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Entre Contos

O documento é uma obra literária organizada por Gleidson Melo, composta por contos e reflexões sobre a vida, amor e sabedoria. O autor expressa a importância de valorizar momentos simples e a convivência humana, além de abordar temas como a solidão e a passagem do tempo. A obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons e está disponível em formato eletrônico e impresso.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Entre Contos

O documento é uma obra literária organizada por Gleidson Melo, composta por contos e reflexões sobre a vida, amor e sabedoria. O autor expressa a importância de valorizar momentos simples e a convivência humana, além de abordar temas como a solidão e a passagem do tempo. A obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons e está disponível em formato eletrônico e impresso.
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Copyright © 2020 do autor

Os direitos de edição e publicação foram cedidos à Editora Ecodidática


Esta obra está licenciada por uma Licença Creative Commons: Atribuição-
NãoComercial-Sem Derivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND). Disponível
em: [Link]

Organizador, editor, diagramador, capa e ilustrações: Gleidson Melo


Revisão: Roque Weschenfelder e James Pereira
Revisão de textos, pósfácio e pernambuquês: Jairo Rodrigues de Freitas

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Agência Brasileira do ISBN

M528 Melo, Gleidson André Pereira de.


Entre contos [livro eletrônico] / Campo Grande : Enseada dos
Pensamentos, 2020.

ISBN 978-85-906313-2-3

1. Contos. 2. Literatura brasileira. I. Título.

CDD-B869.3

Priscila Pena Machado - Bibliotecária - CRB- 7/6971

ISBN 978-85-906313-3-0 (versão impressa)


DOI: 10.56713/editoraecodidatica/90631323
Editora Ecodidática: [Link]
E-mail: contato@[Link]
Contato +55 67 3211-2328 (WhatsApp)
Instagram: [Link]
Amar a vida e respeitar o outro, eis uma questão
de sabedoria: aos meus pais, esposa e filhos.
Agradecimentos a Jairo Freitas, Roque
Weschenfelder e Marta Melo, por suas valiosas
contribuições para edição deste livro.
Sumário
Para refletir 9
Lar Prosperidade 17
Balões canudos 20
Peixinhos fritos 24
Alzheimer 30
Rua dos Querubins nº 18 35
Travessia 38
O vendedor de flores 43
Existe um caminho 53
Aos farrapos 61
A fazendinha 70
Os sonhos de Nina 75
A menina e a bolha de sabão 79
Um sonho possível 85
O tesouro perdido 89
Alvoroço na cidade 93
O pergaminho 99
Outras reflexões 105
Posfácio 120
Glossário pernambuquês 121
Sobre o autor 125
PARA REFLETIR

Enquanto os pensamentos ganham inspiração e voam


com a lógica poética, escrevo porque não tenho pressa. O
amor e a paixão me acompanham num instante que é so-
mente meu.
Faço os rabiscos por pura sedução e escrevo pela satis-
fação. Acredito na força maior que move a vida por nos
conceder maravilhas: lua, estrelas, mar, os pássaros e todas
as coisas da natureza.
Componho por paixão e a cada dia estou mais apaixona-
do. Assim, o tempo passa no modo de agir, e sigo a escrita
por pura felicidade. Na viagem do pensar, escrevo para você.
Muitos caminhos surgem como oportunidades, e outros
sequer puderam surgir, pois o trem da vida segue nos trilhos
rumo ao finito, ultrapassando barreiras e quebrando o silên-
cio do mundo. Resta-nos acompanhar a sinalização de cada
estação. Nesse mar de desejos, afetos e desafetos, vale mais
livrar-se daquilo que já não serve mais.
Como numa escada, todos os passos levam ao alto. Por-
ventura, encontramos degraus feitos de madeira enfraqueci-
da pelo tempo, e poucos são aqueles que resistem às intem-
péries. Muitas vezes não sabemos onde pisar, mas seguimos
e nos guiamos por quem já passou. Certamente alguns caí-
ram e não quiseram levantar, enquanto outros não tiveram a
oportunidade de encontrar o seu destino.
Aqueles que seguiram o caminho certo chegaram ao seu
propósito final. Sabedoria e humildade poderão fazer toda a
diferença e apontar para a melhor direção. Não estamos so-
zinhos, uma força maior nos guia a todo o momento, mos-
trando-nos a melhor forma de seguirmos em boas compa-
nhias e na melhor direção.
Devemos nos preparar para os dias vindouros e conquis-
tar sempre à base da motivação e ao lado de pessoas espe-
ciais. Essa deve ser uma das trilhas da sabedoria.
Que possamos sentir o prazer da paz, abraçar o presente
e brindar os momentos de felicidade, porque o conforto da
alma acalma e traz a tranquilidade necessária para a mente.
Nada poderá fugir do controle. Com sensatez e com os pés
no chão podemos encontrar a atmosfera perfeita da alegria
do viver. O que se tem feito, que seja com amor, porque o
retorno será verdadeiro.
Em meio a tantos obstáculos surgem os prazeres da vida,
e tudo deve acontecer na medida certa e no seu curso nor-
mal, pois os acontecimentos se desdobrarão de uma forma
ou de outra. As páginas da vida devem ser viradas, e tudo o
que for velho e não nos servir mais, deverá ficar no caminho
e se perder no tempo. Com a mente em estágio elevado de
tranquilidade e sadia, repleta de bons pensamentos e culti-
vada com sabedoria, um passo de cada vez deverá marcar a
incansável marcha do tempo.
Gestos simples podem fazer a diferença, porque a vida é
um grandioso presente e todas as sementes do bem, lança-
das nos campos da nossa vivência, retornarão em forma de
gratidão e prosperidade. Uma boa semeadura consiste em
10 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
amar ao próximo. Buscar paz e sabedoria, esse deve ser o
nosso lema. Viver nos revela grandes surpresas e devemos
estar sempre em alerta. Sorte lançada no nascimento, um
grande milagre acontece a todo instante.
Momentos difíceis surgem no circuito das chegadas e par-
tidas. Todavia, nada resiste à linha do tempo, e tudo se reno-
va como as ondas do mar. Passam os dias e as horas marcam
o compasso da vida, e tudo pode acontecer. As novidades
surgem com grandes transformações. Assim acontece com
a natureza humana. Jamais desista do sonho, combustível
que nos impulsiona a viver. Sejamos capazes de mudar o
instante, pois a vida é o grande livro da sabedoria, aberto,
com algumas páginas em criptografia.
Num mundo de sonhos e realidade, cada objetivo deve-
rá ser tangível. Quando queremos, nem sempre sonhamos,
mas quando sonhamos de verdade, partimos em busca da
realização. Existem sonhos os quais apenas queremos que
se realizem por si próprios. Também existem aqueles que
buscam realizações nas configurações de um mundo real.
Devemos descartar os sonhos sem objetivos daqueles
que realmente almejamos alcançar. Isso fará uma grande
diferença na luta particular por conquistas. Ao despertar
para uma nova jornada, lembre-se de que a vida presenteia
você com mais um dia de prosperidade e bonanças. A ale-
gria se faz presente, e o amor determina os compassos do
coração, sendo que tudo pode se tornar sensação de prazer
e bem-estar.
Também existem os dias de nuvens carregadas que dei-
xam sempre um ar de dúvidas. Nós nos limitamos e não
sabemos se devemos seguir. Com um clima assim, é melhor
não sair de casa. Dias de tempestades são conflituosos.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 11


O mundo parece desmoronar em cima de nossas cabeças,
e tudo parece difícil de assimilar. Sejamos fortes e humildes
para a condução das situações do cotidiano. Assim como os
dias de sol e de nuvens carregadas, tudo passa como num
grandioso ciclo de emoções.
Este é um livro de pequenas histórias e traços de refle-
xões assinados pela poética da vida.
Gleidson Melo

12 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Felicidade com urgência

Bondade, gentileza e simplicidade também devem fazer


parte dos nossos planos, porque o retorno será certo e ver-
dadeiro. Felicidade com urgência para quem estiver triste:
um sorriso sempre que possível também será bem-vindo.
Mas, na fogueira, uma gota d’água não é nada. Perder ou
ganhar faz parte da vida.

14 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Flutue e viaje

Quando o chão faltar-lhe aos pés, flutue e viaje no espaço


do tempo; você vai encontrar momentos inesquecíveis.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 15


Estações

No trem da minha vida não existe solidão. Tristes ou fe-


lizes, assim são as estações. Os desafios sempre estão por
vir, e nos trilhos refaço os caminhos. O assovio do apito
anuncia grandes movimentos. Esvoaçam cinzas nos pontos
de partida. Em cada instante, um novo desafio: respiro a paz
e a vida. Gostoso é poder cantarolar no embalo da amizade
e curtir um bom motivo de felicidade.

16 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


LAR PROSPERIDADE
Um lar de idosos é um cantinho especial. Um lugar para
refletir, compartilhar solidariedade e histórias de vida. Pude
perceber isso quando fui a uma das atividades de volunta-
riado no Lar Prosperidade, no Recife. O local era cercado
por pássaros e árvores. A mais bela era o flamboiã, robusta
por excelência, fornecia sombra necessária às tardes insóli-
tas de domingo. Lembranças da Aurora. Vez por outra, os
grupos de voluntariados traziam dignidade e conforto aos
mais carentes de afeto, e à espera de uma simples palavra
de conforto.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 19


Balões canudos

A conversa corria solta naquele espaço de integração e


de solidão. Sim, solidão, enquanto não despontava o final de
semana ou um feriado especial. De tudo se fazia para se ale-
grar: das cantigas animadoras, ao som do violão, às rodadas
das mais diversas histórias de vida. Em uma das visitas, trou-
xeram uma atividade que consistia em transformar balões
compridos em formatos que pudessem representar animais
que vivem livres na natureza e outros bichos domésticos. A
expectativa era para que a atividade fosse de total imersão e
entretecesse os idosos.
Seu Bernardino seguia fiel nas instruções. O homem, que
aparentava oitenta anos, despertou a atenção da equipe, por-
que permanecia sisudo e fechado em seu mundo. Depois
de algum tempo, percebi que se tratava de uma pessoa que
havia perdido a visão; talvez fosse pela idade ou falta de um
tratamento que lhe devolvesse a luz e as cores da vida.
À medida que estava concentrado, atendia aos coman-
dos do instrutor para a montagem dos “bichos”. A destreza,
ao manusear os balões canudos, era de se admirar. Mesmo
diante da limitação, orientado por palavras, conseguiu fazer
uma bela arte.
20 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Seu Bernardino tivera uma vida difícil, típica de cortado-
res de cana de sua época. Ainda quando tinha suas habili-
dades motoras a todo vapor, trabalhava na zona canavieira,
próxima do litoral pernambucano. Com muita dificuldade,
pôde criar os cinco filhos, que, de certa forma, não tive-
ram o destino do pai. Cada um seguiu uma profissão que
lhe garantiu êxito. Sebastião, Sônia e Marilda concluíram os
estudos básicos, conquistaram sucesso nos negócios e for-
maram suas famílias. Sebastião e Marilda tinham uma vida
mais tranquila e abastada, porque tocavam seus próprios ne-
gócios no comércio de bairro.
Durante o tempo que criava os filhos, seu Bernardino
contava com a ajuda da esposa, dona Laura, uma mulher
sertaneja e de fibra. À luz do dia, quando o esposo trabalha-
va no canavial, ela revezava o tempo entre cuidar dos filhos
e manter uma atividade paralela de lavadeira e passadeira
de roupas. Ainda muito cedo, sofreu um mal súbito que lhe
custou a vida.
As coisas, que já não estavam fáceis para a família, se tor-
naram ainda mais difíceis. Sônia e Marilda, já adolescentes,
assumiram as obrigações do lar.
Quando os filhos apareciam no lar de idosos, seu Bernar-
dino se alegrava com a simplicidade da vida.
Na situação de senil, em muitas famílias, os filhos e ou-
tros parentes próximos não se importam com os idosos,
que, de alguma forma, por falta de atenção e cuidados, aca-
bam abandonados, à custa de que a vida seria muito com-
plicada para cuidar de um parente que necessita de atenção
e mais cuidados.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 21


