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Organizador, editor, diagramador, capa e ilustrações: Gleidson Melo
Revisão: Roque Weschenfelder e James Pereira
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Agência Brasileira do ISBN
M528 Melo, Gleidson André Pereira de.
Contos de roda [livro eletrônico] / Gleidson Melo. -- 2. ed /
Campo Grande, MS : G. A. P. Melo, 2020.
ISBN 978-85-906313-5-4
1. Contos. 2. Literatura brasileira. 3. Contos folclóricos
4. Cultura popular. I. Título.
CDD-B869.3
Priscila Pena Machado - Bibliotecária - CRB- 7/6971
DOI: 10.56713/editoraecodidatica/90631354
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Editora Café com Literatura
Para Maria e Marta
Com admiração e carinho
Sumário
A Chave 11
Travessuras de Criança 13
Acontecimentos Sobrenaturais 19
Catalepsia 25
Os Fantasmas de Elias 27
Morte ou Catalepsia? 32
Causos Medonhos 37
Cerca de Avelós 39
Comadre Fulorzinha 43
Branca Dias 50
A Mulher de Branco 55
Fantasmas na Escola 61
Mula-sem-cabeça 65
Papa-figo 68
A Perna Cabeluda 71
Clarinha e João 73
Clarinha 75
João 82
Chico Pantaneiro 87
Comitiva Pantaneira 89
Lobisomem 94
O Mistério da Luz 101
Cidade Natureza 103
Luz Misteriosa 107
Sobre o autor 113
Notas do autor
As composições desta obra foram reunidas em
uma coletânea de contos, cuja essência remete à nos-
talgia das histórias e registros de causos medonhos,
em um misto de folclore e lendas urbanas, que, cer-
tamente, estão presentes na cultura popular e perma-
necem como legado intergeracional de muitos luga-
res do Brasil.
Ao recordar os idos da década de 1980, entre ami-
gos e familiares, bastava que somente um dos partici-
pantes de uma roda de contos relatasse uma história
de alma penada, para que o assunto se estendesse até
altas horas da madrugada.
O resgate cultural por meio dos contos de roda
pode se tornar essencial e um alento memorável e
nostálgico dos tempos vividos em uma época boa
da juventude. No entanto, é notório destacar que
essa tradição vem se perdendo e dando espaço para
um mundo cada vez mais tecnológico e de comuni-
cação instantânea.
Em meio a esse turbilhão de informações e facili-
dades, o livro Contos de Roda disponibiliza a oportu-
nidade de uma leitura agradável e cheia de mistérios.
Gleidson Melo
A CHAVE
Travessuras de Criança
S eria o início de mais uma maldição ou apenas o
acaso de um destino sombrio e medonho?
– Socorro, não consigo respirar!
– Tenha calma! Como você conseguiu ficar tranca-
da em um lugar como este?
– Não posso abrir! – suplicava a menina em
seus últimos suspiros. Talvez fosse para a liberda-
de eterna.
Em seguida, o silêncio tomou conta do cenário, e
a noite de horror ficou marcada pela claustrofóbica
agonia de uma donzela que implorava por liberdade.
Tudo partiu de uma brincadeira entre Pedrinho –
um menino magrelo e de pele morena queimada do
sol – e a meninada do interior. Numa região especial
com riacho, muitas árvores e de natureza exuberante.
Era uma cidadezinha pacata chamada Aurora.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 13
Pedrinho, apesar de aparentar dez anos de idade,
já estava com doze. Sempre vestia camisa xadrez,
uma bermuda caindo pela cintura e usava chinelos
de dedo. Assim seguia o moleque em suas aventuras.
Em uma casa humilde, próxima do mar, a família
de Pedrinho não tinha muito, mas o suficiente para
criar os filhos com dignidade. O pai, José, era comer-
ciante e tinha uma banca na feira mais tradicional da
cidade. A mãe, Lurdes, cuidava da casa e vendia co-
mida pronta. Suas marmitas deliciosas sempre eram
elogiadas por todos os trabalhadores da construção
da nova escola do bairro.
A cidade de pedras dava indícios de constante
transformação com seus prédios cada vez mais al-
tos, que já encobriam a visão do mar e a beleza da
praia. Apesar disso, dava para ficar na rua até um
pouco mais tarde, porque a vida, nos anos de 1980,
era mais tranquila.
Sempre, nas férias escolares, a família viaja-
va para a casa dos avós do menino, na pequena
Aurora. As viagens para o interior eram sempre
marcadas por muita diversão. Em uma das muitas
aventuras, Pedrinho e a criançada resolveram su-
bir o Morro dos Carrapatos.
A escalada até o alto era cansativa, mas compen-
sava, pois, tudo deveria valer a pena. Verdadeira-
mente, as aventuras naquele lugar eram o máximo
que poderia acontecer na vida de qualquer criança.
14 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
No topo do morro, existia uma casa velha e aban-
donada, quase no meio do nada. Parecia fazer um
tempo considerável que os proprietários desistiram
daquela moradia.
O casebre de taipa era bem antigo e com caracte-
rísticas dos anos de 1950. Lá, o vento assobiava, e as
janelas, aparentemente abertas, rangiam e evidencia-
vam o desgaste e a presença da ferrugem acumulada
nas dobradiças.
O grande objetivo da brincadeira era chegar até a
casa e poder adentrar no recinto com o propósito de
encontrar algum objeto qualquer, mas que pudesse
servir de amuleto para o resto da vida.
Quem tivesse a coragem de, ao menos, atravessar
o portal – nome dado ao portão de madeira enfra-
quecida pelo tempo – poderia colher todas as frutas
possíveis do pomar abandonado.
Tobias, o mais novo, subiu o barranco, mas de-
sistiu na primeira tentativa. Pedrinho, Mariana e
Fabiano permaneceram na disputa. Estranhamen-
te, existia uma menina misteriosa, loira e de olhos
azuis, que rondava o lugar. Parecia uma moradora
das redondezas.
– Ufa! – exclamou Tobias, percebendo todo o mis-
tério que envolvia a atmosfera da casa abandonada.
Arrepiado até a alma, não suportou ficar e partiu,
em desabalada carreira, ao sopé da elevação.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 15
Foi xingado por todos, é claro!
– Molengas! – gritavam os mais corajosos do pe-
daço, em tons de zombaria.
Ninguém percebeu, mas Tobias rolara e caíra na
ribanceira e sofreu ferimentos leves.
– Poxa! Escapei por pouco, irei esperar aqui
embaixo – repetia o menino, com os olhos cheios
de lágrimas.
Enfim, alguém conseguiu o inédito – até então nin-
guém teve tamanha ousadia e coragem para enfrentar
os mistérios que rondavam aquele lugar sombrio e
inóspito. Mariana e Fabiano nem mesmo atravessa-
ram o portal. Por isso, o prêmio ficou para Pedrinho,
o mais ousado, o herói de todos os tempos.
– Nada demais, é apenas uma casa abandonada
com alguns quadros pendurados na parede, com fo-
tografias antigas e em preto e branco – explicava Pe-
drinho, em um dos retratos, um casal. Talvez fossem
os possíveis proprietários.
– Mas, o que você trouxe? Lembre-se, o que você
encontrou na casa, vai ter que levar consigo para
sempre. Esse é o nosso pacto – questionava e confir-
mava Mariana.
– O que você achou de tão especial? – pergun-
tou Fabiano.
– Encontrei uma chave.
16 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
– Observem como é interessante, não é?
Hum! Todos ficaram encabulados.
Depois disso, uma força misteriosa tomou conta
do lugar e Pedrinho não pensou duas vezes. Como
fosse um amuleto da sorte, colocou a chave no pesco-
ço com seu cordão dourado envelhecido pelo tempo.
Fabiano exclamou: – Eita, amigão! Tal qual um
dito popular:
Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 17
Acontecimentos Sobrenaturais
S eis anos depois, o tempo passou rápido, princi-
palmente quando se vive em mundo de sonhos,
típicos do período infanto-juvenil.
Na capital, ainda na adolescência, Pedro obteve
muito sucesso e conquistas. O ritual de passagem
para a fase adulta foi marcado com a sua aprovação
no conceituado curso de Medicina da Universidade
Federal, motivo para toda a família se orgulhar.
Ainda assim, a chave que Pedro carregava no pes-
coço incomodava os pais.
Seu José e dona Lurdes jamais souberam a origem
daquele amuleto da sorte que o menino Pedrinho ju-
rou carregar consigo e para sempre.
– Pedro, meu filho, agora que você está na univer-
sidade, já está na hora de retirar essa chave do pesco-
ço – comentou a mãe.
– Deixa o menino! – com toda a calma necessária,
recomendava o pai.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 19
– Não posso, mamãe, aconteceram coisas boas
nesses últimos anos.
– Tudo bem, meu filho! – respondeu a mãe.
Das idas e vindas do tempo, Pedro sempre visitava
o interior e gostava da rotina calma da cidade. Em
Aurora, Mariana, Tobias e Fabiano, logo após a brin-
cadeira da casa abandonada, simplesmente desapare-
ceram, um por vez. Talvez fosse esse o motivo prin-
cipal para que várias histórias pudessem ser contadas
naquela cidade. No entanto, o que mais intrigava os
moradores era a aparição de uma menina que surgia
em forma de vulto, passava correndo e desaparecia.
Em seus passeios para o interior, o jovem rapaz
sempre era acometido por eventos sobrenaturais, e
um dos casos aconteceu durante um terror noturno,
quando Pedro parecia ouvir vozes do além – de um
lugar inimaginável e sombrio.
– Salve-me, por favor!
Era uma voz de menina que sussurrava em seu
ouvido e pedia ajuda.
– Qual é seu nome? – perguntou Pedro, com ar de
pavor e assustado.
A menina murmurava e parecia dar os últimos
suspiros.
– A chave, por favor, não aguento mais!
