Metodologia da História Local e Desafios
Metodologia da História Local e Desafios
PEDRO FERNANDES
pedro_fernandes_sp@[Link]
Resumo Abstract
Este artigo debruça-se sobre a natureza da História local, ponderando algumas das This article focuses on the nature of local History, pondering some of its methodo-
suas especificidades metodológicas e explorando as problemáticas associadas a este logical specificities and exploring the issues associated with this field, especially
campo, especialmente no que diz respeito ao acesso e análise de fontes. concerning the access to and analysis of sources.
História Local – Uma introdução à temática tado de consequências diretas no panorama da produção histórica na-
Na obra Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett aponta, no seu ha- cional.
bitual modo perspicaz, que “a História, lida ou contada nos próprios
Não será então polémico afirmar a História local como dotada de par-
sítios, em que se passou, tem outra força e outra graça” (1997, p. 137).
ticular relevância. Aliás, Torgal (1987, p. 864) salienta que a História
Embora a observação não se refira, especificamente, a algo passível
local e regional “tem de ser entendida como fundamental para a (re)
de constituir História local, o sentimento é certamente aplicável a tal
elaboração da História Geral e não pode mais ser concebida como um
contexto.
puro «provincianismo historiográfico» relegado para edições de se-
Torgal (1987, p. 857) refere que a História local e regional “é pratica- gunda ordem, para o canto das publicações de interesse menor”. Neto
mente tão velha quanto a historiografia portuguesa”. Na atualidade, a (2010, p. 47) acrescenta à posição tomada por Torgal, apontando a
História local define-se como viva, fértil e multifacetada, constituindo História local como “um ramo historiográfico plural que não se deixa
igualmente ponto de contacto e articulação entre disciplinas e investi- aprisionar em classificações rígidas, redutoras da sua riqueza e com-
gadores de naturezas e antecedentes diversos, exigindo flexibilidade plexidade”. Já Silva (1999, p. 388) conclui que a História local se de-
e criatividade nas abordagens empregues no contexto das suas inves- fine como de “malhas flexíveis”, “sectorial e limitada nas suas ambi-
tigações, de modo a ultrapassar desafios concretos que se levantam, ções”, partindo de hipóteses originais e focando objectivos concretos.
especialmente, no domínio das fontes. A elaboração de História local Para o autor, a vocação do historiador local é a de “carrear” e de “par-
na contemporaneidade requer abertura a um esforço colaborativo en- tir e afeiçoar as pedras que hão-de servir para a construção da grande
tre investigadores académicos, entusiastas amadores e agentes de co- história”, trabalho “humilde mas indispensável”.
operação da comunidade local (Nunes, 1996. p. 79), uma dinâmica
A noção de flexibilidade preconizada por Neto e Silva como inerente
singular no domínio historiográfico e cujo sucesso ou insucesso é do-
à História local encontra reflexo nas considerações de Barros (2009.
p. 3), o qual afirma que “[o]s objetos historiográficos (…) não se fa- de projectos de reconstituição do património local, organização de
zem presentes no interior dos campos históricos, mas entre eles, na ecomuseus e outros projectos associados às novas concepções de tu-
conexão entre eles”. Assim, o que se constitui – mesmo para o autor rismo cultural, mas detêm igualmente um papel essencial na divulga-
de uma determinada obra/investigação – como História local, não se ção do conhecimento histórico, conferindo densidade histórica aos lu-
exclui a definir-se igualmente como História política, económica, so- gares concretos, facto que “contribui para o estabelecimento de laços
cial, oral ou outras; o autor utiliza o interessante conceito de “histórias entre as populações e os lugares, gerando criação de afectos pelos es-
poli-adjetivadas” para ilustrar esta situação (2009, p. 5). paços da vivência quotidiana”.
