do sonho só pode tomar forma através de uma atividade
particular do
cérebro, também a música só penetra em nossa consciência
através de uma
atividade análoga do cérebro; mas esta é tão diferente da
atividade dirigida
pela visão, quanto o órgão do sonho existente no cérebro se
distingue da
função cerebral estimulada, no estado de vigília, por
impressões exteriores.
Como a atividade do órgão do sonho não pode ser estimulada
por
impressões exteriores, para as quais, no momento, o cérebro
está
completamente fechado, isso se dá através de processos, no
organismo
interno, que só se manifestam à consciência em estado de
vigília na forma
de sentimentos vagos e imprecisos. Ora, é por meio dessa vida
íntima que
nos aparentamos de modo imediato à natureza inteira,
participando de tal
modo da essência das coisas que nessa relação deixa de ter
sentido o
emprego das formas do conhecimento exterior, o tempo e o
espaço; a partir
daí Schopenhauer deduz, de modo muito convincente, a
formação de
sonhos fatídicos premonitórios que tornam perceptível o mais
distante e, em
casos raros e extremos, o surgimento da clarividência
sonambúlica.13 Dos
mais inquietantes desses sonhos, acordamos com um grito no
qual se
expressa de modo imediato a vontade angustiada que, por
meio do grito,
aproxima e penetra claramente o mundo dos sons para se
manifestar
exteriormente. Se quisermos representar esse grito, nos
diversos graus de
suavização de sua força até o doce lamento do desejo, como o
elemento
fundamental de toda manifestação humana que se dirige ao
ouvido, e se não
podemos deixar de considerar que ele é a manifestação mais
imediata da
vontade, que se dirige com maior rapidez e segurança ao
exterior, o que
deve então nos surpreender não é tanto sua compreensão
imediata, mas que
desse elemento uma arte possa nascer. Torna-se evidente, por
outro lado,
que é somente quando a consciência se afasta das excitações
da vontade que
tanto a criação quanto a intuição artísticas podem surgir.
Para tornar inteligível esse milagre, devemos nos lembrar antes
da
profunda observação de nosso filósofo, anteriormente
mencionada.
Segundo tal observação, não poderíamos compreender as
ideias, cuja
natureza é apreensível somente por meio da intuição objetiva,
ou seja, livre
da vontade, se não tivéssemos uma outra forma de acesso à
essência das
coisas que constitui seu fundamento, a saber, a consciência
imediata de nós
mesmos. Somente a partir de tal consciência somos capazes
de
compreender também a essência íntima das coisas exteriores,
nelas
reconhecendo a mesma essência fundamental que se
manifesta em nossa
consciência como algo que nos é próprio. Toda ilusão a esse
respeito
provém da visão de um mundo fora de nós que, sob a
aparência da luz,
percebemos como algo totalmente diferente de nós: somente
através da
observação (espiritual) das ideias e, portanto, através de um
remoto
intermediário é que atingimos um grau mais próximo da
desilusão ao
reconhecermos não mais as coisas isoladas, separadas no
espaço e no
tempo, mas seu caráter em si; e este se expressa com
suprema clareza nas
criações das artes plásticas, cuja particularidade é servir-se da
aparência
enganosa do mundo, que se estende diante de nós através da
luz, por meio
de um jogo engenhoso pelo qual se manifesta a ideia do
mundo que se
dissimula na aparência. Eis por que a visão dos objetos em si
nos deixa frios
e indiferentes, ao passo que as excitações dos afetos surgem
somente a
partir da percepção das relações dos objetos observados com
nossa vontade;
deve valer, portanto, como primeiro princípio estético para essa
arte, o
afastamento completo em relação a nossa vontade individual,
nas
representações das artes plásticas, a fim de dar à visão aquela
calma na qual
unicamente se torna possível a pura intuição dos objetos
segundo seu
caráter próprio. Mas o que permanece ativo nesse caso é a
aparência das
coisas e em sua contemplação, libertos da vontade, nos
entregamos
momentaneamente à intuição estética. Essa calma no puro
prazer da
aparência, como efeito peculiar às artes plásticas que foi
transposto para
todas a artes, constituiu-se como exigência do prazer estético
em geral e fez
nascer o conceito de beleza, que, em nossa língua, segundo a
raiz da
palavra, relaciona-se claramente com a aparência (como
objeto) e com a
contemplação (como sujeito).14
A consciência, a única a nos possibilitar na contemplação da
aparência a
apreensão da ideia que nela se manifesta, poderia, enfim, ser
obrigada a
exclamar como Fausto: “Que espetáculo! Mas – ai de mim – só
um
espetáculo! Por onde te agarrarei, natureza infinita?”