20 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Ao amanhecer, Pedro saiu de casa e foi consul-
tar alguém mais velho que pudesse lhe dar maiores
explicações sobre as ocorrências. Como todos já
sabiam muito bem dos acontecimentos misteriosos
que rondavam a cidade, apenas reforçaram que, há
muito tempo, uma menina, que morava na casa do
Morro dos Carrapatos, havia falecido, vítima de um
acidente de carro. E, no meio da conversa, esse era o
assunto que mais apavorava o rapaz.
Os moradores de Aurora também andavam com
medo da alma-penada e ninguém se aventurava a fi-
car nas ruas até certas horas.
– É, senhor Joaquim! Na realidade, quando brin-
cávamos na casa do Morro dos Carrapatos, na época
da meninice, nos deparamos com uma menina loira
e de olhos azuis.
– Pouco tempo depois, Mariana, Tobias e Fabiano
desapareceram dessa cidade e nunca mais foram en-
contrados – explicava Pedro.
– Olha, quanta coincidência! O desaparecimento
das crianças aconteceu logo após as brincadeiras na
casa do morro, não foi mesmo? – questionou seu
Joaquim, um dos moradores mais antigos da cidade.
Ele continuou: – a menina que assustou vocês na
casa velha do Morro dos Carrapatos era filha única
de um casal que se envolveu em um trágico acidente
de carro na Serra das Russas.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 21
Ninguém escapou vivo, inclusive Luzia.
Sabe-se que ela gostava de colecionar objetos
em um velho baú, fechado com uma chave de cor-
dão dourado.
O evento sobrenatural mais intrigante talvez não
fosse tão real e sem grandes novidades para Pedro.
No entanto, isso alimentou a imaginação do jovem
rapaz. Foi quando estava sozinho, na rede a balan-
çar: uma mão embalava de um lado; e do outro, duas
mãos sacudiam o que parecia dar uma sensação de
balanço cada vez mais forte.
Pedro era destemido e não acreditava muito em
fantasmas, até o momento em que escutou vozes no
silêncio da madrugada.
Quem guarda o que não presta, tem o que precisa.
A queda no barranco foi desastrosa, mas sobrevivi.
Mas, quem poderia ter sido o responsável pelo su-
miço das crianças da época dos desafios e brincadei-
ras? Talvez fosse uma força sobrenatural que ronda-
va aquele lugar.
Então, mais uma vez, em uma noite de mistérios,
antes de partir para a capital, Pedro foi conduzido
por uma sensação misteriosa e seguiu até o cemi-
tério da cidade. Sem medo, sem terror noturno e
somente com a cara e a coragem. Ao chegar, seguiu
até um jazigo da família e, com ar sarcástico, profe-
riu poucas palavras.
22 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
– Calma, Luzia! Eu irei libertar você desse sofri-
mento. Não tenha medo, foi só uma brincadeira. Eu
não tive a intenção de roubar o que era seu. Na ver-
dade, eu queria apenas me divertir com as crianças e
vencer o desafio de entrar no casebre abandonado.
Então, Pedro sacou a chave, abriu o mausoléu, li-
bertou a alma-penada e desapareceram pra sempre
em meio à escuridão.
Dizem por aí que aquele que encontrar uma cha-
ve misteriosa com um cordão dourado e envelhecido
pelo tempo, toda a maldição poderá ser repassada ao
novo detentor.
Quanto à chave misteriosa, sabe-se apenas que
trazia um tipo de maldição, diferente para cada um
que ousasse utilizá-la como amuleto da sorte.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 23
CATALEPSIA
Os Fantasmas de Elias
O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa des-
creve catalepsia como o estado no qual o pa-
ciente conserva seus membros em uma posição que
lhe foi dada por terceiros. Surge em certos proble-
mas mentais graves e se inscreve no quadro da esqui-
zofrenia.
No dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, cata-
lepsia é descrita como o estado em que ficam tempo-
rariamente suspensos os movimentos voluntários e a
sensibilidade exterior.
***
Em Seriemas, no Cerrado brasileiro – o ar era mais
puro, e a natureza dos buritizais formava belas paisa-
gens de veredas, onde o incrível pôr do sol alaranjado
dava um ar todo especial ao ambiente – surgiu uma
lenda um tanto intrigante.
Conta-se que vários fantasmas atormentavam a
vida de Elias, e todos eles eram frutos da imaginação
fértil do menino. Ele encarava personagens que não
existiam no mundo real.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 27
Quando comentava que via as personagens de fil-
mes dos desenhos da TV – caminhando pela casa –
tudo no início parecia engraçado, e ninguém se preo-
cupava tanto com o que poderia estar por vir.
Acreditavam que Elias não queria deixar de ser
criança, porque já ia completar doze anos e não dava
indícios de que poderia mudar.
Certamente, a pré-adolescência é uma fase com-
plexa na vida da maioria dos meninos ou meninas,
quando o corpo e a mente passam por grandes trans-
formações naturais, características dessa fase que
deve merecer atenção e cuidados especiais.
Os pais, seu Agenor e dona Glória, com pouco
estudo, jamais entenderam o motivo pelo qual Elias
se comportava daquele jeito estranho.
Constituíam uma família de boa índole. Além de
Elias, o casal tinha mais três filhos: Juliana, a filha
mais velha, com 14; e Vitor e Daniel, os gêmeos, com
9 anos. Todos eles eram bem tranquilos, e os pais se
orgulhavam, porque estudavam em escola pública e
sempre se destacavam nas tarefas do dia a dia.
Seu Agenor era eletricista e também trabalhava
muito bem com as atividades de pintor. Sempre ti-
nha o que fazer, e mesmo com muita labuta, a vida
no interior era gratificante.
Dona Glória passava o tempo cuidando da fi-
lharada e sonhava com um futuro especial para
28 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
cada um deles. Mesmo com a rotina calma que
invadia o lar, em alguns momentos, a meninada se
desentendia, por eles possuírem gênios diferentes
e vontades próprias.
Em algumas brincadeiras de mau gosto, sempre
alguém se machucava e tudo acabava em choros
e brigas.
Das muitas traquinagens, Elias parecia ter a men-
te mais perversa e tudo começou com o esconde-es-
conde. Uma das crianças ficava de olhos fechados,
normalmente em um canto de parede, enquanto os
outros integrantes da diversão se escondiam nos lo-
cais mais inusitados, quase que impossíveis de se-
rem encontrados.
Quando chegou a vez de Elias procurar as crian-
ças, um dos gêmeos havia se escondido em uma mala
de madeira. Era uma das heranças da vovó Hermínia.
Ao encontrá-lo naquele lugar claustrofóbico, Elias
não pensou duas vezes e subiu em cima da mala, in-
terrompendo a passagem de ar.
A brincadeira quase custou a vida de Daniel que,
depois de muito se debater, foi liberado do sufoco,
apavorado e sem ar.
Quando a mãe soube da brincadeira maldosa, co-
locou Elias de castigo que, por muito tempo, perma-
neceu reservado em seu misterioso mundo.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 29
Enquanto Elias abandonava o lado observador
de ilusões, era inegável a capacidade de interpreta-
ção do mundo exterior, porque possuía inteligência
acima da média.
30 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Morte ou Catalepsia?
O s fantasmas do passado foram desaparecendo
da vida de Elias. Com muita facilidade, foi apro-
vado no vestibular e viajou para a capital a fim de
frequentar o curso superior de Agronomia.
Ao se formar, de imediato, retornou para Serie-
mas e foi contratado por uma renomada cooperativa
agropecuária que se instalara na cidade.
Entretanto, Elias cresceu preso em um mundo
imaginário, embora pudesse conquistar tudo o que
sonhava e desejava.
Aos vinte e cinco anos, apaixonou-se por Hele-
na, uma bela e linda morena que parecia surgir dos
sonhos. Casaram-se e, logo em seguida, nasceram as
filhas Sofia e Priscila.
Alguns anos depois, quando as meninas já esta-
vam em idade escolar, algo intrigante aconteceu com
Helena. Ela saiu de casa com o propósito de fazer
compras. Ao anoitecer, foi encontrada perdida e va-
gando em uma rua distante.
32 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
O que mais intrigava era que, na manhã do dia se-
guinte, ela não lembrava mais do episódio e tudo se
caracterizava como estresse.
Antes de ir para a empresa, Elias fez questão de
lhe servir o café da manhã na cama. Jamais abriu mão
de oferecer um delicioso e misterioso chá de ervas
que, após a ingestão, apresentava um efeito colateral
a quem provasse daquela bebida quente.
Noutra ocasião, o marido serviu um poderoso chá
de ervas especiais, em sua forma mais concentrada.
– Amor, essa infusão é para que você se torne, a
cada dia, a mulher mais bela do mundo – comentava
Elias, no momento em que servia a bebida quente.
– Obrigada, meu bem! Sinto uma sensação de eu-
foria e prazer todos os dias – respondeu Helena, com
um sabor especial nos lábios.
Helena não perdeu tempo e, logo após o delicioso
café da manhã, foi levar as meninas para o colégio.
– Meninas, vocês estão atrasadas!
– Estamos quase prontas, mamãe! – gritou, lá do
quarto, Sofia, a filha mais velha.
– Vamos, entrem no carro.
Ao chegar em casa, inesperadamente, a mulher
paralisou os músculos, franziu a testa e dormiu um
sono profundo.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 33
– Coitada! Sequer houve tempo para pedir ajuda -
comentou Bernardo, o médico legista.
Em poucos instantes, sem que houvesse um estu-
do cadavérico mais detalhado, constatou que se tra-
tava de morte súbita e inesperada.
Na manhã do dia seguinte, choros e lamentações
marcaram de cinza o momento de despedidas, em plena
sexta-feira treze. Talvez pudesse ser mera coincidência.
– Calma, Elias, você vai superar tudo – conforta-
va, inconformada, dona Margarida, a mãe de Helena,
com palavras de encorajamento.
Enquanto isso, Elias permanecia mudo, com olhar
distante e fixado na linha do horizonte. Em segui-
da, a família se reuniu e decidiu que Sofia e Priscila
passariam a conviver com os avós paternos, pois as
condições emocionais de Elias eram degradantes.
