0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações20 páginas

Atrito Linguístico: Italiano e Português

O estudo investiga o fenômeno do atrito linguístico entre o italiano (L1) e o português (L2) em um falante bilíngue residente em Portugal. O objetivo é analisar a perda de proficiência da L1 devido ao contato prolongado com a L2 e identificar as condições e causas desse fenômeno. A pesquisa inclui uma análise de conversas espontâneas e discute aspectos teóricos e práticos do atrito linguístico.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações20 páginas

Atrito Linguístico: Italiano e Português

O estudo investiga o fenômeno do atrito linguístico entre o italiano (L1) e o português (L2) em um falante bilíngue residente em Portugal. O objetivo é analisar a perda de proficiência da L1 devido ao contato prolongado com a L2 e identificar as condições e causas desse fenômeno. A pesquisa inclui uma análise de conversas espontâneas e discute aspectos teóricos e práticos do atrito linguístico.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

F ACULDADE DE LETRAS

U N I V E R S ID A D E D O P O R T O

Alessandro Vaccaro

Mestrado em Linguística

ITALIANO (L1) E PORTUGUÊS (L2):


W
IE
SINAIS DE ATRITO LINGUÍSTICO
EV

2012
PR

Orientadora:
Professora Doutora Maria da Graça Lisboa Castro Pinto

Classificação: Ciclo de estudos:


Dissertação/relatório/Projeto/IPP:

Versão definitiva
1
PR

ii
EV
IE
W
Agradecimentos

Obrigado à Rita, parte fundamental da minha vida, por me ter convencido a não desistir
deste caminho.

Obrigado à minha família em Itália, porque tudo o que consegui foi graças a eles.

Obrigado à minha família em Portugal por me ter acolhido como um filho e um irmão.

Obrigado à Professora Maria da Graça, referimento constante neste meu percurso,

W
pela sua ajuda preciosa, grande disponibilidade e amizade.

Obrigado ao sujeito deste estudo sem o qual a realização do presente trabalho não seria
IE
possível.
EV

Obrigado aos amigos de sempre por me apoiarem não obstante a distância.

Obrigado aos novos amigos por me demonstrarem que há pessoas fantásticas pelo
PR

mundo.

iii
PR

iv
EV
IE
W
Testemunho do sujeito deste estudo na qualidade de falante bilingue

Ser italiano e falar português


É possível esquecer-se do próprio idioma? Aquilo que falamos desde criança?
Talvez pouco, mas sim…é possível.
O nosso cérebro, e a forma com que comunicamos, funciona de forma mesmo estranha…creio
que se deixe condicionar muito pelas emoções, pelos sentimentos…
No meu caso é como se a forte ligação que sinto por este País e por este Povo, condicione
também a minha forma de exprimir-me.
Claro, estamos a falar de 2 idiomas de origem latina que têm muitas similitudes, raízes
parecidas.
Mas resumir o fenómeno a simples “confusão”, mistura de palavras, seria muito redutivo.
De facto, o que acontece é que no meio de uma frase em italiano não consiga controlar e limitar
a minha expressão a um só idioma…

W
É como se o facto de dominar dois línguas enriqueça a minha capacidade de expressão,
alargando de alguma forma a possibilidade de exprimir conceitos e metendo ao serviço da
minha comunicação um maior leque de expressões e vocábulos.
IE
Porque é mesmo isto o que se passa. Existem conceitos que são exprimíveis de forma muito mais
eficaz com expressões portuguesas do que italianas, e o contrário.
É difícil dar exemplos compreensíveis para quem não domine os dois idiomas, mas vou tentar:
EV