22 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
O tempo

Quanto ao tempo, aguarde mais um pouco. Sabemos que


a longa espera atordoa, e as horas parecem se esgotar. Pres-
sa, pra quê? A vida seguirá o rumo no seu compasso. Chega-
remos lá, sem pressa, sem medo e com a certeza de que tudo
vai dar certo. Buscar inspirações nas coisas mais simples da
natureza revelará o quão importante cada momento pode se
tornar especial.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 23


Peixinhos fritos

Naquele lugar especial, ouvi muitas histórias, dentre elas,


o relato de dona Rosália, uma das visitantes que acabara de
conhecer. Ao resgatar sua trajetória de vida, trouxe as recor-
dações do passado.
Meu nome é Rosália, tenho setenta e seis anos, morava
num mucambo feito de pedaços de pau cruzados e recheados
com barro. Era uma casa pequena com dois quartos, sala
e cozinha no mesmo lugar, piso batido de terra vermelha,
com um banheiro pro lado de fora da moradia. Assim eram
as casas da minha rua.
Eu, minha mãe Glória e as irmãs, Celeste, Vitória e Flo-
rinda, sobrevivemos diante de situações de dificuldades.
Leite não existia, e quando acabava a farinha com sal, ía-
mos apanhar frutinhas vermelhas no mato para saciarmos a
fome. Sempre na época das frutas, comíamos carambolas e
catávamos mangas.
Pescar no açude e depois comer cambimbas fritas, uns
peixinhos miúdos, também era uma farra. Naquela época,
quando a crise já estava instalada no país, e o homem saía
do campo para morar na cidade, até o sal era difícil de se

24 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


ter em casa. Quando a fome apertava, às escondidas, fari-
nha de mandioca seca com água solucionava o problema,
porque tudo era racionado, e mamãe não podia saber que
éramos trelosos.
Aos oito anos, era a primeira das irmãs a conseguir um
emprego em casa de família. Logo, comprei uma panela de
barro para a minha mãe. Um ano mais tarde, Celeste, Vitória
e Florinda foram labutar e seguiram o mesmo destino, o de
trabalhar em casas de famílias.
Aos poucos, fomos erguendo o nosso lar. Todo mundo
admirava o esforço de cada uma de nós. Éramos fortes e
não desistíamos diante das dificuldades.
Felizes, passamos a comer bacalhau. O peixe não era tão
salgado como os de hoje, mas, era uma delícia. A charque,
quando possível, era servida como uma saborosa refeição
com farofa e café. O alimento, em geral, era pobre em nu-
trientes e deixava a nossa pele bem amarelada.
Mamãe não ficava parada e sempre lavava roupas pra
fora. Lavava e passava em ferro aquecido a carvão. Ainda
lembro do cheiro da fumaça que invadia o ambiente e dei-
xava tudo num clima majestoso, próprio da infância. Até
posso imaginar o sentir do calor e ouvir o estalido do carvão
no ferro à lenha.
Vivendo em um período de complicações políticas, nem
todo mundo podia sair de suas casas. A Liga Contra Mocam-
bos, assim chamada por mamãe, derrubava qualquer casa
que fosse irregular. Com o tempo, essas moradias foram
se consolidando cada vez mais, formaram favelas e locais
de difíceis acessos, com escadarias e degraus bem altos. Os
casebres eram construídos clandestinamente, e o dinheiro,
insuficiente, não dava para comprar cercas, o que, de fato,
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 25
caracterizava invasões de terrenos do Estado. Então, a famí-
lia tomou posse de um espaço muito pequeno que lhe serviu
de moradia.
Perto da casa morava um casal de vizinhos, a dona Alzira
e seu Moacir. A mulher não era uma pessoa muito boa o
quanto parecia ser. Antes de conseguirmos empregos, quan-
do visitava a nossa casa, esnobava.
– Hoje eu comi muito feijão com charque e farinha.
– O almoço estava uma delícia!
– Tem muita gente por aqui com fome, não é mesmo,
cumade Glória?
– Oxente, cumade! Por aqui ninguém passa fome.
– Visse, Rosália?
– Sim, mamãe, não estamos com fome – respondi com
ar de tristeza no coração, porque a nossa mãe nos orientava
a dizer que estávamos bem alimentadas, mesmo que os nos-
sos estômagos estivessem colados nas costelas.
Tudo isso para que a vizinha não soubesse da situação na
qual vivíamos. Em verdade, o que a dona Alzira fazia conos-
co não era de brincadeira.
Certo dia, tudo foi por água abaixo, quando o esposo
abandonou o lar, porque não suportava os caprichos da mu-
lher. Dona Alzira teve que tocar a vida sozinha.
À penúria a coitadinha foi esmorecendo até sucumbir.
Como não bastasse, os donos da moradia chegaram e to-
maram conta do lar. Expulsaram dona Alzira, porque não
conseguia pagar o aluguel. Ela partiu sem o direito de levar
todos os seus pertences, ao menos uma trouxa de roupas.

26 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Certo dia, a mulher apareceu com um saco nas costas.
– Cumade, eu vim aqui e estou passando tanta fome.
– Quem eu era, matava a tua fome e das meninas, não é
mesmo, cumade?
– Veja só em que estado fiquei, estou com tanta fome.
– Não fique triste, cumade Alzira.
Então, mamãe colocou em sua sacola um pouco do que
tinha: café, sal, charque, bacalhau, açúcar e farinha.
– Cumade, se eu não morrer de fome, um dia apareço
novamente.
– Vai com Deus, Alzira!
– Agradeço pelo alimento! Nunca vai faltar comida na sua
mesa, cumade Glória.
A mulher partiu e nunca mais retornou.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 27


Razão e emoção

Quando lhe faltar a voz da razão, deixe falar o coração.


Equilibre-se: nem tudo é razão ou emoção.

28 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Nosso amor

Feito para durar, enquanto houver tempo para amar. Aos


passos da vida, cada instante que for necessário será precio-
so. O minuto em que existir, mas de tudo quero um pouco:
viver cada instante e aproveitar os momentos de felicida-
de; contar estrelas, e no céu poder desenhar nuvens com o
dedo; e ser como os casais apaixonados e amantes eternos,
um do outro. Que valha o tempo e seja eterno nos corações.
Ser feliz é a condição ideal para viver um grande amor.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 29


Alzheimer

Logo a emoção tomou conta à sombra do flamboiã. Ao


chegar próximo a um casal, pude conferir um diálogo que
me comoveu e sensibilizou. Tratava-se de uma bela história
de amor entre o seu Jerônimo e dona Aparecida, um casal
que vivia no abrigo.
– Uma vaga lembrança do que passou.
– Será que aconteceu mesmo?
Momentos inesquecíveis, perdidos no tempo, outrora vi-
vidos, momentos esquecidos.
– Tenho a certeza de que foram maravilhosos.
– Não sei como aconteceram.
– Qual mesmo o seu nome e de onde eu lhe conheço?
– Você me parece familiar.
– Tenho muito amor no coração, sou a sua companhia
das horas incertas e de todo o sempre. A pessoa que lhe
conheceu há cinquenta e sete anos.
– Dentre tantos, você era o rapaz mais belo de todos os
seus amigos.

30 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


– Lembra?
– Sim, mas é claro que lembro, faz muito tempo.
– Nos meus pensamentos, tenho apenas a imagem de
uma pessoa muito especial e sincera.
– Alguém que me acompanhou por caminhos inesquecí-
veis e repletos de facilidades.
– Compartilhamos maravilhas e tristezas.
– Mas, ela se foi como poeira ao vento.
– Quem é você mesmo?
– Sou o seu amor, a sua paixão desmedida.
– A mãe dos seus filhos.
– Sim, sim, sim!
– Agora lembro!
– De que é mesmo que estamos falando?
– Do nosso amor, dos nossos instantes preciosos.
– Eu sei, daquela que se foi e me deixou aos prantos.
– Certamente, já não lembro mais dos detalhes, mas foi
muito difícil ter que suportar a decepção.
– Era uma mulher inesquecível. Jamais terei um alguém
tão especial ao meu lado.
– Senhora, sabia que um dia eu contemplava as ondas
do mar?
– As espumas na areia e o sabor nos lábios me refresca-
vam a memória e trouxeram muitas recordações.
– Caminhávamos sempre juntos ao entardecer, e o pôr-
-do-sol nos presenteava com o céu alaranjado.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 31


– Recordo de muitas coisas, mas não lembro muito bem
de você.
– Quem é você mesmo?
– Eu sou a sua amiga, companheira de todas as horas, o
seu amor, aquela que jamais abandonou você.
– Hum, agora sei quem você é.
– Em seus braços contava as estrelas e como foi o
meu dia.
– Não diga mais nada, apenas me ame como da última
vez, pois posso não mais lembrar do que passou.
– É tudo tão confuso, e o tempo parece parar.
– Num estalar de dedos, esqueço e não recordo de mais
nada, noutro, vem à tona a mais bela lembrança.
– Estarei contigo, não se preocupe.
– Até mesmo nos momentos em que não souber defini-
tivamente quem eu sou?
– Estarei ao teu lado e amarei você pra sempre.
– Eu amo você, meu querido!
– Senhora, me trate com carinho e desse jeito você será
uma pessoa especial.

32 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


O tempo é o relógio da vida

Sintonia dos pensamentos, um grande amor conforta o


coração. O vento traz um sentido todo especial, folhas voam
ao léu e em total desordem. Ar nostálgico de outrora, revi-
vem-se momentos especiais. O tempo é o relógio da vida, as
horas passam e transformam o dia em um verdadeiro ciclo
de sentimentos. As imagens se confundem e a mente voa
distante. As tuas mãos nas minhas, caminhamos aos passos
da felicidade. Nos jardins da serenidade, sentamos em volta
do lago e ouvimos os cantos dos pássaros.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 33


RUA DOS QUERUBINS Nº 18
36 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Clara e iluminada com os raios de sol, o canto dos pás-
saros anuncia um novo dia. No caminho das pedras, há ca-
choeiras – lá descansa um belo rio de águas cristalinas. No
vilarejo, há frutos de pensamentos, beijos doces em forma
de ternura. Sentimentos à flor da pele, risco o teu nome na
areia e fico feliz. O humilde rapaz de cidade do interior era
poético e seguia tranquilo em passos leves e aprumados nas
linhas do tempo.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 37


Travessia

Para Laurindo, um charmoso rapaz esperançoso, e de ob-


jetivos certeiros, ser poeta era possível, porque, em Bonito,
uma pacata cidade do agreste pernambucano, tudo encantava.
O azul do céu enchia os olhos e contemplar a natureza
de manhãzinha ensolarada não existia preço que pudesse
pagar. Os pássaros comiam nas mãos das pessoas e acom-
panhavam os passos de quem podia caminhar nos gramados
verdejantes. Ao levantar os pés, sacudia um pouco de terra
que chamava a atenção, o suficiente para compartilhar da
companhia agradável dos canários-da-terra e sabiás.
Mesmo convivendo no paraíso das águas, deixar a vida
pacata de um menino, que vivia e ajudava na lida de fazen-
da, e seguir para a cidade grande, era uma decisão impor-
tante e desafiadora.
A capital, repleta de surpresas, espantava e saltava aos
olhos.
Bem sabemos que não há mal nenhum em ter que enca-
rar as agruras do dia a dia. Difícil mesmo é conviver com
a fome, a violência e o caos instalado nos grandes centros.
Mesmo assim, Laurindo não desistia dos seus desejos.
38 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
– Mãinha, painho, tenho que ir, chegou a hora.
– Meu filho, Deus abençoe você e dê muita sabedoria –
recomendava dona Lurdes.
– Laurindo, você é um filho especial e estaremos sempre
de portas abertas para acolhê-lo novamente.
– Sim, meu pai, agradeço. Um dia eu volto.
– Bença, pai!
– Deus abençoe, meu filho.
Abraços e beijos marcaram a breve despedida do único
filho do casal.
Foram quatro horas de viagem tranquila, que lhe trou-
xeram muitas recordações. O vento no rosto e as imagens
do passado passavam como num belo filme da vida feliz e
da infância bem vivida na fazenda. Aos poucos, a paisagem
bonita ia se transformando, e o caminho de terra dava lugar
ao asfalto.
A cada cidade surgia uma novidade, com jeito típico e
próprio de cada lugar. Tudo contribuía para tornar a traje-
tória agradável, enquanto a lua cheia, que se aproximava da
noite, fazia parte de um contexto deslumbrante.
Era domingo, e a calmaria não revelava o que estava
por vir. Foi quando Laurindo chegou ao grande centro
urbano. Logo, conheceu Paula, uma bela moça de olhos
castanhos e pele cor de canela. O encanto e um clima de
romance passaram a tomar conta do momento, que fez
palpitar os corações.
– Olá, Laurindo! A sua tia Violeta falou muito bem de
você. O meu nome é Paula, prazer em conhecê-lo!

