que a população mundial estava confinada,
o que significa uma queda significativa no consumo eprocura de produtos petrolíferos,
fez com que as reservas mundiais de petróleo estivessem completamente lotadas,
enquanto que a produção se mantinha, criando desta forma um desequilíbrio entre a
procura e a oferta. No dia 20 de abril de 2020, pela primeira vez na história, o barril foi
negociado a valores negativos nos contratos de entrega futura (american options- Future).
43
98% a admitir preocupações sobre os impactos negativos da pandemia nas operações
quotidianas. Quebra nas importações, bem como nas exportações, perturbações nos
canais de fornecimento e a quarentena obrigatória, culminou numa queda acentuada dos
volumes negócios em inúmeras empresas. A opção do teletrabalho não é uma real opção
para o setor das indústrias pois a mão de obra necessita de estar presente para produzir.
Esta é uma realidade mundial. Tendo a Europa passado pela segunda vaga de casos
Covid-19, mais intensa que a primeira, vários governos foram obrigados a adotar
novamente o estado de emergência, tendo contudo em mente que não poderia ser de todo
igual ao primeiro estado de emergência, pois nenhuma economia, por mais sólida que
seja, conseguiria resistir a uma nova paragem total da economia. Levaria a consequências
incalculáveis tanto a nível económico-financeira, bem como a nível sociológico. A
indústria química prevê reduzir a sua produção global em 1.2%, equiparando-se à redução
que se constatou na crise financeira de 2008.
A educação foi afetada pelo Covid-19 em vários níveis, desde o infantário ao ensino
superior. De um dia para o outro todas as crianças tiveram que ficar em casa pois as
escolas tinham fechado. Apenas os filhos dos trabalhadores essenciais (médicos,
enfermeiros, auxiliares de saúde, etc.) tinham o direito de continuar a frequentar as
escolas. A nível mundial foram mais de 100 países a imporem o encerramento nacional
das suas escolas. A UNESCO estimou que 900 milhões de crianças foram afetadas pelo
encerramento das escolas.
Apesar da intenção por detrás destes encerramentos ser a prevenção do contágio, foram
várias as implicações socioeconómicas. A mobilidade social foi afetada pois as escolas já
não tinham a capacidade de fornecer refeições a crianças oriundas de famílias de baixo
rendimento, lutar contra o isolamento social e o aumento do abandono escolar. Estes
impactos a nível familiar levaram a um aumento de custos, dificultando intensamente a
realidade das famílias de baixo rendimento.
44
o encerramento das escolas decorreu durante vários meses, logo, podemos criar uma
estimativa mental do quão impactante foram estes meses de encerramento escolar.
O declínio dos mercados de ações alavancou um ambiente volátil com níveis críticos de
liquidez. Para combater estes efeitos, os bancos centrais intervieram para certificar que a
liquidez fosse mantida, bem como para mitigar o choque na economia, com vários líderes
a adotarem uma medida “a todo o custo”.
45
bom funcionamento das instituições de saúde, o que por sua vez, levaria a um aumento
de casos nacionais e a graves consequências económico-financeiras.
Estando a viver num receio constante de uma nova recessão e colapso financeiro,
momentos como estes requerem uma liderança forte e resiliente em todos os setores,
contudo, com maior ênfase na saúde pública, empresas e medidas governamentais. Tais
medidas devem de ser decididas, implementadas e ajustadas o quanto antes. Planos de
médio a longo prazo são necessários para rebalancear e criar impulso quando esta crise
for ultrapassada. Um plano de desenvolvimento socioeconómico tem de ser criado e
ajustado à realidade e por setores. É igualmente necessário um ecossistema que estimula
empreendedorismo para que os negócios/empresas que sejam robustas e sustentáveis
possam prosperar. Seria prudente os governos em conjunto com as instituições financeiras
reavaliarem o estado dos mercados financeiros e da situação socioeconómico.
46
2.6.4. Fatores de tensão
Após confirmação que a falta de liquidez amplifica a fragilidade, foi demonstrado que
fundos ilíquidos sofreram saídas de fluxo muito mais severas durante a pandemia Covid-
19 que os fundos com maior liquidez. Curiosamente, enquanto que a
população/investidores geral só iniciou os levantamento depois de abril, os investidores
dos fundos ilíquidos iniciaram os levantamentos antes do início da pandemia mundial, ou
seja, meados fevereiro.