A expressão portuguesa “fica sem efeito” não tem, a meu parecer, um equivalente tão sintético
italiano.
Assim como a expressão “vamos falando”, quando nós despedimos de um amigo...
Existem outras palavras que em português têm um significado muito “alargado”, enquanto em
PR

italiano o uso do termo equivalente se limita a um uso mais limitado. É o caso do advérbio “Já”
que na língua portuguesa tem uma pluralidade de significados. Para ser mais claro, e para que
também quem não fala italiano possa perceber, o “já” português traduz os advérbios ingleses
“already, yet, ever “ ([Link]/pten/já). É muito fácil, portanto, que falando
italiano a tendência seja a de alargar também o equivalente termo italiano “già” à variedade de
significados português, quando na verdade existem ouros advérbios para exprimir os demais
significados. O “già” italiano se deveria limitar quase unicamente ao “already” inglês.
Há também uma outra questão que pode condicionar a nossa comunicação…
Quando aprendemos um novo idioma acontece que no princípio nos esforçamos muito para
descrever conceitos, às vezes simples, mas dos quais não conhecemos o nome.
O que acontece? Usamos uma serie de palavras, uma paráfrase para descrever o conceito que
temos em mente. Logo, quando depois aprendemos o termo que resume esse conceito, esta nova
palavra se transforma numa verdadeira “conquista”.
Este novo termo passa a ser nosso. Quase como se fosse mais um elemento que nos aproxima às
pessoas locais. É só uma palavra, claro, só uma expressão. Mas agora é do nosso domínio.

v
A partir deste momento tentaremos usá-la sempre que possível porque agora é uma palavra
“importante”, que para além do seu significado, significa algo para nós…mais um passo a
frente numa nossa evolução pessoal, melhoria linguística.
Assim pode acontecer que falando italiano com parentes ou amigos, os novos termos
portugueses que aprendemos e que são tão presentes na nossa mente, “insistam em sair”.
De modo que, sem sequer que nos apercebamos, pronunciamos estes termos no meio da nossas
comunicação.
As pessoas olham de modo estranho para nós…e assim nós apercebemo-nos que mais uma vez
acabamos de misturar uma expressão portuguesa numa frase italiana.
Em tudo isto, joga também a preguiça do nosso cérebro que muitas vezes vai automaticamente
buscar palavras que reconhece como mais simples a pronunciar mesmo que estejamos a falar
um outro idioma. No meu caso, por exemplo, palavras como “bomba de gasolina” (distributore
di benzina, em italiano) ou “candeeiro” (lampadario) é como se tivessem uma faixa de
prioridade no meu cérebro…independentemente do idioma que esteja a falar. Mas acho que esta
questão é muito pessoal, muito mais subjetiva.

W
Em fim, numa conversa entre “italo-portugueses” como nós (italianos que vivem em Portugal),
por sua vez este tipo de comunicação que mistura as duas línguas flui incrivelmente bem, como
se realmente a copresença de dois idiomas na comunicação enriquecesse de facto a nossa
IE
maneira de falar e a capacidade de exprimir conceitos e ideias.
EV

Testemunho enviado por e-mail ao autor do presente estudo em 25/4/2012.


PR

vi
ÍNDICE

LISTA DAS TABELAS ...................................................................................................... ix


LISTA DAS FIGURAS ....................................................................................................... ix
RESUMO ............................................................................................................................ xi
ABSTRACT ....................................................................................................................... xii
RIASSUNTO ..................................................................................................................... xiii

INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 1
Objetivo ............................................................................................................................. 2
Hipótese de trabalho ........................................................................................................... 3

W
I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO ................................................................................. 5
1. O ATRITO LINGUÍSTICO ............................................................................................ 5
1.1 Atrito linguístico ou erosão linguística? ........................................................................ 5
IE
1.2 Abordagem histórica ..................................................................................................... 6
1.3 Bilinguismo .................................................................................................................. 7
EV

1.4 Definição e aspetos do atrito linguístico ...................................................................... 10


1.4.1 O emigrante e o ambiente de emigração ............................................................... 12
1.4.2 Input e Intake ....................................................................................................... 12
PR