seja, como esclarece Barros, a História é elaborada “a partir de um à consideração de História local como designação que assume signi-
momento que é o do Presente do historiador”. O autor alude às pon- ficados distintos no contexto das diferentes correntes historiográficas
derações de Certeau (1982, cit. em Barros 2009, p. 4), as quais afir- em diversas nações. Simplificando: embora partindo de inquietações
mam que todo o trabalho historiográfico está relacionado com um “lo- comuns e recorrendo a fontes de natureza semelhante, a História local
cal de produção”, caraterizando-se com marcas desse mesmo local, inglesa, por exemplo, não é a História local portuguesa, assim como a
regressando depois para estabelecer “novas interações com os leitores História local setubalense, não será a História local eborense ou por-
que se reapropriarão criativamente desta história”. Este ponto é igual- tuense; as realidades geográficas, culturais e socioeconómicas dos ter-
mente tocado por Silva (1999, p. 387), o qual lembra que a produção ritórios são demasiado distintas para se assistir, atualmente, a uma
da História local será revisitada, revista e reutilizada ciclicamente, verdadeira padronização da produção histórica, mesmo partindo de
pelo que exige acentuado rigor e honestidade intelectual na análise metodologias comuns.
das fontes. A noção de História local define-se inclusive como problemática logo
Mendes (2000, p. 351) refere que, “em vez de história seria mais apro- no campo da semântica, com uma utilização frequente, de modo in-
priado falar de histórias locais, devido à gama de hipóteses a contem- distinto, dos termos História local e História regional. Aliás, Mendes
plar”. Neste aspeto, o autor refere-se especificamente à natureza for- (2000, p. 352) refere mesmo o termo região como um “conceito-pro-
mal da produção, nomeadamente a tradicional monografia (ou estudo blema”. Barros (2009. p. 6) pondera a questão, afirmando que “[n]ão
de caso) ou projetos mais abrangentes e ambiciosos. Contudo, esta existem, para o historiador, regiões que se impõem a ele como espaços
designação pode, hipoteticamente, conceptualizar-se de modo um já dados de antemão. Isto porque a "região" ou a "localidade" dos his-
pouco mais lato; dificilmente será abusivo considerar “histórias lo- toriadores não é a localidade dos políticos (…), ou da geografia física,
cais” como um termo com capacidade de comportar não só as conclu- ou da rede de lugares administrativos”. O autor acrescenta que qual-
sões de Mendes, mas igualmente as de Barros, deixando ainda espaço quer "região" ou "localidade" é “necessariamente uma construção do
próprio historiador” e se esta coincidir com outra que já exista ao nível nos limites político-administrativos do distrito de Setúbal.
administrativo ou político, tal será apenas um resultado das circuns- Atendendo a inconsistências desta natureza e diversas outras que se
tâncias. Torna-se então necessário que “o pesquisador – ao delimitar podem ancorar numa multiplicidade de fatores históricos, sociais, cul-
o seu espaço de investigação e defini-lo como uma ‘região’ – escla- turais, torna-se aparente a validade dos pontos levantados por Barros
reça os critérios que o conduziram a esta delimitação”; a região é um (2009); a delimitação do espaço – local ou regional – definir-se-á en-
espaço homogéneo ou uma sobreposição de espaços? Que fatores ori- tão, de facto, como uma construção do investigador; necessariamente
entam o recorte da pesquisa? Se utilizado um critério político-admi- regrada, lógica e coerente, mas particular.
nistrativo, será um critério de que tempo: do historiador ou do período
histórico em análise? (Barros, 2009. p. 7). O recurso à oralidade
A valorização da oralidade e da memória no domínio da historiografia
A definição “conceito-problema” anteriormente referenciada (Men-
tem vindo a ser fomentada pelas mudanças que se verificaram nesse
des, 2000. p. 352) é, sem dúvida, adequada a esta questão. Considere-
campo e que emanaram, em grande parte, da historiografia francesa,
mos, a título de exemplo ilustrativo, um hipotético estudo relativo a
mais concretamente da História das mentalidades coletivas, a qual se
propriedades agrícolas na região de Setúbal. Como estabelecer e limi-
afirmou a partir da década de 60 do século XX (Hutton, 1993 parafra-
tar este conceito de “região”, preservando no espaço da temática abor-
seado em Ferreira, 2002. p. 320). Atualmente, como refere Lozano
dada um sentido de continuidade e consistência? As realidades geo-
(2006, p. 17), a História oral dispõe do seu próprio “arsenal acadé-
gráficas e laborais das propriedades enquadradas na cidade de Setúbal
mico” e encontra aceitação tanto em profissionais da História como
e arredores próximos, constituem-se como bastante distintas de pro-
em outras disciplinas das ciências sociais.