Fundos mais novos, que sejam menos experientes e mais propícios de serem afetados por
turbulências no mercado, e fundos com uma maior maturidade, mostraram igualmente
uma pressão superior às saídas de fluxo.
47
Goldstein, Jiang e Ng (2017) demonstraram que a convexidade da relação desempenho /
fluxo, em fundos de capital, desaparece em fundos de obrigações corporativas, revelando
uma relação côncava. Esta maior sensibilidade das saídas de fluxo aos maus desempenhos
é um resultado da baixa liquidez dos ativos do fundo. Após analisar a sensibilidade das
saídas de fluxo no contexto do covid-19, foi demonstrado que os investidores dos fundos
de obrigações corporativas começaram a responder de forma mais assertiva aos
desempenhos negativos dos seus fundos. Realizaram que os seus fundos não se
adaptavam aos choques dos mercados e entendendo que a vantagem do “primeiro a agir”
se aplicava, apressaram-se a retirar os seus investimentos, aumentando assim a saída de
fluxo, que por sua vez agravava o stress/choque no mercado. De forma resumida, foi
demonstrado que os fundos de investimento que operavam no setor das obrigações
corporativas ilíquidas, experienciaram uma maior tensão na crise Covid-19.
Todas as crises abordadas neste estudo têm como causas principais questões financeiras
subjacentes, quer sejam elas por decisões governamentais, quebra dos mercados
financeiros, pobres escolhas bancárias, bolhas imobiliárias/financeiras, etc. No entanto,
esta vertente económico-financeira não é a única razão pela qual são criadas crises. Esta
afirmação é apoiada pela situação atual que o mundo está a passar, uns com mais impactos
que outros, mas todos os países estão a vivenciar de uma forma ou outra, impactos
negativos que não existiriam sem o COVID-19.
O objetivo deste trabalho, como mencionado previamente, não é analisar a crise causada
pelo COVID-19 (até porque, apesar do programa de vacinação em curso, a pandemia
ainda está a decorrer, e portanto, os dados só poderão ser recolhidos e analisados depois
da pandemia acabar), mas sim entender quais os fatores que originam, ou podem originar,
o desencadear de vários fatores, que por sua vez criarão a crise per se. Adicionalmente, e
como previamente referido, também não é o objetivo deste estudo determinar as causas
das futuras crises, pois, após analisar a história financeira, posso afirmar que os modelos
atualmente implementados não têm essa capacidade de previsão. E os modelos que têm
tal capacidade, são desacreditados pela comunidade financeira, governamental e bancária,
isto apesar de que por várias vezes, as provisões terem-se concretizadas. Adicionalmente,
constatei que nenhuma crise financeira acontece duas vezes, ou seja, as causas que
originaram uma crise financeira não irá originar uma segunda crise. Medidas foram
48
tomadas e implementadas para prevenir que volte a acontecer, logo, acredito que não seja
produtivo voltar a analisar e utilizar os mesmos modelos utilizados para explicar as crises
precedentes, exatamente por acreditar que não voltarão a acontecer. Em vez de o fazer,
pretendo estudar as volatilidades das variáveis entre o acontecimento chave que
desencadeia uma crise e a descida inevitável dos fatores socióeconómicos.
Existe, contudo, a necessidade de diferenciar estes dois tipos de crises. Para tal, analisei
estudos efetuados sobre a crise causada pela gripe espanhola, isto para poder criar um
contexto social e soció-económico. Porquê a gripe espanhola, podem perguntar vocês.
Selecionei esta pandemia pelos simples facto de ser a última grande pandemia registada
(foi estimado que aproximadamente 3% da população mundial sucumbiu ao vírus), e,
adicionalmente, já existirem dados micro e macro-económicos suficientes para a
realização de estudos sobre os impactos.
49
Estando a criar um contexto das crises sanitárias, é importante salientar o facto de que os
dados apresentados provêm de um continente desenvolvido e com um elevado nível de
saúde pública, o que significa que os dados poderão ser diferentes noutros países,
dependendo se são ou não países desenvolvidos, níveis de saúde pública, níveis de
resposta à pandemia, a própria reação da sociedade aos pedidos do governo, etc. Há,
portanto, ínumeros fatores que podem influenciar as consequências de uma pandemia.
Temos como exemplo o Brasil e a India que dominam a percentagem de pessoas infetadas
e a percentagem de mortes quando foram os países que registaram inícios de contágio
mais tardios que a América do Norte e a Europa. De notar que ambos são países em
desenvolvimento, o que poderá ter algum significado.