1.4.3 High input generator (HIG) e Low Input Generator (LIG).................................... 14


1.4.4 Competence e Performance .................................................................................. 14
2. AS CAUSAS DO ATRITO LINGUÍSTICO ................................................................. 16
2.1 Causas linguísticas internas ........................................................................................ 16
2.2 Causas linguísticas externas ........................................................................................ 17
2.2.1 Cross-Linguistic Influence Hypothesis.................................................................. 17
2.2.2 O fenómeno do code-switching ............................................................................ 20
2.3 Causas extralinguísticas .............................................................................................. 21
2.3.1 Idade .................................................................................................................... 22
2.3.2 Contacto ............................................................................................................... 23
2.3.3 Literacia ............................................................................................................... 25
2.3.4 Duração da imigração e distância ......................................................................... 26
2.3.5 Atitude ................................................................................................................. 26
vii
3. NÍVEIS LINGUÍSTICOS .............................................................................................. 27
3.1 O domínio lexical ....................................................................................................... 28
3.1.1 O léxico mental .................................................................................................... 29
3.1.2 Memória Processual e Declarativa ........................................................................ 31
3.2 Cross-Linguistic Influence Hypothesis e o léxico mental............................................. 32

II – PARTE PRÁTICA: ESTUDO DE CASO .................................................................. 35


1. METODOLOGIA .......................................................................................................... 35
1.1 Amostra/Sujeito .......................................................................................................... 36
1.2 Material e procedimento ............................................................................................. 36
2. RESULTADOS E DISCUSSÃO .................................................................................... 37
2.1 Empréstimo ................................................................................................................ 38

W
2.2 Reestruturação ............................................................................................................ 41
2.3 Convergência .............................................................................................................. 45
2.4 Troca .......................................................................................................................... 47
IE
2.5 Code-switching ........................................................................................................... 49
3. BALANÇO GERAL DOS RESULTADOS................................................................... 54
EV

III - DISCUSSÃO GERAL ................................................................................................ 57


1. PRENÚNCIOS DE ATRITO ......................................................................................... 57
PR

2. CAUSAS INTERNAS OU EXTERNAS?...................................................................... 58


2.1 Influência das causas extralinguísticas ........................................................................ 62
2.2 Efeitos na competência e no desempenho ................................................................... 64
2.3 Observações relativas ao code-switching..................................................................... 66
3. O ATRITO NO DOMÍNIO LEXICAL ......................................................................... 66

CONCLUSÃO .................................................................................................................... 69
Considerações finais ......................................................................................................... 69
Limitações do estudo e sugestões de investigação futura................................................... 70

BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 71
DICIONÁRIOS CONSULTADOS.................................................................................... 83

viii
LISTA DAS TABELAS

Tabela 1 – Resumo dos exemplos verificados durante as gravações ..................................... 38


Tabela 2 – Exemplos de Empréstimo ................................................................................... 39
Tabela 3 – Exemplos de Reestruturação ............................................................................... 42
Tabela 4 – Exemplos de Convergência ................................................................................. 46
Tabela 5 – Exemplos de Troca ............................................................................................. 48
Tabela 6 – Exemplos de Code-switching .............................................................................. 50

LISTA DAS FIGURAS

Figura 1 – Balanço quantitativo ............................................................................................ 54

W
Figura 2 – Balanço qualitativo.............................................................................................. 55
IE
EV
PR

ix
PR

x
EV
IE
W
RESUMO
O atrito linguístico é um fenómeno intrageracional de perda não patológica de
uma língua em indivíduos bilingues (Köpke 2004: 3) e pode ser incluído nos estudos de
contacto linguístico. Trata-se de um fenómeno estudado segundo várias perspetivas
(psicolinguística, sociolinguística e neurolinguística) e é geralmente definido de acordo
com a língua que se perde e o ambiente em que tal perda se verifica (ver Van Els 1986).
O objetivo do presente trabalho consiste em investigar a ocorrência do atrito
linguístico entre duas línguas de origem românica, o italiano (L1) e o português (L2).
Para isso, escolheu-se como caso de estudo um emigrante adulto de primeira geração,
falante italiano, residente em Portugal e fluente em português. Pretende-se estudar a
perda da proficiência da L1 deste falante e comprovar a hipótese de que o atrito
linguístico é proporcionado pelo contacto prolongado com a língua falada no ambiente