Mais tarde, durante a madrugada fria, seu Moacir,
um dos coveiros mais antigos – também conhecido
entre os colegas como o papa-defuntos – fazia seu
trabalho sujo no cemitério Morada Feliz, da peque-
na Seriemas.
Os tijolos por ele assentados, durante o sepul-
tamento, foram colocados de forma que facilitasse
uma tarefa planejada e astuta.
O homem confabulava com os seus botões:
34 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
– Hoje eu vou me dar bem. Olha só, quanto luxo
foi esse funeral! Pra que tanta coisa?
Sem nenhuma dificuldade, removeu os tijolos da
alvenaria mal-acabada e chegou até o caixão, a fim de
realizar o saque de joias e objetos de pertences valio-
sos. Foi quando Helena despertou da mais profunda
escuridão, encerrando um ciclo cataléptico.
– Socorro, socorro! – gritava, desesperado, o co-
veiro gatuno.
O susto, ao se deparar com a suposta assombração
foi tão grande que o pobre homem morreu de verdade.
Em estado de choque e de pés descalços, Helena
vestia branco e exalava um perfume de flores. Contu-
do, correu e conseguiu chegar até sua casa e acionou
a campainha. Foi quando Elias abriu a porta.
Desesperada, a mulher entrou no recinto e desa-
bafou:
– Amor, consegui escapar do cativeiro!
Imaginava a mulher, achando que fora raptada.
O susto que Elias tomou fez surgir os fantasmas
do passado. Ficou imobilizado, com semblante de
perplexidade e em transe total.
Rapidamente a notícia se espalhou pela cidade. Re-
jeitada, Helena passou a conviver em um mundo de
desprezo, fechada e presa em sua própria sepultura.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 35
Por sua vez, Elias era a única pessoa com a qual
Helena poderia contar, mas ele foi internado como
louco em um manicômio distante de Seriemas.
Por muito tempo, os moradores passaram a ter
pavor da mulher que havia ressuscitado e fez surgir
mais uma lenda urbana, típica de cidade do interior.
Helena, a morta viva.
Até hoje, o caso continua sendo um mistério para
os moradores de Seriemas.
36 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
CAUSOS MEDONHOS
Cerca de Avelós
Q uando os amigos se reuniam na Rua dos Bem-
-te-vis, os causos medonhos vinham sempre à
tona. As histórias narradas eram de tirar o fôlego e
deixavam qualquer um com os nervos à flor da pele.
As rodas de conversas sempre se formavam próxi-
mas a uma cerca viva de avelós. Certo tipo de arbusto
que libera uma seiva leitosa e ardente para os olhos,
e isso acontece quando os finos e delicados galhos
são quebrados. Dizem que pode até cegar, mas serve
muito bem como ornamentação. O local ficava em
frente à casa do seu Amâncio e dona Lúcia, simpáti-
cos idosos que levavam a vida numa boa e da melhor
forma possível. Além da cerca viva que parecia ter
aspecto esquelético, o lugar era misterioso e rodeado
por grandes árvores de aroeiras e com muitos pom-
bos em suas casas de madeira.
Era a década de 1980, período em que estava em
alta o Mistérios do Além, um famoso programa do rá-
dio, predileto das madrugadas sombrias do Recife,
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 39
a Veneza Brasileira, uma bela cidade recortada por
pontes históricas e cercada por fantasmas.
Assim continua sendo descrita a tradição local,
porque existem muitos relatos de aparições envol-
vendo teatros, repartições públicas e, principalmen-
te, o cais do porto, onde fica o tradicional bairro do
Recife Antigo.
Durante uma das rodadas de histórias, em clima
noturno de descontração, foi percebida uma sombra
e uns mexidos na cerca. Os contos de assombrações
fluíam bem, ao ponto de qualquer coisa parecer algo
sobrenatural. Foi quando uma mão surgiu lá de dentro
dos arbustos, e uma das meninas reclamou de um for-
te soco nas costas. Com certeza, a brincadeira acabou
naquele instante. Quem ia querer ficar ali parado?
– Socorro, minhas costas! O que foi isso? – ques-
tionava, aos gritos, Isabel e pedia socorro.
– Não sei – respondeu Carlinhos.
– Corram, corram! – alertaram Luísa e Laura.
– Temos que sair daqui o mais rápido possível –
alarmava Cícera.
– Bartolomeu, Batista, Timóteo, tem assombração
por aqui e não temos mais tempo a perder! – implo-
rava, apavorado, Luiz para que se evadissem do local.
O mais calmo dos meninos era Bartolomeu, e
tudo era na base da paz. Não importava o que esti-
40 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
vesse acontecendo, sempre permanecia tranquilo e
sereno. Ninguém queria pagar para ver assombração.
Logo, todos correram para suas casas.
No dia seguinte, o comentário a respeito daquela
mão misteriosa foi o assunto do dia, porque tudo pa-
recia tão real. Ninguém quis se acusar, porque a roda
estava completa, e nenhum dos participantes parecia
ser suspeito.
Seria uma alma-penada? Pairava um enigma no ar.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 41
Comadre Fulorzinha
P oucos dias depois, a roda de contos começou
com um relato de Laura, uma das meninas que
vivenciou momentos sobrenaturais em uma cidade
do Agreste de Pernambuco.
Ao abrir a sessão, o silêncio tomou conta do lu-
gar, enquanto a Rua dos Bem-te-vis se tornou escura,
sombria e misteriosa.
O Sítio Esperança ficava na zona rural de uma
pequena cidade chamada Pitombeiras, rica em tradi-
ções, costumes e festejos religiosos.
Tudo aconteceu quando a família Lima partiu da
capital para visitar os parentes do interior. Era uma
visita surpresa, em um dia da semana com pouco
movimento na cidade.
Chegaram por volta das quatro horas da tarde e,
tão logo perderam a saída da rural, um antigo trans-
porte muito usado na época, mas que servia bem
para levar e trazer famílias e trabalhadores do campo
à cidade e vice-versa, dona Berenice – a mãe de Laura
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 43
– para relembrar os tempos de infância, decidiu ir a
pé até o Sítio Esperança. Seguiram na estrada, a mãe
e as filhas: Laura, de onze anos; e Roseli, com sete.
– É bem próximo, sempre caminhava bastante
por aqui e não tem nenhum problema. Basta seguir
as cercas das fazendas – comentou dona Berenice e
esboçou o desejo de seguir a caminhada. Continua-
ram o percurso com um ar de satisfação.
– Faz tempo que não ando por esta estrada de ter-
ra. Mas, tudo bem, não vamos ficar perdidos, princi-
palmente aqui, onde fui muito feliz na infância.
Laura, ao contar o seu relato, detalhava muito bem
cada momento vivido no interior. Destacou que Ro-
seli não se preocupava com nada, apenas seguia fir-
me na estrada, e tudo não passava de uma diversão
de criança.
De pés no chão, estrada afora, seguiram a marcha
do entardecer e anoitecer. O caminho até o sítio pare-
cia ter mudado, e todo percurso caiu no esquecimento.
É verdade, os atalhos e as trilhas da juventude
podem mudar. Enquanto isso, a família Lima estava
perdida em uma estrada que parecia levar a lugar
nenhum.
Como em qualquer parte do Brasil, a pequena Pi-
tombeiras também conta com suas tradições e lendas
que atravessam gerações.
44 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Quando se perderam, todas as histórias contadas
sobre personagens que viviam nas matas foram lem-
bradas. Principalmente porque o sol já estava indo
embora, e a noite parecia tenebrosa.
Naquele momento, a imagem da Comadre Fu-
lorzinha parecia dominar os pensamentos, e um
vulto misterioso, acompanhado de assobios, as-
sustava a família.
Em um instante, uma mulher com cabelos longos
passou rápido e desapareceu no meio do mato.
Essa mulher misteriosa faz parte de uma lenda do
folclore regional, que remonta uma bela cabocla de
cabelos longos, audaz e protetora dos animais – em-
bora pudesse fazer travessuras.
Quando um cavalo aparecia com o rabo entran-
çado, era sinal de que por ali ela passou. Quando al-
guém perdia o caminho de casa, era porque encanto
dela fora lançado em forma de assobio.
A partir daí, Comadre Fulorzinha desaparecia no
ar e espalhava o pavor para aquele que se aventurou
nas estradas e matas sombrias.
O vento frio do interior parecia contribuir para
aquele cenário misterioso.
– Não tem ninguém por perto. Como vamos fazer
para chegar até o sítio? – questionava dona Berenice,
ansiosa naquele momento tenso.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 45
Com o medo instalado nas mentes, outras assom-
brações surgiram. Por vezes, os mourões pareciam
gente. Quando fixavam os olhos na cerca, repentina-
mente o fantasma sumia do campo de visão.
Com as pernas trêmulas, a noite ia ganhando des-
taque, com um ar tenebroso e cheio de surpresas.
Laura ficou perplexa e não era para menos, era a
primeira aventura longe de casa, e pra valer.
A salvação chegou depois de muito tempo, quan-
do encontraram um dos tios que voltava da roça.
Avistaram-no e mal podiam acreditar que fosse uma
pessoa real.
Naquelas circunstâncias, acontecia um verdadeiro
milagre. Foram tantos abraços, e o alívio trouxe paz
e conforto para os corações da família Lima.
Finalmente, chegaram ao Sítio Esperança e, para
surpresa de todos, no outro dia, um grande casa-
mento estava para acontecer naquele lugarejo. Era o
casório de Aninha – a prima mais velha de Laura e
Roseli – com Rinaldo, um moço de boa aparência e
que entendia muito bem das lidas do campo.
– Que sorte, chegamos e já vai ter festa. Eu não
sabia, Maria Inês? – comentou e questionou dona
Berenice ao abraçar a irmã mais velha.
Exausta da longa caminhada, era o momento em
que aproveitava para entregar alguns mantimentos
para os familiares.
46 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Na cultura regional, quando alguém vai ao interior,
sempre leva algo para agradar os parentes e amigos.
Da mesma forma, quando retorna, traz muitas fru-
tas, macaxeira, inhame, cará e outras delícias da terra.