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 39


– Ôxe, que nome bonito, Paula!
Leopoldo, o seu tio por parte de pai, o convidou para
entrar e guardar as poucas bagagens que trouxe. A tia Viole-
ta, uma mulher generosa e cuidadosa, havia preparado uma
janta farta. As delícias lembravam a infância de um menino
feliz e sonhador: cuscuz, inhame e um delicioso café coado
no pano.
– Venha, Laurindo, entre!
– Estávamos com saudades de você.
– Eu também, titia.
– Como você cresceu, meu jovem rapaz.
– Isso mesmo, titio, a vida na fazenda é muito boa e faz
bem à saúde.
– Além disso, todos os dias passeava a cavalo, tomava ba-
nho de rio e comia muitas frutas que colhíamos no pomar.
– Filho, aqui na capital a vida é bem diferente, com certe-
za, bem agitada também.
A acolhida lhe trouxe conforto familiar. Afinal, atender
bem era a marca registrada da família Silva.
Encarar uma vida melhor e esperar que tudo se encaixas-
se como num quebra-cabeças de duas peças, isso não podia
acontecer.
Muita gente acredita no destino. Tudo bem, nada de erra-
do, mas bem dificilmente as pedras se encontrarão um dia.
Essas e outras assertivas rondavam a mente do jovem, en-
quanto descansava na primeira de muitas noites no Recife.

40 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Os pés firmes no chão era o seu porto seguro, mesmo
assim não passava pela cabeça medir razão e emoção. Tudo
fluía naturalmente, pois estava certo dos seus objetivos.
A moça que o encantou, com ar de quem não queria
nada, no dia seguinte convidou para ir ao cinema.
– Oi, Laurindo!
– Vamos ver um filme? Dizem por aí que é lindo O amor
está no ar, do famoso cineasta Andrade Pomposa.
O jovem, que não era donzelo e nem um pouco atabacado,
sentiu-se atraído pelo convite.
– Marminino, claro que aceito – respondeu Laurindo, sem
titubear.
– Sessão da tarde – confirmou Paula.
– Vou te contar um segredo, Paula, nunca fui a um cine-
ma.
– Dizem que é um espetáculo ver um filme passar numa
tela grande. Ouvi falar muito bem do São Luiz, às margens
do Capibaribe.
– É verdade, e você vai ficar maravilhado com o cinema
e com o filme.
A película era encantadora, e o casal trocou carinhos. Sur-
gia um sentimento que jamais Laurindo podia imaginar. Para
muitos, amor à primeira vista e paixão meteórica têm tudo
a ver.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 41


À flor da pele

Sentimento à flor da pele. Leve como o vento, toma a


minha calma. De corpo e alma nua, sigo rumo afora. Sem
tempo, sem hora, doravante no prumo da vida. Pura leveza
do pensar; viajo denso nos meus sentimentos. Adentro na
longa estrada da mais pura existência do ser. Caminho e vou
embora, vida adentro, mundo afora.

42 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


O vendedor de flores

Razão do meu viver, encanto singular da paixão, o teu


olhar me seduz. Deixo o amor fluir, invadir a minha calma,
saciar o meu desejo e contagiar a minha alma. Cumplicidade
no ar. Diferença que traduz, tudo se transforma num gesto
de ternura, de pura emoção. O coração na mão, a leveza do
pensar. A simplicidade no agir, é amor de verdade.
O calor da paixão incendiando os corações. Na imperfei-
ção dos sentimentos, condição que valsa na calmaria incons-
ciente, tudo lhe é permitido. O toque suave das mãos, que
de tão suave acalma, tranquiliza e faz o momento ser todo
especial. O encanto das palavras fascina e contagia como
a música suave das nossas vidas, dedicada especialmente à
ocasião. Sonho, amor, alegria e prazer deixam tudo com a
mais viva sensação de bem-estar.
Felicidade é poder estar com a pessoa amada ao seu lado,
é poder com ela transpor barreiras e vencer a grande jornada
da vida. Sentir o calor da paixão e com o toque da mais pura
sedução, viver momentos inesquecíveis, frutos do momento
que se eterniza no passar das horas. Linda canção de amor

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 43


para refletir, acalmar e purificar a alma, leve e com um sen-
timento único, vivido de forma especial.
Um toque no silêncio leva-nos a lugares inimagináveis,
e que, de tão perfeito, nos faz levitar. Fortemente indicado
para as ocasiões mais especiais. Cada um com os seus so-
nhos únicos, e unidos num só, se confundem. Tudo é paz,
é amor, é sedução e traz um ar de cumplicidade, o de amar
e ser feliz.
Não vale deixar escapar por entre os dedos a preciosi-
dade perfeita do encontro. Um clique no coração e tudo se
volta para o amor. Podemos vivenciar e reviver a melodia a
qualquer tempo: início, meio e fim. Se é que tem fim? Fim
para uns e renovação para outros, pois, quando se ama, não
importa, o que vale é o sentimento. Baseado nas mais puras
e belas canções de amor: para viajar, basta ouvi-las.
De repente, inesperadamente, e sem tempo para racio-
cinar ou fugir das armadilhas da paixão, Laurindo e Paula
viveram momentos inesquecíveis. Lado a lado e sem com-
promissos com a vida. Nada mais existia, além do puro
doce da paixão, residente nos corações abertos a uma das
potências mais devastadora dos sentimentos. Amor por
completo, talvez?
Os sentimentos foram tomando grandes proporções, e
mal sabia o jovem galã que estava preso nas armadilhas do
cupido. Muitas das vezes, os jogos da sedução podem dar
certo. Sempre se paga um alto preço quando algo sai errado.
O efeito é tão devastador quanto cair de um abismo ou che-
gar ao fundo do poço sem cordas de segurança.
Sempre se deve estar atento às armadilhas da vida, pois o
fundo do poço parece distante para quem acredita apenas na
sorte. Um passo no escuro e você estará no buraco.
44 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Dito e feito, alguns meses depois chegara o momento
menos desejado para qualquer relacionamento amoroso, no
qual sempre alguém sai machucado.
Tardinha de sábado, um belo dia, apesar da chuva fina
que caía, porém, de clima romântico, como todos os dias de
céu cinza com nuvens cor de chumbo. Laurindo seguia ca-
minhando pela Calçada da Ilusão, muito conhecida no bair-
ro, e tudo parecia tão perfeito, no instante em que ensaiou
um belo poema para sua amada.

Na hora, no lugar, no momento certo encontrei você. Sensual, me


enlouquece de prazer. O teu perfume exalou um aroma adocicado de
efeito suave. Ainda permanece no imaginário. Beijei os teus lábios que
de tão macios, logo me encantaram. Quero você pra sempre, e neste
instante, minha amada, declaro o meu amor por você.

Um golpe de vista inesperado aconteceu e Laurindo foi


tomado pela emoção de um encontro inesperado.

– Vôte!
– Não acredito no que vejo.
Envenenado e surpreso presenciou uma cena de traição.
Isso mesmo, a verdade é que a bela morena aproveitava a
vida do jeito que podia. Fábio, o primo mais velho de Lau-
rindo, também adolescente, contribuiu ainda mais para que
a decepção fosse maior. Completamente perdido, ele não
sabia exatamente o que fazer.
Dizem que tudo na vida pode servir como lição e de apren-
dizado, e podemos aprender com as nossas próprias falhas.
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 45
Mas, qual foi a enrascada que Laurindo foi se meter?
Como aconteceu na primeira película que assistiu, o galã foi
traído por uma pessoa muito próxima e sua amada se deu
muito bem.
Imediatamente, Paula largou o garoto e tentou expli-
car o que não poderia ser explicado. Nada justificara um
feito daqueles.
– Amor, não é nada disso que você está pensando.
– Fica comigo, você sabe muito bem que eu amo você.
A resposta de Laurindo foi o silêncio. Decepcionado
pelo fracasso, apenas caminhou rumo ao desconhecido. Mil
coisas passaram pela sua cabeça, mas, nenhuma delas trazia
uma resposta certeira que pudesse conformá-lo.
Na vida, tudo passa. Difícil mesmo é saber esperar. Foi
um verdadeiro golpe, de partir o coração, e a sua vida se
transformou. Em sua forma poética de refletir, recitava para
quem pudesse ouvi-lo.

Faço um laço, lanço no espaço.


Laço sem embaraço, abraço,
inebrio no meu vício de amar.
Entonteço, adormeço, enlouqueço,
sem endereço envelheço.

Depois se afastou de todos, e os sonhos pulverizaram-se


ao vento, no instante em que a autoestima fluía por água
abaixo. Com tanta mágoa, Laurindo decidiu sair da casa dos
tios. Era impossível conviver ao lado do seu primo Fábio,
46 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
uma pessoa que passou a respeitar, mas que tão logo o de-
sapontou.
Com tanta decepção, buscou alento nos braços das ruas.
Os sonhos do menino do interior pareciam escapar de
forma precipitada.
Mesmo no desconforto das sarjetas, com o passar do
tempo, o moço aventureiro levava consigo o seu verdadei-
ro dom.
Depois de algum tempo conheceu o seu Caçula, um se-
nhor de uns sessenta e cinco anos. Era o vendedor de flores
da Rua dos Querubins. No entanto, o que chamava mais
atenção era a forma como ele tratava as pessoas e encantava
a todos que passavam próximo da sua banca multicolorida e
perfumada. O homem irradiava a simpatia de um semblante
de paz e alegria.
Todos os dias seu Caçula trazia uma novidade para a fre-
guesia e recitava poemas apaixonantes. Até mesmo quem já
havia perdido um grande amor, ou sofrido por desilusões
amorosas, não resistia às palavras de sedução.
As ofertas eram inusitadas e o homem vendia as flores e
oferecia versos aos corações apaixonados.

De ti, meu amor, evola o perfume das flores da primavera, que de


tão delirante envolve os meus anseios; viaja na mente e flecha a minh‘al-
ma. Na sombra do luar, em noites iluminadas pelas estrelas, incendeia
os desejos e sublima um delirante frescor chamado amor.

Aos poucos, Laurindo foi assumindo o posto de vende-


dor de flores e passou a ganhar popularidade. A simpatia
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 47
irradiava em seu olhar. Ele vendia flores tão bem quanto o
mestre Caçula.
Com o apoio recebido de uma pessoa tão especial, pôde
erguer-se e passou a morar sozinho em um humilde case-
bre próximo do mar. Era uma casinha amarela, com jane-
las em frestas que sobressaíam ao brilho do luar. Naquele
lugar, sentia-se bem e percebia o quanto era importante
viver e ser feliz.
Os sonhos e os objetivos afloraram mais uma vez e Lau-
rindo buscou dedicação e empenho para as novas conquis-
tas. Alguns anos se passaram, e após muitas noites em claro,
inscreveu-se e conseguiu aprovação no vestibular. Escolheu
uma área de conhecimento que pudesse dar aporte para cui-
dar melhor das pessoas mais necessitadas; poder rata-las de
forma especial, com afeto, carinho e simpatia.
Encontrou a oportunidade propícia para se doar a quem
necessitasse de atenção, principalmente aos mais jovens e
aos mais idosos. Acreditava que, dessa forma, muito sofri-
mento poderia ser amenizado.
O jovem Laurindo trazia consigo sentimentos de per-
severança e de forças para trilhar caminhos que pudessem
conduzir ao prazer de viver.

Viver de verdade é ter prazer em aceitar a vida como um presente.


Por quão longa for a estrada, o que vale é a caminhada. Para todas as
pessoas que passam por dificuldades, vale muito a pena viver intensa-
mente cada momento de felicidade.