W
L2.
Desta forma tentar-se-á verificar quais são as condições gerais que permitem a
ocorrência do atrito linguístico da L1, estabelecer as causas que proporcionam este
IE
fenómeno e identificar os domínios linguísticos que sofrem maior impacto.
Para responder a estas questões, foram gravadas conversas espontâneas com o
EV

falante em estudo e os exemplos recolhidos foram analisados utilizando a hipótese da


Cross-Linguistic Influence (CLI) proposta por Sharwood-Smith (1989: 185) e as
respetivas categorias fornecidas por Pavlenko (2004: 47).
PR

Neste trabalho é feita uma introdução ao tema, seguida por uma divisão em três
partes. Na primeira serão apresentados os aspetos teóricos do atrito linguístico,
juntamente com as possíveis causas que o propiciam e as teorias formuladas ao longo
dos anos. A segunda parte centra-se no estudo de caso, com a descrição da metodologia
adotada para o estudo e a apresentação dos exemplos obtidos que serão debatidos na
terceira parte. Por fim serão apresentadas as respetivas conclusões, bem como as
limitações do presente estudo e as sugestões de investigação futura.

Palavras-chave: atrito da L1, influência da L2, bilinguismo, Cross-Linguistic


Influence, léxico mental.

xi
ABSTRACT
Language attrition is an intragenerational phenomenon of non-pathological loss
of a language in bilingual individuals (Köpke 2004: 3) and can be included in studies of
language contact. This is a phenomenon studied by several perspectives
(psycholinguistics, sociolinguistics and neurolinguistics) and is usually defined
according to the language lost and the environment in which such loss occurs (see Van
Els 1986).
The aim of this work is to investigate the occurrence of language attrition
between two Romance languages, Italian (L1) and Portuguese (L2). Therefore, we have
chosen as case-study an adult immigrant first-generation Italian speaker, living in
Portugal and fluent in Portuguese. We intend to study the loss of proficiency of L1 of
this speaker and confirm the hypothesis if language attrition is caused by the extended

W
contact with the language spoken in the L2 environment.
Thus, we intend to verify which conditions allow the occurrence of L1 language
attrition, establish the causes of this phenomenon and identify the linguistic domains
IE
that suffer the greatest impact.
In order to answer to these questions, spontaneous conversations with the
EV

speaker of the present study were recorded and the collected examples were analyzed
using the Cross-Linguistic Influence (CLI) hypothesis proposed by Sharwood-Smith
and the respective categories provided by Pavlenko (2004: 47).
PR

The present work is composed by an introduction to the topic, followed by a


division into three parts. The theoretical aspects of language attrition will be presented
in the first part, along with the possible causes and the theories formulated over the
years. The second part focuses on the case-study, describing the methodology adopted
for the study and showing the examples obtained which will be discussed in the third
part. Finally, the respective conclusions will be presented as well as the limitations of
this study and suggestions for future research.

Keywords: attrition of L1, L2 influence, bilingualism, Cross-Linguistic


Influence, mental lexicon.

xii
RIASSUNTO
L'attrito linguistico è un fenomeno intragenerazionale di perdita non patologica
di una lingua riscontrato in soggetti bilingue (Köpke 2004: 3) e può essere annoverato
fra gli studi relativi al contatto linguistico. Si tratta di un fenomeno studiato da vari
punti di vista (psicolinguistico, sociolinguistico e neurolinguistico) e viene solitamente
definito in base alla lingua che si perde e all'ambiente in cui tale perdita si verifica (vedi
Van Els 1986).
L’obiettivo del presente lavoro consiste nel verificare la presenza dell’attrito
linguistico tra due lingue romanze, l’italiano (L1) e il portoghese (L2).
Per questo motivo è stato scelto come caso di studio un emigrante adulto di
prima generazione, di madrelingua italiana, che risiede in Portogallo e parla
correntemente portoghese. Si desidera dunque studiare la perdita della competenza

W
relativa alla L1 del soggetto protagonista di questo studio e cercare di dimostrare
l'ipotesi secondo la quale l’attrito linguistico sia determinato dal contatto prolungato con
la lingua parlata nell'ambiente L2.
IE
In questo modo si intende constatare quali sono le condizioni che permettono il
verificarsi dell’attrito linguistico della L1, stabilire le cause di questo fenomeno e
EV

identificare i domini linguistici che soffrono un impatto maggiore.