Em seguida e sem muita cerimônia, foram repou-
sar nas redes de dormir. Certamente, de tanto cansa-
ço, o balançar da rede não assustava tanto o quanto
se podia imaginar. Também, vários convidados per-
noitaram na casa.
No dia seguinte, ocorreu o casamento de Aninha e
Rinaldo. Todos comeram bastante e de tudo um pou-
co. O prato principal em destaque era galinha de ca-
bidela que fora preparada na manhã do dia anterior.
Como não existia energia elétrica e nem geladeira
na casa, tudo ficava no calor da temperatura am-
biente. Era necessário dar uma requentada no fogão
à lenha, antes que a panela de barro pudesse esfriar
por completo, enquanto o fogo não parava de quei-
mar o braseiro.
Na época, para Laura e Roseli, aquele foi um dos
dias mais felizes da vida, porque era único poder
correr, brincar com a molecada, subir em árvores,
andar a cavalo e comer frutas fresquinhas colhidas
no pomar.
Entretanto, o dia passou rápido demais, e a noite
foi terrível para todo mundo. A comida requentada
trouxe um sério problema coletivo, e o banheiro, ro-
deado por bananeiras, ficava do lado de fora da casa.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 47
Enquanto isso, o vento sibilava forte e assobiava
como se estivesse vindo do além. Era a Comadre Fu-
lorzinha com os seus feitiços para cada um que sen-
tava na latrina.
– O que fazer? Fazer o quê? – questionava Dona
Berenice o tempo todo, enquanto as crianças fica-
vam apavoradas.
Então um novo dia despontou com o frescor da
manhã e rodeado de mistérios, próprios de Pitom-
beiras, com a sua lenda da Comadre Fulorzinha.
48 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Branca Dias
A penumbra da noite pairava com um ar de misté-
rios, enquanto o momento sombrio combinava
com o luar. Era o momento propício para que Luísa
iniciasse mais uma história medonha.
No século XVI, na capitania hereditária de Per-
nambuco, viveu uma figura ilustre e de marcante
personalidade que, por sinal, era muito rica e res-
peitada por todos. Seu nome ecoou nos desertos
das almas e atravessou gerações. Era uma vez uma
sinhá de engenho...
No zoológico da cidade, Parque Estadual de Dois
Irmãos, muitas histórias medonhas podem ser con-
tadas a respeito dos fantasmas que vagueiam pela
escuridão. Contam que, na casa do Açude do Prata,
morava Branca Dias. A porção de água recebeu esse
nome devido a um provável acontecimento que re-
mete à época das perseguições aos judeus.
Dizem que Branca Dias era uma mulher judia e,
naquela ocasião fora procurada pelo Tribunal do
Santo Ofício. E, mesmo com tantas riquezas, foi
condenada à fogueira – em Portugal – por feitiçaria.
50 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Reza a lenda, para que não deixasse nada para
ninguém, atirou toda a valiosa prataria e seus do-
brões de ouro no Açude do Prata. O açude e a casa
ficam por detrás do monumento do Menino do Pi-
rulito. A estátua recebeu esse nome porque existiu
uma criança que todos os dias jogava pelada com os
meninos do bairro, no local onde está localizada a
Cidade das Crianças.
A tragédia aconteceu quando o menino, que ven-
dia pirulitos de açúcar caramelado, movido pelo fas-
cínio do jogo, entrou no recinto e foi devorado pela
fera. A diversão era perigosa, porque a molecada não
tinha limites. E, em algum momento, a bola foi parar
no recinto do leão.
Retornando à rodada das histórias, Luísa seguiu
com os relatos de aparições de Branca Dias. O clima
da Rua dos Bem-te-vis ficava ainda mais envolvente
e de arrepiar a qualquer um.
– Nossa! Não sabia que existe uma casa na bei-
ra do açude, e muito menos que fosse de uma mu-
lher que se transformou em alma-penada! – co-
mentou Timóteo.
– É verdade, só de pensar dá arrepios! - exclamava
Isabel, com a voz trêmula.
Como forma de inquietação, Batista lembrou que
Branca Dias aparece quando alguém inicia o ritual de
contos das suas desventuras do passado.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 51
– Então, dizem que a regra é não falar o nome da
tal mulher, pois quem estiver na mata ou próximo a
ela, a vegetação se fecha, e lá dentro tudo pode acon-
tecer – completava Luísa a explicação.
– Cruz-credo! Dá arrepios, só de imaginar. Há
quem diga que ela aparece apenas para salvar as ri-
quezas dela, abandonadas no fundo do açude – des-
tacou Carlinhos.
No período das festas juninas e nas noites de São
João, à beira de uma fogueira, colocava-se uma ba-
cia com água, ou observava-se sobre a película espe-
lhada d’água de um riacho. Com o reflexo, podiam-
-se fazer adivinhações, e até mesmo conseguir um
grande amor por meio dessa simpatia. Contam que
uma sinhazinha, em seu ritual mágico, ao olhar pro-
fundamente para dentro de um dos açudes daquelas
redondezas, desapareceu ao receber um chamado e
nunca mais foi encontrada.
Confirma a lenda: surge, nas proximidades do
Açude do Prata, uma mulher chamada Branca Dias
e outra de quem não se sabe ao certo o nome, mas,
com certeza, atormentam e tiram o sossego de muita
gente do bairro de Dois Irmãos.
52 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
A Mulher de Branco
E mpolgados, seguiram com os causos, pois, apesar
do medo, o momento era de entusiasmo. Dizem
que a dama da noite pregava uma peça nos rapazes
boêmios que saíam em busca de um amor. Bartolo-
meu foi o contador da lenda da Mulher de Branco.
O evento sobrenatural aconteceu com um rapaz
chamado Wiliam. Dizem que o moço vivia em um
mundo de sonhos, ilusões e desilusões amorosas.
Quando algo não dava certo, parecia que o mundo
ia desabar em sua cabeça, e nada agradava, até mes-
mo um simples sorriso.
Em um dia de chuva, daqueles em que os raios
riscavam o céu de Recife, Wiliam conheceu uma se-
nhorita. Meiga e apaixonante, seus olhos negros se-
duziram-no à primeira vista.
Enquanto esperava passar o temporal em um abri-
go coberto, aproximou-se uma bela morena vestida
de cetim branco esvoaçante.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 55
Encantado com a beleza, tudo em sua volta mu-
dou, a contar com a autoestima que andava por bai-
xo. Sozinhos, a noite prometia maravilhas e a escuri-
dão dava lugar ao romantismo.
A dança das horas favorecia os flertes e galanteios
de Wiliam.
– Qual o seu nome? – perguntou-lhe, com gestos
de ternura e admiração.
– Marina – respondeu, com voz doce e sensual.
Naturalmente, as palavras fluíam.
– Você é linda, Marina!
– Obrigada!
– Você, como se chama?
– Eu sou Wiliam e significa ser forte e protetor.
Marina seduzia e conduzia o momento especial.
A chuva deu lugar a um clima agradável e convida-
tivo, típico de uma noite de amor.
– O que faremos – perguntou Wiliam?
Sem muitos porquês, Marina segurou as mãos do
rapaz e roubou-lhe um beijo.
– Nada demais, meu príncipe.
56 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Felizes e contentes, seguiram rumo ao paraíso à
beira-mar, onde fica o cais do porto, no bairro do
Recife Antigo. Lá, ouvia-se o barulho das ondas que
quebravam nos arrecifes.
Da janela do quarto, o vento soprava as cortinas,
e a madrugada fez surgir uma incrível lua, possivel-
mente cheia de encantos.
– Antes de a chuva chegar, jamais poderia imagi-
nar estar com uma pessoa tão especial e apaixonante.
Você é demais, Wiliam! – Assim, Marina ia seduzindo
cada vez mais a ele.
O champanhe espumante jorrava nas taças, en-
quanto brindavam o inusitado encontro.
No dia seguinte, Wiliam sentiu um perfume de flo-
res que evolava no ar. Um clima sedutor, e ao mesmo
tempo sinistro, invadiu seu estado de espírito.
Foi quando, ainda atordoado, percebeu que estava
sobre uma das lápides do Cemitério de Santo Amaro.
Era um túmulo com uma inscrição e um pensamento
para a eternidade:
Fruto do sofrimento, és amor sem fim.
O nome e os números inscritos no mármore, des-
gastado pelo tempo, pareciam confusos, mas dava
para perceber que se tratava de uma jovem que fale-
ceu no ano de 1956.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 57
Insatisfeito, Wiliam partiu em busca de respostas
e chegou ao endereço que a moça lhe fornecera du-
rante o encontro.
Quando chegou ao local, encontrou uma senhora
senil – com os seus oitenta e cinco anos e fez alguns
questionamentos.
– Senhora, por gentileza, qual o seu nome?
– Mirtes, pois não?
Naquele momento, Wiliam relatou os fatos e pas-
sou toda a descrição do acontecimento. Descreveu
tudo e nos mínimos detalhes possíveis.
Inicialmente, aquela senhora não queria comentar
sobre o assunto e demonstrou estar angustiada. Com
trato, o homem conseguiu arrancar-lhe poucas infor-
mações. Mas, naquele instante, ela o convidou para
um chá da tarde.
Com afeto, dona Mirtes abriu o coração e apresen-
tou os álbuns de fotografias de família e muito sobre
as histórias da moça.
As páginas amareladas e envelhecidas pelo tem-
po resgataram momentos especiais. Em seguida, re-
velou muita coisa sobre a misteriosa mulher vestida
de branco.
– Meu filho, aqui, neste bairro antigo, próximo ao
cais do porto, morava, nesta casa, uma moça chama-
da Marina. Era a minha irmã preferida. Certo dia,
58 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
antes de a chuva chegar, seguiu à beira-mar e nunca
mais retornou para este lar.
Hoje, encontra-se em seu túmulo e permanece nas
lembranças e aparições de rapazes boêmios e daque-
les que estão infelizes e insatisfeitos no amor.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 59
Fantasmas na Escola
C hegara a hora e a vez dos fantasmas que vagavam
nas escolas. Na sequência, Cícera continuou com
os relatos.
