Mas foi Schopenhauer o primeiro a reconhecer e definir, com
clareza
filosófica, a posição da música em relação às demais artes ao
lhe atribuir
uma natureza inteiramente distinta daquela que caracteriza a
poesia e as
artes plásticas. Toma como ponto de partida o fato
surpreendente de que a
música fala uma linguagem imediatamente compreendida por
todos, sem
necessidade da mediação de conceitos, o que justamente a
diferencia por
completo da poesia, cujo único material são os conceitos
empregados para
tornar clara a ideia. De acordo com essa tão luminosa definição
do filósofo,
as ideias do mundo e seus fenômenos essenciais são, no
sentido de Platão, o
objeto das belas-artes em geral. Enquanto o poeta torna as
ideias inteligíveis
à consciência intuitiva através do emprego, peculiar à sua arte,
de conceitos
em si racionais, Schopenhauer acredita reconhecer na própria
música uma
ideia do mundo, pois aquele que pudesse esclarecê-la
completamente por
meio de conceitos, teria criado uma filosofia capaz de iluminar
o mundo. Se
Schopenhauer apresenta essa concepção hipotética da música
como um
paradoxo, uma vez que a música não pode propriamente ser
elucidada
através de conceitos, ele nos fornece por outro lado o único
material
fecundo para demonstrar a exatidão de sua profunda
concepção.6 E se ele
não prosseguiu nessa demonstração foi talvez pelo fato de,
como leigo, não
dominar ou não estar suficientemente familiarizado com a
música. Além
disso, seu conhecimento dessa arte não lhe permitia ainda um
estudo
preciso daquele músico cuja obra revelou ao mundo, pela
primeira vez, o
mais profundo segredo da música. Pois, de fato, a própria obra
de
Beethoven não pode ser analisada a fundo sem que antes seja
corretamente
esclarecido e solucionado o profundo paradoxo que
Schopenhauer
apresentou ao conhecimento filosófico.
Na utilização do material que o filósofo nos proporciona, creio
proceder
do modo mais adequado tomar-se como ponto de partida uma
de suas
observações, segundo a qual a ideia proveniente do
conhecimento das
relações não é vista como essência da coisa em si, mas antes
de tudo como
revelação do caráter objetivo das coisas, portanto apenas
como seu
fenômeno.7 “E até mesmo esse caráter” – assim prossegue
Schopenhauer na
passagem em questão – “não nos seria compreensível se a
essência íntima
das coisas, ao menos obscuramente e em nosso sentimento,
não pudesse ser
conhecida de outra forma. Pois essa essência não pode ser
compreendida
através das ideias ou mesmo, em geral, através de um
conhecimento
meramente objetivo; por conseguinte, ela permaneceria
eternamente um
mistério se não pudéssemos ter acesso a ela por um outro lado
de todo
distinto. Só na medida em que todo sujeito que conhece é, ao
mesmo
tempo, indivíduo e parte da natureza, só nessa medida é que
permanece
aberto para ele o acesso ao íntimo da natureza em sua própria
autoconsciência, onde essa natureza íntima pode manifestar-
se do modo
mais imediato e, portanto, como vontade.”8
Se considerarmos, nesse ponto, a condição que Schopenhauer
estabelece
para a entrada da ideia em nossa consciência, isto é, “uma
predominância
temporária do intelecto sobre a vontade ou, do ponto de vista
fisiológico,
uma forte excitação da atividade intuitiva do cérebro sem
qualquer
excitação das inclinações ou dos afetos”9, resta-nos apenas
examinar
apuradamente a explicação, que de imediato se segue,
segundo a qual nossa
consciência tem dois lados: em parte ela é consciência de
nosso próprio si
mesmo, isto é, da vontade; em parte ela é consciência de
outras coisas e,
como tal, conhecimento intuitivo do mundo exterior, apreensão
dos objetos.
“Quanto mais um dos lados do conjunto da consciência
avança, tanto mais
o outro cede.”10
A partir do exame preciso de tais passagens da obra principal
de
Schopenhauer, torna-se claro para nós que a concepção
musical, não tendo
nada em comum com a concepção da ideia (pois esta está
inteiramente
ligada ao conhecimento intuitivo do mundo), só pode ter sua
origem
naquele lado da consciência que, segundo Schopenhauer, está
voltado para
o interior. Se esse lado deve se retrair inteiramente por certo
tempo para
facilitar a entrada do puro sujeito do conhecimento em suas
funções (isto é,
a apreensão das ideias), de outra parte é somente a partir
desse lado da
consciência voltado para o interior que pode ser esclarecida a
capacidade do
intelecto para a apreensão do caráter das coisas. Mas se essa
consciência é a
consciência do próprio si mesmo, ou seja, da vontade, é
preciso admitir que
o seu apagamento é indispensável para a pureza da
consciência intuitiva
dirigida para o exterior, ao passo que a essência da coisa em
si,
inapreensível ao conhecimento intuitivo, somente se torna
possível à
consciência voltada para o interior se esta alcança a
capacidade de ver tão
claro interiormente quanto aquela é capaz de ver exteriormente
ao
apreender as ideias no conhecimento intuitivo.
Para prosseguir nesse caminho, partiremos das direções
precisas
indicadas por Schopenhauer em sua profunda hipótese,
relacionada ao tema
aqui em questão, acerca do fenômeno fisiológico da
clarividência e da
teoria do sonho nela fundada.11 Pois, se nesse fenômeno a
consciência
voltada para o interior chega a uma verdadeira clarividência, ou
seja, à
capacidade de ver lá onde nossa consciência desperta, à luz
do dia, sente
apenas obscuramente os poderosos motivos dos afetos de
nossa vontade, é
possível que dessa noite possa brotar o som capaz de penetrar
na percepção
realmente desperta como manifestação imediata da vontade. O
sonho
sempre confirma a experiência de que, ao lado do mundo
intuído, a partir
das funções do cérebro em estado de vigília, existe um
segundo, igual a este
em clareza e não menos inteligível em sua manifestação, que
não pode,
entretanto, estar situado como objeto fora de nós.
Esse segundo mundo deve, por conseguinte, ser levado ao
conhecimento
da consciência por uma função do cérebro voltada para o
interior, uma
forma de percepção própria apenas ao cérebro que
Schopenhauer denomina
o órgão do sonho. Ora, uma experiência não menos precisa
mostra-nos que
ao lado do mundo que se apresenta como visível, na vigília ou
no sonho,
existe para nossa consciência um segundo mundo, perceptível
somente pelo
ouvido, que se manifesta através do som; muito
particularmente um mundo
do som ao lado de um mundo da luz, dos quais podemos dizer
que o
primeiro se comporta em relação ao segundo como o sonho
em relação à
vigília: este é para nós tão claro quanto aquele, mesmo se
devemos
reconhecer que é completamente diferente.12 Assim como o
mundo intuitivo