Per rispondere a tali quesiti, sono state registrate alcune conversazioni spontanee
con il soggetto in questione e gli esempi raccolti sono stati analizzati utilizzando
PR

l’ipotesi della Cross-Linguistic Influence (CLI) proposta da Sharwood-Smith (1989:


185) e le rispettive categorie fornite da Pavlenko (2004: 47).
Il presente lavoro prevede un’introduzione del tema, seguita da una divisione in
tre parti. La prima presenta gli aspetti teorici riguardanti l’attrito linguistico, insieme
alle possibili cause e alle teorie formulate nel corso degli anni. La seconda parte si
concentra sul caso di studio, con la descrizione della metodologia adottata e la
presentazione degli esempi ottenuti che saranno successivamente discussi nella terza
parte. Infine saranno presentate le rispettive conclusioni come pure i limiti di questo
studio e i suggerimenti per la ricerca futura.

Parole chiave: attrito della L1, influenza della L2, bilinguismo, Cross-Linguistic
Influence, lessico mentale.

xiii
PR

xiv
EV
IE
W
INTRODUÇÃO
O estudo do atrito linguístico atrai o interesse da comunidade científica há já três
décadas (Köpke e Schmid 2004: 1). Este tipo de investigação, surgida nos anos 80 do
século passado, relaciona-se com estudos inerentes ao bilinguismo e ao contacto
linguístico e, como afirma Capilla (2007: 1), pode ser incluída no campo da Linguística
Aplicada.
Neste trabalho vai ser aprofundado o caso do atrito linguístico da L1 que, de
acordo com Schmid e Köpke (2009: 210), é um fenómeno que ocorre nos falantes
bilingues, cujo sistema linguístico é afetado pela aquisição e pelo uso de uma segunda
língua, a L2.
Os conceitos de L1, L2 e bilinguismo, são explicados por Paradis que entende
por L1 “The native language, that is the first acquired in infancy” e por L2 “A second

W
language appropriated […] once a first language has been acquired” (Paradis 2004:
239). Na mesma perspetiva e de acordo com Hammarberg (2001: 22), as línguas
adquiridas após a primeira são denominadas segundas línguas e os indivíduos podem
IE
adquirir uma ou mais L2. Por fim, Paradis define o bilinguismo como “The ability to
use two languages” (Paradis 2004: 234) mas acrescenta também que existem muitos
EV

tipos de bilinguismo e de indivíduos bilingues. Este último conceito é retomado por


Hammarberg, o qual afirma que documentar com precisão o fenómeno do bilinguismo
não é tarefa fácil, pois “bilingualism is at least as frequent in the population of the world
PR

as pure monolingualism” (Hammarberg 2001: 21).


Segundo Schmid e Köpke (2009: 210), são vários os domínios linguísticos em
que o fenómeno do atrito se manifesta, como o fonológico, o lexical, o morfológico, e o
sintático. Desta forma, acrescentam as autoras, gera-se o empobrecimento da L1, com
consequente insegurança, hesitação e autocorreção durante o ato de fala.
Afirma Gürel (2004: 53) que o atrito linguístico da L1 é um fenómeno
multifacetado, sendo estudado sob vários pontos de vista, não só linguístico, mas
também psicolinguístico, sociolinguístico e neurolinguístico.
No entender de Schmid e Köpke (2009: 210), para que este fenómeno se
manifeste é fundamental que o indivíduo emigre para um ambiente linguístico diferente,
isto porque o atrito linguístico da L1 acontece em ambientes onde, segundo as autoras,
se verifica o contacto linguístico entre o falante de L1 e a L2 do país de acolhimento.