priedades situadas em Azeitão ou Almada. Por sua vez, as caraterísti-
A relevância para a História do relato na primeira pessoa é fácil de
cas de tais propriedades não encontram reflexo direto com as locali-
compreender; como menciona Samuel (1989, p. 230), documentos
zadas em Grândola ou Alcácer. Contudo, todos os espaços se situam
não podem ser “instigados a esclarecer, em maiores detalhes, o que
querem dizer, dar mais exemplos, levar em conta as exceções, ou ex- entrevistas poderão definir-se como formais ou meramente infor-
plicar discrepâncias aparentes na documentação que sobrevive”; já a mais/exploratórias (Colognese & Mélo, 1998. p. 144). Atendendo às
evidência oral é “somente limitada pelo número de sobreviventes, inúmeras combinações que advêm destas características, qualquer es-
pela ingenuidade das perguntas do historiador e pela sua paciência e tudo no campo da História local (ou outra) que necessite de apelar à
tato”. oralidade encontrará, no procedimento, uma formatação conveniente
aos objetivos que propõe alcançar.
O campo da História local é especialmente aberto aos benefícios da
recolha de testemunhos orais, até porque, frequentemente, temáticas A problemática inicial no recurso ao procedimento centra-se então na
mais recentes não encontram, nesse domínio, o suporte documental necessidade de definir quem e como entrevistar. Neste ponto, o inves-
com o qual podem contar investigações relativas a temas temporal- tigador depara-se com a obrigatoriedade de uma ponderação dos con-
mente (mais) distantes. Além do mais, existe ainda a questão das pró- ceitos de amostragem e representatividade no contexto de uma inves-
prias limitações de acesso a documentação com dados pessoais, as tigação científica qualitativa. Gil (2008, p. 90) distingue dois tipos de
quais se encontram estabelecidas no Decreto-Lei n.º 16/93, de 23 de amostragem: probabilística e não probabilística (Bauer & Aarts, 2003.
Janeiro. p. 39 adotam, para estes mesmos conceitos, as designações estatística
aleatória e representativa); no caso da pesquisa qualitativa, a amostra-
Assim, a realização de entrevistas define-se como uma proposta ten-
gem não probabilística destaca-se, naturalmente, como a mais apela-
tadora. O procedimento é, de facto, extremamente versátil, podendo
tiva e potencialmente frutífera. Thompson (1998, p. 167) aponta que
as entrevistas constituírem-se como não estruturadas, semi-estrutura-
será mais lógica uma seleção dos sujeitos que tenham mais a contar,
das, ou estruturadas, dependendo do grau de liberdade que o investi-
que estejam mais dispostos a partilhar as suas experiências e informa-
gador lhes deseje conferir. Existe a possibilidade da realização de en-
ções, do que embarcar num corte transversal aleatório de representan-
trevistas individuais ou de grupo e, em termos de nível de controlo, as
tes para um determinado grupo. Em linha de pensamento semelhante,
Brisola & Marcondes (2011, p. 128) afirmam que existe certamente No que diz respeito à validade dos dados recolhidos através de teste-
uma liberdade de ação muito particular no contexto dos testemunhos munhos orais, o investigador depara-se com a frequentemente deba-
orais em relação à escolha e número dos entrevistados. Como tal, o tida, embora menos problemática do que aparenta, questão das fontes
investigador terá, tendencialmente, uma preocupação mais acentuada orais versus fontes escritas. Ferreira (2002, p. 323) expressa que,
para com a representatividade do que para com a quantidade de teste- mesmo a natureza dos materiais em arquivo, incrementalmente regis-