O sonho de Laurindo era o de mudar o mundo com


boas atitudes e ações de amor ao próximo. Era difícil,

48 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


porque muita gente não entendia o verdadeiro significado
da vida. Igualmente, foi difícil para si mesmo interpretar
esse valor, nos momentos em que viveu dias penosos nas
ruas. Entretanto, uma coisa era certa, enfrentou tudo com
muita dignidade.
Após um longo período na academia, chegou a tão espe-
rada formatura de encerramento de curso. Por ser o melhor,
dentre os demais acadêmicos, recebeu as láureas merecidas.
Tudo foi possível, porque, além da dedicação, os trabalhos
apresentados em Congressos Nacionais e Internacionais,
na área de Assistência Social e Humanitária, renderam-lhe
muito prestígio.
Em menos de um ano de formado, recebeu uma pro-
posta e foi estudar no exterior. Em pouco tempo, Laurindo
aprendeu a se comunicar em vários idiomas. Em sua jorna-
da, conheceu muitos lugares e participou de eventos, nos
quais apresentou, para grandes públicos, a sua história de
vida e os ensinamentos de respeito e amor ao próximo que
aprendera numa charmosa cidade do interior de Pernambu-
co, chamada Bonito.
Mais adiante, retornou ao Brasil, estudou música e se
tornou líder de uma organização que cuidava de meninos
e meninas portadoras de câncer. Tudo lhe caía como uma
luva, pois o canto servia de conforto e acalmava o coração
daquelas frágeis crianças.
Ele demonstrava orgulho pela educação que seus pais pu-
deram lhe dar. Dessa forma, transmitia os desejos de trans-
formar ilusões em sonhos tangíveis e palpáveis.
Por tudo que passou, numa folha desgastada pelo tempo,
uma mensagem deixou.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 49


Jardim de luar,
flores singelas
brilho da lua,
cores tão belas.

Jardim do poente,
pôr-do-sol,
céu reluzente,
flores de girassóis.

Jardim das tardes,


aroma no ar,
nostálgica saudade,
desejo de amar.

Jardim de primavera,
flor de azaleia,
aroma sutil,
verdade sincera,
Amor juvenil.

Jardim da manhã,
sentado pensando,
banquinho no lago,

50 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


reflexo na água,
poeta sonhando.

Hoje, aos sessenta e um anos, conta sua história de vida


para quem o visitar no Lar das Saudades, localizado na Rua
dos Querubins, número 18.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 51


Escolhas

O pai possibilita ao filho tudo aquilo que é necessário


ao caminhar. A partir das escolhas, tudo será de sua inteira
responsabilidade.

52 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


EXISTE UM CAMINHO
54 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Passei por lugares especiais e contemplei de perto as pai-
sagens dos campos. Natureza em forma e cor. Viajei ao som
de canções inesquecíveis, vi o céu e as estrelas no infinito
azul. Saudade foi chegando de mansinho e apertou o peito.
Era o desejo e a vontade de voltar.
Guardo na memória boas recordações. A mente fotogra-
fou momentos inesquecíveis, paisagem inspiradora que en-
canta os poetas, ar nostálgico de grandes emoções.
A fogueira de São João aquece no frio, acende e incendeia
o fogo das paixões. O Festival de Inverno encanta multidões,
e as vidas se cruzam, encontram-se sem querer. A casinha
no campo, a fábrica de chocolate e o cheiro da terra úmida
trazem contentamento. Deixaste saudades dos trens de ou-
trora, do ritmo do Agreste, das idas e vindas nos trilhos.
Um mistério singular de paz ronda a noite na cidade, con-
vívio de sentimentos e felicidade sem fim. O aconchego e a
calmaria trazem tranquilidade. Quero voltar, sempre é tem-
po de chegar. Paixão de todas as cores, o Relógio das Flores
dá o sentido do tempo, marcando os compassos, harmoniza
o presente.
***

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 55


Localizada no interior, Garanhuns é uma bela cidade do
agreste pernambucano. Há dezoito anos, nasceu Francisco,
nada mais além dos seus três quilos e oitocentos gramas de
pura saúde. Olhos bem abertos e de cabeça pelada, rece-
bera duas palmadas da doutora Márcia e aplausos de toda
uma equipe.
– Lindo bebê – comentou, enquanto limpava o menino e
cortava o cordão umbilical.
– Que maravilha de menino – destacou, emocionada, a
enfermeira Lúcia.
Tudo era fotografado e passava pelas lentes de uma das
convidadas que chegou para assistir ao parto e registrar os
melhores ângulos. Magali era uma velha amiga de família.
O seu pai Josué era simples no modo de agir. Um jovem
de vinte e dois anos, três anos mais novo que Catarina, a
sua esposa. Olhos embebidos de lágrimas, não se continha e
acompanhava tudo através da janela de vidro. Ele e a família
assistiam cada passo do evento, enquanto os murmurinhos
dos corredores traziam a grande notícia da noite.
– Nasceu um menino lindo!
– Um lindo bebê!
Extasiada, Catarina nem se mexia. Coitada. Talvez pelas
dores do parto ou por ter ficado radiante pelo sublime ins-
tante. Com tantas luzes e elogios em sua volta, restou-lhe
ficar paralisada com a situação.
– Mãe, está aqui o seu príncipe encantado.
– Dê-lhe o peito.
Entregou o bebê envolto por uma coberta macia de cor
verde bem clarinha.
56 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
– Dê-lhe o peito, sinta o seu bebê.
– Veja como ele está saudável.
– Agora, ele precisa de você.
A emoção tomou conta do espaço, e a alegria da vida
estava presente naquele momento.
Uma coisa era certa, as lágrimas de emoção indicavam
que algo de novo acontecia naquele hospital.
Francisco mamou até ficar em tons roxeados. Tudo era
motivo de festa e todos celebravam mais um nascimento na
Maternidade Futuro. O primeiro choro, a troca de olhares
com a mãe, o primeiro toque, a primeira mamada. Tudo ficou
registrado na memória como forma de sentimento único.
No início, a rotina com Francisco era mágica, e o relacio-
namento do casal fluía às mil maravilhas. Com o passar do
tempo, o desejo de morar no Recife aumentava a cada dia
de confusão. Os dias pungentes projetavam os pensamentos
para além da longa estrada, lá do outro lado distante das
Serra das Russas.
Catarina se descompensava com as ofensas que fazia e
sempre dava estrimilique. Era xingamento na certa.
– Homem imprestável!
– Vai embora e me deixa em paz, seu covarde.
– Seu envenenado!
– Não aguento mais você.
O que ela não entendia era a verdade de que todas as coi-
sas precisavam acontecer no momento mais propício.
Certamente, a vida não estava fácil naquela época em que
o futuro parecia distante de acontecer.
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 57
Quando Catarina queria um vestido, por exemplo, queria
“aquele vestido”.
– Mulher, não consigo dar conta de tantas responsabi-
lidades, devemos planejar o orçamento – tentava dialogar
sem sucesso.
– Não quero saber, casou porque quis. Agora, o proble-
ma é seu.
– Tá vendo, Chiquinho, o menino precisa de roupas, cal-
çados melhores e uma boa vida.
A situação mais crítica entre o casal ocorreu num dia de
decisão no futebol brasileiro. Assistiam a um dos grandes
clássicos pernambucano. O placar marcava Santa Cruz Fu-
tebol Clube 0x1 Sport Club do Recife. O menino Francisco
e o pai estavam vestidos com as camisas dos seus times fa-
voritos. Santa Cruz, é claro. Embora perdendo para o ar-
quirrival Leão, não paravam de torcer.
Catarina preferia agir com as vozes da razão e muitas pa-
lavras eram jogadas ao vento. A mulher impingia o mal para
tudo e todos. Enquanto a emoção sequer passava por perto
daquela barra de saia, sempre buscava acreditar que o mun-
do deveria girar, único e exclusivamente para si própria.
Era pura falta de sensibilidade e egoísmo à flor da pele.
Enfim, o jogo congelou com aquele placar, e com a disputa
por desejos e vontades de Catarina.
Paralelo ao turbilhão de acontecimentos, o emprego de
Josué proporcionava-lhe a realização de concursos de remo-
ção. Ele, funcionário público, já estava com as cartas nas
mangas, é claro! Essa carta lhe constituía uma verdadeira
válvula de escape, para quando não pudesse aguentar mais
as instabilidades do casamento.

58 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Não demorou muito e o in(esperado) acabou por aconte-
cer, e Josué não aguentou mais passar por tantos problemas
sem soluções.
– Vou embora pro Recife, lá terei paz e sossego garan-
tido. Cansei de passar por situações em sua desagradável
companhia.
Prontamente, arrumou as malas (as suas malas já estavam
quase prontas e à espera de um momento certo) e prestes
sair, beijou o filho.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 59


Menino moleque

Ser criança, ser feliz, ser contente, brindando a vida, ale-


gria e paixão, que brinca e chora, inflama a garganta, implo-
ra, se cala. No canto da sala, brinquedos pequenos. Quieto,
esperto, menino inocente. Um mundo de cores, futuro em
vista. Singelo olhar, pensamento menino. Estrela cadente,
um dente no telhado. A casa da árvore, o canto dos pássaros.
Brincadeiras e balões, balas e sonhos, doce gosto de infân-
cia. Menino sem pão, sem pai, sem mãe. Sem teto, atento nas
ruas. Semblante de anjo, o sorriso transforma, a vida ensina.

60 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Aos farrapos

O pai fez tudo o quanto era possível para levar Francisco


consigo, e mesmo assim, ouviu desaforos de Catarina.
– Um dia você vai se arrepender. Homem ingrato, covar-
de, sem coração!
No entanto, do que valeria amar uma pedra? Foi quan-
do, aos quatro anos de vida, o momento em que Chiquinho
amargou a dor da separação dos pais.
– A culpa foi minha. Na inocência, aos prantos, dizia re-
petidamente, o menino. E todos os dias, a mesma ladainha.
Ficaram desolados, Chiquinho e Catarina. Pouco a pouco,
as notícias se desencontravam e cada dia era um dia de sorte
para o simpático menino. Tragicamente, a jornada da vida
mal começava, e já dava os seus primeiros passos, rumo para
um futuro totalmente desconhecido. A vida ia seguindo o
seu percurso, e a constituição familiar foi se esfacelando aos
poucos.
Uma vez ou outra, o menino escapava para a rua e lá pas-
sava o dia a perambular. Quando era noitinha, a mãe o cha-
mava e lamentava.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 61


– Chiquinho, passe para dentro, já é noite!
– Seu pai foi embora e nos deixou sem nada, quanta
infelicidade.
Era a mesma súplica diária, e sempre repetia o discurso.
Com aquela infância sem lei, o coitadinho não compreen-
dia muito bem o que se passava. Não se fazia nada, e Chiqui-
nho seguia seco, sem regras e sem pai por perto.
Os dias se passaram, e Catarina passou a morar com um
homem de trejeitos esquisitos e de olhares profundos.

A vida é feita de escolhas,


e o amor, às vezes, é cego.

Catarina se transformou numa criatura descompensada


ao dobro, e não conseguia enxergar um palmo à frente do
seu próprio nariz. Valdinho, o padrasto do menino, nunca
conseguia se estabelecer na vida. Trabalhava naquilo que lhe
garantia alguma gorjeta, que mal dava para o próprio susten-
to, quiçá para cuidar de uma pequena família.
Desconcertados, o casal não parava de brigar. Nada se
podia fazer, e ninguém queria tomar partido.
– Em brigas de marido e mulher não se mete a colher –
diziam os parentes mais próximos.
A mesma história se repetia e, enquanto isso, Catarina não
passava mais que dois anos com o mesmo relacionamento.
A instabilidade de convivência familiar em sua vida
era iminente.