1
Para Schmid (2010: 1) este fenómeno é evidenciado pelos falantes que utilizam
frequentemente mais do que uma língua, tornando-se mais evidente nos bilingues em
que a L2 começa a ter um papel fundamental no seu dia-a-dia. Gürel (2002: 113) e
Köpke (2004: 17) explicam que estes emigrantes, devido à mudança de país, perdem
contacto com a própria L1 e sofrem a influência da L2.
Neste tipo de estudo é da máxima importância distinguir atrito e aquisição
incompleta. Para Schmid, quando falamos de atrito entendemos “the (total or partial)
forgetting of a language by a healthy speaker” (Schmid 2011: 3). Este fenómeno
linguístico, explica a autora, não deve ser confundido com o caso de falantes que
emigram para um novo ambiente linguístico quando ainda são muito novos. De acordo
com Gürel (2002: 114), estes sujeitos, neste caso crianças, ainda não possuem um
sistema linguístico estável. Nesta circunstância não é possível falar de perda da L1 mas

W
de aquisição incompleta, porque, como adianta, “The term 'loss' itself implies the
absence of something that previously existed” (Gürel 2002: 114).
Após esta introdução do tema, optou-se por subdividir o presente trabalho em
IE
três partes. Na primeira apresenta-se o enquadramento teórico, onde serão tratados os
principais aspetos do atrito linguístico, as possíveis causas que o propiciam e as
EV

relativas teorias elaboradas pelos estudiosos. A segunda parte foca-se no caso de estudo
com a descrição da metodologia adotada e dos resultados obtidos durante a realização
do trabalho, que serão depois discutidos na terceira parte. As respetivas conclusões são
PR

incluídas na última parte, bem como as limitações do estudo e algumas sugestões de


investigação futura.
Seguidamente apresenta-se o objetivo deste estudo assim como a hipótese de
trabalho que se lança, de forma a tentar responder às questões de pesquisa que serão
aqui deixadas.

Objetivo
Este trabalho tem como objetivo principal ver até que ponto o fenómeno
denominado atrito linguístico afetou a produção da L1 – neste caso o italiano – de um
falante adulto italiano com um domínio fluente do português e com residência
permanente em Portugal há cinco anos.

2
Hipótese de trabalho
O grau e tipo de atrito linguístico da L1 são motivados pelo contacto
prolongado, por parte do falante dessa L1, com a língua falada no ambiente L2, isto é, a
L2 referente ao país de acolhimento exerce uma influência sobre a L1, podendo vir a
afetar o sistema linguístico em casos extremos.
Pretende-se assim responder às seguintes questões:
o Quais são as condições para que o fenómeno do atrito linguístico da L1 se
manifeste?
o Quais são as causas que proporcionam este fenómeno?
o Qual é o domínio linguístico mais afetado?

W
IE
EV
PR

3
PR

4
EV
IE
W
I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. O ATRITO LINGUÍSTICO
1.1 Atrito linguístico ou erosão linguística?
Atrito linguístico e erosão linguística referem-se ao mesmo fenómeno linguístico
mas, de acordo com as línguas em que este é analisado, pode utilizar-se o termo “atrito”
ou “erosão”.
A maioria dos estudos conduzidos nesta matéria, e utilizados para a redação
deste trabalho, são em inglês e nesta língua o termo attrition é o mais utilizado para
descrever este tipo de fenómeno. No dicionário online Oxford, disponível em
[Link] o atrito é definido como “the process of reducing
something’s strength or effectiveness through sustained attack or pressure”. De acordo