munhos. tos sonoros (e refira-se, também em suporte vídeo, o qual não é só de
interesse acrescido mas que se define, igualmente, como relevante em
Esta observação conduz de imediato à questão introduzida por Gaskell
investigações com recurso a variantes específicas da análise de conte-
& Bauer (2003, p. 477), os quais se interrogam, nos casos de seleção
údo, tais como a análise da enunciação e do discurso), fomentou uma
dos informantes, “[c]omo podem ser estabelecidas as reivindicações
revisão dos papéis das fontes escritas e orais. Mas é possível confiar
de representatividade?”. Prender-se-á este ponto com o número de tes-
neste tipo de fonte? Serão as fontes escritas preferíveis? Pollak (1992,
temunhos recolhidos? Os autores apontam que, por um lado, com ape-
p. 207) declara não existir diferença fundamental entre a utilização da
nas alguns casos observados, “será difícil a alguém defender repre-
fonte escrita ou da fonte oral, pois a observação crítica deve, segundo
sentatividade”, ressalvando contudo que, “do mesmo modo, amostras
o autor, ser aplicada a todo o tipo de fontes. Thompson (1998, p. 176)
grandes não garantem representatividade: tudo depende da lógica do
encara a questão de modo semelhante, concluindo que os testes bási-
procedimento para selecionar os respondentes”. Gaskell & Bauer
cos no sentido de determinação da validade da informação apresen-
(2003. p. 485) sumarizam a problemática, afirmando que “[u]ma boa
tada são precisamente os mesmos: busca de consistência interna, cru-
distribuição de poucas entrevistas ou textos ao longo de um amplo
zamento com dados provenientes de outras fontes e confronto da evi-
espectro de estratos tem prioridade sobre o número absoluto de entre-
dência com um contexto mais amplo. Thompson sintetiza que todas
vistas ou textos no corpus”.
as fontes são “falíveis e sujeitas a viés”, acrescentando que “cada uma
delas possui força variável em situações diferentes”. Outros dos agentes referenciados por Nunes que se podem definir
como essenciais à procura e recolha de testemunhos são as associa-
Aliás, na atualidade, a hesitação relativa ao recurso a testemunhos
ções de defesa do património local e as coletividades culturais e des-
orais já não se prende tanto com esta questão, mas com a problemática
portivas. Estas entidades agrupam, frequentemente, entusiastas ama-
da (lenta e escassa) constituição de arquivos, ponto que Ferreira
dores da História local, gatekeepers informais (Seidman, 2006, p. 43)
(2002, p. 329) salienta como um alvo privilegiado dos críticos às fon-
de informação relevante e que – pelo seu enquadramento na comuni-
tes orais. A autora menciona o facto de os registos de entrevistas per-
dade – detêm igualmente contactos que não se encontram listados ou
manecerem, frequentemente, na posse dos investigadores, ou seja, não
agrupados em qualquer meio consultável. Nem todas as investigações
abertos a consulta por parte da comunidade científica, como uma das
de História local com necessidade de recurso a testemunhos orais po-
preocupações avançadas em relação aos trabalhos com apoio no do-
dem encontrar apoio em repositórios já (mesmo que, apenas parcial-
mínio da oralidade. Não será excessivo acrescentar à posição oportu-
mente) constituídos; existem contextos nos quais o primeiro obstáculo
namente expressa por Ferreira que, embora a História local seja parti-
com o qual os investigadores se deparam é onde encontrar e como
cularmente aberta a esta problemática, devido a muitas das investiga-
contactar os sujeitos ambicionados para o estudo.