62 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Devido às péssimas condições, em todos os aspectos, Ca-
tarina resolveu levar Chiquinho para uma casa de sítio, na
zona rural da cidade, na condição de morar com os avós.
O seu avô Jacinto era um homem durão e mais grosso que
“papel de embrulhar pregos”. O homem não tinha um sen-
so agradável de pai (certo que ninguém substitui um pai).
Mesmo assim, conquistou o seu netinho Chiquinho.
Dona Margarida, a avó, tinha personalidade forte. Mas,
de grande coração (toda avó tem um coração do tamanho
de um trem) que conquistava o menino com os seus mimos.
Agrados à parte, os momentos da infância de Chiquinho
foram marcados por dias trabalhosos no campo. Mas, o bom
de tudo é que ele não chegou a abandonar os estudos, por
recomendação dos seus avós e das inspirações do seu pai.
– Seu pai era uma pessoa de estudos e letrada. Sempre ha-
via alguém que dizia isso pro menino. Josué era apaixonado
por leitura.
Mesmo sem entender a verdadeira causa do rompimento
dos laços de família, Chiquinho sentia muita falta do pai. A
saudade era maior quando se comemoravam na escola o Dia
dos Pais, momentos em que simplesmente o pai não aparecia.
– Professora, o meu pai vai chegar?
Olhe, filho, respondia a professora Zezé – fique calmo,
um dia ele volta e vai cuidar de você.
Mesmo assim, a escola entregava os presentes confec-
cionados na atividade escolar, que eram levados para casa.
Coisas simples, construídas com papel, cola, tinta guache e
muita criatividade. E, desse modo, acontecia com as outras
datas mais importantes da folhinha: Natal, Ano Novo, Pás-
coa e Dia das Crianças.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 63


Com certeza, a culpa não poderia recair totalmente so-
bre as costas de Josué. Quando podia, ele telefonava para o
filho. Embora, na maioria das vezes, acontecia de não com-
pletar a ligação, porque as torres de transmissão de sinais
para telefones móveis eram precárias, quando os aparelhos
da época pareciam caixas de sapatos e possuíam antenas,
totalmente diferentes dos smartphones dos dias atuais.
Aos poucos, a imperiosa marcha do tempo ditava a for-
mação da personalidade de Chiquinho, que, por sinal, era
muito forte. Todavia, a revolta com o seu pai tornou-se no-
tável e constituía um verdadeiro coquetel de rancores.
Aos doze anos de idade, a vida de Chiquinho começava
a se transformar de forma inexplicável. Momento em que
o seu Jacinto e dona Margarida deixaram a lida do campo e
foram morar na área urbana.
O menino precisava respirar o ar da cidade, diziam os
avós. No campo, já não dá mais para estudar.
Logo, a permissividade se tornou marca registrada da família.
Bem-vindos de volta à cidade. Chegaram com a cara e a
coragem. O avô, quase um aposentado rural, entregou-se à
bebedeira.
– Que tenho a perder? – questionava o homem nos dias
de profunda e total desilusão.
– Que levarei desta vida, senão as amarguras?
Ele não conseguia parar de sorver sua pinga um instante
que fosse. Chiquinho, na cidade, mesmo cambaio, continuou
os seus estudos. Aos treze anos, reencontrou novamente o
seu pai. Josué, cheio de saudades, foi visitar o seu rapaz (um
pai nunca se esquece do filho). Encontrou o menino numa

64 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


situação muito difícil e com sintomas de angústia guardada
no peito.
– Tu és o meu pai? – Chiquinho lhe questionou de cara.
– Esperei muito por este momento, meu pai. Vieste
me buscar?
– Talvez, meu filho.
– Um pai jamais vai esquecer do seu bem mais precioso.
– As circunstâncias da vida me levaram para bem longe
daqui. Tive que ir embora, meu filho.
Envolto no mistério, cercavam algumas condicionantes
que percorriam os sentimentos. Não ia ser tão fácil resga-
tá-lo, porque, naquele momento, alguns fatores pesaram
sobre a decisão. A mãe não poderia perder o rendimento
de pensão que ganhava de forma tão fácil. A avó e o avô,
que cuidaram o tempo todo do neto, não queriam deixá-lo
partir. E agora? Os sonhos de Chiquinho não passavam de
poeira ao vento. Mas, a vida, que era difícil, poderia ficar
melhor do dia para noite. As investidas do pai não obtive-
ram o sucesso desejado.
Depois disso, pouco se ouvia falar de Josué.
Com o coração ferido e a desilusão do desafeto, o me-
nino se tornou ainda mais amargo. Por conta, sem limites
de obediência, ninguém conseguia segurá-lo. Sumia por três
dias e aparecia sujo, desarrumado e com fome. Comenta-
vam que sempre seguia de carona para a capital.
Sem controle e regras, era um andarilho e se metia sem-
pre em confusões. Pagou-se um alto preço por tudo isso.
Os estudos foram consumidos pelo desprezo. Restou-lhe a
falta de conclusão dos estudos básicos e uma vida de futuro
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 65
incerto. Chiquinho partiu para o mundo e para os desafios
da vida no Recife.
As suas lembranças de molequices podiam vagar na me-
mória: o cavalo corisco, o banho de chuva e contos de his-
tórias na claridade do candeeiro, ainda quando morava no
interior do interior. A luz elétrica, é claro, existia há muito
tempo, mas, no interior do interior faltava. Contudo, a pre-
cariedade de manutenção é quem dava as caras de vez em
quando. O clima do campo era outro, e os vaga-lumes, com
os seus lampejos, enfeitavam a atmosfera rica e saudável,
própria do campo.
Aos dezoito anos, os sonhos de Chiquinho afundaram
na lama da ignorância. A vida escapava por entre os dedos,
e o rapaz soltou-se no mundo. Definitivamente, perdeu o
contato com seus pais, parentes e amigos da velha infância.
Chiquinho seguiu o seu destino, em direção ao desconhe-
cido. Sem tempo, no alento e condenado por suas atitudes,
passou a viver nas ruas; não possuía um lar e uma família que
o edificasse. Abandonado, tornou-se um farrapo humano.
A sua origem passou a ser completamente desconhecida.
Aos vinte e três anos, continuava às margens da sociedade.
Nessa fase da vida, passou a atender pelo codinome Chu-
lé, o Zumbi da Feira. Ele fazia da calçada a sua cama de sol-
teiro, e quando chovia, parava embaixo da marquise da loja
de calçados, na capital pernambucana.
Francisco parecia um morta-fome em busca de alimento. A
comida era disputada com os pombos, que instintivamen-
te sabiam exatamente o horário do almoço. As aves eram
mais rápidas, e o tempo não era o suficiente para resgatar o
alimento jogado no lixo. A fome fazia doer o estômago, e a
sensação de abstinência das drogas era de enlouquecer.
66 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Chiquinho conseguia um troco no estacionamento, mas
as moedas recebidas eram acumuladas em seus bolsos imun-
dos e todo o apurado cumpria um único destino.
O apelido Chulé deveu-se à fedentina exalada dos seus pés,
e quanto ao título de Zumbi da Feira, este se deu pelo motivo
do estado de alienado, por conta do crack que o consumia.
Dizem que cada um é responsável pelo próprio destino.
Isto é, para aqueles que acreditam em destino. Em verda-
de, o destino existe para quem busca um objetivo certo de
vida e procura alcançá-lo. Os sonhos podem ser ilusões, e
uma meta a ser alcançada não se constitui em apenas delírios
emocionais.
A vida prega muitas peças, e a jornada diária pode se tor-
nar um verdadeiro suplício, quando se trata da busca pela
própria sobrevivência.
Quanto ao cerne da questão, relativa à temática do vi-
ciado, do coitadinho ou do indefeso, levada a cabo, seria
o suficiente para resolver o problema de Chiquinho? Ora,
interná-lo em uma clínica de reabilitação para dependentes
químicos poderia ser a solução. Quem vai saber? Nas ruas, o
mundo é cão, e a roda da vida gira sem saber aonde vai parar.
Um pão francês com manteiga de manhãzinha, regado a
um delicioso café com leite seria um grandioso presente para
quem padece nas calçadas. Certo de que algumas pessoas
não têm opções, porque foram abandonadas por parentes;
enquanto outras escolheram viver ao léu e não conseguiram
mais retroceder e retornar ao seio da família. Para muitos,
afinal, escolhas são escolhas.
Domingão de manhã e Chiquinho foi surpreendido por
um grupo de pessoas em sua volta. Estava com o corpo

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 67


trêmulo e não dava para dizer o motivo – frio ou efeito dos
alucinógenos? Elas faziam parte de uma Organização Não
Governamental, cuja finalidade focava na libertação de de-
pendentes químicos.

68 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Mudanças

Vou mudar para melhor. Deixamos no ar. Tudo que é


novo pode trazer tremores. A novidade é o máximo. Seja ca-
paz e acredite, não é questão de sorte ou simplesmente um
acaso da vida. É algo mais íntimo e pode estar estritamente
relacionado ao trilhar um caminho, seguro ou não? Mas, de
forma planejada. Que seja um objetivo que tenhas chances
de alcançá-lo. Uma das metas principais deve ser a busca da
paz interior e da felicidade, externada através de ações que
conquistem o próximo. Mude e não esqueça de deixar no ar
um clima de esperanças; não temas, pois tudo pode acon-
tecer. Prepare-se, lute e conquiste com sabedoria. Reflita e
seja você mesmo. Assuma os riscos e aprenda com os erros.
Viva, aceite as mudanças e renove-se a cada instante.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 69


A fazendinha

Nada estará perdido. Ao menos que você desista, sem


antes mesmo ter tentado trilhar rumo ao sucesso. Dono da
situação, você tem um futuro próspero e tão próximo que
sequer possa imaginar. Plante, semeie no presente e terás
dias espetaculares.
Os galhos retorcidos espalhados no caminho podem sur-
gir de uma hora para outra. As marcas e os cortes profun-
dos, causados pelas injustiças, fardo certo de cada um, se di-
luirão com o tempo. Apenas as cinzas serão carregadas com
o vento que sopra e se renova a todo momento. Escolha a
melhor opção e, com serenidade, caminhe. Vá em frente, é
o seu futuro.
O moço foi levado para uma fazendinha para tratamento
de dependentes químicos. Logo na entrada, havia uma placa
com as inscrições pintadas à mão: “Drogas matam, Cristo
liberta!”. Inicialmente, sentado, bem quieto e cabisbaixo, lá
estava Francisco, bem magrinho e de boné com a pala volta-
da para trás. Enquanto isso, a cena era profundamente cho-
cante. Um nó na garganta e coquetéis de emoções podiam
invadir a mente de qualquer pessoa.

70 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


O choro era contido em milésimos de segundos, e todos
permaneciam perplexos. Era o momento de mais uma reu-
nião da comunidade terapêutica para dependentes químicos,
afastada da vida urbana.
Ao redor, formando um círculo de pessoas, dava para
perceber que outros rapazes de pouca idade também parti-
cipavam da sessão. Bem atento às apresentações, chegou a
sua vez e, infelizmente, a mesma história cruel e de desafeto
familiar se repetia.
Aparentemente, sem pai e mãe, ele havia sido resgatado
em meio a um território sem lei, onde reinava a violência e
todo o tipo de dependência química podia ser visto, incluin-
do-se maconha, crack, álcool, pasta-base de cocaína e mui-
tas outras combinações de drogas. Chiquinho era usuário de
crack, da mesma forma que a maioria dos dependentes da
comunidade terapêutica.
Com muita vergonha e timidez estampada no semblante,
o moço se apresentou para o grupo.
– Meu nome é Francisco e muito cedo saí de casa. Nas
ruas conheci várias meninas e meninos da minha idade que
usavam drogas. No início, tudo era uma aventura maravi-
lhosa. Primeiro, comecei a fumar cigarros e depois experi-
mentei maconha. Queria algo mais forte. Então, comecei a
usar crack.
– E como você chegou até aqui? – perguntou Armando,
o diretor da casa de recuperação.
– Morava na rua, sabe? E não conseguia parar de usar
drogas.
Na oportunidade, muitos relatos surpreendentes foram
apresentados e, logo após a apresentação foi proferida uma

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 71


palestra que enfocava os malefícios de cada tipo de droga.
Buscou-se deixar bem claro para todos os participantes que
a dependência química pode destruir os lares e as famílias,
sendo a falta de amor à própria vida uma marca registrada
de quem é usuário.
Certamente, na abstinência, os usuários são capazes de
fazer qualquer coisa para a obtenção da droga, até mesmo
prostituírem-se, não importando o sexo, nem a idade; e co-
meterem furtos dos bens da família, principalmente joias.
Além disso, retiram o sossego dos pais e dos parentes.
O grande propósito e o desafio dos internos era o de po-
der colocar todo o mal e aflições nas mãos de Deus. Assim,
a fé libertou muita gente das drogas.
Com o tempo e muita dedicação, Chiquinho trilhou um
rumo certo e se tornou um dos líderes da ONG que o aco-
lheu. Hoje, dedica-se ao resgate de vidas consideradas per-
didas para as drogas.