Pode-se então concluir que as crises de origem sanitária não são comparáveis com as
crises de origem económico-financeiras até certo nível , isto pois a consequência final é
relativamente a mesma, ou seja, a descida do PIB, mas com diferentes intensidades e
amplitudes.
50
3. METODOLOGIA
Reinhart e Rogoff demonstraram em 2009, num estudo efetuado sobre crises financeiras
que tiveram lugar em 66 países num período de 8 séculos, que a desregulação está entre
os melhores preditores de crises financeiras, existindo contudo algumas exceções.
Nenhuma das tendências, nem os desencadeadores, tendem a ser claramente identificados
antecipadamente como potenciais riscos pelos líderes académicos, políticos e instituições
financeiras.
Um facto que tende a não desaperecer é a ideia de as crises financeiras são completamente
imprevisíveis, e quem consegue as prever é “pseudo-vidente” profissional ou apenas
alguém que fez uma previsão felizarda. No entanto, para quem consegue as prever, não
significa que haja um único paradigma, mas sim várias teorias e modelos aplicados.
Apesar de alguns modelos terem previsto com sucesso certas crises, estes modelos
carecem de validação internacional pois a esmagadora maioria dos modelos seguem
ideias neo-clássicas, e, portanto, qualquer teoria ou modelo que se desvie deste
movimento será descartado ou posto em causa, pela sua própria natureza e não pelo seu
conteudo.
51
Numa ótica neo-clássica, a economia é vista como um circuito monetário, onde os
rendimentos excedem normalmente os custos, resultando em ganhos. O surgimento de
dívida através de crédito permitiu ao mundo financeiro criar ferramentas inovadoras e de
expansão que subsequentemente aumentaram a produtividade. Tal fenómeno ficou
denominada com a “dívida produtiva”. Mas o crédito criado como consequência colateral
da dívida produtiva será suportada pelos consumidores e mercados especulativos,
resultando em dívida “improdutiva”.
52
mercados financeiros, mas sim de dados provenientes das familias e empresas da Europa,
pois o pretendido é analisar se são as oscilações das variáveis selecionadas que podem
intensificar ou desencadear uma crise. A título de exemplo, a crise de 2008, apesar de ter
“iniciado” no dia 15 de setembro, a taxa de desemprego dos EUA estava a aumentar desde
2007, bem como as taxas das hipotecas, o que por sua vez desencadeou a queda dos
subprime e do restante mercado financeiro americano. Logo, decidi optar pela análise dos
betas dos dados microeconômicos invés dos betas dos mercados financeiros, optando
assim pela 1ª abordagem.
3.2. Amostra
3.2.1. Variáveis
Variável dependente
Esta variável foi prepositadamente selecionada para ser a variável dependente pois
podemos considerar que o PIB é o resultado final de todo o esforço e trabalho
concretizado por um país num determinado período de tempo, neste caso concreto, será
de 1 ano, do dia 1 de janeiro ao dia 31 de dezembro. Representando o culmatar de um
conjunto de esforços, podemos pressupor ser um ótimo indicador para analisar a saúde
económico-financeira de um país. Adicionalmente, é igualmente influenciado tanto por
fatores microeconómicos, como macroeconómicos. Este conjunto de argumentos
determina a grande vulnerabilidade aos restantes fatores / variáveis, sendo este o critério
fulcral para selecionar o PIB como a variável independente.
53
Variavéis independentes
É seguro afirmar que as pessoas/famílias que tenham perdido a sua fonte de rendimento,
deixam de ter a capacidade de manter o seu estilo de vida, e subsequentemente, o
consumo. O consumo de hoje é constítuido por bens essencias, mas também por bens não
essenciais. O consumo não essencial é o primeiro a ser atingido, onde em alguns casos,
infelizmente, o próprio consumo de bens essenciais é fortemente afetado. É, portanto,
seguro afirmar que esta variável poderá vir a ter uma grande influência na variável
independente. Adicionalmente, como indicado supra (baseado num pressuposto), sendo
a taxa de desempregados um dos primeiros fatores a apresentar variações negativas
aquando do surgimento de uma crise, o consumo das famílias será afetado muito
rapidamente.
