O inquérito policial (IP) é uma concatenação de atos com sequência de diligências preliminares
Titularizado por uma autoridade da administração pública, que tem por objetivo a apuração da
autoria, da materialidade (existência) e das circunstâncias da infração (art. 2°, § 1° da Lei nº
12.830/13), e a sua finalidade é contribuir na formação do convencimento (opinião delitiva) do
titular da ação penal, que em regra é o Ministério Público, e excepcionalmente, a vítima
(querelante). O inquérito policial antecede a fase processual, serve de suporte para o futuro
processo, sendo lastro da eventual ação penal que, prepara os elementos necessários para justificar
a justa causa. O inquérito policial é um procedimento de natureza jurídica eminentemente
administrativa, de caráter informativo, preparatório da ação penal. Rege-se pelas regras do ato
administrativo em geral. Ele tem as seguintes características:
Sigiloso: O inquérito não comporta publicidade, sendo procedimento essencialmente sigiloso. O
advogado do indiciado pode consultar os autos do inquérito policial (art. 7°, XIII a XV e XXI, e §§ 1°,
10, 11 e 12, da Lei n° 8.906/1994 - Estatuto da OAB e Súmula Vinculante nº 14, STF).
Súmula vinculante 14 do STF: É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo
aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão
com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa.
Art. 7º, §11, da Lei 8.906/94: No caso previsto no inciso XIV, a autoridade competente poderá
delimitar o acesso do advogado aos elementos de prova relacionados a diligências em andamento e
ainda não documentados nos autos, quando houver risco de comprometimento da eficiência, da
eficácia ou da finalidade das diligências.
Dispensável : O inquérito não é imprescindível para a propositura da ação penal. Contudo, se o
inquérito policial for a base para a propositura da ação, este vai acompanhar a inicial acusatória
apresentada (art. 12, do CPP). Quando o MP dispõe dos elementos de informação diretamente e
estes mostram-se suficientes para a propositura da ação penal, dispensa-se a elaboração do IP. Se o
Ministério Público não dispõe dos elementos de informação necessários para promover a ação penal
o IP se torna relevante. Segundo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, eventuais
nulidades ocorridas no curso do inquérito policial não contaminam a subsequente ação penal:
HABEAS CORPUS. ANULAÇÃO. INQUÉRITO POLICIAL. "INCOMPETÊNCIA RATIONE LOCI".
INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE CONTAMINAÇÃO DA AÇÃO PENAL. ORDEM DENEGADA. 1. Pedido de
anulação do inquérito policial e, consequentemente, a ação penal por "incompetência" da
autoridade policial, haja vista que os fatos ocorreram em circunscrição diversa do local em que foi
instaurado 2. As atribuições no âmbito da polícia judiciária não se submetem aos mesmos rigores
previstos para a divisão de competência, haja vista que a autoridade policial pode empreender
diligências em circunscrição diversa, independentemente da expedição de precatória e requisição. 3.
O entendimento desta Corte é pacífico no sentido de que eventuais nulidades ocorridas no curso do
inquérito policial não contaminam a subsequente ação penal. 4. Ordem denegada. (HC 44.154/SP,
Rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa, 6ª Turma, STJ, 27.03.06).
Escrito : O inquérito, por exigência legal, deve ser escrito (art. 9° do CPP). Os atos produzidos
oralmente serão reduzidos a termo. Outras formas podem ser usadas complementarmente para
imprimir maior fidelidade ao ato. Diligências podem não ser originalmente escritas, mas devem ser
reduzidas a termo.
Inquisitorial : Dispensa-se ampla defesa e contraditório. Elementos de informação são colhidos sem
a participação ou manifestação das partes. As atividades persecutórias ficam concentradas nas
mãos de uma única autoridade e não há oportunidade para o exercício do contraditório ou da ampla
defesa. Excepcionalmente, existem inquéritos extrapoliciais onde a defesa é de rigor (inquérito para
a decretação da expulsão de estrangeiro). Tem-se que assegurar ao indiciado a realização efetiva da
defesa necessária no próprio inquérito, além da produção de elementos que terão força probatória
ao longo da persecução penal.