72 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Surge poesia

Imagine uma palavra, fotografe-a em forma de imagem.


Viaje no tempo e situe-se no espaço da criação. Em forma
de rabiscos, passe tudo para o papel. Organize-se, mas a po-
nhas com emoção. Nas horas de solidão, pensa o coração.
Disfarce a tristeza em forma de beleza e escreva com alegria.
Registre o flash, pois os pensamentos voam. Como resulta-
do fantástico da sentimentalidade, surge poesia.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 73


Momentos

Nos momentos mais difíceis da vida, a condição melhor


é a de procurarmos estar felizes e estar de bem com a vida.
Somos constituídos à base de pensamentos e sentimentos.

74 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


OS SONHOS DE NINA
76 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Durante o tempo em que você viver seja feliz. Idas e
vindas marcarão essa trajetória. Não se influencie por coi-
sas ruins. Os bons momentos serão eternos nos corações.
Aproveite cada minuto e segundo. Muito ainda lhe resta,
mas os últimos dias chegarão. Busque a felicidade a qual-
quer hora, ela existe nos detalhes da vida e não precisa muito
para acontecer, basta deixar-se fluir como numa música bela
e suave.
Todos nós temos um som agradável que toca e embala a
vida. Inspire-se no canto dos pássaros, pois, mesmo nos dias
de chuva, gorjeiam as suas melodias matinais e do entarde-
cer, sempre em harmonia com a natureza.
Nada será como antes, porque cada momento e todos os
dias serão especiais. Este instante é precioso. Viva, sinta-se à
vontade, esta casa é o seu planeta (a nave é sua).
Chegar onde quiser dependerá dos seus sonhos e os dese-
jos o conduzirão para lugares inesquecíveis. Lá, você encon-
trará a felicidade, pois o melhor lugar está dentro de você.

Momentos de alegrias marcaram o nascimento de uma


menina especial. Os olhos cor de mel e reluzentes, iguais

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 77


não se viam pelas bandas do sertão. Era a quinta de uma
família que não parava de crescer. Muitos dos filhos de dona
Maria nasciam com a sorte lançada ao vento, e alguns não
conseguiam sobreviver. Fome e desnutrição infantil marca-
vam presença naquele lugarejo distante da capital pernam-
bucana de mar feito esmeralda. Lá, poucas árvores serviam
de sombra para o gado magro e abatido pelo cansaço.
Algumas cabras resistentes ao sol a pino e um cachorro
marrom com manchas brancas no corpo perambulavam e
padeciam aos poucos por falta de alimento.

78 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


A menina e a bolha de sabão

O verde que deveria ser verde, quase sempre era encober-


to por uma névoa de calor e poeira; a terra, sempre amarela-
da, era quase sem vida. Água, somente podia ser encontrada
em alguns quilômetros de distância. Era de cor e odores
desagradáveis, mas servia muito bem ao povoado.
Enquanto a chuva não molhava o chão, os primeiros anos
de vida da meninada varavam como numa valsa de esperan-
ças. Tudo resistia às armadilhas do tempo. Assim era a vida
daquela gente, o lar da pequena Nina.
No momento em que o dia dava o primeiro ar da graça,
mesmo antes que o galo pudesse cantar a melodia matinal,
seu José, pai das crianças, saía para a sua jornada diária de
trabalho árduo. O jovem senhor de camisa xadrez, calça de
tecido amarelado e desgastado e de percatas nos pés, percor-
ria o chão tórrido e castigado pela seca em busca de alimen-
to. Não se tinha muito o que fazer. Os dois filhos mais ve-
lhos o acompanhavam: Saulo e Pedro, de onze e doze anos.
Seguiam o pai com as enxadas nos ombros e aprumavam os
passos por uma estrada de pedregulhos, xiquexiques e ave-
lós. Partiam sempre em busca de dias melhores.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 79


As meninas cuidavam da lida da casa e do campo. Eram
reproduções fiéis da mãe: plantavam, colhiam os grãos da
subsistência e esperavam a chuva cair. A atividade mais di-
fícil consistia principalmente na retirada de água da cacim-
ba quase seca e muito distante da casa. Isto, para ter o que
beber e preparar o alimento quando chegava. O açude de
águas amareladas, igualmente, tinha pouca água e, em sua
volta, se via um chão rachado e castigado pelo sol. A poucos
metros podia se ver bichos mortos, talvez na tentativa de
chegar até a água que poderia servir de salvação.
Contemplando o céu azul e de poucas nuvens, o percurso
até a chegada era longo, mas necessário para a lavagem das
roupas sujas e uso diário. Assim, a luta pela sobrevivência se
tornava constante e tudo era muito difícil para todos.
A meninada também se divertia com as brincadeiras de
roda e com o balanço de pneus e cordas nas árvores. Os
brinquedos eram feitos com o material que existia. Uma
embalagem de mercadoria era a matéria-prima para a con-
fecção do passatempo da criançada. Facilmente, uma lata
de óleo era transformada em um sofá para as bonecas de
espigas de milho, ou em um carrinho de lata que os meninos
adoravam. Um pouco mais tarde, aos sete anos de idade, os
sonhos ganhavam forma na imaginação de Nina.
Eis que surge uma menina que sonhava com um futuro
próspero. A sua vida de criança se tornava um grande desa-
fio para quem buscava e trilhava um caminho de realizações.
Mas, uma coisa era fundamental, a perseverança, enquan-
to a persistência sempre foi a sua marca registrada, e a que
mais lhe rendeu grandes vitórias. Desde bem pequena, sabia
que tudo dependia da sua resiliência e capacidade de apro-
veitar os bons momentos da vida.

80 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


A simplicidade a acompanhava e fez dos seus passos mo-
tivos de verdadeiras conquistas. Era uma vez uma menina
magricela que repousava em paz e acordava com o canto
dos pássaros.
Todos os dias, quando levantava, Nina fazia a sua oração
matinal e agradecia a Deus por tudo que havia sonhado.
“Papai do Céu, obrigada pelo sono e sonhos bons que me
concedeste. Hoje acordei feliz, pois viajei por lugares ines-
quecíveis e com sabedoria pude ajudar muita gente a trocar
as aflições pelas coisas boas da vida. Mostrei-lhes o verda-
deiro significado do viver. Deus, guarde o meu dia. Amém!”
Em um dos sonhos Nina caminhava por ruas lapidadas
com estrelas espalhadas pelo chão. Nas asas do tempo, via-
java por lugares inesquecíveis.
Era uma menina de olhos azuis e cabelos alaranjados.
Possuía um dom especial de mudar o sentido das coisas.
Quando algo não dava certo para quem cruzasse o seu
destino, trocava uma de suas estrelas especiais por uma afli-
ção pessoal e a deixava para trás.
Logo, o martírio cobria de pedras luminosas o caminho
em que passava.
Nina conseguia mudar o rumo da história de cada um, e
um mundo melhor era construído para todas as pessoas, de
todas as partes do mundo.
A menina transformava tristeza em alegrias, alegrias em
realizações e realizações em sucesso.
Sempre acordava feliz e satisfeita. Não havia tempo ruim,
porque tudo era como a mais pura realização.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 81


Certo dia, Nina, em seu lindo sonho, percebeu que, ao seu
lado, permanecia uma criança com cabelos encaracolados e
ruivos; seus olhos eram de um azul expressivo e marcante.
Notou que, em uma das mãos, segurava um baú envolto
por uma fita dourada e, na outra mão, uma estrela brilhante.
Mesmo sem saber ler ou escrever, idealizava um dia po-
der ter sucesso na vida. Naquele lugar não se estudava, por-
que não existia escola próxima. A felicidade de viver se dava
pela presença da família unida e, para isso, não precisava de
muita coisa.
Antes que o sonho pudesse acabar, dona Maria, sua mãe,
engravidou novamente e tudo o quanto estava difícil, ficou
ainda mais. Certo dia, os pais reuniram-se e tomaram uma
grande decisão que mudou completamente a vida de sua fi-
lha querida. Imaginaram que estariam fazendo o bem e en-
tregaram Nina para outra família cuidar, noutro lugarejo, à
custa de um futuro melhor e próspero.
A nova família que a acolheu era pequena e constituída
por seu Jorge, dona Florinda e um filho herdeiro chamado
Afonso. O patriarca possuía um armazém de materiais de
construção e levava uma vida abonada e farta. Em sua casa,
havia um lindo rádio ABC e uma televisão, daquelas com se-
letor de canais e antena que amenizava os chuviscos na tela.
Apesar de ter chorado bastante, mal compreendia o que
se passava. Longe dos pais, irmãos e irmãs, aos poucos, a
meiguice e os anseios de infância foram transformados
em tormentos.
Mesmo assim, Nina não parava de sonhar. Em uma de
suas viagens, a película mágica e transparente flutuava no
ar. Em formato oblongo, variava em tamanho e refletia um

82 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


espectro de cores magistrais. Inconfundível à luz do sol, dei-
xava a atmosfera com um sabor todo especial de infância.
Nina era uma menina sonhadora. Em cada viagem que
fazia, partia rumo ao infinito azul do céu. Levada pelo ven-
to, a sua bolha de sabão plainava no horizonte. Do lado de
dentro da bolha, a cabeça ficava encostada na superfície. As
duas mãos espalmadas na fina membrana quadriculavam
uma janela. Com olhar atento, e um sorriso de alegria estam-
pado no rosto, contemplava tudo com admiração. Conheceu
lugares fantásticos e inimagináveis.
Num estalar de dedos, dona Florinda, em plena melodia
do alvorecer, acordava Nina para mais um dia de trabalhos
do lar.
Com o tempo, a nova família passou a viver em conflitos
e ninguém se entendia. Nina prestava-se às lidas do lar: la-
vava e passava roupas; preparava o alimento e tinha que dar
conta da limpeza da casa.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 83


Alegria

Com amor a vida fica mais bela. Os momentos tornam-


-se inesquecíveis e o encontro com a felicidade brota em
cada olhar. É perceber as estrelas que riscam o céu, e um
pedido audaz surge como fonte de inspiração. A lua no alto,
com o ar da graça, celebra a vida.
Com amor, voo nas asas da liberdade e no sonho mais
belo, encontro um futuro de paz. Um ar de reflexão invade o
meu silêncio. Respiro a magia do pensar e tudo se transforma.
Façamos um brinde com sabor de alegria; sem amor, a
vida apenas passa.

84 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Um sonho possível

Os sonhos de Nina foram pulverizados e, dessa vez, o


tempo viajou rápido, igual a uma estrela cadente.
Ainda sem estudar e com a vida sofrida que levava por
causa dos maus tratos, aos dezesseis anos resolveu morar na
capital das belas praias de águas mornas. A oportunidade
surgiu quando o empreendimento do casal não andava bem.
Então, aceitou uma proposta de trabalho remunerado. Sem
ressentimentos e com perspectivas de dias melhores, agra-
deceu a todos por tudo e partiu para o Recife. Com a cara
e a coragem, foi cuidar de um casal de idosos que a acolheu
como se fosse uma filha. Seu Francisco e dona Aparecida.
Ambos com os corações e mentes joviais. Foi quando bus-
cou alfabetização e seguiu em frente com os estudos. O es-
perado sonho estava se concretizando.
Anos se passaram e o casal faleceu. Nina, com o que ha-
via juntado em quatro anos, foi morar sozinha em uma hu-
milde casa. Conheceu Paulo, moço de boa índole, o amor da
sua vida. Namoraram, noivaram e o casamento aconteceu
dois anos depois. Frutos desse amor nasceram as gêmeas:
Ana Paula e Ana Carolina. Enquanto as meninas cresciam, e
por motivos diversos, não foi possível dar continuidade aos
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 85
estudos. No entanto, a grande conquista daquele período
foi a de concluir os estudos básicos. Mais tarde, quando as
gêmeas casaram aos dezoito anos, a vida pregou-lhe mais
uma peça e levou o seu grande amor. Câncer nos pulmões,
esse foi o laudo médico. A vida feliz de Nina escapava por
um fio. Sozinha em sua casa, mais uma vez foi à luta para a
conquista de um novo emprego.
Em meio ao tormento, e numa noite chuvosa, Nina teve
um sonho.
Caminhava desesperada e aos prantos pela avenida à bei-
ra-mar, quando em sua direção surgiu um Senhor que lhe
amparou e a conduziu em seus braços.
Com os sonhos retomados e a paz no coração, conseguiu
aprovação para ocupar uma vaga em um cargo público mu-
nicipal. Nina seguiu em frente.
As lembranças dos parentes estavam sempre presentes
na memória de Nina e, quando era possível, viajava até o
interior e alimentava um sentimento de conforto muito pre-
cioso, que jamais foi apagado.
As frustrações de criança e juventude ficaram presas no
passado e, aos cinquenta e oito anos, após a retomada aos
estudos, concluiu-os e alcançou a desejada promoção em
seu emprego público. Perseverante, aguardou a aposentado-
ria e não parou de sonhar.

