Milho de Pipoca ou
Piruá
Rubem Alves
A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu
uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem
dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias
atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a
pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu.
Minhas idéias começaram a
estourar como pipoca.
Percebi, então, a relação
metafórica entre a pipoca e o
ato de pensar. Um bom
pensamento nasce como uma
pipoca que estoura, de forma
inesperada e imprevisível.
A pipoca se revelou a mim, então,
como um extraordinário objeto
poético. Poético porque, ao
pensar nelas, as pipocas, meu
pensamento se pôs a dar
estouros e pulos como aqueles
das pipocas dentro de uma
panela. (...)
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.
Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos
aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me
livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos
da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso
aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar
as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim
os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que
aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.
Repentinamente os grãos começaram a
estourar, saltavam da panela com uma
enorme barulheira. Mas o extraordinário
era o que acontecia com eles: os grãos
duros quebra-dentes se transformavam em
flores brancas e macias que até as
crianças podiam comer. O estouro das
pipocas se transformou, então, de uma
simples operação culinária, em uma festa,
brincadeira, molecagem, para os risos de
todos, especialmente as crianças. É muito
divertido ver o estouro das pipocas!
(...) A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da
grande transformação porque devem passar os homens para que
eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que
deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O
milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para
comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos
transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a
transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser
milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações
acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não
passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São
pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que
elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o
melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos
lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser
fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente,
perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro.
Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas
causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar
o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a
possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro
da panela, lá dentro ficando cada vez mais
quente, pense que sua hora chegou: vai
morrer. De dentro de sua casca dura, fechada
em si mesma, ela não pode imaginar destino
diferente. Não pode imaginar a transformação
que está sendo preparada. A pipoca não
imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem
aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande
transformação acontece: PUF!! — e ela
aparece como outra coisa, completamente
diferente, que ela mesma nunca havia
sonhado. É a lagarta rastejante e feia que
surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está
representado pela morte e ressurreição de Cristo: a
ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso
deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá.
Falando sobre os piruás com os paulistas,
descobri que eles ignoram o que seja. Alguns,
inclusive, acharam que era gozação minha, que
piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado
a me valer do Aurélio para confirmar o meu
conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca
que se recusa a estourar.
Meu amigo William, extraordinário professor
pesquisador da Unicamp, especializou-se em
milhos, e desvendou cientificamente o assombro
do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma
explicação científica para os piruás. Mas, no
mundo da poesia, as explicações científicas não
valem.
Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às
mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada
dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o
poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo
esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode
existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida
perdê-la-á". A sua presunção e o seu medo são a dura casca
do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar
duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca
macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o
estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás
que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que
voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma
grande brincadeira...
"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca
iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que
aconteceu".