3.
A universidade-empresa e os professores-burocratas
Em suma, as instituições de ensino foram transformadas em empresas. Nada contra, se a
lógica empresarial se limitasse a eliminar o desperdício e colocar sob suspeita a gestão
irresponsável dos orçamentos públicos. Mas, no cerne dessa nova concepção, a tarefa ideal
dos diretores e reitores parece ser especialmente a de produzir diplomados e titulados para
inseri-los no mundo do mercado. Despidos de suas habituais vestes de docentes e
obrigados a usar as de gestores, eles são forçados a fechar o balanço das despesas na
tentativa de tornar competitivas as empresas que administram.
Também os professores transformam-se cada vez mais em simples burocratas a serviço da
gestão comercial das empresas universitárias. Passam seus dias a preencher formulários,
fazer cálculos, produzir relatórios (às vezes inúteis) para estatísticas, tentar enquadrar as
rubricas dos orçamentos cada vez mais minguados, responder questionários, preparar
projetos para obter míseros aportes, interpretar normas ministeriais confusas e
contraditórias. Assim, o ano acadêmico corre veloz ao ritmo de uma incansável métrica
burocrática que regula o funcionamento de conselhos de todo tipo (de administração, de
departamento, de cursos de graduação e pós-graduação) e de intermináveis reuniões de
assembleias e colegiados.
Parece que ninguém se preocupa, como deveria, com a qualidade da pesquisa e do ensino.
Estudar (com muita frequência esquece-se que um bom professor é acima de tudo um
incansável estudante) e preparar as aulas já se tornam um luxo que é preciso negociar
todos os dias com a hierarquia universitária.
Não nos damos mais conta de que, ao separar completamente a pesquisa do ensino,
acaba-se por reduzir os cursos a uma repetição manualesca e superficial do que já existe.
As escolas e as universidades não podem ser administradas como empresas.
Contrariamente ao que pretendem nos ensinar as leis dominantes do mercado e do
comércio, a essência da cultura está baseada exclusivamente na gratuidade: a grande
tradição das academias europeias e de antigas instituições como o College de France,
fundado por Francisco _ em 1530 - em cuja importância para a história da Europa o
historiador Marc Fumaroli insistiu recentemente, numa apaixonante conferência proferida no
Istituto Italiano per gli Studi Filosofici,
em Napoles -, lembra-nos que o estudo é antes de mais nada aquisição de conhecimentos
que, livres de qualquer vínculo utilitarista, nos fazem crescer e nos tornam mais autônomos.
E justo a experiência do aparentemente inútil e a aquisição de um bem, não imediatamente
quantificáveis, revelam-se "investimentos" cujos "lucros" virão à luz ao longo prazo.
Seria absurdo colocar em dúvida a importância da preparação profissional nos objetivos das
escolas e das universidades. Mas a tarefa da educação pode ser realmente reduzida à
formação de médicos, engenheiros ou advogados? Privilegiar exclusivamente a
profissionalização dos estudantes significa perder de vista uma dimensão universal da
função formativa da educação: nenhuma profissão poderia ser exercida de modo consciente
se as competências técnicas que ela exige não estivessem subordinadas a uma formação
cultural mais ampla, capaz de encorajar os alunos a cultivarem autonomamente seu espírito
e a possibilitar que expressem livremente sua curiositas. Equiparar o ser humano
exclusivamente com sua profissão seria um erro gravíssimo em todo ser humano, há algo
de essencial que vai muito mais além de seu próprio "ofício" . Sem essa dimensão
pedagógica, ou seja, totalmente afastada de qualquer forma de utilitarismo, seria muito
difícil, no futuro, continuar a imaginar cidadãos responsáveis, capazes de abandonar o
próprio egoísmo para abraçar o bem comum, expressar solidariedade, defender a
tolerância, reivindicar a liberdade, proteger a natureza, defender a justiça...
Numa esplêndida página dos Pensamentos de Montesquieu, pode-se encontrar uma escala
de valores que soa como um necessário convite à superação de todo e qualquer campo
restrito, para elevar-se cada vez mais em direção ao espaço infinito do universal:
Se soubesse que algo me seria útil, mas prejudicial à minha família, eu o tiraria da minha
mente. Se conhecesse algo que fosse útil à minha família, mas não à pátria, procuraria
esquecê-lo. Se conhecesse algo que fosse útil à minha pátria, mas danoso para a Europa,
ou útil para a Europa e prejudicial ao gênero humano, eu o consideraria um crime.
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