86 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Antes que o sonho termine

Menino brincando, soltando pião, no campo, correndo


atrás de balão. Bolinhas de gude em verde-limão, carrinhos
de lata, esperança na mão. Um banho de chuva, brindando
a vida, no mato um canto, um sonho sem fim, a casa da ár-
vore, balanço da vida.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 87


O TESOURO PERDIDO
90 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Hoje em dia, é difícil acreditar na existência de baús de
tesouros espalhados pelo mundo. Decerto, muitas cidades
ainda guardam suas tradições e crendices. Em Maracanã,
uma pequena vila de pescadores no litoral pernambucano,
a comunidade sempre viveu com poucos recursos financei-
ros, porque certamente não precisava de muita coisa para
ser feliz.
***
O mar de Pernambuco é belo por natureza. Seu esplen-
dor, traduzido no verde-esmeralda, é apreciado logo na che-
gada. As águas mornas de Boa Viagem e a sombra dos co-
queirais em Olinda revelam a alegria do bem viver.
Num clima agradável e harmonioso, é bom estar em En-
seada dos Corais e Calhetas. As areias molhadas pelas ondas
que quebram na praia dão uma sensação de bem-estar que
faz bem ao coração.
A brisa e o sol das manhãs remetem a boas recordações,
enquanto as estrelas do céu e do mar encantam as praias de
norte a sul do litoral pernambucano.
O Forte Orange, a Ilha de Itamaracá, o passeio e a tra-
vessia de barco até Coroa do Avião trazem a paz das tardes
inesquecíveis de verão.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 91


O entardecer em Mangue Seco, a casa na praia e a beleza
do pescador em sua jangada na linha do horizonte são mo-
tivos de satisfação.
A natureza nos deu um presente de sonhos, transforma-
dos em realidade. O amor e a paixão fazem do mar de Per-
nambuco um verdadeiro tesouro.

O sol, o sal, o mar.


A praia de areia dourada,
o peixe na mesa.
O pão de cada dia,
a lua cheia.
A imensidão azul,
as estrelas.
O ciclo das marés,
a ilha distante.
O vento forte,
a canoa quebrada.
Os riscos,
a sensação do prazer.
O homem nas mãos de Deus,
o pescador.

92 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Alvoroço na cidade

Na escola, os meninos estudavam até o encerramento do


ensino básico. Em princípio, ou faltavam mais incentivos
que pudessem incluir os jovens em cursos profissionalizan-
tes, ou porque eles não tinham interesses em seguir adiante.
Lá, as novas tecnologias já existiam. Mesmo assim, internet
e smartphones, tudo isso não era necessário e ninguém sentia
falta. A terra era produtiva e o mar provia o sustento dos
seus moradores. Logo, o interesse em ir para o Recife era
pouco ou quase não existia.
A felicidade estava ali mesmo e não a precisavam buscar
noutro lugar. Na capital dos grandes coqueiros, o mundo
parecia cruel. Mas, em Maracanã era diferente, pescar e co-
mer o próprio peixe era gratificante, e o prazer não tinha
preço. Subir nos pés de manga, observar a beleza das aves e
correr atrás de pipas agradava a qualquer criança.
Como tudo na vida, um dia as coisas mudaram. Certa
vez, surgiu uma notícia com uma proposta um tanto ten-
tadora. A novidade parecia ter saído de histórias de piratas.
No entanto, Maracanã não possuía piratas, mesmo tendo a
praia como fundo de quintal. Na vila de pescadores, tudo

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 93


era compensado pela beleza do lugar que enchia os olhos
e proporcionava sensação de prazer e de bem-estar a quem
chegasse por lá.
O primeiro a receber o comunicado foi o seu Fabrício
da venda central. Dizem por aí que fofoca é coisa que corre
em boca miúda. É verdade! Num instante, todo mundo já
sabia da grande notícia trazida por um aventureiro. Era um
homem de pele clara, trajando vestes esquisitas, com uma
jaqueta de vários bolsos e botas estilo aventureiro.
O moço parecia um arqueólogo, e as suas botas sujas
de terra não negavam que se tratava de alguém que pro-
curava algo que pudesse estar em algum lugar próximo da
vila de pescadores.
– Boa tarde, senhor! – cumprimentou o dono da venda.
Em que posso ajudar?
– O meu nome é Jacques e estou aqui para dizer que te-
nho uma notícia muito boa para os moradores de Maracanã.
– E qual a notícia? – perguntou seu Fabrício.
– É que nas redondezas da vila de pescadores há indícios
da existência de um tesouro valioso, que foi escondido por
um fazendeiro muito rico e que não queria deixar heranças.
– Não acredito! Conte um pouco mais da novidade –
questionou, surpreso, seu Fabrício, com os olhos brilhando
de felicidade.
– Tenho as pistas que podem levar a esse tal tesouro.
– É verdade isso que o senhor está me contando?
– Sim, seu Fabrício, é a mais pura verdade.

94 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Como em qualquer região, sempre poderão existir histó-
rias, das mais medonhas possíveis. Naquele instante, contou
o forasteiro que, após a época em que os escravos haviam
sido libertados das casas de engenho, um senhor muito rico
havia enterrado toda sua fortuna em algum local das redon-
dezas do povoado.
Dizem que o homem era podre de rico e tinha um sem-
blante muito sombrio e tenebroso, gostava de castigar os
escravos e era cruel com a família.
– Nas minhas andanças, descobri que o senhor de en-
genho enterrou toda a sua herança e deixou algumas pistas
que somente poderiam ser reveladas depois de muito tempo
– explicou o forasteiro.
– E como o podemos encontrar?
– Posso explicar – afirmou Jacques.
Assim, a conversa fluiu por algumas horas.
Como um raio que risca o céu e encontra o chão, a notícia
correu de boca em boca. A verdade é que todos acreditaram
que o sonho de encontrar um tesouro poderia se tornar rea-
lidade. Anseios e desejos passaram a fazer parte da vida de
cada um dos moradores de Maracanã, principalmente dos
mais novos e dos mais velhos.
O alvoroço passou a atrair a atenção, até mesmo daqueles
que moravam em lugarejos vizinhos, pois a fortuna poderia
estar em qualquer lugar. Por acaso, o tesouro dentro dos ter-
renos das casas de qualquer um dos moradores poderia trazer
uma sensação de euforia muito boa para quem o encontrasse.
Caio era um garoto que sonhava um dia ser muito rico.
Imediatamente, foi movido pelo prazer do desafio de en-

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 95


contrar o tão desejado tesouro. Seria o máximo para um
rapaz de treze anos. Dona Francisca, sua mãe, viajava em
pensamentos e flutuava nas asas da imaginação.

96 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


É preciso viver

Às vezes, é preciso ser feliz, mesmo sabendo que existe


perigo. Às vezes, é preciso ter coragem para enfrentar o
perigo. É preciso viver e poder dizer que tudo valeu a pena.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 97


O pergaminho

Em busca do tesouro perdido, muitas coisas puderam ser


encontradas e dentre elas o prazer de viver grandes emo-
ções. O homem esquisito, chamado por todos de forasteiro,
trouxe mapas e notícias da época dos engenhos, que reme-
tiam a pistas para encontrar o tesouro. A primeira delas le-
vou todo mundo para o engenho abandonado e habitado
por morcegos.
Era apavorante imaginar ser vampirado pelas criaturas da
escuridão. Mesmo assim, a adrenalina era o suficiente para
encarar o desafio. Com muita dificuldade, Caio e Joel foram
os primeiros a chegarem nas instalações abandonadas. Lá,
descobriram carcaças de animais, moendas abandonadas e
quadros antigos nas paredes desgastadas pelo tempo.
– Caio, que aventura! – comentou Joel.
– Que aventura, que nada, encontraremos o tesouro e
ficaremos ricos.
Enquanto isso, os meninos permaneciam na missão e
atentos. Com tanta atenção dispensada, constataram que per-
deram muito tempo em vão, pois não encontraram nada pa-

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 99


recido com a descrição deixada pelo forasteiro. Então, Caio
teve a ideia de seguir para a próxima pista, ainda na proprie-
dade abandonada. A pista levava para o provável tesouro.
Encontraram umas escrituras nas paredes do engenho.
Os desenhos remetiam a mapas com algumas setas que
apontavam para os labirintos do famoso manguezal da re-
gião. Dizem os mais velhos que aquele que se perder no
mangue nunca mais retornará.
Enfrentar a profundidade da lama constituía um ato de
coragem para quem se atrevesse a entrar nas águas misterio-
sas do mangue.
Astuto, Caio foi o primeiro a chegar ao local.
Realmente, a indicação deu a precisão correta.
– Que maravilha! – confabulava o rapaz.
– Belezura de mangue – comentou Ritinha, uma linda
garota de olhos cor de esmeralda. Era uma das meninas do
grupo, que, sorrateiramente, se aproximou de Caio.
– Verdade, Ritinha! Seja bem-vinda!
– E vocês, encontraram alguma coisa?
– Nada demais, Ritinha – respondeu Joel.
Ritinha sempre foi uma garota simpática e inteligente.
Levava a vida numa boa e adorava estudar e se divertir na
praia. No entanto, a aventura do momento deu um sabor
todo especial.
Num clima de investigação, avistaram algo interessante e
que poderia mudar completamente o rumo da caçada. Ou
não?
– Caio, você viu aquilo? – apontou Joel.

100 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


– Não consigo ver nada demais.
– Estou vendo, é uma passagem que fica abaixo da linha
d’água, margeando o paredão – afirmou Ritinha e seguiu na
direção da barreira de corais.
– Nossa, Ritinha, você é um gênio! – exclamou Caio.
Não perderam tempo e mergulharam no desconhecido.
Alcançaram uma passagem e com pouco ar conseguiram
chegar a uma pequena gruta ornada com calcário lapidado
pela natureza. Dentro do esconderijo dava para sentir uma
sensação de conforto, porque o oxigênio era o suficiente
para se passar algum tempo. Antes da alta da maré.
– Mas, cadê Joel? – perguntou Caio.
– Eita! Aonde foi parar o menino? – questionou Ritinha.
Por um instante, o desânimo invadiu aquele lugar, e o co-
ração acelerou mais forte. Em poucos segundos, Joel surgiu
no meio das águas, são e salvo.
– Joel, você está bem? – perguntou Caio.
– Sim, apenas aguardei um pouco, porque temia a pro-
fundidade das águas do mangue, respondeu o menino.
Todos os moradores da cidade descobriram que a lenda
do tesouro perdido não passava de uma peça pregada pelo
forasteiro. Logo todos retornaram para as suas casas, e a
pacata rotina da vila de pescadores se estabelecia.
Na gruta do mangue, Caio, Joel e Ritinha fizeram uma
grande descoberta. Encontraram um baú empoeirado.
Quando abriram, encontraram um pergaminho com escritas
desenhadas com caneta-tinteiro:
“Parabéns, você conseguiu encontrar o verdadeiro significado da vida.”

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 101


O forasteiro, por natureza, era um homem que havia fu-
gido do manicômio e gostava de aprontar por onde passava.
Seguiu tranquilo e rumo à próxima aventura, noutra peque-
na e pacata cidade. Aos passos leves, levou consigo novas
pistas que remetiam a sonhos e realizações.

102 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


OUTRAS REFLEXÕES
106 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Recife: escrevo na areia

Margeando a cidade,
um infinito mar de sonhos.
Terra do frevo e das canções,
água de coco e paixões.

Recanto da cultura e tradições,


revela grandes surpresas.
Pernambuco em lua e cor,
repousa nos corações.

Vitória-régia, perfume em flor.


Refaço as minhas lembranças,
Casa Forte dos meus sonhos.