ções conduzidas nesse campo se realizarem fora do imperativo acadé-
mico de disponibilizar as fontes constituídas pelo investigador, é con- Uma ponderação indispensável no campo da informação recolhida
tudo igualmente um domínio no qual a evidência oral tem sido parti- com recurso ao testemunho oral prender-se-á com a questão da me-
cularmente valorizada, com diversos dos denominados agentes de co- mória. Como aponta Pollak (1992, p. 203), “[a] memória é seletiva.
operação da comunidade local (Nunes, 1996. p. 79) (os museus en- Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado”. Aliás, Thompson
contrando-se na linha da frente deste tipo de iniciativa) cada vez mais (1998, p. 153) sublinha que o processo da memória depende não ape-
preocupados com a recolha, arquivo e disponibilização de testemu- nas da capacidade de compreensão do indivíduo, mas igualmente do
nhos orais.
seu interesse, ou seja, a fidedignidade depende (pelo menos, parcial- domínio dos quais não se define como suficiente ser versado, por
mente) do peso que um assunto tem para o sujeito. Nora (1993. p. 9) exemplo, nas particularidades da pesquisa bibliográfica e documental,
expande sobre estas considerações, apontando que “[a] memória é a sendo igualmente necessária uma disposição para um tipo de trabalho
vida, (…) está em permanente evolução, aberta à dialética da lem- de campo desafiante, imprevisível nas suas exigências e obstáculos, o
brança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessi- qual exige recurso a práticas mais tradicionalmente associadas ao jor-
vas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas nalismo que à investigação histórica.
latências e repentinas revitalizações”, acrescentando seguidamente
Pesquisa documental e recurso à imprensa (periódicos)
que “[a] história é a reconstrução sempre problemática e incompleta
Acerca do “imenso grupo dos documentos escritos”, Mattoso (1997,
do que não existe mais”.
p. 179) coloca a questão essencial: onde encontrar tal documentação?
Esta reconstrução “problemática e incompleta” não se alia apenas à O autor refere, naturalmente, os diversos conjuntos arquivísticos dis-
própria memória, mas depende igualmente, em considerável medida, poníveis (subentenda-se, documentação consultável a partir de arqui-
do investigador. Não deve ser esquecido que, como aponta Errante vos municipais, distritais, de Misericórdias, de paróquias, etc.), mas
(2000. p. 167), os historiadores orais escolhem os narradores, assim adverte igualmente acerca da dificuldade associada a buscas “num
como as histórias às quais os narradores darão voz. Aliás, como su- imenso matagal de coisas de toda a espécie”, as quais são recompen-
mariza Joutard (1996. p. 57), o entrevistador obtém melhores resulta- sadoras quando revelam a informação desejada, mas que exigem,
dos “quando leva em conta sua própria subjetividade”. acrescente-se, uma dedicação e persistência muito acentuadas. Silva
Sucesso no campo da História local, especialmente nos domínios da (1999, p. 387) apresenta linha de pensamento complementar, apon-
oralidade, alia-se a uma capacidade de adaptação face a desafios que tando que a pesquisa documental é um processo bastante lento. A in-
surgem além das fronteiras dos espaços nos quais o investigador aca- formação da qual o investigador necessita define-se, usualmente,
démico atua tradicionalmente. Existem modelos de investigação no
como desafiante de encontrar; além do mais, a documentação encon- existem. Mas ela pode fazer-se, ela deve fazer-se sem documentos es-
tra-se frequentemente em mau estado, a reprodução nem sempre critos, se os não houver”. Febvre coloca aliás a questão em termos
(acrescente-se até, raramente) é fácil e a caligrafia em documentos bastante coloridos, apontando que o historiador deverá usar tudo à sua
pode ser de difícil leitura e transcrição. Este último ponto é da maior disposição para “fabricar o seu mel, à falta das flores habituais”, no-
relevância para a investigação da História local na e sobre a contem- meadamente a própria paisagem (entenda-se, rural ou urbana) e edifi-
poraneidade, podendo constituir-se como a barreira mais desafiante cações, análises geográficas e químicas, etc. A esta lista, Mattoso
de transpor neste contexto, tanto para entusiastas amadores como para (1997, p. 178) acrescenta monumentos, vestígios arqueológicos, obras
investigadores eruditos. O facto de um investigador, independente- de arte (erudita ou popular), e objectos da civilização material de ou-
mente da sua formação de base, não deter aptidões específicas no do- trora, com Silva (1999, p. 392) a salientar ainda a fotografia, os postais
mínio da paleografia pode dificultar consideravelmente a leitura de ilustrados e os registos de vídeo e som.