Oficial: O inquérito é conduzido por órgão oficial do Estado (Polícia Judiciária). O delegado de polícia
de carreira, autoridade que preside o inquérito policial, constitui-se em órgão oficial do Estado (art.
144, § 4°, da CF).
Oficioso : Em regra, a autoridade policial é obrigada a agir de ofício (ex officio), independentemente
de provocação. Na ação penal pública incondicionada, a autoridade policial deve atuar de ofício. Na
ação penal pública condicionada e ação penal privada (inclusive em casos de delação anônima), a
autoridade policial depende da permissão da vítima para poder atuar. Exceções da oficiosidade do
delegado: 1) Crimes de Ação Penal Pública Condicionada – necessita de representação da vítima ou
requisição do Ministro da Justiça. 2) Crimes de Ação Penal Privada – necessita do requerimento da
vítima. Os delegados recusar-se a cumprir requisição de autoridade judiciária ou do membro do MP
para a instauração de IP, quando a ordem for manifestamente ilegal.
Vejamos o que nos ensina Guilherme de Souza Nucci:
"É possível que a autoridade policial refute a instauração de inquérito requisitado por membro do
Ministério Público ou por Juiz de Direito, desde que se trate de exigência manifestamente ilegal. A
requisição deve lastrear-se na lei; não tendo, pois, sucedâneo legal, não deve o delegado agir, pois,
se o fizesse, estaria cumprindo um desejo pessoal de outra autoridade, o que não se coaduna com a
sistemática processual penal."
Indisponível: A persecução criminal é de ordem pública, e uma vez iniciado o inquérito, não pode o
delegado de polícia dispor do mesmo. O delegado não pode arquivar autos de IP. Art. 17 do CPP: A
autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito. O arquivamento é ato de reserva
de jurisdição. Necessita de despacho do juiz e prévio requerimento do MP.
Súmula 524 do STF:
“Arquivado o Inquérito Policial, por despacho do Juiz, a requerimento do Promotor de Justiça, não
pode a ação penal ser iniciada, sem novas provas.”
logo, depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela autoridade judiciária, por falta de base
para a denúncia, a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas se de outras provas tiver
notícia. Destaca-se, no entanto, que o Supremo Tribunal Federal entende que o arquivamento do
inquérito por atipicidade do fato (o fato não é crime) importa em coisa julgada material, ou seja, não
há possibilidade de modificação. Considera-se que o arquivamento ocorreu porque o fato foi
considerado atípico, a denúncia sobre o mesmo episódio não poderá ser recebida, mesmo diante de
novas provas:
Ementa (...) II - Inquérito policial: arquivamento com base na atipicidade do fato: eficácia de coisa
julgada material. A decisão que determina o arquivamento do inquérito policial, quando fundado o
pedido do Ministério Público em que o fato nele apurado não constitui crime, mais que preclusão,
produz coisa julgada material, que - ainda quando emanada a decisão de juiz absolutamente
incompetente -, impede a instauração de processo que tenha por objeto o mesmo episódio.
Precedentes : HC 80.560, 1ª T., 20.02.01, Pertence, RTJ 179/755; Inq 1538, Pl., 08.08.01, Pertence,
RTJ 178/1090; Inq-QO 2044, Pl., 29.09.04, Pertence, DJ 28.10.04; HC 75.907, 1ª T., 11.11.97,
Pertence, DJ 9.4.99; HC 80.263, Pl., 20.2.03, Galvão, RTJ 186/1040. (Processo: HC 83346 SP,
Relator(a): Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Julgamento: 17/05/2005)
Discricionário: O delegado realizará as diligências do IP independentemente de uma ordem ou
padrão definidos em lei. Ele conduz as investigações da forma que melhor lhe aprouver. Só não
poderá indeferir a realização do exame de corpo de delito, quando a infração praticada deixar
vestígios. Tem que atender às requisições do Juiz e do MP.
Art. 4º A polícia judiciária será exercida pelas autoridades policiais no território de suas respectivas
circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e da sua autoria. Parágrafo único. A
competência definida neste artigo não excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei seja
cometida a mesma função.