Há quem não acredite, mas quando fechavam os
portões da Escola Marechal, ninguém queria ficar
por lá.
Contavam que, no local, existia um cemitério aban-
donado, ainda da época dos Senhores de Engenho.
Por esse motivo, dona Alba, uma antiga merendeira
do estabelecimento, recomendava que ninguém po-
dia se aventurar nos pátios quando estivessem vazios.
Uma das assombrações relatadas pela merendeira
se confirmou. Era plena madrugada, quando um dos
vigilantes da escola sentiu a presença de um menino
de aparência sombria em um dos corredores, próxi-
mo da sala dos professores.
Aproximou-se o vigilante e perguntou ao menino:
– o que queres aqui?
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 61
O garoto permaneceu mudo.
Depois de três indagações, como se fosse um vulto
no meio da noite, o menino desapareceu na escuridão.
Seguiu o guarda com passos largos, quase cor-
rendo, todo arrepiado e tremendo de medo, para
mais próximo de onde o garoto estava. Naquele
momento, o guarda foi empurrado e, ao cair no
chão, com o corpo estremecido do tombo, olhou e
não viu mais nada.
Enquanto o vento soprava nos ouvidos da ga-
rotada, a história seguia, e o silêncio permanecia
na Rua dos Bem-te-vis, como se não existisse mais
nada no mundo.
Tudo isso fazia o tempo passar rápido, pois era es-
timulante poder ter o prazer de estar com os amigos e
vivenciar cada momento da cultura de contar histórias.
– Cícera, morro de medo da mulher do algodão
e, por isso, não entro sozinha no banheiro da escola
– comentou Luísa.
– É verdade, também fico atento, quando entro no
banheiro dos meninos – completava Batista.
Outra figura intrigante e medonha – era a Mu-
lher do Algodão. Essa sim, somente em imaginar ser
abordado por aquela criatura sinistra já era o sufi-
ciente para que qualquer um borrasse as calças. Ela
surgia nos banheiros das escolas, a qualquer momen-
62 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
to, pálida e trajando um longo vestido branco com
véu. Essa figura misteriosa possuía tufos de algodão
no nariz, ouvidos e na boca. Não se sabia ao certo
qual a sua maldição, mas, quando aparecia, causava
pânico e correrias.
Talvez fosse estratégia da direção da escola para
que os alunos não matassem aulas e ficassem peram-
bulando nos momentos em que as salas de aula es-
tavam com atividades, e os corredores e banheiros
ficavam desertos.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 63
Mula-sem-cabeça
E nquanto a conversa seguia, chegou a vez da len-
da da Mula-sem-cabeça. Era de arrepiar imagi-
nar uma criatura dessas solta e disseminando terror
aos moradores dos campos e das cidades.
Muita gente acreditou ter visto essa assombração,
e os relatos eram de deixar qualquer um de queixo
caído. A roda de conversa permanecia unida, e che-
gou a vez de Batista começar a contar a história da
Mula-sem-cabeça.
Essa assombração pode surgir quando uma mu-
lher tiver um caso amoroso com um padre e, como
esconjuro, receberá a maldição.
Dizem que, com as ferraduras afiadas, a Mula-sem-
-cabeça pode emitir um barulho estridente. Também,
o relincho dela pode ser ouvido de muito longe.
Quem cruza o caminho dela logo a identifica, por-
que seu pescoço é incandescente, e dele partem laba-
redas de fogo.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 65
Por onde ela passa, para não sofrer com os ata-
ques fulminantes da fera, a pessoa deve se esconder,
porque sua ferradura poderosa pode desferir golpes
fatais que dilaceram o corpo da vítima que sangra até
à morte.
– Mas, quando é que a mulher se transforma na
Mula-sem-cabeça? – questionou Carlinhos.
– A maldição sempre acontece nas noites das
quintas para as sextas-feiras – respondeu Batista.
– Nossa! Já estamos na madrugada de sexta-feira
– destacou Barnabé.
– Mas, a maldição da Mula-sem-cabeça termi-
nará quando o galo cantar pela terceira vez – ex-
plicou Batista, com muita propriedade e conti-
nuou com a explicação:
– Também, para acabar com a maldição, alguém,
com muita coragem, deve enfrentá-la e retirar-lhe os
freios ou perfurar a mula com um objeto de ponta,
para que sangre, ao menos um pouco. O padre tam-
bém pode desfazer a maldição. Para isso, tem que ex-
comungar a mulher por sete vezes, antes de começar
a missa.
Ao finalizar, a garotada já estava com sono, e to-
dos queriam retornar para suas casas. Ainda assim,
em comum acordo, permaneceram juntos.
66 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Papa-figo
S obre o Papa-figo, a garotada não se preocupava
muito, porque não era tão ingênua, ao ponto de
ser enganada por uma criatura misteriosa que pega as
criancinhas para comer os fígados delas.
Na sequência, Luiz contou a história de uma cria-
tura estranha que andava maltrapilho e carregava
consigo um saco. Tratava-se de uma pessoa velha e
de barbas por fazer, que seduzia crianças com balas e
doces, para depois raptá-las.
Esse figurão é conhecido, na Veneza Brasileira,
com o nome de Papa-figo. Isso mesmo, além de levar
as crianças no saco, o velho barbudo arranca e come
o fígado do menino ou menina que cair na ilusão de
uma guloseima ou de um passeio para conhecer lu-
gares encantadores.
– Então, será que o Papa-figo levou o filho da dona
Dora, em frente do portão da escola? – questionou
um dos meninos.
– É verdade, pode ter sido o Papa-figo – respon-
deu Luiz.
68 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Ele promete muitas coisas para as crianças e, para
se disfarçar, nem sempre anda com o saco nas costas.
Gosta de ficar nas saídas das escolas, nos parquinhos
e praças.
Quando o Papa-figo surge do nada, quase sempre
uma criança some.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 69
A Perna Cabeluda
A
história mais fantástica foi contada por Timó-
teo e reservada para o final da noite, quando a
meninada já estava bem envolvida naquele cenário de
silêncio e medo.
Todos permaneciam o mais próximo possível uns
dos outros, por causa da imprevisibilidade da Per-
na Cabeluda poder surgir a qualquer momento e dar
rasteiras e pontapés em qualquer um que estivesse
em sua frente.
O ano de 1976 foi marcado pelo surgimento de
uma lenda urbana, e o medo passou a tomar conta
de toda a cidade. Era como se fosse real e, ao mesmo
tempo, uma assombração.
A fama da Perna Cabeluda se espalhou nas ma-
térias dos jornais e nos programas do rádio e TV.
Anunciavam que uma misteriosa perna cabeluda, ao
passar uma rasteira, agredia com chutes e muita vio-
lência. Os ataques eram tão fortes ao ponto de as
pessoas ficarem hospitalizadas.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 71
Um dos meninos do grupo questionou a existên-
cia de um ser tão horripilante que andava aos pulos
e agredia pessoas, porque se tratava apenas de uma
perna separada do corpo e nada mais.
– É possível que possa existir uma Perna Cabelu-
da? – perguntou Luísa.
– Claro que sim! – respondeu Timóteo.
E todos continuavam prestando atenção aos rela-
tos dos ataques da misteriosa Perna Cabeluda.
Enquanto os contos daquela noite eram encerra-
dos, e todos sabiam do retorno para as suas casas,
uma sensação estranha tomava conta da Rua dos
Bem-te-vis.
72 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
CLARINHA E JOÃO
Clarinha
M enina meiga e de olhos azuis, que brilhavam em
noites enluaradas. Filha de uma família modes-
ta, repousava em um antigo berço de madeira. Época
em que se podia ouvir o apito do trem, quando os
vagões traziam os mais ilustres passageiros vindos do
Agreste, no início dos anos de 1970.
A Vila dos Canarinhos não possuía energia elétri-
ca, porque o Distrito de Terra Nova ficava no meio
rural, em um ambiente repleto de belezas naturais,
ar puro do campo, muitas árvores, passarinhos e ou-
tros bichos livres que viviam em harmonia com a
natureza. O riacho era um dos locais mais belos da
região. Foi nesse clima convidativo a um romance
– digno dos mais apaixonados e sonhadores – que
nasceu Clarinha.
Nove anos mais tarde, era noite de reunião entre
amigos, e algo estranho estava por acontecer na casa
de Altino e Manoela, os pais de Clarinha – nada pare-
cia fora do compasso – mas seria apenas um indício
de que alguma coisa estava fugindo do normal.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 75
Marília, Emerson e João formavam uma família
feliz. Eram os mais novos moradores da Vila dos
Canarinhos e, tão logo chegaram ao distrito, já fo-
ram convidados para um encontro na casa dos pais
de Clarinha.
O casal era jovem, com seus vinte e poucos anos
de idade, e viviam felizes. João, com nove anos, era
bem-comportado e obediente. Marília era uma mu-
lher simpática e conversava bastante sobre uma pe-
quena mercearia que pretendiam montar, motivo que
levou a família a se mudar para Terra Nova.
Entusiasmada com a receptividade dos novos
amigos, elogiou bastante a calmaria do lugar e ficou
encantada com Clarinha.
– Sua filha é linda, Manoela!
– Emerson, veja o quanto ela é simpática.
– Princesinha, qual a sua idade?
Sem responder, a garota correu em direção ao
portão de madeira e sumiu no milharal.
– Nossa! O que aconteceu com ela? – questio-
nou Emerson sobre o comportamento inesperado
de Clarinha.
– Nada demais, ela sempre faz isso quando che-
gam visitas – explicou Altino.
76 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Os pais não se preocupavam muito com o com-
portamento da menina e mal cuidavam dos dois fi-
lhos, dos quais Clarinha era a mais nova.
Renato era o oposto de Clarinha – gostava de brin-
car com a criançada da vila, soltar pipas no ar, jogar
pião, bolinhas de gude e tomar banho no riacho – e
sempre ajudava o pai nas atividades da roça. Nada
demais para um menino de onze anos.
E continuaram com a conversa a respeito de Clarinha.
– Não se preocupem, ela já está grandinha e sabe
se virar muito bem – explicou Manoela.