Apesar de já ter sido selecionado o consumo das famílias, esta variável foi selecionada
para oferecer uma contextualização da variação do consumo, ou seja, independentemente
do consumo das famílias estar a aumentar ou a diminuir, é importante entendermos a
variação no seu todo, e como tal, o consumo em relação ao PIB irá nos dar uma noção do
quão “real” é a variação do consumo, isto pois se a variação acompanhar a variação do
próprio PIB, poderemos assumir que o consumo está simplesmente a acompanhar a
tendência do PIB, caso contrário, se apresentar uma maior variação que o PIB, as causas
esterão certamente relacionadas com outras variáveis que o PIB.
54
Rendimento médio por agregado - (RMA)
O rendimento medio por agregado é uma variável microeconómica adicional, com o qual
pretende-se completmentar as variáveis anteriores, isto pois, caso a variação “Consumo
das famílias” não acompanhar a variação da variável “Consumo % do PIB”, o rendimento
médio por agregado poderá ser a explicação da divergência. O consumo das famílias pode
ser afetuado por inúmeras razões, por exemplo, decisão de aumentar as poupanças,
despesas adicionais, se está ou não empregado, etc. A junção desta variável com a do
“Consumo das famílias”, poderá nos oferecer uma sinergia que não seria obtida se
analisássemos as variáveis de forma independente, oferecendo desta forma uma
informação complementar.
Esta variável foi selecionada para representar todo o aglomerado de pessoas e famílias
que podem não estar representadas nas variáveis acima mencionadas. Tornando a
informação, bem como os resultados, mais coesos e mais fiáveis de análise.
Este é uma das variáveis que poderá vir uma maior influência na variável denpendente
pois a esmagadora maioria do PIB de um país é criado pelas empresas, e sendo que as
PME’s representam grande parte das empresas num país, têm de ser cuidadosamente
55
analisadas, isto porque não tendo a capacidade financeira das grandes empresas, estão
muito mais suscetíveis a variações externas. Apesar de estarem representadas todas as
empresas nesta variável, pois o objetivo é entender a reação de todas as entidades como
um todo, poderemos assumir que as grandes empresas irão atenuar o beta da variável, e
consequentemente, a reação seria mais significativa se a população fosse exclusivamente
constítuida por PME’s.
Exportações - (EX)
A percentagem de emigração poderá igualmente ter uma forte influência no PIB, pois se
a mão-de-obra de um país decidir emigrar, reduzirá a capacidade do mesmo em criar
riqueza, e, subsequentemente, reduzirá a sua produção.
56
3.3. Modelo matemático
57
3.4. Resultados
De acordo com os resultados obtidos, é possível verificar a relação existente entre cada
uma das variáveis independentes e a variável PIB, assim como a significância dos
mesmos.
a) 0% indica que o modelo não explica nada da variabilidade dos dados de resposta ao
redor da sua média;
b) 100% indica que o modelo explica toda a variabilidade dos dados de resposta ao
redor da sua média.
58
Figura 5- Análise ANOVA
A análise ANOVA é uma análise utilizada para comparar a distribuição de vários grupos
em amostras diferentes, bem como resumir um modelo de regressão linear através da
decomposição da soma dos quadrados para cada variável do modelo, e utilizando o teste
F, testar a hipótese de que qualqer fonte de variação no modelo é igual a zero. Isto
significa que este teste estatístico verifica se há diferenças entre a distribuição de uma
medida.
Os graus de liberdade são calculados com base no número de variáveis e nas volatilidades
das variáveis.
Interpretando os dados, podemos concluir que existe pelo menos 9 variáveis com
oscilações com desempenho significativamente diferentes ao avaliar o valor p 5,4e-008.
59
Figura 6- Gráfico de predições
Este gráfico representa a predição dos dados, e como podemos constatar há dois picos
negativos bastante significativos. O primeiro pico de 1995 demonstra que os betas das
variáveis estão a assumir um comportamento positivo, de ascenção, o que significa que
recuando no tempo, adotaram valores extramamente baixos. Dada a falta de dados prior
a 1995, só podemos pressupôr que a queda acentuada dos betas tem como origem a crise
de 1987, já referenciada neste trabalho, e onde foi possível demonstrar as graves
consequências na economia norte americana e europeia. O facto de se pressupôr que a
economia europeia ainda estava em fase de recuperação após 8 anos do sucedido, não é
tão absurda quanto podem pensar, isto pois, como se pode verificar no 2º pico negativo
do gráfico, está representada a crise de 2008, que teve igualmente origem nos EUA, e
que, apesar dos dados apresentados pelo modelo demosntrarem que as variáveis
recuperaram em espaço de aproximadamente 3 anos, foi demonstrado que em 2015 ainda
se estava a sentir repercussões da crise em vários setores.