Quem responde a esse apelo com maior segurança é a
música. Aqui o
mundo exterior nos fala de um modo incomparavelmente claro,
pois faz
chegar ao nosso ouvido, por meio da impressão sonora,
justamente o que
pedimos a ele do mais profundo de nós mesmos. O objeto do
som que
escutamos coincide de modo imediato com o sujeito do som
que
proferimos: compreendemos sem a mediação do conceito o
que nos diz o
grito de socorro, de lamento ou de alegria e a ele retribuímos
imediatamente. Se o grito, a queixa ou o som de prazer que
emitimos é a
exteriorização mais imediata do afeto da vontade, assim
compreendemos o
som análogo que chega premente a nosso ouvido como a
incontestável
exteriorização do mesmo afeto; e aquela ilusão, como a da
aparência da luz,
de que a essência fundamental do mundo fora de nós não é
inteiramente
idêntica à nossa, não é possível aqui, de modo que aquele
abismo visível a
nosso olhar desaparece de imediato.
Se dessa consciência imediata da unidade de nossa essência
íntima com
o mundo exterior vemos nascer uma arte, parece em princípio
evidente que
esta arte deve estar sujeita a leis estéticas inteiramente
distintas das que
regem as demais artes. Sempre pareceu chocante aos
estudiosos de estética
que uma arte verdadeira pudesse nascer de um elemento que
lhes parece
puramente patológico, o que os levou a conferir validade
apenas aos
produtos de arte que se apresentavam sob uma aparência fria,
peculiar às
formas das artes plásticas.15 Contudo, admitir que o simples
elemento dessa
arte, como uma ideia do mundo, não fosse mais por nós
contemplado, mas
experimentado com a mais profunda consciência, foi o que
Schopenhauer
nos ensinou de modo tão fecundo. Essa ideia é por nós
compreendida como
uma revelação imediata da unidade da vontade que se
apresenta
imperiosamente à nossa consciência a partir da unidade da
essência humana
e, também, como unidade com a natureza, o que é por nós
igualmente
reconhecido através do som.
Por mais difícil que seja esclarecer a questão da essência da
música
como arte, julgamos que o caminho mais seguro é o de
investigarmos o
músico inspirado em seu processo de criação. Em muitos
aspectos, esse
processo de criação é fundamentalmente distinto daquele dos
demais
artistas. No que diz respeito à criação destes últimos, é preciso
admitir que
deve ser precedida pela pura intuição do objeto, livre da
vontade, que é de
novo produzida por meio do efeito da obra de arte no
observador. Ora, um
tal objeto, elevado à ideia através da pura intuição, não se
coloca de forma
alguma para o músico; pois a própria música é uma ideia do
mundo, nela o
mundo manifesta imediatamente sua essência, ao passo que
nas demais
artes esta essência só se torna representação quando mediada
pelo
conhecimento. O único aspecto a considerar é que a vontade
individual,
emudecida no artista plástico pela pura intuição, desperta no
músico como
vontade universal e, indo além de toda intuição, se reconhece
propriamente
como consciente de si. Daí resultam não apenas os estados
bastante
diferentes do músico que concebe e do artista plástico que
projeta, mas