W
com esta definição, o atrito linguístico seria provocado pelo ataque ou pela pressão que
uma língua exerceria sobre a outra.
Embora menos utilizado em língua inglesa (Ferrari 2010: 18), é possível
IE
encontrar o termo erosion (ver Köpke e Schmid e 2004: 224), que o dicionário online
Oxford define como “the gradual destruction or diminution of something”. De acordo
EV

com este significado, a erosão linguística seria provocada por um desgaste natural, que
pode ser originado, por exemplo, pela falta de uso da L1.
Estas duas definições podem ser respetivamente relacionadas com os fatores
PR

principais que, de acordo com Köpke (2004: 17), desencadeiam o fenómeno do atrito
linguístico: a influência da L2 e a falta de uso da L1.
No caso das línguas românicas é possível encontrar ambos os termos, com uma
prevalência do termo “erosão” nos trabalhos em português (ver Ferrari 2010, Flores
2008 e Capilla 2007), em francês (erosion) (ver Köpke 2000) e em espanhol (erosión)
(ver Bizzoni 2003). Em relação ao italiano o termo mais utilizado é attrito e, para além
da alternativa erosione, é possível encontrar trabalhos que se referem a este fenómeno
com o nome de attrizione (ver abstract Köpke 2000: 59), embora muito raramente.
Neste trabalho foi utilizado o termo “atrito” por duas razões. Em primeiro lugar,
trata-se do termo mais difundido nos documentos escritos em inglês, os quais foram
largamente utilizados para a escrita deste trabalho. Em segundo lugar, este termo foi
escolhido porque, como será demonstrado nos exemplos recolhidos no estudo de caso, a

5
causa principal do atrito da L1 pode ser atribuída ao efeito da L2 na L1 do falante em
questão.

1.2 Abordagem histórica


Os estudos sobre o atrito linguístico têm origem na conferência intitulada
Attrition of Language Skills (Ferrari 2010: 15), realizada na Universidade norte-
americana da Pennsylvania em 1982 e organizada por Richard Lambert.
De acordo com Ferrari (2010: 15), foi graças a este evento científico, ainda hoje
considerado um marco para estes estudos, que o interesse por este tema aumentou.
Como relatado por Flores (2008: 7) e Köpke (2004: 3), os estudos conduzidos
nesta área antes dos anos 80 do século passado, diziam respeito apenas à perda
patológica da língua, devida a acidentes vasculares, como a afasia, ou a tumores

W
cerebrais.
Flores (2008: 7) descreve que o objetivo desta conferência foi dissertar sobre as
possíveis causas do atrito linguístico de tipo não patológico e ampliar o campo de
IE
pesquisa desta matéria. A mesma autora explica que, a partir desta conferência, os
estudiosos interessaram-se pelo caso de falantes de duas (ou mais) línguas que, ao
EV

longo da vida e devido ao contacto com as línguas anteriormente aprendidas,


manifestaram fenómenos de perda linguística (Flores 2008: 7).
Como referem Köpke e Schmid (2004: 3), após a publicação por Lambert e
PR

Freed das atas da conferência de 1982, os investigadores começaram a interessar-se por


este tema e focaram-se na pesquisa metodológica, tendo como base os estudos relativos
ao contacto linguístico. De acordo com a mesma fonte, seguiram-se inúmeros estudos
piloto que estabeleceram uma ligação entre o atrito e o contexto linguístico onde este se
verificava, constatando-se desde o início que o fenómeno do atrito linguístico não
podia ser estudado de forma isolada, ou seja, sem se considerar o ambiente que o
envolve (ver Kopke e Schmid 2004: 4). Foi a partir desta nova visão que os
investigadores aumentaram o seu interesse pelas comunidades linguísticas de
emigrantes (ver Fase, Jaspaert e Kroon 1992) e pelas minorias linguísticas (ver Köpke
e Schmid 2004: 4).
Nos anos 90 do século XX, como descrevem Köpke e Schmid (2004: 5), este
assunto foi largamente divulgado e a década foi testemunha de estudos mais
abrangentes, de tipo sociolinguístico e psicolinguístico, que davam particular atenção
6

Reproduced with permission of copyright owner. Further reproduction prohibited without permission.

Você também pode gostar