60
Tendo em conta que a crise de 2008 é a única representada, na sua total amplitude, no
gráfico, é-nos possível retirar conclusões mais fiáveis que a de 1987. Para que a minha
opinião se “transforme” em facto, as variáveis selecionadas no modelo teriam que registar
uma queda anterior a 15 de setembro de 2008. Como podemos constatar, tal se sucede. A
predição inicia a sua queda consideravelmente antes que o PIB. Pela minha estimativa, a
predição inicia a sua descida em fins de 2006, início de 2007, enquanto que o PIB inicia
a sua descida finais de 2007, inícios de 2008. Pode-se concluir portanto que tanto a
predição, como a variável dependente, iniciam a queda antes do “início” da crise. Este
gráfico demonstra e responde à questão em foco neste trabalho, sendo ela, podem as
variáveis selecionadas estar em declínio antes do “nício” da crise? Ficou demonstrado
que na crise de 2008, tal se sucedeu na Europa.
Apesar dos dados de 2020 ainda não terem sido estimados, o que poderia ter oferecido
um maior entendimento da reação da população, é notório uma ligeira descida do PIB em
2017 e da predição em 2018. Infelizmente, não tendo dados adicionais, é-nos impossível
determinar se esta descida seria o início de algo alarmante, ou apenas flutuações naturais,
como demonstrado entre o ano 2010 e 2015. Como é obvio, o Covid-19 irá fazer com que
a descida dos betas seja mais significativa, portanto, mesmo após divulgação dos dados,
não haverá utilidade em continuar esta análise a médio prazo pois os dados estarão
influenciados pelos acontecimentos destes últimos meses.
61
4. CONCLUSÃO
Este trabalho não teve como objetivo a criação de um modelo que tivesse a habilidade
de prever com exatidão o aparecimento da próxima crise financeira. Vários
académicos se dedicaram a este tópico e continuam sem sucesso, até porque, algo que
ficou claramente esclarecido neste trabalho foi a grande incerteza quanto às causas que
desencadeiam uma crise económico-fianceira. Como referido anteriormente, nenhuma
crise financeira se voltou a repetir devido aos reguladores, medidas defensivas
impostas pelos governos e instituições, etc. A probabilidade de uma crise financeira
reaparecer devido às mesmas causas é praticamente nula.
Pôde-se igualmente verificar um aspeto transversal a todas as crises até ao dia de hoje,
sendo as consequências suportadas pela população. As pessoas serão sempre o elo que
acarreterá as consequências mais impactantes de qualquer crise. Como tal, foi a minha
intensão desde o início deste trabalho incluí-la, estudá-la e entender a sua posição no
seio das crises. De tal modo que ficou demonstrado que as suas respetivas oscilações
demonstravam uma relação bastante significativa com a variável dependente.
Para finalizar, outro aspeto pretendido deste trabalho era consciencializar os leitores
sobre os aspetos significativos da sociedade na criação e manutenção das crises. A
esmagadora maioria dos trabalhos analisados para este estudo não tinham, ou pouco
tinham, representado as dificuldades das pessoas (indivíduos) nos modelos, quando
são elas que representam a maior causa de volatilidade, independentemente dos
62
setores. Sem este aspeto intrínseco das pessoas, não existiriam mercados financeiros,
bolsa de ações, futuros, etc. É o comportamento humano, com a sua enorme
capacidade de especulação, que oferece as ferramentas necessárias para que este
mundo exista como está hoje.
63
5. BIBLIOGRAFIA
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65
ANEXOS
Anexo I
Países da população
Países
1 DE - Alemanha
2 AT - Áustria
3 BE - Bélgica
4 BG - Bulgária
5 CY - Chipre
6 HR - Croácia
7 DK - Dinamarca
8 SK - Eslováquia
9 SI - Eslovénia
10 ES - Espanha
11 EE - Estónia
12 FI - Finlândia
13 FR - França
14 GR - Grécia
15 HU - Hungria
16 IE - Irlanda
17 IT - Itália
18 LV - Letónia
19 LT - Lituânia
20 LU - Luxemburgo
21 MT - Malta
22 NL - Países Baixos
23 PL - Polónia
24 PT - Portugal
25 CZ - República Checa
26 RO - Roménia
27 SE - Suécia
28 IS - Islândia
29 NO - Noruega
30 UK - Reino Unido
31 CH - Suíça
II
Anexo II
Intervalo de confiança
Matriz de covariância
III
Tabela das predições
IV