Um passeio de catamarã
contagia com certeza.
Bela canção das águas,
Capibaribe é natureza.

Frevo, maracatu atômico,


Chico Science, Nação Zumbi,
alfaias anunciando o ritmo.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 107


Embalado na canção,
encanto dos mil sons,
Carnaval e emoção.

Bolo-de-rolo é cultura,
tapiocas de sabores,
milho-verde e canjicas,
no calor de uma fogueira.

O sol queimando a pele,


um sorriso encanta os lábios.
Recife é poesia que escrevo na areia.

108 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Minha terra tem coqueiros

Beleza sem fim e iluminada por Deus. Encantamento dos


mangues. Em tua casa mora a felicidade. Paraíso ao entar-
decer, do Forte Orange é tudo beleza. O mar quente abriga
surpresas, respeite a natureza.
Paisagem encantadora do interior traceja o litoral com as
canas-de-açúcar. Do agreste aos desertos dos sertões, en-
contra-se nos corações. Garoa fina molha a terra e o telha-
do, traz um ar de graças e paz.
Saudades de quem partiu, Marco Zero ficou. Os guar-
da-chuvas anunciam o inverno, e as sombrinhas multico-
loridas, o frevo. Clima aconchegante das noites em Aldeia.
Quero uma rede para embalar.
Orlas de Olinda e Boa Viagem. Os segredos de uma
vida de paz e harmonia. Paisagens de pura sedução. Senti-
mentos brotam à flor da pele. Alegria é poder estar de bem
com a vida.
Sítio da Trindade e Parque da Jaqueira. Lá, os pássaros
cantam. Da Aurora, o Capibaribe é alaranjado ao amanhecer.
É mais um dia de correrias por entre as pontes do Recife.
Da Sé, o mar é um presente iluminado pelo farol. Per-
nambuco é o meu lugar: minha terra tem coqueiros.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 109


Frevança
Os passistas dão o brilho,
no tempo da canção.
Arco-íris da beleza,
no ritmo da paixão.
Energia com certeza,
provocando emoção.

No meu rosto a alegria,


estribilha sensação.
As sombrinhas a girar,
contagiam o coração.
O meu povo a cantar
aquele belo refrão.

As cores da nossa terra


engrandecem o meu ser.
Construindo a fantasia,
corpo suado de prazer.
Esbanjando simpatia,
dá vontade de viver.

Nossa gente é guerreira,


nos passos dessa dança,
um perfume inebriante.
Maravilha de festança,
sigo bem extasiante,
no embalo do frevança.

110 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Eu e o mar

Vislumbrando o horizonte, vejo o céu azul anil. Onde es-


tão as pessoas e as suas loucuras? Posso imaginar pequenas
embarcações despontando no horizonte, e nada, além-mar.

Aos poucos, contemplo a silhueta de um pescador em


sua jangada, sozinho, perdido na imensidão das águas.

Tardezinha vem chegando, um clima harmonioso e ala-


ranjado transforma a paisagem num lindo sonho.

O vento traz boas recordações, num êxtase de paz e tran-


quilidade. Anoiteceu e o que restou? Eu e o mar.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 111


És linda Olinda

Mar verde feito esmeralda, território histórico dos Qua-


tro Cantos. Vento forte a soprar as ondas que se quebram
na praia. Mal posso ver da Sé. Espumas no ar e o sabor da
maresia nos lábios dão uma sensação de conforto. Farol a
iluminar as noites de verão. És linda, és Olinda!

112 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Luiz Lua Gonzaga

Um sonho em canções, Aquarela nordestina fez da sua me-


lodia sucessos inesquecíveis. Viajando pelas estradas foi A
Feira de Caruaru e encantou as Noites brasileiras de São João.
Hoje, no calor das fogueiras, adormece no frio das manhãs.
Assum preto, Asa branca, Estrada de Canindé: que bom, que
bom que é a Vida do viajante.
Um Legado deixado, Vira e mexe sacudiu o Brasil. Belo é
o Xote das meninas, esse é o ABC do Sertão. Respeita Januário, o
velho pai amado por toda a vida. Entoou Acauã, do saudoso
Zé Dantas e trouxe o canto de um pássaro, diz a tradição,
chama a seca pro Sertão.
Vai boiadeiro que a noite já vem, Sangue de nordestino foi
embora e deixou o seu encanto.
Nos pensamentos, a saudade de quem muito cantou o
nordeste brasileiro. É Luiz, é Gonzaga, é Lua, é o Rei do
Baião, Luiz Gonzaga, o Gonzagão.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 113


Nuvens em forma de coração

Sentado à beira-mar, inspirando sentimentos, estrelas sol-


tas riscam o céu. A luz dos teus olhos ilumina o meu pen-
sar, claro como o luar, és um êxtase de emoção. Contemplo
um azul infinito que habita pensamentos, acalma o silêncio
e deixa as marcas do tempo. A chuva fina molha a terra,
refresca e tranquiliza; lindas paisagens de estradas sem fim
que, em verdes horizontes, inspiram poemas. O meu cami-
nho, contigo quero seguir.
Nuvens em forma de coração, sonhos em forma de reali-
dade. Alaranjado, o pôr-do-sol anuncia o luar, fonte inesgo-
tável de sedução. Suave como uma música romântica, ine-
briante, entontece com o mais puro aroma dos campos.
O ar desperta sensações inconfundíveis, e o segredo das
madrugadas revela a solidão.
Saudade, prelúdio da paixão, leva nas horas o sabor do
passado. Atina, provoca e acende o desejo do encontro:
amor, condição de quem vive momentos inesquecíveis.

114 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


O poeta

“Viver é uma arte” disse-lhe um sábio amigo. Então, a


vida apresentou-se para o poeta em sua forma mais sublime
e transformou arte em poesia.
Caneta na mão, papel, tinta e imaginação. Riscos suaves
tracejam os pensamentos. Sentimentos em forma de rabis-
cos dançam em linhas azuis e dão a emoção necessária ao
momento. Letras se confundem com fantasias e se mistu-
ram com o prazer. À primeira vista, tudo lhe é revelado e
as palavras fluem – viajam no passado e trazem a esperança
do futuro.
Os traços bailam, e a tinta marca a trajetória de um ins-
tante precioso, surge poesia.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 115


O fundamental é ser feliz

As páginas da vida podem ser grafadas em linhas tênues


que ultrapassam os limites da imaginação. Lembre-se que
qualquer desvio pode trazer consequências irremediáveis:
não trilhe linhas tortuosas. Viver é seguir em frente e saber
reconhecer a simplicidade da vida:
– É poder estar de bem consigo, com Deus e com o
próximo;
– É ter discernimento e coragem para enfrentar cada
desafio.
A condição fundamental é ser feliz.

116 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


Conhecimento

O conhecimento é um investimento a longo prazo. Sua


moeda é o saber, que vai se acumulando durante a vida. O
que se constrói, não se destrói tão fácil. Conhecimento e
sabedoria fazem da vida uma verdadeira arte.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 117


POSFÁCIO
Por Jairo Rodrigues de Freitas1

Escrever sobre esta obra é, para mim, uma tarefa deveras


prazerosa. Ao percorrer as páginas deste livro, muitas lem-
branças me vieram à mente, e as emoções afloraram. En-
tre contos eu fui conduzido ao Recife da minha infância e
a algumas cidades do interior pernambucano, locais onde,
ainda hoje, mora a felicidade. Como não se emocionar com
os belos contos e minirromances aqui narrados? Como não
vibrar com as histórias de personagens tão fortes, como
seu Bernardino, dona Laura, dona Rosália, Laurindo, Pau-
la, Francisco, Catarina, Josué, Nina, Jacques e outras figuras
emblemáticas, cada qual com seus problemas, suas emoções,
seus sentimentos e suas loucuras? O autor Gleidson Melo é
magistral: ao tempo em que nos presenteia com belíssimas
histórias, também revela sua veia poética, mostrando talen-
to e sensibilidades em seus poemas. E o uso do “pernam-
buquês” é um capítulo à parte nesta graciosa obra. Entre
Contos é um trabalho sério, bem construído e carregado de
emoções, como devem ser todas as obras poéticas. É leitura
obrigatória para quem tem bom gosto literário.

1
Jairo Freitas é escritor pernambucano, radialista e poeta. É pedagogo, pro-
fessor e um dos pioneiros do Programa Educacional de Resistência às Drogas
e à Violência (PROERD), com atuação em todo o Brasil, programa promovi-
do pela Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), por onde faz parte do corpo
da reserva como tenente-coronel.

120 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


GLOSSÁRIO PERNAMBUQUÊS
122 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS
Pernambuquês

Atabacado – tolo; bobo; besta.


Bença – pedido de bênção.
Cambimba – peixe muito pequeno e que serve de alimento.
Charque – Em Pernambuco se diz “a charque”.
Cumade – comadre.
Donzelo – homem com comportamento infantil.
Eita – interjeição de espanto.
Envenenado – diz-se de quem perde a noção dos aconteci-
mentos e das coisas.
Estrimilique – quem perde o senso comum; estado de ner-
vosismo. Exemplo: o menino ficou dando estrimilique no
supermercado, porque queria um chocolate.
Mãinha – maneira carinhosa de se referir à mãe.
Marminino – contração de “mas menino”. Geralmente
é usado para demonstrar alguma indignação. Exemplo: “–
Marminino, eu trabalho duro e você quer meu dinheiro?”
Miúdo – pequenino; muito pequeno.
Morta-fome – quem ou aquele que não consegue saciar a
fome; um coitado que está morto de fome; que não conse-
gue parar de comer.
Mucambo – moradia simples construída de maneira artesa-
nal; barraco; casebre.
Ôxe – interjeição de espanto; oxente.
GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 123
Oxente – interjeição de espanto; o mesmo que oh! Gente!
Painho – maneira carinhosa de se referir ao pai.
Percata – sandália de couro.
Titia – grau de parentesco equivalente à tia.
Titio – grau de parentesco equivalente ao tio
Treloso – quem faz traquinagem.
Visse – você viu.
Vôte – Uma surpresa inesperada.

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SOBRE O AUTOR

Gleidson Melo nasceu no Recife, Pernambuco, Brasil, em


1969. Tenho a certeza do encontro com a paz e entendo
que a oferta é gratuita. Acredito que há uma infinidade de
razões para estar alegre e satisfeito, uma delas é poder fazer
as pessoas felizes. Sou otimista, perseverante e acredito na
conquista. Entendo que nada vem do acaso, e tudo tem o
seu valor. Aprendo com as coisas boas que pratico e busco
sempre a realização dos sonhos, por ter a recompensa da
satisfação de estar trilhando no caminho certo.

GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 125


Confira também Contos de roda (2020). O li-
vro reúne uma coletânea de contos, cuja
essência remete à nostalgia das histórias e
registros de causos medonhos, em um mis-
to de folclore e lendas urbanas, que, certa-
mente, estão presentes na cultura popular e
permanecem como legado intergeracional
de muitos lugares do Brasil. Ao recordar os
idos da década de 1980, entre amigos e familiares, bastava
que somente um dos participantes de uma roda de contos
relatasse uma história de alma penada, para que o assunto
se estendesse até altas horas da madrugada. O resgate cul-
tural por meio dos contos de roda pode se tornar essencial
e um alento memorável e nostálgico dos tempos vividos em
uma época boa da juventude. No entanto, é notório destacar
que essa tradição vem se perdendo e dando espaço para um
mundo cada vez mais tecnológico e de comunicação ins-
tantânea. Em meio a esse turbilhão de informações e faci-
lidades, o livro disponibiliza a oportunidade de uma leitura
agradável e cheia de mistérios.

126 | GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS


GLEIDSON MELO - ENTRE CONTOS | 127
Em um dos sonhos, Nina caminhava por ruas lapi-
dadas com estrelas espalhadas pelo chão. Nas asas
do tempo, viajava por lugares inesquecíveis [...]

Foram quatro horas de viagem tranquila, que


trouxeram muitas recordações. O vento no ros-
to e as imagens do passado passavam como num
belo filme da vida feliz e infância bem vivida [...]

“Viver é uma arte” disse-lhe um sábio amigo. En-


tão, a vida apresentou-se para o poeta em sua for-
ma mais sublime e transformou arte em poesia.

Este é um livro de pequenas histórias e tra-


ços de reflexões assinados pela poética da vida.

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