documentos manuscritos, diminuindo ou mesmo parando por com- Naturalmente, nenhuma observação relativa ao tópico de fontes dis-
pleto o processamento de recolha da informação até poder ser garan- pensa algumas breves considerações relativas à imprensa (no contexto
tida a assistência de um especialista, a qual pode ser não só difícil de da História local, predominantemente imprensa escrita, periódicos). O
assegurar, como também dispendiosa ao ponto de tornar a investiga- recurso à imprensa constituir-se-á, frequentemente, como uma das
ção inviável. primeiras paragens no percurso de um investigador da História local.
Contudo, como sublinha Febvre (1989, p. 250) “[s]er historiador é (...) Zicman (1985, p. 90) aponta que existem vantagens essenciais na uti-
nunca se resignar. É tentar tudo, experimentar tudo para preencher as lização de periódicos como fonte documental da história, das quais é
lacunas da informação” e de facto, existem percursos disponíveis possível destacar a possibilidade de disposição espacial da informa-
além da pesquisa em documentação escrita. Como o autor conclui ção, ou seja, a inserção do facto histórico num contexto mais amplo e
(1989, p. 249), a história faz-se de documentos escritos “[q]uando eles
a caraterística da imprensa assumir o papel de “arquivos do quotidi- acrescentam que “os materiais da imprensa não existem para que os
ano”, permitindo estabelecer uma cronologia dos factos históricos. historiadores e cientistas sociais façam pesquisa” e que “[t]ransformar
Esta descrição é particularmente adaptada à imprensa local, mais con- um jornal ou revista em fonte histórica é uma operação de escolha e
cretamente, à oitocentista, a qual traça com um nível extraordinário seleção feita pelo historiador”.
de detalhe, não só acontecimentos como também figuras, debates po- As autoras concluem (2007, p. 260) que a imprensa se define como
líticos e ideológicos, procedimentos relativos a questões de proprie- “linguagem constitutiva do social, detém uma historicidade e peculi-
dades, procedimentos civis e religiosos, etc. Esta prevalência de uma aridades próprias, e requer ser trabalhada e compreendida como tal,
imprensa de minúcia e altamente opinativa tem tendência a desvane- desvendando (…) as relações imprensa /sociedade, e os movimentos
cer significativamente em meados do século XX, especialmente nas de constituição e instituição do social que esta relação propõe”. A ex-
cidades, pois maiores tiragens associadas a incrementos populacionais ploração destas vertentes perante o uso de periódicos na construção
deslocam o foco da imprensa, de detalhes para abordagens mais ge- da História local deve constituir-se como uma preocupação sempre
neralistas dos grandes temas da atualidade do meio. presente por parte do investigador.
Apesar de repleta de interesse, a opção de recurso à imprensa não é,
Reflexões finais
contudo, desprovida de problemáticas. Zicman (1985, p. 90) lembra
A História local destaca-se, cada vez mais, pelo seu dinamismo, rele-
que “a Imprensa age sempre no campo político-ideológico”, cada jor-
vância e flexibilidade. Contudo, os caminhos neste campo permane-
nal aplica o seu próprio “filtro”. Devido a tal, Cruz & Peixoto (2007,
cem, frequentemente, desafiantes de trilhar, atravessando problemáti-
p. 260) referem que, em relação a periódicos, o objetivo da leitura e
cas complexas que dificultam ou vedam, em casos extremos, a explo-
análise deverá ser, primeiramente, “indagar sobre a configuração de
ração de fontes e temáticas. Ponderar uma incursão por dimensões da
seu projeto editorial, desvendando sua historicidade e intencionali-
História local obriga ao delinear de abordagens metodológicas con-
dade. É imperativo, portanto, transformá-los em fonte”. As autoras
cretas e à disposição de embarcar num trabalho de investigação que
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