– Quase que sussurrando no ouvido do esposo,
Marília comentou: – alguma coisa neste lugar me dá
arrepios.
– Não vejo nenhum problema com isso – respon-
deu Emerson.
As horas foram passando. Mais tarde, quando as
raposas tomavam conta do galinheiro, enquanto as
corujas repousavam nos mourões das cercas, o casal
se despediu.
Clarinha chegou no início da madrugada, sorratei-
ramente e, sem que ninguém percebesse, entrou e foi
dormir. A mocinha tinha uma rotina diferente. Sem-
pre brincava sozinha e montava cenários de horrores
com as bonecas e os brinquedos de Renato. Era um
requinte de maldade e crueldade que ganhava espaço
entre aparências de doçura e meiguice.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 77
Meses depois, no período dos festejos de São João,
os primos e primas da cidade chegaram para se deli-
ciarem das comidas feitas com milho e aproveitarem
do prazer de estarem na Vila dos Canarinhos.
Paulinho, o mais velho dos primos, gostava das
brincadeiras do período junino e sempre ficava bem
próximo da fogueira. Naquele tempo, era comum
permanecer em volta do fogo, e assava-se espigas
de milho, até o amanhecer. Afonso, o outro primo
de Clarinha, era mais reservado e não gostava de
muitas brincadeiras.
Noite de 23 para 24 de junho, três minutos para
meia-noite, e já era evidente o cansaço nos olhares
pesados dos adultos. Não fosse para menos, bastava
imaginar o empenho dispensado pelas famílias, im-
buídas na preparação das comidas tradicionais das
festas juninas.
Depois de algum tempo, em pleno momento de
distração, Clarinha e Afonso sumiram, sem que nin-
guém percebesse a sua falta.
– Deixa de ser molengas, vamos brincar lá fora,
tenho uma surpresinha pra você.
– Se eu for, mamãe vai brigar comigo – tentava
justificar o menino.
Mesmo assim, Afonso aceitou o convite, e como
sempre, Altino e Manoela não perceberam a saída
de Clarinha.
78 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Momentos depois, seu Calixto e dona Vanda – os
pais de Afonso – moveram um mutirão e partiram
em busca do menino. Ao amanhecer, procuraram nas
proximidades e margens do riacho, mas não o con-
seguiram encontrar. Enquanto isso, Clarinha dormia
tranquila em seu quarto repleto de brinquedos. Bem
quieta, a santinha parecia sonhar com anjos e fadas.
Sem êxito, as buscas se estenderam por mais
uma semana, enquanto a família, inconformada,
reunia forças para tocar a vida em frente. O sumiço
de Afonso poderia ter sido um simples afogamen-
to, causado por tagarelices às margens da lâmina
d’água do riacho, ou algo inexplicável aconteceu
naquele momento.
O choro e a comoção tomaram conta do povoado
por um bom tempo, e um enigma pairava no ar: o
que poderia ter acontecido com Afonso?
Um ano depois, pouco antes dos festejos juni-
nos, Emerson e Marília foram visitar Altino e Ma-
noela e trouxeram o primogênito João. Foi quando,
ao passar pelo velho portão de madeira, a mãe do
menino sentiu um arrepio, e um nervosismo tomou
conta do momento.
– Tudo bem, Marília? – perguntou Manoela.
– Sim, sim! Deve ser por causa do frio da noite.
Pensativa, não deixou o filho arredar os pés, e o
manteve bem próximo de si. Era noite de lua, e o
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 79
céu estava claro. Durante o bate-papo, todos estavam
bem distraídos e, sem que ninguém percebesse, mais
uma vez Clarinha seguiu em direção ao velho portão
de madeira e desapareceu. Dessa vez, para sempre.
No dia seguinte, com o fogaréu que tomou conta
de todo o milharal, apenas fragmentos de tecidos, um
crucifixo e um cobertor foram encontrados no local.
O mau presságio de Marília devia ter sido uma
predição das misteriosas aparições, que jamais dei-
xaram em paz os moradores da Vila dos Canarinhos.
80 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
João
O menino ficou perplexo e mal conseguia respirar.
Era momento difícil, e ninguém podia ajudá-lo.
Seguiu quieto e nunca mais pronunciou uma palavra.
Início dos anos de 1980, e, nas proximidades da
Vila dos Canarinhos, vários acontecimentos deixa-
ram os moradores com ar de pavor. Tudo começou
a ficar mais intenso, um ano após o sumiço de Cla-
rinha, quando ocorria uma grande festa junina, mo-
mento em que comemoravam as dez primaveras de
Violeta e Margarida, as gêmeas.
Enquanto a festança de aniversário das gêmeas e
dos festejos juninos aconteciam, a criançada se diver-
tia com o que tinha de melhor naquele tempo.
Foi instalada uma máquina de play time com o jogo
das abelhinhas, o space ivaders, onde os alienígenas fi-
cavam girando na tela. Na base do monitor, aparecia
um canhão controlado por um ou dois jogadores. O
objetivo era aniquilar os insetos espaciais e, quando
todos eram destruídos, passava-se de fase, e o jogo se
tornava ainda mais divertido.
82 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
As meninas da época gostavam de namorar os ra-
pazes mais velhos (em festas de São João, tudo ficava
ainda melhor). Normalmente, uma senhorita de treze
anos buscava o seu príncipe encantado, entre quinze
e dezesseis anos. E tudo propiciava viver um belo
romance de adolescência.
Em meio à alegria das gêmeas e dos convidados,
João, por um longo período, sumiu, e a falta dele foi
percebida pelos pais, somente no final da noite, quan-
do alguns convidados começaram a ir embora. Podia
ter sido um evento casual, mas também poderia estar
relacionado com o misterioso sumiço de Clarinha.
– Alguém viu meu filho João? – perguntava, deses-
perada, Marília a todos.
– Temos de encontrá-lo. – clamava, preocupado,
Emerson por ajuda.
Apavorados, saíram à procura do jovem rapaz. Por
volta das duas horas da madrugada, o menino foi en-
contrado no meio do milharal, em estado de transe
total. Ao seu lado, focado por uma lanterna, havia um
crucifixo e uma coberta. João simplesmente permane-
cia em profunda ausência de si mesmo. Após esse acon-
tecimento, o menino nunca mais voltou a ser o mesmo.
– Meu filho, eu amo você – disse Marília, correu
em direção ao menino e o abraçou forte.
– Vamos levá-lo pra casa – disse Emerson.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 83
– Ele deve estar muito mal – completou Marília.
Por dois meses, eventos da mesma natureza ocor-
reram com frequência. Certo dia, era manhã cedo de
domingo, João desapareceu, mas foi encontrado na
casa da árvore. Seguidamente, por mais três vezes,
acharam-no vagando na estrada de terra, próximo
da vila. Noutro momento, estava no cemitério, em
cima da sepultura do seu avô. Em suas mãos, mar-
garidas roubadas de túmulos antigos. As flores não
valiam muita coisa, porque eram de plástico envelhe-
cido pelo tempo.
Profissionais da área de saúde e do credo religioso
foram chamados para solucionar o estranho caso de
João, e ninguém conseguia desvendar o que rondava
a mente do garoto. Enquanto se especulavam várias
ocorrências misteriosas da região, a mais provável re-
caía sobre Clarinha, a menina desaparecida num in-
cêndio em um milharal.
Os moradores decidiram não reproduzir comen-
tários sobre o assunto. Talvez fosse à custa de sofre-
rem ameaças de algo inexplicável, porque havia mui-
tas crianças na vila. O distrito se desenvolveu, mas
carregou consigo um grande mistério. Todavia, do
pouco que restou da Vila dos Canarinhos, três casas
de taipa resistiram ao tempo.
Em noites de lua, surgia uma menina de olhos
azuis, vestida com capuz branco. Ora, eram episó-
dios de sumiços de crianças; ora, eventos que somen-
te Clarinha e João podiam explicar.
84 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 85
CHICO PANTANEIRO
Comitiva Pantaneira
N o momento em que o barco de madeira virou,
não tinha muito o que fazer. Era período de
fortes chuvas e tempestades no Pantanal. Por sor-
te do destino, o menino nadou desesperadamente e,
depois de muito esforço, foi encontrado por um pes-
cador. Estava enroscado no meio dos camalotes, às
margens do Rio Paraguai.
– O que aconteceu com você? – perguntou o
pescador.
– O barco afundou – respondeu, quase sem fôlego.
– Cadê seu pai e sua mãe?
Aos prantos, apenas disse que seus irmãos tam-
bém estavam no barco.
– Fique calmo, vamos encontrar sua família – ten-
tava confortar.
O barco era do seu Antonino, o pai do menino.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 89
A mãe, dona Alzira, era uma mulher de fibra e
cuidava muito bem dos filhos. O naufrágio aconte-
ceu em uma das viagens de início de mês, quando os
mantimentos da casa já estavam no final. Além de
vender os produtos da colheita, compravam provi-
sões para suprir as necessidades básicas.
O tempo passou e, dez anos depois, o menino
cresceu preso às lembranças do passado. Na comi-
tiva pantaneira e com as suas habilidades de pontei-
ro – aquele que segue à frente da marcha – com o
berrante em mãos, sabia como ninguém conduzir o
gado nas estradas e terras inundadas da região.
Nos pousos, sempre que podiam, os peões da
comitiva não perdiam tempo e se divertiam por
onde passavam.
Numa dessas paradas, já era início da madrugada
de domingo, quando o baile estava animado na Vila
do Sossego, próxima do acampamento – e sem por-
quês – um dos homens saiu da festa.
Por coincidência, era noite de lua cheia, e tudo
contribuía ainda mais para dar um ar de mistério ao
lugarejo.
No início da estrada de terra, que dava acesso ao
mangueiral, uma figura misteriosa se confundia com
as árvores retorcidas. Apenas podia-se observar uma
silhueta refletida sob a luz da lua. Não parecia ser
gente, tampouco animal. Era algo aterrador.
90 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Em seguida, dava para ouvir gritos de pânico. Pa-
recia ser de uma mulher que tentava escapar das gar-
ras de uma criatura que rondava o ambiente.
– Socorro... socorro! Ele vai me matar.
Aos poucos, a voz ia desaparecendo, até o silêncio
tomar conta daquele lugar.
Ao amanhecer, um dos homens da vila relatou que
foi abordado por um moço de aparência estranha e
estava acompanhado por uma mulher.
– Preciso fumar um palheiro. O senhor tem fósforos?
Quase cambaleando, devido à bebedeira, o rapaz
pediu que lhe acendesse o cigarro de palha.
O homem respondeu: – sim, tenho fósforos.
– O senhor está bem? – questionou o morador
da vila.
O peão pantaneiro, quase que caindo de tão bêba-
do, não respondeu e seguiu caminhando.
Depois desse episódio, algumas ocorrências dessa
natureza acompanharam a comitiva, mas nada podia
ser associado aos peões boiadeiros, porque, sempre
ao amanhecer, todos chegavam ao mangueiral e con-
tavam as suas aventuras como se tudo fosse normal.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 91
Das muitas marchas realizadas, a comitiva se des-
fez. Momento em que o desenvolvimento chegava e
prometia a construção de novas estradas. Era a vez
das gaiolas boiadeiras – caminhões de transporte do
gado pelas estradas pantaneiras.
Mesmo assim, muitas comitivas ainda resistiram
ao tempo e continuam com o ofício da tradição.
92 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Lobisomem
M uitas histórias contribuem com a ideia de que
existe lobisomem na Cidade Morena, onde tive
a oportunidade de conviver com os costumes e a ri-
queza de suas tradições.
Conta-se que o lobisomem andava solto na ci-
dade. Isso talvez fosse possível, uma vez que muita
gente ainda acredita ser uma lenda exclusiva do local
onde se vive. Assim, cada região possui o seu homem
transformado em lobo, com os comportamentos pe-
culiares de ataques a vítimas indefesas, em noites de
lua cheia.
Algumas pessoas contam relatos de casos de pa-
rentes que se transformavam em lobisomem. Muitas
das vezes, não se sabiam o motivo da transformação.
Normalmente, parecia acontecer com aqueles cuja
autoestima andava em baixa – e daqueles que eram
alcoólatras e viviam sujos e perambulando pelas ruas.
Ou traziam consigo uma maldição de família.
Era bem comum encontrar as portas de madeira
das casas arranhadas com unhas afiadas – diziam ser
94 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
lobisomem. Coisa sinistra que ninguém conseguia
explicar, porque não parecia ser arte de cão domés-
tico. Inexplicável também eram os sinais de ataques
aos galinheiros e dos sumiços das galinhas.
Contam os moradores mais antigos da cidade, que
no entorno da região dos Poderes, às margens do
Córrego Prosa, existiam chácaras (tudo no cenário
dos anos de 1970).
A vida se revezava entre o rural e o urbano, en-
quanto o desenvolvimento ainda não tinha alcançado
aquela região.
Naquele lugar, o fornecimento de energia era
mais precário e se passava muito tempo na escuri-
dão – um verdadeiro convite ao medo. E, quando
a escuridão chegava, ninguém queria se aventurar
em formar rodas de conversas para tomar tereré nos
pátios das casas.
Dentre tantas histórias que aterrorizavam os
moradores da Cidade Morena, a que chamou mais
atenção foi a de um moço forte e trabalhador, vin-
do de Corumbá.
O cidadão, de estatura alta, aparentava ter uma
média de vinte e cinco anos. Sempre vestia traje típi-
co de peão pantaneiro e costumava tocar seu berran-
te – talvez fosse para manter vivas suas tradições, de
quando fazia parte da comitiva pantaneira.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 95
Essa é a história de Chico Pantaneiro, um menino
que cresceu com a tristeza da perda de seus pais e dos
sete irmãos, em um trágico naufrágio no rio Paraguai.
Na chácara onde morava, levava uma vida rodeada
de mistérios. Pouco se sabia sobre ele. Apenas que
era o oitavo filho de uma família que teve as vidas
ceifadas no afundamento de um pequeno barco de
madeira, e que somente o menino Chico, de dez anos
de idade, sobreviveu.
Outono se aproximando, era noite, e fazia frio,
momento em que coincidia com a lua incrivelmente
cheia. Quando o ciclo da lua se completava e chegava
a tons de laranja, por causa do clima seco e do fogo
do Cerrado, Chico Pantaneiro sumia e somente apa-
recia quando amanhecia.
Ele chegava com as vestes sujas, rasgadas e fétidas.
E, sempre em noites de lua cheia, essas ocorrências
passaram a ficar cada vez mais frequentes.
Sobre o que acontecia, corria um boato que era
coisa do sobrenatural, e não passava pela cabeça de
alguém que Chico Pantaneiro fosse louco, pois desen-
volvia satisfatoriamente as atividades de peão e cuida-
va muito bem das lidas na chácara onde trabalhava.
Seu comportamento era um tanto estranho e cha-
mava a atenção de todos que o conheciam.
96 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Sempre, quando perguntavam alguma coisa, Chi-
co justificava:
Esse é o meu trabalho.
Cuido muito bem do gado, de dia e de noite.
Já era outono e, numa das saídas noturnas, muito
curiosa, dona Dolores – uma senhora de seus sessen-
ta e três anos, que cuidava dos afazeres da casa e da
alimentação dos peões da chácara – resolveu seguir
os passos de Chico Pantaneiro.
Naquela noite tão clara, Chico atravessou a por-
teira e seguiu em frente. Tudo parecia normal, até
o momento em que dona Dolores resolveu segui-lo.
Ela sabia que o homem tinha uma rotina de dar
arrepios e não compreendia o gosto exótico de sair na
escuridão em direção às trilhas, no meio da vegetação.
A mulher foi à procura do homem, que saíra para
cuidar do gado. Ela partiu para investigar e desvendar os
repentinos desaparecimentos de Chico Pantaneiro.
Nas profundezas do desconhecido, sumiram
noite adentro. Depois disso, por volta das cinco
e meia da matina, Chico apareceu aos farrapos e
completamente fora de si. Quando soube do desa-
parecimento de dona Dolores, despertou e passou
a se preocupar com a ocorrência, igualmente aos
outros trabalhadores.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 97
Um dos homens relatou ter ouvido ruídos por
detrás da edícula, mas não deu muita importância,
porque poderia ser movimento de algum bicho de
hábito noturno, muito comum na região.
Aos poucos, a tristeza se instalou no lugar, porque
dona Dolores era uma pessoa muito querida e esti-
mada por todos.
Após dois dias, a mulher foi encontrada com o
corpo dilacerado e com vários fios de pelos em suas
vestes, que sugeriram ser de lobo.
Seu Estevão, um homem calmo de bigode com-
prido, e dona Jaci, uma senhora tranquila – os pro-
prietários da chácara – ficaram abalados e se lamen-
taram bastante por tudo que tinha acontecido.
– O que será que aconteceu com dona Dolores?
– questionou seu Estevão.
– Eu acho que foi um lobisomem – afirmou
dona Jaci.
Ela já desconfiava que a fera andava solta nas re-
dondezas dos Poderes.
À época do episódio, a polícia partiu para a inves-
tigação e não conseguiu lograr êxito. Contudo, o caso
passou a ser um enigma a ser desvendado. E, por
muito tempo, o assunto sempre era lembrado.
98 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Chico Pantaneiro permaneceu por mais três me-
ses na chácara e, depois disso, partiu para uma cida-
dezinha do interior.
A casa da chácara ficou nas lembranças e senti-
mentos de muita gente e, até hoje, acreditam que a
fera anda solta na Cidade Morena.
Nas margens do córrego Prosa, a região dos bam-
buzais ainda guarda os segredos e mistérios de algo
inexplicável. Local onde foi encontrada uma mulher
com o corpo dilacerado por unhas e dentes.
Talvez fosse mais uma vítima de uma criatura
misteriosa que rondava a cidade nas noites de lua
cheia, ou talvez um mero causo de um certo conta-
dor de histórias.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 99
O MISTÉRIO DA LUZ
Cidade Natureza
U ma luz misteriosa surgiu no céu e causou per-
plexidade nos moradores da Cidade Natureza.
Até então, nada de estranho para uma pacata cidade
do interior do Brasil. Por lá, a felicidade sempre fez
morada nos corações. Prazer mesmo era poder viajar
de trem e apreciar a beleza das paisagens.
No início da década dos anos de 1980, próximo à
estação, morava seu Hermenegildo, um homem de
poucas conversas. Em suas atividades no campo, tra-
balhava pesado na lida com o gado. A esposa, dona
Esmeralda, era uma mulher de bom coração. Com ar
de serenidade, sempre conseguia amenizar qualquer
situação embaraçosa, por conta do temperamento
explosivo do marido.
Sempre nos finais de tarde, esperava o esposo,
quando lhe servia um café com leite fresco, chipas e
fatias de sopa paraguaia – certo tipo de bolo salgado
de milho verde, queijo e muita cebola.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 103
Feliciano, de onze anos, era o filho mais novo do
casal – gostava de brincar com os meninos da vizi-
nhança – enquanto Sofia, com treze, era apaixonada
por literatura brasileira e sonhava em ser escritora.
Ao contrário de Sofia, Feliciano gostava das brin-
cadeiras nas ruas do bairro. Muitas das vezes, sequer
lembrava da chegada do pai. Quando seu Hermene-
gildo não encontrava o menino em casa, não poupa-
va o palavreado.
– Esmeralda, onde está Feliciano? Eu já falei que
não quero esse menino na rua.
Com muita calma e sabedoria, respondia com ar
de preocupação, tentando amenizar a situação, pois
sabia que a ira do pai poderia ser totalmente descar-
regada no filho:
– Meu bem, o menino foi estudar na casa do primo
– explicava, a fim de poupar o garoto.
– Não acredito! A mesma conversa de sempre –
reclamava, bravo, seu Hermenegildo.
– Sofia, Sofia!
– Sim, meu pai – respondeu com temor.
– Vá buscar seu irmão, porque hoje eu não estou
para brincadeiras.
Seu Hermenegildo nunca brincava com ninguém e
arrancar-lhe um sorriso era desafiador. Num instan-
104 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
te, Sofia foi à procura de Feliciano. Depois de muito
tempo, encontrou-o na rua do chafariz, local preferi-
do da criançada.
– Feliciano, papai chegou e está furioso. Vamos
pra casa! – implorou Sofia.
– Depois eu vou – respondeu sem muito interesse
em largar a brincadeira.
– Então, tudo bem, depois não vai dizer que eu não
avisei – comentou, com ar de preocupação, Sofia.
Depois de algum tempo, Feliciano chegou em casa
com as roupas sujas de terra, e logo foi abordado pelo
pai. Porventura, o prazer da brincadeira era maior e
valia a pena qualquer coisa: nadar no rio; correr até
cansar; e atirar pedras nas mangueiras para apanhar
frutos maduros, era bom demais.
Mas, daquela vez, não teve como dona Esmeralda
intervir em favor do menino. A situação ficou tão
feia, que até hoje Feliciano amarga as péssimas lem-
branças do momento de fúria do pai.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 105
Luz Misteriosa
E ra primavera, e já passava da hora de Feliciano
chegar em casa. A noite era de um luar esplêndi-
do e, quando Feliciano retornava, ocorreu um fenô-
meno estranho que tomou o céu da Cidade Natureza.
O menino ficou desorientado. Era uma clarida-
de assustadora, para quem se aventurasse a fixar
os olhares para o alto. Acontecia algo inusitado
e tão misterioso quanto os mais intrigantes se-
gredos das estrelas. Ao chegar em casa, Feliciano
questionou a mãe:
– Aquela luz, lá no céu, a senhora viu o que era?
– Nada demais, meu filho. Era apenas a luz da lua
que despertou a sua curiosidade – respondeu dona
Esmeralda, sem ar de preocupação.
O filho insistia e não parava de falar:
– Mamãe, aquilo não era a luz da lua. Vi alguma
coisa estranha.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 107
– Está tudo bem, vá tomar um banho. Aproveite,
enquanto o pai está dormindo, porque hoje ele tra-
balhou bastante.
Após alguns anos, precisamente em 1988, Feli-
ciano, aquele garoto que gostava de brincar com a
criançada em volta do chafariz, ao completar dezoito
anos, foi servir à pátria querida e incorporou às filei-
ras do Exército.
Foi designado para um quartel de tradição da re-
gião, que integrou a Força Expedicionária Brasilei-
ra, com o envio de militares para a Segunda Guerra
Mundial. As tropas foram as primeiras a entrarem
em combate nos campos da Itália.
Em um dos momentos da formação de soldado
recruta, o batalhão realizava uma marcha de dezes-
seis quilômetros. Atravessar o campo não era uma
tarefa muito fácil. Mas, a grande jornada era com-
pensadora pela oportunidade de poder contemplar
as belezas naturais da serra.
A etapa diurna do exercício foi repleta de surpre-
sas. Todas elas eram programadas para o adestra-
mento dos novos soldados. Quando o cansaço batia
no lombo, era dada uma parada para o descanso à
beira do caminho, para recuperar energias e cumprir
as próximas etapas. Era momento para ouvir músicas
no velho walkman.
Logo após o descanso, a tropa partiu em linha reta
e seguiu adiante. O quinto quilômetro foi de muitas
108 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
surpresas e, quando menos esperavam, foram sur-
preendidos por estrondos de explosivos e granadas
de simulação. Parecia tudo real, mas servia muito
bem para o treinamento, enquanto o vento soprava,
assobiava e quebrava o silêncio.
Mais à frente, o primeiro a avistar a presença do
inimigo, soava um apito e outro bradava em voz alta:
Inimigo, inimigo!
Para eventos dessa natureza, o soldado Feliciano
era perito, porque se destacava pela destreza e espí-
rito militar de companheirismo, pois sempre estava
pronto para ajudar os outros, com maiores dificulda-
des nos treinamentos. Por sua bravura, foi o destaque
da marcha e de todos os treinamentos realizados.
No final da tarde, quando surgia no céu um avião,
o alerta era dado por quem avistasse primeiro a aero-
nave inimiga.
Ataque aéreo, doze horas!
As horas indicavam a direção do invasor. Era o
momento de abandonar a estrada e seguir no meio
do charco e da lama, para se abrigar e se proteger
do inimigo. A aeronave podia ser qualquer uma que
sobrevoasse o local. Naquela ocasião, não passava de
um pequeno avião agrícola.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 109
A situação era encarada como uma missão de
combate. Além do mais, proporcionava satisfação,
porque a experiência era única e rendia longas histó-
rias com a família e amigos.
Durante o treinamento, Feliciano encontrou um
dos amigos da infância. Era Paulo, e eles permanece-
ram firmes no combate.
Ao ver o amigo, questionou: – está tudo bem
com você?
– Sim, Feliciano, estou bem!
Apesar de cansados, percebia-se o entusiasmo por
estarem participando de um treinamento militar.
Ao cair da noite, já no quilômetro quinze, próxi-
mo à área de acampamento, a coluna de marcha foi
surpreendida por um forte clarão que tomou o céu.
Dessa vez, perceberam que não se tratava de um
treinamento para adestramento da tropa. Confusos,
os soldados não esboçaram nenhuma reação e fica-
ram quietos.
Enquanto a luz riscava o céu – subia, descia até
o primeiro terço da linha e, na horizontal, formava
uma cruz, ao completar o ciclo, apagava e recome-
çava a formação da imagem misteriosa. Contam que
era coisa de arrepiar qualquer um.
– Silva! – comandou o capitão Fabrício.
– Sim, Senhor! – respondeu o tenente.
110 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
– Reúna o pelotão e faça uma patrulha no local.
Feliciano se juntou aos outros soldados e forma-
ram uma patrulha. Foram na direção, por onde a luz
passou e desapareceu, para verificarem o que aconte-
ceu. Isso não foi uma tarefa fácil.
– Feliciano, Feliciano, tudo bem? – perguntou
Paulo em voz baixa.
– Tudo tranquilo, meu amigo! – respondeu.
– Vamos ficar próximos. Calma, não vai ser nada
demais – recomendou Feliciano.
O pelotão foi averiguar e se deparou com algo as-
sustador. A missão não teve o êxito desejado e retor-
naram sem respostas. E, uma coisa era certa, todos
estavam aterrorizados com a escuridão e as luzes em
forma de cruz.
Encontraram um cemitério abandonado e com
resquícios da tal luz. Era tudo o que conseguiam ex-
plicar para o capitão Fabrício. Em seguida, o acampa-
mento, que estava previsto, foi cancelado e, por mui-
tos anos, o percurso e os exercícios de treinamento
militar naquela região deixaram de acontecer, porque
o receio de se depararem com a incidência da luz
misteriosa era iminente.
Depois disso, várias ocorrências da luz passa-
ram a despertar a atenção de curiosos e especialis-
tas em assuntos relacionados a objetos voadores
não identificados.
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 111
No entanto, o que mais intrigava era o traçado que
a luz fazia no céu e, logo em seguida, desaparecia.
Há relatos de pessoas que ficaram loucas ao tentarem
desvendar o que acontecia por detrás dos morros,
por onde a luz se escondia, após a passagem. Contam
que, por onde ela caía, deixava rastros de ouro.
Em uma comunidade, não muito distante da Ci-
dade Natureza, um morador conseguiu acompanhar o
percurso da luz e, no final do trajeto, encontrou a tão
sonhada riqueza. Dizem que essa pessoa ficou rica,
mas em pouco tempo perdeu a sanidade mental.
Quanto à luz misteriosa, sempre ressurge na for-
ma de anjos luminosos, que riscam o céu da Cidade
Natureza, e depois desaparecem.
112 | GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA
Sobre o autor
Gleidson Melo nasceu no Recife, Pernambuco, Bra-
sil, em 1969. É biólogo e apaixonado pela arte de
escrever. Criou o site intitulado Enseada dos Pen-
samentos, dedicado a divulgar em suas seções de
leituras: contos, crônicas, pensamentos e poesias.
A página foi inspirada nas colaborações do escri-
tor no portal Pernambuco Nação Cultural, idea-
lizado pela Fundação do Patrimônio Histórico e
Artístico de Pernambuco e o Instituto InterCi-
dadania; e diversas publicações nos sites Recanto
das Letras e O [Link].
GLEIDSON MELO - CONTOS DE RODA | 113
Confira também Entre contos
(2020) de Gleidson Melo. Uma
obra inspirada na poética da vida.
[...] Que possamos sentir o prazer
da paz, abraçar o presente e brin-
dar os momentos de felicidade,
porque o conforto da alma acalma
e traz a tranquilidade necessária
para a mente. Nada poderá fugir
do controle.
[...] Com a mente em estágio elevado de tranquilida-
de e sadia, repleta de bons pensamentos e cultivada
com sabedoria, um passo de cada vez deverá marcar
a incansável marcha do tempo. Gestos simples po-
dem fazer a diferença, porque a vida é um grandioso
presente e todas as sementes do bem, lançadas nos
campos da nossa vivência, retornarão em forma de
gratidão e prosperidade. Uma boa semeadura consis-
te em amar ao próximo.
O conto Causos medonhos resgata os relatos de
causos
medonhos
um grupo de amigos que sempre se reunia para
contar histórias de fantasmas e lendas urbanas.
www
No topo do morro, existia uma casa velha e abandona-
da, quase no meio do nada. Parecia fazer um tempo conside-
rável que os proprietários desistiram daquela moradia [...]
www
O nome e os números inscritos no mármore, desgasta-
do pelo tempo, pareciam confusos, mas dava para perceber
que se tratava de uma jovem que faleceu no ano de 1956 [...]
www
O autor buscou resgatar histórias contadas em rodas de fa-
miliares e amigos que, certamente, estão presentes na cul-
tura popular brasileira e permanecem como legado cul-
tural que merece ser repassado para as futuras gerações.